sexta-feira, 17 de março de 2017

17/3 - Altamiro Borges DE 16/3

Altamiro Borges


Posted: 16 Mar 2017 09:37 AM PDT
Por Jeferson Miola

O que poderia ser celebrado como sinal de normalidade institucional – os pedidos do Rodrigo Janot ao STF para abrir inquéritos das delações da Odebrecht – na realidade é apenas um truque do procurador-geral para [i] proteger o bloco golpista, em especial o PSDB; mas, sobretudo, para [ii] viabilizar a condenação rápida do Lula e, desse modo, impedir a candidatura do ex-presidente em 2018, isso se a eleição não for cancelada pelos golpistas.

Janot seguiu fielmente Maquiavel: “aos amigos, os favores; aos inimigos, a lei”. Os golpistas, cujos indícios de crimes são contundentes, com provas de contas no exterior, jantares no Palácio Jaburu, códigos secretos para recebimento de dinheiro da corrupção e “mulas” para carregar propinas, serão embalados no berço afável do STF.

Lula, sobre quem não existe absolutamente nenhuma prova de crime, foi denunciado por Janot e será julgado por Sérgio Moro, um juiz parcial, que age como advogado de acusação. Ele é movido por um ódio genuíno e dominado por uma obsessão patológica de condenar Lula com base em convicções [sic]. Janot entregou a este leão faminto e raivoso a presa tão ansiada.

Os fatores que permitem prospectar esta hipótese da sacanagem do Janot são:

1. as listas parciais divulgadas em 14 e 15/03/2017 implodiriam qualquer governo, quanto mais o apodrecido e ilegítimo governo Temer – implodiriam, mas não implodirão, porque estamos num regime de exceção;

2. foram denunciados nada menos que: seis ministros [Padilha, Moreira Franco, Aloysio Nunes, Bruno Araújo, Kassab e Marcos Pereira] + os dois sucessores naturais do presidente em caso de afastamento do usurpador [Rodrigo Maia e Eunício Oliveira] + o idealizador da “solução Michel” para estancar a Lava Jato, atual presidente do PMDB [Romero Jucá] + o presidente do PSDB [Aécio “tarja-preta”] + quatro senadores da base do governo + cinco governadores + três deputados que apóiam Temer + três senadores da oposição + dois deputados de oposição;

3. uma pessoa iludida poderia concluir: “é uma decisão corajosa e imparcial do Janot”; afinal, ele investiga personagens poderosos e, aleluia, inclusive o PSDB. Ilusão: esta é, exatamente, a manobra diversionista do Janot;

4. os denunciados do governo golpista, todos eles, inclusive os sempre protegidos tucanos, têm foro privilegiado, e por isso serão investigados pelo STF, e não nas instâncias inferiores do judiciário [com minúsculo]. É verdade que Janot denunciou também golpistas sem foro privilegiado. Esses, porém, são as “genis” Eduardo Cunha e Sérgio Cabral, já presos; e Geddel Vieira Lima, que já está no corredor do cárcere;

5. o supremo [com minúsculo], demonstram estudos da FGV, é a instância mais lenta, mais politizada [eventualmente mais partidarizada, para não dizer tucana] e mais inoperante do judiciário. A primeira lista do Janot, por exemplo, entrou no sumidouro do STF há dois anos [em março/2015], e lá dormita até hoje, sem nenhuma conseqüência na vida dos políticos denunciados por corrupção;

6. a composição ideológica do STF é aquela mesma que, agindo como o Pôncio Pilatos da democracia brasileira, lavou as mãos no processo do impeachment fraudulento, e assim converteu o supremo em instância garantidora do golpe de Estado que estuprou a Constituição para derrubar uma Presidente eleita com 54.501.118 votos;

7. é fácil deduzir, portanto, qual será a tendência do STF na condução dos processos dos golpistas. Se esses julgamentos iniciarem antes de 2021, será um fato inédito.

A lista do Janot é um instrumento ardiloso da Lava Jato e da mídia para a caçada do Lula. Janot faz como o quero-quero, pássaro que grita longe do ninho para distrair os intrusos, afastando-os dos seus filhotes.

As instituições do país estão dominadas pelo regime de exceção que violenta a Constituição para permitir um processo agressivo e continuado de destruição dos direitos do povo, das riquezas do país e da soberania nacional.

O anúncio imediato da candidatura presidencial do Lula, abrindo uma etapa de mobilizações permanentes e gigantescas do povo, é a urgência do momento. É a garantia de proteção popular do Lula contra os arbítrios fascistas do regime de exceção e, ao mesmo tempo, fator que pode modificar a correlação de forças na sociedade.

O êxito dos protestos deste 15 de março, que levaram milhões de trabalhadores às ruas em todo o país, é um sinal positivo da retomada da resistência democrática e da luta contra o golpe e os retrocessos.

A democracia e o Estado de Direito somente serão restaurados no Brasil com a mobilização popular intensa e radical, e a candidatura do Lula é um motor para esta restauração.
Posted: 16 Mar 2017 09:33 AM PDT
Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:



A Folha noticia que Rodrigo Maia quer dispensar a votação em plenário e aprovar a reforma trabalhista apenas na comissão da Câmara, onde os líderes partidários controlam a composição do plenário de 37 deputados, apenas.

É o que diz na Folha, quando fala que "regimentalmente não poderia revogar a tramitação 'enxuta' do projeto, porque os técnicos dizem que “o pacote de reforma trabalhista não se encaixa no rol dos que necessitam de votação no plenário”.

Promete, entretanto, um acordo para fazê-la ir a plenário.

Será?

Vai depender da situação do governo até lá.

Embora o projeto necessite apenas de maioria simples – e não de três quintos dos votos dos deputados (308) -, conte com o apoio ativo – imagine o que isso quer dizer – do empresariado e tenha muito menos resistência popular que a reforma da Previdência, isso vai dar alguns sinais do comportamento da Câmara no projeto que se tornou a razão de ser do Governo Temer.

Não há argumento técnico que justifique a demolição de garantias do trabalho que existem a mais de 70 anos a toque de caixa.

Com toda a ilegitimidade do atual Congresso, mais ilegítimo será aprova-la numa comissão onde só votam os “bois marcados” pelo ferro quente das suas vantagens no Governo.
Posted: 16 Mar 2017 08:39 AM PDT
Por Renato Rovai, em seu blog:

O presidente Michel Temer não parece ser apenas um político menor e sem qualquer condição de conduzir um país com a importância do Brasil. Também não parece ser apenas mais um desses golpistas sem caráter. A cada dia que passa ele se parece muito mais a um sociopata, cidadão ao qual falta qualquer senso de responsabilidade moral ou consciência do que se passa.

Num dia em que o país inteiro se mobiliza para dizer não as suas propostas de reformas trabalhista e previdenciária. E ao mesmo tempo para gritar Fora Temer, ele faz um pronunciamento a empresários onde diz que “a sociedade brasileira tem compreendido a necessidade de apoiar as reformas”.

É o típico comportamento sociopático. O sujeito não percebe ou que se passa ao redor e continua falando e fazendo o que lhe vem à cabeça, sem buscar respeitar os que convivem com ele no mesmo espaço-lugar.

Uma imensa manifestação

Faz décadas que o Brasil não tem uma manifestação de caráter popular tão importante como a deste 15M de 2017. Houve protestos e paralisações em centenas de cidades Brasil afora. Não apenas nas capitas, como se esperava. Mas em cidades médias e pequenas também. Serviços de transporte, escolas, bancos, correio, empresas metalúrgicas, uma série de serviços ou funcionaram parcialmente ou simplesmente pararam.

Mas não foi só isso. Mesmo pessoas que trabalharam foram a manifestações anti-Temer durante o almoço e estão neste fim de tarde se dirigindo para atos que pipocam no país inteiro.

Temer, enquanto isso, parecia estar caçando fantasmas pelo Palácio do Alvorada e dizendo a Marcela, se eles não têm pão, que comam brioches.

É isso mesmo amigos, Temer é a nossa Maria Antonieta.
Posted: 16 Mar 2017 08:12 AM PDT
Por Miguel do Rosário, no blog Cafezinho:

Incrível.

Acabo de entrar nas páginas de Globo, Estadão e Folha. Não há NENHUMA referência às grandes manifestações contra Michel Temer e sua reforma da previdência, que ocorreram em todo país, nesta quarta-feira, 15 de março.

A única pauta é Lava Jato.

O que não falta, porém, são anúncios do governo federal… Em todos os jornalões, topei com a publicidade, em formato pop-up, do BNDES.



É curioso ver o BNDES anunciando em jornais que, há anos, fazem campanha para sua destruição.

É uma coisa nojenta. Se você clicar na editoria “Brasil”, da Globo, que tem anúncio do Ministério da Integração Nacional, só vai encontrar matérias sobre a Lava Jato, como se não acontecesse outra coisa no país.

Não há problemas econômicos, desemprego, protestos contra o governo, etc.

O único assunto dos principais meios de comunicação do país, que recebeu bilhões de reais, por ano, de verbas públicas, é uma operação policial que já vai para o seu terceiro ano, e cujo único resultado concreto foi derrubar uma presidenta honesta e encher o novo governo formado de corruptos, inclusive acusados pela própria operação.



Eu estive no ato que foi da Candelária à Central do Brasil. Era enorme, com dezenas de milhares de pessoas (as estimativas variam de 20 a 50 mil) ocupando um grande espaço da avenida presidente vargas.

Era grande e bonita. À diferença de manifestações coxinhas, salpicadas de gente defendendo a ditadura militar e fanáticos por Bolsonaro, essa tinha feministas tocando tambor em defesa dos direitos de todas as mulheres e de todos os brasileiros.

Se as manifestações contra o golpe do ano passado foram grandes, os protestos contra a reforma da previdência e contra o governo Temer prometem ser ainda maiores.

A grande imprensa brasileira, ao esconder os protestos em troca de alguns tostões de publicidade federal, afunda-se junto com esse governo de golpistas e ladrões.

A título de registro histórico, reproduzo abaixo o tratamento que Globo e UOL deram às manifestações de ontem contra a reforma da previdência (e contra Temer):





(Clique nas imagens para acessar a reportagem).

Abaixo, uma reportagem da Rede Brasil Atual, com informações sobre a manifestação em São Paulo, que naturalmente foi a maior de todas, e teve a presença do presidente Lula.

Eu fico imaginando a inveja dos políticos da direita brasileira. Em todo lugar que vão, são chamados de golpistas, ladrões e traidores.

Enquanto isso, Lula discursa na Avenida Paulista para 300 mil pessoas.

*****

Na Rede Brasil Atual

Ato na Paulista fecha dia de mobilização em São Paulo

Número de manifestantes era estimado em mais de 300 mil pessoas por volta das 19h. Protestos em todo o país pediram rejeição total à proposta de reforma da Previdência

Por Rodrigo Gomes, da RBA publicado 15/03/2017 18h09, última modificação 15/03/2017 19h02
RICARDO STUCKERT

São Paulo – Por volta das 19h desta quarta-feira (15), a Avenida Paulista estava totalmente tomada por mais de 300 mil trabalhadores contrários à reforma da Previdência proposta pelo governo Temer. Do Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde se concentram os manifestantes, não era possível ver onde terminava a ocupação da via. A todo momento os presentes iniciavam coros de “Fora Temer”, reivindicando a rejeição total da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287, que define a reforma.

Depois de uma dia de intensa mobilização, com paralisação de motoristas de ônibus, metroviários, bancários, metalúrgicos, professores, químicos e servidores públicos de várias áreas em todo o país, o presidente da CUT, Vagner Freitas, disse que o recado está dado. “Não vamos aceitar as reformas da Previdência e trabalhista. É bom que deputados e senadores saibam que quem votar a favor será cobrado. Vamos visitar as casas deles, vamos denunciar insistentemente. Não vão acabar com os direitos dos trabalhadores.”

Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) afirmou que o dia de hoje é “um marco”. “Até aqui, nas últimas manifestações e dias de luta, estavam vindo às ruas apenas os movimentos organizados. Hoje tivemos um salto de qualidade. Muita gente que não está necessariamente mobilizada veio às ruas. Vários trabalhadores de diversas categorias estão paralisados em todo o Brasil. Temos já mais de 100 mil pessoas na Paulista, seguramente. Começou a cair a ficha sobre o tamanho do ataque das reformas trabalhista e da Previdência. É o início de um novo momento”, concluiu.

Um dos principais pontos da reforma da Previdência é que seja estabelecida idade mínima de 65 anos, eliminando a concessão do benefício por tempo de serviço. O valor da aposentadoria, de acordo com o projeto, passará a ser calculado levando-se em conta 51% das maiores contribuições com 1% adicionais a cada ano de contribuição. Na prática, isso faz com que seja necessário trabalhar formalmente por 49 anos para se obter o benefício integral.

A presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Juvandia Moreira, destacou que, com a mera divulgação da proposta da reforma, os planos de previdência privada dos bancos passaram a ser supervalorizados. “Essa reforma só beneficia os banqueiros. Ela prejudica em especial as mulheres, que ganham até 30% menos que os homens e cumprem dupla jornada. Se igualar a idade mínima, elas serão as mais prejudicadas. A Previdência é do povo. Esse governo golpista não pode acabar com ela”, afirmou.

A professora Tânia Vendrasco avaliou que a reforma prejudica especialmente os professores e pode ser mais um elemento a desestimular que os jovens ingressem na carreira. Hoje os professores podem se aposentar com 25 (mulheres) ou 30 anos (homens) de contribuição. “Sofremos muito estresse em sala de aula. Temos de aguentar a falta de estrutura, elevado número de alunos, ameaças, problemas de violência dentro e fora da escola. A aposentadoria especial é uma forma de reconhecer essa situação. Hoje já não há estímulo para sermos professores. A reforma piora isso”, afirmou.
Posted: 16 Mar 2017 08:00 AM PDT
Por Ricardo Kotscho, no blog Balaio do Kotscho:

15 de março de 2017: a quarta-feira começou com protestos contra o governo, que atravessaram o dia todo nas ruas de 19 Estados, e terminou com um jantar oferecido por Gilmar Mendes à cúpula do poder, em Brasília.

Se daqui a um século os historiadores do futuro quiserem contar como era a nossa época poderão utilizar estas duas cenas para fazer um resumo da ópera.

* Por todo o país, desde cedo, centenas de milhares de pessoas fazem manifestações contra as propostas das reformas previdenciária e trabalhista aos gritos de "Fora Temer!".

* Em Brasília, o superministro Gilmar Mendes recebe o presidente Michel Temer e outras altas autoridades para um jantar de gala em homenagem ao aniversariante José Serra.

Foi um dia comum no Brasil de 2017, com novos vazamentos da Lista de Janot: o poder de um lado, comemorando, e o povo do lado oposto, protestando, cada vez mais distantes um do outro.

Em algum momento, estes dois mundos que habitam o mesmo país vão ter que se encontrar frente a frente.

Para completar o quadro, podem incluir também fotos de jovens fazendo selfies e festejando o goleiro Bruno, aquele que matou a amante e escondeu o corpo.

É um perfeito retrato dos tempos que vivemos, quando o mesmo Judiciário emponderado que manda soltar o assassino vai julgar os comensais do jantar brasiliense investigados pela Lava Jato.

Confesso que fiquei surpreendido com a dimensão das manifestações de protesto, especialmente no Rio e em São Paulo, diante do clima de anomia social em que vivemos e do desencanto generalizado na sociedade.

Só tive ideia do que estava acontecendo no meio da tarde quando tive que ir ao médico e não consegui chegar à praça Oswaldo Cruz, com o trânsito todo parado e as pessoas correndo com faixas e bandeiras para chegar à avenida Paulista.

Há tempos não via pessoas tão animadas em São Paulo e, pelo jeito, no resto do país, embora desta vez a cobertura das manifestações tenha sido bastante tímida, diria quase envergonhada.

Nem dá para saber quantos eram os manifestantes nas ruas porque a PM e o Datafolha não divulgaram números, ao contrário do que fizeram em manifestações anteriores.

Nos cálculos dos organizadores da CUT e de outros movimentos sindicais e sociais, havia 250 mil pessoas na Paulista.

Em seu discurso de apenas oito minutos, o ex-presidente Lula afirmou que "está ficando cada vez mais claro que o golpe dado neste país não foi apenas contra a Dilma, contra os partidos de esquerda, mas também para acabar com as conquistas da classe trabalhadora".

No relato da Folha, tinha de tudo na avenida: sindicalistas, anarquistas, professores, estudantes, representantes de movimentos sociais, organizações de defesa de direitos LGBT e partidos de esquerda, pedindo a saída do presidente Michel Temer e a convocação de eleições diretas.

Já vi este filme de perto outras vezes, mas desta vez nem consegui chegar ao cinema das ruas. Como disse o Lula outro dia, o tempo passa, a natureza é implacável.

Ao final do dia, ficou uma pergunta martelando na minha cabeça: para onde vamos?
Posted: 16 Mar 2017 05:52 AM PDT
Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

Num país onde golpes de Estado se produzem com frequência lamentável e nociva, a resistência democrática já deixou de ser um movimento exclusivo de organizações políticas e lideranças sociais para integrar a vida cotidiana de muitas famílias brasileiras. É o que se observa a partir de duas obras diferentes, escritas com meio século de distância, envolvendo personagens distintos mas que tiveram seu papel relevante no esforço para mudar as engrenagens da História.

Em lançamento nesta semana, a partir do olhar da primogênita Miruna, o livro “Felicidade Fechada” retrata o cotidiano da mulher, Rioko, e dos três filhos de José Genoíno, guerrilheiro do Araguaia que se revelou um dos mais competentes parlamentares brasileiros após a democratização, até que em 2012 teve a vida política estropiada pelas provas fracas e penas fortes da AP 470.

Lançado em 1965, disponível até hoje, o livreto “Até Quarta, Isabella”, do fundador das Ligas Camponesas Francisco Julião, uma das principais lideranças do Brasil pré-64, descreve uma situação inversa – de pai para a filha. Preso uma semana depois do golpe, depois de circular por alguns diasno lusco-fusco típico desses períodos - participou até de uma sessão no Congresso, quando denunciou a chegada dos generais em aparte - Julião ficou um ano na cadeia, sem o devido julgamento, até que o advogado Sobral Pinto conseguiu que deixasse a cela – um cubículo com 60 cm de profundidade -- sob condição de fazer as malas e ir para o exílio Ilustrada pelas várias utopias de um período no qual não se imaginava que os regimes comunistas pudessem desmoronar em cascata, como aconteceu nas décadas de 1980 e 1990, Julião escreveu seus textos na prisão, subornando um soldado que lhe trouxe papel e lápis.

Fez uma obra voltado para a quinta filha, a Isabella do título -- nascida quando ele já fora preso e só pode conhecer pela boa vontade dos responsáveis pela carceragem, que permitiram que uma irmã do prisioneiro levasse o bebê para que o pai pudesse ver seu rosto pela primeira vez. As visitas passaram a ocorrer uma vez por semana, sempre às quartas-feiras.Filha da segunda mulher de Julião – a advogada Regina Castro, ligada ao Partido Comunista Brasileiro -- Isabella teve um convívio mais intenso com os pais quando os três se uniram no exílio.

Obra de referência para muitos contemporâneos, “Até quarta, Isabella” foi um sucesso literário para letrados e não-letrados. Durante vários anos, era possível encontrar um exemplar do livrinho na biblioteca de intelectuais e profissionais liberais engajados na luta contra a ditadura. Mas seus capítulos também eram lidos em encontros discretos de lideranças rurais, pouco familiarizados com a palavra escrita.

Felicidade Fechada nasceu nos textos que Miruna Genoíno publicava em sua página no FB, num tom em que o discurso político – inevitável no caso – se fazia através do desabafo pessoal. Filha de pais que participaram da luta armada e enfrentaram a tortura em função de suas ideias políticas, Miruna foi uma estudante moderadamente engajada em ideias de esquerda -- por comparação. “Tive uma militância intensa quando secundarista, mas minha prioridade é a pedagogia, que expressa minha forma de pensar e transformar o mundo,” disse em entrevista ao 247.

Isabella também foi menos engajada, na comparação com os pais. Depois de uma militância no PCB, inclusive na corrente de Luiz Carlos Prestes, ingressou no PDT de Leonel Brizola, como o pai. Hoje segue a vida política com empenho, tem uma posição a esquerda, mas sem militância direta. Na entrevista ao 247, Isabella disse que o fato de ter se tornado título de um livro de impacto imenso entre os amigos de seu pai chegou a criar uma relação traumática com a obra. “Me falavam tanto daquele livro que eu tinha medo de ler,” diz. “Era uma pressão muito grande”.

Capazes de traduzir emoções pela simplicidade mas sem simplismos, que traduz emoções fortes sem maiores enfeites, os textos de Miruna começaram a ser publicados durante o julgamento da AP 470. Logo se mostraram de grande utilidade num país que mal começava compreender que, por trás do necessário combate a corrupção, pode se espalhar um veneno contra a democracia. A publicação do livro, em 2017, mostra uma evolução neste entendimento. Ao coletar recursos pela internet, Miruna arrecadou mais do que o esperado.

Ao assumir a defesa do pai, cuja biografia nem ministros do STF foram capazes de colocar em dúvida, ela fez o papel daquelas crianças de fábula que levantam a voz para dizer que o rei está nu. Descrevendo reuniões e conversas em torno do sofá da sala de visitas da casa dos pais no Butantã – um sobrado comprado a prestações junto ao BNH, que constitui o principal bem patrimonial após trinta anos de carreira política em Brasília – Miruna ajuda a entender a força política desses pequenos núcleos que ativam a sociedade civil em momentos em que ela aparece anestesiada. Ponto alto do livro, que ilustra a capa, o imenso bordado organizado pela mulher de Genoíno, simboliza a combinação de energia e indispensáveis naqueles momentos em que gestos solidários mostram que nem tudo foi perdido.

Se o 15 de novembro de 2012 foi uma reedição da pior tradição da republica bestializada, traço apontado pelo jornalista Aristides Lobo no 15 de novembro de Deodoro, em 1889, desta vez nem todos foram flagrados do mesmo jeito na fotografia. Na porta da Papuda, para onde os prisioneiros foram conduzidos depois de um pinga-pinga num jato da Polícia Federal sem que se cumprissem todas as formalidades legais, incluindo várias aberrações no caso do cardíaco Genoíno, portador de um implante de 10 cm na aorta, logo apareceu aquela turminha do sofá da casa do Butantã – a mãe Rioko, as filhas Miruna e Mariana, o filho Renan – para mostrar que havia uma mosca na sopa dos contentes. Um gesto notável, quando se recorda a quantidade de marmanjos silenciosos e silenciados daquele momento.
Posted: 16 Mar 2017 07:46 AM PDT
Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:



A nova lista de denúncias do procurador-geral Rodrigo Janot atinge o coração do governo Temer, os presidentes da Câmara e do Senado e dois presidentes da República, mas esses são os ditos “suspeitos de sempre”, ou seja, petistas que, desde 2014, vem sendo acusados pelo MPF e pelo Judiciário. Mas eles estão longe de ser a novidade.

A delação de funcionários da Odebrecht claro, atinge em cheio o governo Temer; ministros mais próximos do presidente, Eliseu Padilha, Moreira Franco, Aloysio Nunes e Bruno Araújo. Mas, claro, foram colocados dois petistas graúdos pra compensar, Dilma e Lula.

Porém, são os suspeitos de sempre. Aliás, muitos esperavam que fosse mais paulada no PT, mas, como mostram os nomes dos acusados, apesar de Janot pedir indiciamento de Lula e Dilma por, supostamente, haver “requisitos mínimos” para tanto, eles já foram acusados em listas anteriores.

Em maio do ano passado, por exemplo, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de abertura de inquérito para investigar a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o então advogado-geral da União, ministro José Eduardo Cardozo, por suposta obstrução à Justiça, ou tentativa de atrapalhar as investigações da Operação Lava Jato.

Desde que a operação Lava Jato começou, ainda em 2014, os focos foram o PT e os aliados do PT, sem falar nos dois alvos principais, Dilma e Lula. Mas nada prosperou.

As acusações contra o PT são tão fracas que até o grande símbolo do antipetismo, o colunista da Veja, da Folha, apresentador da Jovem Pan, Reinaldo Azevedo, criador do termo “petralha”, teve que reconhecer que, até hoje, não conseguiram provar nada contra Lula. Nem mesmo apresentar um indício sólido.



Serra, por exemplo, é acusado de receber 34 milhões de reais em propinas (valores atualizados). Ou seja: quase 20 vezes mais do que Lula, pois o tríplex e o sítio de Atibaia, juntos, valem cerca de 2 milhões de reais.

Desmascarar a hipocrisia de toda essa gente que você vê na internet acusando o PT enquanto se cala sobre o PSDB ou até o apoia descaradamente (por se dizer isenta), é vital. É o primeiro passo para recuperar a democracia no Brasil, e a esquerda fará isso mostrando aos brasileiros que eles foram vítimas de um golpe tucano-midiático.
Posted: 16 Mar 2017 05:36 AM PDT
Por Charles Nisz, no blog Socialista Morena:

A juíza Marciane Bonzanini, da 1ª Vara da Justiça Federal de Porto Alegre, determinou a imediata suspensão da campanha do governo federal sobre a reforma da Previdência por não informar devidamente os brasileiros e sim fazer propaganda do projeto do PMDB. “A campanha publicitária questionada não possui caráter educativo, informativo ou de orientação social, restringindo-se a trazer a visão dos membros do partido político que a propõe e passando a mensagem de que, caso não seja aprovada a reforma proposta, o sistema previdenciário poderá acabar’, criticou a juíza em seu despacho.

A decisão deixa evidente a falta de republicanismo dos vídeos do governo sobre a reforma previdenciária. De acordo com a juíza federal, a campanha descumpre as determinações da Constituição Federal sobre propagandas governamentais, além de outros atos normativos que estabelecem regras para as ações de publicidade e campanhas dos órgãos públicos. A União foi intimada e terá até 72 horas para se manifestar contra a decisão. Caso descumpra a ordem da magistrada, a multa prevista é de R$ 100 mil por dia.

A juíza Marciane chamou a atenção para o fato de a União estar utilizando recursos públicos para defender um projeto refletindo apenas a visão do partido que a propôs. “Anoto, apenas a título de acréscimo argumentativo, que a campanha publicitária desenvolvida, utilizando recursos públicos, faz com que o próprio princípio democrático reste abalado, pois traz consigo a mensagem à população de que a proposta de reforma da previdência não pode ser rejeitada e de que nenhuma modificação ou aperfeiçoamento possa ser feito no âmbito do Poder Legislativo, cabendo apenas o chancelamento das medidas apresentadas”, disse. “O que parece destoar das regras democráticas é que uma das partes envolvidas no debate político busque reforçar suas posições e enfraquecer argumentos diferentes mediante campanha publicitária utilizando recursos públicos”, reiterou.

A ação civil pública foi ajuizada por sete sindicatos gaúchos, sob a alegação de que a campanha “não apresenta informações sobre os direitos previdenciários dos trabalhadores e segurados”. Ainda segundo a ação levada a cabo pelos sindicalistas, as peças de vídeo configuram “propaganda enganosa”. Num dos vídeos, há a afirmação de que “se a Previdência não for reformada, os benefícios irão ser extintos”. Em outra peça, a apresentadora pergunta: “Se a Reforma da Previdência não for realizada, teremos que aumentar os impostos?”. A resposta é afirmativa.

A magistrada acatou a argumentação dos sindicatos e criticou que a propaganda, feita com dinheiro público, traga a visão dos membros do PMDB, sendo inadequada para a finalidade de uma propaganda governamental. Marciane destacou ainda que “o debate político acerca do tema deve ser feito no âmbito do Poder Legislativo” e que “não há explicação de normas aprovadas que necessitem de esclarecimento à população”, diz a juíza.

A decisão acontece em uma semana marcada por polêmicas envolvendo vídeos sobre a Reforma da Previdência. Em resposta aos vídeos do governo federal em defesa da proposta encaminhada à Câmara, há um curta-metragem feito pelo MTST e narrado pelo ator Wagner Moura onde ficam explicitadas as perdas dos trabalhadores se a reforma for aprovada. “O governo Temer enviou para o Congresso um projeto que interessa apenas aos donos do dinheiro do país, que ataca duramente os trabalhadores”, diz Moura no vídeo.

Moura também critica a proposta de idade mínima de 65 anos, um dos pontos mais impactantes da reforma. Segundo a explicação do ator no vídeo do MTST, a proposta é ruim pois a expectativa de vida do brasileiro é pouco maior que 65 anos, tirando a aposentadoria de muitos e tornando pequena a aposentadoria dos sobreviventes.

O vídeo do MTST estrelado por Moura incomodou tanto o governo que gerou um contra-ataque com um filme em que, em vez de rebater ponto a ponto, atacam o ator, como costumam fazer sites e portais de extrema-direita: Wagner é acusado de receber dinheiro para pensar como pensa. “Tem muita gente por aí tentando enganar você. O MTST contratou um ator para inventar uma ficção sobre a reforma da previdência”, afirma a abertura da peça publicitária governamental.

O filme veiculado pelo governo Temer se esforça em rebater as afirmações feitas por Moura no vídeo realizado pelo MTST em parceria com a Mídia Ninja. Sem legitimidade, o governo investe na propaganda para tentar aprovar uma reforma apoiada por apenas 20% dos brasileiros.


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Posted: 16 Mar 2017 05:31 AM PDT
Por André Machado, no jornal Brasil de Fato:

Toda grande mentira é contada a partir de uma meia verdade. A meia verdade que o governo Temer (PMDB) usa para fazer propaganda da tal "Reforma da Previdência" é que os mais pobres, que ganham até um salário mínimo, cerca de 63% dos brasileiros, serão beneficiados porque contribuirão somente por 25 anos ao INSS para se aposentar.

Será que isso é verdade?

Pela nova regra, de fato, trabalhadores que receberão o piso poderão se aposentar com 25 anos de contribuição. Mas, com um único detalhe, somente se atingirem a idade mínima de 65 anos. Isso muda tudo.

No mundo real, 44% dos brasileiros ocupados começaram a trabalhar antes mesmo dos 14 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A maioria destes, conclui apenas o ensino fundamental e trabalha em atividades desgastantes. Mesmo que a nova regra permita que possam contribuir por apenas 25 anos, trabalharão, na prática, mais de 50 anos para ter direito a se aposentar.

Veja como a nova regra é muito pior aos mais pobres: uma mulher que iniciou sua vida de trabalho antes dos 14 anos, por exemplo, tem condições de se aposentar nas regras atuais aos 46 anos, contribuindo por 30 anos ao INSS. Já pela nova proposta apresentada pelo governo terá que trabalhar 19 anos a mais. Isso mesmo, quase duas décadas a mais. Não há benefício nenhum nessa proposta.

Alguém consegue imaginar o que representará 19 anos de trabalho a mais na vida de uma mulher que ganha um salário mínimo, em uma função penosa e ainda exercendo jornada dupla, tendo em vista o trabalho doméstico? O que será dessa mulher aos 60 anos, nesse mercado excludente com os mais velhos, se for demitida depois de idosa e não ter sua aposentadoria? Ou, caso consiga o milagre de continuar empregada, o que representará para a sua saúde ficar trabalhando até os 65 anos?

A expectativa de vida na periferia de Curitiba, por exemplo, é de 69 anos, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) de 2010. Essa média reduzirá consideravelmente caso essas pessoas tenham que trabalhar até a exaustão e depois de idosas. É desumano. Se aprovada essa reforma, os mais pobres não somente serão duramente prejudicados, como a maioria nem sequer viverá para se aposentar.

Temer disse na última semana que apenas “quem ganha mais” está reclamando. Mas o povo não é bobo. A luta contra esse ataque ao direito à aposentadoria unifica os trabalhadores porque não há setor algum que sairá ileso, mesmo que o ilegítimo presidente diga o contrário. É justamente isso que assusta o governo e o Congresso.

* André Machado é diretor do Sindicato dos Bancários de Curitiba e Região.
Posted: 16 Mar 2017 05:20 AM PDT

Desta vez não havia helicópteros sobrevoando a Avenida Paulista, em São Paulo, diferentemente de movimentos pró-impeachment que contaram com extenso apoio midiático e mesmo logístico por parte de autoridades. Mas isso não impediu que a área fosse tomada por uma multidão, que no final do dia ecoava os protestos realizados durante toda esta quarta-feira (15) pelo país, contra as reformas da Previdência e trabalhista, e em repúdio ao governo Temer. Alheio às manifestações, o presidente chegou a dizer, durante evento em Brasília, que a sociedade, "pouco a pouco, vai entendendo" a necessidade de reformas.

Reformas que representam retrocesso e perda de direitos, afirmaram, durante o dia, representantes de centrais sindicais, movimentos populares e diversas entidades. O diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, por exemplo, disse durante debate que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287, da Previdência, representa uma das maiores reformas de exclusão social desde a Constituição de 1988. Para ele, o dia nacional de paralisações abriu espaço para o debate público e maior percepção da população sobre a ameaça a seus direitos. Em São Paulo, algumas estimativas falaram em até 300 mil pessoas no início da noite na Avenida Paulista. No Rio de Janeiro, seriam pelo menos 100 mil na Candelária. Manifestações foram realizadas em todas as regiões, somando aproximadamente 300 mil, segundo balanços parciais dos organizadores.

O movimento de hoje foi "um marco", na definição do coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos. "Até aqui, nas últimas manifestações e dias de luta, estavam vindo às ruas apenas os movimentos organizados. Hoje tivemos um salto de qualidade. Muita gente que não está necessariamente mobilizada veio às ruas. Começou a cair a ficha sobre o tamanho do ataque das reformas trabalhista e da Previdência. É o início de um novo momento."

Avaliação semelhante fez o coordenador da Central de Movimentos Populares (CMP) e da Frente Brasil Popular, Raimundo Bonfim. "Está caindo a ficha da população. No momento do impeachment a coisa era mais politizada, mais difícil de debater e de dialogar com a população. Nesse momento, é uma questão concreta, a população está fazendo as contas. Não é uma coisa que depende de filiação partidária, o prejuízo vai ser de todos os trabalhadores."

Para o presidente da CUT, Vagner Freitas, o recado foi dado. "Não vamos aceitar as reformas da Previdência e trabalhista. É bom que deputados e senadores saibam que quem votar a favor será cobrado. Vamos visitar as casas deles, vamos denunciar insistentemente. Não vão acabar com os direitos dos trabalhadores."

"O governo Temer vai ter de recuar com esse desmonte da aposentadoria, senão ele não vai ter sossego, porque se o Congresso não derrotar o povo derrota", disse em Brasília o diretor da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Aristides Veras dos Santos, que deverá ser eleito presidente da entidade na próxima sexta-feira (17).

Na capital federal, logo cedo, integrantes de vários movimentos ocuparam a sede do Ministério da Fazenda. À tarde, a manifestação tomou conta da Esplanada dos Ministérios, com pelo menos 10 mil pessoas.

A maior parte das capitais e muitas cidades do interior tiveram passeatas, protestos e atos contra as reformas de Temer. Diversas categorias profissionais, como bancários, metalúrgicos, químicos, eletricitários, trabalhadores nos Correios, servidores públicos, químicos, entre outras, fizeram paralisações. Em São Paulo, os ônibus urbanos só circularam depois das 8h. Os metroviários também aderiram ao protesto, e os trens circularam apenas parcialmente. Professores da rede estadual, em assembleia na Praça da República, aprovaram greve a partir do dia 28.

Enquanto isso, as reformas seguem em discussão no Congresso. Nesta quinta, estão marcadas novas reuniões das comissões especiais da Câmara que analisam a PEC 287 e o Projeto de Lei 6.787, de reforma trabalhista. Parte dos movimentos, como a CUT, defendem a rejeição integral das propostas. Uma parcela acha possível apresentar emendas. Hoje, em rede social, o deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) afirmou que o governo Temer não tem legitimidade para propor reformas. "Derrubaram Dilma para impor uma reforma da Previdência que escraviza os brasileiros. Vamos apresentar emendas ao projeto original. Vamos fazer o possível para impedir que essa reforma seja aprovada."

De acordo com o deputado Bohn Gass (PT-RS), a estratégia é "minar a proposta de todos os lados". Foram apresentadas 146 emendas à PEC 287. Com representação minoritária no Congresso, as centrais sindicais e movimentos populares sabem que só permanecendo na rua é que haverá chance de barrar as "reformas" de Temer e aliados.
Posted: 16 Mar 2017 05:05 AM PDT
Por João Sicsú, na revista CartaCapital:

A narrativa, estritamente política, de que os problemas atuais foram causados pelas políticas econômicas dos governos do PT perde eficácia a cada dia que a situação se agrava. O raciocínio do senso comum é simples: não importa quem tenha causado as dificuldades econômicas, o que importa é quem estancará o problema e promoverá a solução. Se nada for feito, o omisso se torna culpado.

A conjuntura recessiva e de desemprego não começou no governo de Michel Temer, é verdade. A economia mudou de rota em 2011. Mas hoje está em situação limite, pois as dificuldades econômicas tem se transformado em problemas sociais. Segundo cálculos do Banco Mundial, o desemprego criará em 2017 entre 2,5 milhões e 3,5 milhões de novos pobres no Brasil.

Temer teve tempo de sobra para apresentar soluções necessariamente de caráter emergencial. Nada apresentou. Nada. No início do seu governo, em aliança com parte do empresariado, sugeriu à população para não pensar ou falar em crise, tal como o seu governo faria. Trabalhar sim, não pensar ou falar em crise.

O peemedebista acredita que a economia é movida pela força dos pensamentos, que basta não falar ou pensar em crise que as dificuldades seriam superadas. Seu apelo não deu resultado. Uma das duas: ou a economia não é movida pela força dos pensamentos ou a população continuou a pensar e a falar em crise, o que não deveria ter feito.

Durante o processo de impeachment, o futuro ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, garantia que a confiança dos empresários na economia voltaria quando o golpe fosse consumado. O resultado seria a volta dos investimentos e o crescimento econômico. Nada aconteceu, ao contrário. Os investimentos caíram de forma aguda durante 2016. Despencaram 10,2%.

Meirelles acredita provavelmente na existência de uma fada madrinha que usaria sua varinha sobre a cabeça do empresariado brasileiro, jogando-lhes uma chuva de estrelinhas brilhantes, cheias de energia positiva e otimismo. A fada não fez a economia decolar. Uma das duas: ou a fada madrinha não existe ou fez uma chuvinha ácida, pessimista.

A força dos pensamentos e a fada madrinha, ambas tratadas e propagandeadas com seriedade, não funcionaram. Para estimular os pensamentos e acordar a fada madrinha, Temer receitou um remédio, lançou um pacote de medidas em dezembro. Ainda não funcionou. E não vai funcionar. Era placebo, um conjunto de medidas, promessas, sugestões e possibilidades. Foi até esquecido. Só para lembrar. No placebo, foi proposto um amontoado.

Muita coisa foi dita, sugerida e proposta. Regularização de preços e descontos entre os pagamentos feitos com cartão, crediário e em dinheiro. Novo Refis, apelidado de facilitação de dívidas com o governo. Redução do prazo de repasse de recursos aos comerciantes dos pagamentos feitos com cartão de crédito. Ampliação da transparência de bons pagadores. Redução da multa extra de 10% que as empresas pagam quando demitem trabalhadores sem justa causa... E outros inúteis penduricalhos.

Força do pensamento, fada madrinha e placebo não funcionam para tirar mais de 13 milhões de trabalhadores do desemprego. A economia precisa é de um grande plano de obras públicas, de bancos públicos a ofertar crédito com juros mais baixos e da ampliação de programas sociais. Tudo isso coloca dinheiro na economia, o que gera renda e empregos. Assim se explica o aumento da saudade da população dos tempos de Lula. Lembram do PAC, Minha Casa Minha Vida, Bolsa-Família, Luz para Todos, Fies, Prouni, juros baixos no BNDES e valorização real do salário mínimo.

Longe do curandeirismo, Temer tem tomado diversas medidas objetivas, mas que não amenizam os problemas sociais. Ao contrário. Foi suspensa a construção de habitações para a faixa 1 do programa Minha Casa Minha Vida, direcionada àqueles que têm baixa renda e recebem subsídio de 90% do valor do imóvel. É nessa faixa que está o grande déficit habitacional do País, cerca de 4,5 milhões de moradias, ou 84% do déficit.

Mais propostas objetivas e temerárias: a suspensão temporária da dívida dos estados com o governo federal impõe a condição de congelamento de salários do funcionalismo por três anos e o aumento definitivo da sua contribuição para as previdências estaduais. E, ademais, está em curso o desmonte dos bancos públicos federais, o que afetará a oferta de microcrédito, o crédito à agricultura familiar e a geração de renda e emprego.

Temer faz a economia derreter, ora por nada fazer, ora fazendo aquilo que agrava o desemprego e os problemas socais. Ao mesmo tempo, seu governo derrete porque a quantidade de famílias atingidas pelo desemprego se transformou em um problema social. Além disso, o peemedebista propôs a reforma da Previdência, que acelera o derretimento do seu governo, pois a ideia é aplaudida apenas pelo sistema financeiro, congressistas de sua base de apoio e parte da mídia.

Ele faz a economia derreter e, simultaneamente, se afoga na lama quente do desconforto social que está prestes a virar uma convulsão.
Posted: 16 Mar 2017 04:58 AM PDT
Por Luis Nassif, no Jornal GGN:

Não se iluda com a abrangência da lista de Janot. Espere para analisar melhor o teor das denúncias, para saber se, afinal, o pau que dá em Chico dá também em Francisco.

O mais provável é que, como o Ministério Público Federal (MPF) tornou-se irreversivelmente uma corporação política e partidária, provavelmente a inclusão de alguns caciques aliados na lista visa apenas cumprir o formalismo, da mesma maneira que o STF (Supremo Tribunal Federal) quando endossou os procedimentos do impeachment.

Em alguns momentos, há a necessidade de respingos de formalidade para legitimar os esbirros adotados em todo o processo.

Peça 1 – a distinção entre caixa 2 e propina

Hoje já se divulgou que, nas denúncias, o PGR (Procurador Geral da República) Rodrigo Janot distingue o financiamento de campanha, mesmo através do caixa 2, da propina.

É uma distinção discutível, mas se aceita. O parlamentar apoiado por um financiador privado, mesmo que não entregue nada em contrapartida, sempre verá com bons olhos projetos de interesse do padrinho. Mas esse é um problema do modelo de financiamento privado de campanha, do qual o Ministro Gilmar Mendes se tornou o grande patrocinador.

Mesmo assim, essa distinção dá um enorme poder arbitrário aos procuradores: basta pressionar os delatores a identificar qualquer ação de governo que tenha beneficiado diretamente ou indiretamente o financiador, e estabelecer arbitrariamente uma correlação com a contribuição de campanha. Na outra ponta, dos aliados, cuidar de não estabelecer nenhuma correlação, para que o caso fique na zona cinzenta do caixa 2, sem propina.
Peça 2 – os financiamentos ao PT

É evidente que as empreiteiras foram substancialmente beneficiadas no período Lula-Dilma. Tornaram-se peças chaves em um modelo de desenvolvimento e em uma estratégia diplomática, em um momento em que o país assumiu um protagonismo inédito nas relações internacionais.

Havia toda uma estratégia em torno dessa parceria, comum a qualquer país que começa a se projetar globalmente – como financiamento às exportações, trabalho diplomático.

Todos os partidos do mundo democrático se apoiam em financiadores de campanha que se consideram beneficiados pela linhas política e econômica do partido. É só analisar o papel das empreiteiras americanas no Oriente Médio, ou das petrolíferas na África, ou o imbricamento entre a Boeing e o governo norte-americano, a Dassault e o governo francês, a SAAB e o governo sueco.

Em todos os inquéritos abertos, até agora, procuradores trataram de pressionar delatores e a torturar os fatos para impor correlações a marteladas, amarrando doações a uma operação específica – de maneira a tentar estabelecer o vínculo da propina.

No caso de Lula, tenta-se amarrar doações ao Instituto Lula com decisões de políticas públicas de muitos anos antes, projetos de lei, financiamentos às exportações e até esse ridículo atroz de supor que, em troca de um patrocínio de R$ 2,5 milhões, Lula teria influenciado uma licitação de R$ 15 bilhões, dos caças da Aeronáutica, em processo que envolveu Ministérios econômicos de Dilma, Forças Armadas e a própria presidente.

O MPF chegou a vazar para a imprensa, em tom de escândalo, e tratando como indício de crime, e-mail da Odebrecht, capturado por órgãos norte-americanos, no qual um executivo pede a Alexandrino que converse com Lula para, no seu encontro com o presidente do México, defendesse teses de interesse da Odebrecht. O único escândalo seria se a Odebrecht fosse estrangeira, como a Total.

Não significa que não houve esbórnia no período. É evidente que o PT se lambuzou, sim. No início do governo Lula, até o episódio Valdomiro Diniz, o próprio Delúbio fazia questão de participar ostensivamente da inaugurações de estaleiros e de frequentar o Palácio com a desfaçatez dos amadores.

Mas, com três anos de Lava Jato, mesmo sem dispor de prerrogativa de foro, não se investigou sequer um operador do PSDB – tesoureiro, marqueteiro, intermediário.
Peça 3 – os financiamentos ao PSDB

Além das operações da Petrobras, os indícios mais fortes de pagamento de propinas – isto é, de um percentual das obras destinada ao governante – ocorreram com os governos José Serra e Geraldo Alckmin em São Paulo, e com Aécio Neves em Minas Gerais.

No caso deles, as poucas informações vazadas até agora mostram que não havia defasagem de tempo nem tentativa de legalizar a propina pelo Caixa 1: era propina na veia. No caso de Alckmin, cobrança de 5% sobre cada obra do estado; com Serra, a mesma coisa, todas intermediadas por Paulo Preto – e, no caso de Serra, o pagamento sendo efetuado na Suíça, nas contas de Ronaldo César Coelho.

No caso de Aécio, a mesma regra valeu na construção da Cidade Administrativa de Minas, com um agravante: informações de que a licitação foi fraudada para beneficiar as empreiteiras vencedoras.

Têm-se, então, dois casos paradoxais.

No caso de Lula e Dilma, a permissividade com os aliados, na qual o próprio PT se lambuzou, em nome do presidencialismo de coalizão, No caso de Aécio, Alckmin e Serra, não: os indícios são de que operaram diretamente, através de um propinoduto manejado pelo governo do Estado.

Mais ainda, não há nenhum indício de que a mesada paga a Aécio por Dimas Toledo, de Furnas, tenha sido para financiamento eleitoral. Qual a prova? Há algum comprovante no PSDB, mesmo em contabilidade paralela? Se não, aumentam as suspeitas de que tenha sido para enriquecimento pessoal. Uma investigação imparcial sobre Serra também comprovará sinais exteriores de riqueza incompatíveis com sua renda de político.
Peça 4 – a estratégia de despiste

Meses atrás, antecipamos o que poderia ser a estratégia de Janot visando poupar seus aliados, cancelou as negociações para a delação do presidente da OAS Léo Pinheiro em cima de uma nítida armação.

A revista Veja publicou uma denúncia xoxa contra Dias Tofolli, atribuiu-a à proposta de delação de Pinheiro. Poderia ter partido de qualquer procurador ou delegado. Antes de qualquer investigação, Janot ordenou o cancelamento da delação acatando de pronto a versão de que o vazamento partira de Pinheiros.

Ora, sabia-se que Pinheiros daria todos os elementos para comprovar o pagamento de propinas nas obras de São Paulo, percentuais do governo Alckmin, os primeiros problemas com o governo Serra e a posterior renegociação, tocada por Paulo Preto. Era o ponto fora da curva, no pré-roteiro definido das delações.

Antes disso, o MPF já havia demonstrado total parcialidade no caso Alstom. Investimentos de bilhões, feitos em São Paulo, no qual, segundo a versão do MPF e do Ministério Público Estadual, todas as operações foram conduzidas por técnicos do segundo e terceiro escalão, sem nenhum conhecimento ou interferência do governador ou de prepostos dele. Logo o MPF, que defende as 10 Medidas sob o argumento de que os chefes sempre saem ilesos devidos a manobras jurídicas. O mesmo MPF que endossou a versão brasileira da “teoria do domínio do fato” para apanhar líderes petistas.

Basta seguir esse roteiro nos inquéritos. Aos inimigos, todas as correlações reais ou imaginárias; aos aliados, a presunção das doações fruto de convicções políticas dos doadores.

A consolidação dessa estratégia é relativamente simples. Basta colocar em inquéritos chaves procuradores da estrita confiança de Janot que não temam incorre em ridículo tipo envolver o rei da Suécia nas supostas propinas da Licitação FX. Não haverá a necessidade de muito esforço porque, majoritariamente, a corporação assimilou seu papel partidário e de execução do direito penal do inimigo.
Peça 5 – de onde nada se espera

Diz o ditado que, de onde nada se espera, nada vem efetivamente?

Se o PGR Janot, em algum momento desse jogo, der a menor prova de grandeza, terei o imenso prazer de admitir que estava errado em minhas avaliações.
Posted: 16 Mar 2017 04:50 AM PDT
Por Étore Medeiros, no site da Agência Pública:

“63% dos trabalhadores brasileiros terão aposentadoria integral porque ganham salário mínimo, lamento dizê-lo. Quem pode insurgir-se é um grupo de 27%, 37%. A reforma pode merecer ajustamento, e quem vai discutir isso é o Congresso Nacional, mas quem reclama é quem na verdade ganha mais. Quem está acima desses tetos, quem tem aposentadoria precoce.” – Michel Temer, presidente da República, em discurso durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, em 7 de março.

O presidente Michel Temer discursava sobre a reforma da Previdência, durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, no dia 7 de março, quando disse que as alterações propostas para a aposentadoria dos brasileiros não vão prejudicar os trabalhadores de baixa renda. Como exemplo, apontou que “63% dos trabalhadores terão aposentadoria integral porque ganham salário mínimo”. Também disse que apenas quem ganha acima desse valor reclama das mudanças propostas por seu governo.

O Truco – projeto de checagem da Agência Pública – foi atrás dos dados para verificar se a afirmação de Temer é verdadeira. Entramos em contato com a assessoria de imprensa da Presidência da República para solicitar a fonte das informações usadas. Segundo o órgão, o índice de 63% de aposentados que recebem um salário mínimo foi obtido com o Ministério da Previdência Social. A pasta confirmou o porcentual à reportagem em 10 de março: são 12,2 milhões de pessoas nesta categoria, do total de 19,2 milhões de aposentados. O mesmo número também já havia sido checado antes, quando analisamos uma fala da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR).

Acontece que o presidente não se referiu aos aposentados de hoje, mas aos trabalhadores que ainda estão no mercado e que “terão aposentadoria integral porque ganham salário mínimo”. Um outro problema está no fato de os 63% de aposentados mencionados serem apenas do INSS, quando a reforma atingirá um número muito maior de pessoas – como funcionários públicos de estados e municípios.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2015 (Pnad 2015), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o porcentual de pessoas empregadas maiores de 10 anos que recebiam até um salário mínimo foi de 22,21%. A Pnad 2015 mostra ainda que metade (54,2%) dos trabalhadores encaixados nesta faixa não tinham carteira de trabalho assinada. Isso significa uma maior dificuldade para contribuir regularmente para a Previdência e, portanto, para se aposentar.

As pessoas que “ganham mais”, como destacou o presidente, realmente serão afetadas pelo projeto. De acordo com as novas regras propostas pelo governo federal, ao se aposentar com os requisitos mínimos previstos na reforma da Previdência – 65 anos de idade para homens e mulheres, e 25 anos de contribuição – o trabalhador só terá direito a 76% do valor médio sobre o qual contribuiu ao longo da carreira. Para atingir os 100%, terá de trabalhar por 49 anos.

Como o piso da aposentadoria continuará atrelado ao salário mínimo, quem completar 25 anos de contribuição receberá pelo menos o menor pagamento possível, atualmente de R$ 937, mesmo se a nova fórmula apontar o direito a um valor menor. Assim, quem ganha o mínimo ao longo da carreira não precisará contribuir por 49 anos para receber a aposentadoria integral, de um salário mínimo, como sustentou Temer.

Outros impactos da reforma

O presidente errou, portanto, ao dizer que 63% dos trabalhadores brasileiros ganham um salário mínimo. Mas este não foi o único deslize de Temer. Ele também se equivocou quando defendeu que as reclamações contra a reforma partirão somente de pessoas com rendas mais elevadas – que precisarão contribuir mais tempo para receber o valor integral. Há diversos pontos do texto enviado ao Congresso que prejudicam diretamente os benefícios das pessoas de baixa renda.

O problema começa no aumento do tempo mínimo de contribuição para a aposentadoria, que passará de 15 para 25 anos. Conforme já foi demonstrado pelo Truco, os trabalhadores remunerados nas menores faixas salariais têm maior dificuldade para contribuir com a Previdência, pois estão mais sujeitos à informalidade e ao desemprego. Segundo dados obtidos pela Folha de S.Paulo, se a regra dos 25 anos já estivesse valendo, 79% dos aposentados por idade não conseguiriam o benefício.

Além disso, diferentemente do que ocorre com as aposentadorias, a proposta do governo desvincula as pensões por morte do salário mínimo. A fórmula prevista permitirá ao governo pagar apenas 50% da aposentadoria para os pensionistas, com acréscimo de 10% para cada dependente. Esta medida impacta todas as faixas remuneratórias, inclusive as mais baixas. Segundo levantamento do jornal Valor Econômico, publicado em fevereiro, cerca de 55% dos 7,41 milhões de pensionistas ganham hoje até um salário mínimo.

Outro ponto que atinge as pessoas de baixa renda é a mudança proposta para o Benefício da Prestação Continuada da Lei Orgânica da Assistência Social (BPC/LOAS). Hoje, isso garante um salário mínimo para as pessoas acima de 65 anos, mesmo que nunca tenham contribuído para a Previdência, assim como para pessoas com deficiência. É preciso que a renda por pessoa no grupo familiar seja menor que 25% do salário mínimo. Pelo texto da reforma, a idade para acessar o benefício será elevada para 70 anos e, assim como nas pensões por morte, os pagamentos poderão ser inferiores ao piso remuneratório nacional – o que já gerou protestos entre os deputados federais.

Além de ter utilizado erroneamente o índice de aposentados que recebem o mínimo, o presidente ocultou pontos centrais da reforma da Previdência que vão impactar negativamente a renda das pessoas mais pobres. As mudanças propostas não têm potencial para desagradar somente quem ganha mais, mas também as pessoas de menor renda e em situação de vulnerabilidade social. Após a análise dos dados, a conclusão do Truco é pela classificação da fala do presidente como falsa.
Posted: 15 Mar 2017 08:35 PM PDT

Do site Lula:

Diante de mais de 150 mil pessoas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou do ato contra a reforma da previdência do governo de Michel Temer. Ao lado de lideranças dos movimentos sociais e sindical, discursou para a multidão e criticou a falta de sensibilidade dos donos do poder: "Eu queria que o Meireles e o Temer ouvissem o recado de vocês. Ao invés de fazer uma reforma para tirar dinheiro, façam a economia voltar a crescer”.

Na opinião do ex-presidente, o atual governo empurrou "goela abaixo do povo brasileiro uma reforma que vai impedir a aposentadoria de milhões”. O projeto, continuou Lula, deixa "cada vez mais claro que o golpe dado neste país não foi apenas contra a Dilma e os partidos de esquerda, foi para colocar um cidadão sem nenhuma legitimidade para acabar com as conquistas sociais do povo”.

Lula falou sobre seu governo: "Um dia nesse país nós resolvemos o problema da previdência incluindo os pobres no orçamento. Quando a gente conseguiu incluir o pobre no orçamento da União, o pobre passou a ser a solução ao invés do problema. Quando geramos 22 milhões de emprego, todas as categorias tinham aumento acima da inflação”.

A solução adotada por Michel Temer, avaliou Lula, não é satisfatória: "É preciso parar com essa bobagem de cortar e vender as nossas estatais. Quem não sabe governar, só sabe vender”. Os retrocessos vividos desde o impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff colocaram em xeque a imagem internacional do Brasil: "Esse país era respeitado no exterior e hoje temos um presidente que não tem coragem de ir nem à Bolívia”.

O necessário agora, disse Lula, é fazer os brasileiros se sentirem orgulhosos novamente: "Nós queremos ter o direito de voltar a sermos respeitados e de ter dignidade. Tenho orgulho de ter sido presidente por oito anos e ter ajudado esse país a levantar a cabeça”.

Antes de terminar, fez uma previsão sobre o futuro do país: "Quem pensa que o povo está contente, está enganado; esse povo só vai parar quando elegerem um governo democraticamente”.

O ex-presidente já havia encerrado seu discurso, quando pediu a palavra novamente para avisar às milhares de pessoas que estará na Paraíba no próximo domingo (19). Lula vai visitar as obras da transposição do Rio São Francisco ao lado de Dilma Rousseff e Ciro Gomes. Fez questão de pedir aos presentes que avisassem aos parentes que moram na região.

Veja a galeria de fotos em alta definição: https://goo.gl/photos/UMNRDCiSELGjAnS59

Ouça o discurso de Lula na íntegra [aqui].
Posted: 15 Mar 2017 08:33 PM PDT
São Paulo, 15/3/17. Foto: Felipe Giubilei/Mídia Ninja
Do site Vermelho:

De acordo com a Frente Brasil Popular, cerca de 1 milhão de pessoas participaram das manifestações e paralisações em todo o Brasil, nesta quarta (15), contra as reformas da previdência e trabalhista propostas pelo governo de Michel Temer. Só na avenida Paulista, em São Paulo, o ato que encerrou o dia de mobilizações reuniu cerca de 300 mil pessoas.

Do Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde se concentram os manifestantes, não era possível ver onde terminava a ocupação da via. A todo momento os presentes iniciavam coros de "Fora Temer", reivindicando a rejeição total da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287, que define a reforma.

Depois de uma dia de intensa mobilização, com paralisação de motoristas de ônibus, metroviários, bancários, metalúrgicos, professores, químicos e servidores públicos de várias áreas em todo o país, a avaliação dos organizadores do ato era de que o recado estava dado: o povo não vai aceitar passivamente as reformas da Previdência e trabalhista.

Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) afirmou que o dia de hoje é "um marco". "Até aqui, nas últimas manifestações e dias de luta, estavam vindo às ruas apenas os movimentos organizados. Hoje tivemos um salto de qualidade. Muita gente que não está necessariamente mobilizada veio às ruas. Vários trabalhadores de diversas categorias estão paralisados em todo o Brasil. Temos já mais de 100 mil pessoas na Paulista, seguramente. Começou a cair a ficha sobre o tamanho do ataque das reformas trabalhista e da Previdência. É o início de um novo momento", disse, mais cedo.

A professora da rede estadual Rosa Maria Moura, 54, é uma das manifestantes. Ela diz que está preocupada com mudanças na aposentadoria. "Eu deveria aposentar daqui a dois anos. E agora está tudo indefinido", afirmou, ao UOL.

Já o metalúrgico aposentado, Nelson Gonçalves, 68, trouxe uma faixa com uma mensagem contra a reforma da Previdência. "Eu só escrevi sobre os trabalhadores e aposentados. Não cabe nela todo mundo que vai ser prejudicado", declarou ao mesmo site.

Eleonora Menicucci, ex-ministra do governo Dilma, também participou do ato na av.PaulistaSegundo ela, as mulheres estão sendo mais "penalizadas" na reforma da Previdência. "Esse é um governo de brancos e ricos, que não ouvem as mulheres. Para o Temer, as mulheres têm que ficar em casa." De acordo com ela, proposta de reforma não leva em conta a dupla jornada enfrentada pelas mulheres. "É um absurdo que as mulheres passem a se aposentar com 65. Nós ainda estamos na situação de cuidadoras da sociedade." .

Um dos principais pontos da reforma da Previdência é que seja estabelecida idade mínima de 65 anos, eliminando a concessão do benefício por tempo de serviço. O valor da aposentadoria, de acordo com o projeto, passará a ser calculado levando-se em conta 51% das maiores contribuições com 1% adicionais a cada ano de contribuição. Na prática, isso faz com que seja necessário trabalhar formalmente por 49 anos para se obter o benefício integral.

A presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Juvandia Moreira, destacou que, com a mera divulgação da proposta da reforma, os planos de previdência privada dos bancos passaram a ser supervalorizados. "Essa reforma só beneficia os banqueiros. Ela prejudica em especial as mulheres, que ganham até 30% menos que os homens e cumprem dupla jornada. Se igualar a idade mínima, elas serão as mais prejudicadas. A Previdência é do povo. Esse governo golpista não pode acabar com ela", afirmou.

A professora Tânia Vendrasco avaliou que a reforma prejudica especialmente os professores e pode ser mais um elemento a desestimular que os jovens ingressem na carreira. Hoje os professores podem se aposentar com 25 (mulheres) ou 30 anos (homens) de contribuição. "Sofremos muito estresse em sala de aula. Temos de aguentar a falta de estrutura, elevado número de alunos, ameaças, problemas de violência dentro e fora da escola. A aposentadoria especial é uma forma de reconhecer essa situação. Hoje já não há estímulo para sermos professores. A reforma piora isso", afirmou.

Para a Frente Brasil Popular, os atos desta quarta adquiram nova feição, contaram com a unidade das centrais sindicais e adesão de diversas categorias de trabalhadores, além do apoio da população em geral, nos quatro cantos do Brasil. Do Acre, que mobilizou mais de sete mil pessoas no período da manhã, à Caxias, no Rio Grande do Sul, que ficou mais de 10 horas mobilizada, a cena geral em todas as cidades foi de muitos cartazes, faixas e cartolinas contra a reforma previdência e trabalhista.

De São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador ecoou o grito de centenas de milhares de pessoas e a demonstração de resistência contra os retrocessos. De Curitiba, Pernambuco, Mato Grosso do Sul, Goiás, o recado foi dado em alto e bom som: se o governo quiser mexer na aposentadoria dos brasileiros, vai enfrentar a vontade de lutar de milhares de brasileiros.

Na avaliação da Frente, iniciadas com grito das mulheres dizendo que "Aposentadoria fica, Temer sai", as manifestações desta quarta demonstraram a disposição do povo brasileiro de "defender os seus direitos com unhas e dentes", pois "não é um presidente sem voto e golpista que vai destruir a Consolidação das Leis Trabalhistas e as conquistas históricas garantidas depois de muita luta, suor e sangue".
Posted: 15 Mar 2017 08:28 PM PDT
Por Paulo Kliass, no site Carta Maior:

A dinâmica do movimento político é mesmo surpreendente. Já dizia o falecido político mineiro Magalhães Pinto que a política é como as nuvens no céu: você olha em um determinado momento, está de um jeito. Passados alguns minutos, você vai conferir a configuração acima da tua cabeça e está tudo mudado. Se já é difícil entender o fenômeno em si, a tarefa torna-se ainda muito mais complexa ainda quando se tenta fazer algum tipo de previsão.

Depois de ter conseguido aprovar a chamada “PEC do Fim do Mundo” no final do ano passado com relativa facilidade na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o governo começa agora a enfrentar a realidade da chamada resistência generalizada. Aquela emenda constitucional estabelecia o congelamento das despesas sociais do orçamento por longos 20 anos e foi aceita pela maioria dos parlamentares ainda muito influenciados pelo discurso uníssono do governo e da imprensa em torno da necessidade imperiosa de um ajuste fiscal rigoroso.

Apesar de todo o debate que os opositores tentamos abrir na sociedade a respeito da irresponsabilidade criminosa subjacente àquela medida, o fato é que a reação popular não foi forte o suficiente para impedir o avanço da proposição e sua aprovação em 13 de dezembro. Até a data parece ter sido escolhida com bastante empenho e atenção pelos dedicados assessores palacianos. Em 1968, no mesmo dia, havia sido editado o famigerado AI-5, quando o Brasil mergulhou de forma profunda na pior fase da ditadura militar.

Não obstante a amplitude do arsenal de maldades envolvidos na mudança constitucional válida por 2 décadas, talvez a pulverização das atrocidades a serem cometidas no futuro tenha dificultado o sentimento de revolta da maioria da população. Por mais que o Brasil esteja afundado em uma crise econômica e social sem precedentes, assistimos a um inexplicável grau de apatia e consentimento das forças sociais. Essa relativa passividade fica ainda mais difícil de ser compreendida em se tratando de redução das verbas públicas dedicadas a temas como previdência, saúde, educação, assistência e tantos outros tão necessários em momentos como o que vivemos atualmente.

Reforma da Previdência: desaprovação generalizada

No entanto, a reforma da previdência oferece um quadro bastante distinto. A proposição é muita mais incisiva em mudanças objetivas e claras. Em se tratando de uma PEC que retira direitos de forma ampla e universal, quase todos os indivíduos são atingidos - de forma direta ou indireta - pela matéria. Seja pelo risco oferecido aos que já estão aposentados, seja pela retirada de direitos dos que ainda estão na vida laboral ativa, seja ainda pelo completo descrédito que oferece às futuras gerações que ainda pretendem ingressar na fase de trabalho de suas vidas.

Assim, a questão política fica mais sensível e as próprias pesquisas encomendadas pelo núcleo duro do governo sistematicamente têm apresentado um cenário de elevada impopularidade dos temas sugeridos para a mudança previdenciária. Tendo já decorrido mais da metade do mandato dos parlamentares eleitos em outubro de 2014, os deputados começam a colocar na balança também a reação dos eleitores frente a tal medida. O Presidente começa, literalmente, a temer sobre a sua capacidade de tratorar o Congresso, como ocorreu em dezembro.

As advertências começam a pipocar aqui e ali. Dissidências no interior da própria base aliada são reveladas e emergem na superfície do cenário da disputa de poder. Líderes políticos conservadores se levantam quando o tema volta à baila, como Paulinho da Força Sindical ou dirigentes do PTB, como Arnaldo Faria de Sá. Ainda que não tenham abandonado seu perfil conservador em termos de projeto de país, tais referências do quadro partidário mais à direita expressam também o sentimento de suas bases sociais. Nesse debate, em particular, a contestação aberta da política oficial em matéria considerada “estratégica” pelo Palácio do Planalto não deve ser menosprezada.

Assim, o governo reconhece a importância de tais sinais emitidos e é possível que passe a levá-los em consideração . Por exemplo, pode incorporar a leitura da temperatura a partir da métrica oferecida pelos termômetros desses políticos de sua base, mas que mantêm algum grau de contato com o sentimento do pulso popular. Não é por outra razão que até mesmo o relator da matéria, escolhido por sua extrema lealdade e dedicação ao projeto de Temer, já sinaliza para a necessidade de alguns recuos organizados na tropa aliada. O deputado Artur Maia (PPS/BA) já avisou que a reforma não será aprovada da “forma como foi enviada” pelo Executivo. Isso significa que já avança a incorporação de críticas ao projeto.

Rachas na base aliada

De outro lado, o núcleo duro começa a enfrentar problemas com os próprios partidos da base aliada. Estão aí alguns dos exemplos mais recentes de questionamento da capacidade de manter o grupo unido na defesa das maldades. Esse foi o caso sintomático das manifestações de caciques do PMDB a favor da liberação do voto dos deputados do partido, bem como o anúncio do PROS e do PSB de que seus integrantes votarão contra o texto enviado pelo Executivo ao Congresso Nacional.

Nesse contexto ganhou relevância também a atuação pró ativa do amplo leque de entidades, especialistas e pesquisadores envolvidos com o tema. Apesar do evidente boicote patrocinado pelos principais órgãos de comunicação às vozes críticas ao projeto de Temer, conseguimos furar o cerco à informação por meio das redes sociais e até mesmo por meio de peças publicitárias encaminhadas por associações que se manifestaram claramente contra a proposta redutora de direitos.

Nesse momento em especial, a divulgação das informações reveste-se de fundamental importância. À medida que a população vai tomando consciência a respeito do tamanho das maldades incluídas no texto da PEC 287, cada vez mais vai ficando difícil para o governo conduzir a tramitação com a folgada maioria que ele se gaba de manter no interior do Parlamento. Mais debate e mais luz no assunto reforçam o sentimento de indignação popular contra a medida. E esse movimento coloca mais interrogação na cabeça dos deputados preocupados com sua imagem eventualmente arranhada perante o eleitorado.

Ainda que a preocupação não tenha se convertido em desespero, a luz amarela parece ter acendido nos dirigentes do governo. A tentativa destrambelhada de promover censura à divulgação de material contrário à Proposta revela tal dificuldade em lidar com a generalização crescente das críticas. Essa mesma motivação levou o Executivo a se apoiar em um esquema de publicidade típico de quem se vê acuado em sua estratégia. Na direção oposta a todo o discurso a respeito da crise fiscal e da necessidade de cortar despesas secundárias, o governo paga verbas milionárias para difundir a campanha mentirosa a favor das mudanças nas regras previdenciárias.

Os grandes jornais e as redes de televisão martelam cotidianamente as versões patrocinadas pelo Ministério da Fazenda a respeito da urgência da matéria e da catástrofe iminente caso a medida não seja aprovada. Matérias e colunas de “especialistas” buscam desqualificar os argumentos apresentadas pelos estudos que negam o “déficit estrutural” do Regime Geral da Previdência Social (RGPS). Esse é o caso do excelente documento “Previdência: reformar para excluir?” conduzido pela ANFIP e pelo DIEESE. Ali estão apresentados os números baseados nas estatísticas oficiais da administração pública federal e que evidenciam a manipulação de informações para justificar o desmonte previdenciário.

Isolamento de Temer e impopularidade da reforma

As pessoas começam a perceber que o sistema da seguridade social está equilibrado em termos financeiros. Existe até mesmo um orçamento anual aprovado pelo poder legislativo tratando do tema que engloba previdência, saúde e assistência social. O ponto sensível é que o Executivo se apropria das fontes de receita tributária que deveriam ser destinadas para esse fim e as utiliza para promover o famigerado superávit primário.

Na verdade, o problema de imagem começa em casa. É amplamente conhecido o fato de que o próprio Temer se aposentou aos 54 anos e recebe mensalmente salários somados a benefícios previdenciários em valores altíssimos. Ora, nessas condições, como justificar politicamente que o problema se resolveria com elevação da idade mínima para 65 anos, a exigência de 49 anos de contribuição e a proibição de acumulação para os setores da base de nossa pirâmide social?

Quase todos os dirigentes políticos que se lançam a clamar contra os supostos abusos do regime previdenciário estão no conjunto dos que usufruem dos benefícios desse mesmo sistema. Além disso, uma boa parte deles deverá constar da tão aguardada quanto temida “lista de Janot” - quando finalmente deverão ser oficializados os boatos vazados a respeito dos denunciados em esquemas de corrupção em vários níveis de governo e de ampla coloração partidária.

O aprofundamento da crise econômica e seus efeitos sociais operam como condimento para o crescimento da insatisfação popular e para o aprofundamento dos índices de impopularidade de Temer. O governo vai perdendo quadros e os colaboradores que ficam aos poucos vão perdendo as respectivas vestes. As denúncias de corrupção não cessam de vir à tona, mas o governo nada faz com os acusados de sua proximidade. Ao contrário, a cada dia que passa o presidente perde mais o prurido e o pudor. A sua imperdoável fala no dia internacional das mulheres revela sua enorme dificuldade de operar em sintonia com seu tempo e com as aspirações da maioria da população.

Caso insista na aprovação da maldade previdenciária, o rei corre risco de ficar nu.
Posted: 15 Mar 2017 08:26 PM PDT
Por Tereza Cruvinel, em seu blog:

Que Lula, Dilma e outros petistas estejam na segunda lista de Janot não é ser surpresa para ninguém. Enquanto a Lava Jato esteve circunscrita à República de Curitiba, os petistas foram seus fregueses preferenciais. E os tucanos, os intocáveis. A presença de peemedebistas graúdos também é muito óbvia, seja por terem sido sócios do PT no governo até optarem pela derrubada de Dilma, seja pelas conhecidas práticas do partido que, sem ganhar eleições, nunca saiu do poder federal. A cereja do bolo que o procurador-geral Rodrigo Janot está servindo ao Brasil é representada pelos grão-tucanos nela incluídos - Aécio Neves, José Serra e Aloysio Nunes - e outros menos cotados que ainda vão aparecer. Janot, como Sérgio Moro, já foi benevolente com os tucanos mas agora, além de cuidar da biografia, não havia como fugir da revelação da Odebrecht: na política do Brasil, desde sempre, todos são iguais perante o caixa dois e a corrupção.

Uma das muitas serventias da lista de Janot é a de confirmar o que disse o PT quando foi posto no pelourinho com a descoberta de seus esquemas “não contabilizados”. “Fizemos o que todos sempre fizeram, diziam os petistas”. Fizeram o que nunca deviam ter feito, entrar no jogo que prometeram combater, mas está claro que em nada inovaram. Não inventaram a pólvora nem o caixa dois, nem foram os primeiros a vincular o caixa dois aos contratos das grandes empresas no setor público. Mas, neste tempo todo, desde 2005, apanharam sozinhos, tendo no máximo a companhia de peemedebistas mais exagerados. O PSDB ficava lá, posando de vestal, apontando o dedo e desancando os petistas, imerso num forte sentimento de intocabilidade. Agora que a blindagem ruiu, o jeito foi ingressar no esforço em curso para igualar o passado de todos, anistiando o caixa dois como biombo de outras coisas mais graves.

Nestes quase três anos de Lava Jato, muitas foram a blindagens proporcionadas por Moro, Ministério Público e pelo próprio Janot aos tucanos. Janot poupou o senador mineiro algumas vezes, especialmente ao ignorar sua citação na delação de Alberto Yousseff como beneficiário do esquema Furnas. Moro jamais levou adiante as citações a tucanos, com foro especial ou não. A construtora Camargo Correia terá que refazer sua delação premiada porque, cotejada com a da Odebrecht, viu-se que omitiu informações preciosas sobre superfaturamento e pagamento de propina em obras dos governos tucanos no estado de São Paulo. Em verdade, portanto, devemos aos 77 delatores da Odebrecht, e não exatamente a Janot, este grande passo para a mudança nos costume políticos, confirmando o que todos sempre soubemos: no governo, todas as obras são previamente acertadas, todos os fornecedores superfaturam, todos os partidos e políticos fazem caixa. Inclusive os outrora impolutos tucanos. Disso, sempre souberam todos que convivem no meio político. Mas era de ouvir falar, não de ler confissões como as da Odebrecht. Se tudo isso servirá para mudar a cultura política, veremos. Para tanto, teremos primeiramente que reinventar o sistema político-eleitoral.
Posted: 15 Mar 2017 08:19 PM PDT
Posted: 15 Mar 2017 08:23 PM PDT
Recife, 15/3/17. Foto: Mídia Ninja
Por Kiko Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

A cena ocorreu na estação Jabaquara do metrô de São Paulo e foi relatada na Exame.

Metroviários em greve contra a reforma da Previdência davam explicações aos usuários de como eles podiam chegar ao trabalho. O motivo da paralisação, falaram, é defender a aposentadoria de todos, não apenas deles próprios.

“Após o discurso, os funcionários chegaram a ser aplaudidos pelas pessoas que pediam informações sobre os trens”, diz o texto.

Michel Temer admitiu que saiu do Palácio da Alvorada com medo de fantasmas. Provavelmente é o presidente mais sem noção que o Brasil teve, mas vamos adiante.

Gilmar Mendes já se adiantou para protegê-lo em diversas ocasiões. O fantasma da cassação no TSE está bem encaminhado. O papo furado do caixa 2 do bem e o caixa 2 do mal avança para a consagração.

Gilmar, que vai julgá-lo no TSE, acha normal encontrar o amigo no Jaburu dia sim, dia sim também, fora ou dentro da agenda. Assim como é normalíssimo Temer nomear seu primo para um cargo federal.

Michel conta com um Judiciário cúmplice do golpe para lidar com a Lista de Janot, que atinge cinco de seus ministros, os notáveis Eliseu Padilha, Moreira Franco, Gilberto Kassab, Aloysio Nunes e Bruno Araújo.

De todos os monstros, porém, o que Michel e seus asseclas não têm controle é o povo, esse que está parando o Brasil no dia de hoje, 15 de março de 2017.

Segundo a CUT, 25 estados e o Distrito Federal participam da mobilização. Ainda estão previstos atos em várias cidades. Em São Paulo, Lula estará na Paulista.

Temer é um magano de gabinete, acostumado a operar nas sombras. Não sabe o que fazer com as ruas, nunca viu um eleitor na vida real e tenta vender a empulhação de que prefere ser “impopular a populista” - leia-se desprezado.

São as ruas que vão derrotar suas reformas e, por fim, seu governo. Tio Gilmar não terá o que fazer senão passar a mão na cabeça de Michel e despedir-se carinhosamente para cuidar de seu outro afilhado, o Mineirinho, que inspira cuidados.
Posted: 15 Mar 2017 08:20 PM PDT
Por Marcelo Zero

O depoimento de Lula no último dia 14 é um desses raros momentos históricos em que tudo se revela, tudo se torna claro.

De um lado esteve Lula, o maior presidente da história do país, só comparável, em sua dimensão política interna, a Getúlio Vargas. Mas Lula é o único presidente brasileiro que se tornou, de fato, um grande líder internacional, admirado em todo o mundo. Nunca houve um presidente como Lula.

Por sua grandeza histórica, política e moral, Lula falou de coisas grandes. Falou de como elevou o protagonismo internacional do Brasil. Como fez um país dependente, pequeno, se tornar grande e respeitado. Falou de como tirou 30 milhões de brasileiros da miséria. De como colocou 40 milhões de brasileiros na nova classe média. De como o mundo o procura até hoje para saber dos programas sociais revolucionários que criou. De como dinamizou o mercado interno, de como tornou o pobre solução, ao invés de problema. De como tornou o Brasil a sexta economia do mundo. De como fez a Petrobras estimular as empresas nacionais. De como fez o Brasil um país de cabeça erguida. De como conquistou o direito de andar de cabeça erguida num país grande, soberano e mais justo.

De outro lado, estiveram, como sempre, homens pequenos. Pequenos como Savonarola, Torquemada e McCarthy. Pequenos em seu ódio, pequenos em sua inveja, pequenos em seu moralismo de ocasião. Pequenos, diminutos, em sua hipocrisia.

Como homens pequenos, falam de coisas pequenas. Falam de pedalinhos, falam de apartamentos de terceiros. Falam de depoimentos de homens diminutos, desesperados por se libertarem às custas da imolação do grande homem. A mediocridade dos acusadores e das acusações é gritante. O gigantesco vazio de provas e evidências também.

Por isso, os homens pequenos que perseguem Lula tentam desrespeitá-lo. Os homens pequenos tentam inutilmente crescer atacando sua grandeza inatingível. Não se referem a ele como presidente ou ex-presidente. Lembram da sua origem miserável e nordestina, de gente que não deveria ter sequer o direito de sobreviver. Lembram a todo instante que Lula só tem um curso primário e um curso técnico. No Brasil, terra da estupidez diplomada e da burrice ilustrada, isso parece ser um grande pecado.

Tal ataque é, contudo, inútil. Assim como a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude, a lawfare contra Lula é a homenagem que a mediocridade presta à grandeza.

Num grande país, num país mais civilizado, Lula seria reverenciado para sempre. O problema é que o Brasil, com o golpe, se tornou um país menor. Virou o país dos homens pequenos. O país da mediocridade hegemônica.

Um país de anões.

O país de juízes e procuradores partidarizados, que preferem convicções em detrimento de provas. O país dos moralistas sem moral. O país dos paneleiros de barriga cheia. O país dos patos teleguiados pela mídia corrupta e venal. O país que deu um golpe na presidenta honesta para colocar no poder a “turma da sangria”, entalada até o pescoço em denúncias de corrupção.

O país que espuma de ódio contra a suposta corrupção de alguns, mas que tolera pacientemente a corrupção evidente e histórica de seus políticos conservadores preferidos. Um país misógino, racista e que odeia profundamente a ascensão social propiciada pela grandeza de Lula. Um país de quem não hesita em sacrificar a democracia e o mandato popular para fazer valer seus interesses de classe.

Assim, Lula foi substituído pelos aécios, os jucás, os padilhas, os temer. O homem de dimensão histórica foi substituído por homens diminutos, sem nenhuma dimensão política e moral.

O “Jararaca” foi substituído por ratos.

E homens pequenos só conseguem fazer um país pequeno. A grandeza cria, mas a pequenez, a mediocridade, só sabe destruir.

Por isso, a agenda do golpe, dos ratos, é uma agenda de destruição. Estão destruindo os direitos previdenciários e trabalhistas da população, com as infames Reforma da Previdência e a Reforma Trabalhista. Estão destruindo o Estado de Bem Estar criado pela Constituição Cidadã. Estão destruindo a economia nacional com um ajuste suicida, condenado no mundo inteiro, até mesmo pelo FMI. Estão destruindo o futuro do país, vendendo o pré-sal e a própria Petrobras a preços aviltados e à margem da lei, numa negociata descarada que faria corar a antiga diretoria corrupta da empresa. Estão inviabilizando o BNDES, nosso grande banco de investimentos. Estão acabando com os mecanismos de que dispomos para a alavancagem do desenvolvimento. Estão entregando a Base de Alcântara. Querem entregar nossas terras. Querem entregar tudo, até o nosso futuro.

O grande país de Lula está se transformado, de novo, num país pequeno, periférico, quase colonial. O outrora país admirado e cortejado está se tornando um país desprezado. Temer não tem agenda externa e é motivo de piadas pelo mundo afora por sua misoginia e mediocridade. Os ratos nos causam vergonha planetária.

Nunca caímos tão baixo. Dói ver o Brasil nesse estado.

Felizmente, para todos nós, inclusive para os que o odeiam, Lula está vivo. Física e politicamente vivo. Não para de crescer nas pesquisas. Todos sentem saudade do grande Brasil que ele criou.

No dia 14, Lula, o verdadeiro gigante do Brasil, acordou.

Não tem mais volta. Em 2018, o Jararaca vai jantar os ratos.
Posted: 15 Mar 2017 08:06 PM PDT


Por Jeferson Miola

A lista do Janot tem o efeito de uma hecatombe para o governo golpista. A mega-denúncia de corrupção oferecida pelo MP ao STF é aterradora. Ela implica, até este momento de divulgação parcial das informações, personagens-chave do bloco golpista:

- cinco ministros: Aloysio Nunes e Bruno Araújo, do PSDB; Eliseu Padilha e Moreira Franco, do PMDB; e Gilberto Kassab, do PSD;

- os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia/DEM; e do Senado, Eunício de Oliveira/PMDB – primeiro e segundo da linha de sucessão do presidente usurpador;

- o líder do governo no Senado, Romero Jucá, presidente do PMDB e artífice da “solução Michel”, montada para derrubar a Presidente Dilma e “estancar a sangria” da Lava Jato;

- o presidente do PSDB Aécio Neves; espécie de Carlos Lacerda do século 21, maestro da desestabilização política e do colapso econômico para derrubar a Presidente Dilma; e

- outros senadores da base do governo [José Serra, Edison Lobão, Renan Calheiros], além de empresários e operadores da corrupção.

Ainda estão pendentes de publicidade os inúmeros pedidos de abertura de investigações de demais pessoas e políticos implicados, quando então deverão surgir os deputados e novos ministros.

Michel Temer, embora citado 45 vezes numa única delação da Odebrecht, não terá processo aberto, porque a Constituição não autoriza a investigação de presidentes por ilicitudes cometidas antes do exercício do mandato.

Janot incluiu Dilma e Lula na lista – supõe-se que baseado nas convicções dos procuradores de Curitiba, não em provas concretas e contundentes, como as conhecidas da bandalha golpista.

A crise política, moral e econômica, situada em níveis já bastante críticos, será magnificada. O país poderá marchar para a depressão econômica em simultâneo com uma imponderável confusão política.

A eleição geral, neste contexto – para o Congresso e para a Presidência da República – é a única possibilidade de se recompor a legitimidade do sistema político para retirar o país do abismo.

Michel Temer, já bastante debilitado pelos escândalos permanentes, pela recessão recorde, desemprego brutal e derretimento do país, agora oscila entre a agonia e a morte. A continuidade deste governo é um entrave para a superação da crise.

O Brasil precisa, urgentemente, reatar-se com a democracia e restaurar o Estado de Direito. Somente um governo eleito diretamente pelo povo terá legitimidade para dirigir o esforço de reconstrução do país, devastado pelo golpe.

A saída para o Brasil é uma só: fim do governo golpista e eleições diretas e gerais já.

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