domingo, 5 de março de 2017

5/3 - Altamiro Borges DE HOJE

Altamiro Borges


Posted: 05 Mar 2017 09:27 AM PST
Por Altamiro Borges

Quando o ex-presidente Lula aprovou a criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), em 2008, a mídia privada - que detesta concorrência e se acha dona das concessões públicas de rádio e tevê no país - fez o maior escândalo. Em editoriais e artigos opinativos dos seus "calunistas" de aluguel, ela afirmou que a TV Brasil, um dos veículos da EBC, seria a "TV do Lula". Apesar da cobertura plural - e até "republicana" demais -, a emissora foi alvo de intensa campanha de ataques. Agora, porém, o usurpador Michel Temer desfecha vários golpes autoritários contra a TV Brasil e os barões da mídia fazem o maior silêncio. Afinal, eles sempre torceram pelo fiasco do sistema público de comunicação.

Nesta semana, segundo informa Mário Augusto Jakobskind, do jornal Brasil de Fato, a EBC demitiu arbitrariamente o coordenador-geral de jornalismo da TV Brasil, André Muniz. O motivo da dispensa é que a emissora pública cobriu um ato do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) em São Paulo. "Como se não bastasse ter acabado com o Conselho Curador, que reunia representantes da sociedade civil e reforçava a mídia pública, na EBC hoje predomina a censura... É dessa forma que age o espaço estatal representado pela EBC, presidida por um tal de Laerte Rimoli, um protegido e indicado pelo deputado cassado Eduardo Cunha".

O jornalista ainda lembra que "os ocupantes usurpadores da EBC, sob o comando de Laerte Rimoli, tem adotado como norma a censura e a demissão de quem ouse fazer jornalismo... A direção da EBC impediu que a TV Brasil durante o Carnaval colocasse no ar qualquer bloco que se manifestasse com o 'Fora Temer'... Vale lembrar também que o comandante da censura ordenada pela Casa Civil, a quem a EBC hoje é subordinada, Laerte Rimoli, um ex-global prestou serviços à campanha eleitoral de Aécio Neves, um político que quando governou Minas Gerais se comportou mal com jornalistas que não aceitavam suas imposições. É assim que vai o Brasil de Temer descendo ladeira abaixo com censura e tudo mais, para evitar que o povo brasileiro seja informado". 

O Carnaval sem "Fora Temer"

No caso da censura aos protestos do "Fora Temer" durante o Carnaval, o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal também se pronunciou. Em nota enviada à direção da empresa, a entidade criticou a orientação expressa dada aos profissionais da TV Brasil para não divulgar "sequer imagens de faixa e cartazes críticas a políticos e governos". "É dever do sindicato zelar pelo código de ética da categoria, segundo o qual o jornalismo deve se pautar por uma cobertura equilibrada, retratando acontecimentos sem preconceitos, direcionamentos e dando espaço à pluralidade de vozes na sociedade... Princípios como diversidade, pluralidade, equilíbrio, independência dos governos de plantão estão presentes na própria Lei de criação da empresa. Eles também constam do Manual de Jornalismo da EBC”.  

Estes e outros fatos absurdos confirmam que, agora sim, a TV Brasil virou a "TV do Temer". Todos os mecanismos de controle da sociedade sobre uma emissora pública têm sido desmontados desde a consumação do "golpe dos corruptos", em maio do ano passado. Ainda como interino, Michel Temer exonerou o presidente da EBC, o renomado jornalista Ricardo Mello. A medida ilegal foi questionada pelo Supremo Tribunal Federal, mas o covil fez uma manobra jurídica para viabilizar a demissão. Na sequência, a gangue que assaltou o poder - como o apoio da mídia privada - extinguiu seu Conselho Curador, que reunia representantes da sociedade civil e garantia seu caráter público e democrático.

MP 774 e o desmonte da EBC

Em fevereiro passado, o Senado Federal, dominado pelos golpistas, aprovou a medida provisória 744, que altera a estrutura da EBC e consolida o processo de desmonte do projeto de comunicação pública iniciado no governo do presidente Lula. Entre outras medidas absurdas, a MP confirmou a extinção do Conselho Curador e criou um tal de "conselho editorial". Mesmo assim, o covil golpista - que cada vez mais se parece com uma ditadura civil - ainda não está satisfeito. Segundo uma notinha publicada na Folha nesta quinta-feira (2), "Temer decidiu vetar parcialmente o projeto de lei de reestruturação da EBC. Será excluído o trecho que obrigaria a estatal a cumprir decisões do Comitê Editorial e de Programação, órgão criado pelo Senado na tramitação da medida provisória".

Para entender melhor os retrocessos representados pela MP 744, reproduzo abaixo uma reportagem publicada no site do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC):

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Aprovação da MP 744 não encerra luta em defesa da EBC
Junto com organizações da sociedade civil que encamparam a luta em defesa da EBC e da comunicação pública nos últimos meses, o FNDC continuará buscando reverter os retrocessos impostos pela MP 744/16, que deverá ser objeto de ação direta de inconstitucionalidade no STF. Aprovada pelo Senado nesta terça-feira (07/02), a MP que altera a estrutura da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) coroou o processo de desmonte do projeto de comunicação pública inaugurado no país com a fundação da empresa. 

EBC

A EBC foi a primeira experiência de construção de um campo público de comunicação no país, voltada para a difusão de conteúdo pautado no interesse público. Criada em 2008 para cumprir o papel constitucional de organizar e fortalecer o campo público da comunicação, a EBC foi um dos primeiros alvos do governo Temer, que logo após assumir interina e ilegitimamente o poder tratou de destruir a principal conquista obtida pela sociedade brasileira no setor das comunicações. A votação da MP, no entanto, não encerra a luta política em defesa da EBC, como garante a coordenadora geral do FNDC, Renata Mielli.

A MP extingue o Conselho Curador da EBC e o mandato de diretor-presidente da empresa, que passa a ser de livre nomeação pelo presidente da República. O Conselho Curador zelava pelos princípios e pela autonomia da EBC, impedido ingerência indevida do governo e do mercado. A instância era composta por 22 membros, sendo 15 representantes da sociedade civil – indicados via consulta popular, quatro do governo federal, um da Câmara dos Deputados e um do Senado Federal, além de um representante dos trabalhadores da empresa. Após críticas contundentes à extinção do Conselho, o relator da MP na Câmara, deputado Lasier Martins (PSD-RS), incluiu o Comitê Editorial e de Programação, que ainda não foi regulamentado. O mandato fixo de quatro anos para diretor-presidente, também extinto pela MP, impedia a troca do comando da empresa a partir de cada mudança do Executivo.

Bia Barbosa, secretária de Comunicação do FNDC, explica que esses dois elementos conferiam à EBC o caráter público. “Além da presidência da empresa ficar à mercê do governo de plantão, o Conselho de Administração terá seus membros indicados pela Presidência da República, com exceção do representante dos funcionários, e não se sabe quais são os critérios de preenchimento do Comitê Editorial e de Programação”, afirma. “Isso claramente transforma a EBC numa empresa de comunicação governamental”, reforça Bia.

Renata Mielli é direta: “essa MP é inconsticional do ponto de vista formal e material, impõe censura às emissoras tuteladas pela EBC e não resolve os problemas da empresa – pelo contrário, agrava! Por isso vamos combatê-la enquanto houver essa possibilidade”. Ela ressalta que o FNDC e a Frente em Defesa da Comunicação Pública, entre outras entidades dos movimentos sociais que defendem a democratização da comunicação, “fizeram o que foi possível” para tentar barrar o retrocesso imposto pelo governo. “Procuramos fazer um debate qualificado sobre comunicação pública e sobre o protagonismo da EBC para o setor. Infelizmente, a correlação de forças no
Congresso Nacional é totalmente favorável ao governo. Em nenhum momento houve interesse do governo em debater a relevância da comunicação pública para a democracia”, observa.

A coordenadora geral do FNDC lembra que a EBC foi a primeira experiência de construção de um campo público de comunicação no país, voltada para a difusão de conteúdo pautado no interesse público. “Um projeto foi interrompido pelo golpe impetrado no Brasil, que também interrompeu um projeto mais amplo de nação que vinha sendo construído nos últimos 13 anos”.

Para Bia Barbosa, a votação da MP no Senado evidenciou a fragilidade da crítica feita pelos defensores da MP de que é preciso garantir a eficiência da EBC e cortar gastos. “É lemantável que um direito fundamental como o da comunicação tenha sido debatido apenas pelo viés equivocado de uma pretensa eficiência e de uma economia que não se materializará. No entanto, essa visão estreita é típica da mentalidade desse governo, que delega ao mercado a garantia de direitos fundamentais”, observa.

Confira os principais pontos negativos da MP 744/16

1. É inconstitucional

* Inconstitucionalidade formal: Não está presente a urgência ou relevância, duplo requisito constitucional para a edição de medidas provisórias. Onde residiria a urgência constitucional de reformulação da estrutura de uma empresa pública que vem desenvolvendo, na mais absoluta normalidade, suas atividades?

* Inconstitucionalidade material: A existência de um sistema de comunicação pública, não-governamental, tem por objetivo assegurar a efetiva realização da liberdade de manifestação do pensamento, pela possibilidade de serem ouvidas outras vozes, além daquelas emitidas pelo Poder e pelo mercado (artigo 220 da Constituição: “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”). Ao se amputar os dois principais mecanismos da estrutura administrativa da EBC existentes para assegurar a autonomia e o cumprimento dos demais princípios e objetivos do sistema (extinção do Conselho Curador e do mandato de seus dirigentes) se está criando uma efetiva restrição à livre circulação das informações. Além disso, ao aniquilar com a experiência de implantação de um sistema público no País, ao lado do estatal e do privado, a MP também desrespeita o artigo 220 da CF que trata da complementaridade entre os sistemas.

2. Resulta na prática de censura

Segundo nota técnica do Ministério Público Federal, como consequência da fragilização estrutural produzida na EBC, com “a subordinação da empresa às diretrizes do governo e o condicionamento
às regras estritas de mercado”, abre-se o espaço para a prática da “censura de natureza política, ideológica e artística”, tanto pela definição da linha editorial e da programação na perspectiva dos interesses dos governantes, quanto pelo silenciamento de vozes que ousem divergir do governo.

3. Ignora os benefícios trazidos pela EBC ao país

Apesar dos poucos recursos, o projeto de comunicação pública que vinha sendo desenvolvido pela EBC e seus veículos apontava para o caminho certo, seguindo bons exemplos internacionais de sistemas públicos de comunicação no mundo. Em 2015, um dos principais veículos da empresa, a TV Brasil, foi a emissora que exibiu o maior número de longas-metragens nacionais, veiculando ao todo 120 brasileiros. A Globo, segunda colocada, exibiu 87 filmes e a TV Cultura (SP), 55.

A TV Brasil também é o único canal da TV aberta com programação infantil, revertendo uma lógica imposta pelo mercado de que hoje, no Brasil, só podem assistir programas infantis as famílias que quem tem dinheiro para pagar uma assinatura de TV.

Diariamente, mais de 3.000 mil veículos reproduzem os conteúdos de texto e foto de qualidade que são produzidos pela Agência Brasil e distribuídos gratuitamente para qualquer mídia. Esse tipo de impacto não se mede com os cálculos tradicionais de audiência da mídia comercial.

4. Não resolve – e sim agrava – os problemas de eficiência da EBC

Segundo parecer do Conselho de Comunicação Social (CCS) do Senado Federal, a MP 744 não resolve os problemas da EBC. Pelo contrário. Nesta nova estrutura, a empresa tende a responder ainda mais diretamente às demandas do governo federal. Não se pode falar em eficiência se o principal órgão de controle social foi extirpado do cenário. Com a extinção do Conselho Curador e do mandato para presidente, todos os princípios definidos para a comunicação pública na lei perdem a materialidade. Por isso o CCS deu parecer defendendo que as prerrogativas do Conselho Curador fossem resgatadas.

Sua existência, com participação majoritária da sociedade civil, era fiadora do caráter democrático e do cumprimento das funções constitucionais da comunicação pública – e não obstáculo à obtenção da eficiência administrativa. Quem será responsável por essa fiscalização agora?

Chega a ser paradoxal, no momento em que a sociedade e o Poder Judiciário reivindicam medidas de controle sobre o Estado e, em particular, sobre as empresas estatais, que a única empresa pública a ter, definido por Lei, um Conselho Curador – ativo e operante – seja vítima de uma medida que justamente impede o exercício deste controle social.

5. Ignora os resultados do trabalho do Conselho Curador

O Conselho Curador da EBC era o elo de ligação entre a comunicação pública e a sociedade, com atuação focada em manter a empresa autônoma em relação ao governo e à iniciativa privada. Composto por 22 membros, entre representantes da sociedade civil, do governo e do Congresso
Nacional, o colegiado tinha como missão zelar pelo caráter público da programação da EBC.

O Conselho tinha ampla representação das mais diversas esferas sociais. Desde a sua instalação, realizou 70 reuniões, 11 audiências e 7 consultas públicas. As reuniões de pleno resultaram em 45 resoluções com determinações para a programação e processos da EBC, e as discussões produziram parâmetros para a comunicação pública em todo Brasil.

Em 2015, o Conselho organizou o Seminário Modelo Institucional da EBC, que apontou justamente para a necessidade de ampliar os mecanismos de autonomia em relação ao governo federal e de participação da sociedade civil. A MP 744 vai na contramão dos resultados do seminário.

6. Recebeu críticas contundentes dos órgãos internacionais

A importância de um sistema público de comunicação no Brasil já tinha sido objeto de diversas manifestações da Relatoria Especial das Nações Unidas sobre Liberdade de Opinião e de Expressão e da Relatoria Especial da OEA para este tema, que reconhecem que, diante de um cenário indevido de concentração da comunicação, o sistema público cumpre um papel fundamental para a promoção da diversidade no Brasil.

Após a edição da MP 744 em setembro, as relatorias da ONU e da OEA, assim como a Aliança da Mídia Pública Internacional (que reúne mais de 100 emissoras públicas do mundo), e Associação Brasileira de Emissoras Públicas Educativas e Culturais, além do Ministério Público Federal e do Conselho de Comunicação Social do Senado, emitiram notas e pareceres contrários à medida.

Os órgãos destacam que a retirada do caráter público da EBC revela um descompromisso com a construção de um país mais respeitoso e inclusivo, que trate a comunicação como política pública e como um dos direitos humanos fundamentais reconhecidos pelas Nações Unidas.

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Posted: 05 Mar 2017 07:56 AM PST
Por Altamiro Borges

O covil golpista de Michel Temer aumentou as verbas publicitárias na mídia tradicional e nas redes sociais para difundir mentiras, espalhar terrorismo e melhorar sua imagem na sociedade. A "propina" aos donos dos jornalões, revistonas e emissoras de rádio e tevê e também aos "youtubers" e ativistas digitais mercenários tem sido descarada. Pelo jeito, porém, as campanhas milionárias não têm surtido efeito. Neste domingo (5), a versão brasileira do jornal espanhol El País publicou um estudo sobre a popularidade no usurpador na internet. O resultado é desastroso, um recorde de rejeição. Segundo o levantamento, 89% das manifestações no Facebook e no Twitter são contrários ao chefe de quadrilha que assaltou o poder no Brasil. 

Vale conferir a reportagem do El País, assinada pelas jornalistas Carla Jiménez e Marina Rossi:

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Corrupção e reforma da Previdência elevam rejeição a Temer a 89% nas redes sociais

Que o Brasil está rachado num movimento de polarização política não é novidade para ninguém. Desde 2014 as brigas reais e virtuais entre os que se julgam mais à direita e os que se definem mais à esquerda estão ao alcance de um clique. Mas há um tema que aproxima simpatizantes dos dois polos, embora suas respectivas bolhas não interajam a respeito: a rejeição ao governo do presidente Michel Temer. Um levantamento da empresa de inteligência digital Veto, feito com exclusividade para o El País, mostra que durante todo o mês de fevereiro 89% das manifestações relacionadas a Temer no Facebook e Twitter foram negativas para ele, independentemente do perfil político do usuário.

O monitoramento levou em conta um universo de 30.000 pessoas usuárias do Facebook e Twitter. A Veto relacionou os comentários dos usuários sobre política e avaliou as páginas e perfis seguidos por eles. Por isso é possível observar para qual polo ideológico esses internautas pendem. Pela análise, quem se encontra mais à direita segue perfis como o de Sergio Moro, Aécio Neves, Jair Bolsonaro e sites anti-PT. Já os que se consideram mais à esquerda seguem o perfil de Lula, Dilma Rousseff, Jean Wyllys e Ciro Gomes.

A alta rejeição popular de Temer não é novidade. Vem sendo captada pelas pesquisas de opinião tradicionais – 51% consideram o governo ruim ou péssimo e 10% avaliam a gestão do peemedebista como ótima ou boa, segundo a última pesquisa do Datafolha, realizada em dezembro. O estudo da Veto, entretanto, dá matizes deste descontentamento entre a opinião pública polarizada.

O mesmo levantamento revela que a definição de esquerda e direita assumida publicamente está mais em bolhas nos extremos de cada lado: 8% dos usuários monitorados se afirmam de esquerda, e questionam, por exemplo, a legitimidade do governo fruto de um impeachment que eles definem como um golpe. Em outra ponta, 15% se apresentam como sendo de direita e não questionam a legitimidade de Temer no poder. Já 77% da amostra de usuários não têm um alinhamento ideológico claro, e tomam posições de acordo com um contexto específico – em 2016 a grande maioria apoiou a saída de Dilma, por exemplo. Este grupo também não questiona a condição de Temer presidente. Porém, 39% dos comentários captados nesse grupo avaliam mal o Planalto por percebê-lo como corrupto ou defensor de corruptos. “A ideia de que o Governo se esforça para impor obstáculos à Lava Jato é muito presente nessa argumentação”, diz o estudo.

Os projetos de seus aliados no Congresso para minar as dez medidas contra a corrupção ou leis que tentam reduzir o poder do Ministério Público são apenas alguns exemplos de passos da administração Temer que aumentaram a desconfiança da população. A indicação de Moreira Franco para ser ministro às vésperas das delações da Odebrecht – e assim garantir foro privilegiado – e as citações suspeitas sobre seus ministros em investigações da Lava Jato reforçam ainda mais essa percepção. Tudo em um momento em que se acendeu de vez o rastilho de pólvora das delações da Odebrecht, nas quais 78 executivos da empresa entregarão os nomes dos políticos que receberam propina ou pediram caixa 2 para seus partidos.

O fim da corrupção foi um dos pilares que sustentou o pedido do impeachment de Dilma Rousseff nas ruas e fora delas e por isso a frustração aparece nas redes sociais. “Havia uma expectativa de parcela significativa da sociedade, manifestada nas redes à época do impeachment, de que um governo chefiado por um grupo político diferente do PT poderia trazer mudanças que culminariam em melhores resultados econômicos e práticas executivas pautadas pela ética”, diz a conclusão do levantamento.

Não por acaso, os mesmos movimentos que se articularam para levar as manifestações pelo impeachment de Dilma no ano passado voltarão às ruas no próximo dia 26 em apoio à Lava Jato e pelo fim da corrupção. Embora estes grupos não atraiam a atenção da esquerda, aumentam o clima de rechaço para Temer. “Mesmo não havendo colaboração direta [entre os que se declaram de esquerda e direita], o Governo Temer pode sofrer com ataques simultâneos dos dois lados”, avalia Pablo Ortellado, que integra o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação da Universidade de São Paulo. “Isso só não está acontecendo porque a liderança política da direita (MBL, Vem Pra Rua etc.) resolveu ainda não romper com o governo. Mas isso pode mudar no futuro”, avalia Ortellado.

Rejeição à reforma da Previdência

Outro fator que vem elevando o grau de críticas a Temer nas redes é a proposta de reforma da Previdência que está em debate no Congresso atualmente. Dentro do bloco dos 77% dos usuários sem definição política aberta, 37% dos comentários repudiam a gestão do presidente por políticas específicas. “A reforma da Previdência, em especial, é profundamente rejeitada por esse grupo”, afirma Scandiuzzi. Ortellado também já detectou posts muito críticos à reforma em ambientes virtuais mais atrelados à direita. “Não sei se é uma tendência geral ou um fato pontual, mas ela está sendo muito mal recebida”, comenta o professor da USP, que fará um levantamento específico na próxima manifestação para conhecer a opinião dos manifestantes a respeito da Previdência. Ele reconhece que as mudanças previdenciárias estão sendo mais rejeitada quee a PEC do teto de Gastos aprovada no final do ano. “Talvez porque a PEC era abstrata e o impacto difuso é no futuro”, completa.

Bolhas

Os internautas com uma bandeira clara (8% à esquerda e 15% à direita) formam bunkers impenetráveis nas redes sociais, enquanto os outros 77% seguem ao sabor dos ventos de acordo com o contexto presente, observa Scandiuzzi. “Tanto a esquerda quanto a direta se fecham em bolhas e não conseguem furar o bloqueio”, diz. Para Ortellado, a polarização política cria barreiras morais de rejeição ao campo adversário que impedem a colaboração em pontos de convergência. Ele observa, entretanto, que não é só o descontentamento com as práticas do Governo Temer que une os dois campos. “Nos nossos levantamentos, aparecem também a defesa da saúde e educação públicas e o ambientalismo”, comenta.

Já os que não se assumem nem para um lado e nem para outro fazem parte de um grupo que quer falar de política e se interessa por política, mas não se sente representada por nenhum projeto que se apresenta atualmente. Para Scandiuzzi, é um quadro muito parecido ao que foi visto durante os protestos de 2013. “O discurso no fim, é o mesmo, sobre um Estado ausente e inoperante. A mesma queixa de 2013”, acredita. Depois daquele ano, o PT personificou esse Estado ineficiente, o que acabou gerando a pressão das ruas que ajudou a derrubar o Governo Dilma. Agora, Temer é a bola, ou a vidraça da vez. “Ele é o chefe do Executivo e o representante máximo dessa geleia geral que se instalou no Brasil”, conclui.

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Posted: 05 Mar 2017 07:04 AM PST
Por Miguel do Rosário, no blog Cafezinho:

As investigações sobre o grampo na cela do doleiro Alberto Yousseff, preso na primeiríssima fase da Lava Jato, revela que a operação já nasceu despreocupada em seguir os trâmites legais.

Reportagem publicada pela Folha, hoje, revela diversas coisas.

As próprias forças que sustentaram a Lava Jato, deixando-a crescer desmesudaramente, sem nenhum tipo de limite, perdoando-lhes os mais graves desvios de conduta (a ponto do tribunal regional de porto alegre emitir despacho afirmando que a Lava Jato está acima da Constituição), começam a puxar o freio da operação, para que ela não se desvie de sua narrativa central, que é pegar Lula. É a própria Lava Jato acabando com a Lava Jato, vide o apoio de procuradores da operação à nomeação de Alexandre de Moraes para o STF. Os próprios operadores da Lava Jato agora ensaiam uma maneira de inventar um final digno à operação, talvez se vitimando, talvez em busca de mais ou outro boi de piranha do próprio governo.

A imprensa continua, no entanto, delicada com as irregularidades cometidas pela Lava Jato, chamadas, com incrível delicadeza, de erros. Afinal, é preciso contê-la, mas sem ferir a narrativa central, de que foi uma operação muito boa.

O timing da imprensa é ainda mais elástico do que o da Lava Jato, cujos delegados já admitiram que mandam prender ou não prender segundo o “timing” político da hora. O escândalo sobre o grampo ilegal na cela de Yousseff veio à tona antes do golpe, mas naquele momento não era oportuno veicular a mais tênue crítica à operação, visto que já se havia entendido que ela seria o braço armado do movimento que levaria ao impeachment. Todas as operações espetaculares, com centenas de agentes federais fortemente armados, com uso de helicópteros e quantidade enorme de carros oficiais, para prender às vezes um senhor inofensivo e barrigudo, como o ex-tesoureiro do PT, eram entendidas como cenas audiovisuais necessárias para produzir o clima de terrorismo político necessário para dar sequência ao golpe.

No Estadão, há uma notícia de que Michel Temer procura anular as delações de ex-executivos da Odebrecht, que são as mais problemáticas para seu governo, alegando que o “vazamento” do depoimento de Claudio Melo as teriam contaminado.

Ora, eu até poderia concordar com Temer, mas é muita hipocrisia dele e de todo o consórcio golpista. Desde o primeiro dia de Lava Jato havia vazamentos de delações. Muitas vezes, antes mesmo do réu concordar se delataria ou não, sua delação já estava nos jornais. A delação era vazada antes mesmo dela ter sido feita. Um mistério. Talvez explicável pelo fato do delator quase sempre corroborar uma tese já pré-escrita pela procuradoria. Essa tese, portanto, podia ser vazada antes mesmo de ser corroborada pelo réu.

Em se tratando de empresas que lidavam com grandes quantidades de contas no exterior, não foi difícil para a Lava Jato montar suas narrativas como quem brinca de lego, inventando e atribuindo o que queria às movimentações financeiras de empreiteiras que, como a Odebrecht, atuavam em dezenas de países.

Entretanto, a Lava Jato agora não é mais uma operação brasileira. Ela passou a desestabilizar toda a América Latina. No Equador, se tornou um dos temas principais das eleições. No Peru, foi motivo para pedir a prisão cautelar de Alejandro Toledo, que fez um governo de centro, moderado, em benefício de seus adversários.

A América Latina é uma família infeliz, que historicamente sempre viveu seus infortúnios de maneira mais ou menos coletiva. Se há uma onda progressista, ela atravessa todo o continente, com eleição democrática de governos de esquerda, que fizeram o continente vivenciar o seu período mais feliz de sua história, com crescimento econômico, melhor distribuição de renda, mais comércio entre si e grandes investimentos em infra-estrutura. Se a democracia começa a ruir num e noutro país, logo ela rui em quase toda a América Latina. E os métodos antidemocráticos usados num país são logo aplicados em outro, como é o caso da Lava Jato.

Esperemos que não haja necessidade de revivermos um ciclo de horror e autoritarismo outra vez, para que seja possível conscientizar as forças políticas do continente que isso não nos interessa: não interessa ao povo, não interessa às nossas empresas, não interessa ao Estado. Se cedermos ao autoritarismo que vem tomando conta do Brasil, e a Lava Jato é o braço armado desse autoritarismo, afundaremos todos em décadas de estagnação econômica, miséria social, instabilidade política, corrupção e violência.
Posted: 05 Mar 2017 06:58 AM PST
Do site Vermelho:

O comentarista do noticiário matinal Bom Dia, Brasil, da TV Globo, e apresentador da Globonews, o jornalista Alexandre Garcia, provocou revolta nas redes sociais na noite desta quinta-feira (2), depois de fazer um comentário irônico e de desprezo a respeito da declaração da atriz norte-americana Jane Fonda, que revelou ter sido estuprada quando era criança.

"E eu com isso?", comentou Alexandre Garcia, ao compartilhar uma matéria sobre Fonda em sua conta no Twitter.

Em entrevista à revista The Edit, Jane Fonda, que é conhecida por ser ativista dos direitos das mulheres, relatou diversos casos de abuso ao longo de sua vida: "Para você ver como o patriarcado deixa uma marca nas mulheres. Eu já fui estuprada, eu já fui abusada sexualmente quando criança e eu já fui demitida porque não queria transar com meu chefe. Sempre pensei que tudo isso fosse minha culpa, que isso aconteceu porque eu não tinha falado ou feito a coisa certa", afirmou a atriz.

"Eu conheço mulheres jovens que foram estupradas e nem sabiam que tinha sido estupro. Elas pensam 'deve ser porque eu disse não da maneira errada'.

"Uma das melhores coisas que o movimento das mulheres alcançou foi percebermos que o estupro e os abusos não são nossa culpa", defendeu Fonda.

Abaixo a postagem do comentarista da Globo no Twitter:



Imediatamente, os seguidores do jornalista na rede social começaram a repercutir o post, tanto contra - a maioria - como a favor do jornalista.

Alexandre Garcia não respondeu a nenhum comentário ou sequer pediu desculpas pela postagem.

No entanto, para tentar justificar a postagem sarcástica e desumana, ele fez nova postagem sobre o assunto dizendo que "Uma brasileira é estuprada a cada 11 minutos e não reagimos nem nos escandalizamos."
Posted: 05 Mar 2017 06:54 AM PST
Por Conceição Lemes, com dica de Gerson Carneiro, no blog Viomundo:



Diz o ditado popular: Filho feio não tem pai.

Já se é bonitinho, há até filas para fazer o teste de paternidade.

É o que está acontecendo com a fantástica transposição do Rio São Francisco, obra-símbolo dos governos Lula e Dilma, que já é realidade.

É inacreditável o que estão aparecendo de pretensos “pais da criança”.

O da hora é deputado federal Marcondes Gadelha, de Paraíba, vice-presidente nacional do Partido Social Cristão (PSC).

Trabalhou e votou pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Agora, tenta usurpar, na maior desfaçatez, uma obra-símbolo dos governos dela e de Lula.

O golpista da Paraíba mandou espalhar pelas ruas de João Pessoa um outdoor (a primeira foto, no topo), onde tenta fazer bonito com o chapéu de quem ele traiu.

Não colou.

Nas redes sociais já circula o outdoor adaptado: A transposição tem cara de pau. Obrigada, Marcondes Canalha.

Duplo troco merecido.
Posted: 05 Mar 2017 06:45 AM PST
Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:



No Estadão, ressurge a figura de Paulo Preto, Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa-SP, aquele companheiro “deixado à beira da estrada” por José Serra em 2010, que mergulhou no anonimato por sete anos, até que o doleiro Adir Assad propôs um acordo de delação premiada à Lava Jato no qual afirma ter repassado e ale cerca de R$ 100 milhões, entre 2007 e 2010, na gestão José Serra (PSDB) no governo de São Paulo.

Assad, preso e condenado, quer fazer um acordo de delação premiada e fez vazar quanto e de quem recebeu e a quem repassou recursos das obras do Ridoanel e de outros contratos do Governo paulista, diz o Estadão.



Não é pouco dinheiro,os pagamentos somaram R$ 1,3 bilhão , provenientes, na maioria, da Andrade Gutierrez, UTC,Delta Engenharia, Serveng-Civilsan, Galvão Engenharia e Mendes Júnior, entre outras.

Mas a matéria do jornal paulista diz que os promotores não estão muito interessados no que Assad quer contar.

Delações premiadas, como a de executivos e ex-executivos da Odebrecht, e a negociação do empresário Fernando Cavendish, da Delta, citam o nome do operador. A tentativa de acordo é vista como a chance de Assad obter algum benefício no cumprimento da pena. Como a força-tarefa já detém uma série de informações sobre suas operações, Assad está atrás na corrida das negociações e enfrenta a resistência do Ministério Público Federal.

Assad, condenado na primeira instância, continua preso. Não é verdade que as “alongadas prisões” de Curitiba sirvam apenas para fazer falar.

Às vezes podem servir para que não se fale além do desejado.
Posted: 05 Mar 2017 06:41 AM PST
Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:

Dentro de quase sessenta dias o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá que comparecer a Curitiba para ser interrogado pelo juiz Sergio Moro no âmbito de um dos vários processos abertos contra si recentemente. Esse interrogatório está marcado para 3 de maio.

Curitiba, vale lembrar, é hoje uma das cidades mais antipetistas do Brasil. Provavelmente, mais do que São Paulo. Lula irá depor no ambiente mais hostil a si em todo o país.

O antipetismo das classes média e alta curitibanas se deve, obviamente, a ser lá, na capital paranaense, o Quartel General do Juiz Sergio Moro, bem como da Operação Lava Jato, até aqui meramente uma caçada ao PT e a aliados e ex-aliados do PT.

Basta ir a qualquer fórum antipetista nas redes sociais para ver que já surgem planos de ataque a Lula quando for a Curitiba depor. Não surpreende, pois, que o antipetismo da Morolândia queira ir ao depoimento de Lula, até para produzir imagens para os telejornais.

Cenas de Lula sendo insultado por manifestantes quando chegar às cercanias do recinto onde será interrogado já são objeto de desejo não só da mídia antipetista, mas de cada um dos buracos onde o fascismo tupininquim se esconde.

Mas também há boatos de que estaria havendo articulação de movimentos sociais da região para irem apoiar Lula em um momento em que seus inimigos tentarão extrair lucro político do processo judicial em questão.

O anúncio público do depoimento de Lula não deixa outra solução à militância petista que não seja se organizar para se contrapor aos ataques que o ex-presidente fatalmente receberá da militância antipetista quando chegar ao local determinado por Moro para o interrogatório.

Vale, pois, uma reflexão sobre como enfrentar a direita curitibana.

Curitiba é uma das cidades brasileiras na qual a esquerda vive encurralada por uma maioria reacionária, truculenta e disposta a tudo para falar mais alto. Na verdade, o Paraná é um Estado “de direita”, em uma região onde a esquerda é mais fraca, o Sul.

É lícito supor, então, que não será fácil organizar resistência ao ataque que está sendo preparado contra Lula. Gente de São Paulo e de outras partes do país terá que ir a Curitiba apoiar o presidente. Eu mesmo já estou tratando de comprar minha passagem.
Posted: 05 Mar 2017 06:35 AM PST
Por Renato Rovai, em seu blog:

O blog Coluna do Estadão informa que o assessor especial de Temer, Sandro Mabel, que tinha cargo, não tinha salario e mandava no Palácio, pediu pra deixar o governo.

Evidente que a tal Coluna não cita que aqui nesta Fórum, no último dia 28, este blogue publicou que Sandra Mabel tem empresa no mesmo prédio onde está instalada a Stargate, de José Yunes, o “irmão” de Temer. E que dividia sala com Mabel quando estava no governo.

A Stargate, como o leitor mais habitual deste espaço sabe, é uma offshore que foi criada em 2001 no estado de Delaware. E que logo em seguida veio para o Brasil pelas mãos de José Yunes. Posteriormente foram sendo criadas outras empresas debaixo do guarda chuva da Stargate. O blogue também fez uma matéria que traz à tona a relação de empresas suspeitas neste caso.

O sócio principal de José Yunes é Arlito Caires Santos, que o blogue tentou entrevistar, mas que não deu retorno. Aliás, todos os citados nas matérias até agora publicadas. O silêncio foi a opção de todos.

Outro fato curioso é que no mesmo dia em que Mabel anuncia sua saída do governo, Yunes tem um encontro secreto com Temer num dentista. Qual o nome do dentista? Em que endereço fica? Quanto tempo durou o encontro? Isso tudo parece não interessar para o jornalismo sem investigação ou conexões.

Ao sair de lá Temer foi encontrar Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, numa sala da Fiesp. Por que na Fiesp? Por que Temer que se deslocou até ele? Por que não se encontraram os três amigos no tal dentista? Por que esconder o encontro com Yunes?

Mariz, Yunes e Temer são amigos comuns. Mas para a mídia a conversa de Mariz com Temer foi apenas sobre um suposto convite a Mariz para que este assumisse um carguinho no governo.

Parece muito mais óbvio que a conversa entre Temer e Yunes tenha sido sobre como se defender do que virá. Não só a respeito do dinheiro da Odebrecht entregue por Cláudio Funaro no escritório de Yunes, como também sobre os documentos do Panamá Papers. E que a demissão de Mabel tenha relação com isso.

Mariz é um dos principais advogados de São Paulo. E certamente fez sugestões para o presidente da melhor estratégia sobre o que virá. E muita coisa grande sobre os casos citados ainda está por vir.
Posted: 05 Mar 2017 06:29 AM PST
Por Luis Nassif, no Jornal GGN:

A Lava Jato enfim chegou a Paulo Preto, o principal operador do tucanato paulista com as empreiteiras, revela o Estadão (https://goo.gl/2IaqmR). Preso desde agosto do ano passado, Adir Assad decidiu abrir o jogo e admitiu ter entregue R$ 100 milhões a Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, ex-diretor da Desenvolvimento Rodoviário S/A (Dersa) no governo Serra, e visto como principal arrecadador do tucano.

Ele deixou as sombras na campanha de Serra, em 2012, quando vazou a informação de que supostamente teria se apropriado de recursos de campanha. Confrontado com o tema, Serra bateu em retirada e voltou imediatamente quando Paulo Preto proferiu a frase célebre: “não se deixa um amigo ferido no campo de batalha”.

Segundo informa o jornal, Assad admitiu ter se valido de empresas de fachada para lavar recursos de empreiteiras em obras viárias como a Nova Marginal do Tietê, o Rodoanel e o Complexo Jacu-Pêssego.

Segundo ele, os pagamentos eram em espécie para o caixa 2 das construtoras. Elas subcontratavam suas empresas, que recebiam os pagamentos, emitiam notas frias, e devolviam o dinheiro em espécie para as empreiteiras. No período 2007 a 2012 esse esquema movimentou R$ 1,3 bilhão.

Aparentemente, a delação de Assad vem com imensa riqueza de detalhes. Ele promete detalhar o funcionamento do sistema financeiro paralelo, o banco das propinas, das construtoras. Inclusive indicando o imóvel onde o dinheiro, em espécie, era armazenado.

O que chama a atenção:

1) Desde junho de 2015 a Procuradoria Geral da República tem um amplo relatório sobre as atividades de Assad. Não se sabe de nenhum inquérito que tenha batido no padrinho de Paulo Preto, José Serra. Aliás, nenhum tesoureiro tucano, embora sem prerrogativa de foro, foi incomodado até hoje.

2) Ao contrário de outras delações, Assad não apontou o nome de nenhum político beneficiário das propinas, alegando não ter provas contra eles. É evidente que não! O dinheiro é sempre entregue a intermediários, no caso Paulo Preto. Mas, em outras oportunidades, o Ministério Público Federal acatou as indicações de nomes de políticos, a partir das conversas dos delatores com os intermediários. Aparentemente, a não citação de Serra ou Alckmin foi mais um ato de benevolência do Procurador Geral da República Rodrigo Janot.

3) Segundo informa a reportagem, há resistência do Ministério Público Federal em aceitar a delação de Assad, alegando que já detém as informações que ele promete apresentar. No ano passado, Janot inviabilizou o depoimento de Léo Pinheiro, da OAS, que prometia detalhar o esquema de propinas do governo de São Paulo.

4) Desde março de 2015 Janot tinha um relatório oficial descrevendo a atuação de Adir Assad junto às empreiteiras que atuavam em São Paulo. Dois anos e nenhum inquérito foi aberto contra governantes paulistas.
Posted: 05 Mar 2017 06:06 AM PST
Por Aldo Arantes, no Blog do Renato:

No caminho da entrega de nossas riquezas, após o pré-sal e a abertura de nossa economia ao capital estrangeiro, o ilegítimo governo Temer resolveu acelerar a votação do projeto de lei que autoriza a venda de grandes extensões de terras a estrangeiros.

Demonstrando a pressa do governo em dar mais uma demonstração de sua política de colocar a economia brasileira a reboque dos interesses estrangeiros, o Ministro Chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, declarou que o projeto da venda de terras a estrangeiros deverá ser votado logo após o carnaval. Na mesma linha o Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou que a liberação da venda se daria em 30 dias.

O Projeto prevê que os investidores estrangeiros poderão comprar até 100 mil hectares de terras (1 mil km²) e arrendar outros 100. Segundo o InfoMoney cinco empresas brasileiras têm interesse direto na aprovação do projeto: SLC Agrícola, Vanguarda Agro, BrasilAgro, São Martinho e Cosan. É relevante destacar que a família do relator do Projeto, Deputado Newton Cardoso Júnior (PMDB-MG), também é interessada já que seu pai é proprietário do Grupo Newton Cardoso que atua em reflorestamento através da Florevale (Floresta Vale do Jequitinhonha ) , além de ter investimentos nas áreas de agropecuária e siderurgia.

O crescimento do interesse internacional na compra de terras em países da África e América Latina cresceu com a crise econômica, hídrica, energética e climática desde 2000, tendo acentuado em 2008. Análises do Banco Mundial indicaram que, antes de 2008, a comercialização de terras no mundo era, em média, de 4 milhões de hectares por ano. E que, entre 2008 e 2009 mais de 56 milhões de hectares foram comercializados, dos quais 70% na África. No Brasil e no restante da América Latina cresce o apetite das empresas estrangeiras. A lei que o governo pretende aprovar atende a estes interesses.

O papel do capital estrangeiro no desenvolvimento nacional sempre foi objeto de muita polêmica, com destaque especial para a venda de grandes extensões de terras já que esta medida implica no controle de partes do território nacional. Quando o tema esteve em pauta no governo da Presidenta Dilma, pretendia-se colocar um limite pequeno à compra de terras por estrangeiros. Tal posição terminou inviabilizando tal medida por oposição dos interessados em não se fixar limites. Segundo o relator do projeto “o mercado quer isenção de limite”. E, conforme sua avaliação, mais que 100 hectares é a necessidade mínima para um grande projeto de celulose.

Esta questão se relaciona com as exigências das multinacionais da mais ampla abertura da economia aos capitais estrangeiros. Tal diretriz passou a ser adotada pelo governo Collor e aprofundada no governo Fernando Henrique. Em seu governo foi assinada uma Carta de Intenções com o FMI onde ao citar que estava em curso um processo de “amplas reformas” o texto destaca a “Continuada abertura da economia através da liberalização do comércio e dos fluxos de capital, o que talvez seja o mais amplo programa de privatizações da história, a desmonopolização e desregulamentação dos setores chaves da economia”.

Esta é a política que está sendo seguida à risca pelo governo Temer. A polêmica sobre a participação de capitais estrangeiros em nossa economia esteve presente na Assembleia Nacional Constituinte se manifestando em torno do conceito de empresa nacional. Os setores democráticos e nacionalistas defendiam uma clara diferenciação entre empresa nacional e estrangeira. No debate, para driblar esta diferenciação, surgiu o conceito de empresa brasileira de capital nacional e empresa brasileira de capital estrangeiro.

Uma lei aprovada em 1971 proibia a venda de extensas áreas de terras a estrangeiros. Todavia permitia a compra áreas rurais por pessoas físicas residentes no território nacional, desde que não ultrapassasse vinte e cinco por cento da superfície dos municípios. Assim como a compra ou arrendamento não poderiam ultrapassar a 50 módulos rurais. Era livre a compra de áreas de até três módulos. A compra de terras por pessoas jurídicas para a Implantação de projetos industriais deveria ter pareceres dos Ministérios de Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Agricultura e obter uma autorização das autoridades federais.

Os defensores da abertura ao capital estrangeiro passaram a argumentam que os dispositivos da referida não foram recepcionados pela Constituição, sobretudo após a emenda n. 6 que revogou o artigo 171 da Constituição que fazia diferença entre empresa brasileira de capital nacional e empresa brasileira de capital estrangeiro. Em 1998, com base na emenda constitucional n. 6 a AGU deu parecer no sentido de que empresas nacionais e estrangeiras não poderiam ser tratadas de forma diferente e liberou a venda de terras a estrangeiros.

A partir de 2000 o temor da invasão estrangeira cresceu. Em 2010 a empresa chinesa Chongoing Grain Group anunciou a disposição de comprar 100 hectares de terras no oeste da Bahia para plantar soja,com investimentos de 300 milhões de US. No mesmo ano a AGU, em novo parecer, restabeleceu as restrições à venda de terras a estrangeiros.

Em fevereiro deste ano a SRB (Rural) assina a ADPF 342 para que se reconheça a incompatibilidade com a Constituição o tratamento diferenciado entre empresas nacionais de capital estrangeiro.

Com toda esta celeuma jurídica fica claro que a aprovação da lei em debate é essencial para destravar a venda de terras a estrangeiros. Daí a forte reação das entidades do movimento social.

Em nota crítica ao projeto de venda de terras aos estrangeiros a CONTAG, CIMI, MST, CONIC (Conselho das Igrejas Cristãs do Brasil) e mais inúmeras entidades da sociedade civil lançaram um alerta à sociedade onde afirmam que “vender terras significa vender biodiversidade, água, bens naturais, subsolo e o controle do nosso território”.

No debate sobre o projeto, realizado na Câmara no dia 22/02/2017, o representante da CNBB , Guilherme Delgado, afirmou que o texto é completamente inapropriado “vai na contramão dos regimes fundiários instituídos pela Constituição de 1988”. E o representante do Ministério da Defesa, Paulo Cézar Brandão , criticou o projeto afirmando que ele representa uma ameaça à soberania do País, pois retira do Estado a prerrogativa de monitoramento e controle sobre aquisições indiretas de terras por estrangeiros. Já para o Itamaraty a proposta vai na direção da não discriminação entre empresas brasileiras e controladas por estrangeiros.

O artigo 172 da Constituição estabelece a norma para o tratamento a ser dado ao capital estrangeiro al dispor que “ A lei disciplinará, com base no interesse nacional, os investimentos de capital estrangeiro, incentivará os reinvestimentos e regulará a remessa de lucros”. No entanto o que o chamado mercado quer é a liberdade completa do capital, sobretudo para o capital estrangeiro.

Segundo os defensores da iniciativa o Projeto asseguraria investimentos da ordem 50 bilhões de dólares. Todavia não se pode analisar tal iniciativa levando em conta somente o aspecto econômico ou mesmo jurídico. O tema tem um interesse político, pois envolve a soberania do país.

A venda de terras a estrangeiros é uma medida que acarreta graves prejuízos ao país. Concentra a propriedade de terras, mais ainda, prejudicando a produção de alimentos. Com isto coloca em risco a segurança alimentar podendo provocar o desabastecimento interno. Aumentará muito o preço da terra criando sérias dificuldades para que seja ampliada a política de reforma agrária além de dificultar a compra de terras por pequenos proprietários. E, o mais grave, representa uma séria ameaça à soberania nacional, pois partes de nosso território estarão sendo controlados por estrangeiros.

Por tudo isto os democratas e nacionalistas devem se colocar de forma firme e decidida contra mais este atentado ao patrimônio nacional.

* Aldo Arantes integrou a Subcomissão de Reforma Agrária da Constituinte de 1988, é membro da Comissão Política Nacional do PCdoB.
Posted: 05 Mar 2017 06:02 AM PST
Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

João Victor tinha 13 anos. É aquela idade em que você é leve, feliz. Sonha, ri à toa, tem a vida pela frente.

É a regra.

Mas essa regra vale pouco quando você vive num país tão injusto e tão desigual como o Brasil.

Neste sábado, João Victor deveria estar jogando bola com os amigos. Talvez trocando mensagens com aquela que viria a ser sua primeira namoradinha.

Mas João Victor está morto. Foi espancado até a morte por seguranças do Habib’s. Ele habitualmente pedia dinheiro para as pessoas que iam comer no Habib’s.

Um vídeo mostrou as circunstâncias da morte. Deveria provocar comoção nacional: João Victor aparece arrastado como um saco de cimento em seus momentos finais.

Mas nada. João Victor, nem passou uma semana, já foi esquecido. É um dos invisíveis da plutocracia brasileira.

Ele não parecia ter 13 anos. Como toda criança que nasce e cresce na miséria, era mirrado. No vídeo, parecia ter 7, 8 anos.

Você vê as imagens e sente uma vontade impotente de pegar aquela criança nos braços e dar-lhe o conforto possível.

Mas João Victor está morto. Agora é tarde demais para fazer qualquer coisa por ele.

E ele tinha 13. Só 13.

Quando vejo casos assim, me ocorre um pensador chamado John Rawls.

Ninguém formulou uma teoria tão engenhosa sobre uma sociedade justa quanto Rawls (1921-2002).

Em 1971, Rawls publicou um livro aclamado: “A Teoria da Justiça”.

A ideia central de Rawls era a seguinte: uma sociedade justa é aquela na qual, por conhecê-la e confiar nela, você aceitaria ser colocado de maneira randômica, aleatória.

Você estaria coberto pelo que Rawls chamou de “véu de ignorância” em relação à posição que lhe dariam, mas isso não seria um problema, uma vez que a sociedade é justa.

Você não acabaria numa favela. Você, onde quer que estivesse, teria acesso a escolas e hospitais públicos de alto nível, e coisas do gênero.

É mais ou menos o que acontece na Escandinávia. E é o oposto do que ocorre em lugares injustos como o Brasil.

João Victor, se nascesse na Dinamarca, estaria talvez andando de bicicleta agora. Seria, como típico adolescente nórdico, alto, forte e saudável.

Mas ele nasceu no Brasil. No amplo lado miserável nacional.

A ele coube ser um menino que pede dinheiro na frente de um restaurante.

A ele coube a invisibilidade social.

A ele coube a morte aos 13. Arrastado. Arrastado. Como. Um. Saco. De. Cimento.

Não choremos por ele lágrimas inúteis. Não fizemos nada por João Victor em sua vida breve. Chorar agora, tão tarde, chega a ser uma ofensa à memória dele.

Choremos por nós mesmos. Pelo nosso monstruoso fracasso em construir um país justo. Pela nossa criminosa tolerância diante de tamanha desigualdade.
Posted: 05 Mar 2017 05:53 AM PST
Por Antonio Luiz M. C. Costa, na revista CartaCapital:

Seria de esperar, após a eleição de Donald Trump, alguma autocrítica por parte dos executivos do Facebook, mais eficiente das ferramentas para a difusão dos boatos e mensagens de ódio que contribuem para a ascensão da ultradireita no mundo.

Foram anunciadas em janeiro ideias sobre consultar agências especializadas na veracidade de notícias e restringir anúncios pagos em publicações de produtores contumazes de falsidades, até agora com poucos resultados práticos, mas faltava uma reflexão mais geral sobre o papel da rede.

Na quinta-feira 16, Mark Zuckerberg por fim a proporcionou – e o resultado é tão assustador quanto a própria ascensão da extrema-direita. Nesse manifesto de 6 mil palavras, “Construir a Comunidade Global”, exibe-se a pretensão não de aperfeiçoar um produto, mas de substituir os quatro poderes, mídia incluída, e ditar o destino do mundo. Alguns excertos:

“Nosso próximo foco será desenvolver infraestrutura social para a comunidade – para nos apoiar, para nos manter seguros, para nos informar, para o engajamento cívico e para a inclusão de todos. A história é a narrativa de como aprendemos a conviver em números cada vez maiores, de tribos a cidades e nações. Hoje estamos perto do próximo passo. O Facebook propõe-se a construir uma comunidade global. Questiona-se se podemos fazê-la funcionar para todos e se o caminho é conectar mais ou voltar para trás. Vozes temerosas pedem a construção de muralhas.

Nosso sucesso não se baseia apenas em se podemos capturar vídeos e compartilhá-los com amigos. É sobre se estamos construindo uma comunidade que ajude a nos manter seguros, que previna danos, ajude nas crises e na posterior reconstrução. Nenhuma nação pode resolver esses problemas sozinha.

Os atuais sistemas da humanidade são insuficientes. Esperei muito por organizações e iniciativas para construir ferramentas de saúde e segurança por meio da tecnologia e fiquei surpreso por quão pouco foi tentado. Há uma oportunidade real de construir uma infraestrutura de segurança global e direcionei o Facebook para investir mais recursos para atender a essa necessidade”.


O Facebook, conhecido em toda parte por se esquivar de impostos e de responsabilidades legais e morais, propõe-se a exercer em escala mundial funções típicas de um governo – se não também de uma igreja – e ainda monopolizar o acesso à informação. Se Zuckerberg tivesse anunciado abertamente a intenção de se candidatar à Presidência dos EUA, como chegou a se especular há algumas semanas, seria menos preocupante.

Ganhar bilhões com convencer as pessoas a desnudar a alma na internet e vender informações sobre elas a empresas e políticos já é ruim o suficiente. Enquanto Hillary Clinton conduziu uma campanha pela tevê difundida ao público geral, Trump baseou-se na rede social para direcionar anúncios a segmentos específicos e testar as reações a pequenas variações.

Propaganda anti-imigração, por exemplo, foi especialmente direcionada aos fãs de The Walking Dead após se constatar uma forte correlação entre xenofobia e o gosto pelo seriado e escondida de setores (latinos, por exemplo) que a consideravam antipática.

Com esse manifesto o Facebook propõe-se, porém, não apenas a catalogar identidades, opiniões, preferências, relações sociais e comunidades para lucro financeiro ou político de terceiros, mas a moldá-las e administrá-las conforme a visão da equipe de Zuckerberg, que não presta contas à democracia nem a ninguém, enquanto torna cada vez mais dependente dessa “infraestrutura” a busca de relacionamentos sociais, afetivos e profissionais e até o deslocamento no mundo real: uma viagem à Florida pode hoje depender da abertura de uma conta na rede social às autoridades dos EUA e estas ficarem satisfeitas com o que virem.

À luz dessa realidade, estes trechos soam ameaçadores: “Em campanhas recentes, dos EUA à Índia, passando pela Europa, vimos vencerem os candidatos com seguidores (no Facebook) mais numerosos e entusiasmados. Podemos estabelecer o diálogo e a prestação de contas diretamente com os líderes eleitos”. Conforme pergunta uma jornalista do Guardian, Carole Cadwalladr, como reagiríamos se Zuckerberg se chamasse Mikhail e sua empresa fosse sediada em Moscou?

Acrescente-se que, no Brasil, 55% pensam que o Facebook é a internet, assim como 58% na Índia, 61% na Indonésia e 65% na Nigéria, diz pesquisa da revista Quartz de fevereiro de 2015. A maioria dessas pessoas jamais pagará assinaturas físicas ou digitais de jornais e revistas e aceitará a informação como for apresentada na rede de Zuckerberg.

A possibilidade de descobrir outra coisa nem sequer existe para os mais de 40 milhões de usuários da internet.org, parceria de Zuckerberg com empresas de telecomunicações que oferece conexão grátis limitada ao Facebook e Wikipédia em vários países da América Latina, África e Ásia.

A seleção dessa informação tem sido baseada em grande parte em usuários dispostos a prestar serviços gratuitos como cobaias, editores e curadores. Os algoritmos sabidamente selecionam o que é apresentado em função de preferências anteriores, pois os usuários permanecem mais tempo ligados e clicam mais anúncios se não forem tirados de suas zonas de conforto.

Como também é notório, a exclusão de postagens e a suspensão ou expulsão de usuários baseiam-se em critérios ridículos, indiferentes a mentiras, mensagens de ódio e cenas de violência, impiedosos contra imagens de mamilos e nus artísticos e submissos a qualquer grupo organizado disposto a denunciar em massa quem postar mensagens – na maioria das vezes, feministas ou antirracistas – que lhes desagradem. Como será no futuro?

Zuckerberg conta com inteligências artificiais capazes de assinalar postagens “ofensivas” e capacitar os usuários a fazer sua própria censura: “Onde está seu limite para nudez, violência, imagens chocantes e obscenidades? Você decidirá suas preferências pessoais. Para quem não tomar uma decisão, a configuração predefinida será da maioria das pessoas de sua região, como em um referendo”.

Quem morar em uma região conservadora, verá apenas mensagens selecionadas por critérios conservadores. Em tese poderá decidir por outros filtros, mas, se acaso conseguir decifrar o funcionamento dos opacos algoritmos da rede, seu inconformismo logo será óbvio para os demais usuários e as autoridades.

Ao menos caiu a máscara com a qual o Facebook se apresentava como uma plataforma neutra para mensagens de responsabilidade de terceiros. Admitiu uma agenda política com o objetivo de conformar o mundo ao seu gosto e a um ideal tecnocrático que, tanto quanto o autoritarismo racista de Trump e Le Pen, fede aos anos 1930 e neles foi satirizado por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo. Cabe a quem acredita na democracia desafiá-la e buscar os meios de tirar do monopólio privado os meios de ditar a opinião e o interesse público.
Posted: 05 Mar 2017 05:48 AM PST
Por Ricardo Kotscho, no blog Balaio do Kotscho:

A pergunta que não quer calar: por que Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), citado tantas vezes nas delações sobre as doações feitas pela Odebrecht ao PMDB, ainda não foi ouvido pela Lava Jato nem pelos jornalistas que fazem a cobertura diária da operação?

Até agora, pelo menos que eu tenha visto, não se tornou pública nenhuma declaração do empresário sobre o assunto.

O nome dele voltou a ser falado durante as quatro horas do depoimento de Marcelo Odebrecht, em Curitiba, nesta quarta-feira.

O ex-presidente da empreiteira contou que, antes do já célebre jantar com Michel Temer no Palácio do Jaburu, durante a campanha eleitoral de 2014, ele recebeu do executivo Cláudio Mello, um dos 77 delatores da Odebrecht, o pedido de R$ 6 milhões feito por Paulo Skaf para a sua campanha a governador de São Paulo.

Segundo Marcelo Odebrecht, a solução seria usar parte da verba total de R$ 10 milhões destinada ao grupo político de Temer, por intermédio do hoje ministro Eliseu Padilha, para a campanha de Skaf ao governo paulista.

Ou seja, o empresário-político (ou vice-versa) ficaria com a maior parte da bolada, mas, de acordo com Marcelo Odebrecht, parte do dinheiro não chegou a ser pago.

Desde que seu nome apareceu no noticiário sobre a Lava Jato, no entanto, Skaf sumiu misteriosamente de cena e agora só aparece em propagandas da Fiesp na televisão falando sobre as conquistas do Sesi (Serviço Social da Indústria).

Na eleição de 2014, o presidente da Fiesp ficou em segundo lugar, derrotado pelo governador Geraldo Alckmin, que foi reeleito no primeiro turno.

Criador dos patos amarelos espalhados na avenida Paulista e em Brasília durante a campanha pró-impeachment, Paulo Skaf está afastado do debate político e ainda não se sabe quais são seus planos para 2018.

Em tempo (atualizado às 12h40):

A assessoria de Paulo Skaf divulgou a seguinte nota:

"Todas as doações recebidas pela campanha de Paulo Skaf ao governo de São Paulo estão devidamente registradas na Justiça Eleitoral, que aprovou sua prestação de contas sem qualquer reparo. Paulo Skaf nunca pediu e nem autorizou ninguém a pedir qualquer contribuição de campanha que não as regularmente declaradas".
Posted: 05 Mar 2017 05:40 AM PST
Por Saul Leblon, no site Carta Maior:

Da usina de pós-verdades na qual se transformou o noticiário político e econômico salta o aviso de que o senhor Michel Temer se considera o grande credor da obra de Transposição do São Francisco, planejada, viabilizada e realizada desde 2005 pelos governos Lula e Dilma, sob os protestos costumeiros da secessão paulista.

Em uma pauta expressiva destes novos tempos, o jornal Valor (02/03/2018) ouviu de Temer um estupendo exemplar de pós-verdade e o transcreveu sem obtemperar: 'Temer acha que tirou da oposição mais de uma bandeira na área social. Entre elas, talvez a mais significativa, a bandeira da transposição do São Francisco, que Temer empunhou e promete levar até o fim. O presidente quer inaugurar já no dia 9 o eixo Leste da transposição...'

Os bravos escribas não tugiram, nem mugiram.

E assim, sem grunhir, rechearam uma das páginas mais pós-verdadeiras do jornalismo despejado atualmente sobre a sociedade brasileira.

Nela, o senhor Temer descreve a ‘fulminante’ espiral de retomada do crescimento - estamos falando do Brasil! - em uma economia carregada do maior contingente de desempregados da sua história.

Nada. Nenhuma linha de apego ao país real.

Treze milhões de zumbis econômicos (24 milhões, incluídos os que sobrevivem de ‘bicos’) ficaram fora do cardápio de um almoço que os jornalistas classificaram, talvez por isso, como ‘frugal’, descrevendo-o com a atenção minuciosa da qual se dispensaram na arguição do interlocutor.

Assim: ‘com uma agenda leve, pós-carnavalesca, Temer aproveitou para almoçar em sala contígua ao seu gabinete. Uma refeição frugal: salada, frango grelhado, carne, arroz - branco e integral - e feijão. De sobremesa, frutas e um pavê de creme e chocolate, de que se serviu duas vezes, com indisfarçável prazer’ (Valor, 02-03-2017)

Entre colheradas de pavê e descolamento do real, cometeu-se uma página inteira com a descrição desse país de vento em popa, ademais de tão justo que o teor de açúcar do governo chega a rivalizar com o do creme com chocolate.

‘Temer gaba-se de ter concedido 12,5%, além de ter zerado a fila de espera (do Bolsa Família’), continua o jornalismo pós-verdadeiro do Valor, que avança sem constrangimento para o cafezinho: ‘ 500 mil pessoas que estavam na fila puderam ser abrigadas pelo programa no lugar de outras 500 mil que recebiam o benefício indevidamente’. E a suprema confidencialidade que nasce de comensais saciados no ventre e na alma: ‘O presidente surpreende os convidados à mesa contando que foram detectadas pessoas com caminhonetes SUV de cabine dupla...’

Que horror....

Intervalo para engolir – e não é o pavê.

Embriagados com as oportunidades à mesa os profissionais do Valor não cogitaram checar os dados, coisa que até o UOL faria no dia seguinte, com resultados inesperados e nada frugais. (Veja: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/03/02/mesmo-com-crise-bolsa-familia-reduz-485-mil-beneficiarios-em-3-anos.ht)

Ao contrário do informado pelo senhor Temer, a reportagem, esse cacoete pré-pós-verdade, verificou que de 2016 para 2017 o número de inscritos no Bolsa Família sofreu uma redução inédita de quase 409 mil famílias .

Ou seja, cerca de um milhão de pessoas a menos gravitavam em torno do programa em um cenário improvável, observa o próprio UOL, em que o desemprego despeja um recorde histórico de 13 milhões de pessoas na soleira do limbo social.

O conjunto soa ainda mais intrigante diante da explicação oficial para a queda: a ‘purga’ na qual foram detectados ‘donos de caminhonetes SUV’.

‘De cabine dupla’, atalharia Temer.

Será o caso da alagoana Jéssica da Silva, 23, que vive com três filhos menores em uma pequena casa feita com pedaços de madeira e lona, na favela do Dique Estrada, periferia de Maceió?

Jéssica foi ouvida –esse cacoete ...-- pela reportagem do UOL .

O que contou guarda certa disparidade com a versão edulcorada saboreada gulosamente pelo Valor no almocinho frugal da Quarta-feira de Cinza, no Planalto.

‘No começo de 2016’, diz o UOL, ‘a desempregada teve sua então única fonte de renda --o Bolsa Família-- cortada e, hoje, diz passar por dificuldades de sustento’.

Não é a única.

A investigação (epa!) levada a cabo pelo UOL constatou a abrangência preocupante desse drama: ‘Ela é uma das integrantes do 1,1 milhão de famílias que tiveram o benefício suspenso pelo governo federal no ano passado. No mesmo período, outras 700 mil famílias entraram, ainda assim deixando um déficit superior a 400 mil beneficiários...’

É a turma da cabine dupla?

Quem se empanturrou do pavê de loroto açucarada no caso do Bolsa Família poderia redimir-se, ao menos, investigando agora qual é a cota real do senhor Temer na obra do São Francisco, que ele exibe como o caneco de ouro ‘tirado da oposição’.

Com um agravante neste caso

Não se trata apenas de um rapto material.

Os jornalistas do Valor sabem, ou deveriam saber. O ideário por trás da transposição do São Francisco colide com o cardápio de arrocho e demonização do papel indutor do Estado no desenvolvimento, contra o qual se fez o assalto ao poder de Agosto de 2016.

A obra do São Francisco deita raízes longas e profundas na outra margem do rio.

Lá estão as gerações que criaram a Petrobrás, que lutaram pelo seu monopólio, que foram às ruas pela Sudene e a reforma agrária, que brigaram pela soberania, pela industrialização, que resistiram ao golpe de 64, que fizeram as greves de 70/80 pelo salário digno, que elegeram um operário, fizeram a sua sucessora e nunca aceitaram o subdesenvolvimento e a miséria como uma etapa ‘natural’ do desenvolvimento.

Por ser tributária desse gigantesco caudal histórico a obra do São Francisco carrega em seus canais um jorro de identidade que o então Presidente Lula quis demarcar claramente.

Se os bravos jornalistas do Valor pesquisarem um pouco nos arquivos do próprio jornal encontrarão ali um artigo de dezembro de 2004 –‘Um Mestre em Brasil’.

Assinado pelo então Presidente Lula, o verdadeiro capitão da obra agora usurpada, homenageia um sertanejo da gema e intelectual ilustre que havia falecido há menos de um mês, em 20 de novembro.

A homenagem, reproduzida em vários veículos do país, diz que ‘a morte não representa a derradeira etapa na trajetória de um ser humano quando ele deixa ideias que podem inspirar um povo e mover uma nação’ .

Em seguida, o texto fixa um compromisso.

Uma profissão de fé associada à obra do São Francisco, que seria iniciada no ano seguinte.

Assim:

‘ (a transposição) levará água para matar a sede do Nordeste setentrional e irrigará 47 mil hectares de terras férteis, criando milhares de empregos diretos. Não vamos tirar água de quem já tem, mas estender a correnteza solidária desse rio republicano, que une o País úmido ao seco, para beneficiar milhões de vidas ressequidas de pão e cidadania. Serão dois canais, e o maior deles, com cerca de 400 quilômetros, cortará o Sertão com o nome de "Celso Furtado" (...) mais que nunca, somos herdeiros e responsáveis pela retomada de uma construção interrompida, cujo nome é Brasil, e cujo mestre inspirador (foi) Celso Monteiro Furtado’, concluía o artigo.

Qual será o destino desse compromisso histórico agora, num Brasil onde um pavê com chocolate lubrifica a digestão de pós-verdades em bocas adestradas a não mugir, nem tugir?

Leia, a seguir, o texto de Lula na íntegra:

*****

Mestre em Brasil

"A morte não representa a derradeira etapa na trajetória de um ser humano quando ele deixa idéias que podem inspirar um povo e mover uma nação. Esse, creio, é o caso do companheiro, mestre e amigo Celso Furtado. Não há homenagem maior a um intelectual do que reafirmar a atualidade de sua obra e o exemplo de sua postura pública.

Furtado gostava de apresentar-se como um servidor público e isso traduz bem o seu caráter, a sua visão de mundo e as suas escolhas - bem como os riscos, diante dos quais jamais recuou. Caso raro de sintonia entre a vida e a obra, sua integridade era incompatível com vetos políticos ou intelectuais a uma convicção histórica: a possibilidade de construir um Brasil próspero, justo e soberano.

Dito por muitos, esse triplo adjetivo ganha a opacidade das palavras órfãs de sentido e história. Aí reside a diferença de Furtado. Autonomia decisória para ele era um requisito indispensável à ampliação do bem-estar e à elevação humana de uma sociedade. Era, por assim dizer, um instrumento divisor na história das nações.

Essa marca forte do seu pensamento é que o diferencia - ontem, hoje e sempre - da ligeireza contábil de algumas escolas econômicas, cujos expoentes apressam-se em subestimar a atualidade de idéias distribuídas em 30 livros traduzidos em 15 idiomas. Celso Furtado não se subordinava a modelos prontos. Sua vasta cultura, seu conhecimento histórico, seu olhar profundo e sertanejo, voltavam-se sempre, e em primeiro lugar, para a realidade do País e a vida do seu povo.

Dessa imersão intelectual e humana, decantava as singularidades nacionais, localizava os gargalos seculares, as armadilhas da desigualdade. Extraía daí com serenidade e rigor as ferramentas e políticas para superá-las. Foi assim que se projetou sobre a nação, ainda em vida, como símbolo de um Brasil que não renuncia ao desenvolvimento e não abdica de um espaço no cenário mundial.

Quando ensina que o subdesenvolvimento não é uma etapa necessária e incontornável do desenvolvimento, mas uma engrenagem regressiva, assentada na aliança perversa entre estruturas injustas e assimetrias internacionais, ele resume cinco séculos de história e projeta uma agenda para o futuro. Mantidas essas relações, dizia o mestre nascido em Pombal, na Paraíba, em 1920, o acelerador da riqueza aciona o freio da distribuição e aprofunda a desigualdade, perpetuando a injustiça.

Desarmar essa engrenagem é a própria agenda do desenvolvimento. Requer paciência, sabedoria e responsabilidade. Em uma época de transição como a nossa, uma das prioridades que apontava era a urgente ampliação da margem de autonomia do País. Conversamos algumas vezes sobre isso, de forma sempre franca, gentil e serena, como era próprio do seu estilo. Posso dizer, portanto, que nossa política bem-sucedida de comércio exterior já permitiu ao Brasil romper um torniquete gigantesco trazido dos anos 90, quando o País especializou-se em consumir bens e serviços financiados com dinheiro externo, acumulando assim um déficit em contas correntes da ordem de US$ 200 bilhões em oito anos.

Na ótica de Celso Furtado, uma nação não é um milagre contábil, mas uma soma intencional de criatividade política para reverter circunstâncias, e coordenação estratégica para não desperdiçar recursos e oportunidades. E foi por acreditar que uma nação não é outra coisa senão a prevalência de consensos políticos capazes de superar a rigidez econômica, que ele rejeitou a lógica estreita dos que viam o Brasil como uma vocação essencialmente agrícola.

A industrialização brasileira teve em Furtado um planejador ousado e atuante, que mostrou na prática, durante os governos de Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart, que vantagens comparativas não são apenas um legado da natureza, mas uma construção histórica de cada povo.

Agora, meu governo vai estender o sonho de Furtado para os sertões do semi-árido mais distante. A obra de revitalização do São Francisco, que iniciaremos em 2005, levará água para

matar a sede do Nordeste setentrional e irrigará 47 mil hectares de terras férteis, criando milhares de empregos diretos. Não vamos prejudicar o velho Chico, mas investir em sua regeneração. Não vamos tirar água de quem já tem, mas estender a correnteza solidária desse rio republicano, que une o País úmido ao seco, para beneficiar milhões de vidas ressequidas de pão e cidadania. Serão dois canais, e o maior deles, com cerca de 400 quilômetros, cortará o Sertão com o nome de "Celso Furtado", simbolizando o fio de continuidade entre os ideais de duas gerações.

Essa mesma perspectiva inspirou-nos a lançar durante a XI Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento, a Unctad, realizada em junho, em São Paulo - e então dirigida pelo grande brasileiro Rubens Ricupero - o projeto de construção do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento. Cada ciclo histórico tem seu centro de formulação intelectual de referência estratégica. Nosso objetivo é criar um pólo de reflexão multilateral envolvendo intelectuais e governos de diferentes países, para aprofundar ideias e formular projetos inovadores de combate à fome, à pobreza e aos gargalos do desenvolvimento.

De novo, não se trata de uma homenagem póstuma, porque está em curso há meses e recebeu o apoio encorajador do próprio Celso Furtado. Trata-se, sim, de reafirmar o compromisso com uma obra de indiscutível atualidade. Agora, mais que nunca, somos herdeiros e responsáveis pela retomada de uma construção interrompida, cujo nome é Brasil, e cujo mestre inspirador chama-se Celso Monteiro Furtado."

Luiz Inácio Lula da Silva

Presidente da República

(dezembro de 2004)
Posted: 04 Mar 2017 07:06 PM PST
Por Altamiro Borges

Na conversa vazada em maio de 2016 entre o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e o lobista Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, o chefão da “suruba” golpista mostrou-se preocupado com os danos potenciais da midiática Lava-Jato e soltou a famosa frase de que era urgente “estancar a sangria” das investigações. Esta seria uma das motivações para o “golpe dos corruptos” que derrubou Dilma Rousseff e alçou ao poder a gangue de Michel Temer. Na ocasião, Romero Jucá afirmou que “todo mundo [está] na bandeja para ser comido”. De imediato, Sérgio Machado, que foi dirigente do PSDB e conhece os podres da sigla, respondeu: “O primeiro a ser comido vai ser o Aécio [Neves]... O Aécio não tem condição, a gente sabe disso, porra. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu participei de campanha do PSDB”.

De lá para cá, já se vai quase um ano, a mídia golpista evitou repisar do tema e o juiz Sergio Moro, o carrasco da Lava-Jato que tem uma obsessão doentia apenas contra Lula, nem convocou para depor o cambaleante tucano. Uma pergunta ficou no ar: quando Aécio Neves será “comido”? Nesta semana, finalmente, o presidente nacional do PSDB voltou a ficar exposto na janela. Em depoimento prestado na quinta-feira (2), ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura, Benedito Júnior, afirmou que a empreiteira doou R$ 9 milhões em caixa dois para campanha eleitoral do PSDB. Segundo garantiu, a ajuda foi pedida diretamente pelo senador Aécio Neves, que foi derrotado nas eleições presidenciais em 2014.

Segundo matéria do Jornal do Brasil, “Benedito Júnior afirmou que a Odebrecht repassou R$ 6 milhões para serem divididos pelas campanhas de Pimenta da Veiga (PSDB), Antonio Anastasia (PSDB) e Dimas Fabiano Toledo Júnior (PP) – filho de Dimas Toledo, ex-diretor de Furnas, acusado de operar esquema de propina na estatal. Segundo o depoimento, outros R$ 3 milhões foram para o publicitário Paulo Vasconcelos, responsável pela campanha de Aécio Neves”. Ainda de acordo com o JB, quando Benedito Júnior se preparava para dar mais detalhes sobre a propina para Aécio Neves, o ministro Herman Benjamin, do TSE, interrompeu seu depoimento. Algo bem estranho! Lembrou a ironia dos internautas quanto aos tucanos: “Não vem ao caso”!

Furnas e Cidade Administrativa

Mesmo assim, o estrago já estava feito, deixando a impressão de que o tucano está no ponto para ser “comido”. Até a Folha serrista, em editorial publicado neste sábado (4), intitulado “Sombras sobre Minas”, cobrou mais rigor nas apurações. “Tudo recomenda que não se ignorem simplesmente as afirmações do ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura”. O jornal ainda lembrou que as denúncias contra o tucano são recorrentes. “No mês passado – não no processo do TSE, mas nas investigações da Lava Jato –, ele [Benedito Júnior] já havia apontado um esquema de propinas nos contratos da Cidade Administrativa, obra inaugurada em 2010 pelo então governador Aécio Neves, ao custo de R$ 2,1 bilhões”.

Para complicar ainda mais a sua situação, no final de fevereiro mais dois fatos sinalizaram que Aécio Neves está na berlinda. O Tribunal Superior Eleitoral determinou que o PSDB explique as doações feitas em 2014 para a campanha do cambaleante. A ação, movida pelo PT, apontou diferenças entre o valor doado e o declarado à Justiça Eleitoral. O ex-presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo, afirmou em delação premiada que havia doado R$ 19 milhões ao tucano. Mas a sigla declarou ao TSE, na sua prestação de contas, que recebeu R$ 12,6 milhões – uma diferença de R$ 6,4 milhões. Até agora o PSDB não respondeu ao despacho do ministro Napoleão Maia.

Também no final de fevereiro, com mais de dois anos de atraso, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, finalmente pediu ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, que sejam tomados os depoimentos do senador mineiro sobre a existência de um esquema de corrupção em Furnas. Segundo o jornal Estadão, caso o ministro tucano do STF autorize o pedido, “será a primeira vez que Aécio Neves irá depor aos investigadores do caso Furnas”. Ainda de acordo com o jornalão, Rodrigo Janot – o paquiderme – quer apurar a versão apresentada pelo lobista Fernando Horneaux de Moura de que o grão-tucano interferiu pessoalmente para que o então diretor de Furnas, o notório corrupto Dimas Toledo, fosse mantido no cargo.

Moro e Aécio "tem um caso"

Estes e outros fatos confirmam a conversa entre Romero Jucá, o cafetão da “suruba golpista”, e o lobista Sérgio Machado de que Aécio Neves seria “o primeiro a ser comido” como decorrência das investigações sobre a corrupção. Será que agora o juiz Sérgio Moro vai convocar o cambaleante para depor? Será que o presidente do PSDB está prestes a curtir os prazeres da vida na cadeia? Pelo histórico da midiática Lava-Jato, não dá para acreditar nestas hipóteses. Afinal, Sergio Moro parece ser muito amigo de Aécio Neves. Na última cena registrada entre os dois, durante um convescote da revista mercenária IstoÉ – também chamada de “QuantoÉ” –, o “justiceiro” e o cambaleante apareceram trocando afagos. Como ironizou José Simão na ocasião, até parecia que “eles têm um caso”. Se depender de Sérgio Moro, Aécio Neves nunca será comido!

Em tempo: um breve relato do Jornal do Brasil na semana passada confirma que Aécio Neves está tranquilo e fogoso. Ele sabe que tem as costas quentes, principalmente no Judiciário. “O condomínio luxuoso Aldeia da Praia, em Guarapari, onde as famílias mais endinheiradas do Espírito Santo têm propriedades, foi o destino escolhido pelo senador Aécio Neves para passar o Carnaval. Ele ficou hospedado na casa do Flamarion Wanderley – herdeiro da Cowan, uma das maiores empreiteiras do Brasil, conhecida por fazer grandiosas obras a serviço do governo. O fundador da empresa, Walduck Wanderley, inclusive, sempre fez questão de lembrar que não existem freiras no mundo das empreiteiras. Bem à vontade, Aécio Neves tomou banho de mar com direito a sunga azul”. De fato, ele não teme ser comido!

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