30/3 - Folha Diferenciada DE HOJE

Folha Diferenciada


Posted: 30 Mar 2014 02:47 AM PDT

Político liderou uma série de reformas na França durante a década de 1930, por meio da coalizão Front Populaire

Leon Blum, político francês, chefe do Partido Socialista, conhecido historicamente por ter liderado o Front Populaire na década de 1930, morre em Jouy-en-Josas no dia 30 de março de 1950, aos 77 anos.

Nascido em 9 de setembro de 1872, em Paris, em uma rica família judaica, ingressa na Escola Normal Superior mas escolhe em seguida cursar direito. Participa ao lado de Jean Jaures de fundação do jornal L’Humanité. Provoca escândalo também com um livro, Do Casamento (1907), em que prega tanto para os homens quanto para as mulheres a experimentação sexual antes do casamento.

Wikicommons
Brilhante intelectual, eleito deputado em 1919, Blum assume a chefia do Partido Socialista após o Congresso de Tours (1920). Em 1936, leva o Front Populaire à vitória nas eleições legislativas e torna-se presidente do Conselho. Foi forçado a pedir demissão em 21 de junho de 1937.

[Imagem do político em 1927]
Em 10 de julho de 1940, perfila-se entre os 80 deputados que recusam os plenos poderes ao marechal Petain. É internado pelo regime de Vichy, julgado em Riom por sua suposta responsabilidade pela derrota de 1940 e entregue aos alemães.

Logo depois da libertação, dirige durante um mês o governo antes da posse do presidente Vincent Auriol.

Em 3 de maio de 1936, tivera lugar na França o segundo turno das eleições legislativas. O escrutínio dá maioria a uma coalizão de esquerda, o Front Populaire, conduzido por um chefe carismático, o socialista Leon Blum, então com 64 anos.

O Front Populaire era uma aliança eleitoral formada dois anos antes pelos três grandes partidos de esquerda: o Partido Comunista, de Maurice Thorez, o Partido Socialista, de Leon Blum, e, mais ao centro, o Partido Radical-Socialista, de Edouard Daladier. Sua vitória provoca nas classes populares uma esperança tanto maior porquanto o país estava paralisado, havia muitos anos, por uma crise econômica derivada do ‘crash’ de Wall Street de 1929.

Tão logo o governo se instalou, multiplicaram-se as greves por todo o país, além de ocupações de fábricas, de canteiros de obras e das grandes lojas, na esperança da derrubada do sistema capitalista.

Essas greves improvisadas atingem rapidamente o conjunto do setor privado. No total eram 2 milhões de grevistas. Fato notável, elas se desenrolavam de maneira pacífica e num ambiente de alegria. Todos acreditavam na iminência de uma nova revolução.

O governo restaura a paz social assinando com os representantes patronais e sindicais os Acordos Matignon, na noite de 7 para 8 de junho de 1936 – o palácio Matignon era a residência do presidente do Conselho.

Os acordos previam aumento salarial, eleição de delegados operários nas fábricas, estabelecimento de contratos coletivos e não mais individuais. Em consequência, o trabalho foi sendo retomado paulatinamente em todas as empresas.

Leon Blum comanda com energia e rapidez algumas reformas sociais espetaculares: descanso semanal remunerado (8 de junho de 1936) e semana de 40 horas para todos os assalariados (12 de junho de 1936).

Reforma a estrutura do Banco da França (24 de julho); nacionaliza as principais fábricas de armamento (11 de agosto) e cria o Escritório Interprofissional do Trigo (15 de agosto) a fim de controlar o curso e o preço dos cereais.

Blum utiliza a data de 31 de dezembro de 1936, quando se anunciava o novo ano, para saudar a obra concluída: “Voltou a esperança, o gosto pelo trabalho, o gosto pela vida”.

O desemprego, no entanto, não dava mostras de melhora. Os patrões, a pretexto de que a limitação a 40 horas da jornada semanal de trabalho, em vez das 48 horas anteriores, afetava diretamente a lucratividade de seus negócios, passaram a reduzir os seus quadros de empregados. Com isso, houve uma retomada dramática do desemprego, o que afetou a economia como um todo.

Blum procede à desvalorização do franco, o que permite certo respiro à economia, porém, a medida chega um pouco tarde demais. Em 13 de fevereiro de 1937, numa alocução radiofônica, Blum se resigna a anunciar uma “pausa social”.

No plano político, a demora do governo em se manifestar diante da crucial Guerra Civil espanhola, que colocava frente a frente, numa cruenta guerra, forças fascistas e progressistas, termina por desacreditá-lo. Em 21 de junho de 1937, o líder socialista vê-se forçado a apresentar sua demissão.

Leon Blum é substituído na chefia do governo pelo radical-socialista Camille Chautemps, quem permite abrir uma brecha na legislação trabalhista sobre as 40 horas semanais, facilitando a ampla utilização de horas extras.

Prosseguiu nas reformas, reagrupando as companhias privadas de estrada de ferro, gravemente deficitárias, num monopólio público, a SNCF (Societé Nationale de Chemin de Fer). No entanto, comunistas e socialistas pressionam pela aplicação integral do programa do Front e provocam sua demissão.

Leon Blum retorna à chefia de um governo de união nacional em 13 de março de 1938, em um momento de extrema tensão internacional: exatamente na véspera, Hitler anexava a Áustria à Alemanha.

Encaminha sua renúncia menos de um mês depois e o radical-socialista Edouard Daladier assume a presidência do Conselho. A este caberia assinar os famigerados Acordos de Munique, para tempos depois declarar guerra à Alemanha nazista.

Opera Mundi


Posted: 29 Mar 2014 08:29 PM PDT


Do blog de IV AVATAR

PODERIA TER SIDO SUA FILHA, SUA IRMÃ, SUA NAMORADA...

Nilda Carvalho Cunha foi presa na madrugada de 19 para 20 de agosto de 1971, no cerco montado ao apartamento onde morreu Iara Iavelberg. Foi levada para o Quartel do Barbalho e, depois, para a Base Aérea de Salvador. Sua prisão é confirmada no relatório da Operação Pajuçara, desencadeada para capturar ou eliminar o guerrilheiro Carlos Lamarca e seu grupo.

Nilda foi liberada no início de novembro do mesmo ano, profundamente debilitada em consequência das torturas sofridas. Morreu em 14 de novembro, com sintomas de cegueira e asfixia. Ela tinha acabado de completar 17 anos quando foi presa. Fazia o curso secundário e trabalhava como bancária na época em que passou a militar no MR-8 e a viver com Jaileno Sampaio.

[...] um pouco do que Nilda contou de sua prisão:



– Você já ouviu falar de Fleury? Nilda empalideceu, perdia o controle diante daquele homem corpuloso. – Olha, minha filha, você vai cantar na minha mão, porque passarinhos mais velhos já cantaram. Não é você que vai ficar calada [...]. Dos que foram presos no apartamento do edifício Santa Terezinha, apenas Nilda Cunha e Jaileno Sampaio ficaram no Quartel do Barbalho. Ela, aos 17 anos, ele, com 18. – Mas eu não sei quem é o senhor... – Eu matei Marighella. Ela entendeu e foi perdendo o controle. Ele completava: – Vou acabar com essa sua beleza – e alisava o rosto dela. Ali estava começando o suplício de Nilda. Eram ameaças seguidas, principalmente as do major Nilton de Albuquerque Cerqueira. Ela ouvia gritos dos torturados, do próprio Jaileno, seu companheiro, e se aterrorizava com aquela ameaça de violência num lugar deserto. Naquele mesmo dia vendaram-lhe os olhos e ela se viu numa sala diferente quando pôde abri-los. Bem junto dela estava um cadáver de mulher: era Iara, com uma mancha roxa no peito, e a obrigaram a tocar naquele corpo frio. No início de novembro, decidem libertá-la. [...] Na saída, descendo as escadas, ela grita: – Minha mãe, me segure que estou ficando cega. Foi levada num táxi, chorando, sentindo-se sufocada, não conseguia respirar. Daí para a frente foi perdendo o equilíbrio: depressões constantes, cegueiras repentinas, às vezes um riso desesperado, o olhar perdido. Não dormia, tinha medo de morrer dormindo, chorava e desmaiava. – Eles me acabaram, repetia sempre [...].



Em 4 de novembro, Nilda foi internada na clínica Amepe, em Salvador [...] No mesmo dia, os enfermeiros tentaram evitar a entrada do major Nilton de Albuquerque Cerqueira em seu quarto de hospital, mas não conseguiram. Na presença da mãe, ele ameaçou Nilda, disse que parasse com suas frescuras, senão voltaria para o lugar que sabia bem qual era. O estado de Nilda se agravou, e ela foi transferida para o sanatório Bahia, onde faleceu, em 14 de novembro. No seu prontuário, constava que não comia, via pessoas dentro do quarto, sempre homens, soldados, e repetia incessantemente que ia morrer, que estava ficando roxa. A causa da morte nunca foi conhecida. O atestado de óbito diz: “edema cerebral a esclarecer”.

(Trecho do livro Direito à memória e à verdade: Luta, substantivo feminino Tatiana Merlino – São Paulo: Editora Caros Amigos, 2010.)

Nilda não foi violentada apenas por seus torturados. Foi violentada pelos donos dos meios de comunicação que apoiaram e sustentaram o regime militar. Foi violentada também por todos aqueles empresários e políticos reacionários que financiaram a repressão e lucraram com seu sangue, com suas lágrimas e com sua dor.

Nilda poderia ter sido uma adolescente comum, feliz, cheia de sonhos. Mas a ganância, o egoísmo e a brutalidade de uma elite privilegiada e sem compromisso com nosso país, deram esse trágico fim a sua vida. Esta elite jogou milhares de jovens na clandestinidade, os torturou e os matou.

Nilda ainda vive em cada um de nós, que acreditamos e lutamos pelos direitos humanos, pela vida, pela justiça e pela igualdade social. Mas ela continua sendo torturada nos dias de hoje. Ela está sendo torturada pela mídia que é contra os julgamentos dos criminosos da ditadura militar. E ela continuará sendo torturada enquanto políticos e empresários que apoiaram esse regime bárbaro continuarem livres. Ela foi torturada pelos atuais ministros do Supremo Tribunal Federal que recusaram o pedido de condenação dos praticantes de violações contra os direitos humanos nos porões do exército.

Não deixe que aqueles que tentaram apagar Nilda da História tenham êxito. Nosso país somente terá democracia plena quando acertar as contas com seu passado. Apóie a Comissão da Verdade e Reconciliação que irá julgar os crimes praticados pelos órgãos de repressão do regime militar. Crimes contra a humanidade não prescrevem!

GGN
Posted: 29 Mar 2014 07:29 PM PDT



Miguel do Rosário

O Cafezinho obteve mais documentos inéditos que ajudam a explicar um pouco essa confusão sobre Pasadena.

Antes, um breve comentário político. Permaneço bastante crítico à maneira como a Petrobrás, através de sua presidenta, Graça Foster, vem conduzindo a “crise”. Estendo a culpa à própria presidenta da República. Ambas escolheram a estratégia de sair cortando cabeças à torto e direito, e não estão fazendo nenhuma defesa política da estatal, nem da refinaria de Pasadena. A oposição está fazendo a festa.

A última da Foster foi demitir outro alto executivo da empresa, José Orlando Azevedo, sem oferecer nenhuma explicação. Com isso, a mídia domina a narrativa. Para cúmulo da trapalhada política, o sujeito é primo de Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás.

Ou seja, tá parecendo que a Foster está se aproveitando da crise para fazer um ajuste de contas interno. O blog da Petrobrás continua inerte. Não há informação, então a gente não tem para onde correr senão para a mídia tradicional, que iniciou mais uma campanha de manipulação.

Tenho a impressão que tanto Dilma quanto Foster estão sendo vítimas de seu próprio “tecnicismo”. É tiro no pé em cima de tiro no pé.

A refinaria de Pasadena tem de ser defendida. É coisa nossa. Esse é meu recado como blogueiro político.

Já como blogueiro investigativo, minha função é levantar dados para que as pessoas entendam melhor a conjuntura.

A primeira coisa para entender o imbróglio é partir do início. O que era a refinaria de Pasadena antes de ser comprada pela Astra? Era uma sucata? Estava desativada? Dava lucro? Tinha dívidas?

Como eu ia dizendo, O Cafezinho teve acesso a dois documentos inéditos que nos ajudarão a responder a essas perguntas.

O documento mais recente, de agosto de 2000, é um informe da Golnoy Barge Company, empresa que detinha 14% das ações da refinaria de Pasadena, aos outros sócios minoritários.

O documento fala da preocupação dos sócios pequenos com a gestão de Henry Rosenberg, e seus dois filhos, à frente da refinaria. Eles estavam preocupados com uma operação financeira que Rosenberg tinha iniciado para ampliar sua participação acionária da refinaria e aumentar seu controle sobre ela.

O final da década de 90 tinha sido bem difícil para o negócio de refinaria. Em 1998, a Crown Central (nome antigo da refinaria de Pasadena) havia registrado fortes prejuízos, e ainda enfrentava inúmeros processos trabalhistas.

O segundo documento obtido por Cafezinho é um artigo publicado no Oil Daily, onde se lê que o mercado desconfiava que Henry Rosenberg estava se preparando para vender a companhia. Até aí nada demais, a empresa era dele e ele podia vender quando quisesse. Acontece que ninguém confiava em Rosenberg, nem os sócios pequenos, muito menos os sindicatos.

A matéria informa que a Crown registrou prejuízo de 829,4 milhões de dólares em 1998. Segundo a matéria, parte desse prejuízo se devia ao boicote que os sindicatos vinham fazendo à empresa. Era uma campanha popular. Ninguém queria comprar a gasolina vendida nos postos da Crown. A empresa, por sua vez, atribuía o prejuízo a situação do mercado, e lembrava que todas as empresas estavam amargando prejuízo aquele ano, o que era verdade.

O caso de Pasadena, contudo, era mais grave porque Rosenberg, dono da empresa, enfrentava um grave problema de crédito na praça. E não estava conseguindo renegociá-lo junto aos bancos.

No documento de agosto de 2000, da Golnoy Barge Company, contudo, somos informados que o mercado de refinaria se recuperou vigorosamente a partir do início da nova década. O faturamento líquido (EBITDALL) da Crown nos primeiros seis meses de 2000 totaliza US$ 66,6 milhões. O lucro líquido no primeiro semestre de 2000 atingiu US$ 5,6 milhões, comparado ao prejuízo de US$ 22 milhões no mesmo período de 1999.

Entretanto, os sócios pequenos da refinaria dão duas informações que serão fundamentais para a gente entender o preço pago pela Astra em 2005.

A Crown tinha promissórias junto a seus acionistas pelas quais “qualquer um que quisesse adquirir a Crown Central deveria estar preparado para refinanciar o débito de US$ 125 milhões”.

Isso em 2000! Em 2005, esse débito teria subido para US$ 200 milhões, como eu disse em outro post. A diferença é que essa fonte agora é mais oficial ainda. É um documento dos próprios sócios da Crown.

A outra informação importante é sobre os estoques da Crown. A mídia vem repetindo que a Astra comprou a refinaria por US$ 42,5 milhões. Mentira. A Astra começou a trabalhar junto à Crown em 2004. Pagou suas dívidas, comprou seus estoques, e só então adquiriu as ações da refinaria por US$ 42,5 milhões.

O documento da Golnoy nos dá uma ideia do valor dos estoques da Crown no ano 2000. Os sócios achavam que esses podiam ser US$ 83 milhões maiores do que o informado oficialmente pela empresa. Portanto, o valor dos estoques, no ano 2000, eram um valor X mais US$ 83 milhões. Quanto valiam? US$ 100, 300, 500 milhões? A refinaria tinha capacidade para estocar mais de 6 milhões de barris, portanto o valor desses estoques poderia até ultrapassar US$ 1 bilhão.

Por que Pasadena tinha uma capacidade tão grande de estoque? A resposta é fácil. A volatilidade alucinante das cotações do petróleo e seus derivados, fazem com que seja estratégico, para uma refinaria, ter uma boa capacidade de estoque, para ordenar a oferta e evitar vender em momento inadequado.

Na sexta-feira, o Valor confirmou uma informação que eu já detectei em vários documentos, inclusive no relatório da Astra.

“Conforme o acordo de acionistas, ao qual o Valor teve acesso, o prêmio de 20% valeria tanto para os 50% restantes do ativo refinaria, avaliado em março de 2006 por US$ 378 milhões, como para a trading, que tinha preço de referência inicial de US$ 300 milhões, que era o “capital comprometido” pela Astra no negócio até a assinatura do acordo.“

A Petrobrás não adquiriu somente a refinaria de Pasadena. Ela comprou também a Astra Trading, que era o braço comercial da refinaria montado pela Astra quando a assumiu. Essa trading tinha recebido US$ 300 milhões da Astra. Não está claro se esse valor já embute os estoques. E não se sabe exatamente a dívida herdada pela Astra quando assumiu o controle da refinaria. O que se tem certeza é que havia uma dívida de US$ 125 milhões em 2000 e, segundo a Jefferies, US$ 200 milhões em 2003. Como os americanos nunca pagam uma dívida de uma vez, pois os juros lá são muito baixos e todos apenas rolam seus débitos, indefinidamente, é certo que estes deveriam continuar na casa dos oito dígitos quando houve a compra pela Astra.

Portanto, a Astra quando adquiriu Pasadena, investiu US$ 42,5 milhões pelo controle acionário, assumiu uma dívida milionária, mobilizou US$ 300 milhões, comprou estoques, e ainda fez investimentos de quase US$ 100 milhões para modernizar a refinaria. Os documentos da Astra deixam bem claro que a venda decorreu de um “processo”, cujos detalhes jamais foram revelados.

Não sei se houve, como dizem os paulistas, alguma treta em algum momento do negócio. Talvez. Mas pode haver treta na Abreu Lima, no porto de Suape, no Comperj, em qualquer negócio da Petrobrás em qualquer lugar do mundo. O ser humano, infelizmente, é corrompível por natureza.

O importante a saber aqui é que essa disparidade absurda de valores com que a mídia tenta impressionar o cidadão comum não existe. A refinaria de Pasadena sempre valeu um bocado de dinheiro, sempre esteve operante, e possivelmente se revele com o tempo uma excelente aquisição para a Petrobrás.

Outra coisa que é preciso deixar claro é que as cláusulas Put Option e, sobretudo, a Marlim, existiram porque a Petrobrás também tinha suas prerrogativas. Também haviam cláusulas a favor da Petrobrás: a estatal podia “forçar investimentos”, ou seja, podia fazer o que quisesse dentro da refinaria.

Lembro-me que o ex-presidente Lula, certa vez, ensinou que um bom negócio é o chamado “ganha-ganha”. Um ganha e o outro pensa que ganha. Acho que foi exatamente o que aconteceu aqui. A Astra pensou que fez um bom negócio, mas quem agora possui uma refinaria no coração dos EUA é a Petrobrás!

Esta CPI da Petrobrás pode ser uma oportunidade do governo e da estatal aprimorarem suas estratégias de comunicação. Aliás, o que vemos hoje é resultado do fiasco comunicativo da Petrobrás. Os brasileiros não têm ideia do aumento das reservas brasileiras de Petróleo, e do montante que a estatal tem investido no país.

Na propaganda eleitoral, Eduardo Campos fala em “meia Petrobrás”. Todos falam no declínio do valor de mercado da empresa. Mas o que tem efeito na economia brasileira não é o valor especulativo da Petrobrás nas bolsas, e sim a quantidade real de dinheiro que a empresa tem investido no país, o número de empregos gerados a partir desses valores, sem falar nos impostos. Além disso, a Petrobrás continua dando lucro.

Na última vez que a mídia fez uma campanha contra a Petrobrás, a estatal inovou e criou um blog que fez história, rendeu até mesmo teses de mestrado. Foi um sucesso. E agora o blog está lá, às moscas, sem participar do debate político. Neste sábado, após manchete bombástica do Globo, o blog informa que a “Petrobrás patrocinou o Festival de Curitiba”. Legal que o tenha feito, mas alguém entrará no blog da Petrobrás para saber isso?

Por que a Petrobrás não faz um belo infográfico com dados atualizados sobre seu lucro e faturamento?

Ao invés de ocupar o noticiário com demissões talvez desnecessárias, numa lamentável demonstração de medo, porque não aproveita a visibilidade e expõe suas estratégias, aqui, no Golfo do México, em Pasadena?

Enquanto demonstrar medo, a Petrobrás vai apanhar. Ela só vai virar o jogo quando exibir os dentes. Por que não mostra, por exemplo, que paga seus impostos em dia?

Por que não mostra o Darf?



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O Cafezinho
Posted: 29 Mar 2014 05:24 PM PDT

Publicado originalmente no Common Dreams.


POR TARIQ ALI

Mais uma vez, parece que a Rússia e os Estados Unidos estão encontrando dificuldades para chegar a acordo sobre a forma de lidar com as respectivas ambições. Este choque de interesses atingiu o auge na crise ucraniana. A provocação, neste caso particular, como sugere a gravação que vazou de uma diplomata dos EUA, Victoria Nuland, dizendo “Foda-se a União Europeia”, veio de Washington.

Várias décadas atrás, no ápice da Guerra Fria, George Kennan, um estrategista da política externa americana informou a audiência de suas palestras: “Não há , deixe-me assegurá-los, nada na natureza mais egocêntrico do que a democracia em apuros. Logo ela se torna vítima de sua própria propaganda. Em seguida, ela tende a dar a sua causa um valor absoluto que distorce a sua própria visão… O inimigo se torna a personificação de todo o mal. Ela é o centro de todas as virtudes”.

E assim continua. Washington sabe que a Ucrânia tem sido sempre um assunto delicado para Moscou. Os ultranacionalistas que lutaram com o Terceiro Reich durante a Segunda Guerra Mundial mataram 30 mil soldados russos e comunistas. Pavel Sudoplatov, um chefe da inteligência soviética, escreveu em 1994: “As origens da Guerra Fria estão intimamente entrelaçadas com o apoio ocidental à agitação nacionalista nas áreas bálticas e na Ucrânia ocidental.”

Quando Gorbachev assinou o acordo da reunificação alemã, o secretário de Estado dos EUA Baker assegurou-lhe que “não haveria expansão da jurisdição da Otan nem uma polegada para o leste” . Gorbachev repetiu: “Qualquer expansão da Otan é inaceitável.” A resposta de Baker: “De acordo”. Uma das razões que levaram Gorbachev a apoiar publicamente Putin na Crimeia é que sua confiança no Ocidente foi tão cruelmente traída.

Enquanto Washington acreditava que os líderes russos cegamente faziam o que lhe interessava (especialmente o bêbado Yeltsin), Moscou teve apoiou. O ataque de Yeltsin ao parlamento russo em 1993 foi festejado nos meios de comunicação ocidentais. As agressões à Chechênia por Yeltsin e depois por Putin foram tratadas como um pequeno problema local por George Bush e Tony Blair. “A Chechênia não é o Kosovo”, disse Blair depois de sua reunião com Putin em 2000.

O livro de Tony Wood, “Chechênia: A Favor da Independência”, fornece capítulo e versículo dos horrores que foram infligidos a esse país. A Chechênia tinha sido independente entre 1991 e 94. Seu povo observou a velocidade com que as repúblicas bálticas fizeram sua independência e queria o mesmo para si.

Em vez disso, foram bombardeados. Grozny, a capital, foi praticamente reduzida a pó. Em fevereiro de 1995 dois economistas russos corajosos, Andrey Illarionov e Boris lvin, publicaram um texto no Moscow News a favor da independência da Chechênia e o jornal também publicou algumas excelentes reportagens que revelaram atrocidades em grande escala, superando o cerco a Sarajevo e o massacre de Srebrenica. Estupro, tortura, refugiados desabrigados e dezenas de milhares de mortos. Nenhum problema para Washington e seus aliados da União Europeia.

No cálculo dos interesses ocidentais não há sofrimento, qualquer que seja a sua dimensão, que não possa ser justificado. Chechenos, palestinos, iraquianos, afegãos, paquistaneses são de pouca importância. No entanto, o contraste entre a atitude do Ocidente em relação à guerra na Chechênia e a Crimeia é surpreendente.

A invasão da Crimeia não teve nenhuma perda de vida e a população claramente queria fazer parte da Rússia. A reação da Casa Branca foi o oposto da sua reação à Chechênia. Por quê? Porque Putin, ao contrário de Yeltsin, está se recusando a baixar a cabeça para a expansão da Otan, as sanções ao Irã, a Síria etc. Como resultado, ele se tornou o Mal em pessoa. E tudo isso porque decidiu contestar a hegemonia dos EUA usando os métodos frequentemente implantados pelo Ocidente. (As repetidas incursões da França na África são apenas um exemplo.)

Se os EUA insistem em usar o ímã da Otan para atrair a Ucrânia, é provável que Moscou irá separar a parte oriental do país. Aqueles que realmente valorizam a soberania ucraniana devem optar pela independência real e uma neutralidade positiva: nem um brinquedo do Ociente e nem de Moscou.


Diário do Centro do Mundo


Posted: 29 Mar 2014 04:20 PM PDT

(Jornal do Brasil) - Não satisfeitos em mentir descaradamente os golpistas que saíram às ruas, na semana passada - e não conseguiram  reunir  mais do que algumas centenas de pessoas, em suas marchas, em três capitais brasileiras -resolveram agora partir diretamente para o fake, a falsidade ideológica e a mais pura e simples fantasia.


Já há algum tempo circulam, na internet, cartas, textos, e “diretrizes” atribuídas a  um certo General Mário Márcio Von Brenner, com acusações ao governo, movimentos populares e à UNASUL.  

Segundo informações, plantadas aqui e ali na rede, o General Von Brenner - assim mesmo, com um certo “quê” de nostalgia nazista -  seria comandante de um pelotão “especial” de fronteira, e, portanto, da ativa. Nessas condições, fazer declarações políticas, seria crime e levaria à  possibilidade de um quadro de grave crise institucional.

Isso fez com que suas mensagens fossem rapidamente multiplicadas, em vários sites, de direita e de esquerda, até que alguém, em um site frequentado por militares da reserva, começou a questionar o fato de um general de exército estar, supostamente, no comando de um simples pelotão de fronteira; de seu uniforme parecer fantasia de guarda de banco, e de ele  negar-se a identificar a unidade sob seu comando.


Vejamos a mensagem do general Mário Márcio:

“Temos recebido informações diárias sobre a atuação deste governo a respeito de sua malfadada política externa, sobre a formação de grupos guerrilheiros em nossas fronteiras ao norte do país, sobre o planejamento de grupos espúrios para atuarem (sic) contra as nossas manifestações a partir do dia 22 de março,a aplicação de uma cartilha elaborada pela UNASUL a fim de transformar o exército destes países num único exército na América do Sul.
Diante de toda esta situação, informamos que o Pentágono está acompanhando com preocupação o movimento político de toda a UNASUL [União das Nações Sul Americanas] No (sic) qual somos o país líder. Estamos preparados para enfrentar nos próximos meses a atuação deste governo e não mediremos esforços para colocar as nossas vidas a serviço do Brasil.”


Vejamos as diretrizes do “general” Mário Márcio:
- Destituição da presidente da República Federativa do Brasil;

- Instituição do Tribunal Militar para julgamento de todos os políticos, corruptos, subversivos, MST, Liga Campesina, Ongs comunistas , empresários sonegadores e simpatizantes das esquerdas ( inclusive os Black Blocs );
- Fechamento do Congresso Nacional;
- Extinção de todos os partidos políticos;

- Julgamento de todos os militares envolvidos com a esquerda e que aceitaram cargos deste governo comunista;

- Extinção das redes de TV que foram compradas por este governo, bem como suas estações de rádios;

- Transferência da capital federal, aonde Brasilia ( Sodoma e Gomorra brasiliencie) (sic) será caso do passado, para uma cidade estratégica do sul do Brasil ( não construiremos outra cidade );

- Extinção da FORÇA NACIONAL DE SEGURANÇA;

- Extinção de todos os ministérios criados pelo PT;

- Nomeação de Interventores estaduais que substituirão os atuais governadores;

- Toda a segurança pública ficará a cargo de uma pasta do Ministério da Defesa;

- O Ministério da Defesa terá como responsável da pasta somente um militar com todos os critérios exigidos.


Vejamos a fantasia do “General” Mário Márcio:

" A NOSSA HONRA É A LEALDADE."
EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS:


Informamos a todos interessados que não coadunamos com a mudança do nome Batalhão Marechal Zenóbio da Costa para Batalhão Carlos Lamarca. Consideramos uma verdadeira afronta, foge aos princípios militares que norteam este batalhão que serviu de exemplos (sic) para as demais gerações que lá serviram.
Se tais ordens vieram da comissão da verdade, comunicamos que não conhecemos e nem aceitamos esta comissão mesmo instituída por lei, por se tratar de um grupo revanchista que tem um único objetivo – DESMORALIZAR O EXÉRCITO BRASILEIRO. Exigimos que se apurem os verdadeiros responsáveis pela mudança de nome e que todos sejam punidos exemplarmente pela justiça militar servindo de exemplo para todas as gerações seguintes. Que tais desidérios jamais serão praticados dentro da nossa instituição militar.
CONSIDERAMOS COMO OFICIAIS DA RESERVA UM DESRESPEITO AOS NOSSOS PRINCÍPIOS MILITARES, UMA DESONRA A QUEM SERVIU ESTA EGREGE UNIDADE MILITAR E UMA TRAIÇÃO AO EXÉRCITO E A PÁTRIA BRASILEIRA A QUEM SERVIMOS UM DIA.

Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2.013

Mário Márcio Von Brenner - Integrante da Organização ORDEM NEGRA NO BRASIL.

Quais são as mensagens do “General” Márcio Mário ?

Que a UNASUL está organizando um exército único, e comunista,  na América do Sul.

Que grupos de guerrilheiros tinham sido treinados para atacar as “marchas” convocadas pelos golpistas para o sábado passado.

Que há campos de treinamento das FARCS em território brasileiro.

Que é preciso julgar todos os militares que aceitaram cargos neste governo “comunista”, ou seja, todos os oficiais das Forças Armadas, e a tropa a eles subordinada.

Que estão querendo trocar o nome do Batalhão Zenóbio da Costa por Batalhão Carlos Lamarca, o que é pura fantasia.

Que é que se pode perceber sobre do “General” Márcio Mário?

Que ele não é general e nem sequer serviu nas Forças Armadas, porque saberia que general não comanda pelotão de fronteira.

Que ele é mal informado, caso contrário saberia que não se cogita, nem nunca se cogitou, trocar o nome do Batalhão Zenóbio da Costa.

Que ele está muito enganado, quando acha que vive em um país comunista.

O Brasil não é um país comunista, mas, na verdade, poderíamos dizer, um dos mais fortes sustentáculos do capitalismo no mundo de hoje.

Mandamos mais de 25 bilhões de dólares, no último ano, em remessa de lucro para a  uropa e os Estados Unidos, ajudando esses países a sair de suas sucessivas crises. Demos, para a Europa e os EUA, um lucro de mais de 10 bilhões de dólares, na balança comercial, em 2013.

Brasileiros gastaram, no ano passado, 19 bilhões de dólares no exterior e mais de 3 bilhões de dólares somente nos dois primeiros meses deste ano.

O governo do PT emprestou, na última década, quase 250 bilhões de dólares para o tesouro norte-americano, transformando o Brasil no quarto maior credor individual externo dos EUA, o que contribui para financiar o déficit e a gigantesca dívida pública de seu teórico “arqui-inimigo” - o país mais capitalista do mundo.

A não ser que o “general” Mário Márcio acredite que o governo que aí está seja comunista por ter adiado uma visita de Estado ao EUA, porque, como ficou comprovado, nossas mais altas autoridades estavam sendo espionadas pelos norte-americanos, assim como milhares de empresas e cidadãos brasileiros.

Ou porque fez acordos com a França – um país ocidental, democrático, capitalista – para comprar e construir, no Brasil, submarinos convencionais e de propulsão atômica. Ou porque comprou fragatas na Inglaterra. Ou, talvez, porque tenha desenvolvido novos radares para o exército, ou, quem sabe, porque encomendou 2.000 blindados leves desenvolvidos pela Força Terrestre, para serem construídos no Brasil.

Ou porque tenha autorizado o  desenvolvimento da nova família de fuzis IA-2, 100% nacional, fabricada, pela IMBEL, em Itajubá, ou, porque, finalmente, comprovando seu esquerdismo, tenha comprado da Suécia, um país reconhecidamente “radical” e “marxista”, a tecnologia para desenvolver, em parceria, os 36 caças Grippen NG-BR que equiparão a FAB.

O que ocorre, hoje, no Brasil, é que se está confundindo, mais uma vez, pregar a quebra do Estado de Direito com fazer política. Todos temos – e tem havido momentos que beiram a agressão por parte tanto do governo como da oposição – o direito de abusar, eventualmente, da emoção, no calor do embate político - desde que respeitadas as regras, começando pelo Artigo Primeiro, que reza:  “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”

Não se pode, portanto, flertar, nem compactuar, com aqueles que defendem, sem qualquer pudor, como ocorre hoje, na internet, a volta da tortura, dos assassinatos, o fim da prerrogativa dos cidadãos brasileiros de escolher seu futuro pelo voto e dos direitos e liberdades individuais.

Até porque, como vimos antes, há 50 anos, muita gente – civis e militares – que apoiaram no início a ditadura, acabou sendo devorada por ela como fez Cronos com seus filhos.

Não existe alternativa à democracia a não ser a barbárie, o caos, o pega pra capar, a guerra civil, o caos social e econômico, com a paralisia do Estado e da economia e o isolamento do Brasil do resto do mundo.

Como fake, o General Mário Márcio, no comando de um inexistente pelotão de fronteira, é tão inofensivo quanto um soldadinho de chumbo.

Como manobra de contrainformação, trata-se de desrespeito - para não dizer deboche - aos oficiais de verdade, que estão no comando da instituição; e de uma tentativa, infeliz, diga-se de passagem, de denegrir as nossas Forças Armadas – com o intuito de subverter a ordem e de promover o ódio e a desunião no seio da sociedade brasileira.


Cabe agora, ao Ministério Público, com a ajuda da Polícia Federal, identificar e punir o autor da “brincadeira”.
Postado por Mauro Santayana às 20:12

Mauro Santayana

Posted: 29 Mar 2014 02:08 PM PDT
Maria Eduarda Johnston

Quando visitei Londres pela primeira vez, fiquei impressionada com a riqueza da cidade. Trafalgar Square com seus leões imponentes, a National Gallery e seu acervo de sonhos, o British Museum e suas múmias, deuses gregos e outros muitos tesouros arqueológicos. O tamanho destes prédios, que abrigam algumas das melhores coleções do mundo, o palácio da rainha, os parques, eu poderia escrever parágrafos e mais parágrafos sobre as maravilhas de Londres. Na minha cabeça eu só pensava: que povo rico! Mas a história não foi sempre assim. O Império Britânico sem dúvida era muito rico, mas o povo... O que se vê nas ruas das grandes cidades da Inglaterra hoje é bem diferente do que se via antes da segunda guerra, com grande parte da população vivendo em condições precárias, ainda sem ter o privilégio de sonhar com os benefícios, que a revolução industrial havia trazido para os mais ricos da sociedade.

O que mudou com o pós-guerra foi a ampliação dos direitos econômicos e sociais, com princípios baseados em igualdade de oportunidades e distribuição de riqueza. O programa se deu em duas frentes: a da saúde e educação e a dos benefícios sociais.

O Sistema Nacional de Saúde (NHS em inglês) foi criado em 1948 e é motivo de orgulho dos britânicos. É óbvio que existem problemas com o sistema de saúde daqui. Volta e meia surgem escândalos de maus-tratos e má administração em hospitais públicos. Ainda assim, a maioria vê o NHS como uma instituição que define um modo de vida. Os comentários sobre a saúde nos Estados Unidos, onde quem não tem um plano de saúde está frito, vem sempre com um tom de desaprovação e pena.

Na Inglaterra existem as ‘Public Schools’ que eu achava que eram escolas públicas, mas são as particulares. Isso porque antigamente só existiam as escolas de igrejas, depois surgiram outras abertas ao público, que podia pagar. Daí o termo ‘public’.Mais tarde vieram as ‘state schools’, o que nós chamamos de escolas públicas. Como excelência é uma coisa que não existe, uma vez que sempre se pode melhorar, os jornais aqui reclamam que o resultado dos estudantes britânicos em testes internacionais como o PISA fica atrás de muitos outros países. Não sou nenhuma especialista no sistema educacional britânico, mas posso contar a minha experiência. Há anos trabalho como voluntária na escola da minha filha, ajudando a promover a leitura. Até hoje quando chego lá fico deslumbrada com a qualidade do ensino e com a disponibilidade de recursos didáticos. Num rasgo de autopiedade, fico com pena da menina que eu fui, quando comparo a minha escola particular em Belo Horizonte com a escola pública da minha filha. Educação aqui é coisa séria, que pode fazer ou derrubar um político.

Quem fica em casa cuidando de um membro da família doente (com algum tipo de necessidade especial) recebe um salário do governo. Até os 18 anos, tratamento dentário e medicamentos são de graça, benefício também dado às gestantes. Aliás, os medicamentos são subsidiados para todos, o bolsa remédio. O preço máximo de um medicamento é £7.85 (cerca de 30 reais). Se o remédio custa menos, o paciente paga o valor do remédio. Se custar mais, o governo paga a diferença. O médico escreve a receita e o paciente retira o medicamento em qualquer farmácia. Se o paciente não tem como ir sozinho até o hospital para um tratamento, o hospital tem que resolver o problema de transporte. Se não fala inglês direito, o hospital (e os tribunais também) tem que fornecer um intérprete. Os velhinhos recebem uma ‘bolsa quentinha’ todos os dias em casa (meals on wheels), a preços subsidiados, se eles têm como pagar. Se não, vai de graça mesmo. Eles têm também ‘bolsa energia’ - o ‘gas benefit’, uma ajuda de custo para pagar as contas de gás e eletricidade. O ‘bolsa tv’ é para eles não pagarem o imposto para ver televisão ( TV Licence). Aqui tem que se pagar para ver televisão, mesmo os canais abertos. O ‘bolsa transporte público’ é subsidiado para estudantes e idosos. Depois de dar a luz, a mãe e o bebê recebem várias visitas dos agentes de saúde, até eles acharem que a família não precisa de mais de ajuda. Cabe ao Estado fornecer moradia digna para seus cidadãos, uma espécie de ‘bolsa moradia’. Se não tem uma casa ou apartamento disponível, o sem teto vai para um hotel, pago pelo governo. Tem também o ‘child benefit’ (bolsa família), o seguro por doença ou invalidez e o seguro desemprego, só para lembrar alguns.

Todos esses benefícios custam dinheiro e são bancados com o que é arrecadado pelos impostos. O imposto de renda varia entre 20 e 45%, dependendo da faixa salarial ou de ganhos. Se contar com a contribuição do National Insurance, (previdência) o imposto pode chegar a 54% dos vencimentos.Tem também o Council Tax (tipo um IPTU), o VAT, que é o ICMS inglês ( cigarro e bebidas recebem uma sobretaxa). Não é barato, tem gente reclama que o dinheiro não é sempre bem gasto e que existem pessoas que tiram proveito do sistema. Mesmo assim nunca vi ninguém chamando esses benefícios de bolsa esmola ou dizendo que tem que se ensinar a pescar e não dar o peixe.

Volta e meia aparece nos jornais alguém que burlou o sistema. Os jornais sensacionalistas adoram essas histórias, que apesar de exibirem um absurdo, são exceções. Nestas matérias frequentemente se vê um sujeito jogando golfe, ou futebol, mesmo estando afastado do trabalho por problemas na coluna. Aliás, problema de coluna é um clássico dos que exploram o sistema. Não que muitos não sejam genuínos, mas provar ou negar que alguém tem dor nas costas é difícil.

Morar no centro de Londres é caríssimo. Entretanto o Westminster Council ,uma espécie de administração regional de Westminster, paga aluguéis altíssimos para que algumas famílias de baixa renda possam morar num dos bairros mais ricos do planeta. Os críticos do sistema dizem que não é justo eles bancarem (através de impostos) para que outros morem em áreas onde eles nem podem sonhar em poder pagar. Os defensores da ideia dizem que não se pode retirar essas famílias de lá, onde elas formaram laços sócio afetivos, não seria justo. Eles vão ainda mais longe: se os pobres forem tirados da região, Londres vai viver um ‘apartheid’ social. Um lugar onde só vivem os ricos e os pobres são segregados, levando assim os princípios de igualdade e oportunidades por água abaixo.

Ah, os britânicos e seus princípios. Logo que me mudei para Inglaterra, quando os ânimos pós 11 de setembro ainda estavam exaltados, se discutia muito a obrigatoriedade de um documento de identidade. Aqui ninguém é obrigado a ter e muito menos portar o RG. Eu, que nasci e cresci num país onde não se deve sair de casa sem a carteira de identidade, achei que eles estavam fazendo muito barulho por nada. O que é que tem andar com um documento no bolso? Foi então que eu li um artigo que nunca mais me esqueci. Dizia que se você colocar um sapo na água fervendo, antes que você perceber, ele já terá pulado fora. Mas, se você colocar o sapo numa panela com água tépida e ligar o fogo, quando ele se der conta, ele já terá virado sopa. Com os direitos sociais adquiridos é a mesma coisa: um dia é uma carteira de identidade, outro dia o sigilo bancário quebrado. Um dia se tira os pobres do centro de Londres, no outro, os princípios que regem o programa de bem-estar social perdem o sentido e o sistema entra em colapso.

Conversando com um jornalista amigo que mora em Paris, ele disse que gostaria que o filho tivesse mais contato com a família no Brasil e que a gente perde muito morando no exterior. Ele completou: mas eu não trocaria a educação humanista que meu filho recebe aqui na França por nada. Concordo em gênero, número e grau com ele. Uma educação humanista pressupõe que o indivíduo aprenda a considerar e valorizar o bem comum mais amplo e não só a sua necessidade pessoal e imediata. O ‘bolsa família’ inglês, como o ‘bolsa família’ brasileiro, precisa passar por ajustes. Pode ser mais eficiente e mais justo. Mas se você me perguntar qualquer dia da semana, eu vou dizer que muito melhor com ele do que sem ele.

GGN


Posted: 29 Mar 2014 09:26 AM PDT

A Operação Condor é uma obra dos Grandes Democratas, como Geisel.



Amigo navegante, jogue no lixo as baboseiras que o PiG escreve sobre 1964.

Tenha coragem de ler até o fim a aula magistral de Luiz Claudio Cunha – que a Comissão 1/10 da Verdade não conseguiu suportar – na Universidade de São Paulo


Universidade de São Paulo e Brown University
Seminário Internacional:
O Golpe de 1964 e a onda autoritária na América Latina
São Paulo, 26-março-2014.



AS PENAS VERDE-AMARELAS DA CONDOR



As conexões repressivas do Brasil com as ditaduras no Cone Sul.

Luiz Cláudio Cunha

A plateia bem comportada que tomava as poltronas de veludo vermelho do centenário Teatro Solís, no centro de Montevidéu, irrompeu em aplausos entusiasmados quando ouviu o refrão final de Disculpe, o grande sucesso de Los Nocheros, o grupo folclórico patrioteiro que fazia sucesso com a música que a ultradireita do Uruguai assumiu como seu hino anticomunista.
Disculpe si no me entiende
Disculpe si no lo entiendo
Usted habla por la boca de otra gente y yo,
Y yo soy solo el eco de mi pueblo

O público daquela noite, 25 de agosto de 1975, não podia ser mais fiel: eram generais, oficiais de inteligência e agregados da elite militar de 15 países reunidos nos preparativos da 11º Conferência dos Exércitos Americanos (CEA), que seria aberta dois meses depois. E a atração musical no palco não podia ser mais confiável.
O quarteto de Los Nocheros — três guitarras e um bumbo — teve o seu disco patrocinado pela DINARP, o organismo de propaganda criado logo após o golpe militar civil-militar de 1973. Dois músicos do grupo eram ligados à DNII, a Dirección Nacional de Información y Inteligência, a polícia política patrocinada com recursos da CIA e inspirada no ‘Esquadrão da Morte’ do delegado brasileiro Sérgio Fleury. O quarteto almoçava com frequência com o comandante da secreta Compañia de Contrainformaciones, o braço repressivo do Exército. E Los Nocheros chegaram a cantar na festa de aniversário da unidade militar, instalada num quartel na esquina da calle Colorado e bulevar Artigas, dois quilômetros ao norte do Obelisco, marco turístico de Montevidéu.
Em 20 de outubro, enfim, abriu-se a 11ª CEA, que reuniu por cinco dias os comandantes da repressão mais louvados pelos nocheros do continente. O anfitrião da CEA, general Julio César Vadora, comandante do Exército uruguaio, expôs a ideia fixa daquele distinto público: “No campo de batalha da sedição, deve haver um estreito enlace entre os Exércitos [...]“. O representante do Chile era o general Gustavo Álvarez Águila, chefe do Estado-Maior do Exército, que amanheceu já no dia 11 de setembro no regimento de Peñalolén onde o general Augusto Pinochet instalou o QG do golpe contra Allende em 1973. O general Álvarez ecoou o mantra de seu líder: “O mundo se encontra em guerra. Uma guerra [...] de ações solapadas em que não se distingue vanguarda e retaguarda [...]“. O general uruguaio Luís Vicente Queirolo, secretário-geral da conferência, foi mais claro: “Existe uma coordenação entre os exércitos do continente para combater e impedir a infiltração marxista [...]“.
A estrela principal da reunião acabou sendo o chefe da delegação argentina, nomeado há menos de dois meses pela presidente Isabelita Perón para o comando do Exército. O tenente-general Jorge Rafael Videla ganhou as manchetes dos jornais ao antecipar o futuro em Montevidéu: “Se for preciso, deverão morrer na Argentina todas as pessoas necessárias para alcançar a segurança do país…”, avisou Videla, seis meses antes de liderar o golpe que matou e fez desaparecer 30 mil pessoas que ‘ameaçavam’ a segurança nacional.
O líder da comitiva brasileira, mais discreto, era o general Fritz Azevedo Manso, chefe do Estado-Maior do Exército, que derrubou João Goulart duas vezes no espaço de uma década. Em 1954, como tenente-coronel, Fritz assinou o manifesto de 82 oficiais que levou à queda do então ministro do Trabalho de Getúlio Vargas. Em 1964, como coronel, Fritz conspirou no golpe que depôs o presidente da República. Na conferência do Uruguai, o general brasileiro, mais atento à infiltração comunista nos quartéis, mostrou-se preocupado com uma declaração atribuída ao ex-governador Miguel Arraes, sobre “a necessidade de destruir as Forças Armadas por dentro” .
O espírito que sobrevoava Montevidéu aterrissou no mês seguinte, novembro de 1975, em Santiago do Chile, com a criação formal da Operação Condor.
O Exército do general Fritz estava lá.
O Exército do Brasil estava lá, no parto que deu à luz a treva da Condor.
Dissimulada como sempre, cínica como nunca, a ditadura do general Ernesto Geisel ainda assim tentava se manter oculta na reunião secreta dos cinco regimes militares do Cone Sul reunidos em torno da anfitriã, a Dirección Nacional de Inteligência, a polícia política de Pinochet.
Semanas antes, o diretor da DINA, coronel Manuel Contreras, despachou ao exterior o seu braço-direito, coronel da Força Aérea Mário Jahn, para entregar pessoalmente os convites para a I Reunião de Trabalho de Inteligência Nacional.

O freio de Geisel
Jahn confirmaria depois que os destinatários eram os chefes da repressão na Bolívia, Paraguai, Uruguai, Argentina e Brasil, mas lembrou de um único nome: o do convidado que visitou em Brasília, o general João Baptista Figueiredo, chefe do SNI e amigo de Contreras. Geisel precisou conter o entusiasmo de seu general, pronto para embarcar ao Chile. Contrariando o pedido de Contreras, Geisel mandou rebaixar a comitiva brasileira de três para dois representantes, com ordens estritas para ouvir mais do que falar.
Geisel não queria envolver o Brasil em ações coletivas de repressão, mas desejava preservar o espaço para ações bilaterais, caso a caso, quando necessárias. Figueiredo recebeu uma última ordem do presidente: reduzir a participação brasileira à condição de observador, sem autorização para firmar nenhum documento. O Planalto corrigiu ainda um erro de origem no convite da DINA. O convidado não devia ser o SNI, por definição apenas um órgão de informação do presidente. A missão em Santiago cabia, por dever de ofício, ao CIE, o Centro de Informações do Exército, o braço operacional no combate à luta armada. Dois oficiais do serviço secreto do Exército foram selecionados, com a aprovação do general Confúcio Danton de Paula Avelino, chefe do CIE, e do general Sylvio Frota, ministro do Exército de Geisel.
Os dois parteiros do Brasil no berço da Condor eram o coronel de Cavalaria Flávio de Marco e o major de Infantaria Thaumaturgo Sotero Vaz.
Eram dois veteranos de ação decisiva no combate à Guerrilha do Araguaia (1972-1974), o mais importante foco de guerrilha rural no país, que mobilizou em três campanhas militares um número estimado entre 5 mil e 8 mil homens para o combate a cerca de 70 guerrilheiros ocultos na selva amazônica, no sul do Pará.
Numa única operação de guerra interna, o Exército brasileiro executou em três anos, com êxito, o propósito que tinha a Operação Condor nas três fases com que assombraria o Cone Sul, na segunda metade da década de 1970: a coleta de informações na Fase Um, a caçada e a tortura em operações conjuntas na Fase Dois, o assassinato e o desaparecimento dos prisioneiros na Fase Três.
De Marco desembarcou no Araguaia em outubro de 1973, quando os guerrilheiros estavam reduzidos a 56. Mandava e desmandava na ‘Casa Azul’, sede em Marabá do Estado-Maior do CIE, onde o coronel dispunha de duas equipes de matadores – códigos ‘Zebra’ e ‘Jiboia’ -, cada uma com seis homens, integradas por um capitão, um suboficial, dois sargentos e dois cabos. No total, os dois bandos mataram 19 guerrilheiros, nenhum deles em combate. O grupo original de 56 guerrilheiros estava dizimado, reduzido a 10 combatentes, quando o coronel deixou o Araguaia, em outubro de 1974. Um ano depois, em novembro de 1975, com a autoridade de um veterano na doutrina hunter-killer de contra-insurgência , De Marco estava em Santiago do Chile representando o Brasil no berço da Condor.
Ao seu lado estava o major paraquedista Thaumaturgo, um especialista em guerra na selva com curso na Escola das Américas, que desembarcou no Araguaia liderando 36 ‘boinas-pretas’ da tropa de elite do Destacamento das Forças Especiais do Exército, do Rio de Janeiro. Dez anos depois, em 1984, Thaumaturgo assumiu o comando em Manaus do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), unidade de excelência nesse tipo de combate, frequentado por 103 oficiais estrangeiros entre 1966 e 1985, período mais crítico do combate às guerrilhas no Cone Sul. Alguns deles eram agentes da DINA, como reconheceu o próprio Manuel Contreras, revelando que a cada dois meses mandava oficiais para treinar na Escola Nacional de Informações (ESNI), em Brasília, complementando depois o curso no CIGS. O chefe da DINA não tinha o que reclamar do currículo, focado em interrogatório e tortura, mas ficou chateado com o calor sufocante da Amazônia: “Não era muito agradável para os que vinham do Chile ou da Argentina, porque o clima de Manaus é muito ruim”, criticou Contreras.

Copa e cozinha
De Marco e Thaumaturgo não eram figuras acidentais na fundação da Condor. Foram escolhas diretas dos dois generais mais importantes da ditadura — o presidente Geisel e seu sucessor, Figueiredo —, o que define bem a hierarquia do envolvimento do Brasil com o bando criminoso que nascia no Chile. Ainda major, De Marco serviu com o coronel Figueiredo quando ele comandava o Regimento de Cavalaria de Guarda, no Rio de Janeiro. Tinha linha direta no Araguaia com o general Milton Tavares de Souza, o chefe mais temido do duríssimo CIE do Governo Médici. Voltou a trabalhar com Figueiredo quando ele assumiu a chefia do SNI, no Governo Geisel, e chegou a diretor administrativo do Palácio do Planalto no Governo Figueiredo. O coronel da Condor era da copa e cozinha no mais alto escalão da ditadura brasileira.
O major Thaumaturgo foi cadete na Academia Militar das Agulhas Negras e aluno do capitão Danilo Venturini. À época da fundação da Condor Venturini já era coronel em Brasília, comandante do Batalhão da Guarda Presidencial, que fazia a escolta do Planalto do general Geisel. Três anos depois, promovido a general, Venturini era o diretor da ESNI, a escola de informações do SNI, frequentada pelos rapazes da DINA do coronel Contreras. Durante todo o Governo Figueiredo, o instrutor de Thaumaturgo foi o ministro-chefe do Gabinete Militar. Foi Venturini quem recebeu em primeira mão, em dezembro de 1975, a notícia do major recém-chegado do berçário da Condor: “Coronel, foi fundada uma organização – a Condor – para integrar os exércitos da região no combate ao terrorismo e à subversão”, contou Thaumaturgo a Venturini.
O Brasil pegou logo o espírito da coisa. O entrosamento da irmandade da Condor era tão fluido que, menos de um ano depois, chamou a atenção da DIA, a Agência de Inteligência da Defesa, o braço de espionagem mais importante do Pentágono. Em setembro de 1976, agentes da DIA em Buenos Aires transmitiram a Washington um quadro mais claro da integração repressiva do Brasil com a Argentina e o Uruguai. O telegrama secreto de 22 de setembro do DIA, repassado à Casa Branca, Pentágono, Departamento de Estado, NSA e CIA, resume com clareza inédita o nível de coordenação, apesar dos trechos censurados. O documento relata a presença de três homens, em trajes civis, embarcando no setor militar do Aeroparque, o aeroporto a dois quilômetros do coração de Buenos Aires. Diz o telegrama:

Em 15 de setembro de 1976… Roberto Viola, chefe do Estado-Maior do Exército, o general brigadeiro Suarez Masón, comandante do I Corpo de Exército, e o coronel Juan Saa, Assistente G-2 do Exército [estavam] a caminho de Montevidéu… Um veterano coronel de Exército responsável pela Inteligência argentina… está viajando a Brasília em 17 de setembro de 1976 para discutir assuntos de inteligência com as Forças Armadas brasileiras… [uma fonte não identificada informa] que a missão era secreta e que o Exército argentino estava trocando informações sobre subversão… ele sugeriu que este tipo de coordenação não era nova, mas não estabeleceu qual era a extensão dessa coordenação, além da troca de informações de inteligência.
[...] muito do sucesso desfrutado recentemente na batalha contra a subversão pode ser atribuído à eficiência da organização e dos procedimentos de inteligência…[segundo] três oficiais militares [...], um de cada uma das Forças Armadas. Quando a informação de inteligência é recebida pela polícia ela é rapidamente disseminada para o Exército, Marinha e Força Aérea e vice-versa… [a fonte] descreveu a velocidade de disseminação dizendo que a informação ‘literalmente voava’ de um quartel-general ao outro, assim, as operações são montadas, algumas vezes em questão de horas, para explorar a vantagem antes que os terroristas tenham tempo para reagir.

O comentário final do telegrama da agência militar de inteligência americana é incisivo:

A visita do oficial do Exército ao Brasil fornece uma sólida informação de que os argentinos estão coordenando ativamente com seus vizinhos em temas de contra insurgência. Embora o propósito da viagem de Viola não seja claro, ela pode ter sido para coordenar atividades antissubversivas. As atividades diárias de Viola são usualmente cobertas pela imprensa, mas desta vez não há menção à sua viagem.

Irmão mais velho
O documento da inteligência americana é apenas um, entre muitos, que revela a forte presença brasileira na conexão repressiva no Cone Sul. As penas brasileiras na Condor, ao contrário do que alguns pensam, não minimiza o papel do Brasil na conexão repressiva multinacional, apesar do descompasso de tempo. A Condor, alegam, nasceu no momento em que a esquerda armada já estava dizimada no campo e nas cidades brasileiras: o Araguaia tinha se transformado num cemitério clandestino e os sobreviventes da guerrilha urbana gemiam nos porões do DOI-CODI.
Há um problema nesse raciocínio: imaginar que a ditadura brasileira, só pela fatalidade do calendário, era um sócio menor da Condor é conceder a mesma indulgência matemática da ‘ditabranda’, ancorada em estatísticas de sangue que comparam as centenas de mortos no Brasil aos milhares de vítimas na Argentina, como se esse relativismo insensato redimisse a truculência institucional de duas décadas dos generais brasileiros.
Na irmandade da Condor, o Brasil não era um primo distante, alheio, alienado.
O Brasil era apenas o irmão mais velho, mais forte, mais influente — talvez o mais dissimulado, certamente o mais cínico —, que fez o que era necessário fazer para organizar e sustentar a máquina de morte montada pelas ditaduras irmãs do Cone Sul.
O Brasil não fez menos do que ninguém e, às vezes, fez primeiro e fez pior. Com exceção do venerando Paraguai, a ditadura no Brasil é mais antiga do que a dos vizinhos — nove anos mais precoce do que a do Uruguai e do Chile, 12 anos mais velha do que a da Argentina. Com a maioridade de seus 21 anos, o regime militar brasileiro durou quatro anos mais que o chileno, nove mais que o uruguaio, 14 mais que o argentino. E sem brandura.
O ‘Esquadrão da Morte’, que seria traço marcante da Condor, estreou no Brasil em 1968. Meses depois, como nome mais temido do esquadrão agregado à repressão política de São Paulo, o delegado do DOPS Sérgio Fleury esteve em missão no Uruguai, pouco antes da criação da Dirección Nacional de Información e Inteligencia (DNII), braço executor da polícia politica financiada pelos Estados Unidos e por seu homem em Montevidéu, o americano Dan Mitrione.
O esquadrão brasileiro ecoou em 1973 em Buenos Aires, quando a extrema-direita peronista montou a Triple A, a aliança anticomunista argentina que a Condor de Buenos Aires assumiu como método e prática no golpe que viria três anos mais tarde.
O coronel de cavalaria Paulo Malhães, o Dr. Pablo do CIE, integrava o time brasileiro que nos idos de setembro de 1973, sob as arquibancadas do Estádio Nacional de Santiago do Chile, ensinava aos homens de Pinochet o jogo duro do interrogatório aprendido na Escola das Américas.
A primeira Acta Institucional da ditadura uruguaia data de junho de 1976, doze anos após o Brasil editar o Ato Institucional nº1 de abril de 1964 , abrindo a série de 17 atos institucionais que davam uma fachada legal ao poder deslocado do Congresso para os quartéis. No Uruguai, o modelo brasileiro exigiu apenas nove atos institucionais de força.
A Argentina tinha o Sheraton, o Brasil exibia o Hilton.
Mas, como sempre, os brasileiros chegaram primeiro. O mais famoso centro de torturas do Brasil, o DOI-CODI do Exército em São Paulo, foi instalado em 1970 na delegacia policial de uma esquina da rua Tutoia. Ali passaram mais de 2.500 presos, pelo menos 52 morreram. “Agora você vai conhecer o Tutoia Hilton”, diziam os agentes do DOI-CODI, brincando com a fama do lugar.
Somente seis anos depois surgiu o ‘Sheraton’ argentino, que tentava reproduzir o humor brasileiro logo após o golpe que derrubou Isabelita Perón. Funcionava na pequena subcomissaria de polícia de Villa Insuperable, um prédio de dois andares, com garagem no térreo e celas de tortura no piso superior, na cidade de La Matanza, a mais populosa da Grande Buenos Aires.
O ‘Sheraton’ era apenas um dos 60 CCDs – ‘centros clandestinos de detenção’ – montados só em Buenos Aires. Em 1976, ano do golpe na Argentina, chegaram a funcionar 610 CCDs, espalhados em cinco zonas militares. Só na área 232 da zona 2, que abrangia seis províncias e 22 centros clandestinos para uma população de 6 milhões de argentinos, havia cinco CCDs — um deles, na cidade de Posadas, abrigado numa escolinha para mudos.

Um serial-killer fardado
Era uma máquina de morte essencial para cumprir a promessa do general Jorge Videla na conferência dos exércitos em Montevidéu: “Deverão morrer na Argentina todas as pessoas necessárias para a segurança do país…”. A gana matadora de Videla tinha a adesão até da presidente que ele derrubaria seis meses depois: “Temos que matar e aniquilar a todos os guerrilheiros”, bradou Isabelita Perón em 1975 diante das tropas da V Brigada de Infantaria de Montanha, em Tucumán, onde o Exército combatia o foco guerrilheiro do grupo trotskista ERP. A cinco quadras de onde falava a presidente, na saída oeste de Famaillá, cidade a 40 km da capital da província, estava o prédio inacabado de uma escolinha rural onde o Exército fincou o primeiro CCD do país, conhecido como La Escuelita. Ali padeceram 1.507 pessoas, nas contas modestas do general Acdel Edgardo Vilas, comandante do ‘Operativo Independencia’.
O Brasil, como sempre, chegou à frente.
Em 1969, seis anos antes da escolinha pioneira em Tucumán, o CENIMAR, o serviço secreto da Marinha, instalou um CCD em uma casa abandonada em São Conrado, bairro nobre da zona sul do Rio de Janeiro, vizinho à maior favela do Brasil, a Rocinha. No final do ano seguinte, 1970, o CIE instalou o CCD hoje mais famoso do país numa casa emprestada ao pé do morro numa rua isolada de Petrópolis, na zona serrana do Rio: a ‘Casa da Morte’.
Conhecida como ‘Codão’, superlativo de DOI-CODI, a casa então clandestina era organizada pelo Dr. Pablo, o mesmo coronel do CIE que interrogou brasileiros no golpe de Pinochet. O CCD de Petrópolis era o modelo para outros nove centros clandestinos de detenção espalhados pelo país.
Muitos presos entraram na casa, só um sobreviveu – a guerrilheira Inês Etienne Romeu, após 96 dias de estupros e torturas. O primeiro morto do lugar pode ter sido o sociólogo Carlos Alberto Soares de Freitas, dirigente da VAR-Palmares, executado dias após ser preso em fevereiro de 1971. Um mês antes, confirmando a transformação da tropa em esquadrão da morte, o general Humberto de Souza Mello assumiu o comando do II Exército, em São Paulo, dando ordem para executar os guerrilheiros.
Numa visita ao DOI-CODI da Tutoia, o general deixou a diretriz ainda mais clara a um delegado da tropa: “Matem os terroristas, matem os carteiros que entregam as cartas. [Matem] os familiares, os amigos, seja o que for. Só não quero que morra nenhum de vocês”.
Aqui, mais uma vez, o Brasil chegou à frente da Argentina.
A frase de 1971 do general Souza Mello, confissão demente de um serial-killer fardado e matriz do pensamento matador que contaminava o Exército brasileiro, inspirou cinco anos depois uma boçalidade semelhante do general argentino Ibérico Saint Jean, nomeado interventor na província de Buenos Aires. Em maio de 1976, dois meses após o golpe de Videla, o general Saint Jean trovejou: “Primeiro, mataremos todos os subversivos. Depois, seus colaboradores. Mais tarde, os seus simpatizantes. Então, mataremos os que permanecerem indiferentes. E, finalmente, vamos matar os indecisos…”
A intimidade nada retórica das ditaduras de Brasil e Argentina, base para a conexão da Condor entre os dois mais fortes regimes do Cone Sul, desmente a blandícia dos generais brasileiros e realça a face sangrenta dos argentinos.

O mendigo dos generais
Dois nomes civis marcam bem a identidade e os métodos que levam à conexão criminosa entre Brasília e Buenos Aires: o brasileiro Antônio e o argentino José.
Antônio Delfim Neto era, no Brasil, o que José Alfredo Martínez de Hoz era na Argentina.
Ambos poderosos ministros da Economia dos dois generais mais duros (Médici e Videla) do ciclo militar, tinham a mão de ferro dos quartéis para manter o garrote apertado sobre as fábricas, os sindicatos e os trabalhadores.
O argentino, como sempre, chegou depois do brasileiro.
Em meados de 1969, o ministro brasileiro, mendigando em nome das Forças Armadas, reuniu 15 grandes banqueiros num almoço em São Paulo e passou o chapéu para financiar o combate à subversão pela coordenação repressiva da Operação Bandeirantes, a OBAN, antecessora dos DOI-CODI. Quando chegou a sobremesa, Delfim já tinha recolhido US$ 1,7 milhão para repassar ao general Ernani Ayrosa, chefe do Estado-Maior do II Exército.
A partir dali, os rapapés com a repressão ficaram a cargo da FIESP, a mais poderosa entidade industrial do país, que reunia a patota de Delfim. Quem passava o chapéu entre os empresários era o dinamarquês naturalizado brasileiro Henning Boilesen, presidente da Ultragaz, que emprestava caminhões para ações da OBAN e tinha acesso franqueado ao porão do DOI-CODI da Tutoia para se deliciar com sessões de tortura.
Boilesen foi executado a tiros numa rua de São Paulo, em abril de 1971, por um comando guerrilheiro. Delfim Netto compareceu, compungido, ao seu enterro.
Passados 42 anos do funeral, Delfim ainda hoje finge não saber por que morreu metralhado o amigo dos porões. Antes ‘czar da economia’ da ditadura, hoje ‘Professor Emérito’ da USP, agora conselheiro dos presidentes Lula e Dilma Rousseff, guru do PT e colunista da imprensa de esquerda, Delfim continua cínico como nunca.
O homem que coletou fundos para o DOI-CODI que torturou a guerrilheira Dilma Rousseff no Governo Médici alega ainda hoje que não sabia das torturas e, com candura ou caradura, diz que acreditava nas mentiras de Médici. Jura Delfim: “A administração civil era absolutamente independente, nunca houve qualquer interferência… Uma vez perguntei ao presidente se havia [tortura], ele me respondeu que não havia nada. Acreditei. O Médici era mais sério do que parece”.
O José argentino fez em 1975 o que o Antônio brasileiro já fazia em 1969: estreitou seus laços com os militares.
Presidente da maior siderúrgica do país, a Acindar, José Martínez de Hoz procurou o então chefe do Estado-Maior do Exército, general Jorge Videla, para encerrar uma greve de 59 dias dos metalúrgicos na planta de Villa Constituición. A tropa veio, prendeu, sequestrou e matou alguns dos grevistas. Instalou-se ali o CCD da Acindar, um dos primeiros centros clandestinos de detenção que assombrariam a Argentina. Quando Videla deu o golpe, em março de 1976, Martínez de Hoz tornou-se o Delfim Netto da ditadura, gerindo a economia pelos próximos cinco anos.
O José argentino, como o Antônio brasileiro, também acreditava que o seu general era um homem sério.

Noite e névoa
A simbiose dos regimes militares na luta contra o inimigo comum venceu desconfianças seculares na região. As fronteiras refletem isso. De norte a leste, a divisa brasileira é líquida e arenosa, com o recorte dos 9.200 km de litoral banhado pelo Atlântico. De sul a oeste, os limites do país se estendem por 16.800 km, boa parte encoberta pela floresta, outro tanto seguindo o leito de rios, um pedaço menor escancarado pela fronteira seca, sem obstáculos. Apenas 3.600 km compreendem a divisa com os três vizinhos do sul – Uruguai, Argentina e Paraguai -, irmãos na ditadura e na Condor.
Não é por acaso que o mais poderoso grupamento militar do país seja o III Exército — hoje Comando Militar do Sul, que reúne mais de 50 mil homens, ¼ da força terrestre brasileira, com 18 oficiais-generais, 160 organizações militares, 75% da artilharia e 90% dos 1.700 tanques de guerra do país.
Foi pelas fronteiras guarnecidas pelas tropas sulistas que transitaram os refugiados e insurgentes do Cone Sul, uns saindo em busca da segurança do exílio na Europa, outros voltando do exterior para a resistência no coração da ditadura.
Entre eles, na caça de uns e outros, além das fronteiras da lei, estavam os homens sem farda e sem limites físicos e morais que agiam como forças encobertas no breu da escuridão e na treva do terror do Estado. Seguiam a lógica assassina do decreto de 1941 de Hitler, o Nacht und Nebel, a noite e a névoa que ocultavam os esquadrões hunter-killer do nazismo na caçada e no desaparecimento forçados dos dissidentes.
Uma operação metódica, um combate programado que permitia o sumiço sem rastros, sem explicação, sem destino. No segundo semestre de 1978, o Exército argentino reformou uma velha estação de ônibus em um bairro de classe média, Floresta, a oeste de Buenos Aires. Instalou-se ali o CCD Olimpo, onde 700 pessoas foram torturadas. Só 50 sobreviveram. Perguntado sobre o paradeiro final dos cadáveres que saíam do Olimpo para um aeroporto próximo, um caminhoneiro respondeu com a poesia tétrica daqueles tempos: “Vão para a névoa de nenhum lugar”.
No ambiente nebuloso do terror de Estado, a máquina de morte só é eficaz quando ela age de forma coordenada, dentro e fora de suas fronteiras. A interação interna entre as forças de segurança nacionais e a conexão externa com os serviços de inteligência dos países vizinhos é que permitem a ação transnacional da repressão no Cone Sul. É neste ninho que nasce a Condor. Mas é a conexão que explica — antes, durante e depois da Condor — o ambiente terrorista estatal que mergulhou os cinco maiores países do sul do continente em quase um século acumulado de noite e névoa.
Os militares brasileiros estão conectados há muito tempo. Em agosto de 1965, o chefe do Exército argentino, general Juan Carlos Onganía, que derrubaria o presidente Arturo Illía menos de um ano depois, visitou em Brasília o general Humberto Castelo Branco, que tinha derrubado o presidente João Goulart, pouco mais de um ano antes. No QG do Exército brasileiro, Onganía bradou contra o comunismo, “inimigo fluido, tenaz, sinuoso”, pregando “a unidade dos exércitos, especialmente Argentina e Brasil, para combater o inimigo comum, superando as fronteiras estatais para delimitar novas fronteiras ideológicas”.
O fantasma da conexão que diluía limites nacionais surgiu em 1960, sob a assombração do comunismo materializado em Cuba com a revolução de Fidel Castro. Sob influxo dos Estados Unidos, os chefes militares do continente se juntaram na Conferência dos Exércitos Americanos (CEA), que iria coordenar a frente militar anticomunista de onde nasceria a Condor. Os cinco primeiros encontros, sintomaticamente, foram em território estadunidense.

Obsessão sem fronteiras
A partir de 1965, no Peru, o CEA se reuniu de forma alternada e bienal, em anos ímpares, nos outros países da região. No espaço de um quarto de século, entre a 4ª CEA (realizada nos Estados Unidos em 1963, um ano antes do golpe no Brasil) e a 18ª CEA (reunida na Guatemala em 1989, ano da queda do Muro de Berlim), os generais do continente tiveram 15 encontros de cúpula — e em 14 deles estavam expressos no programa, como tema obrigatório, a segurança interna, a guerra revolucionária e o combate à subversão comunista.
Os comandantes brasileiros também só pensavam naquilo. No início de setembro de 1973, uma semana antes do golpe de Pinochet, o general brasileiro Breno Borges Fortes, chefe do Estado-Maior do Exército, pregou na 10ª CEA, na Venezuela: “Devemos ampliar a troca de experiências, de informações e ajuda técnica entre os camaradas de armas na guerra ao comunismo”.
Na primeira semana de novembro de 1974, o general paraguaio Rafael Guanes Serrano, chefe do Departamento de Inteligência do ditador Alfredo Stroessner, passou cinco dias em Brasília liderando a terceira Conferência Bilateral de Informações com a ditadura de Ernesto Geisel. Aluno da academia brasileira das Agulhas Negras na década de 1950, Guanes perambulou, no trepidante período de 1972 a 1981, em pelo menos 25 missões oficiais nos países do Cone Sul.
A mais importante delas aconteceria em Santiago do Chile, um ano depois da reunião de Brasília, quando firmaria pelo Paraguai o documento de fundação da Condor.
Em 1975, na 11ª CEA de Montevidéu, o general Videla prometeu matar todos os que ameaçassem a segurança nacional. Dois anos depois, em Manágua, na 12ª CEA, o comandante do Exército argentino Roberto Viola reforçou: “A guerra ideológica não respeita fronteiras”.
Na 13ª CEA, diante dos 18 exércitos presentes em Bogotá em 1979, Viola justificou o combate sem limitações geográficas: “O ponto de vista comum da legalidade me parece ter perdido seu sentido, quando se refere à agressão marxista”.
O chefe da delegação brasileira, general Francisco de Mattos Jr., vice chefe do Estado-Maior do Exército, fez coro com Viola: “Estivemos de acordo em quase tudo”. Ao lado do Uruguai, Chile, Paraguai e Argentina, com quem fundara a Condor quatro anos antes, o Brasil da ‘abertura’ do general Figueiredo foi um dos sete países linha-dura que prometeram apoio “profundo e total” na guerra ao comunismo.
O comunismo se foi, mas ficou a paranoia.
Apesar da subversão dizimada, a guerra continuava em plena democracia. No Governo Sarney, dois anos após a retirada do último general do Palácio do Planalto, o Brasil mantinha o dedo no gatilho.
Na 17º CEA, que reuniu 15 exércitos do continente em novembro de 1987 em Mar del Plata, Argentina, todos os protocolos assinados eram sigilosos. O motivo de tanto segredo fica claro na leitura do último documento, exatamente o ‘Acordo nº 15′, que previa ações dos Exércitos nos “demais campos do poder”, além das medidas estritamente do campo militar, “para a segurança e defesa do continente americano contra o MCI”, sigla do sinistro Movimento Comunista Internacional.
No informe sobre a “subversão no Brasil”, o general de brigada Paulo Neves de Aquino disparou na testa da Constituinte convocada pelo presidente civil José Sarney, garantindo que, “dos 559 membros da Assembleia Geral Constituinte, cerca de 30% são militantes ou simpatizantes das OS (organizações subversivas)”. Outro protocolo secreto mostrava que a garra da Condor, depenada pela queda das ditaduras no final da década de 1980, continuava uma obsessão para os generais. O ‘Acordo nº 8′ fala em “situação de inteligência combinada” a cargo de uma central supranacional de inteligência. Era o velho bico da Condor, sob o pretexto de catar “informação e inteligência” sobre o MCI para os quartéis do CEA. O oficial mais graduado do Brasil em Mar del Plata era o general de divisão Carlos Tinoco Ribeiro Gomes, vice chefe do Estado-Maior e, três anos depois, ministro do Exército na presidência frenética de Fernando Collor.

A manopla e a luva
No auge da paranoia anticomunista, quando a Condor estava ativa e operante, a repressão brasileira no exterior se amparava em dois braços musculosos — um civil, outro militar, ambos camuflados no aparato da diplomacia.
A mão militar usava a manopla dos agregados militares das embaixadas, a Rede Agremil, onde os órgãos de inteligência infiltravam seus agentes sob o disfarce de adidos militares.
A mão civil calçava as luvas de pelica do CIEx, o Centro de Informações do Exterior, o serviço secreto que o Itamaraty infiltrou nas embaixadas a partir de 1966, por obra e graça de seu criador, o ex-capitão de cavalaria e diplomata Manoel Pio Correa. Em junho de 1964, três meses após o golpe, como fiel suporte da CIA no Rio de Janeiro, Pio Correa foi transferido para a embaixada brasileira em Montevidéu para ajudar na vigilância ao grupo de exilados de João Goulart e Leonel Brizola. Nas 20 mil páginas do arquivo secreto do CIEx de Pio Correa estão os nomes de 64 dos 380 brasileiros mortos ou desaparecidos na ditadura, alguns deles capturados pela Condor.
O CIEx do embaixador atuava em conúbio com os agentes infiltrados nas embaixadas pelo CIE, CENIMAR, CISA e SNI — os serviços secretos do Exército, Marinha, Aeronáutica e Palácio do Planalto —, que formavam o abecedário letal do regime. Essa conexão produzia as informações e as decisões que tornavam a Condor operacional e eficaz.
A cumplicidade de diplomatas e militares obrigou a Comissão Nacional da Verdade (CNV) a criar dois grupos de trabalho com áreas fronteiriças: o GT Operação Condor e o GT de Exilados e Estrangeiros. Um grupo de 34 diplomatas, de conselheiros a embaixadores, estava sob investigação no GT Estrangeiros em 2013, enquanto o GT Condor filtrava uma relação do Itamaraty com nomes de 194 adidos das Forças Armadas lotados em embaixadas brasileiras no santuário da Condor: 54 na Argentina, 49 no Uruguai, 48 no Paraguai e 43 no Chile.
Os diplomatas e adidos militares desses postos têm conhecimento, ou envolvimento ou participação ativa em pelo menos 17 casos de brasileiros desaparecidos no sul do continente (Argentina, Bolívia e Chile) em ações coordenadas da repressão regional.
A intimidade da repressão brasileira com seus parceiros no exterior está expressa numa circular secreta da Armada Argentina, de janeiro de 1976, dois meses antes do golpe de Videla, dando passe livre para operações antissubversivas numa zona de Buenos Aires a sete agentes do SNI, lotados na embaixada brasileira. São dois majores, dois capitães e três agentes, com número de código e codinomes, como Trucha, Rayo, Puma, Rato, Luz. O oficial de enlace do SNI era o capitão Mário Lagos, código 003, Letra C, codinome Espina.
A conexão entre os militares dos dois países, base essencial para pouso e decolagem da Condor, independia da ditadura. Em 19 de março de 1976, cinco dias antes do golpe que derrubou Isabelita, o adido naval da embaixada brasileira em Buenos Aires, capitão de mar-e-guerra Lima Cardoso, foi ao QG da Armada acertar os detalhes da visita iminente do ministro da Marinha do Brasil, almirante Geraldo Azevedo Henning. Depois da conversa com o almirante Emílio Massera, comandante da Armada, o adido voltou com um detalhe intrigante que obrigou o embaixador João Baptista Pinheiro a enviar a Brasília um telegrama secreto e urgente, às 20h35 daquela sexta-feira.
O adido naval, alertava o embaixador, notou que o almirante Massera fez de próprio punho algumas correções no programa da visita. Onde se lia “Audiência com a Senhora Presidente”, Massera risco e emendou: “Audiência Presidencial.
Assim, com a sutileza de um porta-aviões, o almirante Massera fez a emenda que antecipava aos brasileiros já na sexta-feira a radical mudança de gênero e de regime que a Casa Rosada sofreria na quarta-feira com a troca da presidente Isabelita Perón pela junta militar do almirante Massera, do brigadeiro Agosti e do general Videla. Sete meses depois, a cumplicidade entre as ditaduras de Geisel e Videla era total. Um grupo de agregados estrangeiros, incluindo os adidos do Exército e da Marinha na embaixada brasileira, foram convidados a visitar a zona de operações antiguerrilha em Tucumán, a noroeste de Buenos Aires. Para disfarçar, avisaram que viagem tinha a direção oposta, a sudeste da capital, num balneário em Mar del Plata. Para reforçar a camuflagem, os adidos foram obrigados a vestir uniformes de campanha do Exército argentino. Não adiantou nada: “Hoje pela manhã, no entanto, o noticiário radiofônico anunciava a presença em Tucumán da comitiva de adidos”, lamentou-se no telegrama o frustrado embaixador brasileiro.
Após o golpe, de um lado e outro da fronteira, a integração repressiva ficou ainda menos sutil, com favores mútuos e mais explícitos. Em maio de 1976, o III Exército, área de atuação central da Condor, distribuiu um pedido de busca confidencial sobre 91 exilados brasileiros na Argentina, localizados com a ajuda da repressão vizinha. Um dos nomes da lista era o do ex-presidente João Goulart, identificado com o endereço de seu escritório na avenida Corrientes, 319, sala 347, invadida por agentes argentinos semanas depois. Em outubro de 1976, o Brasil devolveria o favor, difundindo pelo CIE, o serviço secreto do Exército, uma lista de 149 pessoas na mira da Condor argentina. A repressão brasileira determinava a localização, vigilância e prisão imediata de quem fosse localizado. Da lista, 22 pessoas continuam desaparecidas até hoje. O chefe do Setor de Operações do CIE, na época, era o coronel Brilhante Ustra, o homem do DOI-CODI da Tutoia.
A crônica de sangue e medo que marca a Operação Condor afeta milhares de pessoas e suas famílias no Cone Sul assombrado pela ação clandestina e terrorista da repressão transnacional. O Brasil foi protagonista dessa história de horror ainda impreciso, oculto pela névoa do sigilo, camuflado pela treva do desaparecimento forçado.
Dentro e fora das suas fronteiras, caçando dissidentes ou devolvendo refugiados pela fronteira do crime e da ilegalidade, a repressão brasileira coordenou suas operações com as ditaduras vizinhas — e cumpriu assim os requisitos bandoleiros da Condor —,antes, durante e após sua fundação no Chile.
Três casos exemplares, ao longo de uma década, revelam o engajamento visceral do Brasil numa empreendimento assassino que o país, como sempre, não assume.

Buenos Aires, dezembro de 1970.
O ex-coronel de Cavalaria Jefferson Cardim de Alencar Osório, exilado no Uruguai, foi o primeiro insurgente armado contra a ditadura. Comandou em 1965 uma frustrada guerrilha de 23 guerrilheiros que durou 36 horas, no sul do país, até ser cercado e preso. Regressou ao exílio após torturas em três quarteis. Voltou a ser preso na Argentina na tarde de sexta-feira, 11 de dezembro, ao descer do ferry-boat que liga Montevidéu a Buenos Aires. A operação mostra a coordenação repressiva do Brasil em três países, antecipando o voo da Condor. Jefferson ainda atravessava o Rio da Prata, junto com o filho de 18 anos e um sobrinho, quando começou a se mover a engrenagem da repressão.
O adido na embaixada em Buenos Aires, coronel Nilo Caneppa da Silva, informou sobre o trio de viajantes ao órgão de inteligência da Polícia Federal argentina, a Direção de Coordenação Federal. Com o carro cercado por quatro homens armados, Jefferson foi preso ao desembarcar, cena acompanhada de longe pelo coronel Caneppa. Os detidos foram levados até o gabinete do coronel Jorge Cáceres Monié, superintendente da inteligência, no último andar de um prédio na avenida Belgrano, no centro da cidade. Dali, já algemados e encapuzados, os presos desceram ao submundo do terror, no subsolo 4 do edifício. Lá, pai e filho apanharam, levaram choques, foram torturados com vela derretida no ânus. Cáceres ligou para a embaixada brasileira e pediu a presença de Caneppa, que compareceu na companhia do adido da Força Aérea Brasileira (FAB) em Montevidéu, coronel-aviador Leuzinger Marques Lima, justamente o homem que vigiava os passos de Jefferson no Uruguai.
Na manhã de sábado, 12, Caneppa informou da prisão ao embaixador brasileiro, Antônio Azeredo da Silveira, a quem pediu um avião para levar os presos ao Brasil. Apenas 26 horas após a prisão, em pleno sábado, o ditador de plantão, general Roberto Levingston — um presidente tampão entre os generais Juan Carlos Onganía e Alejandro Lanusse — assinou o decreto de expulsão. O embaixador descobriu em Buenos Aires, por acaso, um jatinho da FAB que servia ao ministro do Trabalho de Médici, Júlio Barata. Um detalhe que salvou a vida de Jefferson e seu filho: o ministro era sogro de um sobrinho do preso e muito amigo de Corina, mãe do coronel. Assim que soube pelo ministro da prisão do filho, dona Corina avisou muita gente – e a notícia foi divulgada pelo mais famoso colunista social do país, Ibrahim Sued, que deu ‘bola branca’ para a prisão de Jefferson. Prisão confirmada, o preso já não podia mais ser ‘desaparecido’.
Na noite de sábado, o adido aeronáutico em Buenos Aires, coronel-aviador Miguel Cunha Lanna, avisou que o Ministério da Aeronáutica, em Brasília, tinha autorizado o embarque de Jefferson e do filho no jato do ministro. Às seis horas da manhã de domingo, 13, eles foram retirados da cela e, ainda algemados, embarcaram num comboio de quatro carros que tomou o rumo da base de El Palomar, sede da 1ª Brigada da Força Aérea, na zona oeste da capital. Militares brasileiros e argentinos uniformizados aguardavam na pista, ao lado do jatinho branco com o brasão da FAB. Mas eles só embarcaram após a chegada do Mercedes-Benz preto, com chapa diplomática, de onde desceu o embaixador Azeredo da Silveira.
O diplomata recebeu um documento, que leu e assinou. A ditadura brasileira recebia os presos e passava o recibo. Jefferson e o filho viajaram algemados, vigiados por dois funcionários da embaixada, dois sargentos (armados com metralhadora INA e pistolas Colt 45) e o adido aeronáutico, coronel Leuzinger. O jatinho foi recepcionado na pista da base aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, pelo comandante da 3ª Zona Aérea, João Paulo Moreira Burnier, o brigadeiro mais radical da Aeronáutica brasileira. Jefferson e o filho, de novo encapuzados, foram levados para tortura nas celas do CISA, o serviço secreto da Força Aérea, comandado pelo brigadeiro Carlos Afonso Dellamora. Jefferson ficou sete anos preso. O filho ficou detido ainda dois meses, até ser libertado, de repente, sem qualquer processo.
O sucesso do primeiro voo da Condor, ainda sem nome, fez muito bem às carreiras de dois personagens centrais do sequestro em Buenos Aires. O coronel Caneppa chegou a general e, em 1973, era o diretor da Polícia Federal no Governo Médici, em Brasília. O embaixador Azeredo da Silva foi brindado com o posto máximo da carreira, assumindo o Itamaraty como chanceler do Governo Geisel, quando o Brasil ajudou a fundar a Condor no Chile.

Porto Alegre, novembro de 1978.
A prisão de dez militantes do clandestino Partido por la Victoria del Pueblo (PVP) em Montevidéu, no início de novembro de 1978, desencadeou uma sequência de eventos que levou ao mais retumbante fracasso da Operação Condor, com ressonância internacional. As revelações das torturas excitaram a repressão uruguaia, com a possibilidade de capturar o líder do PVP, Hugo Cores, que vivia oculto no Brasil. A chave para isso era a localização em Porto Alegre de um casal de uruguaios, Lilián Celiberti e Universindo Rodríguez Diaz, que faziam a ponte entre os insurgentes de Montevidéu e os órgãos de direitos humanos na Europa, com a mediação de Hugo Cores. O casal era a isca perfeita para fisgar o peixe grande do PVP. A Condor tinha um alvo em Porto Alegre.
Esta era uma missão para Rojo Maíz (Milho Vermelho), o codinome de rádio do coronel Calixto de Armas, chefe do Departamento 2 do Comando Geral do Exército. Acima dele havia apenas o general Manuel J. Nuñez, chefe do Estado-Maior, e o supremo-comandante, general Gregório Goyo Álvarez. Abaixo do coronel De Armas estava a máquina repressiva do Uruguai, que pairava sobre as quatro divisões de Exército através do OCOA, sigla do temido Organismo Coordinador de Operaciones Antisubversivas, e seu braço operacional, a Compañia de Contrainformaciones, o esquadrão hunter-killer que fazia e acontecia no país.
A dupla OCOA-Compañia correspondia ao DOI-CODI brasileiro.
Quando De Armas assumiu o Departamento 2, em agosto de 1977, o chefe do Setor de Operações do CIE em Brasília era um velho amigo: o coronel Brilhante Ustra, o criador do DO-CODI da Tutoia. Em novembro de 1978, o departamento de inteligência do Estado-Maior em Montevidéu entrou em contato com o responsável pela DOI-CODI gaúcho, a chefia do Estado-Maior do III Exército, em Porto Alegre, pedindo passe livre para a Condor uruguaia. O sucessor de Ustra no destacamento de operações do CIE, nesta época, era o tenente-coronel José Antônio Nogueira Belham — o mesmo Belham que em janeiro de 1971, como major, comandava o DOI-CODI do Rio de Janeiro que torturou, matou e desapareceu com o corpo do deputado Rubens Paiva, segundo denúncia feita agora pela Comissão Nacional da Verdade.
Consultado em Brasília, o chefe do CIE, general Edison Boscacci Guedes, ex-adido militar na embaixada do México, autorizou o voo da Condor uruguaia em Porto Alegre. A parte brasileira ficou a cargo do DOPS do delegado Pedro Seelig, conhecido como o “Fleury do Sul”: só com sua tropa, o policial havia dizimado a esquerda armada no sul, poupando ao DOI-CODI local o serviço sujo que o Exército precisava fazer, sem intermediários, no Rio e em São Paulo. Na primeira semana de novembro, a cúpula da elite repressiva uruguaia desembarcou em Porto Alegre.
O comandante da Compañia de Contrainformaciones, major Carlos Alberto Rossel, chegou com o subcomandante, major José Walter Bassani, e o chefe da seção técnica, capitão Eduardo Ramos. Na segunda semana, foram rendidos pelo capitão Glauco Yannone, chefe da seção administrativa, aluno do ‘curso de inteligência militar 0-11′ na Escola das Américas. Foi ele quem, ao lado de Seelig, deteve Lilián Celiberti na Rodoviária de Porto Alegre na manhã de domingo, 12 de novembro. Horas depois, localizado seu apartamento, prenderam lá Universindo Rodríguez e os dois filhos de Lilián, Camilo (8 anos) e Francesca (3).
Durante horas, o casal foi torturado na sede do DOPS, no prédio da Secretaria de Segurança Pública. Universindo ficou pendurado até a madrugada no pau-de-arara, golpeado incessantemente pelo capitão. Yannone bateu tanto que ficou com o punho doído. De repente, sentou no chão, tirou o calçado e continuou a golpear o preso, algemado, com o salto do sapato. Resumo da cena: era um oficial de um Exército estrangeiro torturando um preso na masmorra da polícia política local, no interior da sede da segurança pública, diante de policiais e agentes públicos brasileiros, coniventes e cúmplices de uma ação repressiva sem qualquer base legal ou moral.
Um absurdo que só a Condor permite, um crime que só o terror de Estado explica.
Cinco dias depois, a Condor desabou, quando a ratonera armada pela repressão para capturar Hugo Cores foi desmascarada no apartamento de Lilian, mantida ali sob a guarda do DOPS e do capitão uruguaio Eduardo Ferro, chefe do setor de operações da Compañia. Em vez do chefe do PVP, como eles esperavam, quem bateu à porta foram dois jornalistas da sucursal da revista Veja, alertados por um telefonema anônimo de Cores. A quebra do sigilo obrigou a Compañia a abortar o sequestro, forçando os sequestradores à fuga apressada para o Uruguai. Em 2007, numa entrevista em rede nacional de TV no Uruguai, o próprio capitão Eduardo Ferro reconheceu: “Havia coordenação com os Exércitos regionais. Eu fiz o translado das pessoas do Brasil para o Uruguai. Elas foram presas pela polícia e pelo Exército do Brasil. É só o que posso dizer”.
O sequestro de Porto Alegre virou um fiasco internacional, o que impediu o desaparecimento de praxe dos sequestrados. Mesmo assim, Lilián e Universindo foram condenados pela ditadura a cinco anos de prisão pela falsa ‘invasão’ do Uruguai. Preocupado com o vexame que expôs o governo brasileiro diariamente no ocaso de seu mandato, o general Geisel resolveu reforçar a farsa uruguaia. Convocou o general Figueiredo, já indicado como seu sucessor no Planalto, e deu ordens para resolver o caso. O ex-chefe do SNI, que escalou o time do Brasil na fundação da Condor, repassou o problema para o general que o tinha substituído no SNI, Octávio Medeiros.
Na primeira semana de janeiro de 1979, o general Medeiros desceu em Porto Alegre com o chefe da Polícia Federal, coronel Moacyr Coelho, para uma reunião de cúpula da segurança no QG do III Exército. Um dos presentes era o velho amigo do coronel De Armas: o coronel Brilhante Ustra, então no comando de uma guarnição de artilharia na Grande Porto Alegre. Nasceu dali uma história esdrúxula de outra ‘invasão’, desta vez colocando o casal uruguaio e as crianças a bordo de um ônibus de linha que cruzava a fronteira. A farsa foi desmontada pela imprensa em poucas horas.
O Brasil, mero observador na fundação da Condor, virou personagem central do único fiasco público da Condor, irritando e constrangendo os três generais mais importantes de Brasília: Geisel, o presidente, Figueiredo, o futuro presidente, e Medeiros, o chefe do SNI que sonhava um dia ser presidente.
Foi um vexame internacional, cometido em território brasileiro, sob as asas da ditadura militar, deixando para trás dois perseguidos políticos, duas crianças e dois jornalistas, todos vivos para lembrar e para contar a história. A Condor jamais havia passado por uma vergonha tão grande.

Rio de Janeiro, março de 1980.
Não é um Condor, mas é um monstrengo alado. Com o peso de quase 1.000 homens corpulentos e a envergadura de um prédio de quase 15 andares, o Hércules C130-B é um caminhão voador, que nunca passa despercebido. Seja pelo tamanho, seja pelo barulho de seus quatro turbo-propulsores Rolls-Royce de 19.800 cavalos, uma potência equivalente aos motores combinados de 275 carros Gol, o automóvel mais popular do país.
Pois um Hércules assim barulhento e grandalhão desceu na base aérea do Galeão um pouco antes de 12 de março de 1980. Naquele dia, aterrissou ali um avião da Varig, vindo de Caracas, no destino final de uma viagem iniciada no México. Os passageiros foram recebidos ainda na pista por um inusitado ‘corredor polonês’ de cerca de 30 homens mal-encarados, que pareciam procurar alguém. Alguns falavam espanhol. Uma passageira percebeu a armadilha e, quando um dos homens a segurou pelo braço, começou a gritar: “Somos Mónica Binstock e Horácio Campiglia!” Repetiu o grito de desespero mais duas vezes, até que se calou e sumiu, levada com o seu companheiro de viagem. Nunca mais foram vistos com vida.
O casal era argentino e integrante dos Montoneros, o grupo guerrilheiro da esquerda peronista. Campiglia era do comando militar e líder das chamadas TEI, Tropas Especiais de Infantaria treinadas pela OLP no sul do Líbano. Os Montoneros exilados executavam um arriscado plano de retorno ao país, mas toparam com uma dura reação da ditadura argentina. O grupo de recepção no Galeão era formado por agentes do Batalhão 601, a tropa de elite da inteligência do Exército, braço operacional da Condor argentina no exterior. Tinham desembarcado do Hércules C-130, da Força Aérea Argentina.
Os detalhes dessa operação foram revelados ao Governo estadunidense, três semanas depois, num memorando confidencial do oficial de inteligência da embaixada em Buenos Aires, James J. Blystone, ao seu embaixador. Ali, o Brasil ficava definitivamente comprometido com a Condor, com a revelação de que a repressão argentina pedira “ao seu colega da Inteligência militar brasileira permissão para realizar uma operação no Rio”. O memorando informa que a luz verde foi concedida para a equipe especial que voou ao Brasil no Hércules da Força Aérea, comandado pelo tenente-coronel Román. “Ambos foram capturados vivos e voltaram para a Argentina no C-130″, informa Blystone.
Fontes da repressão dizem que Mónica e Campiglia foram enviados para El Campito, o CCD de Campo de Mayo, o maior quartel do país, a 30 km do centro de Buenos Aires, onde sobreviveram apenas 43 dos 5.000 presos que passaram por lá. O casal do Galeão engrossou a lista de mortos.
Blystone ouviu que, nas duas semanas anteriores, as forças de segurança tinham capturado na Argentina, ainda vivos, 12 integrantes TEI dos Montoneros. Um deles, ex-instrutor num campo guerrilheiro da Líbia, tinha mudado de lado para colaborar com a repressão. Quase 30 anos depois, a história se confirmaria no Rio de Janeiro, pela voz autorizada do coronel Paulo Malhães, o organizador da ‘Casa da Morte’ de Petrópolis e responsável em 1980 pelos agentes infiltrados do CIE no Rio de Janeiro. Um certo ‘Gringo’, ex-Montonero trazido por um coronel do Batalhão 601, agia como agente duplo no Brasil, abastecendo de informações o CIE e o SNI e agindo infiltrado junto ao Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR). A Argentina bancava US$ 20 mil dólares mensalmente para manter a ‘Operação Gringo’ no Rio de Janeiro.
Há dois anos a ditadura de Videla tinha instalado em Brasília o homem certo para a função: o coronel Jorge Ezequiel Suárez Nelson trocou a chefia da central de informações do Batalhão 601 para assumir no Brasil o posto de adido militar na embaixada argentina, aonde chegou em 17 de dezembro de 1978 — exatamente um mês após a aparição no apartamento de Lilián Celiberti dos dois repórteres da revista Veja que acabaram frustrando o sequestro da Condor em Porto Alegre.
Só em 1980 morreram vinte Montoneros que tentavam retornar à Argentina. O desempenho de Suárez foi tão bom em Brasília que ele voltou a Buenos Aires em 1981 como subsecretário da Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE). No final do ano Suárez virou general, lotado no Estado-Maior Conjunto. A ‘Operação Morcego’, montada pelo Batalhão 601, estava contendo a ferro e fogo o retorno da guerrilha peronista, cumprindo a ordem de executar o inimigo ainda no exterior.
Apesar das dimensões superlativas da ação da Condor no Galeão, o Brasil finge que não sabe de nada. Um avião de grandes proporções, com uma tropa estrangeira armada a bordo, desce na mais importante base aérea do país — e não há registros oficiais sobre isso. O plano de vôo do Hércules que decolou da base de El Palomar previa gastar quase três horas e meia no trajeto sem escalas de 2.020 km entre Buenos Aires e Rio, apenas na viagem de ida. Só o raciocínio ordinário de uma ditadura, como a brasileira, ousaria esconder o pouso e decolagem de uma aeronave militar estrangeira numa base da Aeronáutica, sem exibir até hoje os documentos necessários para uma operação dessa envergadura

Proposta indecente
É natural que uma ditadura seja cínica. Mas, não é aceitável ver este comportamento numa democracia.
Desde sua criação, há quinze anos, o Ministério da Defesa parece mais preocupado em defender os militares do que em exercer seu papel de hegemonia civil sobre os quartéis. O atual ministro, Celso Amorim, adotou o mesmo comportamento submisso de seus antecessores, negando sempre a existência dos arquivos e documentos essenciais para resgatar a memória da ditadura e para reconstruir a história deturpada pela violência e pela censura. “Não existem documentos”, repete teimosamente Amorim, ecoando a ordem unida dos generais brasileiros, que parecem ainda imersos na Guerra Fria.
Desta vez, a Argentina não imita o Brasil. Na sexta-feira, 21, três dias antes do aniversário do golpe de Videla, o ministro da Defesa Agustín Rossi fez o que seu colega brasileiro não faz: abriu na internet mais de 1.500 documentos com 280 atas secretas da Junta Militar de 1976.
Aqui, um mês atrás, a Comissão Nacional da Verdade pegou o Ministro da Defesa na mentira. Em audiência na sede da Defesa, no dia 18 de fevereiro, os sete comissários da CNV levaram ao ministro Amorim um requerimento contundente pedindo sindicância das Forças Armadas para apurar o uso de bases e quartéis para a prática de torturas.
Com dados consistentes e fatos inquestionáveis, a CNV lista sete unidades do Exército, Marinha e Aeronáutica, em quatro capitais diferentes, onde prédios públicos foram usados ilicitamente para abusos contra a pessoa humana, caracterizando um desvio de finalidade que demanda apuração, responsabilização e reparação. Dois desses prédios são as sedes do DOI-CODI do coronel Brilhante Ustra, em São Paulo, e do DOI-CODI do general Belham, no Rio de Janeiro — onde morrera sob torturas, entre outros, o jornalista Vladimir Herzog e o deputado Rubens Paiva.
O ministro Amorim, sem a escolta de nenhum general na reunião, remexeu-se na cadeira, incomodado com o imprevisto requerimento da CNV. E reagiu inesperadamente com uma proposta indecente: ofereceu a liberação de documentos militares, em troca da garantia da CNV de que não haverá a temida revisão da Lei de Autoanistia, que a ditadura se autoconcedeu em 1979, no Governo Figueiredo — o general que se fez representar na fundação da Condor.
Com a altivez devida, os comissários da CNV rejeitaram na hora a barganha imoral proposta pelo ministro Amorim. Se documentos existem, eles devem aparecer, sem para isso espichar ainda mais o manto de impunidade que protege os torturadores há meio século.
A oferta inusitada do Ministro da Defesa coloca duas novas questões: os documentos afinal existem, desmentindo o que ele e seus generais sempre dizem. E a revisão inevitável da Lei de Autoanistia, de fato, inquieta os quartéis.
O ministro Celso Amorim e todos os seus generais, subordinados de uma presidente que foi guerrilheira, presa e torturada no regime militar, esquecem que, mais do que a sombra do passado que nos persegue, temos pela frente o futuro que nos desafia diante de um presente que não pode nos atemorizar.
O ministro da Defesa e os chefes militares deste Brasil cínico e esquecido podem aprender muito com a sábias palavras do historiador uruguaio Universindo Rodríguez Diaz, o sequestrado de Porto Alegre que sobreviveu à Operação Condor, às torturas, às ditaduras aqui e lá e aos tempos com dor do Cone Sul. Disse Universindo:

Somos também sobreviventes da repressão. Perdura em nós a memória e estamos eticamente obrigados a defendê-la, a nos reencontrar com ela, ainda que seja doloroso. Tive a possibilidade de sobreviver. Levo comigo a obrigação de não esquecer.

Universindo morreu de câncer em setembro de 2012.
Cabe a nós assumir a obrigação moral que ele nos cobra: não esquecer.





Conversa Afiada

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