Indígenas ajudam Exército a defender fronteira do Brasil
Atualizado em 16 de agosto,
2012
O soldado Edgar Cardoso em frente ao Pelotão Especial de
Fronteira de São Joaquim (AM)
Situado na fronteira do Brasil com a Colômbia, o Pelotão
Especial de Fronteira de São Joaquim é a base militar mais remota da Amazônia
brasileira. Suas trincheiras e casas vermelhas de madeira ficam separadas de uma
aldeia de índios Kuripaco por uma cerca e uma pista de pouso de 1.200 metros,
raramente usada pela Força Aérea.
Grande parte dos 100 militares que trabalham no pelotão é de origem indígena.
Eles são o exemplo de uma tendência adotada pelo Exército brasileiro: contratar
índios para defender e patrulhar a floresta amazônica.
Os indígenas atualmente representam cerca de 70% dos 1.400 militares da 2ª
Brigada de Infantaria de Selva, que agrupa sete bases avançadas nas fronteiras
com a Colômbia e a Venezuela, além de um complexo militar na maior cidade do
extremo norte do Amazonas: São Gabriel da Cachoeira, de 38 mil habitantes.
Eles são recrutados entre os cerca de 30 mil índios de 14 etnias que habitam
a região do alto rio Negro.
São Joaquim, uma dessas sete bases avançadas, está situada a 326 quilômetros
de São Gabriel da Cachoeira e a 90 quilômetros do vilarejo colombiano de Mitú,
ambos embrenhados na floresta equatorial.
Essas distâncias ficam ainda maiores quando se leva em conta que o
deslocamento na região é feito majoritariamente pelos rios, pois não há estradas
e não é possível andar longas distâncias pela selva fechada.
A viagem de barco dura em média quatro dias. Ela é realizada em pequenas
embarcações equipadas com motores de 40hp conhecidas como "voadeiras" - que
precisam ser carregadas nas costas nos sete trechos em que o rio forma
cachoeiras maiores.
Pelotão Especial de Fronteira de São Joaquim é a base mais
remota da Amazônia brasileira
O pelotão foi instalado em 1988 para defender o rio Içana, que nasce na
Colômbia e deságua no rio Negro, no Brasil, funcionando como uma via de ligação
fluvial - não muito utilizada - entre os dois países.
Ele não passa de uma pequena vila militar com algumas fortificações e um
posto de saúde atendido por um médico, um farmacêutico e um dentista. Não há
telefone, apenas estações de rádio.
Dialetos
Apesar da existência de uma pista de pouso na localidade, os voos da Força
Aérea que abastecem o pelotão com equipamentos e comida não são frequentes. Por
vezes, o aeródromo fica mais de um mês sem receber voos.
Isso significa que quando o clima instável da região não permite o pouso do
avião, os militares que moram na base ficam sem comida. Uma solução é fazer o
trajeto de barco de quatro dias.
Mas, o mais comum é o recurso a um sistema de trocas de combustível por
alimentos com os cerca de 8.000 índios das 46 aldeias Kuripaco e Baniwa situadas
ao longo do rio Içana.
Na hora de negociações como essa, a presença do militar indígena é
fundamental, segundo o Exército.
"Às vezes a comunidade ajuda com o transporte dos materiais. Às vezes trocam
coisas com o pelotão, como peixe e farinha (de mandioca) por gasolina para
gerador e para as rabetas (motores de popa)", disse o soldado Edgar Alves
Cardoso, de 24 anos, militar da etnia Pira-tapuya, que trabalha no pelotão e
vive com a mulher, uma índia Kuripaco, na aldeia ao lado da base.
Segundo ele, em toda a região do alto rio Negro, cada aldeia fala um dialeto
diferente, de acordo com a etnia de seus habitantes. Contudo, a maioria das
populações ribeirinhas fala o "tukano", que funciona como uma espécie de língua
comum. Os militares índios atuam então como tradutores e negociadores para seus
oficiais.
Habilidades
General Luiz Sérgio Goulart Duarte: "indígenas são excelentes
exploradores e guias".
Mas não é apenas a facilidade com os dialetos que torna os indígenas
militares de alto valor para o Exército.
"O militar de origem indígena tem muita facilidade para realizar as tarefas
relacionadas à vida e ao combate no interior da selva, por estar completamente
integrado nesse ambiente", afirmou o general Luiz Sérgio Goulart Duarte,
comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva.
"São excelentes exploradores e guias; têm bastante experiência em pilotar
embarcações, o que é uma característica essencial para quem navega no alto rio
Negro, onde existem muitas corredeiras e bancos de areia", disse o general.
"Os indígenas conhecem os lugares por onde passar a voadeira nas cachoeiras.
Sabem onde são as comunidades (indígenas), quantas pessoas moram lá, suas
crenças. Têm conhecimento de plantas medicinais e podem dar amparo a qualquer
ferimento que aconteça nas missões", disse o soldado Cardoso.
As técnicas indígenas de sobrevivência e combate na selva - herdadas de
comunidades nativas da Amazônia e que incluem desde a obtenção de alimento a
técnicas de acampamento, natação e localização- não são usadas apenas no
dia-a-dia das bases militares de fronteira. Foram incorporadas pelo Exército e
hoje são ensinadas nos cursos do CIGS (Centro de Instrução de Guerra na
Selva).
A unidade, sediada em Manaus, forma militares de elite do Exército e se
tornou referência internacional em técnicas de combate em ambiente de
floresta.
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