GONZUM de 28/02/2011 (Leitura para a semana)

 
----- Original Message -----
Sent: Monday, February 28, 2011

Gonzum

 

Posted: 27 Feb 2011 11:01 PM PST
(Jonathan Meese, artista contemporâneo alemão)


Achei interessante esse artigo de Janio, uma análise perspicaz sobre os dilemas da oposição, além de detectar a estratégia de Dilma para lidar com seus adversários. Se a oposição não tem argumentos com os quais combater um governo com bons números para mostrar, restou-lhe uma oposição histérica, subjetiva e perfunctória. A partir do momento, todavia, que Dilma procura estabelecer um diálogo amistoso com setores da oposição, esta terá dificuldade para prosseguir sua estratégia de ataques ad persona. Janio se arrisca e menciona o "oposicionismo em meios de comunicação martela no alarmismo, com os dados insatisfatórios, e produz sempre um "mas" para juntar aos dados positivos."


Um desejo de Dilma

Janio de Freitas

Relações positivas entre a presidente e a oposição poderiam resultar em uma reordenação até imprevisível

AS DIFERENÇAS de métodos e de modos entre Dilma Rousseff e Lula ganham um componente novo, e impressentido pelas inúmeras comparações feitas dos dois. Decorre de particularidade pessoal da presidente, mas, não menos, de uma condição especial que distingue politicamente sua Presidência de todas as anteriores, não só de Lula.

O desejo de Dilma Rousseff de reuniões desarmadas com oposicionistas, bem simbolizado na cordialidade do encontro e do seu convite a Fernando Henrique Cardoso, contrasta com a rigidez atribuída, naquelas comparações, a seu temperamento e a sua atitude política na Presidência. Até aí, uma novidade interessante. A partir dela, porém, projeta-se um elemento indigesto a mais no embaraço em que a oposição está desde que o governo Lula começou a construir fisionomia própria, não mais apenas de constrangida prorrogação do antecessor.

A satisfação com a política econômica, nas classes média e alta, e a recepção das medidas populares deixaram a oposição, no governo Lula, sem matéria substancial para fazer o seu papel.
Ir além do governo, com propostas mais avançadas, era inconcebível pelo conservadorismo que impregnava, e impregna, a oposição. Restou o oposicionismo superficial, aos modos pessoais de Lula, às práticas permanentes de populismo, e a uma ou outra posição na política externa -as relações com Chávez, com a complicada Bolívia de Evo Morales, com o Equador, mais tarde com o Irã, nada que desse forças à oposição.

O embaraço oposicionista se repete. O oposicionismo em meios de comunicação martela no alarmismo, com os dados insatisfatórios, e produz sempre um "mas" para juntar aos dados positivos. Entre deputados e senadores, até agora a oposição limitou-se à cômoda hipocrisia de defender um salário mínimo que sabia não ser aprovável e contrário a tudo o que sempre disse e fez, quando governo. Os ataques pesados emitidos por José Serra caíram no vácuo, nem os parlamentares do seu partido o embalaram.

Nesse embaraço revestido de falta de criatividade, a tendência de uma relação cordial entre a presidente e lideranças oposicionistas é estender-se, forçosamente, dos modos pessoais aos modos políticos. O que funcionará, em silêncio, como uma restrição aos ataques exaltados que, incidentes embora em aspectos superficiais ou de expressão limitada, constituem o oposicionismo.
O embaraço do embaraço.

Fernando Henrique e Lula gostariam muito de ter conseguido algum grau de convívio amistoso, pessoal e político, com lideranças das respectivas oposições. Não esconderam esse desejo, nem conseguiram dar um passo na direção dele. Dilma Rousseff desfruta de uma condição que faltou aos dois, como é próprio das Presidências.

Sua origem e seu percurso para chegar ao Planalto não se fizeram na vida política, nas disputas partidárias, nos embates parlamentares, nas lutas entre oposição e governo. Dilma Rousseff não traz, nem deixou nas eminências partidárias, ressentimentos e idiossincrasias que podem ser disfarçados, mas não são inativos. Conduzem, mesmo, grande parte da política. Não, até agora, em relação a Dilma Rousseff.

Em efeito extremo e, sobretudo, improvável, relações positivas entre a presidente e lideranças oposicionistas poderiam resultar em ambiente e reordenação política, ou partidária, de importância até imprevisível. Mas levar as coisas a tal ponto conflita com as ambições pessoais, que se juntam sob a máscara de objetivo ou interesse partidário. Se, no entanto, do propósito manifestado por Dilma Rousseff surgir algo novo, já será avanço. Qual e quanto, importa menos.
Posted: 27 Feb 2011 10:42 PM PST

(Judith, segurando a cabeça de Holofernes, em pintura de Lucas Cranach, o Jovem).

A articulação de Kassab para sair do DEM e ingressar no PSB, através de uma longa e tortuosa artimanha jurídico-partidária, me lembrou esses casais que preparam o casamento com um antecedência de mais de ano, o que sempre me pareceu prova de invejável determinação e autoconfiança. Quanta coisa pode acontecer num ano! A metáfora, no entanto, não é muito boa porque não dá conta do aspecto burlesco do caso. Analistas políticos já começaram a troçar, e com toda razão.

Não temos, porém, apenas um caso burlesco. Há um componente maquiavélico também. E tão óbvio que já foi parar na lavanderia da Barão de Limeira. Renata Lo Prete, colunista da Folha, deu nota hoje em que nega a existência de fantasmas, mas adverte que há ruídos estranhos na casa.

Não procede a ideia, propagada pelos petistas mais desconfiados, de que toda a movimentação de Gilberto Kassab (DEM) se dá em sintonia oculta com José Serra (PSDB). Mas também não é verdade que os possíveis destinos partidários do prefeito de São Paulo sejam todos igualmente mal vistos por aquele que o projetou na política. A ida para o PMDB, agora praticamente descartada, seria puro prejuízo para Serra, dado que a sigla não só está com Dilma Rousseff como ficará com o PT em 2014. Já a migração para o PSB, com ou sem passagem por uma nova legenda "de transição", poderia render dividendos no longo prazo.

Quem sabe? Os serristas estão convencidos de que Eduardo Campos, dono do PSB, não conseguirá realizar o sonho de desalojar o PMDB e ser vice na chapa de Dilma ou de Lula em 2014. Isso posto, poderia ser atraído para um projeto alternativo -ainda que o tucano mais próximo do governador de Pernambuco seja Aécio Neves.

Outra grã-fina da imprensa paulista, a Eliane Cantanhede, vai na mesma linha:

(...) é cedo para o governo federal e o PT comemorarem. Ok, o apoio a Dilma vai aumentar, mas o PSB, que já tem Eduardo Campos e Ciro Gomes e colecionou vitórias nas eleições de 2010, vai encorpar e disputar forças com o PMDB. Os dois podem "ensanduichar" o PT. O PMDB já é o maior partido, o PSB infla, e o PT está cheio de si e de cargos, mas não é porto seguro para os "neogovernistas" loucos para virar dilmistas desde criancinhas. Como ficam os "aliados" agora e na eleição de 2014?

A tese das jornalistas encaixa-se perfeitamente no que já vem dizendo há tempos Wanderley Guilherme dos Santos: o inimigo agora é outro. E falo em inimigo apenas para fazer uma paródia com o lema do filme Tropa de Elite II. Se no primeiro filme, combatiam-se traficantes, no segundo, a guerra se dá contra a própria polícia. Uma guerra doméstica, portanto.

É uma questão lógica. O discurso de que não há oposição no Brasil não procede. Ela pode estar quieta, como os fantasmas, mas "que los hay, los hay", e não necessariamente virá dos partidos conservadores tradicionais.

O problema, afinal, não é o PSB querer disputar a presidência em 2014, e sim quais serão seus aliados nessa empreitada. A recepção calorosa que a direção socialista organiza para o prefeito paulista e a participação do PSB nos governos tucanos de São Paulo e Minas Gerais mostra que o partido se tornou uma espécie de coringa no baralho político nacional. Ele pode ir para qualquer lado, mas tem procurado, principalmente, atrair nomes de peso do conservadorismo nacional: latifundiários, presidentes da Fiesp, ex-caciques do DEM... O que me leva a pensar que o PSB poderá, de fato, vir a se tornar a ponta-de-lança que irá ferir as costas da esquerda brasileira e abrir caminho para alguns temerários gengis khan (que bem conhecemos...) voltarem ao comando das legiões.

Uma terceira mulher, Luiza Erundina, que presumo tenha alguma experiência política, também percebeu do que se trata:

"O PSB não pode ser barriga de aluguel. Kassab é o plano de Serra para derrotar Alckmin. É um pedaço do PSDB tentando derrubar outro pedaço do PSDB."

Mas eu acrescentaria uma observação: o plano pode ser de Serra, mas é para emplacar Aécio em 2014. Serra, já resignado com falta de condições políticas para se candidatar novamente ao cargo máximo, opera nos bastidores para se tornar o lider que levará o mineiro ao Planalto, ganhando terreno para ser, desde agora, presidente do partido e, após a vitória em 2014, talvez ministro da Fazenda...
Posted: 27 Feb 2011 03:03 PM PST

(O povo árabe derruba seus ditadores)

Retorno à labuta blogueira! Assuntos não faltam. A palavra revolução voltou a figurar em manchetes e a Dona História, esta velha senhora de humor irascível e supreendente, provou mais uma vez que não morre tão fácil!

A luta pela liberdade no mundo árabe emociona os analistas mais cínicos e produziu uma rara e histórica convergência entre ideologias distintas. Conservadores e progressistas se uniram, finalmente, em torno dos mesmos valores democráticos.


Naturalmente cada um procura puxar sardinha para seu lado. A guerra da comunicação prossegue, e é lamentável que a Telesur, tv estatal venezuelana, tenha se desmoralizado através de uma cobertura pró-Kadafi. Enquanto isso, articulista do Globo lembra hoje que Ronald Reagan, o grande, chamou Kadafi de "cachorro doido" em 1986.

Mas há ainda muita desconfiança no ar. Por ocasião da queda de Mubarak, envolvi-me num debate por email com vários colegas que interpretavam os desdobramentos finais da revolução egípcia como um grande engodo patrocinado pelos Estados Unidos. "É um golpe militar bancado pela CIA", respondiam, irritados e lacônicos, enquanto eu me esgoleava tentando fazer-lhes ver que, àquela altura do campeonato, a Casa Branca comprava a peso de ouro qualquer coisa que se movimentasse a favor do vento, tentando desesperadamente manter-se influente.

Há também bastante amargura, confundida muitas vezes com rebeldia, mas que bloqueia a visão, impedindo a pessoa de chamar belo o que é bonito. Nenhuma revolução é pura. Simon Bolívar libertou a nossa América Latina, e nunca escondeu que o fez com ajuda do novo imperialismo inglês. Os marxistas cansaram-se de apontar os fatores econômicos, muitas vezes mesquinhos, que levaram à eclosão da revolução francesa.

A beleza de uma revolução não está na virgindade de seus protagonistas, ou na maneira pela qual ela é conduzida. Muito pelo contrário. Revoluções trazem caos econômico, mobilizam aproveitadores e despertam novas formas de poder, às vezes tão ou mais malignas que aquelas que destruiu.

Existe um fator, todavia, que galvaniza toda luta pela liberdade: é a única experiência concreta que leva o indivíduo e a sociedade a adqurirem consciênca do valor da independência individual e nacional.

Semana passada, entrei na vasta biblioteca do Centro George Pompidous, em Paris, meditando em que eu poderia ler para entender o que acontecia no norte da África. A história do Magreb? Uma revista especializada? Algum jornal independente do Egito? E nem precisava estar naquele templo: a quantidade de informação disponível na internet atingiu um patamar quase assustador.

Parece-me, contudo, que chegamos a um momento da história em que não basta nos informarmos. Nem creio que isso advenha simplesmente do crescimento quantitativo de material jornalístico no mundo, hiper-amplificado pela popularização da internet. No tempo da revolução francesa, dificilmente alguém entenderia os acontecimentos apenas lendo os jornais. É preciso olhar um pouco mais fundo.

"Savoir, penser, rever, tout est là!", escrevia um romântico Victor Hugo, na primeira metade do século XIX, num artigo que, no entanto, defende o desprendimento do artista em relação a qualquer engajamento partidário. O texto introduz um poema que expressa os dilemas do poeta diante das rebeliões políticas de seu tempo. Esse distanciar-se das escaramuças entre os partidos, para Victor Hugo, significava a liberdade para intervir de maneira mais efetiva e grandiosa, já que Hugo via o poeta como uma espécie de filósofo político, e ainda mais livre que este último, por não estar presos aos grilhões lógicos da filosofia. O poeta busca o saber, o poeta pensa, mas o poeta também - e sobretudo - sonha! A interpretação de Hugo, hoje demodé, cumpriu seu papel à época: fazendo Rimbaud viajar sem dinheiro do interior da França à Paris, para participar das barricadas de 1871 e Castro Alves erguer a voz no Teatro Municipal do Rio em defesa dos negros brasileiros.

Essa dimensão do sonho porventura é subestimada por cérebros mais frios e racionais, embora esteja tão claro que nenhuma mudança política acontece sem antes incendiar os sonhos do homem. Os marxistas, em seu afã para transformar os sonhos de liberdade da espécie humana numa pílula antidepressiva, vendida apenas nos escritórios do partido, perderam participação no mercado dos ideais.

Nas democracias, os marketeiros tentam ser mais espertos que os marxistas, e douram a pílula ao máximo. Não foi a tôa que Serra pagou um milhão para o guru indiano, um especialista em despertar a fantasia das pessoas; neste caso seja uma fantasia adolescente idiota e despolitizada.

Então eu decidi passear entre as estantes de filosofia e catei um texto de Heidegger sobre a liberdade. Dei sorte. Até anotei um trecho. Vejam se não se encaixa maravilhosamente no que está acontecendo por aquelas bandas?

Com efeito, em toda parte onde nasce um saber sobre a liberdade, a liberdade é antes de tudo entendida no sentido negativo, como independência em relação à... E esta imposição da liberdade negativa e talvez do negativo em geral, pressupõe que o ser-livre é vivenciado como um tornar-se livre de uma opressão. É necessário que o desprendimento, a rejeição às cadeias, a repulsão às forças ameaçadoras, seja uma experiência fundamental do homem, pela qual a liberdade, no sentido negativo, advém à claridade do saber. O conceito positivo de liberdade, por sua vez, significa: autonomia da vontade e auto-legislação.

A revolta árabe suscita ainda muitas questões caras à Ciência Política, a qual se torna enfadonha e anacrônica quando não se atualiza constantemente à luz dos acontecimentos reais. Há uma tese, por exemplo - e esse é o tipo de conhecimento que podemos adquirir no Brasil lendo os livros do Wanderley Guilherme dos Santos - que vende a hipótese (muito plausível, a meu ver) de que a maneira como o homem se organiza politicamente está escrita em seu DNA. Como as formigas, os leões e os jacarés, o homem porta dentro de si uma experiência de milhões de anos de vida na Terra. Claro que não vem indicado se tendemos ao voto distrital ou proporcional, se é melhor adotarmos parlamentarismo ou presidencialismo. Alguns cientistas políticos, no entanto, enquanto bebericam uísque ao fim de um dia dedicado a complicados estudos, sonham que o homem carrega, em seu próprio gene, algo que o condiciona, um momento ou outro, a lutar por sua liberdade. E que a democracia, enquanto forma de organização política e social, é apenas uma consequência natural de forças biológicas presentes na composição genética e nas profundezas do subconsciente humano.

Há uma famosa citação do Walter Benjamim, a tal sobre o Anjo da História, que olha o passado e só vê destruição. Entendo que Benjamin, traumatizado pelos horrores do nazismo, tenha optado por uma imagem assim, que se tornou tão a gosto da melancolia intelectual que domina as academias. Mas falta um Mefistófeles nesse Fausto. A história do homem é também a história da luta pela liberdade, e nesse sentido, mesmo os acontecimentos mais sinistros deram sua contribuição para a formação de uma consciência democrática e livre. É uma luta interminável, claro, visto que grande parte da humanidade ainda vive em condições de opressão política ou econômica. Mas, como observa Heidegger, a experiência da tirania e da luta contra ela é fundamental para que os povos assimilem o que significa a liberdade - e sua ausência.
Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST
à terra do sabiá. Neste final de semana, faço uns ajustes no blog para deixá-lo minimamente utilizável. Mas estou feliz em ter voltado para o blogspot.
Segunda-feira, vida nova.
Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST

As multidões venceram, o ditador renunciou, o odiado congresso foi dissolvido e o presidente do supremo tribunal militar assumiu o poder. Ã? Os militares assumiram o poder? Isso é vitoria democratica? Pois é, na atual conjuntura egipcia, sim. Os militares, especialmente os oficiais de baixa e média patente, são vistos como aliados dos egipcios que protestavam na praça Tahrir.


Até discuti no Twitter com um colega sobre isso, explicando que o vacuo do poder não permitia alternativa. Ele respondeu, amargamente, que essa historia de vacuo de poder era usada por 9 entre 10 golpes de Estado. Eu respondi que ele estava certo, mas não eram 9 entre 10 e sim 10 entre 10. O que eu não tive tempo de falar na hora, e falo aqui, é que toda democracia também começa através de um golpe de Estado, e todas com ajuda do exército.

O movimento que deflagrou nossa primeira republica contava com apoio do exército e nossos primeiros presidentes foram militares: Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto...

Todo poder politico nasce de um golpe. Getulio Vargas, por mais que o admiremos, aplicou um golpe de Estado em 1930.

Sei que essa argumentação é incômoda, porque nos levaria a justificar o golpe de 1964. Mas a historia da humanidade é mesmo complicada.

O dinamo do poder, de qualquer forma, não parece estar sequer nas constituições, ja que estas são facilmente rasgadas ou tão modificadas que dificilmente identificamo-lhes o sentido original. O dinamo esta no povo, ou melhor, no estomago do povo, e nesta sensação algo misteriosa, e sempre dubia e subjetiva, a que chamamos liberdade.

Prefiro ser otimista, portanto. Os egipcios conseguiram o que queriam. Naturalmente o pais não se convertera automaticamente numa democracia escandinava. E o governo provisorio, chefiado por militares, não representa o ideal de nenhum democrata. Mas é o que os egipcios queriam, e isso é o que importa, e não quero subestimar sua inteligência e audacia.

A renuncia de Mubarak foi saudada com o entusiasmo alucinado que so vemos numa vitoria de Copa do Mundo, mas de um tipo naturalmente muito mais nobre, muito mais duradouro.

A Economist lembra que o golpe militar de hoje se assemelha ao de 1952, quando oficiais revolucionarios derrubaram uma "democracia pluralista". Mentira! O governo pré-1952 no Egito era apenas uma espécie de testa-de-ferro dos interesses ingleses. De maneira geral, toda a imprensa corporativa, obrigada a elaborar uma contextualização historica do Egito, trata a revolução de 52 e, sobretudo, a figura de Gamal Abdel Nasser de forma condescendente, focando apenas em seus aspectos negativos, que naturalmente existem. Mas ninguém cita a profunda reforma agraria feita por Nasser, desvirtuada pelos governos seguintes. Ninguem cita os relatos de que, sob Nasser, o Egito viveu tempos de prosperidade econômica, justiça social e renascimento artistico. Nasser nacionalizou as grandes companhias européias que exploravam os serviços publicos do pais, dando autonomia politica ao povo egipcio. Nasser tentou juntar os povos arabes a elaborar uma politica progressista para a Africa, coisa que jamais nenhum estadista europeu ou americano jamais procurou fazer.

Em seu livro Filosofia da Revoluçao, Nasser observa que é preciso pensar o Egito através dos conceitos de tempo e espaço: ou seja, o Egito estava ligado a um tempo historico, e ocupava um lugar especifico no mundo, geograficamente falando. Não era (e ainda o é menos hoje) um pais isolado. Estava rodeado de outros paises arabes, com os quais se relacionava e com os quais precisava dialogar para progredirem juntos.

Nasser, como todo arabe, era profundamente tocado pelo sofrimento do povo palestino, assim como o egipcio de hoje é emocionalmente marcado pela tragédia iraquiana (e também pela palestina).

Enfim, não sei se a historia se repete, mas as agruras e demandas humanas sim, são quase sempre as mesmas. Pobreza, corrupção, violência, os males que assolam os povos continuam desfilando juntos no mesmo bloco de carnaval, usando mascaras parecidas, ha milhares de anos.
Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST

“Todos os estranhos e terríveis acontecimentos são bemvindos, mas o conforto, desprezamos”, Cleopatra, rainha do Egito (69 a 30 anos antes de Cristo).

(Desculpem a falta de acentos em algumas palavras, estou na França, usando um teclado estrangeiro e ainda por cima um Mac. Consegui corrigir um pouco usando um editor de texto, mas acabei tirando alguns pontos finais, sei la porque...)

Tenho pesquisado sobre o Egito, e gostaria de trocar algumas ideias com vocês. Os jornais franceses publicam diariamente artigos sobre os acontecimentos da praça Tahrir, mas os articulistas perderam muito tempo se acusando mutuamente de manter posições moderadas ou radicais, em vez de se dedicarem a explorar as razões profundas da revolução na terra dos faraós. Deixei por fim os jornais de lado e enfiei o nariz na rede. Encontrei um excelente artigo sobre a blogosfera egípcia, que na verdade é quase uma monografia.


Também resolvi pesquisar mais sobre a historia moderna do Egito, sobretudo a figura de Gamal Abdel Nasser, o primeiro grande líder da era republicana e independente do país. Li biografias de Nasser na Wikipedia e outros sites. E encontrei partes de seu livro disponíveis na internet, intitulado Filosofia da Revolução, Parte I, Parte II e Parte III. As paginas estão viradas, entao você tem que salvar no seu computador, abrir com o Acrobat Reader e mandar girar no sentido anti-horário. Está tudo em inglês

Engraçado como as coisas se ligam. Parece papo de doidao de lsd, mas é verdade. Estou na cidade onde viveu Blaise Pascal, que escreveu que "se o nariz de Cleopatra fosse mais curto, isso teria mudado o destino do mundo", uma frase que já usei - forçando a barra, tanto eu gostei dela - num post sobre política brasileira. Foi também em Clermont-Ferrand que o papa Urbain II - acabei de ler essa informação ao pé da sua estátua - abençoou, numa missa, a primeira Cruzada, a qual, segundo Nasser, marcaria tanto o inicio dos movimentos que levariam ao renascimento europeu como o inicio de um período de grande decadência para o Egito.

Afinal o belo e grande nariz de Cleopatra - cuja beleza altiva seduziu Julio Cesar e Antonio, e separou os dois aliados - não foi a única influencia do Egito sobre a nossa civilização. A escrita, a medicina, a astronomia, a própria literatura ocidental, as modernas técnicas agrícolas, tudo nasceu nos vales do rio Nilo.

A imagem que temos do Egito Antigo em geral é apenas negativa, de faraós cruéis reinando sobre uma multidão de escravos. Não era bem assim. A Europa sempre teve reis exercendo poder totalitário e nem por isso deixou de produzir beleza, ciência e civilização. Houve tempos de paz, estabilidade, justiça e progressismo no Egito dos faraós, o que se pode inclusive ler no Velho Testamento. O injustiçado José, traído por seus irmaos, que o vendem a mercadores que operavam no Egito, acaba se tornando chanceler do farao, numa prova de como o regime permitia ascensão social de ex-escravos.

A arte antiga egípcia tem uma sofisticação e qualidade que o ocidente alcançará apenas milhares de anos depois.

Mas falemos do Egito contemporâneo, do Egito rebelde, libertário e democrático que emerge das ruas, cantando e enfrentando com bravura um regime hipócrita, cruel, assassino e submisso ao que ha de pior no imperialismo americano.

As manifestações recentes, que surpreendentemente parecem se intensificar cada vez mais, ao contrario do que previam inclusive os esquerdistas jornais franceses, não sao as primeiras que o pais experimentou nas ultimas décadas. Os egípcios tem se manifestado constantemente neste inicio de século, mas nada se compara ao que vemos hoje.

Voltemos entao a revolução de 1952, que derrubou o rei Farouk, um pupilo das potências ocidentais, cujo conservadorismo e corrupção lembram muito o regime atual de Mubarak. Em seu livro Filosofia da Revolução, Nasser traça um retrato das imensas dificuldades enfrentadas pelos revolucionários para evitar que o processo de transição política descambasse em revanchismo violento, e sobretudo para conciliar dois movimentos que se chocavam, mas que eram ambos necessários: a revolução política, que pedia união de todas as classes em prol do fim do domínio estrangeiro, e a revolução social, que exigia conflito de classe para produzir justiça e igualdade. Nasser tentou conduzir simultaneamente as duas revoluções, embora tivesse consciência de que, na maioria dos países, houve séculos de intervalo entre elas. Para fazê-lo, sacrificou a democracia. Foi uma espécie de Getulio Vargas do Nilo. Prendeu comunistas e muçulmanos ao mesmo tempo em que se aliava politicamente à União Soviética, criando assim o bloco dos países não-alinhados, e servindo de exemplo para todo o Terceiro Mundo. Ao mesmo tempo em que ampliava o controle sobre os meios de comunicação, realizou uma vasta reforma agraria, limitando a propriedade de terra a 200 acres e, com isso, aplicando um golpe mortal no latifúndio.

Sua açao política mais importante, no entanto, e onde provavelmente mais incomodou as grandes potências da época, foram seus esforços para unir o mundo árabe em torno de valores e objetivos comuns e o apoio que deu para que a Africa negra também se unisse.

Mas Nasser falhou miseravelmente ao não enxergar a importância de criar instituições que sobrevivessem a sua gestão. Nasser morreu e o sonho acabou. Seus sucessores, primeiro Sadat, e principalmente Mubarak, destruiriam sua obra. O mundo árabe se fragmentaria em ditaduras isolacionistas sem nenhum compromisso com o desenvolvimento da Africa, sendo que é evidente que a pobreza do continente negro se reflete negativamente nos países mediterrâneos. O Egito conquistara a independência política e instituíra um sistema republicano moderno. Mas ao não investir na consolidação de instituições democráticas, abriu espaço para um terrível retrocesso, com a cristalização de oligarquias e a corrupção de todo sistema.

Novamente, portanto, o Egito se vê diante do dilema de conduzir duas revoluções, uma política, outra social. As potências ocidentais aceitam apenas a primeira, ou nem isso, pois sabem que a essa altura do desenvolvimento da consciência do povo egípcio, não pode haver uma revolução política que não implique em revolução social. Por isso insistem que se trata de uma revolução de classe média. O que de certa forma é verdade. E ai está a grande ironia, e a pungente beleza da historia e de todo processo revolucionário. A classe média egípcia encontra-se de tal forma empobrecida que ela se tornou povo. Trata-se de uma realidade que se repete em todo o mundo árabe e em toda Africa. A classe média desapareceu, dando lugar a sociedades profundamente cindidas: de um lado, os amigos do poder, de outro, a massa.

As implicações geopoliticas dos acontecimentos no Egito descortinam horizontes de liberdade para os mais de 400 milhões de árabes que labutam no norte da Africa. Ha um fator cultural e psicológico poderoso, pois não estamos falando de mais uma revolução islâmica, mas de exigências genuinamente democráticas. Alias é interessante observar que uma das causas do sucesso do islamismo sempre foi o seu respeito pelas agruras sociais, e o esforço que faz para combatê-las. Essa é a diferença entre as manifestações da juventude iraniana e egípcia. Os jovens persas protestam contra um sistema político, mas não tem o apoio popular maciço que vemos no Egito porque o regime islâmico, pese seus terríveis defeitos no campo da democracia e dos direitos humanos, sempre se mostrou bastante progressista no que se refere à luta contra a pobreza. O desemprego no Iran é baixo, enquanto no Egito atingiu um nível insuportável.

"Toma-se conhecimento do fim da guerra pela alegria do porteiro", diz o delicado personagem de Marcel Proust, ao observar como o publico de uma peça de teatro, composto na maioria por pessoas muito distantes de qualquer erudição, tem sensibilidade suficiente para apreender se o desempenho da atriz foi bom ou ruim. Da mesma forma, a revolução no mundo árabe, ou em qualquer parte do mundo, incluindo o Brasil, só pode ser adequadamente medida pelo bem estar das pessoas simples.

Continuando minha conexão França - Egito, ha um trecho da Historia da Revolução Francesa, obra-prima de Jules Michelet, que me comoveu muito. Ele descreve o povo francês como o mais resignado da Europa, tendo suportado humilhações que seus primos ingleses ou germânicos jamais suportariam sem se rebelarem. Ha um limite, porém, mesmo para o mais covarde e submisso dos povos, e a mais negra injustiça, assim como a mais tenebrosa escuridão, torna mais brilhante a luz da justiça. E o povo francês se revolta. E o mais humilde dos povos se converte no mais altivo, no mais terrível defensor da liberdade.

A historia é plena desses contrapesos, dessas dialéticas imprevisíveis e avassaladoras. A nós, nos resta torcer para que a liberdade do povo egípcio, de todos os árabes, de toda Africa e, porque não sonhar, de todos os povos oprimidos, cintile, queime, e reduza a cinzas, esse egoísmo odioso, retrógrado e antidemocrático que ainda rege, qual faraó enlouquecido, os destinos da humanidade!
Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST

(pintura de Basquiat, só para enfeitar o blog)

Passei a noite lendo blogs. Eis uma relação dos links que achei mais interessantes.


  • Nassif faz uma excelente e mordaz análise sobre o (não) futuro político do PSDB. Eu também li o artigo de FHC no Globo deste domingo, e novamente me impressionei com a repetição de bordões tediosos, previsíveis, e observações superficiais e equívocas. O farol mistura um pouquinho de Miriam Leitão aqui, Merval acolá, tempera com Dora Kramer e Magnoli, e está pronta sua macarronada de molho gordurento e sem gosto.
  • Ainda sobre o FHC, essa nota me provocou náusea profunda, mas é algo que devemos espalhar ao máximo, porque é uma vergonha que o Ministério da Cultura tenha dado 5,6 milhões de reais para o Instituto FHC digitalizar seus arquivos, e depois mais 6 milhões de reais para o mesmo motivo. Cadê os arquivos? Pior, o instituto sequer está conseguindo prestar contas.
  • Vale a pena também olhar essa matéria sobre o vazamento de recados do embaixador americano no Brasil, onde ele revela sua indignação contra o fato do governo brasileiro ousar ter uma opinião própria e independente sobre o oriente médio. O viéis usado pelo Globo para dar a notícia insinua, como de praxe, que o embaixador americano e os judeus de extrema-direita entrevistados pelo jornal (segundo os quais Lula seria antissemita) é que estão certos. 
  • Interessante observar que o Globo dá a palavra a um diplomata egípcio nomeado por uma ditadura odiosa, que baseia sua opinião em afirmações de lideranças árabes igualmente totalitárias - sem oferecer direito de resposta a algum representante de nosso governo democrático ou mesmo de alguém não do governo, mas ligado ao tema.

Daqui a pouco eu dou um jeito no design do blog, que está muito simplório...
Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST

(A catedral de Clermont-Ferrand, construída com rocha negra vulcânica, tem um aspecto imponente, ao estilo altivo, poderoso e deslumbrante das igrejas na idade média. Sua grandeza, destoando do casario simples da cidade, servia para mostrar quem é que mandava).


Estou em Clermont-Ferrand, cidadezinha encrustada bem no centro da França onde já estive duas vezes. Acompanho minha consorte, organizadora de uma mostra de curta-metragens latino-americanos junto ao Festival Internacional de Curta-Metragens que acontece todos os anos na cidade e é o maior do gênero no mundo.

Ficarei por aqui uma semana, depois vou-me a Paris, onde permaneço até o dia 19 de março.

Aproveito a estadia para observar o que está acontecendo no mundo árabe. A França é um excelente ponto de observação, visto que sua imprensa e seus intelectuais dedicam-se 24 horas a analisar o que está acontecendo por lá.

Quanto ao blog, aos poucos vou reconfigurando seu design e trazendo novos conteúdos. Confesso que estou  bem mais aliviado agora que tomei a decisão de voltar ao blogspot. O wordpress é muito bom para hospedar sites comerciais, institucionais, etc, mas para meus objetivos, a plataforma blogger é bem mais prática.


Permitam-me ainda fazer propaganda da minha Carta Diária. Preciso vender bastante assinatura para comprar baguetes e me manter vivo. 

Algumas informações sobre Clermont-Ferrand: é uma cidade universitária, muito simpática. Como todas as cidades francesas, possui uma grande comunidade árabe. O que não faltam são lanchonetes de kebab, conhecido entre nós como sanduíche grego.

Também há muitos brasileiros, sobretudo trabalhando na Michelin, cuja sede é aqui. 

As universidades oferecem cursos para estrangeiros a custo bastante acessível, possivelmente o mais econômico de toda França, e está aí a ligação que minha mulher tem com a cidade: ela estudou e morou aqui por dez meses em 2001. Por ser uma cidade universitária, há uma quantidade enorme de alojamentos e pensões voltados especialmente para o público jovem, a preços também bastante acessíveis. 

Ontem chegamos tarde e como o alojamento que ficaríamos não tem atendentes 24 horas, viemos para um hotelzinho perto da estação. Assim que conseguirmos estabelecer o contato, iremos para o alojamento Le Phare, cuja diária custa apenas 25 euros (57 reais). Os quartos são excelentes, tem banheiro, e inclui o café da manhã. O hotel onde estamos provisoriamente custa 38 euros e tem wifi (internet sem fio) ilimitada e gratuita. 

Uma das coisas que mais me impressiona na Europa são os trens. Rápidos, confortáveis, pontuais. Viemos de Paris a Clermont-Ferrand em três horas, sentados em poltronas macias com mesinhas à frente.  

A cidade tem um herói importante, Vercingetorix, chefe gaulês que deu muito trabalho a Julio César, ganhando inclusive algumas batalhas. Há uma estátua dele na praça principal da cidade, a Place Jaude.

Aqui perto tem ainda estações de esqui, mas não teremos tempo. Não estou de férias. Continuo trabalhando normalmente, pela internet. Obrigações: fazer a Carta Diária; duas notas diárias sobre café para um site americano; atualizar o Gonzum; terminar o blog de uma amiga; escrever algumas resenhas para o Festival de Curtas da cidade; ajudar minha mulher a organizar a mostra de curtas latinos; ler os jornais para acompanhar a situação no mundo árabe; redigir longo artigo para uma revista brasileira; monitorar jornais e blogs brasileiros para saber as últimas peripécias do PIG...

Por enquanto é só. Daqui a pouco trago mais novidades.

Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST
Arrisco-me a perder meus últimos dois ou três leitores, mas tenho que fazer isso. Pensei muito e concluí que a melhor solução é voltar ao blogspot. Minha experiência com o Wordpress foi instrutiva, mas não posso dizer que tenha sido agradável. Os especialistas em TI (Tecnologia da Informação) vivem entoando loas ao Wordpress e eu, que respeito profundamente o conhecimento (ao contrário do que pensam meus adversários, que por conta de argumentações que elaborei durante alguns debates passaram a me chamar de anti-intelectual e anti-acadêmico), confiei no taco de quem entende do riscado.

Estudei o Wordpress, fiz um blog para mim, sozinho, fiz um blog para uma amiga, sozinho, comprei um domínio, contratei um provedor, e comecei a programar. A primeira pequena decepção com o Wordpress, que todos diziam possuir linguagem livre, é que você tem que pagar para poder mexer no CSS dele, ou seja, no layout. É uma merrequinha, mas tem que ter cartão de crédito internacional. Tudo bem. Paguei, e passei a mexer. Aí descobri que tinha que pagar também para poder redirecionar o blog para o domínio próprio. Paguei.

Depois descobri que é muito difícil trabalhar no wordpress sem possuir um espaço de hospedagem. Então contratei um serviço.

Só aí você vai contando os diversos gastos que o tal "software livre" me obrigou a fazer. O blogspot não cobra nada. É absoluta e irrestritamente gratuito. E você pode mexer no layout à vontade.

Enfim, faltando cinco dias para o fim do contrato com meu provedor, um tal de AwardSpace que faz meu blog cair diariamente (uma vez fiquei três ou quatro dias fora do ar), depois de analisar as ofertas que eles me fizeram - 330 dólares por cinco anos - cheguei a conclusão que é melhor ficar sem provedor e usar a plataforma gratuita e segura do blogspot.

Refleti muito e entendi que se posso trabalhar sem pagar nada, tendo um serviço muito melhor, a troco de que eu vou pôr meu blog na mão de uma hospedagem?

Naturalmente, esta é uma decisão pertinente apenas a mim. Outros blogueiros podem precisar do espaço oferecido por uma hospedagem. Eu não. Não uso emails da hospedagem. Não uso FTP. Não hospedo vários domínios. E eu trabalho com muito conteúdo, muito textos, vídeos e imagens. Não tem lógica acumular toneladas de fotos, imagens e pinturas no meu espaço, sendo que posso guardar o mesmo material na plataforma do blogspot e fazer backups periódicos para manter tudo armazenado no meu computador? Tudo de graça.

Há outros fatores, um lance antieconômico, você é obrigado a pagar mais se tiver mais acesso. O sistema de hospedagem, definitivamente, não é autosustentável.

Consegui importar os artigos, mas não os comentários.

O que importa, para vocês, leitores, é que o acesso ficará mais leve e mais estável, e o endereço permanece o mesmo: gonzum.com. E para mim a única coisa que realmente importa é trazer um bom conteúdo, independente se usando wordpress, blogspot ou o raio que o parta.
Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST

Fúria, fúria, contra a antirevolução


Pepe Escobar

1/2/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online


Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu (Via Castorphoto)


Fúria, fúria, contra a morte da luz.

- Dylan Thomas


Islamófobos de todo o mundo calem o bico e ouçam o som do poder do povo. A dicotomia artificial que inventaram para o Oriente Médio – ou a ditadura de vocês ou o jihadismo – jamais passou de truque barato. Repressão política, desemprego em massa e comida cara são mais letais que um exército de homens-bomba. Assim se escreve a história real; um país de 80 milhões – dois milhões dos quais nascidos depois de o ditador de hoje ter chegado ao poder em 1981, e nada menos que o coração do mundo árabe – põe afinal abaixo o Muro do Medo e passa para o lado do autorrespeito.


O neofaraó egípcio Hosni Mubarak ordenou toque de recolher; ninguém arredou pé das ruas. A polícia atacou; os cidadãos organizaram a própria segurança. Chegaram os tanques; a multidão continuou a cantar “de mãos dadas, o exército e o povo são aliados”. Nada de revolução colorida parida em think-tanks, nada de islâmicos em ordem unida; são egípcios médios, carregando a bandeira nacional, “juntos, como indivíduos num grande esforço cooperativo para exigir de volta o país que nos pertence” – nas palavras do romancista egípcio e Prêmio Nobel Ahdaf Soueif.


E então, inevitável como a morte, a contrarrevolução levantou a cabeçorra armada. Jatos bombardeiros made in USA e helicópteros militares atacaram “bravamente” em vôos rasantes as multidões na Praça Tahrir [Praça Liberdade] (retrato do governo de Mubarak como exército de ocupação no Egito; e imaginem o ultraje do ocidente, se o ataque acontecesse em Teerã). Comandantes militares falando sem parar pela televisão estatal. Ameaça de que tanques de fabricação norte-americana tomariam as ruas – conduzidos por soldados de batalhões de elite – para o ataque final (embora os próprios soldados dissessem a jornalistas da rede al-Jazeera que em nenhum caso disparariam contra a multidão). Para coroar, a “subversiva” rede al-Jazeera foi repentinamente cortada do ar.


Diga alô ao meu suave torturador...


A Intifada egípcia – dentre outros múltiplos significados – já reduziu a cacos a propaganda inventada no ocidente, de que “árabes são terroristas”. Agora, as mentes afinal descolonizadas, os árabes inspiram o mundo inteiro, ensinam ao ocidente como se faz mudança democrática. E adivinhem só! Ninguém precisou de “choque e horror”, rendições, tortura e trilhões de dólares do Pentágono para que a coisa funcionasse! Não surpreende que Washington, Telavive, Riad, Londres e Paris, todas, nem suspeitaram do que estava a caminho.


Hoje somos todos egípcios. O vírus latino-americano – bye-bye ditaduras e neoliberalismo arrogante, caolho, míope – contaminou o Oriente Médio. Primeiro a Tunísia. Agora o Egito. Depois o Iêmen e possivelmente a Jordânia. Logo a Casa de Saud (não surpreende que culpem os egípcios pelos “tumultos”). Mas o terremoto político do norte da África, na Tunísia, em 2011 também colheu a faísca dos movimentos de massa na Europa em 2010 – Grécia, Itália, França, Reino Unido. Fúria, fúria contra a repressão política, contras as ditaduras, contra a brutalidade da Polícia, contra os preços da comida, contra a inflação, contra empregos miseráveis, contra o desemprego em massa.


Faraó 2011 parece remix de Xá do Irã 1979. Claro, não há aiatolá Ruhollah Khomeini para liderar as massas egípcias, e o ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, o egípcio Mohamed El Baradei, está sendo acusado por alguns, nas ruas, de “assaltar nossa revolução”. Mas é difícil não lembrar que o Xá do Irã está enterrado no Cairo, porque os iranianos não permitiram que fosse enterrado na terra-mãe.


O Faraó reagiu à Intifada nomeando para a vice-presidência seu czar “suave” da inteligência, Omar Suleiman (o primeiro vice-presidente, desde que o Faraó assumiu o poder em 1981), e virtual sucessor. Suleiman é sinistro suave especialista em rendição, no qual a CIA confia e que supervisionou número incontável de sessões de tortura de ditos “terroristas” em território egípcio; senhor, que fala inglês, de sua Guantánamo árabe. Em Washington, o establishment gostou muito.


Mas os imperialistas que anotem bem: a última vez que as ruas egípcias levantaram-se como levantaram-se hoje, foi em 1919, durante a revolução contra os britânicos. Agora, para muçulmanos e cristãos, operários, classe média, massas desempregadas, advogados, juízes, professores e doutores da Universidade al-Azhar, alunos, camponeses, teólogos, jornalistas e blogueiros independentes, ativistas da Irmandade Muçulmana, Associação Nacional para a Mudança, Movimento 16 de abril, para todos esses, os dias de Mubarak de Revolução dos Bichos estão contados.


Cinco movimentos de oposição – inclusive a Fraternidade Muçulmana – autorizaram El Baradei a negociar a formação de um “governo de salvação nacional” de transição. Aposta-se que o Faraó nada ou quase nada negociará. Para aumentar a complexidade o núcleo da geração de jovens ativistas crê muito mais em “comitês populares” que em El Baradei.


É verdade que, no que tenha a ver com as próximas eleições em setembro, Mubarak, 82, está morto. O filho, Gamal, 47, idem. Relatos não confirmados dizem que, à moda típica dos filhos de ditadores, o filho já fugiu para Londres, usando seu passaporte britânico, com montanhas de bagagem, e estaria agora escondido na casa londrina da família, em Knightsbridge.


O futuro crucial imediato depende do lado para o qual penderá o exército egípcio. No pé em que estão as coisas, ainda não está totalmente afastado uma alternativa Tiananmen – repressão linha duríssima. Seja como for, o poder de ação do governo é claro; pode acontecer até de o Faraó meter-se naquele avião – como cantam as ruas –, mas o regime, a ditadura militar, tem de ser mantida.


O general Hussein Tantawi, comandante em chefe do exército e ministro da Defesa, amigo que bebe o vinho e come a comida do Pentágono, do qual recebe 1,3 bilhões de dólares anuais a título de “ajuda” – voou de volta ao Cairo. Numa trilha paralela, o Faraó, jogando desesperadamente com os medos do ocidente sobre “estabilidade”, tentou desqualificar a Intifada como grupo de desordeiros e arruaceiros donos de terrenos nas favelas, que querem ver cada vez mais caos e destruição. Um grupo de blogueiros egípcios não tem dúvidas – a estratégia do Faraó é assustar as pessoas e empurrá-las de volta para dentro das casas, implorando por “segurança”.


Issander El Amrani, do blog The Arabist , destaca que “é difícil acreditar que Mubarak ainda esteja no poder, mas o núcleo duro do regime está usando meios extremos para salvar sua posição”. Nas ruas, todos suspeitam de um golpe orquestrado por Washington na cúpula do regime – EUA/Israel apostando tudo na fórmula “Mubarak talvez caia/mas sem mudança de regime”, com sauditas, israelenses e a mídia egípcia oficial mexendo todos os pauzinhos para desacreditar a revolução. Para analisar com algum distanciamento: nos EUA houve dois governos de Ronald Reagan, um de George H W Bush, dois de Bill Clinton, dois de George W Bush e um de Barack Obama. No Egito, sempre só houve Mubarak.


A classe média egípcia, empobrecida, mas letrada e orgulhosa, e a os trabalhadores, nada querem além de um país regido por leis e com eleições transparentes. Como, então, acreditariam em Suleiman, torturador ligado à CIA, para conduzir a transição? Para nem falar de um Parlamento completamente controlado pelo inacreditavelmente corrupto Partido Nacional Democrático de Mubarak, cuja sede foi incendiada pelos manifestantes.


O passo do dissidente egípcio


No início de 2003, passei dois meses no Cairo e em Alexandria, à espera da invasão de Bush ao Iraque – convivendo quase exclusivamente com o oceano de rejeitados pelo sistema de Mubarak, de universitários formados a imigrantes sudaneses, inclusive representantes rejeitados dos 40% da população que vive com menos de 2 dólares por dia. Desnecessário dizer que todos viam Mubarak como poodle repulsivo de Washington – e todos estavam em choque ante a tragédia do Iraque, que o Egito reverencia historicamente como flanco leste da nação árabe. O regime, para eles, era do tipo que “afoga mendigos no Nilo”.


Foi elucidativo – e terrivelmente doloroso – conhecer em campo as consequências do regime de Mubarak, aplicado regime pupilo do neoliberalismo aplicado pelos EUA. Consequências inevitáveis, a inflação alta e o enorme desemprego. A classe média urbana praticamente já desaparecera. A classe trabalhadora, sufocada na mão de ferro dos sindicatos. E a classe média rural – que foi base do regime – também em crise, com os jovens obrigados a imigrar para as cidades à procura de empregos (que não encontram). Sobrevivente, só uma pequena classe de comerciantes, corruptos, associados ao Estado (a maioria dos quais hoje já fugiu para Dubai em jatos privados).


Não surpreende, pois que não se trate de uma revolução islâmica, como no Irã em 1979. É a economia, estúpido. O Islã hoje no Egito está dividido em duas correntes: salafitas não politizados e a Fraternidade Muçulmana – dizimada por décadas de repressão e tortura e, hoje, sem qualquer programa político explícito, além de oferecer serviços de assistência à população negligenciada pelo Estado.


O fato de a Fraternidade Muçulmana ter-se mantido nas coxias do movimento das ruas explica-se por dois fatores. Se se expusesse demais, Mubarak teria o pretexto perfeito para associar a revolução aos “terroristas”. Além disso, a Fraternidade avalia que, hoje, é apenas um ator entre vários.


Trata-se de movimento popular espontâneo que segue as pegadas do Kefaya (“Basta!”) – movimento popular “amarelo” (escolheu essa cor), de intelectuais e ativistas políticos, cujo slogan, já em 2004 era La lil-tamdid, La lil-tawrith (“Não a outro mandato, não queremos uma república hereditária”).


O movimento Kefaya, apesar de ser movimento de elite, sem liderança, não-ideológico, foi a faísca que despertou mais de mil movimentos, dentre os quais “Jornalistas pela Mudança”, “Operários pela Mudança”, “Médicos para a Mudança” ou “Jovens para a Mudança” levaram à atual onda de incontáveis fóruns online em que se reúnem cidadãos urbanos, de classe média e baixa, todos usuários experientes da internet.


Outro desenvolvimento crucial foi a greve, em 2008, dos trabalhadores das indústrias têxteis da cidade de Mahalla al-Kubra no delta do Nilo, onde três operários foram mortos pelos guardas de segurança de Mubarak dia 6 de abril – e que inspirou a criação do movimento online de nome Juventude de 6 de abril - "April 6 youth" (Sobre o movimento, ver Cairo Activists Use Facebook to Rattle Regime).


O Santo Graal demorou para mobilizar as massas. Semana passada, afinal, conseguiram. Os jovens influenciados pelo movimento Kefaya preferem comitês populares para guiar os passos futuros de sua revolução, em vez de políticos. O pulso das ruas parece indicar que a maioria dos egípcios não quer que nenhuma ideologia política ou religiosa monopolize o que é movimento líquido, pluralista, múltiplo para reformar radicalmente o país e criar ali um novo modelo para o mundo árabe. Talvez um pouco sedutoramente romântico demais. Mas que tenha vivido 30 anos numa espécie de Revolução dos Bichos precisa dolorosamente de alguma catarse.


Rebelo-me, logo, existo


Para Fawaz Gerges, professor de economia da London School of Economics, tudo isso “ultrapassa em muito o problema Mubarak. A barreira do medo foi removida. É realmente o começo do fim do status quo na Região.” Que é maior que Mubarak, é; é exemplo vigoroso do que seja ativismo político orgânico, de base.


Ora, no discurso de elite do Dr. Zbigniew Brzezinski, guru de política exterior dos EUA, trata-se de seu temido “despertar político global” em ação – a Geração Y em todo o mundo em desenvolvimento, furiosa, irada, ultrajada, emocionalmente em frangalhos, quase toda desempregada, com a dignidade em farrapos, deixando aflorar seu potencial revolucionário e virando o status quo de cabeça para baixo (mesmo depois de o Faraó ter conseguido implantar o maior blecaute da história da Internet).


Assim como o movimento Kefaya foi a fagulha, essa foi também uma revolução do Facebook – que hoje, nas ruas do Cairo, Alexandria e Suez já foi rebatizado e chama-se agora Sawrabook (“o livro da revolução”). Uma rede RASD (“de monitoramento”, em árabe) foi lançada no primeiro dia dos protestos, 4ª-feira passada, configurada como uma espécie de “observatório da revolução”.


É crucialmente importante observar que naquele momento – há menos de uma semana – a rede al-Jazeera ainda não chegara ao Egito e a televisão estatal egípcia exibia, como sempre, velhos filmes em branco e preto. Em apenas três dias, a RASD reuniu em rede cerca de 400 mil usuários, no Egito e no mundo. Quando o regime do Faraó acordou, já era tarde demais – e de nada lhe serviu derrubar a internet.


É esse espírito de solidariedade em ação que invadiu as ruas sob a forma de jovens ativistas operando telefones sem fio, fotografando e filmando ataques e feridos ou montando tendas para atendimento de campanha. Ou moradores da cidade do Cairo, oferecendo as próprias casas para abrigar manifestantes e organizando piquetes de vizinhos para proteger-se da ação de saqueadores e ladrões – muitos dos quais mostrados por blogueiros, quando carregavam equipamentos de identificação dos postos armas retiradas dos postos de polícia de Mubarak.


Por mais alarmadas que estejam as rarefeitas elites globais – basta seguir o labirinto de ambiguidades que liga Washington e as capitais europeias –, Brzezinski, pelo menos, parece suficientemente ligado para entender a deriva geral, quando “as principais potências mundiais, novas e velhas (...) enfrentam uma nova realidade: embora a letalidade do poder bélico seja hoje maior do que nunca, a capacidade de impor controle a massas que já despertaram para a vida política alcança hoje o ponto mais baixo de toda a história.”


A velha ordem está morrendo, mas a nova ainda não nasceu. A Idade da Fúria no arco que vai da África do Norte ao Oriente Médio parece ter começado – mais ainda não se sabe qual será a nova configuração geopolítica. O povo se fará ouvir – ou acabará encurralado e controlado pelas potências que aí estão?


O Egito não se converterá em democracia que funciona porque falta a infraestrutura política. Mas pode recomeçar do começo, com todas as oposições tão desprestigiadas quando o regime. A geração mais jovem – potencializada pela emoção de estar lutando do lado certo da história – terá papel crucial.


Não aceitarão a ilusão de ótica de alguma falsa mudança de regime, só para preservar alguma “estabilidade”. Não aceitarão ser sequestrados por EUA e Europa, apresentados como neofantoches. Querem o choque do novo; governo verdadeiramente soberano, nada de neoliberalismo e uma nova ordem política para o Oriente Médio.




A contrarrevolução será feroz. E atacará muito mais do que alguns bunkers no Cairo.
Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST
Amigos, recebi esse depoimento via lista de email do Rioblogprog (via Pedro Alves e Mario Augusto), e o repasso para o mundo:

Prezados senhores do Governo e da Imprensa Brasileira

O povo egípcio vem enfrentando um momento muito difícil e complicado. O mundo todo vem acompanhando os protestos que estão sendo realizados contra o atual Governo do Presidente Hosni Mubarak, bem como, contra todo o sistema corrupto que se instalou no Egito nos últimos 30 anos.

Sabemos que o Brasil vem se destacando na mídia internacional pelas suas ações, pela política externa que sustenta e pela posição humana com que se coloca diante dos direitos civis.

É com este pensamento que clamo por ajudar ao povo egípcio, que, na luta por romper com anos e anos de repressão e ditadura, vem se manifestando em protestos diários contra o atual Presidente.

Como os senhores já sabem o povo egípcio está sem internet e por esse motivo não estão conseguindo enviar os milhares de vídeos e imagens que provam o abuso das forças policias que mataram mais de cem pessoas até agora.

Está programado para amanhã um novo grande protesto e nossa preocupação reside no fato de que Hosni Mubarak está preparando sua força militar para MATAR. Policiais estão autorizados a atirar indiscriminadamente e atiradores poderão estar estrategicamente posicionados na Praça Tahir.

Senhores, somos um povo pacífico. Iniciamos os protestos de forma pacífica e acreditamos que o direito de livre expressão reproduz o que de melhor em uma democracia. Por isso, clamo por ajuda mundial.

Peço realmente que o Governo e Imprensa Brasileira exerçam pressão sobre as ações do Ditador Hosni Mubarak. Este ditador já provou que está contra o povo egípcio, e numa tentativa de inibir e oprimir o povo vem realizando demonstrações de força de guerra por meio de aviões F16 sob os manifestantes na Praça Tahir. Em outra conduta indiscutivelmente cruel liberou criminosos das prisões, pagando-os para provocar arruaças, roubos, violência, numa estratégia para incriminar o movimento da sociedade e transmitir uma imagem controvérsia do povo egípcio.

Mais uma vez clamo por ajuda. O Egito necessita de ajuda. O povo egípcio necessita de ajuda.

Amro Saad El Seoudi
Egípcio
Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST

Reproduzo abaixo matéria do blog Redecastorphoto.






Robert Fisk

Egito em erupção


29/1/2011, Robert Fisk, The Independent, UK


Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Pode ser o fim. Com certeza é o começo do fim. Em todo o Egito, dezenas de milhares de árabes enfrentaram gás lacrimogêneo, canhões de água, granadas e tiroteio para exigir o fim da ditadura de Hosni Mubarak depois de mais de 30 anos.


Enquanto Cairo mergulha em nuvens de gás lacrimogêneo dos milhares de granadas lançadas contra multidões compactas, era como se a ditadura de Mubarak realmente andasse rumo ao fim. Ninguém, dos que estávamos ontem nas ruas do Cairo, tínhamos nem ideia de por onde andaria Mubarak – que mais tarde apareceria na televisão, para demitir todos seus ministros. Nem encontrei alguém preocupado com Mubarak.


Eram dezenas de milhares, valentes, a maioria pacíficos, mas a violência chocante dos battagi – em árabe, a palavra significa literalmente “bandidos” – uniformizados sem uniforme das milícias de Mubarak, que espancaram, agrediram e feriram manifestantes, enquanto os guardas apenas assistiam e nada fizeram, foi uma desgraça. Esses homens, quase todos dependentes de drogas e ex-policiais, eram ontem a linha de frente do Estado egípcio. Os verdadeiros representantes de Hosni Mubarak.


Num certo momento, havia uma cortina de gás lacrimogêneo por cima das águas do Nilo, enquanto as milícias antitumultos e os manifestantes combatiam sobre as grandes pontes sobre o rio. Incrível. A multidão levantou-se e não mais aceitará a violência, a brutalidade, as prisões, como se essa fosse a parte que lhe coubesse na maior nação árabe do planeta. Os próprios policiais pareciam saber que estavam sendo derrotados. “E o que podemos fazer?” – perguntou-nos um dos guardas das milícias antitumulto. “Cumprimos ordens. Pensam que queremos isso? Esse país está despencando ladeira abaixo.” O governo impôs um toque de recolher noite passada. A multidão ajoelhou-se para rezar, à frente da polícia.


Como se descreve um dia que pode vir a ser página gigante da história do Egito? Os jornalistas devem abandonar as análises e apenas narrar o que aconteceu da manhã à noite, numa das cidades mais antigas do mundo. Então, aí está a história como a anotei, garatujada no meio da multidão que não se rendeu a milhares de policiais uniformizados da cabeça aos pés e e milicianos sem uniforme.


Começou na mesquita Istikama na Praça Giza: um sombrio conjunto de apartamentos de blocos de concreto, e uma fileira de policiais especializados em controle de tumultos que se estendia até o Nilo. Todos sabíamos que Mohamed ElBaradei ali estaria para as orações do meio dia e, de início, parecia que não haveria muita gente. Os policiais fumavam. Se fosse o fim do reinado de Mubarak, aquele começo do fim pouco impressionava.


Mas então, logo que as últimas orações terminaram, uma multidão de fiéis apareceu na rua, andando em direção aos policiais. “Mubarak, Mubarak”, gritavam, “a Arábia Saudita o espera”. Foi quando os canhões de água foram virados na direção da multidão – a polícia estava organizada para atacar os manifestantes, mesmo não sendo atacada. A água atingiu a multidão e em seguida os canhões foram apontados diretamente contra El Baradei, que retrocedeu, encharcado.


El Baradei desembarcara de Viena poucas horas antes, e poucos egípcios creem que chegue a governar o Egito – diz que só veio para ajudar como negociador –, mas foi atacado com brutalidade, uma desgraça. O político egípcio mais conhecido e respeitado, Prêmio Nobel, trabalhou como principal inspetor da Agência Nuclear da ONU, ali, encharcado como gato de rua. Creio que, para Mubarak, El Baradei não passaria de mais um criador de confusão, com sua “agenda oculta” – essa, precisamente, é a linguagem que o governo egípcio fala hoje.


Aí, começaram as granadas de gás lacrimogêneo. Alguns milhares delas, mas algo aconteceu, enquanto eu caminhava ao lado dos lança-granadas. Dos blocos de apartamentos e das ruas à volta, de todas as ruas e ruelas, centenas, depois de milhares de pessoas começaram a aparecer, todas andando em direção à Praça Tahrir. Era o movimento que a polícia queria impedir. Milhares de cidadãos em manifestação no coração da cidade do Cairo dariam a impressão de que o governo já caíra. Já haviam cortado a internet – o que isolou o Egito, do resto do mundo – e todos os sinais de telefonia celular estavam mudos. Não fez diferença.


“Queremos o fim do regime”, gritavam as ruas. Talvez não tenha sido o mais memorável brado revolucionário, mas gritaram e gritaram e repetiram, até derrotar a chuva de granadas de gás lacrimogêneo. Vinham de todos os lados da cidade do Cairo, chegavam sem parar, jovens de classe média de Gazira, os pobres das favelas de Beaulak al-Daqrour, todos marchando pelas pontes sobre o Nilo, como um exército. Acho que sim, são um exército.


A chuva de granadas de gás continuava sobre eles. Tossiam e esfregavam os olhos e continuavam andando. Muitos cobriram a cabeça e a boca com casacos e camisetas, passando em fila pela frente de uma loja de sucos, onde o dono esguichava limonada diretamente na boca dos passantes. Suco de limão – antídoto contra os efeitos do gás lacrimogêneo – escorria pela calçada e descia pelo esgoto.


Foi no Cairo, claro, mas protestos idênticos aconteceram por todo o Egito, como em Suez, onde já há 13 egípcios mortos.


As manifestações não começaram só nas mesquitas, mas também nas igrejas coptas. “Sou cristão, mas antes sou egípcio” – disse-me um homem, Mina. “Quero que Mubarak se vá!” E foi quando apareceram os primeiros bataggi sem uniforme, abrindo caminho até a frente das fileiras da polícia uniformizada, para atacar os manifestantes. Estavam armados com cassetetes de metal – onde conseguiram? – e barras de ferro, e poderão ser julgados e condenados por agressão grave e assassinato, se o regime de Mubarak cair. São pervertidos. Vi um homem chicotear um jovem pelas costas, com um longo cabo amarelo. O rapaz gritou de dor. Por toda a cidade, os policiais uniformizados andam em pelotões, o sol refletindo no visor dos capacetes. A multidão já deveria ter sido intimidada, àquela altura, mas a polícia parecia feia, como pássaros encapuzados. E os manifestantes alcançaram a calçada da margem leste do Nilo.


Alguns turistas foram colhidos de surpresa no meio do espetáculo – vi três senhoras de meia idade, numa das pontes do Nilo (os hotéis, claro, não informaram os hóspedes sobre o que estava acontecendo –, mas a polícia decidiu que fecharia a extremidade leste do viaduto. Dividiram-se outra vez, para deixar passar as milícias não uniformizadas, e esses brutamontes atacaram a primeira fileira dos manifestantes. E foi quando choveu a maior quantidade de granadas de gás, centenas de granadas, em vários pontos, contra a multidão que andava sem parar por todas as grandes vias, em direção cidade. Os olhos ardem, e tosse-se horrivelmente, até perder o fôlego. Alguns homens vomitavam nas soleiras das portas fechadas das lojas.


O fogo começou, ao que se sabe, noite passada, na sede do NDP, Partido Democrático Nacional, partido de Mubarak. O governo impôs um toque de recolher, e há relatos de tropas na cidade, sinal grave de que a polícia pode ter perdido o controle dos acontecimentos. Nos abrigamos no velho Café Riche, perto da Praça Telaat Harb, restaurante e bar minúsculo, com garçons vestidos de azul; e ali, tomando café, estava o grande escritor egípcio Ibrahim Abdul Meguid, bem ali à nossa frente. Foi como dar de cara com Tolstoi, almoçando em plena revolução russa. “Mubarak está sem reação!” – festejou ele. “É como se nada estivesse acontecendo. Mas vai, agora vai. O povo fará acontecer!” Sentamos, ainda tossindo e chorando por causa do gás. Foi desses instantes memoráveis, que acontecem mais em filmes que na vida real.


E havia um velho na calçada, cobrindo os olhos com a mão. Coronel da reserva Weaam Salim do exército do Egito, que saiu para a rua com todas as suas medalhas da guerra de 1967 contra Israel – que o Egito perdeu – e da guerra de 1973 que, para o coronel, o Egito venceu. “Estou deixando o piquete dos soldados veteranos” – disse-me ele. “Vou-me juntar aos manifestantes”. E o exército? Não se viram soldados do exército durante todo o dia. Os coronéis e brigadeiros mantêm-se em silêncio. Estarão à espera da lei marcial de Mubarak?


As multidões não obedeceram ao toque de recolher. Em Suez, caminhões da polícia foram incendiados. Bem à frente do meu hotel, tentaram jogar no rio Nilo um caminhão da Polícia. Não consegui voltar à parte ocidental do Cairo pelas pontes. As granadas de gás ainda empesteiam as margens do Nilo. Mas um policial ficou com pena de nós – emoção absolutamente inexistente, devo dizer, ontem, entre os policiais – e nos guiou até a margem do rio. E ali estava uma velha lancha egípcia a motor, de levar turistas, com flores plásticas e proprietário disponível. Voltamos em grande estilo, bebendo Pepsi. Cruzamos com uma lancha amarela, super rápida, da qual dois homens faziam sinais de vitória para a multidão sobre as pontes. Uma jovem, sentada na parte de trás da lancha, carregava uma imensa bandeira: a bandeira do Egito.


Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST
O texto abaixo é uma compilação de 2 posts do blog Curso Básico de Jornalismo Manipulativo. O título é um link para o blog.



Pílulas do CBJM – 1





Para nossos alunos, dicas, lições, avisos de cursos e outras informações necessárias para a formação de um bom manipulador da opinião pública.

Os não-alunos terão somente o prazer superficial da leitura, mas os alunos captarão a sabedoria profunda das frases e perceberão os aspectos fundamentais da atuação de nossos principais representantes na grande mídia.

* * *

MINILIÇÕES


. Se você é ruim em ênfases, faça como Reinaldo Azevedo: USE MAIÚSCULAS E EXCLAMAÇÕES!!!!

. O golpe do grampo sem áudio já caducou. Ele é mais ultrapassado que o bigode do Merval Pereira.

. O Twitter é nosso aliado: um falso escândalo se espalha rápido. Já criou seu falso escândalo hoje?

. Controle sua expressão facial na TV. Só William Waack tem direito de fazer cara de nojo ou derrotado.

. Jamais rasteje ante alguém do “nosso lado”. Só William Bonner tem direito de pedir “perdão, candidato”.

. Use qualquer argumento para contestar o “outro lado”. Não exigimos coerência, mas eficiência na luta.

. Estratégia em andamento: inviabilizar o Imbatível em 2014 (o Inominável). Depois cuidaremos da sua cria.

. Jamais elogie Dilma, a não ser para depreciar o Inominável. Tampe o nariz, faça o contraste e vá em frente.

. Fotos servem para ilustrar nosso aliado e deslustrar nosso adversário.

. Vá devagar com nossos especialistas: a coisa está tão feia que tivemos de fazer do Demétrio Magnoli um astro.

. Aprenda: só FHC pode defender a legalização da maconha sem ser acusado de parceiro do narcotráfico.

. Aprenda: liberdade de imprensa existe para a imprensa censurar a divulgação de notícias favoráveis ao “outro lado”.

. Aprenda: (protect) após “Nelson Jobim” no WikiLeaks significa que você deve proteger sua condição de espião.

. “Amnésia seletiva” é o esquecimento de fatos que comprometam o “nosso lado”. Como a relação entre Serra e Chevron.

. Aprenda: uma CPI é um ótimo pretexto para desviar a atenção da gestão incompetente dos nossos aliados.

. Aprenda: “deixar sangrar” é uma técnica que não dá certo nem em filme americano, quanto mais em política.

. A manchete *não* precisa combinar com a matéria. E *não deve* combinar, se os fatos forem teimosamente neutros.

. Não esperamos que você faça jornalismo, mas política por meio de matérias jornalísticas. Não é fácil entender?

. Qualquer problema em qualquer iniciativa do “outro lado” é uma falha vergonhosa e inadmissível. Explore-a.

. Manchetes são lidas nas ruas. Críticas a elas, em blogs e caixas de comentários. Por enquanto, estamos ganhando.

. O prazo de validade de um escândalo falso baixou para 2 ou 3 dias. Fique ligado e entre no primeiro.

. Faça bem o seu serviço para não acabar como um sub-Reinaldo Azevedo, como o nosso companheiro Augusto Nunes.

. “Dilma”, “Governo” e “PT” são as palavras nobres da manchete oposicionista. Use e abuse.

. Acuse sem provas. O povo gosta, nossos aliados aproveitam e o “outro lado” se lasca, perdendo tempo com desmentidos.

. Aprenda: em política não há primeiro, segundo ou terceiro turno: há luta. Trégua é uma ilusão estratégica.

. Se você errou na matéria e o “outro lado” corrigiu seu erro, afirme que *ele* corrigiu o erro que você apontou.

. Repita mantras. Não, nada de “OM”: os chavões de defesa e ataque dos nossos colunistas políticos.

. Se você errou 100% de suas previsões pessimistas (e certamente errou), acertou 100% por atacar o inimigo.

. Há muita raiva latente na opinião pública. Crie alvos para ela. Você sabe quais são esses alvos.

. Nunca chame os militares. Pega mal. Deixe esse mico para o José Nêumanne. Ele não conta.

. Se você elogiou o Gilmar Mendes no tempo dele, não se envergonhe. Muitos fizeram coisas piores.

. Se você acha que a situação está ruim, pense no PNBL, na digitalização, no PT ganhando em 2014. Animou-se?

. Modere os elogios a Dilma. Antes era péssima, agora é ótima. Como ficará nossa imagem quando voltarmos a atacá-la?

. Jamais questione a competência dos nossos especialistas. Lembre-se de que nós não questionamos a sua.

. Nenhuma grosseira de Serra com os jornalistas será divulgada enquanto ele ainda tiver cacife eleitoral.

. Aprenda: Os ex-terroristas do “nosso lado” são muito mais civilizados que os do “outro lado”.

. Aprenda: Na luta pela influência e pelo poder, a morte da verdade é um dano colateral aceitável.

* * *

LIVROS DO CURRÍCULO DO CURSO


. “The Free Press, An Essay on the Manipulation of News and Opinion” http://bit.ly/gd3HW2

. “A História Secreta da Rede Globo” http://bit.ly/ggMMsK

. “Constructing Public Opinion” http://bit.ly/fXJ5fo

. “How Mass Media Tries to Pass Off Crap as News” http://bit.ly/fwbOiA

. “A Ditadura da Mídia, de Altamiro Borges” http://bit.ly/g03bH2

. “Images that Injure, Pictorial Stereotypes in the Media”http://amzn.to/fPCUPK

. “Media Wizards: A Behind-the-scenes Look At Media Manipulations”http://bit.ly/hlKIec

. “O Jornalismo dos Anos 90″, de Luis Nassif http://slidesha.re/9aFog2

. “The Media and the Public: ‘Them’ and ‘Us’ in Media Discourse”http://bit.ly/eDwgVP

. “The Politics of Misinformation” http://bit.ly/iaTe7L

. “You Are Being Lied To” http://www.hampapartiet.se/23.pdf

. “The Moral Media, How Journalists Reason About Ethics” http://bit.ly/icZOGN

. “Analysing Newspapers” http://bit.ly/hvbulb

. “The Media Effect: How the News Influences Politics and Government”  http://bit.ly/hnzTlm

. “Communication Power” http://bit.ly/e1AC3P

. “Media Psychology” http://bit.ly/eveTfp

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CURSOS EXTRAS DE 2001


. “A Técnica da Coluna Histérica”, com sua criadora, Eliane Catanhêde. Bônus: protetores de ouvido.

. “Como Defender Golpes de Estado”, com Arnaldo Jabor e Alexandre Garcia. Inscrições somente por convite pessoal.

. “Como Criar CPIs do Fim do Mundo”, com Ali Kamel. Inscrições restritas a editores.

. “Como Fazer Oposição com as Redes Sociais”, com Marcelo Tas. Inscrições restritas à Juventude do DEM.

. “Como Editar Imagens Comprometedoras – O Case Dilma e as Enchentes”, na sede do Projac.

. “A Técnica do Jornalismozinho”, com Josias de Souza, seu criador. Muitas ironiazinhas e piadinhas nas aulas.

. “Como Editorializar as Manchetes”, na sede de “O Globo”. Exemplos de 5 décadas de atuação.

. “A Técnica das Previsões Catastróficas”, com Miriam Leitão. Bônus: caixa de antidepressivo.

. “Como Criar um Mar de Lama Nas Ondas da Web”, com Soninha Francine. Inscrições anônimas.

. “Como Fabricar Especialistas Midiáticos”, com a turma da CBN. Patrocínio: Instituto Millenium.

. “A Política do Seu Mestre Mandou”, com as ex-Meninas do Jô. Bônus: decodificador de falas simultâneas.

. “Como Captar Dinheiro do Meio Ambiente”, com o CEO da Fundação Roberto Marinho.

. “O Marketing Social nas Calamidades”, com Luciano Huck. Patrocínio: Peixe Urbano.

. “Tornando-se um Especialista em 7 Dias”, com Eliane Catanhêde. Análise de caso: Os Caças da FAB.

. “Como Criar Capas Caluniosas”, com a equipe da “Veja”. Bônus: 150% de desconto na assinatura anual da revista.

. “Por que Fracassamos no Governo Lula”, com a turma do Instituto Millenium. Preço: 1.000 reais.

. “Defendendo-se dos Ataques da Blogosfera”, com a ombudsman da “Folha”. Vale certificado de isenção jornalística.

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PALESTRAS


. Aula magna no auditório Roberto Marinho: “Como Escrever Artigos Rancorosos”, com FHC.

. “O PIG é uma fantasia”, com o humorista Lúcio Flávio Pinto. Inúmeros exemplos de nossa não-existência.

* * *

LEIS DO CBJM


. Lei Maria Rita Kehl: Ou você é um dos nossos, ou não é. Infiltrado, só no “outro lado”.

. Lei Luiz Carlos Prates: Puxe o saco do patrão, mas não tanto a ponto de arrancá-lo. Há consequências.

. Lei Diogo Mainardi: Você só chegou ao topo porque nós quisemos; vale o mesmo para a sua queda.

. Lei Ali Kamel: Fazer jornalismo é testar hipóteses. Final oculto:… contra o nosso inimigo.

. Lei da Veja: Contra um inimigo, vale tudo e mais um pouquinho. Tire a moral da reta.

. Lei Boris Casoy: Perdoamos a maior barbaridade na medida da utilidade de quem a enunciou.

. Lei Soninha Francine: Sua imagem pode ir a 0, mas sua conta bancária irá a 1000.

. Lei Lucia Hippolito: Se o telefone está piscando, não fale: o “outro lado” não perdoa nossos erros.

. Lei Reinaldo Azevedo: No post, você é um só; na caixa de comentários, pode ser muitos.

. Lei da Satiagraha: O limite de seus valores é o interesse financeiro dos seus patrões.

. Lei Guilherme Fiuza: Ser um nada no PIG também é sexy (uma socialite que o diga).

. Lei Demétrio Magnoli: Ex-esquerdistas desestimulam defecções, por sua imagem de bajuladores da direita.

. Lei Miriam Leitão: A notícia mais positiva esconde a semente de sua própria destruição.

. Lei Ricardo Noblat: Entrar para o PIG pode ser um programa lucrativo.

. Lei José Nêumanne: O PIG deixa cantar de galo, mesmo que você seja um pinto.

. Lei William Bonner: Trate nosso consumidor como um Homer, e ele lhe dará uma surra homérica.

. Lei Cristiana Lôbo: Fiel é aquele que revela seu verdadeiro lado até em atos falhos (ou falas falhas).

. Lei Marina Silva: Vale fingir que você é contra nós, desde que seja inimigo do nosso inimigo.

. Lei Ali Kamel: Uma bolinha de papel pode gerar uma avalanche de críticas.

. Lei do Crucifixo da Dilma: Nosso inimigo merece apanhar pelo que fez e pelo que não fez.

* * *

LEMBRETE


. Lembrete aos alunos do CBJM: Já fizeram sua manipulaçãozinha hoje?



O PIG é uma fantasia* – 1





*Título de artigo de Lúcio Flávio Pinto.


“As frases falam por si só (sic).”

Lauro Jardim.


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Prevendo

“A crise ainda está no começo. Se atingir o Brasil fortemente, como parece que vai atingir, um dos efeitos será a queda da popularidade do presidente.Quando isso ocorrer, o primeiro partido a sair da base do governo será o PMDB [...]“

Marco Antonio Villa (28/10/2008).


*

“Enquanto o mundo pensa em reduzir estímulos, Brasil dá incentivo ‘fora de hora’ [para enfrentar a crise internacional].”

Miriam Leitão (26/11/2009).


*

“Quando foi proposto, em maio, já não tinha cabimento; ontem, parecia idéia de um governo alienado.

O Fundo [Soberano] caducou completamente, e a operação com o Fed foi o atestado médico da maluquice.”

Miriam Leitão (30/10/2008).

O Fundo Soberano foi criado em dezembro de 2008.


*

“Cada quinzena de campanha para presidente vale um ano de experiência eleitoral. Mas não dará tempo para Dilma ganhar. Serra vence o primeiro turno. E aí vem a questão. Vence no primeiro turno? Ou haverá segundo? O mais provável é que numa eleição plebiscitária ele vença no primeiro turno. Lembre-se que a TV é alternada dia sim, dia não. E que o primeiro turno é cheio de ruídos.”

Cesar Maia (3/2/2010).


*

“Se a ministra Dilma Rousseff não pode dar uma entrevista sem incorrer no risco do desastre, se precisa ser escondida numa situação adversa, se para concorrer a uma eleição necessita que sejam removidos todos os obstáculos de seu caminho e ainda precisa de alguém que lhe transfira votos, é de se perguntar com que atributos pessoais e políticos Dilma governará o Brasil.

“A menos que tenha sido escolhida para, em caso de vitória, fazer mera figuração como presidente de direito enquanto Lula preside o Brasil ao molde de um terceiro mandato de fato.”

Dora Kramer (18/11/2009).


*

“Serra precisa de Gabeira para ter um bom candidato a governador [no Rio de Janeiro].”

Dora Kramer (7/4/2010).


*

“O que interessa nem é o número de hoje, é o potencial de amanhã. Serra, conhecido por 69%, tem a menor rejeição (29%). Dilma, agora já conhecida por 32%, tem a maior (41%). Isso pode indicar que o eleitorado é receptivo a Serra e, quando vai sabendo quem é Dilma, menos tende a votar nela.”

Eliane Catanhêde (13/12/2009).


*

“Dilma é uma catástrofe de proporções bíblicas, apocalípticas. A cada entrevista, a cada manifestação, o Êxodo parece cada vez mais próximo.”

Celso Arnaldo (7/4/2010).


*

“Caso Dilma seja eleita, terá os ventos a favor na economia, o Congresso às suas ordens e poderá usar e abusar de seus poderes, baixando o centralismo democrático para (ou contra) a imprensa, a área militar e os costumes.”

Eliane Catanhêde (19/10/2010).


*

“O Poder de Aécio

“Político das viradas eleitorais impossíveis, o neto de Tancredo pode ser um fator decisivo na campanha presidencial.”

Capa da revista “Veja” de 20/10/2010.

*

“Primeira presidente, Dilma toma posse hoje ofuscada pela despedida de Lula.”

UOL (1/2/2011).


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Comentando a posse


Dilma se emocionou várias vezes, e chegou a chorar.

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Disfarçando


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Indignando-se


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Fazendo jornalismo profissional

“Te cuida, Dilma: não demora Lula vai aparecer no Alvorada com a família pedindo para passar uns dias…”

Lauro Jardim.


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Anormalidade = Lula.

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“Nasceu o PACzinho.” [Sobre o PAC contra a miséria.]

Eliane Catanhêde.


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“Lula ainda não se deu conta, mas, livre dos afazeres de presidente, poderia substituir Tiririca, agora eleito deputado, nos programas humorísticos da emissora do companheiro bispo Macedo.”

Josias de Souza.


*

“Lula dá uma pista do que fará quando for ‘ex’: teatro

[...]

“Em quase cinco centenas de anos, o teatro saiu de Shakespeare e veio dar em Lula. Quem diria!”

Josias de Souza.


*

“E se o BOPE, a Polícia e as Forças Armadas, depois da operação no Rio, fossem limpar o Congresso Nacional?

“8:02 AM Nov 26th via TweetDeck”

Marcelo Tas.


*

“Em fim de mandato, Lula escapou do perigo [de fazer o teste de alfabetização]. Se sonha com a volta em 2014, convém preparar-se desde já.”

Augusto Nunes.



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“E o Brasil melhorou mesmo em oito anos de Lula?”

Juca Kfouri.


* * *

Fofocando

“Exército equipou o forte onde Lula passa férias com secador de cabelo.”

“Folha de S. Paulo.”


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“Análise: Look da presidente põe em xeque projeto de prêt-à-porter brasileiro de prestígio.”


“Após esnobar grifes nacionais na posse, Dilma quer colaborar com moda brasileira.”

“Folha de S. Paulo.”


*

“Marisa pediu atenção especial à adega de Lula durante mudança.”

“O Estado de S. Paulo.”


* * *

Inventando


“Adeus suplentes, adeus mamata!”

Eliane Catanhêde (sobre o “fim” da suplência para senadores).


*



“Detalhe: o debate ocorreu no dia 23 de outubro de 2006 e teve 16 pontos de audiência, de acordo com o Ibope. Foi o segundo debate mais visto em todo o período eleitoral daquele ano.” [Marco Antonio Araujo.]



*


“[Ministro Paulo] Bernardo enterra plano de regulação de mídia.”

“O Estado de S. Paulo.”



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1. As invenções.

“Bíblia e crucifixo são retirados do gabinete de Dilma no Planalto.” (Título da matéria.)

“Em sua primeira semana, Dilma Rousseff fez mudanças em seu gabinete. Substituiu um computador de mesa por um laptop e retirou a Bíblia da mesa e o crucifixo da parede.”

“Folha Poder.”


2. Os fatos.

“1 – Não houve a retirada do crucifixo do gabinete presidencial. A peça pertencia ao ex-presidente Lula que a recebeu de um artista no início do governo. É de origem portuguesa.

“2 – Ao contrário daquilo que afirmaram na mídia, não houve a retirada do exemplar da Bíblia de seu gabinete. Ela [a Bíblia] permanece na sala contígua ao gabinete, em cima de uma mesa – onde por sinal a presidenta já encontrou ao chegar ao Palácio do Planalto.

“3 – Embora goste de trabalhar com laptop, a presidenta não mudou o computador da mesa de trabalho. Continua sendo um desktop.”


3. O crucifixo, 8 dias antes, no próprio UOL.

“Pequenos barris de biodiesel e petróleo, bonecos artesanais, uma bandeira do Estado de Pernambuco e uma imagem de Jesus Cristo na cruz. Esses são alguns objetos pessoais de Luiz Inácio Lula da Silva que compuseram o gabinete presidencial do Brasil nos últimos oito anos, durante o governo do petista, e que devem partir com ele com o fim do segundo mandato.”


*

“Não, nada disso: o papel da grande imprensa é ir atrás das possíveis causas,testando todas as hipóteses: caos aéreo, pista escorregadia, defeito na aparelho, falha humana.”

Ali Kamel.


* * *

Editorializando


“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu asilo a Sakineh em julho, levando a uma constrangedora recusa pública da oferta pelo Irã, que disse que Lula é “uma pessoa humana e sensível”, mas não tinha conhecimento de todos os fatos.”

Adaptação feita pela “Folha” de matéria originária da Agência France Press, em Berlim.


*

“Aqui, houve uma campanha no twitter do #ligaLula, pedindo que o presidente brasileiro usasse sua influência e amizade com o lider iraniano pedindo por ela [Sakineh]. Ele relutou e disse que era assunto interno e depois, por força do palanque, mas em boa hora, começou a usar os canais diplomáticos e as declarações em favor da iraniana.”

Miriam Leitão.


* * *

Mudando a História


“FHC tem razão ao dizer que foi ele, e não Lula, quem mudou o Brasil.”

Lucia Hippolito.


*

“Por que o Brasil está fazendo tanto sucesso? Porque tem um mar de dinheiro barato sobrando no mundo e para algum lugar rentável ele tem de ir. Adivinha? Para o Brasil, claro.”

Marcos Nobre.


* * *

Generalizando


Legisladores dos EUA criticam Brasil por reconhecer Estado palestino.”

Adaptação feita pela “Folha” de matéria originária da Agência France Presse.

A crítica foi feita apenas por dois deputados americanos ligados ao Estado de Israel.


* * *

Exagerando


Telegrama da embaixador dos EUA no Brasil, John Danilovich, para Washington (22/5/2005), no qual se lê o trecho: “Integrando vários grupos clandestinos, ela [Dilma Rousseff] organizou três assaltos a banco e depois co-fundou o grupo guerrilheiro Vanguarda de Palmares” (22/5/2005). Não há menção à fonte da informação em que se baseou o telegrama.


*

“A bomba Battisti e a bomba dos caças são exemplos contundentes da incapacidade de Lula de enfrentar o que tem de ser enfrentado, mas há outros, como o caos aéreo de quase um ano.”

Eliane Catanhêde.


*

“Quase o fantasma de 1964 ressuscita em 2010.”

Ruy Fabiano.


*

“Assim como os talibãs resolveram dinamitar os budas esculpidos no Vale do Bamyran, no Afeganistão, em 2001, vamos nos preparar para a possibilidade de os petralhas quererem dinamitar o Cristo Redentor.”

Reinaldo Azevedo.


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“Os entusiasmados que me desculpem, mas sou obrigado a fazer a pergunta de sempre diante das ações de Assange: se todos agirem como ele, o mundo será melhor ou pior?  Será bem pior! A democracia se inviabiliza. “

Reinaldo Azevedo.


* * *


Vibrando


“Lula, pela quinta vez, não conseguiu ganhar no primeiro turno.”

Dora Kramer.


* * *


Agitando a galera


“Em sendo assim, a Frente Anti-Corrupção fica com cara de Frente de Oposição, o que não é bom. Ciro Gomes, adere! Aloizio Mercadante, adere!Beto Albuquerque, adere! Gente boa do PT, do PSB, do PDT, do PMDB, do PC do B, vai nessa!

Eliane Catanhêde.



* * *


Comparando Dilma com Lula (ou: Agora ela é boa)

Diferente de Lula, que só fez bajular os militares, Dilma Rousseff impôs autoridade civil ao cobrar compostura histórica do general José Elito, chefe do gabinete de Segurança Institucional, nas declarações sobre brasileiros desaparecidos durante a ditadura.”

Dora Kramer.

*


*

“Tudo indica que ela está querendo marcar uma conduta discreta e eficiente, na impossibilidade de competir com a capacidade midiática, quase histriônica, do seu antecessor e padrinho político.”

Merval Pereira (7/1/2010).


* * *

Determinando as regras do jogo


“Jobim despreza opinião pública e convida Genoíno para cargo na Defesa.”

Lucia Hippolito.


*


“2011 anima a oposição. Os problemas de gestão política serão inevitáveis num governo montado por cotas. Virão ampliados num ano frágil economicamente, vis a vis a lembrança do mito. Abrem um amplo espaço à oposição.

“Se fatos passam a ter cobertura da imprensa em forma de campanha, mais fácil será multiplicar em direção à sociedade e galopar os espaços abertos. E a artilharia deve ser sistemática e diversificada, à moda europeia. Nunca se sabe qual é o ‘tipping point’.”

Cesar Maia.


* * *

Agredindo

“Segunda-feira já está chegando, e tudo volta ao normal por aqui. Assunto não falta.

“O mais momentoso são os passaportes diplomáticos concedidos à FamíliaSoprano [a família de Lula].”

Reinaldo Azevedo.


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“Já se sabia que o presidente Lula considerava ponto de honra eleger Dilma Rousseff, mas não que ele transformaria o governo num comitê eleitoral. A intensidade com que ele fez campanha é um risco para a qualidade da democracia brasileira.”

Miriam Leitão.


*

“É de Clóvis Rossi a melhor definição de Lula: ele é inimputável. Diz e faz o que quer, com quem quer, na hora que quer. A sua verdade passou a ser a verdade nacional. O Estado é ele! Quando a Petrobras trocou o nome de Tupi pelo de Lula, empresa e presidente estavam rindo da cara dos 44 milhões que não votaram em Dilma.”

Eliane Catanhêde.


*

“Muito já se falou sobre isso, mas é sempre bom repetir: o Brasil avançou em quase tudo da redemocratização para cá, menos na política, cujos métodos são exatamente os mesmos da primeira metade do século passado. E agora, no governo Lula, celebrados como evidência de habilidade.”

Dora Kramer.


*

Lula, repito há tanto tempo, representa o que há de mais arcaico na história do Brasil: a cultura do compadrio, da ação entre amigos, da sobreposição dos laços pessoais ao espírito público. E o resultado disso é mais do que o desperdício de dinheiro nos ralos da corrupção; é o rebaixamento geral dos valores de uma sociedade e a escassez de critérios e procedimentos técnicos no uso da máquina pública.”

Daniel Piza.


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“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é mesmo incorrigível. Quer tudo e muito mais. Não lhe basta ser o mais popular governante que o Brasil já teve; é preciso ser unânime. Tampouco lhe é suficiente vencer; é preciso tripudiar, expor as vísceras dos derrotados. E quando não é de todo cruel – aquele que quer ‘extirpar’ de vez quem se opõe a ele – age com requintes de esperteza.”

Mary Zaidan.


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Lula tem séria atrofia de senso ético, combinada com elevada dose de oportunismo. Rescaldo do esquerdismo primitivo, pois, ‘ética é coisa de burguês’! Mas isso estimulou o lumpesinato da política a perpetrar um tsunami de assaltos ao erário, junto com uma devastação dos valores nacionais como nunca se viu neste país.”

Marco Antonio Rocha.


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“Os abusos verbais de Lula, às vezes à beira do impublicável, remetem ao espetáculo da política personalista e ao lado rústico de um temperamento construído sob a servidão da vicissitude.”

“O Estado de S. Paulo”.


*

“Resta saber qual é o porrete que a Dilma vai usar. Talvez seja um: ‘Olha, ou vocês me apoiam, PT, PMDB e demais partidos coligados, ou vocês me dão de fato força para governar, ou meu governo será um fracasso. Ou eu passarei à História como a primeira presidente da República, e que não deu certo. E aí isso estragará o projeto de todos vocês, de todos vocês que me fizeram presidente. Porque eu, Dilma, não tinha projeto. E não terei‘.”

Ricardo Noblat.


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“Integrantes do time de elite do ex e da atual presidente, Jobim e Garcia foram e são mais do que amigos leais. São mantenedores de uma acintosa apropriação do público pelo privado, algo que Lula semeou e adubou com maestria e enorme sucesso. A ponto de se sentir à vontade de, como ex, perpetuar os abusos.”

Mary Zaidan.


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“Por enquanto, eu me limito a ver seu governo [o de Lula] como as obras de reforma no Palácio do Planalto: demoradas, carísssimas, e com poquíssimo(sic) tempo de uso já precisando ser reformadas.”

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa.


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Como [Lula] não lê nada, a realidade lhe é narrada pelos puxa-sacos que o rondam, como rondam qualquer governante, e que não querem ser portadores de novas desagradáveis.”

João Ubaldo Ribeiro.



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“Enquanto aqui o presidente [Lula] que sai saca sem perdão no cheque especial de sua origem pobre, nos Estados Unidos o ser negro está explicitamente ausente do discurso de Barack Obama. Pelo menos na função fartamente mobilizada aqui pelo homólogo: vetor de autovitimização em situações de dificuldade política.”

Alon Feuerwerker.


* * *

Marcando posição


“Porque, na verdade, procurando atingir-nos, a subversão visa atingir não apenas este jornal, mas toda a Imprensa deste país, que a desmascara e denuncia seus crimes.”

Editorial de Octávio Frias Filho, em 22 de setembro de 1971, sobre o ataque aos carros da “Folha de S. Paulo”, como represália ao seu  uso para transportar opositores da Ditadura aos locais de tortura da Operação Bandeirante.


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“Honduras não foi um caso de golpe clássico, e Zelaya não tinha o apoio da maioria.”

Merval Pereira.


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“Não há nenhuma surpresa em Lula ser o brasileiro mais confiável na pesquisa do Datafolha.

“É assim mesmo: na democracia é cada cidadão, um voto. O de um bandido e o de um herói valem o mesmo. Mas é desolador saber que tantos homens e mulheres com tão pouco acesso a um mínimo de informação vão continuar elegendo os piores candidatos — ignorando que eles continuarão a atrasar a sua vida. E a de sua aldeia, seu estado e seu país.”

Nelson Motta.


* * *


Fechando com chave de ouro


“O importante é continuar me preocupando com a ética no jornalismo e na política.”

Merval Pereira.



Reproduzo abaixo uma carta que recebi através da amiga Diana Iliescu.

De um lado, o pesadelo.

Por Márcio Madeira

Uma madrugada sem dormir, a falta de luz, o alto barulho da chuva vencendo um silêncio de tensão compartilhada. Ta chovendo demais, ta chovendo demais. Pela janela a luz de relâmpagos revela a rua alagada, enquanto o estrondo e o chacoalhar de um carro que tentava escapar revelam o enorme buraco escondido pela água escura. O dia amanhece, os olhos ainda exploram os estragos visíveis, quando o som indescritível de uma avalanche anuncia algo de grandioso acontecendo. O coração dispara, o olhar se volta para a esquerda, e a consciência duvida do que os olhos estão vendo. Todo o morro esta descendo. É muita, muita terra. O entulho some da vista, escondido pelos prédios. Um forte estrondo é ouvido, surge uma gigantesca nuvem de poeira. Não era encosta, não havia falhas na topografia nem tampouco casas em local de risco. É mata nativa, reserva natural. Se ali está desabando, então todo o resto já terá caído.

O pensamento se volta para os amigos que ali residem. Nomes, rostos. Corremos para o telefone. Mudo. Ainda chove forte, mas é preciso ir lá ver. Há lama e destruição por todos os lados, pessoas choram e correm. Na rua anterior um verdadeiro rio impede a passagem, permitindo apenas ver um caminhão dos bombeiros esmagado por entulhos. “Seis bombeiros morreram” – alguém diz, aos prantos. Não era boato. Mais alguns minutos e a chuva para. Podemos chegar mais perto. Corpos passam em macas o tempo todo, bombeiros perguntam se alguém tem experiência em primeiros socorros ou reanimação. É difícil saber qual a melhor forma de ajudar. Amigos de infância estão debaixo de uma montanha de lama e escombros, onde antes havia belas casas tradicionais. Uma grávida é resgatada enquanto dá à luz um filho morto. Do outro lado da praça, a água cobre carros e pontes, invade o shopping. Pessoas buscam lugares elevados, cachorros nadam a seus lados. Há pânico e informações desencontradas por todos os cantos. “A igreja de Santo Antônio está destruída”, “o teleférico acabou”, “edifício tal está para cair”, “fulano de tal morreu”, “estrada tal está interditada”, “tal bairro não existe mais”.

Uma volta pela cidade começa a dar a dimensão da tragédia, enquanto a luz não volta e não é possível ver os jornais. A coisa foi grande, foi muito grande. Devem estar tentando falar com a gente, querendo notícias. O drama extrapola os limites da zona atingida. Não há como tranqüilizar amigos ou parentes. Voltamos para casa. A comida na geladeira ameaça estragar. É preciso fechar o registro de água, para que a lama e o esgoto não contaminem o que resta na cisterna. É preciso economizar. Há pessoas presas em elevadores, e a luz não voltará em menos de dois dias. A subestação foi afetada, postes caíram, e há fios de alta tensão entre os escombros, onde também há vazamento de gás. O comércio está fechado, hospitais estão isolados e/ou destruídos, não há gasolina. Amigos se reencontram e cumprimentam em silêncio. Não cabe perguntar se está tudo bem, é preciso buscar novas formas de saudação.

O sol se põe, é preciso tentar dormir. Mas como? Bateria do celular começa a acabar, na eterna busca por sinal. Lanternas e velas se esgotam apesar do racionamento. O mundo fica cada vez mais escuro, somos todos cegos. A noite se arrasta no medo de que volte a chover. Um banho rápido e gelado no escuro talvez ajude a passar o tempo e a diminuir um pouco a sensação de angústia e tensão.

O sol torna a nascer. Parentes de vítimas não se afastam dos montes de escombros. Passaram a noite por lá. Não existem ônibus circulando, pessoas caminham dias inteiros. O dinheiro é curto, bancos e caixas eletrônicos não funcionam. Filas se formam nos poucos estabelecimentos que se atrevem a funcionar. A entrada de pessoas é controlada, pois há medo de saques. Os preços se multiplicam, uma única vela pode custar até dez reais. Revolta e tristeza invadem a alma: “há necessidade disso? Já não sofremos o bastante?”.

A presidente está na nossa rua, os helicópteros não param. “A coisa deve ter sido ainda maior do que parece” – pensamos. Ainda sem luz, não temos tanta noção. A cidade se enche de bombeiros, policiais, homens do BOPE, da Guarda Nacional. O Exército também está aqui, é muita gente trabalhando. Na praça ergue-se um hospital de campanha; no Instituto de Educação um IML é improvisado. Um médico pede um pouco de pomada descongestionante, pois o cheiro dos corpos já em decomposição começa a se tornar insuportável, e se espalha por toda a cidade.

Uma grande caixa d’água se rompe num bairro afastado. A notícia ganha proporções catastróficas no boca-a-boca de uma população apavorada. Interfone e telefone tocam ao mesmo tempo. “Corre que a represa rompeu, vai inundar a cidade inteira, a água vai chegar até o segundo andar”. Bombeiros apavorados sobem em caminhões, doentes são transportados para os andares superiores de hospitais improvisados, pessoas são pisoteadas e atropeladas, ou brigam ferozmente por uma vaga nos caminhões que abandonam o centro à toda velocidade.

Não haveria volume d’água na maior represa da cidade que fosse suficiente para causar nem um milésimo do que era alertado, mas pouca gente consegue pensar calmamente quando até mesmo os militares estão em pânico. Alarme falso, terror real.

De outro lado, a esperança.

Caminhões com donativos começam a chegar um após o outro, enquanto pessoas surgem de todas as cidades dispostas a ajudar. Os telefones começam a tocar timidamente, ainda é difícil conseguir contato. Do outro lado da linha vozes amigas choram de alívio a cada alô.

Boas notícias surgem, de vez em quando. Existem sobreviventes, algumas pessoas são resgatadas com vida. Em Friburgo, no bairro de Duas Pedras, o morador da casa mais alta, próxima à Fundação Getúlio Vargas, sente a estrutura de sua casa balançar e sai de imediato. Desce a rua no escuro e debaixo de chuva dando o alarme do desabamento iminente aos seus vizinhos. O morro desaba, mas nenhuma vida se perde ali. Herói da vida real, prefere o anonimato.

O trabalho no voluntariado consola e renova. A sensação inigualável de servir e ser útil, a admiração por ver pessoas de fora trabalhando tanto ou mais que nós, os interessados. Descarregar um caminhão dá muito mais trabalho do que parece, descobrimos isso rapidamente. E imaginar que, em algum lugar do Brasil, este mesmo trabalho estafante foi feito com alegria por pessoas que nem sequer nos conhecem…

A ajuda material é, a um só tempo, útil e simbólica, pois carrega em si uma mensagem invisível. Sacia as necessidades do corpo, cura as doenças da alma. Uma garrafa d’água não é só uma garrafa d’água. É uma declaração de amor e de apoio, de alguém que saiu de casa e foi comprar, levou para o posto de coleta, onde pessoas com amor carregaram o caminhão. É, portanto, material sagrado. É sacrifício do povo, é atitude, é gente comendo menos para que outros possam comer alguma coisa. É carinho materializado.

Nos hemocentros, filas se formam com doadores. Doadores de sangue, doadores de vida. Gente que literalmente deseja dar parte de si mesmo ao próximo. Impossível se manter o mesmo diante de tantas forças, sejam elas tristes ou bonitas. De certo modo, é justo dizer que todos nós morremos debaixo do lamaçal. Não somos mais os mesmos, nem temos o direito de ser.

A consciência sobre as bênçãos e responsabilidades de simplesmente estar vivo se amplia indefinidamente. Continuamos aqui, por algum motivo. Estamos sendo abraçados, protegidos. É preciso justificar isso, é preciso trabalhar, honrar os que se foram, e os que estão ajudando. A vida nos deu uma página em branco. É preciso reconstruir, e fazer uma cidade melhor e mais segura do que antes. É preciso renascer, tornar-se uma pessoa melhor e menos alienada, abandonar o superficial e voltar os olhos ao essencial. É preciso ajudar a quem precisa, dividir o que se tem. Há que brotar vida verdadeira desta mesma lama, adubada por tantos amigos inesquecíveis que por lá pereceram.

A luz voltou, e os jornais falam em tragédia anunciada. Meia verdade. Em Petrópolis e Teresópolis choveram 130 mm. Em Friburgo foram 182. Em algumas cidades a tragédia de fato se concentrou em bairros periféricos e casas em locais de maior risco. Em Friburgo, reservas naturais e mansões desabaram da mesma forma. Casas de classe média alta, a 200 metros de encostas, foram soterradas. Não houve distinção. Falar em drenagem ou muros de contenção diante de tamanha potência é fazer piada de mau gosto. Útil, sim, seria um plano diretor livre de demagogias, e um sistema de alarme eficiente, como o herói anônimo de Duas Pedras.

Chega o domingo, e com ele os primeiros raios de sol. Faz um dia bonito, apesar da poeira, e quando começa a anoitecer o céu assume uma coloração azul deslumbrante. Uma leve brisa sopra pelas ruas desertas, e, por um instante, as sirenes dão uma trégua. Fecho os olhos por alguns segundos torno a abri-los. Perco o olhar nas estrelas e me deixo levar. Em minha cabeça ouço nitidamente a voz vigorosa de Renato Russo cantando.

“Mas é claro que o sol vai voltar amanhã…”
Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST


Prezados leitores, segue uma entrevista exclusiva que os blogueiros progressistas fizeram com o criador do Wikileaks, Julian Assange. O texto introdutório é de Natalia Viana, representante da organização no Brasil.

EXCLUSIVO: Brasileiros entrevistam Julian Assange

“Não somos uma organização exclusivamente da esquerda. Somos uma organização exclusivamente pela verdade e pela justiça”. Essa é apenas uma das muitas afirmações feitas pelo fundador e publisher do WikILeaks, Julian Assange, em entrevista aos internautas brasileiros.

A entrevista será publicada por diversos blogs - entre eles, o Blog do Nassif, Viomundo, Gonzum, Nota de Rodapé, Maria Frô, Trezentos, O Escrevinhador, Blog do Guaciara.

Julian, que enfrenta um processo na Suécia por crimes sexuais e atualmente vive sob monitoramento em uma mansão em Norfolk, na Inglaterra, concedeu a entrevista para internautas que enviaram perguntas a este blog.

Eu selecionei doze perguntas dentre as cerca de 350 que recebi – e não foi fácil. Acabei privilegiando perguntas muito repetidas, perguntas originais e aquelas que não querem calar. Infelizmente, nem todos foram contemplados. Todas as perguntas serão publicadas depois.

No final, os brasileiros não deram mole para o criador do WikiLeaks. Julian teve tempo de responder por escrito e aprofundar algumas questões.

O resultado é uma entrevista saborosa na qual ele explica por que trabalha com a grande mídia - sem deixar de criticá-la -, diz que gostaria de vir ao Brasil e sentencia: distribuir informação é distribuir poder.
Em tempo: se virasse filme de Hollywood, o editor do WikiLeaks diz que gostaria de ser interpretado por Will Smith.

A seguir, a entrevista.

Vários internautas - O WikiLeaks tem trabalhado com veículos da grande mídia – aqui no Brasil, Folha e Globo, vistos por muita gente como tendo uma linha política de direita. Mas além da concentração da comunicação, muitas vezes a grande mídia tem interesses próprios. Não é um contra-senso trabalhar com eles se o objetivo é democratizar a informação? Por que não trabalhar com blogs e mídias alternativas?

Por conta de restrições de recursos ainda não temos condições de avaliar o trabalho de milhares de indivíduos de uma vez. Em vez disso, trabalhamos com grupos de jornalistas ou de pesquisadores de direitos humanos que têm uma audiência significativa. Muitas vezes isso inclui veículos de mídia estabelecidos; mas também trabalhamos com alguns jornalistas individuais, veículos alternativos e organizações de ativistas, conforme a situação demanda e os recursos permitem.

Uma das funções primordiais da imprensa é obrigar os governos a prestar contas sobre o que fazem. No caso do Brasil, que tem um governo de esquerda, nós sentimos que era preciso um jornal de centro-direita para um melhor escrutínio dos governantes. Em outros países, usamos a equação inversa. O ideal seria podermos trabalhar com um veículo governista e um de oposição.
Marcelo Salles – Na sua opinião, o que é mais perigoso para a democracia: a manipulação de informações por governos ou a manipulação de informações por oligopólios de mídia?

A manipulação das informações pela mídia é mais perigosa, porque quando um governo as manipula em detrimento do público e a mídia é forte, essa manipulação não se segura por muito tempo. Quando a própria mídia se afasta do seu papel crítico, não somente os governos deixam de prestar contas como os interesses ou afiliações perniciosas da mídia e de seus donos permitem abusos por parte dos governos. O exemplo mais claro disso foi a Guerra do Iraque em 2003, alavancada pela grande mídia dos Estados Unidos.

Eduardo dos Anjos - Tenho acompanhado os vazamentos publicados pela sua ONG e até agora não encontrei nada que fosse relevante, me parece que é muito barulho por nada. Por que tanta gente ao mesmo tempo resolveu confiar em você? E por que devemos confiar em você?

O WikiLeaks tem uma história de quatro anos publicando documentos. Nesse período, até onde sabemos, nunca atestamos ser verdadeiro um documento falso. Além disso, nenhuma organização jamais nos acusou disso. Temos um histórico ilibado na distinção entre documentos verdadeiros e falsos, mas nós somos, é claro, apenas humanos e podemos um dia cometer um erro. No entanto até o momento temos o melhor histórico do mercado e queremos trabalhar duro para manter essa boa reputação.

Diferente de outras organizações de mídia que não têm padrões claros sobre o que vão aceitar e o que vão rejeitar, o WikiLeaks tem uma definição clara que permite às nossas fontes saber com segurança se vamos ou não publicar o seu material.

Aceitamos vazamentos de relevância diplomática, ética ou histórica, que sejam documentos oficiais classificados ou documentos suprimidos por alguma ordem judicial.

Vários internautas - Que tipo de mudança concreta pode acontecer como consequência do fenômeno Wikileaks nas práticas governamentais e empresariais? Pode haver uma mudança na relação de poder entre essas esferas e o público?

James Madison, que elaborou a Constituição americana, dizia que o conhecimento sempre irá governar sobre a ignorância. Então as pessoas que pretendem ser mestras de si mesmas têm de ter o poder que o conhecimento traz. Essa filosofia de Madison, que combina a esfera do conhecimento com a esfera da distribuição do poder, mostra as mudanças que acontecem quando o conhecimento é democratizado.

Os Estados e as megacorporações mantêm seu poder sobre o pensamento individual ao negar informação aos indivíduos. É esse vácuo de conhecimento que delineia quem são os mais poderosos dentro de um governo e quem são os mais poderosos dentro de uma corporação.

Assim, o livre fluxo de conhecimento de grupos poderosos para grupos ou indivíduos menos poderosos é também um fluxo de poder, e portanto uma força equalizadora e democratizante na sociedade.
Marcelo Träsel - Após o Cablegate, o Wikileaks ganhou muito poder. Declarações suas sobre futuros vazamentos já influenciaram a bolsa de valores e provavelmente influenciam a política dos países citados nesses alertas. Ao se tornar ele mesmo um poder, o Wikileaks não deveria criar mecanismos de auto-vigilância e auto-responsabilização frente à opinião pública mundial?

O WikiLeaks é uma das organizações globais mais responsáveis que existem.

Prestamos muito mais contas ao público do que governos nacionais, porque todo fruto do nosso trabalho é público. Somos uma organização essencialmente pública; não fazemos nada que não contribua para levar informação às pessoas.

O WikiLeaks é financiado pelo público, semana a semana, e assim eles “votam” com as suas carteiras.

Além disso, as fontes entregam documentos porque acreditam que nós vamos protegê-las e também vamos conseguir o maior impacto possível. Se em algum momento acharem que isso não é verdade, ou que estamos agindo de maneira antiética, as colaborações vão cessar.

O WikiLeaks é apoiado e defendido por milhares de pessoas generosas que oferecem voluntariamente o seu tempo, suas habilidades e seus recursos em nossa defesa. Dessa maneira elas também “votam” por nós todos os dias.

Daniel Ikenaga - Como você define o que deve ser um dado sigiloso?

Nós sempre ouvimos essa pergunta. Mas é melhor reformular da seguinte maneira: "quem deve ser obrigado por um Estado a esconder certo tipo de informação do resto da população?"

A resposta é clara: nem todo mundo no mundo e nem todas as pessoas em uma determinada posição. Assim, o seu medico deve ser responsável por manter a confidencialidade sobre seus dados na maioria das circunstâncias - mas não em todas.

Vários internautas - Em declarações ao Estado de São Paulo, você disse que pretendia usar o Brasil como uma das bases de atuação do WikiLeaks. Quais os planos futuros? Se o governo brasileiro te oferecesse asilo político, você aceitaria?

Eu ficaria, é claro, lisonjeado se o Brasil oferecesse ao meu pessoal e a mim asilo político. Nós temos grande apoio do público brasileiro. Com base nisso e na característica independente do Brasil em relação a outros países, decidimos expandir nossa presença no país. Infelizmente eu, no momento, estou sob prisão domiciliar no inverno frio de Norfolk, na Inglaterra, e não posso me mudar para o belo e quente Brasil.

Vários internautas - Você teme pela sua vida? Há algum mecanismo de proteção especial para você? Caso venha a ser assassinado, o que vai acontecer com o WikiLeaks?

Nós estamos determinados a continuar a despeito das muitas ameaças que sofremos. Acreditamos profundamente na nossa missão e não nos intimidamos nem vamos nos intimidar pelas forças que estão contra nós.

Minha maior proteção é a ineficácia das ações contra mim. Por exemplo, quando eu estava recentemente na prisão por cerca de dez dias, as publicações de documentos continuaram.

Além disso, nós também distribuímos cópias do material que ainda não foi publicado por todo o mundo, então não é possível impedir as futuras publicações do WikiLeaks atacando o nosso pessoal.

Helena Vieira - Na sua opinião, qual a principal revelação do Cablegate? A sua visão de mundo, suas opiniões sobre nossa atual realidade mudou com as informações a que você teve acesso?

O Cablegate cobre quase todos os maiores acontecimentos, públicos e privados, de todos os países do mundo – então há muitas revelações importantíssimas, dependendo de onde você vive. A maioria dessas revelações ainda está por vir.

Mas, se eu tiver que escolher um só telegrama, entre os poucos que eu li até agora - tendo em mente que são 250 mil - seria aquele que pede aos diplomatas americanos obter senhas, DNAs, números de cartões de crédito e números dos vôos de funcionários de diversas organizações – entre elas a ONU.

Esse telegrama mostra uma ordem da CIA e da Agência de Segurança Nacional aos diplomatas americanos, revelando uma zona sombria no vasto aparato secreto de obtenção de inteligência pelos EUA.

Tarcísio Mender e Maiko Rafael Spiess - Apesar de o WikiLeaks ter abalado as relações internacionais, o que acha da Time ter eleito Mark Zuckerberg o homem do ano? Não seria um paradoxo, você ser o “criminoso do ano”, enquanto Mark Zuckerberg é aplaudido e laureado?

A revista Time pode, claro, dar esse título a quem ela quiser. Mas para mim foi mais importante o fato de que o público votou em mim numa proporção vinte vezes maior do que no candidato escolhido pelo editor da Time. Eu ganhei o voto das pessoas, e não o voto das empresas de mídia multinacionais. Isso me parece correto.

Também gostei do que disse (o programa humorístico da TV americana) Saturday Night Live sobre a situação: "Eu te dou informações privadas sobre corporações de graça e sou um vilão. Mark Zuckerberg dá as suas informações privadas para corporações por dinheiro – e ele é o 'Homem do Ano’."

Nos bastidores, claro, as coisas foram mais interessantes, com a facção pró- Assange dentro da revista Time sendo apaziguada por uma capa bastante impressionante na edição de 13 de dezembro, o que abriu o caminho para a escolha conservadora de Zuckerberg algumas semanas depois.

Vinícius Juberte - Você se considera um homem de esquerda?

Eu vejo que há pessoas boas nos dois lados da política e definitivamente há pessoas más nos dois lados. Eu costumo procurar as pessoas boas e trabalhar por uma causa comum.

Agora, independente da tendência política, vejo que os políticos que deveriam controlar as agências de segurança e serviços secretos acabam, depois de eleitos, sendo gradualmente capturados e se tornando obedientes a eles.

Enquanto houver desequilíbrio de poder entre as pessoas e os governantes, nós estaremos do lado das pessoas.

Isso é geralmente associado com a retórica da esquerda, o que dá margem à visão de que somos uma organização exclusivamente de esquerda. Não é correto. Somos uma organização exclusivamente pela verdade e justiça – e isso se encontra em muitos lugares e tendências.

Ariely Barata - Hollywood divulgou que fará um filme sobre sua trajetória. Qual sua opinião sobre isso?

Hollywood pode produzir muitos filmes sobre o WikiLeaks, já que quase uma dúzia de livros está para ser publicada. Eu não estou envolvido em nenhuma produção de filme no momento.

Mas se nós vendermos os direitos de produção, eu vou exigir que meu papel seja feito pelo Will Smith. O nosso porta-voz, Kristinn Hrafnsson, seria interpretado por Samuel L Jackson, e a minha bela assistente por Halle Berry. E o filme poderia se chamar "WikiLeaks Filme Noire".
Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST


Reproduzo abaixo, alguns textos pertinentes ao debate que se está travando no momento sobre o Ministério da Cultura. O primeiro é um post do Rovai, editor da revista Fórum. Em seguida, publico (já devidamente autorizado) algumas observações que membros do blogosfera progressista do Rio trocaram sobre o mesmo tema.

Um ponto sobre o qual deve-se estar bem atento é que as acusações contra Ana de Holanda fundamentam-se, por enquanto, apenas em suposições sobre uma possível guinada em relação às políticas de direito autoral.

O próprio Rovai sintetiza assim, num último post sobre o assunto: "O ponto central que quero discutir nesse novo texto é que a retirada do CC do site do ministério parece indicar que a política nesta área de direitos autorais vai ser modificada. O que muda muita coisa."

Abaixo, os textos mencionados:



Ministra da Cultura dá sinais de guerra ao livre conhecimento

Renato Rovai, em seu blog.

A ministra da Cultura Ana de Holanda lançou uma ofensiva contra a liberdade do conhecimento. Na quarta-feira pediu a retirada da licença Creative Commons do site do Ministério da Cultura, que na gestão de Gilberto Gil foi pioneiro em sua adoção no Brasil.

O exemplo do MinC foi àquela época fundamental para que outros sites governamentais seguissem a mesma diretriz e também publicassem seus conteúdos sob essa licença, como o da Agência Brasil e o Blog do Planalto.

A decisão da ministra é pavorosa porque, entre outras coisas, rasga um compromisso de campanha da candidata Dilma Roussef. O site de sua campanha foi publicado em Creative Commons o que denotava compromisso com esse formato.

Além desse ato simbólico, que demonstra falta de compromisso com o livre conhecimento, a ministra pediu o retorno ao Ministério da Cultura do Projeto de Lei de Revisão dos Direitos Autorais, que depois de passar por um debate de sete anos e uma consulta pública democrática no governo Lula, estava na Casa Civil para apreciação final e encaminhamento ao Congresso Nacional.

O que se comenta é que a intenção da ministra é revisar o projeto a partir das observações do ECAD, um órgão cartorial e que cumpre um papel danoso para a difusão da cultura no Brasil.
Para quem não conhece, o ECAD é aquele órgão que entre outras coisas contrata gente para fiscalizar bares e impedir, por exemplo, que um músico toque a música do outro. É uma excrescência da nossa sociedade cartorial.

Este blog também apurou que Ana de Holanda pretende nomear para a Diretoria de Direitos Intelectuais da Secretaria de Políticas Culturais o advogado Hildebrando Pontes, que mantém um escritório de Propriedade Intelectual em Belo Horizonte e que é aliado das entidades arrecadadoras.
Como símbolo de todo esse movimento foi publicado ontem no site do Ministério da Cultura, na página de Direitos Autorais, um texto intitulado “Direitos Autorais e Direitos Intelectuais”, que esclarece a “nova visão” do ministério sobre o tema. Vale a leitura do texto na íntegra , mas segue um trecho que já esclarece o novo ponto de vista:

“Os Direitos Autorais estão sempre presentes no cotidiano de cada um de nós, pois eles regem as relações de criação, produção, distribuição, consumo e fruição dos bens culturais. Entramos em contato com obras protegidas pelos Direitos Autorais quando lemos jornais, revistas ou um livro, quando assistimos a filmes, ou simplesmente quando acessamos a internet.”

Essa ofensiva de Ana de Holanda tem várias inconsistências e enseja algumas perguntas:

A principal, o governo como um todo está a par desse movimento e concorda com ele?

Afinal a presidenta Dilma Roussef se comprometeu, como Ministra da Casa Civil e candidata à presidente da República, a manter o processo de revisão dos direitos autorais e promover a liberdade do conhecimento. E um desses compromissos foi firmado na Campus Party do ano passado, em encontro com o criador das licenças Creative Commons, Lawrence Lessig.

O atual ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, quando candidato ao governo de São Paulo, também se comprometeu com esta luta, inclusive numa reunião que contou com a presença deste blogueiro, na Vila Madalena, em São Paulo.

O que a atual presidenta e o ministro Mercadante pensam desta inflexão?

E o pessoal do PT ligado à Cultura, o que pensa disso?

Muitos dos militantes petistas da área comemoraram a indicação de Ana de Holanda.

Alguns entraram em contato com este blog para dizer que os compromissos anteriores não seriam rasgados.

E agora, o que eles pensam dessas decisões da ministra?

Dilma Roussef foi eleita também para dar continuidade ao governo Lula. Se havia interesse em revisar certas diretrizes na área da Cultura e que vinham sendo implementadas com enorme sucesso e repercussão nacional e internacional, isso deveria ter ficado claro. Isso deveria ter sido dito nos diversos encontros que a candidata e gente do seu partido tiveram com esses setores.

Essas primeiras ações do MinC não são nada alentadoras. Demonstram um sinal trocado na política do ministério exatamente no que de melhor ele construiu nos anos de governo Lula.

Não há como definir de outra forma essa mudança rota: é traição com o movimento pela democratização da cultura e da comunicação.

A ministra precisa refletir antes de declarar guerra a esse movimento social.

E o PT precisa assumir uma posição antes que seja tarde.

Porque na hora H, não é com o povo do ECAD e com o da indústria cultural que ele conta.

PS: Conversei com um amigo que entende de conteúdos licenciados em Creative Commons e ele me disse que a decisão da ministra de mudar o licenciamento do site vale exatamente nada no que diz respeito ao que foi produzido na gestão anterior.

Aquele conteúdo foi ofertado em Creative Commons e o Ministério não pode simplesmente revogar a licença de uso.

Se isso for feito, o Ministério infringe a licença Creative Commons e se torna um infrator de direitos.


E agora, publico a opinião de um colega nosso aqui do #RioBlogProg, a de Frederico Cardoso, presidente do Partido da Cultura:



Rui e demais,

O papo é espinhoso e tem nuances específicas – por exemplo, o uso de uma música por outros intérpretes em bares e tal e o uso da música em filmes.

Uma coisa são os fatos e outras bem diferentes são as interpretações sobre os fatos, seus desdobramentos e suas conexões com outros fatos.

É fato que o selo saiu da página do MinC e também é fato que a Ministra pediu de volta o Projeto de Lei que propõe atualização da legislação de direitos autorais.

Mas o próprio texto do Rovai fala do Ministério da Ciência e Tecnologia e da própria Dilma (Ministra, candidata e agora Presidenta).

Eu colocaria no mesmo caminhão o Ministério das Comunicações, com o Paulo Bernardo à frente (e pela primeira vez que me lembre, fora das mãos das organizações globo e/ou corriola).
Ou seja, temos dois ministérios fortíssimos (inclusive em orçamento) que remam pra onde o Minc de Gil/Juca remava.

E temos o MinC atual – não diria voltando atrás, pois a peleja está em curso – preferindo debater mais internamente e abrindo novas consultas públicas.

Particularmente não acho necessário e o problema real é um certo atraso (que só o tempo nos dirá quanto), pois o Projeto de Lei pronto já seria encaminhado ao congresso, onde a briga seria muito mais feia e provavelmente com o ECAD mais presente nos gabinetes, já que o poder financeiro não está do lado de quem quer as mudanças e isso faz alguma diferença.

Ainda, o referido Projeto de Lei estava pronto desde o meio do ano passado e não foi encaminhado para o Congresso ainda no Governo Lula e na gestão Gil/Juca/Dilma (enquanto Ministra). O motivo é justamente ser terreno pantanoso e justamente no período eleitoral a vaca poderia ir pro brejo (por exemplo, a classe artística poderia se dividir fortemente e poderia não haver aquela mobilização quase 100% a favor de Dilma no segundo turno).

Não sei se é uma estratégia (da Presidenta, da Ministra ou de comum acordo), mas me parece que, tendo a sociedade civil organizada realmente organizada e na pressão e mais o MC e o MCT alinhados e carregando a bandeira da atualização da legislação, o MinC só terá o caminho de apoiar (não esqueçamos da própria Dilma na Casa Civil e em campanha).

Se, para apoiar ou desapoiar, a Ministra precisava ter mais certeza, quero acreditar que o suposto atraso nos aproximará dos outros dois ministérios citados e, trabalhando direitinho, quando a proposta de mudança encaminhada pelo Governo chegar na Câmara, chega mais robusta e com 3 ministérios falados, conversados e com posicionamentos alinhados quanto ao assunto.
Será?

Só o tempo dirá e só atenção e mobilização darão resultado.

Abs,


***

Eu [Miguel] também dei meus pitacos na conversa que tivemos em nossa lista de email:


Eu acho que está havendo afobação. Já foi dito aqui que a espinha dorsal da democratização da comunicação migrou para o Ministério das Comunicaçoes, que tem mais verba e mais poder. Antes estava na mão da direita, agora está na mão da esquerda. Esse é um grande avanço.

Quanto à Ana de Holanda, acho que há divergência entre a visão dos ativistas da cultura e a dos produtores de cultura, tanto é que o Rodrigo acrescenta aspas à expressão "direitos do produtor de cultura", como se esta fosse uma expressão absurda ou maldita. Há muita gente no Brasil e no mundo que vive exclusivamente dos direitos sobre o seu trabalho artístico, e muita gente que não ganha nada sobre o que produz. A cultura deve ser de todos, mas é evidente que é preciso preservar, com muito carinho, a economia da cultura, para remunerar quem vive de suas obras.

Eu, por exemplo, não sou tão empolgado assim com esses pontos de cultura. Há muita coisa boa, mas há também um imenso parasitismo.

Quanto ao Ecad, é uma briga que o governo anterior não conseguiu ganhar, e não é justo portanto atribuir responsabilidade à Ana de Holanda. Trata-se de um assunto que está sendo debatido entre os próprios músicos, e a Ana caberá arbitrar com sabedoria o resultado dessa correlação de forças.


Marúcia, quanto ao Palocci na Casa Civil, é uma figura que dialoga muito bem com setores do empresariado, e, portanto, tem uma função importante no Planalto. Quando Pallocci era ministro da Fazenda de Lula, aí sim, ele dava as cartas. Agora não. É apenas um ponto de contato, um quadro quase "técnico", com grande habilidade de articulação e diálogo junto as diferentes forças políticas, sobretudo as de centro, que predominam no Congresso.

Jobim perdeu muito poder com Dilma. Ele foi mantido por ela provavelmente como cálculo estratégico por sua boa relação com os militares, sendo o primeiro ministro civil a exercer com sucesso autoridade sobre o segmento. As relações de Jobim com altas autoridades militares americanas talvez também tenham revertido em favor dele, visto que possivelmente a estratégia de política exterior de Dilma seja prosseguir integrando a América do Sul e assumindo posições independentes no mundo, mas voltando a se aproximar dos EUA, que ficaram um tanto ressabiados com o diálogo do Brasil com o Irã.

Em relação ao Moreira Franco, a SAE parece que se tornou uma "sinecura", um ministério semi-morto, pois aquele maluco de Harvard de quem o Caetano gosta tanto já fez planos para 20, 30, 40, 50 anos. E aliás, o Moreira Franco chamou o maluco de volta, para trabalhar na SAE.

De qualquer forma, consideremos que temos 37 ministérios. E temos que avaliar as ações do governo, ou antes, as consequências de suas ações. Ver a situação como um todo, entendendo a correlação de forças existente hoje, e tentando construir, nós mesmos, uma força que nos permita influenciar nas políticas de comunicação. O governo Lula iniciou sua gestão sob forte ataque da esquerda, tanto que quase caiu em 2005, quando o escândalo do mensalão encontrou-o já fragilizado perante sua base. Só mais tarde, quando a esquerda começou a ver os resultados sociais concretos das políticas empreendidas pelo governo, e quando viu o perigo que havia de passar o bastão para o PSDB, é que passou a defendê-lo.

É importante sermos críticos. Mas nossas críticas igualmente devem passar por um crivo crítico.
Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST
(Via Redecastorphoto)



1. A matéria publicada na última edição da revista Veja sobre a Controladoria-Geral da União é, obviamente, uma reação à carta-resposta (não divulgada pela revista) que o Ministro-Chefe da CGU, Jorge Hage, enviou-lhe nos últimos dias de 2010, diante da edição de "Retrospectiva" do final do ano passado.

2. Isso não obstante e tendo em conta o respeito que a CGU deve aos profissionais que integram seus quadros e, ainda, à opinião publica que sempre acompanhou e reconheceu o seu trabalho sério e republicano, passamos a repor aqui (tendo em vista que a revista nos nega o espaço para resposta) a verdade sobre cada uma das afirmações contidas na matéria:

a) A revista afirma que a CGU produziu, recentemente e de última hora, um Relatório de Auditoria sobre a FUNASA com o intuito de ajudar o Partido dos Trabalhadores a afastar dali o PMDB.

A VERDADE: o repórter Bernardo Melo Franco, do jornal Folha de S. Paulo, pesquisou no site da CGU relatórios pré-existentes, que remontam a 2002, sobre diversos processos de Tomadas de Contas Especiais, envolvendo inúmeros órgãos do governo. O interesse do repórter pelos processos referentes à Funasa só pode ser explicado por ele próprio. Significativamente, no mesmo final de semana em que circulou o exemplar da revista com a matéria que aqui se contesta, também o jornal “O Estado de S. Paulo”, publicou, como manchete principal, a matéria intitulada “Alvos de disputa no segundo escalão somam R$ 1,3 bi em irregularidades”, utilizando a mesma fonte de dados: os relatórios disponíveis desde sempre no site da CGU. A reportagem do “Estadão”, porém, diferentemente da da “Folha”, direciona seu foco para vários órgãos controlados, segundo a matéria, por diferentes partidos, inclusive o PT, o que demonstra: 1) que tais publicações não se deveram a iniciativas da CGU, e sim dos jornais: 2) o caráter republicano das ações da CGU, que se realizam sem levar em conta o partido eventualmente interessado; e 3) a credibilidade que, por isso mesmo, têm os nossos trabalhos.

b) A revista sustenta que a CGU se omitiu de atuar em episódios como o chamado “mensalão”.

A VERDADE: não compete à CGU, um órgão do Executivo, fiscalizar a conduta de membros do Poder Legislativo. Todavia, todos os fatos denunciados à época envolvendo órgãos do Executivo como alvos de desvios (que serviriam para pagamento de propinas a parlamentares) foram objeto de amplas auditorias por parte da CGU. Só para dar um exemplo, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos passou por auditorias amplas e minuciosas, acompanhadas, pari passu, pelo Ministério Publico, que resultaram em dezenas de relatórios, amplamente divulgados à época e disponíveis também, desde então, no site da CGU. Os caminhos para consultar todos esses relatórios no site foram mostrados ao repórter da Veja, que recebeu toda a assistência e atenção, durante cerca de duas horas, inclusive sendo recebido pelo próprio ministro, sendo-lhe entregue, ainda, uma relação completa das demissões, inclusive de diretores da ECT, ocorridas em conseqüência das irregularidades constatadas pela auditoria da CGU.

c) A revista afirma que a CGU se apressou em inocentar a ex-ministra Erenice Guerra, de irregularidades denunciadas na mídia, durante a última campanha eleitoral.

A VERDADE: as denúncias apuradas e descartadas pela CGU nesse caso foram aquelas desprovidas de quaisquer fundamentos. No caso do DNPM, por exemplo, a mídia indicou possível favorecimento à empresa do esposo da ex-ministra, cujas multas aplicadas pelo órgão teriam sido canceladas indevidamente. Logo se verificou que a própria área jurídica do DNPM havia reconhecido erro na aplicação das multas e recomendado à direção seu cancelamento para o necessário recálculo, o que foi feito. As multas foram, então, novamente impostas e vinham sendo pagas regularmente pela empresa em questão. Não havia, portanto, fundamento para que o caso fosse levado adiante. O mesmo se deu (ausência de fundamento) com as denúncias sobre a EPE e o BNDES. Outros casos, mais sérios e mais complexos, denunciados pela mídia na mesma ocasião, continuam sendo investigados, como o que envolve a empresa MTA e a ECT, cujos resultados serão divulgados em breves dias.

d) A Veja diz, quanto aos cartões de pagamento, que a ação da CGU se limitou a elaborar uma cartilha com orientações e passou a investigar gastos de “integrantes da administração tucana”.

A VERDADE: além de elaborar a cartilha, dirigida a todos os gestores que lidam com suprimento de fundos, todas as denúncias (inclusive as que envolveram ministros) sobre irregularidades com esse tipo de gasto foram apuradas e tiveram seus resultados amplamente divulgados na mídia. Três ministros devolveram gastos considerados impróprios para serem feitos com o cartão e uma ministra teve que deixar o governo, como amplamente divulgado à época. E tudo isso está também disponível a qualquer cidadão, no site da CGU. O que a revista não registra é que foi do Governo Lula, por proposta da CGU, a iniciativa de dar transparência a esse tipo de gasto, divulgando tudo na internet para fiscalização da sociedade, exatamente para corrigir possíveis desvios e distorções. E quem delimitou o escopo dos trabalhos, inclusive retroagindo ao segundo mandato do Governo FHC, não foi a CGU, mas a própria “CPMI dos Cartões Corporativos”, que, por meio da aprovação do Requerimento nº 131, de 12 de março de 2008, estabeleceu que o seu objetivo seria analisar a regularidade dos processos de prestações de contas de suprimento de fundos dos últimos 10 anos.

e) A revista afirma que o caso “Sanguessugas” surgiu de denúncias na imprensa.

A VERDADE: a Polícia Federal, o Ministério Público e toda a imprensa, sabem que a “Operação Sanguessuga”, assim como tantos outros casos que desaguaram em operações especiais para desmantelar esquemas criminosos, foi iniciada a partir de fiscalizações da CGU nos municípios. Aliás, a mesma matéria do jornal “O Estado de S. Paulo” citada no item “a” desta nota enumera muitos desses casos, em retranca de apoio à matéria principal, intitulada “Ações da CGU norteiam as megaoperações da PF”.

f) A revista atribui ao Ministro-Chefe da CGU, afirmação de que este órgão dá “prioridade ao combate da corrupção no varejo”.

A VERDADE: O que foi dito ao repórter foi que nos pequenos municípios o cidadão comum sente mais diretamente os desvios de merenda escolar e medicamentos do que os efeitos dos grandes escândalos ocorridos nos grandes centros (o que é, aliás, fácil de entender). Não se disse que a CGU prioriza isso ou aquilo, pois ela combate a corrupção com a mesma prioridade, independentemente do tamanho de cada caso.

g) A reportagem da Veja tece considerações absurdas sobre relatório referente a auditoria em projeto de cooperação técnica internacional celebrado entre o Ministério da Integração Nacional e a FAO, no exercício de 2002.

A VERDADE: a eventual ocorrência de divergências entre as equipes de auditoria e as chefias de cada Coordenação, embora não sejam freqüentes, são naturais no processo de homologação dos relatórios. O processo usual é que por meio do debate se tente alcançar o consenso. Quando o consenso não é possível, o importante é que o processo se dê de forma transparente. Ora, a própria reportagem se encarrega de esclarecer que a direção da Secretaria Federal de Controle Interno (unidade da CGU) expressou seu entendimento divergente por escrito e fundamentadamente, tendo ficado também registrado nos autos a opinião dos demais servidores. Neste caso, como em tudo o mais, as coisas se fazem na CGU com plena observância do princípio da transparência.

h) A revista afirma ter havido atrito entre a CGU e a Polícia Federal durante a Operação Navalha, e que a CGU estaria “contribuindo para atrasar o desfecho do trabalho”.

A VERDADE: Isso nunca ocorreu. Prova disso, é que a Subprocuradora-Geral da República encarregada do caso afirmou, por mais de uma vez, que sem os relatórios de CGU não teria sido possível oferecer denúncia contra os acusados. E outra prova é que as punições foram rapidamente aplicadas no caso pela CGU, inclusive a declaração de inidoneidade da principal construtora envolvida.
Como se vê, a realidade é muito diferente do que se lê na revista.

Estes esclarecimentos que fazemos agora não serão encaminhados à Revista, pela simples razão de que ela se recusa a publicar nossas respostas. Contudo, a CGU se sentiu na obrigação de prestá-los, como já dito no início, em respeito aos seus servidores e à opinião pública em geral.

O texto original desta nota pode ser encontrado no sítio da CGU

Assessoria de Comunicação Social - 24/01/2011
Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST


Otis Rush, um dos pais do blues elétrico, começou a bagunça. Eu demorei muitos anos para descobrir essa figura fundamental na história do blues. Foi mais um dos negros do sul que subiram o rio Mississipi a procura de emprego no norte industrializado. Trabalhavam em restaurantes e ouviam (ou tocavam) música à noite. Um dia, ensaiando em seu quarto de pensão, alguém bate na porta de Rush. Era um funcionário de um bar próximo. Um dos guitarristas estava doente e o dono do estabelecimento, que sempre ouvia Rush tocando quando passava por seu prédio, pediu a alguém para ir lá bater à sua porta e perguntar se não estaria disponível para substituir o músico.
Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST
De repente, deu uma saudade do João do Vale.



O que me levou a Jackson do Pandeiro!

Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST


Muito Além do Cidadão Kane

Por Eduardo Guimarães, no blog Cidadania.

Veraz, minucioso, aterrorizante mesmo. “Beyond Citizen Kane” ou “Muito Além do Cidadão Kane” – em tradução livre - é um documentário britânico dirigido por Simon Hartog e exibido em 1993 pela emissora pública do Reino Unido, a BBC de Londres.

O documentário mostra as relações entre a mídia e o poder do Brasil, focando na análise da figura de Roberto Marinho, fundador da Globo. Embora o documentário tenha sido censurado pela justiça, em 2009 a Rede Record comprou os direitos de transmissão exclusiva, por 20 mil dólares, do produtor John Ellis.

A primeira exibição pública do filme no Brasil ocorreria no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), em março de 1994. Um dia antes da estréia, a Polícia Militar recebeu uma ordem judicial para apreender cartazes e a cópia do filme, ameaçando, em caso de desobediência, multar a administração do MAM-RJ. O secretário de cultura acabou sendo despedido três dias depois.

Durante os anos 1990, o filme foi mostrado em universidades e eventos sem anúncio público de partidos políticos. Em 1995, a Globo entrou com um pedido na Justiça para tentar apreender as cópias disponíveis nos arquivos da Universidade de São Paulo (USP), mas o pedido foi negado. O filme teve acesso restrito a grupos universitários e só se tornou amplamente visto a partir do ano 2000, graças à popularização da internet.

No post anterior, coloquei o link para o vídeo, mas percebi que vários leitores não perceberam que poderiam assisti-lo simplesmente clicando nesse link, de maneira que, devido à importância desse documento histórico que é Beyond Citizen Kane, reproduzo, abaixo, essa obra perturbadora que fala tanto sobre este país.

Não deixe de assistir.


Posted: 27 Feb 2011 01:41 PM PST


Enviado por luisnassif, sex, 21/01/2011 - 08:00

Autor: Abel

Miguel Nicolelis, um dos cientistas mais importantes do Brasil, membro das Academias de Ciências do Brasil e da França e professor na Universidade de Duke nos EUA, foi recentemente nomeado para a Pontifícia Academia de Ciências, mais conhecida como Academia de Ciências do Vaticano.

Foi o que bastou para que a extrema direita brasileira pusesse sua moenda de ódio para girar, denunciando pela internet que o papa havia nomeado um cientista "pró-aborto" e pró-"casamento gay", sem ter lido o "CV [curriculum vitae] completo" do mesmo.

A central de ataques é o site Last Days Watchman, que, apesar do nome, foi criado pelo brasileiro Júlio Severo, atualmente foragido e sendo processado pelo Ministério Público Federal por incitação à homofobia. A catilinária de Severo contra Nicolelis foi reproduzida por outros sites de extrema direita religiosa, como o Rorate Caeli, o LifeSite News.Com, o Inquision News e o Angelqueen.org.

O estopim para os ataques foi um artigo de Nicolelis para o Viomundo, onde em 26 de outubro de 2010, o cientista denunciava a estratégia da campanha oposicionista de insuflar o ódio religioso para tentar derrotar Dilma Rousseff no segundo turno das eleições presidenciais.

Nicolelis, que residiu nos Estados Unidos há 20 anos, disse ao Viomundo que jamais havia passado por situação semelhante em solo estadunidense e que suas posições (inclusive o fato de não ter fé religiosa) eram bem conhecidas pela Igreja Católica. Segundo Nicolelis, "a questão científica é o parâmetro decisório. Tanto que ninguém pediu para eu tomar qualquer posição contrária às minhas crenças pessoais".

Fonte:Nicolelis é alvo de sites da extrema-direita americana: contas não ajustadas da eleição

Posted: 20 Jan 2011 11:00 AM PST
(Basquiat)

Verão turbulento no Rio. Sem meio termo: ou temos o sol nos fervendo os miolos, a temperatura tão alta que parece diluir o sangue, ou então surgem nuvens enormes e escuras ao fim da tarde, primeiro ameaçando, depois cumprindo a ameça, alagando as ruas, ensopando os pedestres, paralisando o trânsito.

Nem desço à portaria para pegar os jornais. Prefiro terminar de ler o romance de Denis Lehane. Engraçado como todo livro de gênero (policial, terror, etc) perde força sempre que a história caminha para uma solução. Lembro de um livro do Stephen King que eu estava achando muito bom, Os Estranhos, com descrições divertidas e envolventes de personagens e situações. Quando a narrativa atinge o ponto onde os monstros começam a aparecer, a graça se esvai. O livro torna-se falso, infantil, pretensioso. A mesma coisa vale para esse Lehane.

Gosto particularmente das descrições da cidade, que se torna um personagem quase vivo na história. Quando o mistério sobre o desaparecimento da menina começa a ser desvendado, porém, a narrativa até ganha vida, a gente sente vontade de ler mais rápido e tudo, mas o texto perde em termos literários. E o problema não é uma queda súbita na técnica, mas na própria história. Talvez por não ser convincente. Talvez por ser vulgar. Na ânsia de criar um embate final, o autor simplifica o antagonista, torna-o um vilão maniqueísta. Afloram falhas de verossimilhança que provocam certo desencanto no leitor. Ele lê mais rápido agora não apenas por curiosidade, mas para terminar logo o maldito livro.

Interesso-me muito, todavia, por todo o tipo de técnica literária, e leio os romances policiais com a mesma atenção com que o faço lendo Dante Alighieri. Observo os movimentos, as pausas, as digressões constantes depois de cada diálogo. As descrições que humanizam as paisagens e criam uma atmosfera.

Há tempos tenho a impressão que a "alta literatura" teria muito a ganhar se descesse de vez em quando de seu pedestal e examinasse as técnicas literárias presentes nos romances policiais. Com certeza, teríamos livros menos chatos.

Um romance policial como os de Denis Lehane possui, além disso, uma pesada dose de crítica social, mas sem julgamento, sem tomada de posição. A postura do autor está mais para o desencanto, fazendo a linha decadente, o que aliás combina bem com o momento histórico vivido pelos Estados Unidos.

No Brasil, tenho notado, há muitos anos, uma grande falta de habilidade narrativa. O déficit neste sentido é tão grande que inúmeros escritores desistiram abertamente de trabalhar a questão do conteúdo, preocupando-se prioritariamente com a forma da linguagem. Alguns passaram a defender a primazia da forma sobre o conteúdo, talvez tentando, sem disso se aperceber, melhorar um pouco a nossa auto-estima.

Isso tem que mudar. O Brasil precisa de histórias. De romances que descrevam o desespero e a euforia nas grandes cidades, o desregramento da juventude nos municípios médios, o fim da paz nas cidadezinhas. Há tanta coisa para contar! Crimes, crepúsculos, edifícios abandonados, praias, canais sujos, tempestades, prostituição, máfias, crianças brincando nas ruas, crianças fumando crack nas ruas, não faltam elementos para compor uma nova literatura realista de que o país tanto precisa para se autoconhecer.
Posted: 18 Jan 2011 08:55 PM PST

Meus amigos, continuo apanhando do wordpress, dos provedores, da vida. Bons tempos eram esses, do Óleo, em que não tinha nada disso. O bom e velho blogspot, sem domínio próprio, sem pagar nada, liberdade total.

Esclareço a todos que não tenciono matar o Óleo. O Gonzum é o chefe de família, mas este blog velho de guerra continua vivo!

O Gonzum agora tá com problemas técnicos com o provedor. Tô tentando resolver.Até por isso é que estou usando novamente o Óleo. É isso! O Óleo pode ser meu blog reserva! Sempre que tiver problema de acesso lá no Gonzum, eu passo a escrever daqui. Boa ideia.

De qualquer forma fui obrigado a reduzir a carga do blog para adiantar outros trabalhos. Além da preguiça, claro, eterna companheira dos que sonham. Principalmente ela, a preguiça. E os sonhos. Os sonhos, naturalmente.

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04/01/23 - COMUNICAÇÃO

 AMIG@S UMA HERPES ZOSTER  ME ATACOU . ESPERO VOLTAR EM BREVE. FELIZ 2023 ABRAÇOS, ABELHA