domingo, 16 de abril de 2017

16/4 - Blog " DE CANHOTA" de HOJE

De Canhota


Posted: 16 Apr 2017 09:30 AM PDT

O eminente jurista Fábio Konder Comparato numa entrevista na Carta Capital de 12 de abril de 2017 ponderou que face à desmoralização dos dirigentes politicos e da corrupção generalizada “é bem possível outra intervenção extralegal para impedir a continuação disso tudo; não está fora de cogitação um novo golpe de Estado”.

Os agentes desse novo golpe seriam, segundo Comparato, “os empresários (a minoria rica) e os proprietarios por um lado, e por outro, os principais agentes do Estado. Para agentes de Estado deduzo que se trataria do Ministério Público, da OAB e acrescentaria ainda a Polícia Federal e alguns ministros do STF.

Meu temor é que os grupos acima citados utilizem a mesma estratégia que vigorou em 1964: as oligarquias usaram o poder militar para dar um golpe de classe como foi mostrado de forma irrefutável por René Dreifuss: na sua tese de Glasgow:”A conquista do Estado, ação política, poder e golpe de classe” (Vozes 1981, 841 pp.):”o que houve no Brasil não foi um golpe militar, mas um golpe de classe com uso da força militar”(p.397).

A barafunda total da atual política, corroída pela corrupção de cima abaixo, desmascarada pelas delações da Odebrecht (outras ainda virão) torna a continuidade do atual governo altamente problemática. A ilegitimidade do presidente e de grande parte dos parlamentares das duas Casas, sob acusação de graves delitos, torna vergonhosa a celeridade conferida às mudanças, claramente anti-populares e até anticonstitucionais.

Esse golpe pode ser dado a qualquer momento, pois os empresários estão eles mesmos se sentindo prejudicados especialmente nos níveis costumeiros de alta acumulação. Resta saber se os militares aceitariam tão espinhosa tarefa. Mas eles se sentem os guardiães da República, pois foram eles que puseram fim à Monarquia. Em momentos tão graves como os atuais, poderão se sentir urgidos, mesmo a contragosto, a assumir esta responsabilidade nacional.

Se isso ocorrer, provavelmente um triunvirado de generais assumiria o poder, fecharia o congresso, mandaria prender os principais políticos acusados de corrupção, não poupando, apenas dando uma forma privilegiada ao presidente Temer, aposentaria coercitivamente Gilmar Mendes o mais parcial dos ministros do STF, obrigaria a renúncia dos governadores implicados em corrupção e instauraria um regime de “purga” dos corruptos e de seus aliados e empresários corruptores e contaria, seguramente, com o apoio da imprensa conservadora que sempre apostou num golpe. Isso não é contraditório com a política dos órgãos de segurança dos USA, especialmente sob Donald Trump pois estaria a serviço “full spectrum dominance”. O que viria depois, seria uma incógnita pois o poder é um dos arquétipos mais tentadores da psiqué humana. Os militares poderiam não querer mais sair do poder assumido.

Outra saída, ainda dentro do marco democrático, seria a convocação para esse ano ainda de eleições gerais, pois o sujeito originário do poder é o povo que, ao escolher seus politicos, lhes conferiria legitimidade. A Lava Jato continuaria com sua devassa enchendo os tribunais de processos, nas várias instâncias do judiciário.

Uma outra via seria a anulação pelo TSE da candidatura Dilma-Temer, seguida de uma eleição indireta pelo Parlamento de um novo Presidente. Não saberíamos que força teria ele, uma vez que foi eleito de forma indireta, com uma base parlamentar amplamente desmoralizada e sob vários processos criminais.

Uma terceira via, mais radical, seria inspirada pela Comissão da Verdad e da Reconciliação da África do Sul, coordenada pelo bispo Desmond Tutu que aqui apresento como viável. Ai se tratava de conhecer a verdade sobre os crimes cometidos contra a população negra por dezenas de anos não excluídos também crimes perpetrador por negros.

Três eixos estruturavam o processo: a verdade, a responsabilização e a justiça restaurativa e curativa. Tudo era feito sob o arco de um valor cultural comum que nos falta: o Ubuntu que significa: eu só posso ser eu através de você. Esse valor conferia e confere coesão à sociedade da Africa do Sul, pois de saída supera o individualism, típico de nossa cultura ocidental.

A verdade tinha a dimensão factual:conhecer os fatos como se passaram. Outra dimensão era a pessoal: como a pessoa subjetivamente sentia o crime cometido. A terceira era a social: como a sociedade interpretava e discutia a gravidade dos crimes. Por fim, a verdade restaurativa e criativa: reprovação moral do passado e disposiçãode construir uma nova memória.

A anistia era concedida àqueles que reconheciam publicamente a responsabilidade pelos crimes cometidos. A confissão pública de seus atos era a grande punição moral. É a anistia pela verdade que possui uma função restaurativa e curativa: refazer o tecido social e dispor-se a não mais cometer os mesmos crimes sob o lema: “para que não se esqueça e para que nunca mais aconteça”. Para crimes contra a humanidade havia a punição legal conveniente e não vigorava a anistia.

Discutia-se então e ainda hoje se discute: se a lei não pune os que transgrediram, não desvalorizaria a própria noção do império de lei, base de um Estado de direito?

Aqui, em vista do Ubuntu, de manter a coesão e não deixar chagas abertas, chegou-se a um compromisso pragmático entre a dimensão política e a dimensão do princípio.

Logicamente, existe uma ordem legal, necessária sem a qual a sociedade se torna caótica. Mas ela repousa sobre uma ordem ética e axiológica. Esta foi invocada. Isso implica ir além do discurso jurídico e político e entrar no campo antropológico profundo, dos valores que dão um sentido transcendente à vida pessoal e social. Trata-se de um ato de confiança no ser humano de que ele é resgatável. Foi o que mostrou Hannah Arendt em Jerusalém por ocasião do juízo e condenação de Eichmann, o exterminador de judeus sob o regime nazista. Ela arrolou o valor do perdão, não propriamente como valor religioso, mas como capacidade humana de poder livrar-se da dependência do passado, e inaugurar uma nova página da história coletiva.

Tais procedimentos poder-se-iam aplicar ao caso brasileiro. Marcelo Odebrecht e seu pai Emílio Odebrecht reafirmaram que praticamente todos os políticos (com exceções conhecidas por sua inteireza ética) se elegeram pela via do caixa 2. O caixas 2 é tipificado como crime pelo artigo 350 do Código Eleitoral e pelo artigo 317 do Código Penal. Foi o que tem repetido muitas vezes a Presidente do STF.

Pelo fato, porém, de a corrupção ter-se generalizado e afetado a grande maioria dos partidos, poder-se-ia aplicar uma anistia nos moldes da Comissão da Verdade e da Reconciliação da África do Sul. Todos os que se valeram do caixa 2 viriam a público, confessariam tal crime e manifestariam o propósito de não mais recorrer a este expediente para eleger-se. A revelação de seus nomes e sua confissão pública seria uma verdadeira punição moral.

Outra coisa, entretanto, é a a propina recebida de empresas com promessa de dar-lhes vantagens legais e a corrupção como desvio de dinheiro público, aos milhões e milhões, a ponto de levar à falência um estado como o Rio de Janeiro. Aqui se trata diretamente de crimes que devem ser adequadamente julgados e punidos e mais que tudo recuperar para os cofres públicos o dinheiro roubado. Neste âmbito ocorreram crimes de lesa-humanidade como os 300 milhões desviados da Saúde do Rio de Janeiro que, obviamente, tem prejuficado milhares de pessoas, levando muitas à morte. Para esses cabem as penas mais severas.

Este caminho seria altamente humanitário, reforçaria nossa democracia que sempre foi de baixa intensidade e traria uma atmosfera moral e ética para o campo da política, como busca comum do bem comum.

A atual crise da política brasileira, obnubilando qualquer futuro esperançador, nos obriga a pensar e a busar saídas possíveis que evitem uma convulsão social de consequências imprevisíveis. É o sentido destas minhas reflexões.


Leonardo Boff é ex-professor de ética da UERJ e dr.h.c. em ciência política pela Universidade de Turim, título concedido por Norberto Bobbio.
Posted: 16 Apr 2017 07:00 AM PDT
No dia 17 de abril de 2016 ocorreu a mais vergonhosa sessão da Câmara dos Deputados.

Um ano depois, estamos assistindo ao golpe dentro do golpe.

Para impedir isto, é preciso entender o que está ocorrendo.

Erra quem analisa a situação politica atual apenas do ponto de vista da superestrutura, da crise institucional, das denúncias de corrupção, da escalada dos notíciários contra o PT e Lula.

Como em outros momentos dramáticos de nossa história, a situação política expressa um processo econômico e social mais profundo.

Seu pano de fundo é a crise econômica internacional e nacional, que ao mesmo tempo resulta de e também provoca um realinhamento entre as diferentes frações do Capital, dentro e fora do país; e também um realinhamento de forças entre os diferentes Estados, em âmbito mundial. 

Como em outros momentos da história, este realinhamento inclui conflitos militares. 

O ataque dos EUA contra a Síria e as ameaças contra a Coréia do Norte confirmam que a continuidade da crise iniciada em 2008, combinada com o ascenso do populismo de direita, aprofunda os riscos de guerra, as ameaças do imperialismo contra a soberania nacional dos demais países, contra as conquistas democráticas e contra os interesses populares em todo o mundo. 

É neste contexto que ocorreu o golpe no Brasil e vem sendo aplicada a "ponte para o futuro".

O resultado, como não podia deixar de ser, é uma deterioração acelerada dos indicadores econômicos e sociais. 

Ao mesmo tempo, piora a crise política e institucional. 

Isto por vários motivos combinados, entre os quais citamos quatro: 

a) para golpear o PT, foram utilizados pretextos e métodos que ganharam "vida própria". Neste sentido, a situação lembra 1964, quando políticos civis de direita foram alvos da ditadura que eles mesmos fomentaram;

b) o golpe de 17 de abril e 31 de agosto não foi suficiente para destruir o PT e a esquerda, nem tampouco para liquidar a força eleitoral de Lula. Já as forças conservadoras estão com dificuldades eleitorais cada vez maiores, sendo obrigadas (como em 1989) a buscar quem seja ou pareça ser outsider;

c) crescem os conflitos entre as diferentes frações do movimento golpista, inclusive devido ao aprofundamento da crise econômica, a impossibilidade de não "cortar na carne" e o crescente repúdio popular ao governo Temer;

d) as forças conservadoras enfrentam cada vez mais dificuldades de governar o país nos marcos da Constituição de 1988, que por sua vez é o "mínimo aceitável" pelas forças democráticas e populares.

Em todos os terrenos, portanto, o horizonte geral é de tensão crescente.

Para visualizar os possíveis desdobramentos desta situação, é preciso lembrar o que está em jogo, do ponto de vista da classe dominante.

Para eles, para o grande capital, trata-se de ampliar sobremaneira a exploração da classe trabalhadora e aprofundar a internacionalização subalterna de nossa economia. 

Ambos objetivos são incompatíveis com os níveis de liberdades democráticas atualmente existentes. 

É isto que explica o apoio efetivo, prático, da classe dominante à judicialização e à criminalização da política. 

É isto que explica o apoio de Bolsonaro entre certa "elite". 

É isto que explica a ascensão de um Dória.

É por isto que o golpe precisa ter prosseguimento, agora tentando afastar Lula da corrida presidencial, buscando inviabilizar o funcionamento do PT, reprimindo a mobilização social, especulando a adoção do parlamentarismo e - no limite, embora isto ainda hoje pareça distante - restabelecendo aberta tutela militar sobre as instituições.

Aos que se iludem com a atitude predominante entre os militares, lembramos uma frase dita por uma célebre economista filiada ao PT: os democratas são em geral entreguistas, os nacionalistas são em geral fascistas.

Parte da esquerda brasileira ainda subestima o que está em jogo e minimiza os riscos da atual conjuntura. 

O PT é o maior partido da esquerda brasileira. Uma saída pela esquerda exige do PT uma resposta à altura da crise.

Mas a maioria do PT adiou o quanto pode o congresso partidário e tem evidente resistência a debater certos temas de fundo, como a conciliação de classe e a promiscuidade com o grande capital, as alterações em nossa estratégia e programa, as diferenças entre 2018 e 2002, o que fazer se a direita avançar o sinal contra Lula.

Para agravar a situação, o ponto de partida do Congresso do PT - as eleições diretas realizadas dia 9 de abril - foram caracterizadas por debate precário, queda na participação e fraudes variadas.

Parte da esquerda, dentro e fora do PT, ainda alimenta expectativas nos mal-denominados "setores progressistas", que no caso em tela são parcelas do golpismo e da classe dominante que estariam supostamente dispostas a tentar colocar o gênio de volta para dentro da garrafa, a pasta dental de volta no tubo.

Fora do PT, parte da esquerda aderiu abertamente ao udenismo e a diferentes variantes de um esquerdismo que parece mais preocupado em derrotar o que chamam de "lulopetismo" do que em derrotar a direita.     

O debate sobre a candidatura Lula, sobre a linha de campanha, sobre o programa de governo, sobre a política de alianças e sobre o que fazer caso a candidatura seja interditada sintetiza os atuais dilemas táticos e estratégicos da esquerda. 

A classe que implementou o golpe não está disposta a aceitar a eleição de Lula em 2018. Não aprendeu nada quem continua acreditando nos compromissos democráticos do grande capital.

A alternativa "tentar cooptar Lula" não está disponível. Entre outros motivos, porque 2018 não é 2002, nem para eles, nem para nós. 

Portanto, a disjuntiva posta para a classe dominante hoje é: ou retirar Lula da disputa ou retirar do calendário as eleições presidenciais de 2018. 

Uma das possibilidades que vem sendo discutida entre as forças reacionárias é a adoção do parlamentarismo. 

Sem o PT, sem o petismo, não há como construir - no imediato e talvez nem mesmo no médio prazo - uma alternativa de esquerda para a situação que vivemos. 

Se o PT não quiser ou não conseguir produzir esta alternativa, há dois cenários mais prováveis:

a) a resistência democrática e popular demonstrar força nas ruas, mas não conseguir transformar-se numa alternativa de governo e/ou de poder, fragmentando-se;

b) a resistência democrática e popular ser cooptada por alternativas nacional-populistas (como as que vem sendo vocalizadas, hoje, por Ciro Gomes e Bresser Pereira).

O Congresso do PT precisa ser capaz de formular uma linha de combate para os próximos meses e anos.

Esta linha de combate passa por defender os direitos do povo, fazer oposição radical aos golpistas, lutar para derrotar e derrubar o governo Temer, garantir o mais cedo possível a realização de eleições presidenciais diretas, batalhar para eleger Lula e se preparar para um governo de enfrentamento, cuja síntese política precisa ser a defesa da convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. 

Esta linha de combate inclui, na hipótese da direita avançar na tentativa de interditar Lula, não cair na armadilha de discutir um "plano B", não reconhecer a legitimidade do processo, convocar a desobediência civil e preparar-se para uma resistência que pode ser mais ou menos dura e prolongada. 

As pré-candidaturas à presidência do PT - tanto de Gleisi quanto de Lindbergh - precisam travar a discussão pública sobre estas questões.

E o Diretório Nacional do PT precisa fazer uma operação limpa-trilhos, anulando todas as fraudes cometidas no dia 9 de abril e criando assim as condições para que o Partido se concentre inteiramente no que interessa: 28 de abril, 1 de maio, 3 de maio e as questões expostas anteriormente.

A não ser que se prefira dar milho aos pombos, enquanto o mundo pega fogo.
Posted: 15 Apr 2017 12:00 PM PDT
É lugar comum ouvir em análises e expressões vindas de todas as camadas da esquerda e da centro-esquerda, algo como “quando este povo vai se levantar indignado”? Além do sentimento de revolta e frustração – totalmente compartilhado por este que escreve – a afirmação também traz elementos de certa condescendência com o governo deposto e algo da perigosa inocência politica. Neste breve texto, tento demonstrar como a categoria ideologia foi desprezada e, por óbvia consequência, a relação com o oligopólio da mídia – em especial com a empresa líder – foi reificada.   

Se levarmos em consideração os 13 anos de governo petista na Presidência, nos damos conta de que faltaram elementos fundamentais para um projeto de poder prolongado. Quando me refiro a projeção de uma vontade política, não significa perpetuar no Poder Executivo a este ou aquele partido, mas sim a construir condições de conquistas permanentes e não retorno. Não retornar para situações anteriores implica ir além de melhorias materiais – embora estas sejam fundamentais – mas também dar um significado ideológico para a base da sociedade.

A pesquisa aplicada pela Fundação Perseu Abramo (FPA, para a pesquisa ver http://migre.me/wr8hH), vinculada ao Partido dos Trabalhadores (PT), justo partido de governo que foi deposto traz elementos para reflexão. Nesta pesquisa qualitativa realizada na periferia de São Paulo capital, os resultados são a difusão de um liberalismo popular crescente e a perda de reservas eleitorais para a legenda que financiou o trabalho. Para além das constatações do voto mutável, a carga de valores e comportamento, reforçada após treze anos de mandato “popular” em Brasília, traz elementos de reflexão.

Considerando quem convive com estas camadas sociais, ou de forma mais apropriada, com a pobreza e a exclusão espacial nas regiões metropolitanas, nada disso se trata de “novidade”. Talvez o elemento novo seja transparecer o debate e trazê-lo à tona. Logo, aponto aqui a necessidade mais urgente de uma primeira inflexão, para além de uma reflexão. Ou seja, abordo algo que não passa apenas por uma exterioridade (já antes abordada nesta publicação), mas pela ausência de um protagonismo político a partir de alguma forma de ideologia de câmbio.  

Um momento especial que o primeiro governo Lula “deixou passar”


Entendo que se pudermos acumular lições históricas da política brasileira trata-se de não repetir erros, e ao mesmo tempo, reeditar exemplos positivos, revigorando-os. Grandes campanhas demarcam os momentos cruciais. Através de atividades de comoção coletiva, podemos mobilizar setores de uma sociedade, ao mesmo tempo, correndo o risco (no meu ver um risco positivo).

Uma campanha fundamental e que motivou ao golpe político de 1954 – consumado com o suicídio de Vargas em 24 de agosto daquele ano – foi a do “O Petróleo é nosso”. Na ocasião, o país não tinha uma empresa petrolífera nacional e o nacionalismo substituiu o classismo como motivador de anseios populares. Quando vivemos uma campanha desta envergadura, ainda que por alguns meses, a sociedade se polariza, projetando um destino coletivo. Quando as campanhas populares conseguem somar a ideia de nação com a do interesse da maioria, das classes subalternas, do povo, então é uma ocasião para mobilizar corações e mentes. Assim, em situações limite, regionalizadas – como nas greves do ABC de 1978, 1979 e 1980 – ou nacionais, está dado um momento para acumular forças duradouras.

A conta é de chegada e uma oportunidade de ouro passou. Não por desatenção, mas sim pelas escolhas. Ao reconhecer em frações irreconciliáveis do inimigo interno um “possível parceiro”, o governo Lula, ainda em seu primeiro mandato e passando o susto do Mensalão, entregou uma fatia da revolução tecno-científica para a Rede Globo. Afirmo que o padrão tecnológico de transmissão de dados seria o equivalente ao período da “modernização”. No embate pelo padrão do Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre (SBTVD-T) teríamos uma chance concreta de entrar com os dois pés no século  XXI, aí sim arriscando desenvolvimento, para além do reforço dos fatores de troca que já tínhamos em 2002.

O tema é espinhoso, mas vale observar a posição do governo Lula através do então ministro Hélio Costa (ele mesmo, senador pelo PMDB e ex-correspondente da Voice of America no Brasil em pleno AI-5, ver http://migre.me/wr9o3). No mesmo sentido, ressaltar a pujança dos consórcios brasileiros de pesquisa que conseguiram chegar à condição de protótipo do mesmo Sistema (ver http://migre.me/wr9rg) e a dimensão tétrica do Decreto de 2006 (ver  http://migre.me/wr9t8). Afirmo o compromisso de sanar as dúvidas de todo este processo no debate posterior a publicação ou então em comunicação direta; para este artigo, trago o tema do SBTVD-T apenas para demonstrar como um recurso de mobilização poderia ter sido utilizado, amarrando desde a base da comunicação popular do século XXI - como nas rádios comunitárias, pontos de cultura e todo um universo de ativismo periférico – com um projeto nacional, popular (pelos multicanais) e soberano.

Operar uma campanha desta envergadura teria acossado a direita e dito a que vinha um projeto nacional e popular que ultrapassasse os arranjos pré-determinados já na Carta ao Povo Brasileiro, um pacto que o andar de cima fez a contragosto e na oportunidade devida, virou a mesa e de lado. Reforçando o argumento, para além do nacionalismo policlassista da Campanha O Petróleo é Nosso, a defesa do SBTVD-T seria nacional e classista. Logo, mais incisiva, operando também como um autêntico divisor de águas no ambiente doméstico.     

Uma conciliação ideológica que nunca houve - e jamais deveria ter sido cogitada


Ao longo dos treze anos do lulismo como ideologia hegemônica, não tivemos um momento sequer de tensão, de acumulação de forças, com exceção da rebelião popular de 2013. Na ocasião, foi colocado nas ruas um desafio para ir além do pacto conservador com distribuição de renda tornado público com a Carta ao Povo Brasileiro em 2002. Outros momentos de tensão interna elevada foram os segundos turnos das eleições de 2002, 2006, 2010 e principalmente 2014. Na sequência, a campanha permanente de desestabilização bateu por direita no segundo governo de Dilma Rousseff. Por esquerda, ou na falta desta, o projeto popular ficou relegado ao apelo eleitoral e não ao trabalho cotidiano de organizar a luta coletiva, dar significado às conquistas da maioria e não permitir que o aumento da chamada “classe C” viesse junto a uma noção de individualismo empreendedor.

O cotidiano da maioria, e em especial da pobreza territorializada – nas chamadas periferias – é atravessado por forças importantes: igrejas neopentecostais, exposição midiática da TV aberta, currais eleitorais e clientelismo político, compadrio e cumplicidade, além de uma constante luta pela sobrevivência, incluindo iniciativas formais e informais de micro-empreendedorismo. O avanço ideológico de um neoliberalismo difuso é proporcional à ausência de um projeto de Poder do Povo, e obviamente, pela pouca expressão das esquerdas no universo simbólico do dia a dia.

Ao subestimar a categoria ideologia, e em especial ao não ousar um confronto mais direto com os barões das empresas de mídia, o lulismo entregou a mentalidade política da maioria para os abutres de sempre. Reverter essa derrota é tarefa de longo prazo, embora o tempo corra contra os interesses da maioria.   


Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais e escreve no site Estratégia e Análise (www.estrategiaeanalise.com.br).
Posted: 15 Apr 2017 11:00 AM PDT
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O indiciamento de mais 120 políticos, inclusive Fernando Henrique e Lula, mostra que a Operação Laja Jato tende a destruir toda a classe política brasileira. Muitos dirão que isto é “ótimo”, porque os políticos brasileiros são “todos”, ou “praticamente todos”, corruptos. E porque não há dificuldade em substituí-los. Mas estas duas crenças são falsas.

Primeiro, não é verdade que os políticos possam ser facilmente substituídos. Seria bom que muitos o fossem, mas será péssimo que os melhores políticos brasileiros, independentemente de sua cor ideológica, sejam desmoralizados e excluídos da vida pública. A profissão política é a mais importante das profissões, porque são os políticos que fazem as leis e conduzem o Estado; porque são eles que governam. Não se fazem políticos de um dia para outro. Um dia destes vi a entrevista de uma página inteira na Folha de um homem de televisão muito bem-sucedido, sr. Huck, que dizia que estava na hora de pessoas de sua geração assumirem o poder. Concordei com a afirmação, que estava no título, e decidi ler a entrevista. Uma coisa patética. Não havia uma ideia sobre o Brasil; uma ideia sobre o mundo. Apenas autoelogios e considerações vazias sobre a hora de sua geração.

Segundo, não é verdade que todos os políticos são corruptos. Pelo contrário, estou convencido que a grande maioria é honesta, inclusive alguns políticos já condenados pelo Mensalão, como José Genoíno (que conheço bem e admiro) e João Paulo Silva (que não conheço). Agora, no quadro do Lava Jato, é ridículo afirmar que políticos como Fernando Henrique, Lula, e Alckmin são corruptos. E, no entanto, o Judiciário, aplicando a lei, tende a também condená-los.

Por que condenar inocentes? Porque, segundo a lei, o ato receber doações para campanha ou como presente, sem oferecer em troca obra ou emenda – não sendo, portanto, propina –, é, não obstante, ilegal e pode ser entendido como corrupção. Mas não é, não é crime, porque a prática de se receberam doações e presentes sem que o político e a empresa fizessem o devido registro do fato fazia parte dos usos e costumes do país. A partir do Lava Jato e do susto que está causando nos políticos, não fará mais. E será preciso definir um limite para o valor dos presentes, como acontece em outros países. Mas não faz sentido agir retroativamente, considerar políticos eminentes como corruptos, e condená-los.

A imprensa hoje informou que os principais políticos dos principais partidos brasileiros estão se organizando para enfrentar o problema. Isto é mais do que necessário. A solução é a anistia do caixa 2 e regulamentar os presentes. É dar ao Judiciário uma lei que lhe permita não causar uma violência contra o Brasil.


Luiz Carlos Bresser-Pereira é economista, cientista político, cientista social brasileiro.

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