sábado, 11 de março de 2017

11/3 - "Dez dias que abalaram o mundo"

De Canhota


Posted: 09 Mar 2017 07:56 AM PST
Artigo publicado originalmente no site Portal Vermelho.


Quando deu o título de Dez dias que abalaram o mundo ao seu livro, John Reed estava consciente da importância transcendental dos acontecimentos que estavam se dando na Rússia.

Socialista, amadurecido no contato com as lutas sociais e com as atrocidades da Primeira Guerra Mundial, ele previa a enorme repercussão da revolução russa em todo o mundo. Reed não pôde ver, porque morreu de tifo em 1920 – poucos dias antes de completar 33 anos de idade – mas a revolução confirmou plenamente seu vaticínio. Foi o maior acontecimento do século 20, que mudou de maneira irreversível a história dos povos e nações de todo o planeta. Esse livro também serve para reflexões atuais sobre como a ação e a organização das massas é fundamental para a transformação da sociedade, a conquista da liberdade e do socialismo.

Agora que a revolução russa de 1917 completa cem anos, Dez dias que abalaram o mundo, o famoso livro de John Reed, é uma leitura indispensável. Ler ou reler este livro do jornalista socialista estadunidense é como acompanhar ao vivo, no calor dos eventos, o desenrolar estonteante daqueles acontecimentos que mudaram a História.

Reed já havia reportado a revolução mexicana, acompanhou Pancho Villa e seus guerrilheiros nos combates e escreveu o livro México Rebelde, em 1914. Logo depois, foi para a Europa fazer cobertura da Primeira Guerra Mundial, quando relatou o morticínio e os horrores do que chamou de “guerra dos negociantes”. Percebeu que eventos importantes se anunciavam na Rússia e para lá se deslocou em setembro de 1917.

Perspicaz, Reed produzia um jornalismo objetivo, que combinava riqueza de fatos com um estilo literário. Na condição de testemunha ocular, ele escreveu páginas emocionantes e que retratam com brilho os dias da tomada de poder pelos bolcheviques, com momentos de grande beleza.

Como jornalista socialista americano, representando jornais de esquerda, e sendo ousadamente furão, conseguiu livre trânsito tanto entre os bolcheviques como entre os representantes dos outros partidos, no governo provisório e até com o presidente Kerenski, que governava com apoio da burguesia e da direita monárquica, essa, derrubada do poder, mas ainda com o controle das engrenagens da economia e da sociedade. Visitou a frente de batalha e quase esteve para ser fuzilado por soldados revolucionários analfabetos que não entenderam seu documento de salvo conduto, fornecido pelo governo dos sovietes. Salvou-se insistindo para que fossem até uma casa, onde encontraram uma mulher, que, apesar de muito assustada, leu o documento que lhe dava livre trânsito.

Setembro: impasse


Em setembro, quando chegou à Rússia, Reed se deu conta do clima de tensão existente. As bandeiras da revolução que em março derrubara a monarquia tzarista eram fazer um acordo de paz para encerrar a participação da Rússia na guerra contra a Alemanha, distribuir a terra para os camponeses e promover o abastecimento da população que passava fome. Resumindo: Paz, Terra e Pão. Nem o governo dos cadetes, partido da burguesia, que assumira o Governo Provisório em março e caiu em abril, nem o governo do socialista revolucionário Alexandre Kerenski, que assumira em julho, haviam realizado nenhuma dessas tarefas. Kerenski, aliando-se à burguesia, que tinha os monarquistas por trás, não cumpria nenhuma das três bandeiras, mantinha na frente de batalha um exército esfomeado e sem armas, mandava reprimir os camponeses que tentavam ocupar as terras dos latifundiários e deixava a população das cidades passar fome.

Os partidos de esquerda estavam divididos. Os bolcheviques, dirigido por Lênin, denunciavam a sabotagem da revolução. Argumentavam que, para realizar as três bandeiras da revolução, somente fazendo uma insurreição por um novo governo dirigido por eles, passando todo poder aos sovietes (conselhos populares, assembleias que haviam se organizado desde as grandes cidades até os recantos mais distantes, por bairros, sindicatos, entre os operários, soldados e camponeses).

Em textos leves e objetivos Reed relata os grandes momentos, descreve as assembleias, resume os discursos, transcreve entrevistas e registra em anexos os principais documentos divulgados pelas forças em luta. Ele entrevistou pessoalmente os principais líderes políticos da esquerda e da direita.

O Governo Provisório estava paralisado pelas contradições entre as forças políticas que o compunham. Durante o mês de outubro, em Petrogrado, então a capital política da Rússia, tempestuosas assembleias discutiam dia e noite buscando uma saída. Os outros partidos de esquerda, centro-esquerda, reformistas, queriam formar um novo governo de coalização com a burguesia e vetavam a participação dos bolcheviques, considerados radicais intransigentes. Lênin e Trótski, em repetidos pronunciamentos reafirmaram as posições do partido, de formar um governo de esquerda, dirigido pelos bolcheviques, sem compromissos com os conciliadores e com a burguesia.

Insurreição


Em fins de outubro o comitê central bolchevique fez uma reunião secreta para planejar e organizar a insurreição. Segundo Reed, nessa ocasião Lênin teria dito: “6 de novembro será demasiado cedo (porque nem todos delegados ao 2º Congresso dos Sovietes teriam chegado) no dia 8 será demasiado tarde (porque o Congresso já estaria eleito) devemos agir no dia 7...”

Em 30 de outubro, Reed entrevista Tróstski. Ele diz: “somente com a ação concertada das massas, somente com a vitória da ditadura do proletariado, pode a Revolução consumar-se e o povo ser salvo”. Mais adiante: “Os Sovietes são os mais completos representantes do povo (...) apoiando-se diretamente no exército nas trincheiras, nos operários das fábricas, nos camponeses dos campos, são a espinha dorsal da Revolução”. 
Mas John Reed também está atento para episódios pitorescos, detalhes, que dão colorido à história. Como este: Leon Trótski e a mulher chegam ao Smolni (enorme colégio para moças que havia se tornado o quartel general do Soviete de Petrogrado). Querem entrar. Trótski vasculha os bolsos e não encontra o documento de livre-trânsito. Diz ao sentinela: “não tem importância. Você me conhece. Chamo-me Trótski. O soldado responde: “não tem livre-trânsito, não pode entrar. Os nomes para mim não querem dizer nada”. Trótski: “mas eu sou o presidente do Soviete de Petrogrado”. Resposta: “bem, se é assim tão importante pelo menos deve ter um papelzinho qualquer”. Trótski manteve-se muito cordato: “deixe-me falar com o comandante”. O soldado respondeu que não queria incomodar o comandante com qualquer um que aparecesse. Acabou por chamar o soldado chefe da guarda. Trótski explicou a situação. O outro soldado coçou a cabeça: “Trótski? Já ouvi esse nome em qualquer lugar. Bem, está bem. Pode entrar, camarada...”

Guerra civil


A tensão cresce e repercute pelo mundo. O império inglês estava incomodado: Opinião do jornal Times de Londres: “o remédio para o bolchevismo são balas”.

O governo de Kerenski se preparava para isso. Trazia tropas do interior para Petrogrado. A artilharia dos junkers (alunos da Escola Militar) foi instalada no Palácio de Inverno. Reed corre de um palácio a outro, vai para o Smolni, reportando o que está acontecendo em cada lugar. Registra que uma multidão caminhava acima e abaixo pelas principais ruas, curiosa por novidades, disputando todos os jornais que apareciam à venda.

No Smolni, base do Soviete de Petrogrado e dos bolcheviques, o Comitê Revolucionário Militar estava reunido. Reed fica sabendo que regimentos do Exército mandados por Kerenski para Petrogrado desobedeceram as ordens e pararam pelo caminho esperando orientação dos bolcheviques. A Fortaleza de Pedro e Paulo manda avisar que havia passado para o lado da insurreição.

Em outro salão, o Soviete de Petrogrado está reunido dia e noite. Trótski, seu presidente, discursa: “O Soviete de Petrogrado acha que, finalmente, chegou o momento em que o poder deve cair nas mãos dos sovietes. Esta transferência de Governo será executada pelo Congresso de Toda a Rússia. Se será ou não necessária uma manifestação armada isso dependerá... daqueles que queiram interferir com o Congresso”. Em 5 de novembro o governo decreta estado de sítio.

Dia 6 de novembro, John Reed corre para o Palácio Marinski. Kerenski faz um discurso confuso perante o Conselho da República. Está lendo artigos de Lênin no jornal dos bolcheviques, “esse criminoso político que anda escondido e cujo paradeiro tentamos descobrir (...) este criminoso (...) insiste na necessidade imediata de uma insurreição armada”. Nessa ocasião foi entregue um papel a Kerenski. Ele lê: “O Soviete de Deputados de Operários e Soldados de Petrogrado está ameaçado. Ordenamos imediatamente aos regimentos que se ponham em pé de guerra e que aguardem novas instruções. Qualquer atraso ou não execução desta ordem será considerado ato de traição para com a Revolução (...) O Comitê Revolucionário Militar”.

Kerenski comenta: “Na realidade, isto é uma tentativa para levantar a populaça contra a ordem existente, para liquidar a Constituinte e ainda para abrir a Frente aos regimentos da mão de ferro de Guilherme (o governante alemão)”.

Na noite de 6 para 7 de novembro as tropas da insurreição tomaram a Central Telefônica, a Estação do Báltico, a Central Telegráfica. Prenderam vários ministros do governo. Escaramuças entre patrulhas de soldados, junkers e guardas vermelhos. Pela manhã, marinheiros cercam o Hotel Militar e impedem os oficiais de sair. Barricadas, carros blindados e canhões em frente aos palácios. Reed: “Em frente ao Palácio Marinski, um marinheiro conta a uma multidão de soldados sobre o fim do Conselho da República Russa: “nós entramos e colocamos camaradas em todas as portas. Avancei para o contra-revolucionário kornilovista que ocupava a presidência. — O Conselho acabou, disse-lhe. Vá para casa! Os soldados riem”.

No Palácio de Inverno, sede do governo, o repórter pergunta por Kerenski a um jovem oficial. Ele responde em francês: “partiu para a frente de combate”.

Anoiteceu. “Na (avenida) Nevski, parecia que passeava toda a cidade. Em cada esquina, grandes grupos de pessoas rodeavam discussões acaloradas (...) homens idosos, de faces rubras e com ricos casacos de peles, ameaçavam os soldados com os punhos, e mulheres elegantemente vestidas, injuriavam-nos; os soldados respondiam timidamente com sorrisos embaraçados”.

E assim por diante, o relato de John Reed é tão vivo, rico em detalhes, que o leitor volta cem anos atrás e se vê assistindo a revolução acontecer.

7 de novembro


“Dia 7 de novembro reúne-se o 2º Congresso dos Sovietes da Rússia e Reed descreve os debates incendiários que travam bolcheviques, mencheviques, socialistas revolucionários, soldados e oficiais do Exército. Os bolcheviques são acusados de estar cometendo um crime contra a nação. Os delegados dos outros partidos decidem retirar-se e os bolcheviques assumem o controle do Congresso e do novo governo.

Reed se juntou á tropa que ia atacar o Palácio de Inverno e testemunhou quando os soldados, encontrando malões cheios de objetos de valor, começaram a saqueá-los. Mas foram obrigados a devolver tudo sob advertência dos companheiros. “Devolvam tudo, isso é propriedade do povo”. E devolveram. Os junkers que estavam dentro do palácio, renderam-se. Despojados do que haviam saqueado, foram obrigados prometer não pegar mais em armas contra o povo, após o que ganharam liberdade.

No edifício da Duma (prefeitura) municipal, os que se opunham aos bolcheviques formaram o Comitê de Salvação do País, comitê que iria se converter no inimigo mais poderoso dos bolcheviques.

Três da madrugada, Reed corre para o Smolni, que encontra profusamente iluminado. O 2º Congresso dos Sovietes decidiu ignorar a retirada das facções e redigiu o documento em que declara: “Baseado na vontade da grande maioria dos operários, soldados e camponeses, baseado ainda na insurreição triunfante dos operários e soldados de Petrogrado, o Congresso dos Sovietes assume o Poder. O Governo Provisório é destituído. A maior parte de seus membros já está detida. (...) O Congresso resolve que todo o Poder local seja transferido para os Sovietes de Deputados, Operários, Soldados e Camponeses...”

Reed: “Eram exatamente 5h17 da manhã quando Krilenko, cambaleando de fadiga, subiu à tribuna com um telegrama na mão. — Camaradas! Da Frente Norte. O 12º Exército envia saudações ao Congresso dos Sovietes e anuncia a formação de um Comitê Revolucionário Militar que tomou o comando da Frente Norte! Pandemônio, homens a chorar, começaram a abraçar-se...”

8 de novembro


“Quinta-feira, 8 de novembro (...) Superficialmente tudo estava tranquilo; centenas de milhares de pessoas regressaram à casa em horário prudente, levantaram-se cedo e foram trabalhar. Em Petrogrado os bondes andavam, as lojas e restaurantes estavam abertos, os teatros funcionavam e anunciava-se uma exposição de pintura (...) Nada é mais assombroso que a vitalidade do organismo social...”

Nos dias seguintes, um dilúvio de proclamações de lado a lado, cartazes, folhetos, jornais em profusão, as assembleias continuavam em discussões sem fim e ondas de boatos que se espalhavam por toda parte. E, pior, histórias falsas sobre a violência e o terrorismo bolcheviques.

Estes, porém, estavam às voltas com o problema de movimentar as engrenagens do poder, para o que não tinham gente experimentada. E havia resistência. O sindicato dos ferroviários informava que não ia entregar a rede ferroviária nas mãos dos bolcheviques. O delegado dos Correios e Telégrafos declarou que as telefonistas tinham recusado a trabalhar na presença do comissário bolchevique. Os bancários declararam greve e recusavam fornecer dinheiro para o novo governo. O Soviete dos Camponeses, cujos dirigentes eram conciliadores, se recusa a participar do governo. E grande ameaça: as tropas de Kerenski avançavam sobre Petrogrado. E era preciso conter o avanço do Exército alemão.

Lênin: “Não cederemos nem um milímetro”


A pressão crescia. As outras forças políticas queriam que os bolcheviques recuassem, aceitassem um governo de coligação socialista. Mas Lênin manteve-se firme como uma rocha: “Que os conciliadores aceitem o nosso programa e podem juntar-se a nós. Não cederemos um milímetro. Se há camaradas presentes que não têm a coragem e a vontade para ousar o que nós ousamos, que vão embora com o resto de covardes e conciliadores. Prosseguiremos apoiados pelos operários e soldados”.

Lênin chega ao plenário, o leitor está vendo a história acontecer. Reed conta: “eram exatamente 8h40 quando uma tempestade de aclamações anunciou a chegada da presidência, com Lênin, o grande Lênin. Figura pequena e entroncada, de grande cabeça calva e protuberante metida nos ombros. Olhos pequenos, nariz largo e curto, boca ampla e generosa e queixo forte; estava barbeado, mas a sua barba tão conhecida no passado como o seria no futuro, começava novamente a despontar. Vestia um terno surrado em que as calças eram compridas demais.”

“(...) Lênin de pé, agarrado ao parapeito da tribuna, passeou os olhos pequenos e pestanejantes sobre a multidão enquanto aguardava, aparentemente alheado da retumbante ovação que durou vários minutos. Quando esta terminou, disse simplesmente; “Passamos agora à construção da ordem socialista”. Mais uma vez se ouviu o avassalador bramido humano. Ele continua: “Em primeiro lugar, é preciso adotar medidas práticas para a realização da paz. Vamos oferecer a paz aos povos de todos os países beligerantes, tendo como base as condições soviéticas – nem anexações, nem indenizações e direito dos povos à autodeterminação.”

Durante várias páginas o repórter registra a intervenção de Lênin que lê um documento sobre a paz, em seguida, o debate que trava com os companheiros.

Adiante, Lênin lê o Decreto da Terra: “1- A propriedade privada da terra é abolida imediatamente e sem qualquer indenização. 2- Todos os domínios dos latifundiários e todas as terras pertencentes à Coroa, aos mosteiros, às igrejas, com o gado e os equipamentos agrícolas, prédios e outras dependências, são postos à disposição dos Comitês da Terra locais e dos Sovietes distritais de Deputados Camponeses...”. O Congresso homenageia os companheiros mortos e todos cantam a Internacional. E daí por diante, o leitor vai vendo esse incrível acontecimento – a revolução – acontecer.

Mas as tropas de Kerenski se aproximavam de Petrogrado. No domingo, 11, os cossacos entravam em uma cidade vizinha. Kerenski montava um cavalo branco. Reed: “Kerenski cometeu um erro fatal. Às sete da manhã mandou o 2º Regimento de Fuzileiros de Tsarskoie Selo depor as armas. Os soldados responderam que permaneceriam neutros, mas não se desarmariam. Kerenski deu-lhes dez minutos para obedecerem. Isso irritou os soldados, pois durante oito meses tinham se gerido por comitê e isto agora cheirava muito a antigo regime. A artilharia cossaca abriu fogo contra os quartéis e matou oito homens. A partir desse momento acabaram-se os soldados neutros...”

Em Petrogrado também se combatia. O Clube Militar e a Agência de Telégrafos tinham sido tomados pelos junkers e foram “sangrentamente recuperados”. A Central Telefônica estava cercada pelos marinheiros. Um carro blindado enguiçou bem em frente a uma tropa de marinheiros, que começaram a atirar. A metralhadora da torre do blindado disparou indiscriminadamente, matando sete pessoas. Os marinheiros correram pelo espaço desprotegido e atravessado por balas. Acercaram-se do monstro e enfiaram repetidamente as baionetas nas aberturas, sempre aos gritos. O motorista fingiu estar ferido, foi deixado em paz, e fugiu para o prédio da Duma (prefeitura).” Reed relata pesados combates entre os guardas vermelhos e os junkers, estes aquartelados em suas escolas Vladimir e Pavlovsk.

Os soldados soviéticos foram repelidos com muitas baixas. “Empolgados pela derrota e pelos montes de mortos do seu lado, as tropas dos sovietes desencadearam um autêntico furacão de aço e fogo contra o castigado edifício. Nem seus próprios oficiais conseguiram deter o terrível bombardeamento (...) Às duas e meia os junkers içaram uma bandeira branca, render-se-iam se lhes fosse garantida proteção. Prometeram-lhe. Num ímpeto, aos gritos, milhares de soldados e guardas vermelhos irromperam pelas janelas, pelas portas e pelos buracos da parede. Antes que fosse possível impedi-lo, cinco junkers foram espancados e apunhalados até a morte. O restante, cerca de duzentos, foram conduzidos sob escolta para a prisão de Pedro e Paulo (...) Tinham morrido mais de cem guardas vermelhos e soldados”.

12 de novembro: derrota de Kerenski


Segunda-feira, doze de novembro. Na vizinhança de Petrogrado, ao nascer do dia, os cossacos de Kerenski atiram e dão ordem de rendição. “Sobre a planície desolada, no ar frio e sereno, alastrou-se o fragor do combate, que chegava ao ouvido de bandos dispersos, sentados à espera à volta de pequenas fogueiras. Estava a começar, então! Seguiram na direção do combate, ao mesmo tempo que hordas de operários que enchiam as estradas aceleravam o passo. Assim, para todos os pontos atacados convergiram automaticamente enxames humanos, furiosos, que foram recebidos por comissários e aos quais se destinaram posições de trabalho a fazer. Aquela era a sua batalha, pelo seu mundo; os oficiais que comandavam tinham sido eleitos por eles...”

“Os que participaram do combate contaram-me que os marinheiros lutaram até se esgotarem os cartuchos e depois se lançaram ao assalto, numa vaga; como operários sem qualquer treino militar se atiraram aos cossacos que atacavam e os arrancaram dos cavalos; como hordas anônimas do povo, congregadas na escuridão em redor da batalha, se ergueram como uma maré e desabaram sobre o inimigo. Antes da meia-noite de segunda-feira os cossacos tinham se dispersado e fugiam...”

E Reed continua, espantado: “Terça-feira de manhã. Mas como é possível? Há dois dias apenas, os arredores de Petrogrado estavam cheios de bandos sem chefe, que vagavam sem destino, sem comida, sem artilharia e sem qualquer plano. Que força amalgamou essa massa desorganizada de guardas vermelhos indisciplinados e soldados sem oficiais, num exército obediente ao alto comando por eles próprios eleito? Num exército endurecido, capaz de defrontar e vencer o ataque de canhões e da cavalaria cossaca?...” 

As tropas de Kerenski recuaram, derrotadas, afastaram-se de Petrogrado. Chegavam notícias de vitórias dos bolcheviques de outras partes do país, inclusive em Moscou. Na frente da guerra, as guarnições se sublevam, prendem seus comandantes e elegem comitês de soldados para comandá-las. Assim, o governo soviético fica muito fortalecido.

No décimo primeiro dia da insurgência vitoriosa, John Reed anota: “a neve chegou em 18 de novembro. Quando acordamos de manhã os parapeitos da janela tinham uma grande camada branca e os flocos de neve caíam num turbilhão tão denso que não se conseguia ver nada a três metros de distância. A lama desaparecera e, num abrir e fechar de olhos a soturna cidade tornara-se ofuscantemente branca (...) a alegria invadiu a cidade com a vinda da neve. Toda a gente sorria e as pessoas corriam nas ruas a rir de braços estendidos para os flocos macios e brancos...”

Congresso dos camponeses


O governo bolchevique havia apresentado sua proposta de paz aos países em guerra. Milhares de soldados camponeses voltavam às suas aldeias, agora imbuídos de espírito revolucionário, o que ia se mostrar fundamental. O Congresso dos Camponeses, convocado pelo governo de Lênin, para o qual compareceram mais de 400 delegados, começou muito hostil aos bolcheviques. O Soviete dos Camponeses até então era dirigido pelos socialistas revolucionários de esquerda, que se recusavam a reconhecer o novo governo. Diziam que era uma ditadura dos operários.

No terceiro dia, Lênin subiu inesperadamente à tribuna. “Durante dez minutos o alarido foi de enlouquecer,” conta Reed. — Fora com ele!, gritava-se esganiçadamente. — Não ouviremos nenhum dos vossos comissários do povo! — Não reconhecemos o vosso governo!”

“Lênin deixou-se ficar calmamente a agarrar o rebordo da tribuna com ambas as mãos, enquanto seus olhos pequeninos observavam pensativamente o tumulto reinante”.

Quando a gritaria abrandou um pouco, Lênin disse que não estava lá como comissário do povo, mas como delegado eleito para o congresso.

E continuou: “Digam-me francamente, camponeses, a quem demos a terra dos latifundiários: vocês querem agora impedir que os operários tenham o controle da indústria? Isto é guerra de classes. Claro que os latifundiários se opõem aos camponeses e os industriais aos operários. Vão permitir que as fileiras do proletariado sejam divididas? De que lado vocês vão estar?”

Durante vários dias se discutiu arduamente a questão da terra, o programa dos bolcheviques e o dos socialistas revolucionários de esquerda. Os primeiros defendem que se ocupem as terras de imediato, pela ação das massas. Os socialistas revolucionários defendem que se espere pelas decisões da Assembleia Constituinte.

Lênin volta à tribuna. Desta vez é ouvido com absorvente atenção:

“Neste momento estamos a tentar resolver não só a questão da terra, mas também o problema da revolução social – não apenas aqui na Rússia mas em todo o mundo. A questão da terra não pode ser resolvida independentemente dos outros problemas da revolução social...”

Lênin leu a proposta dos bolcheviques para uma declaração geral do Congresso dos Camponeses em apoio ao governo bolchevique e sua proposta para a terra.

Reed comenta: “tive a impressão de que o Congresso caíra num impasse intransponível”.

Aliança operária-camponesa


O debate continuou intenso, mas no Smolni, bolcheviques e socialistas revolucionários de esquerda já formulavam um entendimento. Em 28 de novembro, finalmente, chegou-se a um acordo, com a distribuição de delegados eleitos proporcionalmente segundo a representatividade de cada entidade, Exército, Marinha, sindicatos gerais, sindicato dos ferroviários, dos trabalhadores dos correios. Lênin e Trótski permaneciam no governo e o Comitê Militar Revolucionário continuava a funcionar. Em reunião extraordinária em 30 de novembro celebrou-se o “casamento” do Soviete dos Camponeses com o Soviete dos Operários e Soldados. Era um clima de festa e a palavra-chave, união.

Convidado, Bóris Reinstein, delegado do Partido Operário Socialista Americano, discursou: “Triunfou uma grande ideia. O Ocidente e a América esperavam da Rússia, do proletariado russo, algo de extraordinário... O proletariado do mundo espera pela Revolução Russa, espera as grandes coisas que ela está a realizar”.

Os delegados deixam o prédio. Reed descreve a cena: “Já estava escuro e na neve gelada cintilava a luz pálida da lua e das estrelas. Ao longo da margem do canal estavam parados, em ordem de marcha, os soldados do Regimento Pavlovski, cuja banda começou a tocar a Marselhesa...”

Aparecem bandeiras vermelhas e archotes. O cortejo dos camponeses se dirige ao Smolni, onde é aguardado pelos deputados operários e soldados. Estes desceram as escadas “como uma onda e abraçaram e beijaram os camponeses. E a multidão transpôs a grande porta e subiu a escada num estrépito de trovoada”.

Na “sessão triunfal” realizada a seguir, Maria Spiridónova, a presidenta dos socialistas revolucionários de esquerda, “a mais amada e mais poderosa mulher de toda a Rússia, disse: — Diante dos trabalhadores da Rússia abrem-se agora horizontes novos, que a História jamais conheceu”.


Carlos Azevedo é jornalista, editor e escritor, trabalhou em jornais como Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Diário da Noite e nas revistas O Cruzeiro, Quatro Rodas, Caros Amigos e Retrato do Brasil. Foi um dos fundadores do jornal Movimento e da revista Realidade e é autor do livro Cicatriz de Reportagem (Editora Papagaio, 408p.) reunindo suas melhores reportagens.


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