quarta-feira, 12 de abril de 2017

12/4 - Altamiro Borges DE HOJE

Altamiro Borges


Posted: 12 Apr 2017 10:08 AM PDT
Por Tereza Cruvinel, em seu blog:

Os nove ministros que serão alvos de inquérito por autorização do ministro Luiz Fachin representam um terço do ministério de Michel Temer mas todos serão mantidos em seus cargos. Segundo parlamentares da base governista, prevalecerá a decisão já anunciada por Temer, quando das denúncias contra ele e Padilha, de que afastará provisoriamente os que se tornarem réus e definitivamente os que forem condenados. 

Como nada disso deve acontecer em seu mandato, este será o governo com o maior número de acusados de corrupção de toda a história republicana. Aliás, delatado, o próprio Temer só não é investigado porque desfruta da imunidade temporária, em se tratando de atos cometidos fora do exercício do mandato, quando ainda não assumira o cargo.

Mas se as investigações comandadas por Janot correrem céleres, Temer pode ter que presentear o Brasil com mais uma situação singular. Se Janot apresentar as denúncias a curto prazo, os denunciados terão que ser afastados temporariamente, caso Temer honre a promessa. Isso terá que valer inclusive para seus dois arqueiros palacianos, Moreira e Padilha. E nós, pagadores de impostos, vamos bancar o afastado e o substituto. Afastado não perde o foro nem as vantagens do cargo.

A degradação se completa com a inclusão na lista de mais de um terço do Senado e 10% da Câmara dos deputados mas o pior é que estamos nos acostumando com tudo isso. Tudo já era esperado e faz parte de uma história conhecida, embora não conheçamos seu final.
Posted: 12 Apr 2017 10:03 AM PDT
Por Saul Leblon, no site Carta Maior:

O esbulho que se impôs ao país como sinônimo de redenção moral e material --a grande frente do dinheiro com a vigarice e o conservadorismo-- patina.

Com alguns dos principais personagens enredados na lambança que criticavam, em meio a renitentes sinais de desagregação econômica, a receita tropeça nos seus próprios termos.

Como um boxeador que esmurra o próprio queixo.

O queixo da economia, por exemplo, trincou.

Os golpes desferidos e os ensaiados são tão violentos que já romperam a própria blindagem de uma base política cujo instinto de sobrevivência dirige-se aos botes de salva-vidas, antes que se consuma o naufrágio de 2018.

A verdade é que o Governo do Dinheiro arruinou o Brasil.

O que emerge, em contornos cada vez mais nítidos, é uma desastrosa fuga para frente na qual apetites insaciáveis e candidatos a tornozeleira eletrônica combinam-se em um Projeto de Demolição Nacional.

Seu verdadeiro sentido é não ter projeto algum.

É na terra arrasada de salvaguardas regulatórias –leia-se, desprovida de normas que preservem os interesses das maiorias-- que pode prosperar a anacrônica agenda da restauração neoliberal almejada pelas elites locais e estrangeiras.

Recordes negativos se amarrotam na catraca de um jornalismo que mal consegue disfarçar a perplexidade diante do desastre que desautoriza hoje as manchetes otimistas do dia anterior.

Cantado em verso e prosa como o marco zero da recuperação, 2017 já ostenta uma coleção de recordes negativos desconcertantes.

É dele o pior janeiro do setor de serviços desde 2012.

E o pior janeiro em vendas de veículos novos desde 2006.

O pior janeiro em emplacamentos de caminhões novos desde 1997.

O pior janeiro dos supermercados de toda série histórica iniciada em 2001.

O pior fevereiro em transporte aéreo de passageiros desde 2013.

O pior fevereiro em lançamentos imobiliários na cidade de São Paulo desde 2006.

O pior fevereiro da história das contas pública, com déficit fiscal recorde.

O pior déficit da história do INSS em toda série iniciada em 2001.

E o pior trimestre (dezembro/fevereiro) da série histórica de desemprego do IBGE, desde 2001...

Assim por diante.

O que os leva a persistir numa receita em que o arrocho agrava a recessão, que derruba a receita e estoura as metas para o déficit fiscal, sem que a aliança carnal com a Febraban e o rentismo permita reduzir, de fato, o juro real, apesar de a inflação já ter recuado abaixo do centro da meta?

A motosserra conservadora, na verdade, foi acionada para outra coisa.

A prioridade real é ceifar os brotos do país menos desigual, mais independente e democrático semeados nos últimos doze anos.

Ainda que para isso seja preciso derrubar a floresta inteira e produzir um desmanche inédito, as conquistas e avanços sociais, salariais e políticos sedimentados nesse período são a prioridade.

Condenados como eles estarão suas cepas de origem.

Da CLT, do primeiro Vargas, ao BNDES, do seu segundo governo, passando pela Previdência e demais direitos universalizados na Carta Cidadã, de Ulisses Guimarães, de 1988.

O casco faz água diante da impopularidade dessa agenda e a baldeação nas fileiras aliadas impõe recuos quase diários.

No Nordeste, governadores –arrastados pelo povo-- já ensaiam uma frente pró- ‘Lula-2018’.

Mesmo assim, o gigantismo dos interesses empenhados no arrastão ‘reformista’ não pode ser subestimado.

Um passo necessário para enfrentar o colosso que se avoca a universalidade, a ética e a única alternativa ao ‘caos’, é desautorizar a fatalidade com um outro futuro.

Esse, por exemplo: ‘o futuro do Brasil é ser uma democracia social, não um anexo do sistema financeiro’.

Para isso deve servir a economia, o mercado e o sistema bancário.

Sobretudo, porém, para abrir um novo ciclo de desenvolvimento quando o anterior se esgotou, como é o caso, é preciso ouvir o povo.

Soa trivial.

Mas é a ruptura com a engrenagem que mastiga a nação nos dentes da fatalidade do arrocho.

Todas instâncias republicanas criadas com independência para impedir o rapto do Estado pelo interesse unilateral, perfilam hoje no mutirão antissocial e antinacional.

Do judiciário partidarizado, ao congresso capturado pela escória argentária, passando pela mídia oligopolizada, a voz que ecoa é sempre a do dinheiro, não a do povo.

As relações entre os dois lados nunca foram harmônicas.

Mas a contraposição atual contempla um agravante.

O poder desmesurado assumido pelo dinheiro na sua forma mais turbinada –a finança globalizada, a partir da qual todo capital age como capital estrangeiro em seu próprio país-- submete a agenda da sociedade a uma ditadura inédita dos mercados.

Se a democracia não der nomes aos bois, e reunir forças para devolve-los aos piquetes, será reduzida a um pasto de engorda desses interesses.

Essa é a prova crucial da luta pelo desenvolvimento em nosso tempo.

E a essência da encruzilhada brasileira.

Saber se a democracia é capaz de dizer ao dinheiro financeirizado que ele deve servir à sociedade e ao desenvolvimento.

Ou não servirá para nada.

Os ‘ajustadores’ vociferam o oposto.

O que eles informam diuturnamente à nação é que todas as instituições e arcabouços regulatórios --do congresso ao judiciário, passando pelas relações trabalhistas— devem ser colocados a serviço do arrocho.

Cada tijolo do alicerce nacional pode ser convocado a qualquer momento para o sacrifício da transfusão de ‘confiança aos mercados’

A insegurança é senhora. E a coação o seu idioma.

O subemprego reveste-se de virtude.

A instabilidade das famílias assalariadas é o novo normal.

A banca assegura dividendos recordes aos acionistas.

Mesmo cortando o crédito ao consumo e à produção.

Nutre-se nas tetas da dívida pública que nada mais é do que a contrapartida desmesurada da riqueza privada no país.

O conjunto dos escombros e ruínas define a tarefa central da resistência progressista hoje.

Qual seja, reconstruir os canais de decisão soberana da sociedade sobre o seu desenvolvimento.

Sem as ilusões.

A árdua tarefa de repactuar o futuro não garante um visto de ingresso no paraíso.

Trata-se, antes, de um desafio de arregimentação de forças e de negociação de pactos; portanto, de erguer linhas de passagem feitas de metas, prazos e ganhos na correlação de forças.

Mas não é pouco.

A brava Islândia, único país do mundo que na crise de 2008 recusou a salvar a banca em detrimento da população, fez até acordo com o FMI.

Mas saiu da crise menos desigual do que entrou.

Foi guiada por um pacto de futuro; escorou-se em plebiscitos e consultas populares; a sociedade pode discernir e separar, em cada passo, o negociável do intocável.

O oposto se deu nos EUA, para citar um exemplo reluzente de incapacidade da democracia de criar mecanismos para renovar o sistema econômico em favor do povo.

A desigualdade entre a base e o topo da pirâmide de renda norte-americana aumentou desde o colapso de 2008.

Houve forte corrosão na estrutura do emprego.

A confiança nas instituições e, portanto, no futuro, se estiolou.

Laços sociais e políticos se romperam.

Trump foi a resposta distorcida para uma expectativa de superação não contemplada pelos mecanismos de participação convencionais.

Por trás desses dois desfechos reverberam perguntas que o Governo do Dinheiro se avoca a prerrogativa de responder, mas que a democracia brasileira terá que tomar de volta para a sociedade.

Desenvolvimento para quem? Desenvolvimento para quê? Desenvolvimento como?

O desenvolvimento para a igualdade, a soberania, o bem-estar social e o equilíbrio ambiental requer uma poderosa fonte de excedente econômico, que gere os recursos necessários às promessas que ele encerra.

O setor que por sua capacidade de inovação e irradiação preenche os requisitos para esse salto ainda é a indústria.

Em um balanço recente, os economistas da Unicamp, Fernando Sarti e Célio Hiratuka, mostram que no Japão a proporção de gastos em P&D (inovação) na manufatura em relação ao setor de serviços é de 8 para 1.

Na Alemanha, de 6 por 1.

Na China, em 2011, para US$ 162 bilhões em gastos de P&D na manufatura, foram aplicados US$ 12 bilhões nos setores de serviços.

Nos EUA a relação é quase o dobro.

No Brasil, ao contrário, a tônica foi a brutal perda de dinamismo da indústria nos últimos anos.

Sua participação no PIB retrocedeu quase à metade, de cerca de 18% em meados dos anos 90, para apenas 9% agora.

Não é uma questão técnica.

Estamos no terreno das escolhas do futuro.

Estruturar um núcleo industrial reconciliado com a fronteira tecnológica, capaz de irradiar eficiência e produtividade para cadeias manufatureiras internas, é decisivo para pavimentar o chão firme capaz de sustentar os investimentos de uma verdadeira democracia social.

O pre-sal, a agricultura, a escala do mercado interno e o desafio ambiental credenciam o Brasil a um resgate industrializante que reconcilie o seu desenvolvimento com os ponteiros da história.

É uma tarefa política, insista-se. Nenhum impulso de mercado fará isso por nós.

Resgatar o elo perdido nas últimas décadas implica mexer com o juro obsceno que locupletou poucos e deslocou o investimento industrial para o rentismo.

Mas também com o câmbio, que mitiga a inflação às custas de um salto no coeficiente de importação industrial, transferindo demanda e empregos para o parque fabril chinês.

Nenhuma mudança acontecerá sem um Estado indutor e sem reverter a anemia do investimento público, garroteado pelo serviço de uma dívida pública que suga quase a metade da receita tributária.

A agenda do Governo do Dinheiro é o oposto.

Ela corrói os instrumentos públicos de coordenação do investimento (caso do esvaziamento do BNDES), privatiza e desmonta alavancas decisivas como a Petrobras e o pré-sal, desmonta sistemas e salvaguardas regulatórias, tanto de natureza social e trabalhista quanto ambiental, e subordina o destino da sociedade à ganancia viciosa da república rentista, da qual o Estado toma emprestado o recurso que deveria ser taxado.

A esse funeral da nação dá-se o nome de ‘consolidação fiscal’.

O véu espesso do noticiário cuida de sonegar a gravidade das escolhas em jogo com a ênfase na pauta da ‘corrupção’.

A dissimulação lubrifica a tese da inexorabilidade do arrocho.

Mais que isso.

Oculta o custo de uma captura do Estado pelo interesse financeiro, que atrofia a margem de decisão estratégica, levando o descrédito à política e às forças que se opõem à rendição neoliberal.

Explicitar esse conjunto de bloqueios –de natureza interna e externa, via liberação da conta de capitais-- é um requisito para devolver à democracia –ao povo— o poder hoje açambarcado pelo Governo do Dinheiro.

Essa é a preciosa fatia da soberania nacional que deve e pode ser resgatada.

Quem vê no capitalismo apenas um sistema econômico, e não a dominação política intrínseca à supremacia financeira atual, subestimará a importância da mobilização democrática para devolver ao desenvolvimento a sua finalidade social.

Não se trata, porém, de um agenda retórica para um futuro hipotético.

Ela está em pauta desde agora, desde já.

Expressa-se na resistência de rua ao arrocho e nas mobilizações necessárias para consolidar o direito a uma candidatura progressista em 2018.

Com uma diferença incontornável em relação às campanhas eleitorais do passado.

A rua não poderá mais recuar.

E a escuta forte da sociedade por um novo governo progressista terá que ser a norma, não a exceção.

Não custa lembrar que esse talvez tenha sido o principal erro do ciclo de governos progressistas interrompido pelo golpe de 2016.

Ao subestimar o papel central da organização popular, ele se tornou refém dos interesses descomunais incrustrados na representação política formal.

Essa que agora opera para subordinar integralmente o Estado ao mercado, assumindo-se como um Governo do Dinheiro, com uma agenda de demolição nacional.
Posted: 12 Apr 2017 09:54 AM PDT
Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:



É quase certo que não vá dar em nada a investigação – se houver – sobre o “pagamento de vantagens indevidas, não contabilizadas, no âmbito da campanha eleitoral de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República, nos anos de 1993 e 1997”, delatadas pelo empreiteiro Emílio Odebrecht.

Vai para Justiça de São Paulo – é preciso fazer comentários – e não custa para ser descartada na conta da prescrição.

Seja como for, não há punição maior para Fernando Henrique, nada que lhe doa mais do ter de recolher a sua plumagem de pavão, com que voltou, desde a crise do governo petista, a exibir, como sendo o pró-homem da República.

Passou anos jururu, como o homem mais detestado do Brasil pelo que fez a este país e agora gozava, incontido, do retorno da vaidade. Nem os do golpe que atiçou escapavam: “pinguela é o que temos”, disse de Michel Temer.

Nada foi adiante em seus tempos – onde o procurador era o engavetador geral da República – e, a esta altura, poucos remédios legais ainda não perderam a validade.

Mas agora, depois de ter endeusado as delações e os delatores, como se não soubesse como funciona a fábrica de salsichas da política, vê-se salpicado pelas memórias de um velho empreiteiro decadente.

Horas antes de ser atingido pela lama ainda arrogava-se candidato a “reconstruir uma base moral para o país”.

A esta altura da vida que maculou ao trair o que dizia e mandar que esquecessem o que escrevera, a condenação mais merecida à qual Fernando Henrique deve voltar é aquela da qual queria se libertar: a condenação ao ostracismo.
Posted: 12 Apr 2017 09:24 AM PDT
Por Haroldo Lima, no site Vermelho:

Nesta terça-feira (11), a turma da Lava Jato divulgou estrepitosamente uma lista de mais de 100 nomes citados em "delações premiadas" de executivos da Odebrecht. Da lista fazem parte muitos corruptos, mas, nessa lista, nem todos são iguais.

A partir da Lava Jato, instaurou-se no país uma moral abusiva, aética, contrária à Justiça e ao Direito. A partir de suspeitas, consistentes ou não, prende-se uma pessoa, sob a forma de "condução coercitiva", "prisão temporária" ou "preventiva", tudo isso aplicado arbitrariamente.

Depois vem a "tortura de tipo novo", sim, a tortura sem choque elétrico, nem pau-de-arara, mas que mantém uma pessoa presa sem culpa formada sob ameaça de que, se não fizer uma grande delação, seus familiares podem ser presos e sua empresa pode ir à falência. Aí surge a "delação premiada" que foi introduzida no Brasil a partir da Lei dos Crimes Hediondos, em 1990, Lei 8.072, no Governo de Collor, e que depois foi estendida a diversos outros casos.

A "delação premiada" incentiva e premia a traição. A traição, no código moral da humanidade é um gesto ignóbil, repugnante, baixo. Na história do mundo, o traidor mais conhecido foi Judas Iscariotes, que fez sua delação premiada traindo Cristo para receber o premio do perdão de suas dívidas e mais algum dinheiro. E ao matar, puseram Cristo ladeado por ladrões.

No Brasil a linhagem desprezível dos traidores tem nomes como Silvério dos Reis, que fez sua "delação premiada" traindo Tiradentes, para ter o perdão de dívidas que tinha para com a Corte Portuguesa; tem Domingos Fernandes Calabar, que passou para o lado dos holandeses que invadiam o Brasil, no século XVII, no Nordeste, para ser premiado com mais autoridade e terras; tem, nos tempos recentes, Jover Teles, que para ser premiado com a vida, entregou a vida de seus companheiros do PC do B à ditadura, na Chacina da Lapa; e tem, na atualidade, o senhor Michel Temer que traiu a pessoa que lhe escolhera como vice para chegar sem voto à presidência da República. Esses são os exemplos de "delações premiadas" no Brasil.

Mas a "delação premiada" é jurídica e constitucionalmente imoral porque, ao incentivar e ao premiar a traição, entra em contradição com o Direito brasileiro, posto que o artigo 61 do Código Penal estabelece que entre "as circunstâncias que sempre agravam a pena", "quando não constitui crime", está a traição, prevista no inciso "c" do referido artigo. Ao tratar de crime de homicídio, o mesmo Código volta a formular, em seu artigo 121, § 2, IV , que a pena a ser aplicada ao criminoso deve ser agravada, se houver "traição".

Então, uma lei que incentiva e premia uma prática condenada pelo Código Penal, como uma prática que agrava as penalidades, é uma lei ilegal, ilegítima, que sobrevive e ganha força porque cresce no país um Estado de exceção que a manipula, ao arrepio da Constituição.

E aí ocorrem situações bizarras. Ao preso, ameaçado de várias formas, é apresentada a alternativa de auferir vantagens substanciais, inclusive a de ser solto, se "dedurar" uma porção de gente. A outra alternativa é penar na cadeia indefinidamente. A hipótese desse preso e de pessoas ameaçadas virem a relatar fatos criados e a listar pessoas a esmo aparece com frequência. E, se o sistema de exceção que comanda tudo isso, promove os vazamentos seletivos ou resolve expor todos os nomes citados sem uma averiguação prévia sobre a veracidade do que foi delatado, ocorre o que sucedeu ontem, uma miscelânea é apresentada espetacularmente à Nação com uma centena de nomes, nivelados pela suspeição.

Um noticiário espalhafatoso, acompanhado da promessa de que o show vai continuar, deixa o povo desinformado e confuso. Porque, não há dúvida de que, naquela lista, talvez na maior parte dela, estejam pessoas envolvidas em corrupção, mas outras não estão. E quando se trata corruptos da mesma forma que não-corruptos, duas situações acontecem: favorece-se o corrupto colocando-o junto a pessoas de bem, e faz-se grande injustiça com pessoas de bem, nivelando-as a gente desonesta.

A espetacularização dos passos processuais e a generalização precipitada da suspeição levam ao fenômeno canhestro da formação da convicção sem provas e servem a outros objetivos que não à Justiça e ao combate à corrupção. Embaralha as coisas, induz propositadamente o povo ao erro, leva-o ao desânimo, a imaginar que está tudo perdido, que todo mundo é ladrão, que esse país não tem jeito, que a política não presta, que o que presta é a tirania.

A responsabilidade com as consequências antinacionais do que está acontecendo no país por conta das deformações da Lava Jato é grande. A engenharia brasileira de grandes projetos e obras, que era das mais bem preparadas do mundo, se esfarelou, funcionários e técnicos aos milhares foram demitidos, as empresas estrangeiras estão aí alegremente substituindo-as. Os grandes projetos estratégicos do país também foram escanteados, o submarino nuclear, o foguete de Alcântara, a inclusão social. E transmitimos ao mundo a noticia espantosa e ridícula, de que nossos grandes empresários são corruptos, honestos são os estrangeiros.

Quero dizer aqui que, em 1976, tendo sido preso na Chacina da Lapa, fui barbaramente torturado pela ditadura que me apresentava a opção da "delação premiada": se eu revelasse algumas coisas, especialmente a localização da gráfica clandestina do Partido, que estava sob minha responsabilidade, o prêmio era grande. Galhardamente rejeitei, preferi o sofrimento da tortura à traição, o que me dá hoje enorme satisfação.

Na relação dos citados ontem, de cambulhada com todos os outros, parto do princípio de que alguns lá estão injustamente. Há um pequeno grupo que conheço bem de perto, porque milito com eles há muitos anos e sei que é gente séria, batalhadora da causa patriótica, democrática e popular, gente simples e dedicada, cujos nomes estão ali injustamente, absurdamente postos.

Os que lhes conhecem, como eu, queremos lhes dizer que não se abatam, não se decepcionem, não desanimem com a injustiça e o destempero porque, continuando nossa luta obstinada, daremos um tranco nesse Estado paralelo de exceção que está pontificando no país, combateremos a corrupção com rigor e sem espalhafato e recolocaremos nosso país na senda do desenvolvimento e no império da Lei, queridas senadoras Vanessa Graziotini e Lídice da Mata, caro deputado federal Daniel Almeida, dileta deputada Manuela DÀvila, combativo deputado Eron Bezerra.

* Haroldo Lima é membro da Comissão Política Nacional do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil, foi preso político, torturado e anistiado.
Posted: 12 Apr 2017 05:44 AM PDT
Do site Lula:

Vazamentos falsos e seletivos de informações sigilosas, denuncismo mentiroso e perseguição política são algumas das principais causas para o momento de crise por que passa o país, e apenas com um governo democraticamente eleito pelo povo é que se pode dar início à superação desta crise.

Este é o resumo do que disse na manhã desta terça-feira (11) o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista ao vivo concedida por telefone à rádio Meio Norte, do Piauí. De acordo com Lula, o Estado precisa fazer com que as pessoas tenham oportunidade, fazendo com que a parte mais pobre da população possa aprticipar da economia, e não ser apenas vítima de políticas de arrocho. "Precisamos reconstruir o Brasil, porque tem gente torcendo para destruir o país", disse.

O ex-presidente falou também sobre a perseguição jurídica de que vem sendo alvo desde 2014, bem como de boatos que surgem de vez em quando de que ele poderia ter sua prisão decretada. "Isso nem me passa pela cabeça. Alguém para ser preso deve ter cometido um crime, e a polícia e a Justiça precisam ter provas para condenar uma pessoa. Estou há três anos ouvindo meu nome, há três anos esperando", afirmou o ex-presidente.

Para Lula, vazamentos de investigações sigilosas e de delações de políticos e empresários atrapalham o país, mas não o amedrontam:"Duvido que tenha um empresário neste país que possa dizer que o Lula pediu cinco centavos para ele. Já investigaram minha vida até na China, e podem continuar investigando. O que não dá é para conviver todos os dias com vazamentos mentirosos, com alguns canalhas vazando as coisas propositadamente. Isso cansou o Brasil. Tem gente que está fazendo deste denuncismo um modo de viver, e isso está quebrando o país."

Ao fim da entrevista, Lula falou das perspectivas de seu futuro político: "Eu quero dizer que, se for necessário, estou disposto a voltar a ser candidato a presidente da República. Meus adversários estão muito nervosos porque me batem há três anos e cada pesquisa que sai eu estou um pouco mais na frente. O Brasil não merece o sofrimento que está tendo, e só está tendo este sofrimento porque tem um governo que não tem credibilidade, em que as pessoas não confiam."
Posted: 12 Apr 2017 05:39 AM PDT
Por Gilberto Maringoni, na revista Fórum:

A lista de Fachin é devastadora por um motivo central: é suficientemente ampla e ecumênica para não ser acusada de parcial ou unidirecional. Ao mesmo tempo, seu potencial destrutivo pode colocar a pique todo o sistema político. Ela nos bate na cara gritando “Après moi le déluge! Après moi le déluge!”

E depois do dilúvio? Quem administrará as águas?

O rol de nomes e sobrenomes nela contido reafirma algo perceptível após as eleições de 2014, quando Dilma decidiu colocar a pique a credibilidade do voto popular nela depositada: não há um vetor com credibilidade para reorganizar o sistema. O estelionato eleitoral trouxe o desalento, exacerbou o sentimento antipolítica e descortinou o fascismo social que não ousava dizer seu nome.

Nos anos 1980, na derrocada da ditadura, o MDB (e depois o PMDB) se capacitou em longos anos de luta democrática para tocar o barco nos escombros do regime, tendo a Constituinte como Norte. Tornou-se um importante vetor ou baliza política. Em torno dele, todas as movimentações políticas se descortinaram.

Sua deslegitimação, no final da década, junto com a do governo Sarney, criou quatro anos de interregno na disputa de projetos – governos Collor e Itamar -, até que o PSDB ancorou-se solidamente no capital financeiro para impor um projeto político e econômico factível numa era de reorganização da divisão internacional do trabalho. Tornou-se o segundo vetor pós-democratização

O terceiro parâmetro a garantir a continuidade da disputa democrática foi o PT, a partir de três quebras da economia nacional patrocinadas pelas gestões de FHC. Sem romper totalmente com as diretrizes anteriores, a agremiação mostrou extrema competência nos primeiros anos para atuar na esteira do dinamismo externo (China), elevar o salário real com moderadas taxas de distribuição de renda e de crescimento do PIB. Sensivelmente, a vida melhorou para as camadas populares no período.

Lula investiu na expansão do mercado interno e teve notável êxito nisso. Não operou a etapa seguinte, liberar o excedente público para alavancar o investimento estatal e reduzir o impacto da crise externa. Implicaria uma elevação da temperatura do choque distributivo que optou por não fazer.

A derrocada do PT abriu as portas do caos. Nem o PMDB e nem o PSDB têm legitimidade popular e o projeto que empalmam, de inserção subordinada, não galvaniza forças significativas para além do capital financeiro. O projeto do golpe só funcionará com redução drástica dos salários reais e elevação exponencial dos juros básicos, o que resulta – entre outras coisas – em sobrevalorização cambial.

Ou seja, se de um lado a diretriz é reduzir custos de produção para atrair capital, na outra ponta, a defasagem cambial eleva objetivamente os mesmos custos internos. É uma conta que não fecha, ainda mais em uma economia em depressão.

A lista de Facchin chega nesse cenário. É bom que ela exista, mas não é solução para nada. Na corrida contra o tempo, tirando Lula, não há competidor sério para as eleições de 2018.

Mas um Lula desossado de projeto nacional – como aconteceu entre 2003-10, apesar dos bons ventos de fora – pode ser importante alento na luta contra as reformas, mas não reorganiza a lambança pós-golpe. Pode até reafirmá-la.

Lula é decisivo nesta conjuntura – 2017! – por ser o único fiapo de polo definidor de rumos futuros. Mantém densidade eleitoral e um recall no eleitorado pobre, inigualável por qualquer outro.

Mas Lula – ou outra força de esquerda – pede um projeto de desenvolvimento macroeconômico consistente. Querendo ou não o ex-presidente, sua postulação representa um aguçamento acelerado da luta de classes. Tornou-se não-palatável aos de cima neste momento, daí o esforço por tirá-lo do jogo.

O caminho será difícil e complexo. Mas ele não surgirá sem que se acentuem as divisões no bloco dominante e sem enfrentamento a partir de baixo.

Pode haver algum tipo de conciliação? Sim, mas não parece ser a tendência dominante na cena política.

A lista de Facchin parece ter o poder de dinamitar todos os navios.
Posted: 12 Apr 2017 05:27 AM PDT
Da revista CartaCapital:

O senador Aécio Neves (MG), presidente do PSDB, e o líder do governo Michel Temer no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), são os campeões de inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) com base nas delações da Odebrecht. Cada um deles responderá a cinco investigações diferentes. O senador Renan Calheiros (PMDB-AL), ex-presidente do Senado, aparece em seguida, com quatro inquéritos.

De acordo com documentos divulgados pelo jornal "O Estado de S. Paulo", Aécio é alvo de pedidos de investigação relacionados à campanha presidencial de 2014, às eleições ao governo de Minas em 2010, às obras da Cidade Administrativa de Minas e aos empreendimentos do Rio Madeira e das usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau.

Um dos pedidos de investigação diz respeito à campanha eleitoral de 2014, quando Aécio teria solicitado à Odebrecht ajuda para sua campanha. Em depoimento ao TSE, Marcelo Odebrecht afirmou que o tucano pediu 15 milhões de reais à empreiteira.

Em um segundo inquérito, o tucano é alvo de delações de Cláudio Melo Filho, Marcelo Odebrecht e Sérgio Luiz Neves, segundo as quais foi prometido ou efetuado, a pedido de Aécio, o pagamento de vantagens indevidas em benefício de seus aliados políticos durante as eleições de 2014.

Outro pedido relaciona-se a supostos recursos irregulares recebidos pelo senador Antonio Anastasia, ex-governador mineiro, durante sua campanha eleitoral ao governo estadual em 2010. Segundo a denúncia, Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Luiz Neves apontam "por meio de declaração e prova documental" que o pagamento foi feito a pedido de Aécio.

Em mais um inquérito, o tucano é apontado por delatores da Odebrecht como beneficiário de recursos para atuar "em interesses da Odebrecht, notadamente nos empreendimentos do Rio Madeira e nas usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau".

Por fim, uma investigação foi aberta para apurar um esquema de fraude em licitações, supostamente organizado por Aécio, na construção da Cidade Administrativa de Minas Gerais, sede oficial do governo estadual. O pedido de investigação foi feito com base nas declarações de Luiz Neves e Silva Júnior à Justiça.

Por meio de nota, Aécio diz considerar importante o fim do sigilo sobre o conteúdo das delações e afirma que "assim será possível desmascarar as mentiras e demonstrar a absoluta correção de sua conduta"

Ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves disputou as eleições presidenciais de 2014 e, após a derrota para Dilma Rousseff, denunciou a campanha "sórdida" feita contra ele. Seu partido e o próprio Aécio ajudaram a fomentar a campanha a favor do impeachment de Dilma, calcada no combate à corrupção.

O passar do tempo, entretanto, encurralou Aécio. Em 2016, ele surgiu nas gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro Sergio Machado com caciques do PMDB. "Quem não conhece o esquema do Aécio?", perguntava Sergio Machado a Romero Jucá em um dos diálogos. Em outra conversa, com Renan Calheiros, o então presidente do Senado afirmava que o tucano "estava com medo" da delação de Delcídio do Amaral.

Mais recentemente, Aécio se tornou alvo das delações da Odebrecht, que vazaram quando executivos da empresa passaram a prestar depoimento ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na ação que pede a cassação da chapa Dilma-Temer, vitoriosa em 2014.

Romero Jucá

Os inquéritos contra Romero Jucá concentram-se principalmente na atuação do parlamentar para aprovar “legislações favoráveis ao interesse” da Odebrecht.

Romero Jucá foi implicado pelas delações prestadas por executivos da construtora, como Claudio Melo Filho, ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht, em cinco casos. Um dos inquéritos trata do pagamento de vantagem indevida efetuado pela construtora com o objetivo de aprovar a MP 651/2014. "Para tanto, forneceu-se notas técnicas ao Senador da República Romero Jucá, as quais foram transformadas em emendas pelo referido parlamentar (emendas 259, 262, 271 e 272)."

De acordo com o Ministério Público, nos encontros, Jucá teria solicitado R$150 mil em favor da campanha eleitoral de seu filho, Rodrigo Jucá, então candidato a vice-governador de Roraima, celeiro político da família. O repasse teria sido feito via doação oficial ao diretório do PMDB no estado.

Outro inquérito, formulado a partir das delações de Melo Filho e Marcelo Odebrecht, refere-se ao pagamento de R$5 milhões ao senador, com a finalidade de obter aprovação da MP 627/2013. Nesse caso, segundo as informações do inquérito, Jucá afirmou falar em nome do presidente do Senado, Renan Calheiros.

Outra atuação de Jucá, segundo o inquérito, foi no caso da aprovação da Resolução 72 pelo Senado Federal em 2012, no contexto da "Guerra dos Portos". A medida estabeleu percentual de 4% para todos os estados na tributação de produtos importados.

Na ocasião, em entrevista à Radio Senado, Jucá, autor do projeto, declarou que "A medida corrige um erro que está sendo cometido pelo Brasil". O senador teria sido procurado por Claudio Melo Filho para trabalhar pelo projeto e, por isso, segundo o inquérito, recebeu R$4 milhões do setor de Operações Estruturadas.

Em outro caso, também envolvendo a aprovação de legislações de interesse da Odebrecht (Medidas Provisórias 470/09, 472/10 e 613/13), foram destinados R$4 milhões para Romero Jucá e Renan Calheiros, "atuando o primeiro em nome do segundo".

Formulado a partir de outra delação, prestada por Henrique Serrano do Prado Valladares e José de Carvalho Filho, o quinto inquérito relaciona-se com a licitação da construção da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, em Rondônia, vencida pelo Grupo Odebrecht.

Segundo o Ministério Público, os delatores afirmam que a empresa vencedora estava sendo "alvo de ataques provenientes do governo federal" e, por isso, buscaram o deputado federal Eduardo Cunha, "visto como pessoa de forte influência em FURNAS".

O ex-presidente da Câmara dos Deputados, após reunir-se com representantes do Grupo Odebrecht, selou o compromisso de repasse de R$50 milhões aos parlamentares. Desses, R$10 milhões destinaram-se à Jucá, R$20 milhões ao próprio Cunha e R$10 milhões para o então presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT).

Jucá afirma em nota que sempre esteve e sempre estará à disposição da Justiça para prestar qualquer informação. "Nas minhas campanhas eleitorais sempre atuei dentro da legislação e tive todas as minhas contas aprovadas", afirmou o senador.
Posted: 12 Apr 2017 05:22 AM PDT
Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

Num país que desde 2005, data das primeiras denúncias da AP 470, assiste à criminalização da política e dos políticos, a lista de Edson Fachin – 8 ministros, 24 senadores, 39 deputados federais , 3 governadores – confirma aquilo que sempre se soube ou pelo menos sempre se imaginou.

As denuncias de desvios de recursos, abusos e corrupção pura e simples atingem (quase) tudo e (quase) todos, em especial aqueles que assumiram o poder de Estado a partir do impeachment de Dilma Rousseff.

(Não se pode deixar de registrar que até agora nenhuma denúncia criminal chegou a Dilma, afastada por um condomínio de conspiradores – apanhados em flagrante na lista de Fachin – reunidos para derrubar seu governo entre abril-agosto de 2016).

É uma lição vergonhosa – e um alerta precioso – a todos aqueles que, sem apoio no voto popular, se utilizaram da judicialização como instrumento político e, pela mentira ao povo e pela traição à democracia, ganharam acesso aos gabinetes que operam o poder do Estado brasileiro.

O melancólico destino do mensalão PSDB-MG, que até agora não apurou nem condenou nenhum acusado de boa plumagem, embora seja mais antigo do que a versão do mesmo esquema que levou à prisão o antigo núcleo dirigente do Partido dos Trabalhadores, sempre será uma advertência antiga, didática e indispensável. Confirma que, chamada a funcionar em ambiente de grande espetáculo, por trás das cortinas a Justiça costuma ser aplicada para proteger amigos e perseguir inimigos.

No mesmo caminho, no momento em que aproximava-se do governo Temer, o TSE foi colocado em férias coletivas.

Com oito ministros e uma porção luminosa de sua base parlamentar na lista, inclusive os presidentes da Câmara e do Senado, a permanência de Michel Temer a frente do Estado brasileiro ameaça tornar-se uma impossibilidade prática.

Desde o aliado principal, Eduardo Cunha, poupado até o momento em que cumpriu a tarefa de encaminhar o impeachment contra Dilma Rousseff, os pilares de sustentação estão desmoronando, um a um. Incapaz de aceitar o caráter de seu governo, nascido para ser transitório, Temer apenas agrava a própria situação quando multiplica iniciativas destrutivas, do ponto de vista das conquistas da população brasileira, e temerárias, do ponto de vista da democracia, imaginando que irá salvar-se em seminários entre Washington e Nova York.

Numa hora em que as máscaras caem e a farsa se desfaz, a prioridade absoluta é retornar a política, a partir da da compreensão de que não há saída fora do respeito a soberania popular. Não custa lembrar sempre. Com todos os seus defeitos a democracia é preferível às ditaduras, de qualquer tipo – inclusive um estado de exceção judicial.

Nos próximos dias, a lista de Fachin deve animar o debate em torno de ideias para tirar o país de uma crise cada vez mais grave. Não há muito para inovar nem é preciso distribuir prêmios de originalidade. Basta permitir ao povo escolher, em urna, quem irá governar o país em futuro breve. Os brasileiros e brasileiros manifestam essa vontade com clareza e veemência sempre que são perguntados. É hora de discutir como devem ser atendidos.
Posted: 12 Apr 2017 05:16 AM PDT
Por Osvaldo Bertolino, no site da Fundação Maurício Grabois:

Por qualquer ângulo que se olhe para Donald Trump, depois que ele ordenou o ataque dos Estados Unidos à Síria - com a conivência das potências europeias -, é impossível não ver um criminoso de guerra. Ele é o típico representante do Partido Republicano afinado com os chefes militares do Pentágono, os senhores da guerra que, pela natureza do regime norte-americano, são uma proeminente fonte de poder, o escalão mais importante e mais caro do governo dos Estados Unidos. São os operadores da “ordem militar” que hipertrofiou-se dos anos 1950 para cá.

Eles criaram a carnificina na Síria, que choca porque, primeiro, é cruenta; depois, porque forma assustadoras perspectivas. É, a rigor, uma guerra contra os povos, um genocídio. Com o poderio dos senhores da guerra, saíram de cena os sorridentes homens de relações públicas e entrou em ação a face da sinistra burocracia instalada na máquina mortífera do Departamento de Estado. Todos os fenômenos políticos e econômicos passaram a ser julgados à luz das interpretações militares da realidade.

Desde os anos da Segunda Guerra Mundial, essa força ampliou seu campo de ação em assuntos relativos à política exterior e doméstica. Atualmente, a ordem militar do poderoso Estado-Maior Conjunto está solidamente instalada no Estado. O “realismo militar” dos seus chefes transformou-se no guia mais inspirado dos grupos dirigentes do país.

Força bruta

Existem dois governos nos Estados Unidos — o que o mundo conhece pela mídia e as crianças norte-americanas estudam nos livros escolares, e o invisível, o que conduz a espionagem e a rede de informações, um aparato maciço que emprega centenas de milhares de pessoas secretamente e conduz a política externa do país. Esse governo invisível emergiu das imposições dos Estados Unidos no pós-Segunda Guerra Mundial.

Os demais países capitalistas centrais, exaustos pela guerra, foram obrigados a aceitar essa ordem em troca de ajuda para a sua reconstrução. Assim, os Estados Unidos deixaram de ser apenas mais um agregado no conjunto de países que lutavam por pedaços do mundo e passaram a ocupar o pico de uma pirâmide solidamente dirigida por eles — que funciona pela regra da força bruta, pela qual chora menos quem pode mais. Definiram as regras desse jogo, portanto, num momento privilegiado para eles.

Terceiro Mundo

Nenhum representante do chamado Terceiro Mundo participou desses tratados. A Europa, destruída por duas grandes guerras num curto espaço de tempo, não estava em condições de se opor à grande capacidade de produção norte-americana proporcionada pela Segunda Revolução Industrial — que dotou o país de uma poderosa e inovadora indústria. Na Ásia, o Japão, também destroçado pela guerra, foi ocupado pelos Estados Unidos, que ditaram o rumo da sua reconstrução.

No final dos anos 1940, somente o regime de Washington estava em condições de exportar capital em grande escala. E o país usou essa posição privilegiada para manter sob o seu controle as rédeas num mundo que buscava alternativas ao seu modelo político e econômico. Esse processo do pós-Segunda Guerra Mundial que desencadeou a dominação norte-americana no chamado mundo ocidental, portanto, levou o capitalismo a uma transformação profunda.

Na Europa, o projeto social-democrata procurou adaptar a economia planejada à tradição comercial liberal do velho continente. No Japão, o Estado se reforçava para desempenhar um papel de destaque no planejamento econômico. E cerca de um terço da população mundial rompeu com esses paradigmas e se juntou à União Soviética para reforçar o sistema de economia totalmente planificada. Desde então, os Estados Unidos intervieram em vários países e promoveram uma feroz cruzada anticomunista em âmbito mundial.

A disparidade de poder - sobretudo militar - entre os Estados Unidos e os demais países é um dos pontos que explicam o rompimento brusco da institucionalidade internacional nas guerras no Oriente Médio. Até recentemente, sob a proteção do guarda-chuva nuclear norte-americano, esteio da Guerra Fria, as demais potências capitalistas se desenvolveram num ambiente sem guerras. A economia japonesa, umbilicalmente ligada à norte-americana, floresceu. E a Europa Ocidental evoluiu ao ponto de construir uma entidade supranacional, a União Europeia.

Fim da história

A derrota da experiência socialista, depois de surgir triunfante e ter parecido realmente capaz de superar o capitalismo - especialmente nos dois pós-guerras -, fez com que o domínio norte-americano da pirâmide mundial passasse a ser ainda mais ditatorial. Com a derrocada de um dos pratos da balança da Guerra Fria, a oposição aos ditames de Washington praticamente desapareceu.

O fim do bloco soviético, em seu sentido econômico e político - anunciado por Francis Fukuyama, então figura chave dos estrategistas da Casa Branca, como “o fim da história” -, fez o ex-presidente norte-americano George Bush pai proclamar o advento de uma "nova ordem mundial", quando os monopólios do país anunciaram o início de uma era "pós-moderna" de "globalização" e liberalismo renovado. Mas essa nova fase também privou os Estados Unidos de um inimigo definido, que negociava conflitos localizados e equilibrava as ações bélicas de largo espectro - e fez com que antigos aliados, entre os quais os fundamentalistas armados para combater os soviéticos, se voltassem contra Washington. Como resultado, a ação política de viés moderno cedeu lugar ao emprego do terrorismo - incluindo o terrorismo de Estado - numa escala sem precedentes.

As tensões antes abafadas pelo jogo internacional afloraram e foram reduzidas à pura expressão militar. Novos inimigos, reais ou forjados, entraram em cena e passaram a ser considerados pela estratégia do Pentágono como alvos - destacadamente as nações e regimes que não rezam pela cartilha de Washington e as organizações políticas que em diferentes pontos do planeta discordam da hegemonia norte-americana. No âmbito do regime de Washington, esse quadro foi construindo uma tática belicosa fundada basicamente num imaginário "choque de civilizações" — ideia expressa por Samuel Huntington em seu livro homônimo. Segundo o autor, a conjunção da "civilização confuciana com a islâmica" seria, hoje, a maior ameaça ao ocidente.

Declaração de Independência

A relação do ocidente com o oriente é uma das formas clássicas de entender a configuração mundial moldada por duas guerras mundiais — e algumas guerras locais — ao longo do século XX. Mais do que projeções geográficas e culturais, esse modo de ver o planeta é corroborado pela análise econômica. Afinal, o corte é preciso em discriminar os países relevantes para a economia norte-americana daqueles que não o são. É evidente que a América Latina e a África não têm o mesmo assento no termo ocidente, mas são regiões que, consideradas globalmente, ainda não oferecem perigo à hegemonia anglo-americana construída ao longo do século XX.

A política norte-americana sempre causou reação porque ela é expansionista e agressiva. A própria constituição dos Estados Unidos como nação encerra uma contradição entre o que foi proclamado dia 4 de julho de 1776, quando o povo norte-americano aprovou a Declaração de Independência, e a política exterior da jovem pátria. As premissas do expansionismo continental norte-americano foram criadas com as guerras contra a população indígena e as reivindicações dos latifundiários do sul do país de ampliar o território avançando pelas fronteiras de seus vizinhos.

Pretensões pan-americanas

William Foster, estudioso da história política do continente americano, diz que o próprio nome do país — Estados Unidos da América — expressa suas pretensões pan-americanas. Já no começo do século XIX, a contradição entre os princípios humanitários e democráticos proclamados pela Declaração de Independência e a política exterior do jovem Estado levou à renúncia das suas tradições libertárias. A doutrina do direito natural de todos os povos decidirem seu próprio destino — um dos fundamentos da Declaração de Independência — passou a ser interpretada de modo a justificar como "natural" o expansionismo norte-americano.

Para os dirigentes dos Estados Unidos, essa doutrina dava ao país o direito de encarar o continente como sua área de influência direta. Com esse argumento, a princípio os presidentes Thomas Jefferson e John Adams "compraram" a Luisiana — que pertencia à França — e ocuparam a Flórida — que pertencia à Espanha. Depois, em 2 de dezembro de 1823, com a mensagem do presidente James Monroe ao Congresso foi proclamada a famosa "Doutrina Monroe" — que expressa sem ambiguidades as pretensões norte-americanas à hegemonia em todo o hemisfério ocidental.

Influência da religião

Desde então, a propaganda norte-americana invocou esses princípios para justificar as ações políticas e militares extraterritoriais dos Estados Unidos. Para aquele sistema de poder, fortemente vinculado ao seus interesses econômicos, os norte-americanos têm o dever natural e sagrado de levar as suas tradições liberais e "democráticas" aos povos "incultos" do resto do mundo. Por mais simplista e racista que esse pensamento possa parecer, ele é abertamente proclamado no país desde a instauração do chamado "Destino Manifesto".

É forte a influência da religião nessa "teoria", um destino que teria sido profetizado pela "providência divina". O ex-presidente George W. Bush, por exemplo, levava ao pé da letra a frase "In God we trust (Em Deus nós confiamos)" impressa em cada nota do dólar. As reuniões ministeriais na Casa Branca começavam com oração e frases bíblicas sempre apareciam em seus discursos.

Em sua gestão, Bush propôs a canalização de recursos sociais para entidades religiosas, a autorização de preces e sermões em escolas públicas, o subsídio a faculdades geridas por grupos religiosos e o financiamento do trabalho de entidades religiosas em presídios — uma ofensiva jamais feita, apesar da tradição religiosa do país, contra a separação entre igreja e Estado, um dos princípios basilares consagrado na Primeira Emenda à Constituição. Mas o ex-presidente norte-americano certamente não era refém da fé e pode-se dizer que a rigor ele tomava o nome de Deus em vão.

Anticomunismo sem escrúpulo

A ideologia do "Destino Manifesto" age como um poderoso elemento mobilizador da energia do país para a conquista de novos territórios. Ao longo da história, ela foi um verdadeiro elixir do expansionismo e do intervencionismo norte-americano. No século XX — particularmente na sua segunda metade — essa ideia, traduzida em anticomunismo sem escrúpulo, permeou a propaganda do regime. Isso explica a visão dominante no país de que o restante do planeta — sobretudo o chamado Terceiro Mundo — é cultura e economicamente subdesenvolvido.

Essa propaganda ganhou, evidentemente, novos contornos desde a queda do Muro de Berlim. Mas sua essência permanece a mesma e constitui, basicamente, na prática de levar a "democracia" aos países que recusam a cartilha de Washington e em "ensinar" os "segredos" da boa gestão econômica. O aparato de propaganda norte-americano, por exemplo, contra todas as evidências diz que a presença militar do Pentágono no Oriente Médio tem uma missão modernizadora e libertária. Mesmo quando os fatos insistem em desmenti-lo, nas entrelinhas essa ideia é largamente difundida.

Mar de petróleo

Essa premissa, com seus tiques primitivos, na verdade sempre se soube na contramão do progresso humano. A base da sua aplicação é a geografia do petróleo, dominada por um cartel que merece um capítulo à parte na história do capitalismo. E dentro deste capítulo cabe um importante item sobre o Oriente Médio. No livro A Ditadura dos Cartéis o pesquisador Kurt Rudolf Mirow descreve como o Iraque — o detonar da fase mais recente da guerra na região — entrou na divisão mundial do cartel.

Segundo Mirow, uma das mais ricas reservas, conhecida desde 1929, ficou escondida por um bom tempo para que não surgisse um dilúvio de petróleo que afetaria a rentabilidade das corporações. São elas que, aliadas a outras — sobretudo as produtoras de armamentos —, constituem o cerne dos lobbies da política expansionista da Casa Branca. Para esse condomínio, o controle das principais artérias da geopolítica mundial é um ponto nevrálgico, uma tarefa vital ao domínio dos depósitos de matérias-primas estratégicas, como petróleo e gás natural.

O Iraque flutua sobre um mar de petróleo de 112 bilhões de barris comprovados ao longo de um cinturão de campos petrolíferos que correm paralelos à fronteira iraniana. E um verdadeiro maná ainda está invisível: existem projetos para a exploração de várias jazidas com um potencial de produção gigantesco. Esse pote de ouro negro desperta o interesse, além do das empresas anglo-americanas, de empresas francesas, italianas e espanholas. Mas não é só isso: o país é o único da região com múltiplas vias para as exportações, uma das quais — através da Turquia — evita o vulnerável Estreito de Ormuz, que pode ser fechado com facilidade, por onde passa um quinto do petróleo consumido no mundo.

Tratados e pactos

Hoje, os países que se contrapõem a essa ofensiva do "realismo militar" do Pentágono ainda são frágeis internacionalmente. E a consciência anti-imperialista das massas é algo que, embora veloz e ampla, ainda está se formando. Ela parece mais viçosa nos países do Oriente Médio. Uma das explicações para esse fenômeno talvez seja o histórico de lutas dos povos árabes contra as invasões ocidentais do século XX.

O Oriente Médio sempre despertou o interesse dos impérios por ser uma rica fonte de matéria-prima e estar no entroncamento de três continentes. Já no pós-Primeira Guerra Mundial, os trustes norte-americanos se empenharam em conseguir ali concessões petroleiras, apesar da resoluta oposição da Inglaterra e da França — países que controlavam a região. Em 1940, as petroleiras inglesas detinham 72% de todas as reservas de petróleo exploradas, enquanto as empresas norte-americanas 9,8%.

No pós-Segunda Guerra Mundial, a região passou a ser um dos principais pontos de prioridade da política exterior de Washington. Por estar nas proximidades da Rússia e da China, o Oriente Médio também sempre mereceu atenção dos Estados Unidos quanto à influência de ideias que poderiam se traduzir em ações concretas de anti-imperialismo. Logo após a Segunda Guerra Mundial, o regime de Washington iniciou uma série de “tratados” e “pactos” envolvendo Inglaterra, França e alguns países da região — com o intuito de jogá-los uns contra os outros.

Círculo vicioso

No centro da estratégia estava o Estado de Israel, que desde a sua criação agiu como força de choque da política imperialista no Oriente Médio. Segundo dados do Instituto Internacional de Estocolmo de Estudos para a Paz, nos cinco anos transcorridos depois da guerra de outubro de 1973 entre Israel e seus vizinhos árabes os países pró-Estados Unidos do Oriente Médio receberam 70% de todas as armas norte-americanas exportadas para os países do chamado Terceiro Mundo.

Em 1979, o Irã fez a revolução que derrocou o regime dos Estados Unidos no país e desencadeou mais uma onda de ações anti-imperialistas na região. No mesmo ano, o conflito no Afeganistão, ocupado por forças militares soviéticas, marcou mais uma etapa da presença norte-americana no Oriente Médio — que armou os fundamentalistas para combater os invasores. Mais tarde, esses grupos angariaram para si o resultado de toda uma reserva de ódio, medo e desesperança para levar a efeito o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. E rezaram por uma reação violenta dos Estados Unidos, que terminaria mobilizando outros em torno de sua causa.

E assim o mundo entrou num círculo vicioso — um efeito gerando outro e mergulhando os povos na hedionda “guerra infinita” iniciada pelo ex-presidente Bush. Os terroristas fundamentalistas compartilham de um ódio que é sentido em todo o Oriente Médio pela presença norte-americana, pelo apoio dos Estados Unidos às atrocidades cometidas por Israel contra o povo palestino e pela devastação de muitas sociedades com a promoção da chamada “primavera árabe”.

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