sexta-feira, 17 de março de 2017

17/3 - Pragmatismo Político DE 06/3

Pragmatismo Político


Posted: 06 Mar 2017 06:17 PM PST
pastor peru morte homossexuais gays
O pastor Rodolfo González Cruz
Um pastor evangélico no Peru convocou fiéis para o extermínio de homossexuais, afirmando que eles “não são obra de Deus”.
O Ministério Público daquele país afirmou nesta segunda-feira (6) abriu uma investigação pelo crime de incitação ao homicídio. As informações são da Agência AFP e do jornal La República.
A pregação do pastor Rodolfo González Cruz, líder do Movimento Missionário Mundial no Peru, foi gravada na semana passada.
Nela, o pastor pediu aos fiéis que participassem de uma marcha contra a política educativa do governo peruano por considerar que com o ensino da “igualdade de gênero” estimula a promoção da homossexualidade.
“Os homossexuais devem morrer assim como os corruptos e os ateus, porque não são obra de Deus. Se encontrarem duas mulheres fazendo sexo, matem as duas, se encontrarem uma mulher fazendo sexo com um animal, matem ela e matem o animal (…) em nome de Jesus”, convocou González.
Em sua conta do Facebook, o Movimento Missionário Mundial publicou nesta segunda-feira um comunicado onde o pastor assegura que “as frases que são escutadas na gravação de parte de minha pregação são no contexto dos mandamentos do Antigo Testamento, onde Deus mencionava as penas por imoralidade sexual (…). As boas novas para todo ser humano é que já não vivemos sob as leis do Antigo Testamento”.
González disse ainda que se “reafirma no respeito absoluto à vida de todo ser humano”.
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Posted: 06 Mar 2017 12:00 PM PST
reforma ensino médio educação pública
*Lucas Coradini, Pragmatismo Político
A Medida Provisória que reformula o ensino médio, agora Lei 13.415/2017, tem gerado inúmeras desconfianças e um debate controverso, sofrendo críticas por parte dos profissionais da educação, especialistas da área, e principalmente pelos estudantes de todo o país, o que tem levado o governo a investir pesadamente em publicidade para o convencimento acerca do tema.
Não restam dúvidas, contudo, sobre a necessidade de aperfeiçoar o ensino médio. Escolas sucateadas, professores mal remunerados, ausência de docentes com formação específica em inúmeras áreas são alguns dos predicados que remetem aos baixos índices educacionais brasileiros. A baixa qualidade do ensino oferecido em grande parte das escolas públicas tem alijado os jovens de um futuro promissor, tornando-os incapazes de uma inserção produtiva no mercado de trabalho tanto quanto impossibilitado o prosseguimento dos estudos em nível superior. É a escola do “nem-nem”, que não prepara nem para o trabalho, nem para a vida. Não raras vezes, em meio a tamanha precariedade, as escolas têm se resumido a um “depósito de jovens”, capazes de garantir por algumas horas a permanência dos estudantes enquanto seus pais trabalham, num ambiente em que é impossível desenvolver qualquer coisa que se aproxime do que entendemos por educação.
Nesse contexto, há urgência em definir medidas que reconduzam a educação pública a um patamar aceitável, com caráter verdadeiramente emancipatório, capacidade para ser um dos pilares de desenvolvimento do país, e de forma acessível a todos, conforme preconiza a nossa Constituição. Por que então as críticas à atual iniciativa em reformular esse modelo, que tem se mostrado tão fracassado? Para responder a essa questão, traz-se à discussão alguns pontos da reforma:
A primeira e mais evidente fragilidade do novo ensino médio diz respeito ao currículo dividido em duas partes: uma parte comum de 1800 horas e outra dividida em cinco itinerários, em que o estudante deverá cursar aquilo que a escola ofertar. E é importante frisar que a maioria das escolas não possui a mínima condição de proporcionar os cinco itinerários formativos, o que torna a possibilidade – ou liberdade, como diz a propaganda do governo – dos estudantes escolherem seus itinerários uma grande falácia. Menor ainda é a capacidade de ofertar o itinerário formativo do ensino técnico, que requer estrutura específica de laboratórios, equipamentos e materiais didáticos, uso de tecnologias, além de professores especializados nas diferentes áreas técnicas. A reforma começa mal ao vender aquilo que não é capaz de entregar. Para viabilizar esse modelo seria necessário um massivo investimento na estruturação das escolas de todo o país e uma ampla contratação de professores, uma realidade distante com a atual perspectiva de um orçamento congelado por vinte anos, como estabelecido recentemente através emenda constitucional.
Para dar conta dessa lacuna, o que se propõe para o itinerário de formação técnica é a oferta por meio de parceria com o setor privado de ensino, servindo-se do recurso público do FUNDEB. Aqui reside outro ponto de polêmica: pretende-se retirar recurso do ensino fundamental, da educação infantil e das creches – igualmente precarizadas – para “comprar” vagas no setor privado, muito possivelmente nas instituições do sistema “S” (SENAC, SEBRAE, SENAR, SENAI, SENAT, etc.). Além disso, cai a exigência de professor formado na área, flexibilizando a possibilidade de lecionar àqueles que atestarem “notório saber” em qualquer habilitação técnica. É a precarização da atividade docente em níveis inimagináveis.
Somente esses elementos seriam suficientes para colocar sérias dúvidas na capacidade da reforma produzir alguma melhora em nosso sistema de ensino. Mas há pontos ainda mais controversos.
Nessa nova modelagem composta por um ciclo comum e itinerários formativos, é prevista ainda a possibilidade de concessão de certificados intermediários de qualificação para o trabalho, módulos com terminalidade específica. Em outras palavras, o estudante que cumprir um “módulo” – o ciclo comum, por exemplo – poderá obter um certificado parcial. Com os atuais índices de evasão escolar no ensino médio (maior do que em qualquer outro nível), em um país em que trabalhar é um imperativo para grande parte dos jovens, a certificação parcial é a carta branca para a interrupção precoce dos projetos educacionais em desenvolvimento. Especialmente daqueles pertencentes às camadas mais desfavorecidas. O que subjaz essa proposta é a diminuição do papel do Estado em relação à oferta de uma educação global, capaz de preparar para o trabalho ou para a universidade, aumentando as fileiras de trabalhadores semiespecializados. Percebe-se aqui certa natureza liberal e mercadológica da reforma, retomando o sentido da educação para a classe trabalhadora subalternizada no processo produtivo contemporâneo, reservando-lhe um lugar muito específico na atual divisão social do trabalho.
Ainda sobre as mudanças no currículo, as únicas disciplinas obrigatórias nos três anos do ensino médio serão português, matemática e inglês. Todas as outras, geografia, história, sociologia, filosofia, artes, educação física, física e química, por mais estranho que possa parecer, não serão obrigatórias, podendo ser abordadas de forma “diluída” nos itinerários formativos. Como bem descreveu Mônica Ribeiro, do Movimento Nacional em Defesa do Ensino Médio, apropriando-se do conceito do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, estamos diante do ensino médio “líquido”. Um retrocesso que desconsidera o processo histórico que levou à inclusão destes componentes nos currículos e a importância que reside em cada um. Ao não serem obrigatórios, assumem um caráter acessório, tornando o currículo escolar mais pobre, frágil e incompleto, definitivamente alicerçado na lógica da formação aligeirada e de caráter instrumental.
Resolve-se o problema da falta de professores de determinadas disciplinas pela supressão da obrigatoriedade destes componentes, diluindo-os nos itinerários formativos definidos em grandes áreas do conhecimento. Não que o rompimento com a lógica da segmentação do currículo disciplinar, dividido em “caixinhas” incomunicáveis, seja equivocada. Mas aqui vê-se um risco iminente de atenuar a ausência de professores com formação específica por docentes multifuncionais, capazes de abraçar uma “área” inteira. A ideia de trabalhar o currículo em áreas do conhecimento é interessante, e vai ao encontro do que o Exame Nacional do Ensino Médio tem exigido em termos de relacionamento de conteúdos numa abordagem transdisciplinar, mas dependendo da forma como esse currículo for operacionalizado nas escolas – tipicamente com quadros incompletos – pode representar o agravamento do atual cenário de ausências.
Tratam-se, como vemos, de mudanças profundas na estrutura do ensino médio tal como o conhecemos. Apesar da urgência na necessidade de traçar medidas que o qualifiquem, são mudanças que requerem um amplo debate com aqueles que há décadas têm se dedicado sobre o tema, o que a força da medida provisória suprime por completo. É preciso considerar o acúmulo de conhecimento empreendido até aqui e, mais do que isso, lançar um olhar sobre as diferentes experiências educacionais desenvolvidas ao longo da história. Nesse sentido, não há como não mencionar o modelo de ensino médio integrado à formação técnica que os Institutos Federais têm realizado em todo o país, desde 2008, reconhecido pelos melhores resultados em diferentes indicadores educacionais, à frente até mesmo das escolas privadas. Trata-se de um modelo exitoso de ensino médio, público, gratuito, desenvolvido pela rede federal de ensino, mas curiosamente ignorado na proposta que por hora se apresenta.
Segundo a última avaliação do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), se fosse um país, a Rede Federal estaria entre os primeiros colocados nas áreas analisadas. Em ciências, a Rede Federal recebeu 517 pontos, bem acima da média do Brasil – que soma as notas obtidas pelos estudantes das redes Federal, Estadual e Particular – que foi de 401. Se fosse um país, a Rede Federal teria ficado na 11.ª colocação, à frente de países como Coreia do Sul, Estados Unidos e Alemanha. Na área de linguagens, a pontuação da Rede Federal foi de 528 pontos, suficiente para deixá-la na segunda colocação entre os 70 países e territórios analisados, ficando atrás apenas de Singapura. Em matemática, a nota da Rede foi 488, bem acima da média geral do Brasil, que foi 377 pontos. Qual o segredo destes expressivos resultados da rede federal? Professores valorizados com planos de carreira equivalentes ao das universidades, estrutura física compatível, atividades de pesquisa e extensão associadas ao ensino e, principalmente, uma proposta pedagógica que dá um outro caráter para o ensino médio aliado com formação técnica: o princípio da integração.
O ensino médio dos Institutos Federais do ponto de vista filosófico encontra-se em posição diametralmente oposta ao novo ensino médio, ao encarar o trabalhador em suas múltiplas dimensões e o trabalho como um princípio educativo. E entender o trabalho como princípio educativo significa pensar o conhecimento à luz dos processos produtivos modernos e contemporâneos, tornado o saber algo apropriado por aquele que aprende. Por uma circunstância social e histórica brasileira, entende-se que o ensino técnico destina-se fundamentalmente à classe trabalhadora, que é quem em regra busca uma educação profissional, mas o currículo integrado não cabe nesses limites. Isto porque a integração não é uma questão didático curricular, mas antes de tudo uma questão epistemológica, instrumentalizando os seus egressos tanto para o mercado de trabalho quanto para o aprofundamento dos estudos, aliando ensino propedêutico e formação técnica com os princípios da emancipação, da formação crítica e reflexiva, da formação humanista, promovendo indivíduos capazes de transformar a si e à sociedade, e não apenas para alimentar uma demanda do mercado.
Isto explica também os melhores resultados dos Institutos Federais no Exame Nacional do Ensino Médio e vestibulares em geral. No último ranking do ENEM que incluiu as escolas técnicas federais com ensino médio integrado, realizado em 2015 (em 2016 estas escolas foram misteriosamente suprimidas do ranking), o melhor desempenho foi do Instituto Federal do Espírito Santo, à frente de instituições privadas e das escolas militares, que tradicionalmente ocupavam as melhores posições. Isto, em um cenário de capilaridade e interiorização dos campi pelos diferentes rincões do país, do Alegrete, no pampa gaúcho, à Coari, no interior do Amazonas, passando por periferias e zonas rurais, e com um sistema de ingresso caracteristicamente inclusivo, com reserva de vagas por cotas étnico-raciais e cotas para egressos de escolas públicas, o que não faz reunir propriamente a “crème de la crème” dos estudantes brasileiros. E, ao alçar com sucesso os seus egressos ao nível superior, os Institutos Federais não deixam de lado o seu papel de formar técnicos para o mercado, mas desenvolvem o princípio da verticalidade, contribuindo também para a elevação da escolaridade – o que é igualmente importante e necessário – além de propiciar a inúmeras famílias das camadas menos favorecidas a, talvez única, possibilidade de mobilidade social.
A pergunta que deveríamos nos fazer então é: por que em vez de replicar o modelo exitoso de ensino médio que já possuímos, optaríamos por um modelo que desde já apresenta-se tão problemático e ainda implica em deslocamento dos recursos públicos para o setor privado? A quem efetivamente serve essa reforma?
Ao que parece, a opção entre o modelo de ensino médio integrado, desenvolvido pelos Institutos Federais, e o modelo do novo ensino médio, segmentado em itinerários formativos, certificações parciais, e professores sem formação é, antes, a manifestação de um modelo de Estado em maior ou menor grau comprometido com a qualidade da educação pública e a elevação da inserção produtiva da classe trabalhadora. É, em última análise, uma opção entre a educação como motor do desenvolvimento, sintonizada com os arranjos produtivos locais e comprometida com princípios pedagógicos emancipatórios, ou uma educação prescritiva, instrumental, voltada para demandas imediatas do mercado e nem sempre associados ao desenvolvimento humano, econômico ou social que ensejamos.
*Lucas Coradini é mestre em Sociologia, doutor em Ciência Política, e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul e colaborou para Pragmatismo Político.
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Posted: 06 Mar 2017 11:53 AM PST
mundo precisa quarta onda comunista esquerda
Cartaz de propaganda chinesa sobre modernização agrícola. Segundo Priestland a Revolução Chinesa é parte da terceira onda do comunismo. (Imagem: Zhang Daxin, Mamãe vem com um trator (1960))
David Priestland | Tradução: Antonio Martins, Outras Palavras
Ura! Ura! Ura!” Lembro-me vivamente da parede de som que se formou quando soldados severos, em uniformes cinzentos responderam ao brado de seu comandante: “Saudações no 70º aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro!
Estudante de intercâmbio em Moscou, em 1987, eu havia viajado à Rua Gorky naquela manhã trepidante de novembro, para assistir à parada militar a caminho da Praça Vermelha. Uma fileira de autoridades soviéticas e estrangeiras observava os jovens soldados prestar homenagem ao Mausoléu de Lênin. A cena impressionante deveria servir para demonstrar tanto a energia revolucionária duradoura do comunismo quanto seu alcance global.
O líder soviético, Mikhail Gorbachev, falou sobre um movimento revigorado pelos valores de 1917 a uma audiência de líderes de esquerda que incluía Oliver Tambo, do Congresso Nacional Africano, e Yasser Arafat, da Organização pela Libertação da Palestina. Cartazes ostentavam a proclamação do poeta Vladimir Mayakovsky: “Lênin viveu, Lênin vive, Lênin viverá para sempre!
As palavras soavam ocas, pois os problemas econômicos da União Soviética eram evidentes para todos, especialmente para meus amigos estudantes, que dependiam de universidades mal abastecidas para comer. Ainda assim, o sistema ainda parecia tão sólido quando o mármore do mausoléu. Como a maioria dos observadores, eu não teria acreditado que em dois anos o comunismo estaria desmoronando, e em quatro a própria União Soviética teria ruído.
Logo, a visão popular sobre 1917 mudou inteiramente. A desregulação dos mercados parecia natural e inevitável. O comunismo parecia ter sido sempre condenado à “lata de lixo da História” de Trotsky. Se houvesse desafios à ordem liberal globalizada, eles viriam do islamismo ou do capitalismo de Estado chinês, não mais de um marxismo desacreditado.
Agora, quando passaram-se cem anos da Revolução de Fevereiro – que precedeu à tomada do poder pelos bolcheviques de Lênin, em novembro – a História mudou de novo. A China e a Rússia exibem símbolos de sua herança comunista para fortalecer um nacionalismo antiliberal. No Ocidente, a confiança no capitalismo de livre mercado não se recuperou, desde o crash financeiro de 2008. Novas forças de extrema direita e de esquerda ativista disputam popularidade. A força inesperada do socialista independente Bernie Sanders, nos EUA; e as vitórias eleitorais do novo partido Podemos, liderado por um ex comunista, na Espanha, são sinais de um ressurgimento de base da esquerda. Na Grã-Bretanha, o “Manifesto Comunista”, obra clássica escrita por Marx e Engels em 1848, foi um best seller em 2015.
Terei testemunhado, naquele dia em Moscou, o último hurra do comunismo? Ou um comunismo remodelado para o século 21 estará lutando para nascer?
Há sinais de uma resposta nesta epopeia complexa e centenária, um arco narrativo cheio de falsos começos, quase mortes e reviveres imprevistos.
Observe a vida de Semyon Kanatchikov. Filho de um ex-servo, ele trocou a pobreza rural por um emprego de operário e a excitação da modernidade. Entusiasmado e sociável, Kanatchikov lutou para se aperfeiçoar tendo como guia “O Autodidata de Dança e das Boas Maneiras”. Em Moscou, uniu-se a um círculo de discussões socialista e mais tarde ao Partido Bolchevique.
A experiência de Kanatchikov tornou-o receptivo a ideias revolucionárias: uma atenção aguda ao abismo entre ricos e pobres, a sensação de que uma velha ordem bloqueava a emergência do novo e ódio ao poder arbitrário. Os comunistas ofereciam soluções claras e convincentes. Ao contrário dos liberais, defendiam a igualdade econômica; mas, diferente dos anarquistas, queriam a indústria moderna e o planejamento estatal; e, em oposição aos socialistas moderados, argumentavam que a mudança teria de vir por meio da luta de classes revolucionária.
Na prática, foi difícil combinar estes ideais. Um Estado muito poderoso tendeu a sufocar o crescimento, ao mesmo tempo em que criou novas elites. A violência da revolução trouxe consigo periódicas caças aos “inimigos”. Também Kanatchkov tornou-se vítima. Embora fosse levado a postos de prestígio após a revolução, seus laços com Trotsky, o arqui-rival de Stalin, provocaram seu rebaixamento, em 1926.
Àquela altura, as perspectivas do comunismo eram sombrias. As primeiras chamas da revolução na Europa Central, logo após a I Guerra Mundial, estavam extintas. A União Soviética viu-se isolada, e os Partidos Comunistas em outras partes do mundo eram pequenos e conflagrados. A modernidade forjada dos EUA dos flamejantes anos 1920 era despudoradamente consumista, não comunista.
Mas as fraquezas do laissez-faire logo vieram em socorro do comunismo. O crash de Wall Street em 1929 e a Depressão que se seguiu fizeram das ideias socialistas de igualdade e planejamento estatal uma alternativa poderosa à mão invisível do mercado. E a militância comunista emergiu como uma das forças preparadas a resistir à ameaça do fascismo.
Mesmo o terreno árido dos Estados Unidos, não congênito ao coletivismo e ao socialismo sem Deus, tornou-se fértil. Quando Moscou trocou, em 1935, sua doutrina sectária por uma política de apoio às “frentes populares”, os comunistas norte-americanos somaram-se a esquerdistas moderados contra o fascismo. Al Richmond, um jornalista novaiorquino no Daily Worker lembrava-se do otimismo renovado quando ele e seus colegas passavam noites num restaurante italiano fazendo brindes “à vida, àquela era, a seus presságios e esperanças, certos de nossas respostas ao ritmo deste tempo, porque nele sentíamos nossa pulsação”.
Tal otimismo, era partilhado por um grupo seleto. Vítima dos expurgos de Stalin, Semyon Kanatchikov morreu no Gulag, em 1940.
Muitos aceitavam esquecer do terror stalinista para preservar a unidade anti-fascista. Mas a segunda ascensão do comunismo no final dos anos 1930 e início dos 40 não sobreviveu à derrota do fascismo. Quando a Guerra Fria intensificou-se, a identificação do comunismo com o império soviético comprometeu sua tentativa de apresentar-se como libertador. Na Europa Ocidental, um capitalismo reformado e regulado, que os EUA incentivavam, ofereceu níveis de vida mais altos e o Estado do Bem-estar Social. As economias de comando, que faziam sentido no período de guerra, estavam menos aptas para a paz.
Mas se o comunismo se esvaía no Norte global, no Sul ele tomava corpo. Lá, as promessas dos comunistas de modernização rápida, liderada pelo Estado, incendiaram a imaginação de muitos nacionalistas anticoloniais. Aqui, ergueu-se uma terceira onda vermelha, que irrompeu na Ásia Oriental nos anos 1940 e no Sul pós-colonial a partir do final dos 60.
Para Geng Chansuo, um chinês que visitou uma fazenda-modelo coletiva na Ucrânia, em 1952 – três anos depois que as guerrilhas comunistas entraram em Beijing –, o legado de 1917 continuava potente. Sóbrio líder camponês de Wugong, um vilarejo cerca de 200 km. ao sul de Beijing, ele foi transformado pela viagem. Ao voltar, tirou a barba e o bigode, vestiu roupas ocidentais e começou a pregar em favor da coletivização agrícola e do milagroso trator.
A China revolucionária fortaleceu a determinação de Washington em conter o comunismo. Mas enquanto os EUA travavam sua desastrosa guerra no Vietnã, uma nova geração de nacionalistas marxistas emergia no Sul, atacando o “neo-imperialismo” que, acreditavam, havia sido tolerado por seus antecessores, socialistas moderados. A Conferência Tricontinental de socialistas africanos, latinoamericanos e asiáticos, patrocinada por Cuba e realizada em 1966, abriu uma nova série de revoluções. Por volta de 1980, os Estados marxistas-leninistas estendiam-se do Afeganistão a Angola, ao Yêmen do Sul e à Somália.
O Ocidente também assistiu a um revival marxista nos 60, mas seus estudantes radicais tinham, ao fim, mais compromisso com autonomia individual, democracia na vida quotidiana e cosmopolitismo do que com disciplina leninista, luta de classes e poder de Estado. A trajetória do estudante alemão radical Joschka Fischer é um exemplo expressivo. Membro de um grupo denominado Luta Revolucionária, que tentou inspirar um levante comunista entre trabalhadores da indústria automobilística em 1971, ele tornou-se mais tarde líder do Partido Verde alemão.
A emergência, a partir do final dos anos 1970, de uma ordem americana dominada pelos mercados globais, seguida pela queda do comunismo soviético ao apagar dos 80, causou uma crise generalizada da esquerda radical. Fischer, como muitos outros estudantes dos 60, adaptou-se ao novo mundo. Como ministro do Exterior da Alemanha, ele apoiou os bombardeios dos EUA em Kosovo (contra as forças de Slobodan Milosevic, antigo líder comunista sérvio), e defendeu os cortes no Estado de Bem-estar Social da Alemanha, em 2003.
No Sul, o FMI forçou reformas de mercado em países pós-comunistas endividados, e algumas das antigas elites comunistas fizeram uma conversão ardente ao neoliberalismo. Resta agora só um punhado de Estados denomidos comunistas: Coreia do Norte e Cuba, além de China, Vietnã e Laos, mais capitalistas.
Hoje, mais de um quarto de século após o colapso da União Soviética, seria possível uma quarta encarnação do comunismo?
Um grande obstáculo é a divisão pós-60 entre uma velha esquerda que prioriza a igualdade econômica e os herdeiros de Fischer, que ostentam valores cosmopolitas, políticas de gênero e multiculturalismo. Além disso, defender os interesses dos exluídos, em escala global, parece uma tarefa quase impossível. O crash de 2008 apenas intensificou os dilemas da esquerda, enquanto criou, para nacionaistas radicais como Donald Trump e Marine Le Pen, uma oportunidade de explorar a ira diante das desigualdades econômicas do Norte global.
Estamos apenas no início de um período de grandes mudanças econômicas e agitações sociais. À medida em que um tecno-capitalismo altamente desigual for incapaz de oferecer empregos decentes, os jovens poderão adotar uma agenda econômica mais radical. Uma nova esquerda poderia ser capaz de unir estes hoje derrotados — estejam na economia do material ou do imaterial – em favor de uma nova ordem econômica. Já surgem reivindicações de um Estado mais redistributivo. Ideias como a renda universal da cidadania, que a Holanda e Finlândia estão experimentando, aproximam-se, na concepção, à visão de Marx sobre a aptidão do comunismo para suprir os quereres de todos – “de cada um segundo sua capacidade para cada um segundo sua necessidade”.
Um longo caminho nos separa da Praça Vermelha de Moscou em 1987 – e ainda mais do Palácio de Inverno de Petrogrado em 1917. Não haverá volta ao comunismo dos planos quinquenais e dos gulags. Mas se há algo que esta história turbulenta ensina é que os “últimos hurras” podem ser tão ilusórios quando o “fim da ideologia” previsto nos anos 1950 ou o “fim da História” de Fukuyama, em 1989.
Lênin já não vive e o velho comunismo pode estar morto, mas o senso de injustiça que os animou está vivíssimo…
*Texto publicado originalmente no “New York Times”, que dedica seção especial aos cem anos da Revolução Russa.
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Posted: 06 Mar 2017 11:40 AM PST
cervejas mais consumidas brasil milho transgênico
Cida de Oliveira, RBA
Bebida alcoólica mais consumida pelos brasileiros, a cerveja pode conter em sua formulação muito mais do que água, cevada e lúpulo. As letras miúdas no rótulo das garrafas ou impressas na própria lata, em cores metálicas, que dificultam a leitura, dão algumas pistas: “cereais não maltados” ou “malteados“. O consumidor comum fica sem saber que ingredientes exatamente são afinal. Especialistas em nutrição, entretanto, não têm dúvidas. Em geral é o milho, o mais barato dos grãos, o escolhido pelos fabricantes para compor, com os demais ingredientes, uma bebida que pode ser vendida mais em conta para que não tenham de abrir mão da elevada margem de lucro.
Como a legislação não exige a especificação de cada ingrediente que constitui a cerveja, as empresas utilizam o termo genérico ‘cereais não maltados’. Ao não colocar a denominação específica, deixam dúvidas quanto à composição. Portanto, é possível partir do princípio de que o milho está sendo utilizado sem que haja indicação da sua presença“, diz a nutricionista Rayza Dal Molin Cortese, pós-graduanda em Nutrição pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Um estudo do Laboratório de Ecologia Isotópica do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), da Universidade de São Paulo, divulgado em 2013, respalda a suposição de Rayza. Ao analisar 77 marcas, das quais 49 produzidas no Brasil e 28 importadas de países da Europa, América do Sul e do Norte e da China, os pesquisadores do Cena/USP concluíram que apenas 21 delas podem exibir o selo “puro malte” por utilizar somente grãos de cevada.

Puro malte?

Entre as nacionais, foi detectado milho na composição de 16 marcas, em quantidades equivalentes a 50% do mix de cereais adicionados à cevada. Essa proporção, aliás, contraria a legislação brasileira, que limita a quantidade de milho, arroz, trigo, centeio, aveia e sorgo a 45% do total da cevada utilizada. E justificaria a troca de nome dessas bebidas prevista em lei: cerveja de milho, cerveja de arroz etc., acrescentando-se o nome do cereal com maior presença na formulação.
Mas seria essa opção adotada por um mercado gigante como o cervejeiro brasileiro, que movimenta todo ano algo em torno de R$ 74 bilhões, cerca de 1,6% do PIB, conforme pesquisa divulgada em março de 2016 pela Fundação Getúlio Vargas?
Dar nome aos cereais – especialmente se for milho – pode não ser considerado “bom negócio” para o milionário grupo de produtores da bebida alcoólica mais vendida no Brasil – cerca de 14 bilhões de litros por ano. Mas faz toda a diferença para os brasileiros que consomem, per capita, todo ano, o correspondente a 62 litros de cerveja.
Primeiro porque mais de 80% do milho cultivado no Brasil, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, está em lavouras transgênicas, semeadas com grãos modificados geneticamente. Com o argumento de aumentar a produtividade, a indústria das sementes alterou o DNA de plantas como o milho para supostamente aumentar a produtividade.
Na realidade, essa biotecnologia as transformou para duas coisas: resistir a quantidades cada vez maiores de agrotóxicos utilizados para matar plantas e indesejáveis à monocultura, que poderiam vir a comprometer essa propalada produtividade; ou para que produzam toxinas contra ataque de insetos que afetam a saúde humana.

Incertezas

O problema é que, como essas plantas úteis para o equilíbrio ambiental e indesejáveis para a produção de larga escala vão adquirindo resistência contra alguns princípios ativos de agrotóxicos pulverizados, passam a ser aplicados outros venenos, mais potentes e em quantidades maiores.
As consequências à saúde humana, animal e ambiental devido a tamanha alteração genética em grãos que serão usados direta ou indiretamente na produção de alimentos ainda não foram dimensionadas o suficiente pela ciência. Dos poucos estudos, os resultados são preocupantes, para não dizer alarmantes.
O biólogo, pesquisador aposentado da Embrapa e ex-membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) José Maria Gusman Ferraz é coautor do livro Lavouras Transgênicas – Riscos e Incertezas. A obra, editada em 2015 pelo Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural do então Ministério do Desenvolvimento Agrário, disponível para download, acaba de ganhar versão em inglês. Os autores analisam mais de 750 estudos desprezados pelas agências reguladoras de organismos geneticamente modificados em todo o mundo.
Ele destaca uma pesquisa divulgada em 2012 por pesquisadores franceses que abalou a opinião pública e o mercado de transgênicos em todo o mundo. Chefiados por Gilles-Eric Séralini, da Universidade de Caen Normadie, na França, os cientistas constataram danos ao fígado e rins e distúrbios hormonais em ratos alimentados com o milho transgênico NK603, da Monsanto. Além desses efeitos graves, foi detectado o desenvolvimento de inúmeros tipos de tumores.
O impacto da grande repercussão fez a pesquisa ser questionada e retirada da revista que a publicou originalmente (Food and Chemical Toxicology). Não só: a publicação teve seu corpo editorial reformulado, com a entrada de um nome forte indicado pela Monsanto. Os mesmos resultados, porém, foram publicados em detalhes depois na Environmental Sciences Europe, mostrando todos os danos causados.
Na época, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e outras entidades ambientalistas, de saúde e em defesa da agricultura orgânica, entre outras, pediram a suspensão da liberação comercial dessa variedade do milho.
Mesmo com este estudo indicando claramente o risco, a CTNBio aprovou sua liberação comercial no país, em um claro desrespeito ao princípio da precaução, que preconiza que se existir possibilidade de risco, a empresa proponente tem de provar que o risco não existe“, afirma Gusman. “Um grupo minoritário dentro da comissão solicitou que, se existiam dúvidas, o estudo deveria ser refeito antes da sua liberação para comercialização. Mas como sempre, foi voto vencido pela maioria – ligada ao agronegócio –, que desprezou esta e outras evidências de que havia sim risco à saúde na liberação comercial.”
Além de professor convidado da Unicamp, onde conduz pesquisas em agroecologia, Gusman se dedica à campanha contra o mosquito transgênico, desenvolvido em laboratório para combater o Aedes aegypti, já solto no interior de São Paulo – outro caso envolto em irregularidades no processo de liberação, com problemas e dúvidas nas pesquisas, o que torna as populações lcoais cobaias de interesses de transnacionais.
Outro estudo, segundo ele, também acende o alerta contra os transgênicos. Conduzido na Faculdade de Medicina de Tanta, no Egito, constatou que outra variedade de milho da Monsanto, o MON810, alterou profundamente as estruturas que compõem o intestino das cobaias. Surgiram lesões proliferativas e hemorrágicas nas mucosas intestinais, responsáveis pela absorção de nutrientes necessários para o funcionamento do organismo. O milho correspondia a apenas 30% da dieta dos ratos.

Mais venenos

Como lavouras transgênicas são sinônimo do uso de altas doses de agrotóxicos, os especialistas alertam para os perigos dos agroquímicos à saúde e à vida dos agricultores e de quem vive perto das áreas pulverizadas, para aqueles que trabalham nas indústrias de venenos, e para quem ingere alimentos e água carregados de resíduos desses agroquímicos.
Por isso essas substâncias são problema de saúde pública, embora as autoridades de saúde pouco ou nada façam para reduzir, ainda que gradativamente, o uso de produtos tão nocivos. Esses venenos já foram relacionados a diversas doenças, entre elas câncer de vários tipos; alterações endocrinológicas e reprodutivas, como quadros de menstruação, menopausa e andropausa precoce, além de alterações no sistema reprodutor; e até neurológicas, facilitando o desenvolvimento do Mal de Parkinson, por exemplo, conforme pesquisas recentes.
Também podem provocar alterações na gestação que levam ao nascimento de bebês com malformações; distúrbios emocionais incapacitantes, como a depressão; quadros de intoxicação agudas, que conforme o veneno pode matar por asfixia, ou mesmo crônicas, devido a exposições frequentes ou ao acúmulo de resíduos no organismo. Tudo isso num quadro em que algumas dessas doenças podem conviver sem que suas causas sejam associadas aos venenos agroquímicos. O Ministério da Saúde estima que para cada caso notificado, com nexo-causal, há 50 outros totalmente ignorados.

Consumidor desinformado

Para especialistas e ativistas contra os transgênicos e seus perigos, todos os alimentos – bebidas inclusive – com quaisquer vestígios de transgênicos, deveriam receber o selo com a letra T em preto dentro de um triângulo amarelo, símbolo internacional da presença de organismos geneticamente modificados.
Mas a legislação, que no Brasil é criada por setores alinhados com o agronegócio que controlam o Congresso Nacional e setores do governo federal, não vai nessa direção. A nutricionista Rayza Cortese, que pesquisa organismos geneticamente modificados e a rotulagem de alimentos comercializados no Brasil, afirma que a legislação para o tema, estabelecida pelo decreto 4.680/2003, estabelece que “todos os alimentos (e as bebidas alcoólicas são consideradas alimentos) e ingredientes alimentares que contenham ou sejam produzidos a partir de OGMs, com presença acima de 1% do produto, devem ser rotulados“. No entanto, o símbolo não aparece em nenhuma embalagem de cervejas que contenham milho.
E isso apesar de o Idec ter obtido, no Supremo Tribunal Federal (STF), a garantia de rotulagem com o triângulo amarelo em alimentos com ingredientes geneticamente modificados, independentemente da quantidade. Em maio do ano passado, o STF voltou a garantir a indicação no rótulo de alimentos que utilizam ingredientes geneticamente modificados, independentemente da quantidade presente.
A exigência estava suspensa desde 2012, por uma decisão provisória do ministro Ricardo Lewandovski, que atendeu ao pedido da União e da Associação Brasileira de Indústria de Alimentos (Abia).
A decisão é importante porque enfraquece o projeto de lei que tramita no Congresso para derrubar a obrigatoriedade da informação no rótulo. Sem essa rotulagem, o consumidor tem negado seu direito à informação para decidir na hora da compra, conforme prevê o Código de Defesa do Consumidor“, diz a pesquisadora em alimentos do Idec, Ana Paula Bortoletto.

Palavra da indústria

A Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), que representa a Ambev, a Brasil Kirin, o Grupo Petrópolis e a Heineken – os quatro maiores fabricantes – afirma, em nota à reportagem da RBA, reproduzida em sua íntegra a seguir que “a indústria brasileira da cerveja é reconhecida pela alta qualidade de seus produtos e receitas que conquistaram o gosto do consumidor brasileiro – o que faz o país ser um dos maiores mercados de cerveja do mundo. O respeito ao consumidor é um dos principais valores do setor cervejeiro. É por isso, que aprimoramos sempre os processos, usamos os melhores ingredientes, adotamos as técnicas mais avançadas e inovamos sempre“.
As receitas, obviamente, variam de acordo com a marca e o tipo da cerveja. Os detalhes dessas formulações não são abertos ao consumidor, já que são informações confidenciais e que precisam ser protegidas para preservar o ambiente concorrencial do setor. Cada ingrediente é usado para trazer características ao produto. A utilização de cereais não-malteados na fabricação de cervejas não é uma exclusividade do Brasil. Isso acontece em diversos países. Um dos principais objetivos é conferir características como leveza e refrescância“.
Vale lembrar que as legislações brasileira e do Mercosul permitem que sejam usados cereais não-malteados na produção de cervejas, como milho, aveia, sorgo, arroz etc. Contudo, esse uso não é indiscriminado. A legislação estabelece a participação máxima de 45% destes insumos no chamado extrato primitivo (a parte sólida da cerveja). O setor cervejeiro no Brasil cumpre rigorosamente essa norma. Os padrões de qualidade e segurança da cerveja brasileira são regulados e fiscalizados pelo Ministério da Agricultura, Anvisa, entre outros órgãos“.
As discussões em torno dos organismos geneticamente modificados fazem parte deste grande esforço. Por isso, as cervejarias acompanham de perto a questão e seguem todas as normais legais sobre o uso e rotulagem desses insumos. As cervejarias associadas à Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil)- da qual participam Ambev, Brasil Kirin, Grupo Petrópolis e Heineken – realizaram testes de detecção de DNA transgênico que comprovam a ausência de organismos geneticamente modificados em seus produtos. Além disso, nossos produtos atendem às recomendações nacionais e internacionais mais rígidas de segurança, do início ao fim dos processos produtivos, não representando, portanto, qualquer risco à saúde do consumidor.”
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Posted: 06 Mar 2017 11:28 AM PST
Cesar Antunes Junior mata filhos
Cesar Antunes Junior ao lado dos filhos que ele próprio matou. Assassino deixou bilhete ironizando a ex-esposa
Duas crianças foram assassinadas pelo próprio pai neste domingo (5) em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio.
Cesar Antunes Junior, 48, cortou o pescoço dos filhos, Maria Nina Magalhães Castro Antunes, de 10 anos, e Bernardo Magalhães Castro Antunes, de 6 anos (imagens acima), no apartamento onde morava. Em seguida, cometeu suicídio: atirou-se do 5º andar do prédio.
A polícia encontrou uma carta deixada por Cesar. Na mensagem, direcionada à mãe das crianças, Andreia Magalhães Castro, 46, ele debocha. “Cadê a poderosa?”.
Na continuação do bilhete, ele dá a entender que brigava pela guarda dos filhos com a ex-mulher. “Não vai ficar com a guarda de nenhum dos dois e também não vai me colocar na cadeia kkkk”, escreveu.
De acordo com o delegado responsável pela investigação, André Timoni, o crime foi motivado por uma crise de ciúme após o fim da relação — eles se separaram recentemente.
Segundo o delegado, Cesar teria perdido o controle ao ver as fotos da comemoração do aniversário da ex-mulher no último sábado.

Desabafo

Andreia Magalhães publicou nas redes sociais um post-desabafo após a morte dos seus filhos. Leia abaixo:
Amores eternos da minha vida! Brutalmente retirados de meus braços por um louco, que era o pai a que eles amavam incondicionalmente e confiavam cegamente! Orem pelas almas dos seus filhos queridos, pois só me restou isso orar por eles
mãe filhos facadas morte pai
Imagem: Reprodução de post publicado por Andreia no Facebook
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Posted: 06 Mar 2017 11:27 AM PST
le monde brasil reino da impunidade michel temer
A edição da última terça-feira (28) do jornal francês Le Monde chamou a atenção para o cenário político brasileiro com o título “Brasil, o reinado da impunidade“. Segundo a matéria da repórter Claire Gatinois, o presidente Michel Temer, ao ver a operação Lava Jato mais próxima, “parece estar tentado se proteger de uma possível acusação“.
O texto também diz que a tática não está passando despercebida e, por mais que Temer tente dizer que o governo não vai proteger ninguém, as ações dele vão no sentido contrário. “Muitíssimo impopular, Temer não para de dar sinais ambíguos“, analisa a repórter.
Ao falar sobre o tamanho da impunidade que “reina no Brasil“, Claire explica aos leitores franceses a existência da famosa expressão de que os processos na Justiça ‘terminam em pizza’. “Se formos ouvir os mais cínicos, tudo leva a crer que Temer já estaria esquentando a sua pizza quatro queijos“, afirma a repórter.
Uma das ações de Temer contestadas pelo jornal é a escolha de Alexandre de Moraes para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Claire explica que o ex-ministro da Justiça é conhecido por sua simpatia pelo presidente, o que “suscita questões sobre sua nomeação“, pois será o revisor do processo da Lava Jato.
Além disso, o Le Monde lembra que Moraes defendia a tortura e apoiou o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, o que “não melhora sua imagem“.
A correspondente comenta país se questiona sobre o peso de foro privilegiado. “Um privilégio que se transformou em uma ferramenta muito cômoda para desacelerar ou até mesmo enterrar algumas investigações“, escreve.
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Posted: 06 Mar 2017 11:10 AM PST
moro acusação aécio neves furnas partidarismo
Sérgio Moro e Aécio Neves (reprodução)
Patricia Faermann, GGN
O juiz Sérgio Moro tinha um foco claro no depoimento do lobista Fernando Moura: saber o envolvimento do ex-ministro José Dirceu no esquema de corrupção da Petrobras. Sem querer e de forma meramente exemplificada, o delator citou como ocorria a divisão de propina na hidrelétrica de Furnas, em Minas Gerais, com a indicação por Aécio Neves (PSDB-MG) de Dimas Toledo para comandar a estatal mineira.
Dessa forma, o caso de corrupção envolvendo a hidrelétrica foi retomado após quase 12 anos, desde as primeiras acusações. Na Lava Jato, a investigação estava paralisada na delação do ex-senador Delcídio do Amaral e, posteriormente, confirmada pelo ex-diretor da Transpetro, Sérgio Machado.
Agora, com visível desinteresse do juiz Sergio Moro, que em mais de 30 minutos de depoimento não questionou uma única vez sobre o esquema de corrupção que repassava propina ao PSDB, Fernando Moura retoma o episódio. Também ao acaso, quando uma procuradora da República, questiona ao lobista sobre o envolvimento de Dirceu e, de forma exemplificada, o delator cita Aécio.
Foi realizada uma acareação pelos procuradores da República no caso da Lava Jato na Justiça do Paraná. Na audiência, o ex-diretor de Engenharia de Furnas, Dimas Toledo, ouviu a acusação do delator e lobista Fernando Moura que, em 2003, ele teria garantido dois terços da propina arrecadada ao PT e um terço ao senador Aécio Neves (PSDB-MG).
No relato, Fernando Moura disse que o então ministro da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, contou que o tucano Aécio Neves solicitou a permanência de Dimas Toledo na estatal de energia de Minas. O lobista foi quem informou Dimas sobre a sua permanência.
À plateia de investigadores, Moura disse que o acerto da indicação tucana, mais especificamente do senador, na estatal foi uma forma de retribuir o apoio do PSDB ao recém empossado governo do PT.
A confirmação surgiu espontaneamente por Fernando Moura. Em mais de 30 minutos, todos os questionamentos do juiz Sérgio Moro a Moura eram relacionados à indicação de Renato Duque para a diretoria da Petrobras e os benefícios recebidos pelo PT nacional e estadual, de São Paulo e o “grupo político de José Dirceu“, com os contratos da estatal.
O magistrado do Paraná concluiu a suas perguntas sem questionar sobre o PSDB ou a indicação de Aécio Neves na estatal mineira de Furnas. Foi quando o juiz federal passou a palavra a uma procuradora da República é que o tema surgiu, despropositalmente.
O senhor mencionou que o senhor saiu do Brasil, quando foi para os Estados Unidos, porque podia estourar o esquema da Petrobras e o Silvio e o Dirceu estavam envolvidos. Eu queria que o senhor detalhasse a participação do senhor José Dirceu“, perguntou a procuradora.
Vou explicar“, respondeu Fernando Moura. “Vou ser um pouco prolixo. Quando acabou a eleição de 2002, que ganhamos a eleição, foi feito uma reunião para a definição de, mais ou menos, umas cinco diretorias de estatais para poder ajudar a nível de campanha posteriormente“, inciou.
Então foi conversado sobre Petrobras, sobre Correios, Caixa Econômica Federal, Furnas, Banco do Brasil. Desde que todas as pessoas que fossem indicadas, elas teriam que estar com 20 anos de casa, ser funcionário da casa, para poder receber essa indicação, isso foi conversado antes, em novembro de 2002. Aí, nessa relação, foi indicado o nome do Renato Duque para a Petrobras, foi indicado o nome do senhor Eduardo Medeiros para os Correios, a princípio eu levei para o senhor José Dirceu o nome do Dimas Toledo para que continuasse na Diretoria de Furnas“, exemplificou o delator.
A partir daí, novamente sem que nenhum investigador da Lava Jato questionasse ou o juiz federal Sérgio Moro, Fernando Moura se estendeu no caso específico da estatal mineira de Furnas.
Ele [Dirceu] usou até uma expressão comigo: ‘o Dimas não, porque o Dimas se entrar em Furnas e colocar ele de porteiro, ele vai mandar em Furnas, é uma pessoa que já está há muito tempo, 34 anos, é uma indicação que sempre foi do Aécio [Neves]’“, contou.
Passado um mês e meio, ele [Dirceu] me chamou e perguntou: qual a sua relação com Dimas Toledo. Eu disse que estive com ele três vezes, achei ele competente, um profissional. ‘Porque esse foi o único cargo que o Aécio [Neves] pediu para o Lula, então você vai conversar com o Dimas e diga para ele que a gente vai apoiar a indicação dele‘”, teria dito Dirceu a Moura.
Eu fui conversar com o Dimas, que na oportunidade me colocou da mesma forma que coloquei o caso da Petrobras, em Furnas era igual. Ele [Toledo] falou: ‘vocês não precisam nem aparecer aqui, vocês vão ficar um terço para São Paulo, um terço nacional e um terço para Aécio’“, narrou.
E a procuradora interrompeu: “tá, mas a pergunta que eu fiz para o senhor foi diferente. Eu quero saber qual é a participação do senhor José Dirceu no esquema da Petrobras“.

Assista a partir dos 11:27:

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Posted: 06 Mar 2017 10:53 AM PST
pcc facções sistema carcerário presídio falência negros
Diego Gonçalves*, Pragmatismo Político
De acordo com os indicadores atuais do crescimento da população carcerária vs da população brasileira, se mantivermos o ritmo, em 80 anos 100% da população estará atrás das grades.

I.

Em outubro de 2016 a ruptura entre PCC e CV oficializou-se com 21 presos assassinados na região norte (maioria do CV). Entre as motivações da ruptura estão diversos fatores como: dívidas do CV, controle da fronteira Brasil-Paraguai após assassinato cinematográfico do “Rei do Tráfico”, aliança do CV com facções rivais no Norte e Nordeste, mas principalmente pela investida do PCC no Rio, em essência o PCC se organiza de forma empresarial (estima-se que seria a 16ª maior empresa do país com faturamento de 20 bilhões), muito diferente da prática do CV, era eminente o choque frente a nacionalização da facção.
Isso nos leva ao massacre no Amazonas e Roraima que em dois episódios marcados por 56 mortes no Compaj em Manaus de autoria da Família do Norte FDN e a resposta do PCC em Boa Vista que deixou 33 mortos, além das mortes registram-se cerca de 200 fugas (das quais nem metade foi recapturada) e a insegurança obrigou juízes a soltar presos de menor periculosidade.
A FDN que tem origem nas gangues de Manaus e surge num contexto de barrar o avanço do PCC sobre o estado, aliou-se ao CV, fazendo da região norte palco inicial da guerra das duas maiores facções criminosas do país.
Enquanto parte da sociedade e deputados como Major Olimpio (SD-SP) e Deputado Fernando Francischini (SD-PR) (responsável pela repressão que deixou 200 professores feridos no Paraná ano passado) comemoram, secretário do Governo Temer, que pediu afastamento, declara “tinha era que matar mais” e “tinha que fazer uma chacina por semana”, o governador do Amazonas declara que “não havia santo no presídio”, entre outras manifestações lamentáveis que expõem o caráter de nossa sociedade e parte do próprio problema em questão; Temer culpa a empresa terceirizada em Manaus e promete investimentos na expansão e manutenção do carcere.
Frente a barbara realidade presente e terríveis exemplos vizinhos como da Colômbia, é preciso superar o senso comum, quebrar a cultura do ódio e entender e discutir sobre as facções criminais e a falência do sistema carcerário brasileiro.

II.

O Primeiro Comando da Capital surge em um pátio da Casa de Custódia em Taubaté (interior de SP), palco de incontáveis violações de direitos humanos, como resposta a uma política de repressão de estado que teve como estopim o Massacre do Carandiru que deixou 111 mortos (nas palavras da própria Veja em matéria recente “Eis o resultado que o Brasil colheu ao executar presos […] e manter policiais criminosos impunes.” . Seu lema paz, justiça e liberdade dava ao grupo legitimidade entre os presos, somada a extrema violência que marca sua ascensão até a consolidação de seu domínio.
Segundo a doutora Camila Caldeira, especialista na questão, podemos entender a facção em 3 momentos distintos:
1. 1993-2001 disseminação da facção e conquista de espaço, marcada por eliminação de oposição com extrema-violência (de decapitações até episódios de canibalismo).
2. 2001-2006 consolidação do poder, marcada pela rebelião de 2001 em 29 unidades prisionais simultâneas e onde o PCC ganha publicidade e o governo é obrigado a admitir sua existência (vale mencionar a desastrosa operação castelinho, resposta criminosa do Estado); e vai até os ataques de maio de 2006 com 74 unidades e ataques no “lado de fora” tendo como alvos a polícia, bancos, e sitiando a cidade de São Paulo (a resposta do Estado aos 59 agentes públicos mortos é a morte genocida de 505 civis nas periferias da cidade em 14 dias)
3. A partir de 2006 a facção assume hegemonia do controle carcerário no Estado e consolida-se como a maior organização criminosa do país. O que relaciona-se diretamente com a conduta e ordem imposta pela mesma, destacando-se: proibição do uso de crack e de porte de facas nas cadeias, corresponsabilidade de padrinhos ao aceitar novos membros e mediação de conflitos e controle das punições (já não mais necessariamente morte).
Uma terceira crise entre PCC e Estado ocorreu em 2012, quando o Comando lança investida contra PMs em resposta a abusos (a ROTA na rua), o que culmina na morte de PMs e nova resposta genocida contra periferia, com aumento das mortes em ações polícias e cerca 306 pessoas mortas por grupos de extermínio.
Hoje com a cisão da aliança com o CV e a suposta formação do NarcoSul, uma nova fase parece iniciar-se na história da facção, o que amplia a urgência da discussão.

III.

Somos a 4ª maior população carcerária do mundo (622 mil em dezembro de 2014), da qual 80% esta presa por crimes ao patrimônio ou tráfico de drogas. Considerando o fluxo de pessoas presas e soltas, no período de 2014, pelo menos 1 milhão de pessoas vivenciaram o cárcere. Assustadores 40% são presos provisórios ainda não julgados. Apenas 2% tem ensino superior completo ou incompleto. Destaca-se a situação das mulheres, que embora ainda minoria, foram a parcela da população carcerária que mais cresceu. Mais da metade da população feminina é por tráfico de drogas.
Nos últimos 20 anos o Brasil saltou de 60 mil vagas para 306 mil, mesmo assim a superlotação prevalece; considerando o fluxo, são mais de 20 pessoas por dia em carcere, as cadeias com capacidade média de 700 à 800 presos, saem na faixa de 34 milhões. Sobe essas condições estabelece-se a prática sistemática de tortura por parte do Estado. Maiores riscos de tuberculose, AIDs e morte, apenas 30% dos presos tem acesso à saúde. Por fim, sobrecai sobre as famílias o peso de sustentar em boa medida os parentes presos, comprometendo cerca de 60% da renda familiar.
Apesar de a constituição prever a personificação da pena, os efeitos psicológicos, sociais e financeiros para as famílias são inegáveis. Vale esclarecer o beneficio do auxílio-reclusão, cedido apenas para famílias de presos que exerciam atividade regulada, contribuíam com o INSS, estão em regime fechado ou semiaberto e comprovam baixa renda. Destaca-se ainda a prática de revista vexatória, um estupro institucionalizado, aplicado até mesmo a crianças e adolescentes, que embora não demonstre qualquer eficiência em impedir a entrada de celulares, drogas e armas nas cadeias, continua sendo aplicada como forma de afastar as famílias do sistema; alternativas como espaços isolados para visitas com revistas nos presos e uso de aparelhos eletrônicos são apontadas por especialistas. Em uma sociedade que faz vistas grossas a realidade carceraria, o papel das famílias na luta pelo desencarceramento é central.
Por fim as mulheres são as que mais sofrem, juntamente a seus filhos e a culpabilização enquanto mães.
A agenda pelo Desencarceramento de 2014, aponta a necessidade entre outras coisas, da abolição de pena de prisão em diversos casos, do fim da guerra as drogas e da desmilitarização da polícia; também lança repudio a qualquer tipo de privatização do sistema carcerário.
É preciso entender que a falência do sistema carcerário não se resolve em si mesma, em um contexto de crise do capitalismo, desmonte dos Estados, desemprego que se intensificará com o desemprego tecnológico, entre outros fatores, está crise será mais sentida pelas camadas mais fragilizadas da população. Nesse sentido é preciso repensar as bases da organização social, revendo da propriedade privada à forma de produção e consumo, revertendo a desigualdade, até mesmo, e principalmente, revendo os valores sociais que enxergam de forma isolada a culpa por comportamentos socialmente danosos (não desencadeadas por devidos contextos) e acreditam no punitivismo, ao invés de trabalharmos os estímulos sociais que geram tais comportamentos.
O Estado autoritário não sobrevive sem a justificativa do inimigo interno e é ai que a guerra as drogas têm papel central nas estruturas de poder que garantem o status quo capitalista. Legitimado pela criminalidade, que fomenta medo e desorganização da sociedade civil, o Estado justifica seu domínio e controle social e maqueia a violência estrutural de opressão do trabalhador.
Não importa o que você faz. Apenas fique de bem consigo e esteja no grupo que vive pra notar a melhora ‘espontânea’ do mundo!
*Diego Gonçalves é graduando em Ciências Sociais na FFLCH-USP e colaborou para Pragmatismo Político.
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Posted: 06 Mar 2017 10:32 AM PST
psicanalista mst Guilherme Boulos mst
Guilherme Boulos (reprodução)
Andrea Dip, Agência Pública
Pouco a pouco, as lonas pretas vão se abrindo sobre as estruturas de bambu e ferro, formando as tendas que passam a abrigar colchões, cadeiras e um fogão. Pessoas que saem do trabalho reduzem a velocidade dos passos, curiosas para saber o que interrompe o trânsito na movimentada esquina da avenida Paulista com a rua Augusta – no coração de São Paulo – naquele fim de tarde de 15 de fevereiro. No pequeno carro de som, Chico Buarque e Racionais MC’s convivem com funks conhecidos em versão de luta – “A militância me deu onda”. A trilha anima cerca de 20 mil pessoas que saíram caminhando do largo da Batata ou da praça da República, debaixo do sol forte, e agora ocupam a calçada em frente ao escritório paulista da Presidência da República. A principal reivindicação é a retomada da faixa 1 do programa federal Minha Casa Minha Vida para famílias com renda de até R$ 1.800 por mês, mas eles também gritam “fora, Temer” e protestam contra as mudanças nas reformas trabalhista e da Previdência.
À frente do ato, está o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, que sobe e desce do carro de som, intercalando palavras de ordem no microfone com negociações com a PM. Quando está no chão, o líder conversa com militantes que conhece pelo nome, provenientes de caravanas vindas de ocupações de toda a cidade. Cumprimenta, bate um papo rápido, dá instruções. Quando está no alto, imposta a voz e se dirige à multidão na primeira pessoa do plural: “Para todos aqueles que desacreditaram da nossa luta, para o sr. Michel Temer, para todos aqueles que estão incomodados, o nosso recado é direto e reto: daqui não arredamos pé até ter nossa conquista nas mãos. Não tem arrego: ou negocia, ou não vai ter sossego”.
Boulos tem voz de comando, mas suja os sapatos visitando uma a uma as ocupações do movimento. Um estilo tradicional de líder de movimento social que quase não se vê mais, como observa a doutora em ciências sociais e pesquisadora Esther Solano: “Nós vivemos um momento de vácuo de lideranças de esquerda. Nesse contexto, acredito que o Guilherme Boulos é a maior liderança de movimentos sociais agora. Porque faz uma ponte entre os movimentos sociais e o institucional, em um momento em que não há mais essa conexão que era tão presente nos primeiros anos do governo Lula”.
Também de Frei Betto, experimentado na mobilização popular, o homem tem a admiração. E a bênção: “Guilherme Boulos é uma das mais jovens e promissoras lideranças de movimentos sociais brasileiros. Dotado de boa formação ética e intelectual, fez uma opção radical, evangélica, pelos mais pobres, concentrando sua atividade no segmento da população sem acesso ao direito de moradia. Modesto, despojado, inteligente, Boulos pôs a sua vida a serviço dos direitos humanos fundamentais definidos pelo papa Francisco, os três T: teto, terra e trabalho”, diz.
O fato é que Boulos tem conseguido chamar atenção para a causa que abraçou. A ocupação dos sem-teto na Paulista segue firme há mais de uma semana e aumenta a cada dia com a participação de outros movimentos sociais, shows de cantores famosos, aulas públicas. O caldo está em ponto de fervura e não só em São Paulo, mas por todo o país, em lugares onde a mídia por vezes não chega. Prestes a completar 20 anos, o MTST duplicou de tamanho nos últimos quatro anos e hoje conta com cerca de 35 mil famílias em todo o país e uma crescente lista de espera para participar das ocupações. Em 2016, a Câmara dos Deputados teve de reconhecer sua importância – contra muitos gostos – e o homenageou com a Medalha do Mérito Legislativo. Também ganhou uma coluna em um dos principais jornais do país, a Folha de S.Paulo.

Sem romance

Tudo bem. Eu te dou a entrevista e topo que faça meu perfil, mas com a condição de que não entre muito na minha vida pessoal. Não vou falar ‘meus gostos’, essas coisas. E sem romancear demais. Vamos conversar e ver no que dá”, acedeu finalmente um desconfiado Guilherme Boulos, após alguns dias de conversas e negociações por telefone do que seria esse perfil, mais focado em sua trajetória de luta – que considera a parte interessante de sua vida.
Para o público, o homem, hoje com 34 anos, nasce aos 15, quando, vindo de uma família de classe média de São Paulo, filho de pais médicos professores da USP, se envolveu com o movimento estudantil da União da Juventude Comunista, conheceu o MST e depois o MTST, seu destino. Apaixonou-se pela legitimidade da bandeira. Diz: “A luta por moradia no Brasil foi certamente a principal luta urbana, para além do movimento sindical. Nós tivemos um processo de formação das cidades que nunca assegurou esse direito. E que isso continue a ser uma questão em 2017 não é qualquer coisa. O Brasil tem quase 90% da população urbana, está entre as dez economias do mundo, é um país com uma indústria importante. Que as pessoas tenham que se organizar pra lutar pra ter um teto, para ter o direito básico de morar, é uma tragédia. Isso faz da luta por moradia algo muito legítimo, dá uma potência muito significativa, como poucas outras. Esse conjunto de elementos me levou a ver uma importância e me aproximar do MTST”.
A chuva que cai forte sem trégua na lona da barraca de madeira na ocupação “Povo Sem Medo”, na divisa de São Paulo com Embu das Artes, nos obriga a falar mais alto. Foi ali que ele quis marcar nossa conversa. As roupas molhadas e cheias do barro da subida do morro onde 1.300 pessoas reivindicam um pedaço de chão são uma pequena amostra dos ossos desse ofício ao qual ele se dedica com razão e emoção desde 2002. E uma prova de resistência necessária para os que pretendem conhecer Boulos: é na peregrinação pelas ocupações que se revela o sentido de sua liderança.
O Guilherme é o nosso norte, é uma referência pra periferia. Porque ele traz para as pessoas a perspectiva de alcançar seus direitos. Na sua fala informativa, na forma de liderar. E não é uma liderança que ele queira, as pessoas entregam pra ele. Ele pra nós é sem dúvida nosso ponto de referência maior”, me disse a militante Jussara Basso, na Nova Palestina, enquanto caminhamos pela ocupação que é uma das mais antigas de São Paulo, com mais de três anos, e provavelmente é a maior da América Latina, com 4 mil famílias. Maria, moradora da Nova Palestina, que vive com o marido e três filhos, acrescenta: “Ele é um cara que enfia o pé no barro pra andar junto com a gente. Não é porque é liderança que não chega aqui, não quer saber dos acampados. Eu aprendi muito com ele, com a forma dele lutar. Ele não precisava estar lutando, mas faz isso pelo próximo. Eu aprendi com ele e repito que, enquanto estiver sem teto na rua, eu vou estar lutando. Mesmo quando eu conseguir minha moradia. Meus filhos também”.
Boulos é alvo de adoração mas também de ódio. O rapaz que deixou a casa de classe média aos 20 anos para morar em uma ocupação do MTST (A Carlos Lamarca, em Osasco) incomoda muita gente. A militância nunca impediu seus estudos, ele é formado em filosofia e, embora poucos saibam, é psicanalista. Casado com uma militante, dedica seu conhecimento ao movimento social, desafiando a especulação imobiliária que empurra a população pobre para as bordas da cidade, agindo na contramão do que se espera dos mais aquinhoados e despertando mais ressentimento. O conhecimento transferido ao movimento social também é uma arma que assusta.
Guilherme Boulos foi portador de uma novidade no movimento de moradia: a análise de conjuntura como prática semanal. “Isso sem dúvida permite o crescimento e a formação política dos quadros do MTST. Essa prática é comum a todos os movimentos que tiveram origem no MST, como o MAB [Movimento dos Atingidos por Barragens], Levante Popular da Juventude, a Consulta Popular”, explica a urbanista, ativista e professora da Faculdade de Arquitetura da USP Ermínia Maricato. “Grande parte dos movimentos de moradia, na luta, que é natural, por resultados, deu prioridade à ação institucional quando não claramente clientelista. O MTST foge dessa limitação e por isso tem inovado bastante. Destaque-se ainda a coragem de Boulos e seus seguidores, que é notável”, diz.
Apesar do bombardeio de opiniões, Boulos se mantém sereno. Sua maior preocupação, diz, não é com a própria pele: “Se eu ouvir a Jovem Pan, vou sair convencido de que sou um calhorda e não presto! Os blogs da Veja, os editoriais do Estadão… Eu coleciono!”, brinca. “Há um processo de desmoralização que não é só contra mim, é sobre as lideranças de movimentos sociais. Eu não deixo de dormir por isso. Diria até que num certo sentido ser atacado por tipos como esses é um atestado de caminho correto. Mas uma coisa é as pessoas mexerem com você, te atacarem. Alguém que se dispõe a estar na linha de frente de um movimento social tem que se preparar psicologicamente pra esse tipo de ataque. Outra coisa é começarem a atacar sua família, sua casa. Aí entra num patamar mais complicado. É importante se preservar.”
O que não o impede de ser, além de xingado, preso. A última detenção foi no 17 de janeiro passado, quando participava das negociações durante uma reintegração de posse extremamente violenta de um terreno em São Mateus, na zona leste da capital paulista. A ocupação nem era do MTST, ele foi chamado para ajudar na negociação. A prisão foi política?, pergunto. Ele acena afirmativamente com a cabeça. “Não foi a minha primeira prisão, já fui preso algumas vezes, quase todas em desocupações. A penúltima foi na do Pinheirinho, respondo processo até hoje.” Responde a quantos processos? “Respondo a alguns”, desconversa. E segue adiante: “Você tem um sistema de criminalização dos movimentos sociais no país que é feito historicamente e que, no último período, tem se acentuado. Qual a melhor maneira de criminalizar? Você desmoralizar primeiro. Por exemplo, o que estão fazendo com o Lula, com a figura dele. Desumaniza, desmoraliza, depois se prenderem, se matarem, vai ter aplauso. O processo de desmoralização do movimento social está a todo vapor. ‘Movimento social é vagabundo’, ‘movimento social quer boquinha’, ‘movimento social quer favores e privilégios’. A criminalização nasce de uma desmoralização brutal que vem principalmente da mídia. Porque, quando você fala ‘esse cara não presta’, se ele for linchado em praça pública, você não está nem aí, ele merece. A criminalização pode ser judicial, pode ser física, prender, espancar, matar. E pode vir com processos judiciais. Aí não podemos deixar de mencionar a lei do terrorismo aprovada pela Dilma. A biografia dela vai estar manchada por isso. ‘Ah, excluiu movimento social, tirou as piores partes’, mas, meu amigo, no fim das contas, a caneta que vale é a do promotor, a do delegado. E qual é a mentalidade de delegado e promotor nesse país?”, questiona.
E conta uma história de arrepiar mesmo para quem conhece a violência policial constante nas ocupações. “Pouca gente sabe disso, mas a desocupação mais violenta que eu já presenciei ocorreu em 2004 ou 2003 em Osasco. As pessoas moravam lá há um ano e meio mais ou menos, e a polícia chegou sem aviso prévio, entrou, arrancou as pessoas dos barracos na porrada. Me lembro de uma cena que me marcou muito, que foi uma senhora bem forte, bem grande, que não queria sair da casa dela. E foram cinco policiais, pegaram ela, derrubaram no meio da lama. Estava uma chuva como a de hoje. Deram uma gravata nela. E um menino, o filho dela de 12 anos, gritando ‘mãe, mãe’. Pegaram o menino e algemaram. Assim começou essa desocupação. Ela terminou com a polícia juntando todos os pertences das pessoas, botando gasolina e queimando. Foi brutal. As pessoas saíram, não tinham pra onde ir, tentei fazer uma assembleia, pra tentar organizar as pessoas pra sair. Quando eu comecei a reunião, a polícia jogou uma bomba no meio da reunião. Eu fui preso nesse dia, outros dirigentes foram presos. As pessoas não tinham pra onde ir. Tentamos por as pessoas em um ônibus e ir pra uma outra área, mas a polícia foi pra essa outra área, pegou as pessoas, colocou em caminhões-baú, atravessou a divisa de Osasco, deixou as pessoas na lateral da Marginal Pinheiros. Largou lá. Hoje, depois de dez anos, as pessoas que continuaram conseguiram suas casas. Mas aquilo foi… Eu nunca tinha visto uma barbaridade daquelas”, conclui com a voz embargada.
Boulos não é alinhado ao PT nem poupa críticas a Dilma Rousseff, mas se destacou como uma das figuras mais proeminentes nos protestos contra o impeachment e depois nos atos “Fora Temer”, quando ficou conhecido para além da sua atuação no MTST. Para ele, o Brasil vive agora um “golpe continuado”. O militante, porém, não acredita que foram as manifestações do lado contrário, pedindo o impeachment, que derrubaram a presidente. “Sim, as manifestações contra a Dilma foram maiores [dos que as contrárias ao impeachment] por uma série de razões, até porque com o apoio da Globo fica tudo mais fácil. Mas eu não acredito que as manifestações foram decisivas. Foram um fator, mas você tinha um bloco de poder muito forte, que pegava a elite brasileira mais atrasada, os ranços da casa-grande, que soube trabalhar isso muito bem na classe média urbana, o grande poder econômico, o Judiciário, o escroque do Eduardo Cunha na presidência da Câmara. Tudo isso levou à vitória do golpe. Foi a vitória de um programa de rapinagem nacional. O tripé do governo Temer, que é a emenda constitucional e o teto de gastos, que é uma “desconstituinte” que liquida com a capacidade de investimento social do Estado; a reforma da Previdência que querem aprovar – e quem mora nesse acampamento não vai se aposentar, já que a expectativa de vida na maioria da periferia de São Paulo não ultrapassa os 65 anos – e a reforma trabalhista, que é de uma ousadia inacreditável. Nós tivemos 21 anos de ditadura militar e nem os milicos ousaram mexer na CLT. Nós entramos na era do escárnio, não há mais a maior pretensão de esconder ou manter as aparências. Essa etapa já foi. Se deixar essa galera até 2018, vão revogar a Lei Áurea”, diz.
Sobre o papel da esquerda, que anda calada, acrescenta: “A esquerda organizada no Brasil está pagando o preço do que deixou de fazer nos últimos 20 anos. Se dependesse de qualquer dirigente de movimento social, esse governo tinha sido arrancado do Planalto pelo colarinho. O problema é o seguinte: a esquerda perdeu no último período base social, capilaridade social. Não basta você ter compreensão da gravidade do que está acontecendo, não basta ter ideias boas do que deve acontecer, ter um bom programa pra enfrentar o golpe, uma denúncia convincente. Você precisa ter força social, você precisa ter gente na rua. A história é movida por isso, não pelas boas ideias. E a esquerda deixou de fazer trabalho de base. Por que o PT conseguiu gerar um caldo social, expressar e representar um caldo social a ponto de construir um fenômeno político como construiu independente do que se deu depois? Porque estava ali, nas comunidades eclesiais de base, no sindicalismo, nas ocupações urbanas, nas ocupações rurais, uma militância pisando no barro, subindo os morros, dialogando com o povo, ouvindo o povo”.

Esquerda lacaniana

Quando fala em ouvir o povo, Boulos não se refere apenas ao convívio por meio da militância. Em 2002, na Argentina, enquanto acompanhava o pós-Argentinazo – grande levante popular causado por uma crise política, econômica, social e institucional que derrubou cinco presidentes –, ele se aproximou do movimento Piquetero e participou de grupos de reflexão com militantes que haviam sido marcados por uma tragédia que ficou conhecida como Massacre de Avellaneda, quando dois jovens foram assassinados pela polícia da província de Buenos Aires enquanto participavam de um protesto contra o fechamento de uma ponte ao sul da capital federal. O massacre, que deixou 33 feridos, foi televisionado e mostrou os policiais arrastando os corpos dos jovens pelo chão. “Agora imagina as feridas que ficaram, para além das feridas físicas, nas pessoas que participaram disso”, questiona.
Nestes grupos de reflexão, que aconteciam em bairros da periferia da Argentina, psicanalistas trabalhavam os aspectos subjetivos e a elaboração desses efeitos”, conta. “Aquilo foi extraordinário. Ver o que esse encontro da psicanálise com a periferia é capaz de gerar. Ali tinha ao mesmo tempo formação de sujeito, um elemento de elaboração de sofrimento, empoderamento. Tudo isso me seduziu e me levou a ter um interesse maior pela psicanálise”, explica com empolgação. “Depois fui estudar, me formei em uma escola lacaniana e hoje dou aula em um curso de especialização que tem foco na psicanálise, mas não clinico, não tenho consultório. A psicanálise é muito elitizada hoje no Brasil, infelizmente.”
O conhecimento da psicanálise enriqueceu a militância. Seguindo uma tendência abraçada por novos filósofos e pensadores como Vladimir Safatle e o esloveno Slavoj Zizek, Boulos diz que começou a pensar o movimento social sob um novo viés, não só como massa em movimento, mas a partir do vínculo, do que aproxima as pessoas. “Eu concluí há pouco um mestrado com esse tema. Como em ocupações de terra as pessoas estabelecem vínculos que permitem que elas deem saltos subjetivos, é muito frequente você ouvir relatos de pessoas que estavam em sofrimento psíquico atroz e que, vindo para as ocupações, criaram um círculo de relações sociais, um espaço de reconhecimento, um resgate de autoestima de gente que estava pisada, humilhada por essa máquina de moer carne que é a vida urbana. Hoje as pessoas estão em multidão, mas sozinhas. E as histórias familiares são dramáticas para as pessoas pobres no país. São crivadas de sofrimento, às vezes de abusos, as das mulheres em especial. E claro que a ocupação não é o paraíso na terra, mas é um lugar em que se pode construir um espaço de convivência. Isso tem muito a ver com a psicanálise.”
Para o psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP Christian Dunker, Boulos é “o que se pode chamar de representante brasileiro da esquerda lacaniana”. Ele explica que muitas tendências da esquerda encontraram em Lacan uma espécie de renovador da crítica da ideologia e um teórico potente das relações de poder. “Ao mesmo tempo a teorização do laço social entre psicanalistas feita por Lacan oferece subsídios que inspiram uma reflexão crítica sobre o funcionamento do poder em movimentos sociais.”
O entusiasmo com a psicanálise é a face menos conhecida do homem que insiste em se resguardar. Mais sobre a vida pessoal dele é difícil arrancar. Temos um trato, afinal. Entre raios, trovões e a chuva que não arreda naquela casinha de madeira, o militante/professor/psicanalista/filósofo prefere falar de futuro. Do nosso futuro: “Se o Temer ficar até 2018 e não houver reação popular, a gente vai ver a dilapidação do que restou. Ou vamos por um caminho que pode empurrar o país pra convulsão social. Não descarte a possibilidade de vermos algo que não acontece por aqui desde os anos de 1990, que são os saques, o povo saqueando. Porque grande parte da população assistiu o golpe pela TV por entender que aquilo era uma briga entre partidos políticos. E ela pode fazer diferença no jogo e se enxergar como protagonista com o avanço brutal do desemprego, o arrocho salarial, a iminência de colapso dos serviços públicos. No ano passado, 1,7 milhão de pessoas saíram dos convênios médicos e foram para o SUS, no momento em que o SUS está com contingenciamento de recursos. Isso é explosivo, vai dar colapso. Falência dos estados, polícia sem receber, ataque aos direitos trabalhistas, à aposentadoria. A chance de isso gerar um caldo de reação popular espontânea, para além dos movimentos sociais, está dada e é real. Eu não duvido de que ainda vamos presenciar uma explosão de gente nas ruas ainda esse ano.”
Se Boulos estiver certo, o governo que pise ligeiro. Como diz o bordão, tantas vezes repetido nas manifestações populares, “quem não pode com formiga não atiça o formigueiro”.
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Posted: 06 Mar 2017 10:12 AM PST
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Patrícia Figueiredo, Agência Pública
São frequentes as mensagens virais no aplicativo de mensagens WhatsApp com notícias, muitas vezes falsas, que terminam com pedidos para que o destinatário repasse o texto para diversos amigos. Além do texto acima, o Truco – projeto de checagem de fatos da Agência Pública – localizou outros finalizados com pedidos similares. Saber se essa informação está correta é importante porque mostra como notícias falsas podem se espalhar rapidamente pela rede.
Para verificar se uma corrente de WhatsApp pode de fato chegar a todos os brasileiros, como afirma a frase, a reportagem primeiro foi atrás de dados que permitissem fazer esse cálculo. Apuramos primeiro as estatísticas do setor de telefonia móvel no Brasil. De acordo com informações da Anatel, 243,42 milhões de linhas móveis estavam em operação no país em janeiro de 2017. Depois, levantamos quantas pessoas existem no país. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira estava estimada em cerca de 207,16 milhões de pessoas em 3 de março de 2017.
O número de linhas móveis é superior à população porque há pessoas que possuem mais de um número ativo, muitas vezes em diferentes operadoras. No entanto, nem todos os assinantes móveis no Brasil fazem uso regular do aplicativo WhatsApp, onde a mensagem verificada foi propagada. Segundo um relatório do fórum global Mobile Ecosystem, que monitora o uso de aplicativos de mensagens em nove países, 76% dos assinantes móveis no Brasil utilizam regularmente o WhatsApp. Portanto, o aplicativo tem cerca de 184,68 milhões de usuários ativos no país.
Consultamos a matemática Simone Batista, doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), para verificar se é matematicamente possível que a mensagem atinja todos os usuários do WhatsApp no Brasil em pouco tempo. “A previsão matemática é que a corrente chegaria, mais cedo ou mais tarde, a todos que possuem WhatsApp”, confirma a professora. Segundo seus cálculos, se todos os destinatários da mensagem de fato repassarem o texto a outras seis pessoas diferentes das que já receberam, em 11 repasses a corrente atingiria 184,68 milhões de pessoas, ou seja, o total de usuários do aplicativo no país. Veja como foram feitas as contas.
A professora, no entanto, ressalta que é improvável que o cálculo reproduza fielmente a realidade. “O maior problema dessa estimativa é que muitos dos que recebem o texto recebem mais de uma vez. Para saber de verdade o resultado desse cálculo teríamos que estimar quantos usuários recebem repetidas vezes e tirar isto da soma, mas não existem dados suficientes para isso”, explica Batista.
Também é difícil estimar quantas pessoas de fato repassam a mensagem recebida. Estudos acadêmicos analisam a propagação de correntes de e-mail, que seguem uma lógica similar à das correntes de WhatsApp, embora tenham caído em desuso nos últimos anos.
Um artigo do programa de pós-graduação da Universidade de Juiz de Fora cita dados de um estudo da pesquisadora australiana Marjorie Kibby, da Universidade de Newcastle. De acordo com Kibby, 50% dos usuários da Internet afirmaram, em 2005, enviar pelo menos um e-mail de corrente por semana a algum familiar ou amigo, ainda que cerca de 44% desses usuários afirmassem ter algum problema com o recebimento de e-mails indesejados. As pesquisas de Kibby concluem ainda que usuários que utilizam o serviço de e-mail há menos tempo são mais propensos a repassar correntes do que usuários antigos. É possível que as mesmas tendências se apliquem hoje em dia em relação às correntes propagadas via aplicativos de mensagem, porém os estudos não fornecem estatísticas suficientes para avaliar quantos dos usuários de fato repassam as mensagens.
Ainda que em teoria pudesse chegar a todos os usuários do WhatsApp no Brasil, como a previsão matemática aponta, a mensagem não atingiria todos os brasileiros, por três motivos. Parte da população não possui linhas móveis. Além disso, nem todos estão dispostos a compartilhar mensagens desse tipo. E muitos assinantes de telefonia celular não fazem uso regular do aplicativo. Ainda assim, as contas mostram que informações erradas podem se espalhar numa velocidade extremamente rápida e atingir uma enorme quantidade de pessoas. Por isso, classificamos a frase como exagerada, já que aponta para uma tendência correta, mas usa dados errados na conclusão.
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