22/4 - Mauro Santayana - TEXTOS

FONTE:http://www.maurosantayana.com/

22/04/2012

TODOS SOMOS ARGENTINOS


O Brasil e a Argentina, sendo os dois maiores países da América do Sul, têm sido alvos preferenciais do domínio euro-americano em nosso continente. A Argentina, sob Cristina Kirchner, depois de anos desastrados de ditadura militar, e do governo caricato e neoliberal de Menen, se confronta com Madri, ao retomar o controle de suas jazidas de petróleo que estava com a Repsol. Quando um governo entrega, de forma aviltante, os bens nacionais ao estrangeiro, como também ocorreu no Brasil, procede como quem oferece seu corpo no mercado da prostituição. Assim, as medidas de Cristina buscam reparar a abjeção de Menem.
Será um equívoco discutir o conflito de Buenos Aires com Madri dentro dos estreitos limites das relações econômicas. A economia de qualquer país é um meio para assegurar sua soberania e dignidade - não um fim em si mesma.
As elites espanholas, depois da morte de Franco, foram seduzidas pela idéia de que poderiam recuperar sua presença na América Latina, perdida na guerra contra os Estados Unidos e durante a ditadura de quase 40 anos. Já durante o governo de Adolfo Suárez, imaginaram que poderiam, pouco a pouco, readquirir a confiança dos latino-americanos, ofendidos pela intervenção descarada dos Estados Unidos no continente. De certa forma, procediam com inteligência estratégica: a nossa América necessitava de aliados, mesmo frágeis, como era a Península Ibérica, na reconstrução de sua soberania, mutilada pelos governos militares alinhados a Washington.
Mas faltou aos governantes e homens de negócios espanhóis a habilidade diplomática, que se dissimula na modéstia, e lhes sobrou arrogância. Essa arrogância cresceu quando a Espanha foi admitida na União Européia, e passou a receber fartos recursos dos países ricos do Norte, a fim de acertar o passo continental. A sua estratégia foi a de, com parte dos recursos disponíveis, “comprar” empresas e constituir outras em nossos países. Isso os levou a imaginar que poderiam ditar a nossa política externa, como serviçais que foram, e continuam a ser, dos Estados Unidos. A idéia era a de que, em espanhol, os ditados de Washington seriam mais bem ouvidos.
O paroxismo dessa paranóia ocorreu quando José Maria Aznar telefonou ao presidente Duhalde, da Argentina, determinando-lhe que aceitasse as imposições do FMI, sob a ameaça de represálias. E a insolência maior ocorreu, e sob o governo socialista de Zapatero, quando esse heróico matador de paquidermes indefesos, Juan Carlos, mandou que o presidente Chávez (eleito livremente pelo seu povo, sob a fiscalização de observadores internacionais, entre eles o ex-presidente Carter) se calasse, no encontro iberoamericano de Santiago. Um rei matador de elefantes indefesos e sogro de um acusado de peculato - o bem apessoado serviçal da Telefónica de Espanha, Iñaki Urdangarin, pago com lucros obtidos pela empresa na América Latina, principalmente no Brasil.
Os espanhóis parecem não se dar conta de que as suas antigas colônias se tornaram independentes, umas mais cedo – como é o caso da Argentina – e outras mais tarde, embora muitas passassem ao domínio ianque. Imaginaram que podiam fazer o que faziam antes disso no continente – e incluíram o Brasil na geografia de sua presunção.
O Brasil pode e deve, ser solidário com a Argentina, no caso da recuperação, para seu povo, das jazidas petrolíferas da YPF. E manter a nossa posição histórica de reconhecimento da soberania de Buenos Aires sobre o arquipélago das Malvinas.
Que querem os espanhóis em sua gritaria por solidariedade contra a Argentina, pelo mundo afora? Eles saquearam tudo o que puderam, durante o período colonial, em ouro e prata. Usaram esses recursos imensos – assim como os portugueses fizeram com o nosso ouro – a fim de construir castelos e armar exércitos que só se revelaram eficazes na repressão contra o seu próprio povo – como ocorreu na guerra civil.
Durante o seu período de arrogância subsidiada, trataram com desdém os mal chamados iberoamericanos, humilhando e ofendendo brasileiros e latino-americanos, aviltando-os ao máximo. Um só ser humano, em sua dignidade, vale mais do que todos os poços de petróleo do mundo. Antes que Cristina Kirchner determinasse a recompra das ações da YPF em poder da Repsol, patrimônio muito maior dos argentinos e de todos os latinoamericanos, sua dignidade, havia sido aviltada, de forma abjeta e continuada, pelas autoridades espanholas no aeroporto de Barajas e em seu território.
Que se queixem agora aos patrões, como seu chanceler, Garcia-Margallo fez, ao chorar nos ombros da senhora Clinton, e busquem a solidariedade de uma Europa em frangalhos. Ou que rearmem a sua Invencível Armada em Cádiz, e desembarquem no Rio da Prata . Isso, se antes, os milhões de jovens desempregados - a melhor parcela de um povo maravilhoso, como é o da Espanha - não resolvam destituir suas elites políticas, corruptas, incompetentes e opressoras, e seu rei tão ocioso quanto descartável.
E, ao final, vale lembrar a viagem histórica que Eva Perón fez à Europa, no auge de sua popularidade. Em Madri, diante da miséria em que se encontrava o povo, ofereceu a Franco, em nome do povo argentino, alguns navios cheios de trigo. O general respondeu que não era necessário, que os celeiros espanhóis estavam cheios de farinha. E Evita replicou, de pronto: ¿entonces, por qué no hacen pan?

20/04/2012

A ÉTICA E A RETIDÃO



Talvez nos conviesse, ao tratar da corrupção política, substituir o vocábulo “ética” por substantivos mais singelos, como retidão e correção. Ética é conceito filosófico profundo, de definição difícil, e que se desgastou no abuso de seu emprego. É uma idéia que está acima do exame dos escândalos atuais, que não merecem nem mesmo serem qualificados como aéticos. Apelar para a ética, nesses casos, é como usar uma balança de ouro para pesar cascalho sujo. Em lugar de recorrer à ética, tratemos apenas do Código Penal.
Em todos os tempos humanos – esta é a âncora recorrente – houve peculatários. E em todos os tempos humanos eles foram combatidos, mesmo quando os larápios se encontravam à frente dos estados. As sublevações populares, quaisquer fossem suas bandeiras, sempre se fizeram contra os usurpadores do bem público.
Em todos os tempos houve – de acordo com os historiadores – organizações criminosas, de quadrilhas de salteadores de estradas a ocupantes do poder nacional. Daí a famosa comparação de Santo Agostinho: a diferença entre os grupos de bandidos organizados e os estados é o exercício da justiça. No estado em que não prevalece a justiça, os governantes não diferem dos bandidos. No interior dos estados, como no interior de qualquer comunidade, as duas realidades – a busca da justiça e a ação criminosa – coexistem e se combatem. Até mesmo no interior das famílias há os que procedem corretamente e os pérfidos.
O povo brasileiro tem sido submetido, mais do que outros povos, ao assalto quase continuado aos bens comuns. E o maior dano é o causado à sua dignidade. A dignidade ou, em termos mais simples, a vergonha, é um atributo das pessoas honradas, como lembra Lupicínio Rodrigues em sua composição mais conhecida, em que a vingança contra o opróbrio é recomendada. Cidadãos de paises que não se destacam pela retidão de seus homens públicos – como é o caso da Itália e da Espanha, entre outros – se esbaldam em comentar as notícias do Brasil, por meio da rede internacional de computadores: lá os ladrões são levados aos tribunais; aqui costumam escafeder-se pelos corredores dos entraves processuais.
Talvez Agostinho tenha razão, se pensarmos no que foi a política de privatizações do governo soi-disant social-democrata, que nos infelicitou entre 1995 e 2003. Podem dar-nos todas as explicações técnicas e econômicas, dentro da famosa “ética do capitalismo”, para justificar a entrega das empresas estatais ao setor privado, mas não houve nada de honrado nessa decisão. Ao contrário: a privatização só privilegiou alguns empresários, brasileiros e estrangeiros, além de fazer, de alguns gestores do processo, homens subitamente beneficiados por posições destacadas e altamente remuneradas nas organizações compradoras e nas organizações financeiras que com elas se associaram.
Há, como em todas as outras organizações criminosas, os que agem com cautela jurídica e os lambões. Essa construtora envolvida, se nos ativermos a uma conversação telefônica entre seu presidente e o Sr. Carlos Cachoeira, não soube como operar no sofisticado sistema. Tampouco souberam precaver-se o senador Torres e o vitorioso empresário tentacular Carlos Cachoeira. Foram, além de tudo, lambões, ao se envolverem com personagens vulgares do millieu, como o araponga Dadá.
A vulnerabilidade de Brasília à ação dos corruptores nos leva a uma constatação constrangedora: a autonomia da capital da República foi a mais infeliz das decisões constitucionais de 1988. A esse erro, que violou criminosamente o pacto federativo de 1891, somaram-se outros, como os cometidos pelo açodado afã “modernizador” do demagogo e moralista de fachada Fernando Collor, ao alienar as residências funcionais da capital da República. Até então, os servidores de Brasília eram recrutados em todo o país, e servir ao poder central constituía uma vitória do mérito. Sem essa modesta vantagem – a garantia de moradia por um aluguel moderado – a transferência para o planalto central perdeu seu grande atrativo.
A administração pública, tanto da União, quanto do Distrito Federal, se viu obrigada a recrutar quem se apresentasse. Os cargos comissionados foram, de modo geral, preenchidos pelos atores políticos, que atendiam e atendem à pressão de seus eleitores. Por outro lado, o achatamento dos vencimentos dos servidores – a não ser em carreiras privilegiadas – afasta os mais bem dotados para as atividades privadas, de remuneração muito mais atraente.
Antes de 1988, Brasília era administrada diretamente pelo poder central, mas seus prefeitos (aquinhoados pelo governo militar com o título de governadores) tinham que ser aprovados pelo Senado - em nome de toda a Federação – e estavam submetidos ao controle de um comitê especial da mesma casa legislativa. Com a autonomia, Brasília passou a ser um estado como os outros - sujeito à pressão de suas oligarquias. E como a população, em sua maioria, é pressionada pela miséria, tende a votar com a emoção, seguindo os demagogos de turno. Por isso, a câmara de vereadores, que se denomina distrital, mas tem a arrogância de votar como se fosse o plenário das Nações Unidas, é dominada por homens como os que foram filmados pelo ex-delegado de polícia Durval Barbosa, ao receber dinheiro vivo de suas próprias mãos, a fim de votar de acordo com os interesses do governador de Brasília de então.
E há outros inconvenientes. Quando a Comissão Arinos discutia a questão da autonomia, no anteprojeto de Constituição que elaborava, Hélio Jaguaribe lembrou outra grave inconveniência da medida. Argumentou que, no caso em que o governador local fosse inimigo do Presidente da República, seria fácil colocar caminhões fétidos de lixo na praça dos Três Poderes, quando o Brasil estivesse recebendo a visita de um chefe de estado estrangeiro, para a desmoralização nacional diante do mundo. Isso sem falar no esbulho dos outros estados da federação, que perderam, de fato, a soberania sobre a sua capital.
A solução radical terá de ser emenda constitucional, imediata, que devolva a administração política do Distrito Federal ao governo da República, como era antes de 1988, e já a partir de 2015, quando termina o atual mandato, antes que a situação se perpetue. Essa medida radical irá romper aqueles esquemas conhecidos de desvio de recursos públicos. Não é certo que isso venha a acabar com a corrupção, mas certamente reduzirá a sua audácia e os seus efeitos.

17/04/2012

OBAMA, A BOLHA E O BOLHA.


O presidente Obama disse, em Cartagena, que a imprensa latino-americana está ainda na “bolha dos anos nos anos 50, quando pede a saída dos ianques de seus países – o que, sabemos, não é verdade no que se refere aos grandes veículos. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos e seus aliados fiéis do Canadá vetam a presença de Cuba no encontro hemisférico. Quem se encontra ainda nos anos 50 é o governo de Washington, que não sai do círculo de giz em que o meteu Kennedy. Nos anos 50 no Brasil, quando se queria identificar alguém como chato e de pensamento curto, usava-se a expressão “bolha”.
Obama continua um bolha dos anos 50.

O QUINTO REI DO BARALHO.



O Rei Juan Carlos caiu em Botsuana, quando caçava elefantes, e fraturou a bacia. O Rei Juan Carlos é presidente de honra da Ong WWW-Adena, que existe para proteger os elefantes da extinção. A caça de elefantes em Botsuana é legal: paga-se 20.000 euros por animal abatido, e se gasta pelo menos mais 30.000 pela viagem. Os gastos do Rei são pagos pelo povo espanhol, que está sendo castigado por medidas de austeridade, com o desemprego acelerado e a redução de despesas sociais. Em lugar de exercer o dever de todos os monarcas, e buscar resolver os graves problemas de seu país, o Rei vai caçar elefantes. Por isso mesmo, o povo começa a perguntar-se se não é melhor ficar apenas com os quatro reis do baralho – e enviar os Bourbón para caçar elefantes na África. Só os monarquistas, como saída, defendem a abdicação do rei e sua substituição pelo filho mais velho, o Príncipe de Astúrias, de cuja inteligência pouco se sabe. Nas vésperas da morte de Franco, quando preparavam a sua substituição por Juan Carlos, dizia-se que ele havia sido condecorado com duas medalhas, uma por idiota, e outra para substituir a primeira, se a perdesse. Está merecendo uma terceira, de igual referência.
Enfim, Juan Carlos é tão útil como um quinto rei no baralho.

15/04/2012

OS EUA E O FUTURO DA CIÊNCIA NO BRASIL



Nas relações do Brasil com os Estados Unidos, há fatos que devem nos incomodar, como o recente recuo da Força Aérea dos Estados Unidos, a USAF, em cumprir o contrato de compra de 20 aviões Super-Tucano da Embraer, e a tradicional recusa dos norte-americanos em transferir tecnologia para o Brasil, principalmente no campo bélico e no nuclear. Essa recusa beira à sabotagem, desde o acordo Brasil-Alemanha (no campo nuclear), o que não recomenda, à primeira vista, os nossos vizinhos do norte em projetos que impliquem a transferência de conhecimento.
Esse pode ser o caso do “Ciência sem Fronteiras”, de envio de estudantes brasileiros para o exterior, e da parceria que se pretende estabelecer entre o ITA – o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, berço da Embraer, e o MIT – o Massachussets Institute of Technology , uma das mais conceituadas instituições de ensino e de pesquisa dos Estados Unidos.
Basta ver o descalabro em que se encontra o DCTA – Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, reduzido – apesar de recentes concursos - a 26% do pessoal que tinha em 1994, e a média de idade dos pesquisadores do IAE – Instituto de Aeronaútica e Espaço - que é de mais de 50 anos e é fácil perceber que a questão da Ciência e Tecnologia, com a geração de conhecimento de ponta no país, não se resolverá com a mera transferência de estudantes para o exterior.
O que precisamos é de decisão política para mostrar ao mundo quais são nossas prioridades estratégicas e com que rapidez respondemos aos desafios que surgem na área científica.
Quando o destino nos apresenta situações emergenciais temos que responder emergencialmente. É preciso quebrar a espinha dorsal da burocracia, que nos impede, por exemplo, de já estarmos montando os módulos e laboratórios destinados a substituir os que foram destruídos no incêndio da Estação Antártida Comandante Ferraz.
Não é razoável que falte dinheiro para treinar e repor pesquisadores em um projeto de longa data, como o do VLS (Veículo Lançador de Satélites), quando o BNDES empresta, sem maiores delongas, três bilhões de reais a uma multinacional estrangeira, como a Vivo, para a expansão de infraestrutura.
O país precisa projetar na Ciência e Tecnologia o planejamento e a competência já demonstrados na administração da macroeconomia, entre outros campos. Na área espacial é preciso juntar em uma só instituição os esforços do país, que envolvem hoje o INPE, a AEB, a Alcantara Cyclone Space.
E, se formos ampliar a cooperação com o MIT norte-americano, é preciso que se faça o mesmo com universidades e instituições congêneres dos nossos sócios dos BRICS. Nossos estudantes precisam aprender a conviver com estudantes russos, chineses, indianos. A Rússia continua dando um banho na pesquisa espacial. Recém homenageada com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Delhi, a Presidente sabe que a a China e a Índia, principalmente, estão acelerando, qualitativa e quantitativamente, dentro e fora de suas fronteiras, a formação de pesquisadores nas áreas de física, nanotecnologia, computação, programação de software.
Sabe também que há milhares de cientistas indianos e chineses que foram estudar nos Estados Unidos e não voltaram, preferindo ficar por lá, trabalhando, e emprestando seu talento, a empresas norte-americanas como as do Vale do Silício. Um bom exemplo do brasileiro que, às vezes pode ir e não voltar é o do jovem paulistano Michel Krieger, de São Paulo, de 27 anos de idade, que com 18 foi estudar na Universidade de Stanford, criou com um colega norte-americano o Instagram, e acabou de vender essa plataforma para o Facebook, por um bilhão de dólares.
A Ciência deve atravessar as fronteiras em todos os sentidos. Precisamos que o estudante brasileiro estude, eventualmente, no exterior, mas que possa também fazê-lo aqui, no território nacional, sem deixar de absorver conhecimento de ponta e universal. É possível, com menos recursos, lançar um concurso internacional voltado para a contratação de excelentes professores estrangeiros para nossas universidades, como se fez quando da criação da USP, sem prejudicar os docentes brasileiros.
E, no caso da pesquisa científica, trazer professores de fora é ainda mais premente, e talvez mais econômico. Como mostra o caso do DCTA, é preciso recompor e ampliar, com a mais absoluta prioridade, nosso quadro de pesquisadores, destruído por décadas de neoliberalismo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

23/5 - Carta de Lula ao seu ‘caro amigo’ Chico Buarque

FONTE: https://www.esmaelmorais.com.br/2019/05/carta-de-lula-ao-seu-caro-amigo-chico-buarque/ BLOG DO ESMAEL A política como ...