A Brasileiros conversou com Jorge Alfredo Guimarães, compositor da canção “Rato Miúdo”, que foi censurada durante a ditadura militar e “relançada” neste mês
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Gilberto Gil e Jorge Alfredo – 1980
“Por ter sido julgado incapaz definitivamente podendo exercer atividade civis”. Este é o refrão da música Rato Miúdo, composta por Jorge Alfredo, em 1975, interpretada por Gilberto Gil e posteriormente censurada pela ditadura militar por fazer referência à dispensa no serviço militar. 
Depois de 41 anos da censura, a música inédita surge no Youtube  como uma surpresa para os fãs e para o próprio Gil. O compositor Jorge Alfredo conversou com a Brasileiros e contou um pouco da história desta pérola. “Aos dezoito anos de idade, como é de praxe, fui obter meu certificado de reservista. Foi quando li, surpreso, o que estava escrito: “por ter sido julgado incapaz  definitivamente podendo exercer atividade civis”. Mas nem dei muita bola porque, na verdade, senti um alívio de ser dispensado do serviço militar. Era 1968, tempo de AI-5, o período mais cruel da ditadura. Mas depois comecei a questionar esse atestado de “incapacidade” e essa “concessão para atividades civis”. Pensando bem, é algo absurdo, não? Aí surgiu o Rato Miúdo“. 
Na última semana, após o “lançamento” da música, Gilberto Gil postou um vídeo em sua página do Facebook ouvindo a canção ao lado de seus familiares. “Achei uma fita de rolo da gravação base, que sempre esteve guarda comigo desde 1975. Digitalizei e postei no Youtube. Valeu! Me emocionei ao ver Gil emocionado cantando e ouvindo ao lado dos filhos e da netinha recém-nascida. Foi lindo!”
Jorge é baiano e convivia com Gil e Caetano desde a Tropicália, época em que o compositor descreve como um momento determinante para seus padrões de comportamento, cultura e formação intelectual. Em 1975, se mudou para o Rio junto com Caetano e Dedé Veloso. “No Rio, morando com o casal Veloso, eu tive acesso às pessoas mais incríveis e aos momentos mais marcantes da minha vida. Viver aquela cena cultural foi como um curso de pós-graduação em Artes e Costumes”.
Leia a entrevista completa
Gil e Jorge no Cine Ceará em 2006. Foto de João Sampaio
Gil e Jorge no Cine Ceará, em 2006. Foto de João Sampaio

Brasileiros – Jorge, conte um pouco sobre você. Como começou sua relação com a música?Jorge Alfredo – Aos 12 anos eu comecei a tocar no violão músicas do cancioneiro popular, mas o que eu mais gostava mesmo era de ler poesia e escrever versos. Escutar música sempre foi uma paixão à parte.  A erudita e a popular. Ao vivo ou na vitrola. Sempre prestei muita atenção a tudo que fazia sucesso mesmo que parecesse de mau gosto. Achava muito interessante o poder de comunicação de alguns artistas.  No cinema e na televisão, no rádio e nos livros, nas feiras livres e nas conversas. Mas sempre prestei muita atenção  também àquilo que não fazia assim tanto sucesso. Acho que eu sempre pretendi estar pronto e apto para fazer cinema. E tentei desde cedo praticar todas as artes possíveis.
Como começou sua relação com o Gilberto Gil?O movimento da Tropicália e os seus desdobramentos chegaram com muita intensidade até mim. Mas, aquilo que me agradava por demais como expressão artística,  também se caracterizou como atitude, como liberdade corporal, uma mistura de cultura e afeto, quando eu me aproximei do Gil e Caetano quando eles retornaram do exílio londrino em 1972 e vieram morar em Salvador. A nossa turma era grande, duas ou três gerações muito talentosas e interessantes.
Vocês tocavam juntos?Gil um dia me convidou pra ir a sua casa, em Salvador, gravar umas músicas minhas pra ele levar pro Rio e mostrar na gravadora. Pegou o violão e foi tocando junto comigo. Cantei seis músicas minhas. Quando ele retornou do Rio me disse que Roberto Menescal havia gostado das músicas, mas não muito do cantor. Tempos depois, ele novamente me convidou a sua casa para ensaiarmos uma participação especial dele no show de lançamento do meu primeiro disco. Mais tarde, ele cantou um jingle que eu fiz pra campanha política de Juca Ferreira, pelo Partido Verde.
Qual é a história da música Rato Miúdo, surgiu por conta de sua reservista?Aos dezoito anos de idade, como é de praxe fui obter meu certificado de reservista. Foi quando li, surpreso, o que estava escrito: “por ter sido julgado incapaz  definitivamente podendo exercer atividade civis”. Mas, nem dei muita bola porque, na verdade, senti um alívio de estar sendo dispensado do serviço militar. Era 1968, tempo de AI-5, o período mais cruel da Ditadura. Mas, depois, comecei a questionar esse atestado de “incapacidade” e essa “concessão para atividades civis”. Pensando bem, é algo absurdo, não? Aí surgiu o Rato Miúdo. Essa música fazia sucesso entre os amigos. Armandinho Macedo fez um arranjo muito bonito e eu cantava no show SALVE O PRAZER, que além de Salvador, também fez parte do lendário evento Feira da Bahia, em 1975, no Anhembi, São Paulo. 
Por que o Gil quis gravar a música?Rato Miúdo era uma das músicas que gravamos na casa dele pra ele levar pro Rio. Creio que ele quis me lançar como compositor, já que a Phonogram não me quis como cantor. Ele me perguntou quais das músicas eu preferia que ele cantasse, e eu escolhi Rato Miúdo.
A gravação foi feita antes ou depois da prisão de Gil? Vocês mantiveram contato nesse período?Em junho de 1975, portanto depois da Feira da Bahia, eu decidi  tentar gravar meu tão sonhado primeiro disco. Fui pro Rio porque eu já havia morado lá em 1962, gostava muito da cidade e Caetano e Dedé me acolheram na casa deles por um tempo. A gravação do disco Refazenda foi nesse período. Eu assisti a convite de Gil a gravação da base de Rato Miúdo. A gravação do disco Refazenda foi anterior a prisão de Gil, que aconteceu em 1976, durante a excursão do show Doces Bárbaros.
Em seu blog você fala que o período em que esteve no Rio marcou sua vida para sempre. Por quê?Se em Salvador, nos anos 1973 e 1974, tudo foi muito determinante pra minha vida em termos de comportamento, formação musical e intelectual, no segundo semestre de 1975, no Rio, morando com o casal Veloso, eu tive acesso às pessoas mais incríveis e aos momentos mais marcantes da minha vida. Viver aquela cena cultural foi como um curso de pós-graduação em Artes e Costumes. E a marca indelével foi o nascimento em julho de 1976 da minha primeira filha, Flávia Luanda.
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Nota sobre a censura da música “Rato Miudo”
A música foi censurada devido ao refrão. Você chegou a receber algum parecer do departamento de censura?Eu não tive nenhum contato direto com o departamento de censura. Uma pessoa da gravadora ou da editora, não sei, foi até onde eu estava hospedado e me comunicou que a música estava censurada devido à utilização dos termos que constam do meu certificado de reservista e teve que ser retirada do show e do disco. Gil já estava cantando Rato Miúdo nos shows. Essa pessoa me entregou um dinheiro num envelope e me disse que eu tinha direito por causa dos shows realizados até antes da proibição. Foi só isso. Em nenhum momento eu tentei saber mais sobre o que estava acontecendo. O País passava por um período conturbado. Não havia transparência em nada. As coisas eram camufladas…
Depois da censura vocês mantiveram contato?Eu retornei pra Salvador pro Natal de 1975. O contato com Gil permaneceu o de sempre. Amadureci muito como pessoa e como artista com a estadia carioca. Só consegui ter uma música lançada em disco em 1978, com Assim Preto, Brasa Branca, cantada por Diana Pequeno. Gravei meu primeiro Lp em 1979, em São Paulo, na Copacabana Discos.  Entre 76 e 78, ano que fui morar em São Paulo, fiz muitos show pelo nordeste. Sucesso popular, só aconteceu em 1980, com Rasta Pé, Música Alegre e Vestido de Prata. Em 1983 fiz minhas últimas apresentações no palco e me dediquei a outras coisas, que resultaram em fazer cinema a partir 1987. No lançamento do meu LP, em 1980, Gil fez uma participação especial e, mais tarde, no meu filme Samba Riachão, ele tem uma participação boa como depoente. Admiro muito Gil e lhe quero muito bem.
Por que esperar até 2016 para liberar a faixa inédita?Eu achei uma fita de rolo da gravação base, que sempre esteve guarda comigo desde 1975. Digitalizei e postei no Youtube. Valeu! Me emocionei ao ver Gil emocionado cantando e ouvindo ao lado dos filhos e da netinha recém-nascida. Foi lindo! A pergunta é a seguinte; porque esperei 41 anos pra divulgar a gravação? É que hoje tem a facilidade dessas mídias sociais. Antes, eu mostra pro amigos  numa cópia K7. Aí o k7 caiu em desuso. A fita de rolo permaneceu guardada todo esse tempo. O Youtube fez o milagre da comunicação. Eu ainda tenho a esperança que um dia Gil conclua os arranjos e lance Rato Miúdo.
O pesquisador Marcelo Fróes divulgou que  a canção foi gravada junto com Sitio do Pica-Pau Amarelo e Gaivota no ano seguinte ao de lançamento de “Refazenda”. Você se recorda da sessão de estúdio? A informação do Fróes procede?
Eu li os comentários dele. E vi que a equipe GG colocou a ERRATA. Gilberto Gil sabe quem gravou e quando; é só checar com ele. Agora, essa coisa de não ser no Refazenda é doideira. Minha aproximação maior com Gil foi durante o período de criação dele pro LP Refazenda, ainda em Salvador, na casa dele. Quando cheguei ao Rio, na casa de Caetano, fui eu quem cantei ao violão Pai e Mãe, Refazenda, que ele não conhecia. Ainda passei o “vexame” de cantar pra Milton Nascimento a pedido de Caetano. 41 anos depois vem um pesquisador falando do ano de 1998, e tal, com uma certeza absoluta dos fatos… O que é que eu posso dizer? De Gil, “eu só quero um xodó”!

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