Avô de Aécio Neves deu mostras de coragem e lealdade na madrugada mais dramática do governo Getúlio Vargas
Tancredo Neves com Getúlio Vargas, de quem foi ministro da Justiça - Foto: Reprodução
Tancredo Neves com Getúlio Vargas, de quem foi ministro da Justiça – Foto: Reprodução
Ministro da Justiça de Getúlio Vargas, Tancredo Neves defendeu que o governo resistisse a uma das mais sinistras conspirações da história recente do Brasil. Em uma reunião convocada pelo presidente no meio da noite, Tancredo bateu de frente com o ministro da Guerra, general Zenóbio da Costa, para quem uma ordem de resistência provocaria “muito sangue”.
Pressionado a renunciar pelas Forças Armadas, Getúlio havia perguntado a posição de cada um de seus ministros. Só Tancredo e Osvaldo Aranha, do Ministério da Fazenda, se alinharam com o presidente, que já havia anunciado sua disposição em não abandonar o governo. “Getúlio: Só morto sairei do Catete” tinha sido a manchete do jornal Última Hora.
Como a reunião se arrastava sem nenhum consenso, Getúlio encerrou o encontro pouco depois das 4 horas da madrugada. Antes de deixar a sala de reuniões do Palácio do Catete, no Rio, o presidente deu de presente a Tancredo a caneta Parker de ouro que costumava usar para assinar leis e decretos: “Guarde como lembrança desses dias difíceis”.
Em seguida, o presidente se recolheu ao quarto austero que ocupava, no terceiro andar do palácio. O tiro ecoou às 8h30 pelo Catete, na terça-feira 24 de agosto de 1954. Getúlio tinha feito um disparo certeiro no coração, com um revólver Colt de calibre 32. Sua morte trágica adiou por dez anos o golpe que estava sendo preparado pela direita cívico-militar.
O jornal repete a manchete da véspera - Foto: Reprodução
O jornal repete a manchete da véspera – Foto: Reprodução
No enterro, na cidade gaúcha de São Borja, um abatido Tancredo ainda denunciou que a morte de Getúlio havia separado o Brasil em dois grupos. De um lado, os “vendidos ao capital colonizador”. De outro, os que desejavam o País dominado por brasileiros.
Dez anos depois, quando o senador Auro de Moura Andrade abriu o caminho para o golpe de 1964, o então deputado Tancredo, contrariando sua natureza tranquila, saiu aos gritos de “Canalha, canalha, canalha”, repetidos pelo senador Roberto Requião (PMDB-PR) na sessão do Senado que selou o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
Como todo mundo sabe, Aécio Neves, o neto de Tancredo, herdeiro da caneta Parker de Getúlio, se encontrava no campo oposto.

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  • Luiza Villaméa
    Repórter Especial da Brasileiros, é jornalista e mestre em História pela USP. Ganhou um prêmio Esso por uma série de reportagens sobre o impacto da ditadura na vida de crianças e adolescentes