quarta-feira, 19 de abril de 2017

19/4 - Altamiro Borges DE 18/4

Altamiro Borges


Posted: 18 Apr 2017 07:12 AM PDT
Por Joana Rozowykwiat, no site Vermelho:

Ao contrário do que prometiam os apoiadores do impeachment, a crise econômica não se encerrou com a saída de Dilma Rousseff. Pelo contrário. Um ano depois, a tão alardeada recuperação não aconteceu, o desemprego aumentou drasticamente e o déficit fiscal, que era considerado um pecado do PT, bateu recorde em 2016 e persiste em 2017. Para a economista Leda Paulani, o mais grave, contudo, é o “desmonte” que está em curso, com efeitos perversos de longo prazo para o país e seu povo.

Durante o processo de impedimento, repetia-se a exaustão uma falácia, a “mística” de que o problema da economia brasileira era a presidenta e, com sua saída, tudo se resolveria. “Ninguém sabe como é possível que uma única criatura tenha tamanho poder, o poder de parar um gigante como é a economia brasileira. Mas essa história convinha a quem apoiava o golpe e divulgou-se que, com a saída de Dilma, os empresários iam recobrar a confiança, iam voltar a investir, todo esse conto da carochinha que a gente já sabe”, diz a professora de economia da USP, Leda Paulani.

Como já era de se esperar, doze meses depois do impeachment, a realidade tratou de desfazer as ilusões da retomada pós-golpe. “Porque é evidentemente que não é assim. Os empresários agem politicamente também, mas, fundamentalmente, agem pensando no bolso. Se não há expectativas de retorno, não vão investir. E deu no que vimos: o PIB [Produto Interno Bruto] de 2016 teve queda de 3,6%, o comportamento foi praticamente o mesmo de 2015, quando caiu 3,8%”, afirma Leda.

ÂncoraNa sua avaliação, a situação da economia hoje é “péssima” e não há sinais de recuperação, apesar do otimismo do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Para ele, existem indícios de que haverá crescimento já no primeiro trimestre deste ano. Segundo Leda, contudo, depois de o PIB cair 7,2% em dois anos, em 2017, “na melhor das hipóteses, o país vai crescer zero”.

O boletim Focus, que traz a mediana de expectativas do mercado financeiro, projeta crescimento de 0,41% da atividade econômica neste ano. Mas a estimativa tem sido constantemente revista para baixo.

Para a economista da USP, a retomada da atividade tem sido difícil porque, “apesar do ‘sucesso’ do golpe, há uma instabilidade política permanente, muitos fios desencapados, e os empresários percebem isso”. E com o aumento do desemprego, o efeito multiplicador que o consumo poderia trazer para a dinâmica da economia está impedido de atuar. “O sujeito tem uma fábrica de sapatos. Ele olha para o horizonte e vê a situação. Será que ele vai decidir aumentar a fábrica dele agora? Eu duvido”.

A gestão Michel Temer tem insistido no ajuste fiscal como remédio para a crise. A experiência, contudo, prova que, ao invés de melhorar a situação do país, a austeridade tem aprofundado as dificuldades. “A gente tem um problema de escassez de demanda agregada e a política de austeridade reduz ainda mais essa demanda. E isso tem um efeito multiplicador que vai piorando o estado da economia”, diz Leda, lembrando que essa foi a receita aplicada pelo ex-ministro Joaquim Levy – e deu errado.

Vale destacar que, mesmo na questão fiscal, a parceria Temer-Meirelles não tem o que celebrar. O setor público fechou 2016 com um déficit primário de R$ 155,791 bilhões – 2,47% de seu PIB, frente a 1,88% em 2015. Trata-se do pior resultado desde que começou a atual medição há 15 anos. Para 2017, a meta do governo é de déficit primário de R$ 139 bilhões.

Leda Paulani ressalta ainda os impactos da Operação Lava Jato sobre a economia, já que a força-tarefa afetou setores de grande importância na economia brasileira, como toda a cadeia de petróleo e gás e as empreiteiras. “E, a cada desempregado numa empreiteira dessas, você gera mais 10, 12 desempregados, pelo efeito multiplicador”, afirma.

Em dezembro de 2014, o país possuía 6,5 milhões de desempregados. Há um ano, já durante a crise política, o número havia subido para 11,4 milhões. Em fevereiro de 2017, já eram 13,5 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho.

Neoliberalismo agressivo

Leda Paulani crê, contudo, que apesar da gravidade da recessão, o pior nesse cenário pós-golpe é a implementação de um programa de retrocesso social.

“Ter o PIB com uma queda dessa magnitude é um desastre para qualquer economia. O PIB é importante, principalmente por causa do emprego. Mas essa queda é uma coisa que, daqui a um pouco, é possível reverter. As economias capitalistas têm comportamento cíclico. Já a possibilidade de reverter algumas medidas que estão sendo tomadas é muito menor. O mais grave é esse desmonte que eles estão fazendo, porque tem consequências a longo prazo”, diz.

De acordo com ela, iniciativas como o teto de gastos – que limita o crescimento das despesas públicas por 20 anos – a terceirização irrestrita e as reformas trabalhista e da previdência (ainda em tramitação) lançarão o país em “um período de regressão social que vai ficar para a história”.

“A duríssimas penas, tínhamos saído da lanterna dos países mais desiguais do mundo. Com a melhora dos índices de Gini nos governos do PT, ficamos entre os 15 mais desguiais, mas já não éramos os últimos. Agora vamos voltar rápido para o fim da fila. Tem a taxa de desemprego, vai aumentar a precarização do trabalho, os salários vão cair. E, se junta queda de salários com redução de direitos, o impacto que isso tem na vida das pessoas é brutal. Vai ter uma regressão social amedrontadora. Isso, para mim, hoje, é mais preocupante que a questão do comportamento do PIB”, opina.

Segundo a professora, apesar de não ter promovido mudanças profundas na política econômica, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou o bom momento econômico de então para avançar em políticas sociais que tiveram impacto positivo sobre a economia do país e para a sociedade de forma geral.

“Naquele momento, o programa neoliberal agressivo foi temporariamente engavetado. E agora ele está de volta”, lamenta. De acordo com Leda, a agenda que Temer coloca em prática é a mesma defendida pelo PSDB e derrotada nas urnas ano após ano.

“Com todas as mudanças drásticas que eles estão promovendo, ou você tem uma nova Constituinte para botar tudo em ordem ou vai ser isso: tempos sombrios. Mesmo que volte a ter eleição, não vai ter normalidade mesmo, porque o país foi vítima de um golpe com esse propósito. O propósito era fazer esse programa neoliberal agressivo que estão fazendo, que era o que estava na agenda do PSDB lá atrás, mas ali eles não conseguiram pôr em marcha”, analisa.

Para a economista, o desmonte em curso tem efeito perversos de longo prazo. “Esse programa é defendido por muita gente do mercado e com muitos interesses materiais concretos. Por exemplo, o pré-sal e todas as coisas que estão tentando passar a toque de caixa para o setor privado. Essas são coisas de difícil reversão”, cita.

“O país tinha controle sobre suas reservas estratégicas de petróleo. Isso está sendo revertido a passos largos. Mesmo que tenha uma reviravolta política, que tenha uma Constituinte que resolva tudo, como é que se reverte essa entrega dos recursos estratégicos? Você pode reverter a decisão de venda de terras a estrangeiros. Mas e aquilo que já vendeu? Vai tomar de volta? Tem coisas que são muito drásticas, é preocupante”, completa.
Posted: 18 Apr 2017 07:06 AM PDT
Por Rafael Tatemoto, no jornal Brasil de Fato:

Com três anos completados em março de 2017, a Lava Jato ainda é um dos principais fenômenos no cenário político brasileiro. O Brasil de Fato ouviu dois especialistas sobre o legado da operação para o país. Para Aldo Fornazieri, professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP), nos últimos dois anos, o sistema político “se desintegrou”, ainda que não só por conta da Lava Jato. Já segundo Patrick Mariano, advogado e mestre em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB), os efeitos jurídicos da operação são “nefastos”.

ÂncoraImpeachment

A operação, segundo ambos, foi um dos aspectos fundamentais no impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT).

“A Lava Jato foi instrumentalizada para instruir o golpe. Para mim, não há dúvida disso”, diz Fornazieri. “No processo de impeachment, houve um direcionamento focado no PT, quando se sabia que o problema era generalizado. Não se trata de livrar o PT, mas nós vemos agora que, aparentemente, há uma corrupção muito maior nos outros partidos”.

O professor menciona os “vazamentos seletivos, as prisões preventivas” e a condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o Código de Processo Penal, uma pessoa só pode ser forçada a prestar depoimento com escolta policial se houver recusa a pedido anterior.

“Todas as ações do juiz Sérgio Moro visavam promover prejuízo político, fugiram de tecnicidade do judiciário e se transformaram em ações políticas”, sintetiza.

De acordo com Gomes, a Lava Jato “subverte princípios constitucionais e preceitos legais que vêm desde o iluminismo, deixando o indivíduo, perante o Estado, em uma situação desfavorável”: “As delações se tornaram um prova inequívoca. Muitas das prisões preventivas são ilegais”, critica. Para eles, estas “práticas autoritárias” têm se multiplicado em outros processos pelo país, prejudicando principalmente os mais pobres, maior parte dos processados criminalmente no Brasil.

“Os reflexos dela no mundo jurídico são nefastos. Ela introduziu uma prática de persecução penal - de apuração de crimes -, que está se tornando um modelo que ataca frontalmente direitos e garantias individuais”, resume.

Impunidade

Gomes questiona também o próprio discurso de combate à corrupção da Lava Jato: “A contradição dos defensores da Lava Jato é que a maioria dos que delataram teve suas penas perdoadas. Que Justiça é essa, que virou um negócio? Tem empresário que pega dois anos de pena, em regime domiciliar. Não acabou com a impunidade, está perpetuando ela”.

Em julho de 2016, de acordo com levantamento feito pelo jornal O Estado de São Paulo, o juiz federal Sergio Moro já havia perdoado 326 anos de pena.

De outro lado, aponta o advogado, a Lava Jato não faz distinção entre as empresas e suas direções, prejudicando a economia nacional: “Em sua sanha, eles acabaram destruindo boa parte do capital produtivo nacional, sem nenhum peso na consciência, sem responsabilidade com os trabalhadores”.

Novo patamar

A lista do Ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF) com pedidos de abertura de inquérito contra políticos, somada à liberação do conteúdo das delações premiadas de executivos da Odebrecht parecem contrariar a observação de que a Lava Jato atua de forma seletiva.

“Houve uma mudança de patamar. A lista do Fachin, de certa forma, desloca o eixo da Lava Jato de Curitiba para Brasília. Se comprova, finalmente, que o problema não era só o PT, pelas próprias declarações do Emídio Odebrecht. Cai, aparentemente, a proteção que vinha sendo dada ao PSDB”, analisa Fornazieri.

Ele critica entretanto, a ausência de Michel Temer (PMDB) – que “aparece como um dos maiores articuladores de propina e caixa dois” - da lista. Fachin se baseou na vedação constitucional de processar o presidente da República por crimes cometidos em momento anterior ao mandato.

Teori Zavascki, ministro que era responsável pela relatoria da Lava Jato no STF, entretanto, defendia a possibilidade de investigação contra a presidência para possíveis ações judiciais após o término do mandato.

Fornazieri diz que “o sistema político ruiu” e defende que, “dentro da lei”, as investigações devem continuar. Não apresenta esperanças, entretanto, que atuação do sistema de Justiça possa resolver os problemas da política.

“Tem que haver uma vontade reformadora do sistema político e partidário. O sistema político tem que se auto-reformar. Não cabe ao judiciário fazer isso. Infelizmente, vemos pouca capacidade nesse sentido. Me parece que essa crise vai demorar alguns anos para ser superada”, resume, indicando que o cenário está aberto a “aventureiros” nas próximas eleições.

Arbitrariedades

Patrick Gomes é mais crítico em relação à euforia causada em torno da lista de Fachin, ainda que concorde que se tornou mais clara a influência das empresas sobre o Estado e não apenas governos: “O que a Lava Jato tem feito é decretar o fim da política, como se esta não fosse um valor positivo na sociedade. Esse direcionamento somente à classe política é um dos componentes autoritários da operação”.

“A seletividade continua: só o setor da construção civil foi focado. A relação do sistema financeiro com a política se dá em bases éticas? É ingenuidade achar que tudo gira em torno da Odebrecht, que nunca perdeu uma ação no STF ou no STJ [Superior Tribunal de Justiça]. Ninguém fala de corrupção no Judiciário, dos meios de comunicação”, critica.

Além disso, segundo ele, a Lava Jato continua marcada por excessos, o que exigiria uma postura crítica, independentemente das pessoas atingidas. A atuação da operação, em sua visão, passa a ideia de que o Estado é a fonte de todos os problemas, perspectiva que fortalece propostas privatistas.

“Para aqueles que acreditam no sistema democrático, temos de dar o mesmo tratamento a todos. Deve-se lembrar que a delação diz tudo, mas não prova nada. É a palavra de alguém que cometeu um crime. A mesma criminalização açodada que se faz contra um adversário pode ser utilizada contra você. Eu não vejo a delação como uma verdade incontestável. Não podemos comemorar o arbítrio estatal”, finaliza.
Posted: 18 Apr 2017 07:01 AM PDT
Por Paulo Henrique Amorim, no blog Conversa Afiada:

O PiG cheiroso, de propriedade da Globo Overseas Investment BV, com a inestimável colaboração do investigativo repórter André Guilherme Vieira, tenta blindar o FHC Brasif, minuciosamente delatado pelo Emílio Odebrecht, que, na opinião do ansioso blogueiro, deveria ficar em cana com o filho.

A investigativa reportagem do cheiroso e seu diligente repórter recorreu a "fontes ligadas (sic) à magistratura federal", cujas identidades e ligações não sao reveladas.

ÂncoraComo diz o Mino Carta: no Brasil, os jornalistas são piores que os patrões.

Essas "fontes" asseguram que os crimes fartamente descritos por Emílio já prescreveram.

Ainda mais: o FHC Brasif, Príncipe da Privataria e maestro da Privataria Tucana, coitadinho, tem 85 anos e não pode mais ser encarcerado.

(Como Príncipe dos Sociólogos, ele certamente terá direito a cela especial, com biblioteca exclusiva e as obras completas de Max Weber.)

Os brasileiros aguardam o próximo artigo (cheio de colesterol) do FHC Brasif no Globo Overseas Investment BV e no Estadão (em comatoso estado), quando investirá contra a roubalheira do "lulo-petismo" - expressão que cunhou como a "teoria da dependência", aquela notável contribuição dele à história do entreguismo e da posição "tirar os sapatos" diante dos patrões norte-americanos.
Posted: 18 Apr 2017 06:48 AM PDT
Por Sarah Fernandes e Gabriel Valery, na Rede Brasil Atual:
O dia 17 de abril de 2016 entrará para a história como uma data controversa. Foi naquele domingo que a Câmara dos Deputados votou pelo prosseguimento do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), eleita em 2014 com 54,5 milhões de votos. Encorajado por uma série de manifestações populares fomentadas pela mídia tradicional, o plenário aprovou “por Deus, pela pátria e pela família”, o encaminhamento do processo para o Senado, após nove horas e 47 minutos de sessão. O motivo principal, mais que o suposto crime de responsabilidade do qual Dilma foi acusada, era levar ao poder um governo que aplicasse um pacote de retrocessos que jamais seria aprovado nas urnas, como defendem movimentos sociais e analistas.

ÂncoraPelas acusações, Dilma teria cometido crime de responsabilidade por ter assinado decretos de créditos suplementares e cometido as chamadas "pedaladas fiscais". O debate foi árduo, visto que as práticas foram utilizadas por governos anteriores, bem como por diferentes estados. Argumentos à parte, naquele 17 de abril os tais "crimes" foram pouco citados durante a sessão.

O pedido de impeachment foi elaborado pelos juristas Janaína Paschoal, Miguel Reale Jr, que foi ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso, e Hélio Bicudo, que chegou a ser vice-prefeito de São Paulo no governo de Marta Suplicy (do PT, entre 2001 e 2005). "Eu acho que a saída da Dilma não vai gerar trauma algum. As pessoas vão respirar fundo, dizendo: 'Puxa, saiu'", previu Bicudo em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em setembro do ano passado.
“Mais do que parar para refletir sobre o impeachment, que tem motivos de sobra, queremos servir a uma cobra? Nós somos muitos migueis, muitas janainas, não vamos deixar essa cobra dominando porque somos seres de almas livres”, disse Janaina durante uma aula pública na Faculdade de Direito da USP, no início de abril. “Não vamos abaixar a cabeça. Desde pequenininha que meu pai me diz ‘Janaína, Deus não dá asa para cobra’. E eu digo: ‘Pai, às vezes, a cobra cria asa. Mas Deus manda uma legião para acabar com a cobra’. Acabou a República da cobra! Fora PT, fora jararaca”, bradou, em menção a um discurso de Lula feito após sua condução coercitiva pela Lava Jato.
Com interferência de Janaína durante depoimento, Gleisi pede que se cale

Se o discurso de Janaína foi visto por muitos como parte de uma performance exaltada, era fato que também traduzia o ódio que cegava alguns dos opositores do governo Dilma. O documento do qual ela havia sido uma das signatárias foi entregue à Câmara em setembro de 2015. Antes disso, 30 pedidos já haviam sido protocolados na Casa e considerados insuficientes para abertura do processo. No dia 2 de dezembro de 2015, Cunha acolheu o pedido um dia após, como então presidente da Câmara, ter enfrentado uma derrota no Conselho de Ética, onde era alvo de investigação por quebra de decoro parlamentar. Na ocasião, o PT havia fechado questão contra o peemedebista, o que teria o motivado a aceitar o processo contra a presidenta.

Desde então, Cunha – hoje cassado e preso por corrupção – foi o maior agente do impeachment. “Não tínhamos noção completa de quem ele era, não imaginávamos o tamanho da serpente. Serpente criada, apareceu pronto para o que veio. Foi venal, usou todas as possibilidades para conseguir aprovar o impeachment”, avalia Roseli. “Temos que lembrar também do juiz Sérgio Moro. Ele tomou atitudes ridículas, como a condução coercitiva do (ex-presidente) Luiz Inácio Lula da Silva, e atitudes criminosas como o vazamento de conversas entre a presidenta e Lula para a TV Globo. O cerco midiático enfraqueceu muito o PT.”

Em março no ano passado começou o trâmite em comissão especial na Câmara, que culminou em um relatório do deputado Jovair Arantes (PTB-GO) a favor da abertura do processo de impeachment. O cerco contra Dilma foi montado até o dia 17 de abril, quando o plenário da Casa decidiu pela continuidade da tramitação. Foram 367 votos a favor e 137 contra. A sessão foi presidida por Eduardo Cunha (PMDB-RJ), então presidente da Câmara e então firme opositor do governo da petista.


"Terra da Lava Jato, avante!", bradou o parlamentar Diego Garcia (PHS-PR) como sua justificativa para seu voto a favor do impeachment. "Eu, junto com meus filhos e minha esposa que formamos a família do Brasil, que tanto esses bandidos querem destruir com propostas de que crianças troquem de sexo e aprendam sexo nas escolas com 6 anos de idade, meu voto é sim", proferiu o deputado Delegado Éder Mauro (PSD-PA). "Por causa de Campo Grande, a morena mais linda do Brasil, o voto é sim", disse Mandetta (DEM-MS). "Pela paz de Jerusalém, eu voto sim", justificou Ronaldo Fonseca (Pros-DF).

O voto foi dado por parlamentares que conhecem de perto a Justiça. Na época do processo, 150 dos 513 integrantes da Câmara, entre apoiadores e adversários de Dilma, eram investigados no Supremo Tribunal Federal (STF), em inquéritos e ações penais. As acusações variavam de crime de responsabilidade – como o atribuído a ex-presidenta – a corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e desvio de verba pública. Ao menos 23 deputados que participarem da votação eram suspeitos de ter recebido recursos desviados da Petrobras, inclusive o próprio Cunha. Deles, 17 votaram pela cassação de Dilma.

O caso mais emblemático, além do presidente da Câmara, foi o do marido da deputada Raquel Muniz (PSD), o ex-prefeito de Montes Claros (MG), Ruy Adriano Borges Muniz (PSB). Ele foi preso algumas horas depois da votação, em Brasília, em uma operação da Polícia Federal. "Meu voto é em homenagem às vítimas da BR-251. É para dizer que o Brasil tem jeito e o prefeito de Montes Claros mostra isso para todos nós com sua gestão. Meu voto é por Tiago, David, Gabriel, Mateus, minha neta Julia, minha mãe Elza. É pelo norte de Minas, é por Montes Claros, é por Minas Gerais, é pelo Brasil. Sim, sim, sim", disse veementemente a deputada durante a sessão.

“Foi um patético episódio ter deputados votando ‘contra a corrupção’ e, passado um tempo, o governo atual está atolado em processos, ministros caíram e alguns dos parlamentares hoje estão presos”, lamenta Raimundo Bonfim, um dos coordenadores da Frente Brasil Popular, que organizou movimentos sociais na defesa da ex-presidenta. “O golpe não foi para combater a corrupção nem para recuperar a economia. Foi para travar a Operação Lava Jato, como mais tarde disse Romero Jucá (senador pelo PMDB-RR, em diálogo gravado com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado).”

O espetáculo de 17 de abril, transmitido em rede nacional e acompanhado por milhões de pessoas, foi talvez o episódio mais constrangedor de um processo iniciado meses antes dentro e fora do Congresso. “Talvez o primeiro momento chave tenha sido quando o Eduardo Cunha (PMDB-RJ) lançou sua candidatura à presidência da Câmara. O PT acabou colocando na disputa um candidato sem expressão (Arlindo Chinaglia, de São Paulo), em oposição ao PMDB”, observa a professora Roseli Coelho, do Departamento de Ciência Política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp).
A novela do impeachment

Em 26 de abril de 2016, após a Câmara aprovar o prosseguimento do processo de impeachment, o Senado instalou sua comissão especial, onde o senador Antônio Anastasia (PSDB-MG) elaborou relatório, aprovado por 15 votos a 5, em 6 de maio, a favor da abertura do processo de impedimento da presidenta na Casa.

No dia 11 do mesmo mês, em uma sessão que durou mais de 20 horas, terminando no dia seguinte, o plenário do Senado aprovou por 55 votos a 22 o parecer de Anastasia. A presidenta foi afastada das suas funções até a conclusão de seu julgamento e, em 13 de maio, Michel Temer assumiu a presidência da República de forma interina.

Após muitas negociações e um bombardeio midiático a favor do impeachment, um novo relatório de Anastasia foi aprovado, agora a favor do impedimento da presidenta eleita, em 4 de agosto. No dia 9 tem início a sessão no plenário que definia a aceitação ou não do parecer do senador mineiro, determinando se Dilma se tornaria ré no processo.

Na ocasião, o defensor de Dilma, José Eduardo Cardozo, leu no Senado, de forma enfática um texto conciso, por ele elaborado. “A Constituição Federal de 1988, no seu artigo 1º, afirma textualmente que o Brasil é um Estado Democrático de Direito. E ao assim fazê-lo, deixa claro que nós vivemos sob o império da lei ao mesmo tempo em que vivemos sob o império da democracia”, disse em suas primeiras palavras.

Para o advogado, a motivação para o processo do impeachment não possuía bases legais, e sim políticas. “Ao contrário do que acontece nos regimes parlamentares, um presidente da República não pode ser afastado por razões puramente políticas. Ele não pode ser afastado, ao contrário do que nos que fazer crer a acusação, pelo conjunto da obra. Quem afasta um presidente pelo conjunto da obra é o povo, nas eleições.”
Um dos pontos centrais da defesa foi de que um presidente não pode ser julgado por atos cometidos anteriormente ao seu mandato, como era o caso das “pedaladas”, então anexou-se aos autos outro ponto. “Todos os fatos invocados estavam fora do mandato da presidente. Eduardo Cunha sabia disso, e por isso abriu o processo em relação a duas acusações que foram muito pouco referidas pelo adverso. Acusou que foram firmados decretos de abertura de créditos suplementares (…) Esses são os fatos em discussão (…) Quando um acusador foge desse debate é porque seguramente algo está frágil no seu raciocínio, na sua acusação”, disse.

Além de acusar a oposição de fugir do debate, como já fora notado na Câmara, onde as justificativas para as sentenças foram as mais absurdas e alheias ao processo, Cardozo questionou o trabalho do relator do processo na Casa, Antônio Anastasia (PSDB-MG). “O senador Anastasia enfrentou os debates em seu relatório, mas o fez, sinceramente, dominado pela paixão partidária. Sua excelência, basta ler o relatório para ver que o nobre relator trunca testemunhas, cita pareceres do TCU que não dizem o que ele diz que citam”, completou.

O processo encontrou seu ápice no final de agosto. No dia 29, a própria Dilma foi ao Senado se defender em um depoimento que durou 15 horas.
“Não luto pelo meu mandato por vaidade ou por apego ao poder, como é próprio dos que não tem caráter, princípios ou utopias a conquistar”, disse a então presidenta em sua defesa.

“O que está em jogo no processo de impeachment não é apenas o meu mandato. O que está em jogo é o respeito às urnas, à vontade soberana do povo brasileiro e à Constituição”, disse. “No passado da América Latina e do Brasil, sempre que interesses de setores da elite econômica e política foram feridos pelas urnas, e não existiam razões jurídicas para uma destituição legítima, conspirações eram tramadas resultando em golpes de Estado", apontou em seu depoimento no Senado.

“Ela se saiu muito bem, sua defesa foi muito boa, um ótimo momento dela, que não conseguiu sempre ser tão boa. Também temos que lembrar de seu advogado José Eduardo Cardozo. Ele fez um trabalho muito decente, técnico e empenhado. Não foi relapso em nenhum momento. Acrescento o Lula, que se mudou para Brasília a fim de negociar uma votação favorável para Dilma. Ele foi fantástico”, afirma Roseli.

Mas o desempenho da presidenta no Senado não foi suficiente para mudar seu destino, que parecia selado desde 17 de abril. Em 31 de agosto, por 61 votos a favor e 20 contrários, Dilma teve seu mandato cassado.

Divisor de águas

O impeachment de uma presidenta democraticamente eleita foi considerado por especialistas um divisor de águas na política nacional, interrompendo um período de redemocratização do país que vinha se consolidando desde o fim da ditadura civil-militar, em 1985. “Agora voltamos para um período autoritário. O mandato de uma presidenta legitimamente eleita foi interrompido neste processo de golpe parlamentar”, defende a professora Roseli.

O afastamento de Dilma, tido como golpe por parte do meio acadêmico, político e dos movimentos sociais, alterou radicalmente a orientação política do país. “O principal retrocesso foi o ataque à democracia. O impeachment tem previsão legal na Constituição, desde que o presidente cometa crime de responsabilidade e isso não ficou provado, tanto que o Senado não inabilitou Dilma na votação final”, diz Raimundo Bonfim. “Não havia justificativa nem elemento jurídico para o impeachment. É um retrocesso sem precedentes, que nos leva para antes de 1988 (quando foi aprovada a atual Constituição).”

Todo o contexto da votação do impeachment, em que os deputados sequer debateram o crime de responsabilidade, somado às acusações de corrupção do governo que assumiu, comandado por Michel Temer, ajudaram a ampliar o sentimento de desprezo da população pela classe política.

“O que podemos dizer é que as pesquisas que questionam sobre o prestígio da classe política apontam um cenário terrível. É cada vez mais baixo, o espetáculo daquele dia colabora para isso”, afirma Roseli. “O mais importante, impactante e cruel deste momento é a aprovação de medidas que cortam de modo criminoso os direitos dos trabalhadores. A mais clara que posso dizer no momento é a aprovação da flexibilização da terceirização. Isso é uma derrota para os trabalhadores, é rasgar as leis trabalhistas”, afirma.

Para Roseli, a velocidade dos movimentos de mudança do governo Temer contam, além do apoio do Congresso, com outro importante aliado. “Assim como a grande imprensa apoiou tudo que dizia respeito ao golpe, ela passou a aprovar quase que incondicionalmente o governo Temer. Assim, grandes veículos, como Folha, Estado e Globo, passaram a apoiar seu governo e suas medidas. De vez em quando aparece alguma crítica, mas muito pontual. E nos últimos meses menos ainda, eles estão apostando tudo no Temer, que vai tornar as relações de trabalho mais favoráveis aos empresários patrões e vulnerabilizar a classe trabalhadoras”, diz. “Passamos para um período cinzento, no mínimo.”
Caixa de Pandora

Mais do que uma guerra de forças entre PT e PDSB, que ganhou força na sociedade durante a eleição presidencial de 2014, para analistas, o que estava em jogo com o impeachment era aprovar um pacote de retrocessos e cortes de direitos que jamais venceria uma eleição. “Ninguém votou nesta pauta, mas tudo indica que o governo Temer, aliado ao Congresso, está disposto a fazer todo o trabalho sujo, até se aproveitando de uma baixa popularidade”, diz Roseli.

“Foi um golpe na população toda porque o programa que está sendo implantado sequer foi debatido nas urnas. Mesmo Aécio Neves (candidato tucano à presidência) nunca apresentou para o eleitorado que iria alterar a legislação trabalhista ou elevar a idade mínima de aposentadoria para 65 anos”, diz Bonfim. “Além da presidenta não ter cometido crime de responsabilidade, tomaram o governo de assalto para aplicar um programa que não foi defendido por ninguém. O presidente Temer disse que está fazendo essas medidas impopulares porque não tem preocupação com popularidade. Claro, ele não foi eleito...”

A baixa popularidade de Temer, de certa forma, revela a força do Parlamento, responsável direto pelo impeachment de Dilma, segundo a professora. “Como o presidente não tem apoio nas ruas, ele depende muito do Congresso. E os parlamentares conseguem tirar dele favores em troca da aprovação medidas impopulares. Por outro lado, existe uma cobrança de empresários, de modo geral. Uma cobrança de todos aqueles que são grandes empregadores”, afirma.

“Após a ruptura democrática começamos a sofrer uma série de retrocessos que atingiram em cheio a classe trabalhadora. Um dos principais foi o congelamento dos investimentos federais em políticas sociais por 20 anos (pela Emenda Constitucional 95, promulgada em dezembro). Mesmo com o crescimento demográfico, os reajustes serão apenas com base no índice inflacionário do ano anterior. Como faremos?”, questiona Bonfim.

O coordenador da Frente Brasil Popular lembra que o governo Temer interrompeu todo um processo de participação que vinha sendo construído desde o primeiro governo Lula por meio de conferências, congressos, conselhos e outros espaços de construção de políticas públicas. Além disso, destaca como retrocessos o fim de alguns programas sociais, como o Minha Casa, Minha Vida. “No último dia 30 tivemos grandes atos em várias cidades do país contra os retrocessos como no Fies, no programa Ciências Sem Fronteiras, na reforma agrária, na reforma urbana e na reforma do ensino médio.”

“Na última escala estão os direitos sociais: a terceirização, que ainda não se consumou e esperamos que consigamos resistir, e as reformas da previdência e trabalhista, que serão o maior retrocesso de todos, porque atingem todos os trabalhadores de forma geral. A trabalhista fomenta a precarização das relações de trabalho e vai colocar o empregado refém do empregador. A reforma da Previdência vai alterar o maior programa social do Brasil. Vamos estar nas ruas para resistir.”

“Somente através de um golpe essas medidas conseguem ser aprovadas”, defende Roseli. "Não é possível, eles tiram uma presidenta eleita e, em seguida, um presidente ilegítimo assume uma agenda de reformas que nem no governo Fernando Henrique Cardoso saíram da gaveta.”

A professora ainda mostra preocupação com o clima criado por uma agenda de ataques a direitos. “O ministro Gilmar Mendes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarou que a Justiça do Trabalho é um 'antro de petistas'. Isso faz parte de uma ofensiva contra os direitos do trabalho. Uma manifestação dessas jamais aconteceria em um governo como Dilma e Lula. Esse governo é ilegítimo, francamente de direita e fortemente contra os direitos da classe trabalhadora. Isso cria um ambiente propício para esse tipo de declaração. O Gilmar Mendes deveria ser processado por essa declaração, mas existe esse ambiente.”

“Para o país ter uma recuperação econômica é preciso ter confiança dos investidores e dos consumidores e hoje isso não existe: temos um governo ilegítimo que ninguém sabe se cai ou não. Do ponto de vista capitalista, quem se arisca a comprar uma casa agora? A confiança das famílias na economia está caindo, o Estado arrecada menos, tem menos recursos para investir nas políticas sociais e isso gera desemprego”, diz Bonfim. “Lula pode voltar em 2018 e não ter mais Estado para fazer os programas sociais que fez porque se desmontou tudo. Por isso precisamos reverter essa situação agora. 2018 é agora.”
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Sucessão de pesadelos

Muitos riscos do golpe foram antecipados na RBA e nas edições da Revista do Brasil

• Substituição de uma presidenta e eleita e sem crime de responsabilidade por um presidente manchado por acusações e um ministério de homens brancos, sendo nove deles também atolados em denúncias de corrupção.

• Congelamento dos investimentos públicos em políticas sociais – inclusive educação e saúde – pelos próximos 20 anos (Emenda Constitucional 95).

• Retirada da obrigatoriedade de participação da Petrobras em pelo menos 30% da exploração do pré-sal. Início da venda de patrimônio da estatal a companhias estrangeiras a preços subavaliados.

• O projeto que escancara o uso de terceirizações irregular de mão de obra, sancionado por Temer no último dia 31 de março. O modelo de contratação passa a ser liberado para qualquer atividade, em empresas privadas, públicas e no serviço público.

• Apresentação de projeto de reforma Trabalhista (PL 6.787/2016), que “flexibiliza” direitos previstos em lei – como forma de remuneração, férias, trabalho em home office, jornada diária – ao autorizar que “negociação” direta entre empregadores e empregados prevaleça sobre as leis. O relator da proposta na Câmara, Rogério Marinho (PSDB-RN), afirma que o projeto deve ser votado até o final deste mês.

• Projeto de Reforma da Previdência (PEC) 287/2016, de autoria do governo de Michel Temer, que dificulta ou inviabiliza o acesso a aposentadoria ou a benefícios à maioria dos brasileiros, fragiliza o sistema público de seguridade social e atende aos interesses dos bancos, e seus planos privados de previdência.

• Interrupção do processo de participação popular na construção de políticas públicas, que vinha sendo construído desde o primeiro governo Lula por meio de conferências, congressos e conselhos.

• Fim ou esvaziamento de programas sociais como Minha Casa, Minha Vida, Fies e Ciências Sem Fronteiras, além de retrocessos na reforma agrária, na reforma urbana e na reforma do ensino médio.

• Fim das políticas públicas para mulheres, negros, juventude e direitos humanos.
Posted: 18 Apr 2017 06:47 AM PDT
Da revista Carta-Capital:
As reuniões aconteceram ao redor de uma sólida mesa de madeira de 6 metros de comprimento por 1,5 metro de largura numa ampla sala na zona oeste de São Paulo. Na coordenação, o ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira. No centro dos debates, a questão nacional.

Ao longo dos últimos meses, economistas, empresários, advogados, sociólogos, embaixadores, artistas e políticos discutiram a dramática situação do País e propostas para a retomada do crescimento consistente, com inclusão e independência. Das conversas nasceu o manifesto Projeto Brasil Nação. “Três substantivos unidos que dizem bem o que queremos: um Brasil que volte a ser uma nação e tenha um projeto de desenvolvimento econômico, político, social e ambiental”, afirma Bresser-Pereira na entrevista a seguir.

ÂncoraO País, aponta o documento (aqui), enfrenta um desmonte, com desnacionalização, sufocamento da indústria e destruição de direitos. Em poucos dias, o manifesto, disponível no site www.bresserpereira.org.br, obteve mais de 150 adesões. Entre os signatários, o ex-chanceler Celso Amorim, o escritor Raduan Nassar, o cantor Chico Buarque, o engenheiro Mario Bernardini e o ator Wagner Moura.

Como surgiu o movimento Projeto Brasil Nação?
O movimento nasceu de uma iniciativa da jornalista Eleonora de Lucena, que foi editora-executiva da Folha de S.Paulo por muitos anos. Ela me procurou em dezembro e manifestou sua preocupação com o que tem acontecido com o Brasil. E lembrou a imensa leitura que alcançou a minha entrevista, feita por ela em fevereiro de 2015, na Folha, na qual eu dizia que o País estava tomado pelo ódio.

Concordei com ela, e disse que deveríamos iniciar um movimento político para devolver ao Brasil a ideia de nação. Hoje, em vez de uma nação coesa em busca da democracia e da justiça social, como éramos nos anos 1980, somos uma sociedade dividida, na qual um governo nascido de um golpe parlamentar tenta impor ao povo uma política liberal radical. Hoje, em vez de uma economia que cresce fortemente a uma taxa superior a 4 % ao ano, somos desde 1980 uma economia semiestagnada, crescendo menos de 1%.

E essa situação nos coloca em que patamar?
Estamos diante de uma crise econômica de longo prazo, agravada pela descoberta de um amplo esquema de corrupção envolvendo empresas, políticos, lobistas e funcionários de empresas estatais. Diante de uma crise moral e política que abriu espaço para um liberalismo radical moralista, como nunca havia visto. Uma verdadeira luta de classes de cima para baixo. Dado esse diagnóstico geral, realizamos uma série de reuniões para redigir o manifesto que agora estamos tornando público.

Qual o objetivo do texto?
LCBP: O manifesto visa lançar o movimento Projeto Brasil Nação, três substantivos unidos que dizem bem o que queremos: um Brasil que volte a ser uma nação e tenha um projeto de desenvolvimento econômico, político, social e ambiental. A nação brasileira foi forte e soberana pela última vez nos anos 1980, quando nos unimos para realizar a transição democrática e aprovar uma bela Constituição. Em seguida, começou a divisão, pois os liberais a viram como excessivamente social, envolvendo uma carga tributária alta demais, e porque boa parte dos brasileiros perdeu a ideia de nação diante da hegemonia ideológica do liberalismo internacional.

Qual a consequência?
O Brasil, desde 1990, por meio da abertura comercial, da abertura financeira, das privatizações de monopólios públicos e de uma política de altos juros e câmbio apreciado crônica e ciclicamente, passou a ter um regime de política econômica liberal, desindustrializou-se e cresceu a uma taxa per capita equivalente a um quarto da registrada no regime anterior, desenvolvimentista. No período em que o PT esteve no poder (2003-2015), houve tentativas de mudanças, mas fracassaram. Diante desse quadro, entendemos que precisávamos de um documento que não fosse uma simples manifestação de protesto e indignação contra o atual governo nem pretendesse ser um projeto para o Brasil que cobrisse todos os campos. Precisávamos de um documento que enunciasse valores e definisse apenas uma das áreas desse projeto, a econômica.

Daí nasceram os cinco pontos econômicos do projeto: 1. Regra fiscal que não seja mera tentativa de reduzir o tamanho do Estado à força, como é a atual regra; 2. Taxa de juros mais baixa, semelhante àquela de países de igual nível de desenvolvimento; 3. Superávit em conta corrente necessário para que a taxa de câmbio assegure competitividade para as empresas industriais eficientes; 4. Retomada do investimento público; e 5. Reforma tributária que torne os impostos progressivos. Enfim, precisávamos de um programa que fosse uma clara alternativa ao populismo cambial combinado com desrespeito aos direitos sociais. O manifesto define essa alternativa.

Quais os próximos passos?
LCBP: São dois: obter pela internet um grande número de assinaturas para o documento. E conversarmos com os partidos políticos e movimentos sociais que estiverem interessados em esclarecer e aprofundar as questões e as políticas descritas no manifesto. É importante assinalar que o movimento Projeto Brasil Nação não é partidário nem pretende ter a chave para todas as questões. É um movimento de cidadãos que quer mostrar que existe uma alternativa para o Brasil, uma alternativa que poderá unir trabalhadores, empresários e classe média em torno das ideias de nação, desenvolvimento econômico, diminuição das desigualdades e proteção do ambiente.
Posted: 18 Apr 2017 06:46 AM PDT
Jean-Luc Mélenchon
Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

A relevância internacional da ascenção de Jean-Luc Mélenchon na eleição presidencial francesa não pode ser desprezada.

O crescimento de um candidato de perfil nitidamente de esquerda, de pais e avós socialistas, representa uma boa advertência contra o conformismo que ameaça se transformar na principal corrente de pensamento dos dias atuais.

Numa situação que os brasileiros conhecem muito bem, e que dá uma ideia de que o provincianismo autoritário não é uma exclusividade verde-amarela, nos últimos dias a mídia francesa transformou Melénchon no adversário a destruir.

ÂncoraEm editorial no dia 12, o Fígaro, mais tradicional jornal da direita francesa, comparou Mélenchon a Robespierre e Hugo Chávez, passando por Lenin, Trostki e Fidel Castro. Também escreveu que ninguém fica "incólume" após uma passagem "de dez anos na Organização Comunista Internacionalista, "similar francesa da corrente O Trabalho, do Partido dos Trabalhadores.

Eu estava na França em março, quando Mélenchon se encontrava em quinto lugar na maioria das pesquisas eleitorais. Assisti, pela TV, a seu comício para 130 000 pessoas numa praça central de Paris. Acompanhei, dois dias depois, seu desempenho num debate entre os seis principais candidatos ao primeiro turno, quando deixou os estúdios da TV aclamado por um desempenho indiscutivelmente superior.

Numa referência aos efeitos possíveis da gigantesca manifestação de Paris numa campanha que parecia bloqueada para uma candidatura ligada aos trabalhadores e a população mais pobres do país, registrei aqui mesmo, em 19 de março: "Não há dúvida que a presença de uma multidão numa praça histórica de Paris ajudou a diminuir o sufoco."

De lá para cá, Melénchon tem exibido visão política e clareza de pensamento para equilibrar-se numa situação difícil.

Trata-se de assumir uma campanha de esquerda num cenário de escombros do governo François Hollande, que desmotivou essa fatia do universo político frances como poucas vezes se viu na história do país e quem sabe do mundo, deixando duas heranças complicadas. Uma delas, a reforçada candidatura fascista de Marine Le Pen.

A outra é uma candidatura saída da ala direita do governo Hollande, Emanuel Macron, uma espécie de Joaquim Levy. Mais desembaraçado e politizado do que sua versão brasileira, Macron é o concorrente abençoado pela elite dirigente do país -- numa postura tão escancarada que pode tornar-se até contraproducente em períodos de irritação do eleitorado.

Nessa situação, a campanha de Mélenchon desafia o aconselhamento político convencional, que recomendaria prudência e moderação como estratégia permanente.

Apoiado numa oratória sem comparação possível entre concorrentes, rica em imagens e clara na argumentação, cresce aos olhos do eleitor sem perder uma única oportunidade para reafirmar a defesa dos interesses dos trabalhadores, dos direitos dos imigrantes e seus descendentes -- assunto crucial da democracia francesa --, dos direitos das mulheres e até à eutanásia, sem tornar-se um ultra-esquerdista inofensivo, personagem disponível em várias versões -- até cômica -- no pleito francês de 2017.

Sua força reside na capacidade de apontar problemas e oferecer soluções. Proclama a necessidade de uma Constituinte, critica a subordinação dos Estados Nacionais a União Europeia e diz que a presença dos refugiados nos países dos Velho Mundo tem origem em tratados de livre comercio que destruíram as economias e oportunidades de emprego nos países pobres, em particular antigas colônias. Num país no qual atos terroristas estimulam os piores instintos da população, Mélenchon fala contra a Guerra, exige a Paz.

Nos últimos dias de campanha, as dificuldades de Mélenchon se tornam mais visíveis, efeito natural no esforço de um concorrente que trocou a condição de concorrente nanico pela de candidato real. Articulada em torno de suas ideias e sua personalidade, sua campanha não possui a aparelhagem política pesada que irá correr atrás dos votos franceses até domingo. Mesmo eleitores do PS -- aqueles que não foram seduzidos por Macron -- serão pressionados a votar no candidato oficial do partido, num esforço para garantir uma bancada parlamentar acima da linha d'água e evitar uma derrocada sem remédio. Mesmo sem atingir o padrão tropical, os ataques abaixo da cintura devem recrudescer.

Se ultrapassar tantos obstáculos e chegar ao segundo turno, Mélenchon estará no centro de um debate essencial, capaz de muda ventos no Velho Mundo e em todo o planeta.
Posted: 18 Apr 2017 06:25 AM PDT
Posted: 18 Apr 2017 06:38 AM PDT
Por Tarso Genro

As delações premiadas são confissões-informações prestadas por cidadãos que já reconhecem ter cometido delitos e pretendem, através de uma colaboração formal com o Ministério Público e o Poder Judiciário, obter reduções significativas de penas e até condições especiais para o cumprimento das mesmas. Defendo que o instituto da “delação” - usado com as devidas cautelas constitucionais - pode ser um bom instrumento para nortear investigações e constituir provas para comprovar delitos de difícil aferição.

ÂncoraO que está acontecendo no país, porém, não é isso. Trata-se de um outro processo, de natureza jurídico-política, que caracteriza bem os momentos de “exceção” que submetem, hoje, a democracia brasileira. Momentos que pervertem o Estado de Direito, ferem o direito de defesa e promovem linchamentos pela mídia tradicional, no melhor estilo da imprensa stalinista, contra os “inimigos do povo soviético” e da imprensa nazi-fascista, que adiantava as sentenças do Tribunais domesticados pelo sistema policial, autonomizado dos demais poderes do Estado. O sistema policial, nestas hipóteses, era o próprio Estado.

O instituto da “delação”, no Brasil, tornou-se apenas um sistema de blindagem e impunidade dos delatores empresariais, para incriminar toda a esfera da política, penalizando pela mídia de forma massiva -sem quaisquer critérios de verificação, sem seletividade, sem hierarquia de responsabilidades, sem separar crimes de irregularidades formais, sem separar propinas de contribuições legais de campanha- penalizando, repito todos os que estão no “mundo” da política. A sujeira das outras instituições do Estado, do mundo privado, inclusive das mídias tradicionais passou, assim, a ser depositada de forma exclusiva na “política” e nos partidos.

Isso era para ser feito exclusivamente contra o PT, mas o processo “descontrolou-se”. Atingiu -em proporções gigantescamente maiores- a soma de lideranças dos partidos de direita e de centro-direita no país, que começaram a sofrer os mesmos métodos de incriminação em abstrato, que o PT e a esquerda vinham sofrendo, “réus” sem processo perante a opinião pública, mas já responsáveis pelos delitos apenas imputados. Delitos sem definição por sentença ou mesmo sem relatórios próprios de qualquer Inquérito Policial numa situação de normalidade jurídica. (“Outro lado”: evidentemente, dentre os delatores estão pessoas que querem colaborar sinceramente com a Justiça e safar-se, arrependidos, das penas previstas para os crimes que se envolveram, cumprindo as tarefas dadas pelos seus patrões).

Observem como se dá o roteiro das incriminações: ele começa com notinhas nas redes, em “blogs” dos jornais tradicionais ou nos seus associados, ideologicamente, que transitam “informações” que logo são acolhidas por colunas, aparentemente sem vínculos políticos (notoriamente anti-esquerda, anti-petistas e anti-Lula), que preparam as condições para o próximo passo: os vazamentos seletivos. Estes, são selecionados por pessoas da burocracia do MP ou da Justiça -ou por ambos- e passam a orientar a confecção das “Listas”. Estas vão “revelar” os delitos, como se eles já fossem apurados -cometidos pelos “políticos bandidos”- que, já encomendado no clamor popular, devem ser presos “imediatamente”, como é levado a dizer qualquer cidadão comum.

O processo de investigação inicial para apurar a notícia “criminis”, como se diz no jargão penal, desta forma substituiu o processo judicial e as “Listas” tornam-se, elas mesmas, as sentenças executadas por execração pública, que debocham da Lei e da Constituição. Debocham porque nem todos -de qualquer “Lista”- são políticos bandidos (sejam de esquerda ou de direita) e porque os fatos que supostamente envolveram as pessoas “listadas”, numa “Lista penal” única, não só são diferentes entre si, mas sequer são produto de um inquérito regular ou processo judicial, que tenham garantido qualquer resquício do direito de defesa.

Interessei-me, especialmente, pela chamada “Lista Fachin”, porque o jornal “Zero Hora” havia noticiado que dois ex-governadores do Estado estariam nela. Mesmo tendo confiança que o meu nome não estaria na “lista” (porque sempre escolhi como Tesoureiros de campanha pessoas afinadas com a posição de não recebimento de doações sem registro legal), tenho experiência suficiente, porém, para saber que não é difícil ser alvo de montagens para falsas incriminações, nesta verdadeira anomia moral e política que vive o país. E porque, de outra parte, ninguém está livre de “receber” (falsamente) uma “doação” ilegal, através de pessoas que eventualmente usem o nome do Partido ou do Candidato, para obter recursos para proveito próprio.

Quando vi a tal “Lista” percebi que dos últimos cinco Governadores do Estado apenas dois, eu e Olívio Dutra, do “maldito PT”, não estávamos na “Lista” de investigados, o que não nos impede -feitas as devidas simulações e montagens que estão sendo processadas com tais delações- de estarmos eventualmente nas próximas. Surpreendi-me, mesmo assim, imaginando qual seria a manchete do referido jornal ZH, que já havia noticiado a presença, na “Lista”, de dois Governadores investigados e imaginei-a assim: EM VINTE ANOS SÓ OS GOVERNADORES DO PT NÃO RECEBERAM PROPINA.

Rapidamente reagi, ao sentir que eu também estava sendo impregnado pelo mesmo espírito fascista que empesta hoje -através da grande mídia- o ambiente político do país. Eu estava inconscientemente desejando aos os meus adversários, o mesmo tratamento que vinha sendo dado exclusivamente ao PT, e que hoje se destina -de forma indistinta- a todos os partidos e lideranças políticas. Sejam elas criminosas ou não, com ou sem provas, com “Listas” que misturam doações irregulares de campanha -que devem ser apuradas na forma lei- com roubos de dinheiro público e apropriação de recursos fraudulentos de empresas, para fortuna própria.

Fui ler os despachos do Ministro Fachin, que são simples encaminhamentos para verificar -em relação a todos os listados- da pertinência de instauração de inquéritos para apuração de determinados fatos, sobre os quais estarão em disputa a palavra dos delatores, que confessaram crimes e pretendem reduzir suas penas, de um lado, e de outro, a palavra dos “políticos”, apontados como beneficiados em processos eleitorais. É claro que dentre os listados devem estar pessoas que cometeram delitos, mas seguramente colocar numa só lista pessoas com graus de responsabilidade diversa (ou sem nenhuma responsabilidade) é um crime que o Estado comete contra a política e a democracia, característico de um período de “exceção”.

Como se verificará mais tarde -talvez em relação à maioria- o Estado aqui é que comete um crime contra as reputações de delatados sem culpa. Não posso falar de todos, aqui do Rio Grande, porque não acompanho de maneira suficiente a sua militância, mas tenho absoluta convicção que -estes posso dizer porque os conheço bem- Germano Rigotto, Estilac Xavier, Maria do Rosário e Manuela D’Ávila, por exemplo, são pessoas que estão ou estiveram na política por seus ideais, não em busca de dinheiro ou vantagens pessoais. Basta ver o despacho de Fachin, para se chegar à conclusão sobre a leviandade das delações em relação a eles, submetidos a uma execração pública odiosa e construída de forma arbitrária.

Apenas um exemplo da grotesca situação a que estamos submetidos, neste processo sem controle legal, que caracteriza os momentos de “exceção”, que dissolvem os fundamentos da ética republicana num jogo barroco de informações que só favorece os grandes criminosos: a investigação pedida sobre Estilac Xavier é sobre recursos “não contabilizados” da sua campanha a Deputado Estadual em 2O10! Repito, 2010! Nesta eleição, Estilac Xavier não concorreu a Deputado Estadual! A investigação, portanto, deverá ser arquivada liminarmente pelo STJ, se este tiver um mínimo de isenção e seriedade no trato das questões que lhe são aferidas pela Constituição Federal. Mas o prejuízo já está feito.

O vídeo de delação que foi “liberado” por Fachin, refere-se à negativa de Estilac para receber recursos “não contabilizados”, a serem utilizados para a minha campanha a Governador, em 2010, cumprindo fielmente nossa orientação a respeito deste tema. A partir desta negativa de Estilac, o delator alega que encaminhou uma doação ao PCdoB, por sugestão de Estilac, visivelmente pasmado pela postura irredutível do Tesoureiro da campanha do PT, contra o “caixa 2”. Se o PCdoB disser que não recebeu esta doação “não contabilizada”, vale a palavra do delator que quer “ajudar” a Justiça para não cumprir uma pena ou do PCdoB, com o Partido político? Não é possível concluir que estes recursos ficaram no “meio do caminho”, com alguém que os detinha em depósito, e não foram devolvidos para empresa?

Os pequenos, médios, micro-empresários, que apostam no neoliberalismo e apostam no nosso João Berlusconi Dória para o futuro, estão cavando seu próprio túmulo. A sociedade que está sendo construída pelas grandes corporações empresariais globais, industriais, financeiras e de serviços, é uma sociedade onde o Estado não será um Estado de combate à corrupção nem será reduzido. Ele simplesmente será absorvido e aparelhado por estas grande corporações, que sempre serviram dele, Estado, para a sua acumulação infinita. A premissa-chave, para que isto ocorra num regime de democracia formal, é a extinção da política e dos partidos, em cujo limite está o fascismo, que é o super Estado da violência irrestrita. Ou está o neoliberalismo absoluto, no qual o Estado -dissolvido nas grandes corporações financeiros- é um gigantesco aparato de acumulação sem trabalho vivo, mantido pelos gastos públicos da guerra e da morte sem limites, espalhada pelo globo.

* Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.
Posted: 18 Apr 2017 06:38 AM PDT
Por Marcelo Zero

O moralismo hipócrita e neoudenista, utilizado para tirar a presidenta honesta do poder, destruiu a democracia, a economia e a política do Brasil. O país está em frangalhos. E tende a piorar.

Os nossos moralistas de ocasião, que insuflaram paneleiros de classe média e procuradores messiânicos contra Dilma e o PT, com discurso raso e equivocado, agora se veem tragados pelo maelstrom das investigações “purificadoras”.

Cometeram o mesmo erro de certos setores da classe política alemã, que acharam que Hitler podia ser útil no combate aos “comunistas”. Mas, uma vez deflagrados, esses processos de histeria coletiva adquirem dinâmica própria, intensificando-se com a crise política e econômica. A caixa de Pandora do protofascismo moralizante, uma vez aberta, é muito difícil de ser fechada. Em pouco tempo, o Reichstag (o parlamento) já está pegando fogo e as instituições democráticas são reduzidas a cinzas.

ÂncoraNo Brasil, com os últimos e sempre ilegais vazamentos da Lava Jato, o nosso Reichstag já está em chamas. Isso tem consequências sérias.

Com um presidente com 5% de popularidade, a tocar um ministério de acusados, e um parlamento reduzido a cinzas, o poder real no Brasil deslocou-se definitivamente do sistema de representação política para um consórcio formado pelo grande capital, especialmente o internacional e o financeiro, o poder judiciário, o ministério público e a mídia oligopolizada.

Obviamente, essa não era a intenção inicial do golpe e da Lava Jato. O objetivo era (e é ) afastar, de forma definitiva, o PT e a esquerda do poder. Entretanto, não houve como circunscrever as investigações apenas ao PT, como queriam. Com o tempo, começou a ficar muito clara a seletividade escancarada e desavergonhada da Lava Jato, que criminalizava o “caixa um”, legal, do PT e tentava ignorar as propinas, depositadas em contas no exterior, do PMDB e do PSDB. Os vazamentos e os indiciamentos tinham de se generalizar, justamente para dar credibilidade à seletividade.

Na Alemanha, o sistema político foi destruído para que Hitler chegasse ao poder. No Brasil, o sistema político está sendo destruído para impedir que Lula volte ao poder. Vazamentos eventuais contra o PMDB, PSDB e DEM, apoiadores do golpe, são o dano colateral inevitável do maelstrom deflagrado contra o projeto progressista. Dano que poderá ser amainado nos misteriosos meandros da “justiça”.

Contudo, o prejuízo geral e grave à política, à economia e à democracia já está feito.

Isso suscita a questão: como o golpe e sua restauração neoliberal vão continuar? Como tocar reformas tão impopulares, como a reforma da previdência e a trabalhista, sem voto, sem legitimidade e com um Executivo e Legislativo com altíssima rejeição? Acima de tudo, como o consórcio que concentra o poder real no país vai tirar o Brasil da pior crise da sua história com um governo sem nenhuma credibilidade e com o mais baixo índice de popularidade já registrado?

Há duas possibilidades: 1) continuar, aos trancos e barrancos, com a “solução” Temer até 2018, ou 2) dar o “golpe dentro do golpe” e eleger indiretamente um novo governo formado por figuras “ilibadas e técnicas”.

Ora, nenhuma das duas tem a menor condição de funcionar. A primeira por motivos bastante óbvios. Ninguém aguenta mais a “solução” Temer, que virou um problemão para os próprios apoiadores do golpe e, sobretudo, para o país. O governo ilegítimo de Temer só prolonga e aprofunda a crise política e econômica. Mesmo que consiga aprovar as reformas impopulares e fazer o trabalho sujo para o consórcio golpista, não oferecerá saída viável para a crise. Falta-lhe um mínimo de credibilidade.

Já a solução ‘técnica’, que seria propiciada pelo “golpe dentro do golpe”, esbarra numa contradição fundamental: nas condições atuais, ela significaria o enterro da classe política vigente e das suas lideranças colocadas sob suspeita, mas ela teria de ser votada por essa mesma classe. Com o PSDB atirado também no maelstrom, não sobraram atores políticos de relevo para o “golpe dentro do golpe”.

Porém, mesmo que fosse promovida, tal “solução” teria exatamente a mesma probabilidade de funcionar que a “solução Temer”, pois ela também não possuiria credibilidade e legitimidade.

O grande engodo do golpe não foi ter substituído a presidente honesta pela “turma da sangria”. O grande engodo da Lava Jato partidarizada não foi ter levado a opinião pública a acreditar que o PT havia criado o “maior esquema de corrupção do Brasil”.

O grande engodo do golpe e da Lava Jato foi o de mudar em cento e oitenta graus os rumos de todas as políticas do país (econômicas, sociais, externa, de educação, saúde, previdência, etc.) sem fazer disputa política aberta e democrática. A grande fraude do golpe e da Lava a Jato é política e democrática: roubaram da população o poder de decidir seu próprio destino.

Ou alguém aí votou para que se contribua meio século ininterruptamente para conseguir se aposentar com proventos integrais? Para que o trabalho precário e terceirizado, sem férias e outros direitos, se torne a norma no Brasil? Para vender o pré-sal e a Petrobras a preço de bananas podres? Para vender as terras do Brasil a estrangeiros? Para acabar com o Ciência sem Fronteiras e a Farmácia Popular? Para “desinvestir” em Saúde e Educação por 20 anos? Claro que não. Foi necessário um golpe para se fazer tudo isso.

Roubaram do povo, fonte do poder democrático, a capacidade de decidir. A partir daí, a criminalização de toda a classe política era apenas uma questão de tempo. Não há corrupção pior do essa. Não há corrupção pior que o roubo da soberania popular. O Brasil está sendo vendido e destruído sem um único voto.

O cerne da crise brasileira é político. O Brasil não sairá da mais grave crise de sua história sem política. Não há nada crível para ser colocado no lugar do sistema de representação, mesmo com todos os seus problemas. Banqueiros, donos de meios de comunicação, juízes e procuradores não têm voto. Uns têm dinheiro e outros têm fama e prestígio ocasionais. Nenhum tem legitimidade para governar, a não ser que se aposte numa nova forma de ditadura, com a substituição de militares por juízes e procuradores.

A política precisa reagir e sair do gueto moral em que foi jogada pelo golpismo e a Lava Jato messiânica e partidarizada.

Mas a classe política, por sua vez, não representará opção crível e legítima se não for renovada pelo crivo do voto.

Não serão delatores e corruptores à procura de absolvição e procuradores e juízes à procura de holofotes que vão passar o “país a limpo”. A única coisa que passa um país democrático a limpo é o voto popular.

Portanto, a única saída para a classe política e para o Brasil são eleições diretas já. A urgência é necessária pela profundidade da crise e, sobretudo, para se evitar que país inteiro seja vendido e destruído pela agenda retrógrada do golpe.

A construção civil pesada e a engenharia nacional já se foram. O pré-sal, nosso passaporte para o futuro, e a Petrobras estão sendo vendidos a preços aviltados. Vêm aí a venda das terras a estrangeiros e a abertura do espaço aéreo para o capital internacional. Subsolo, solo e ar brasileiros serão leiloados. Prepara-se a privatização dos bancos públicos e, como disse o presidente ilegítimo, de “tudo o que for possível”. São grandes negociatas que renderão muito dinheiro ao capital internacional e aos seus associados golpistas. Procuradores, acredita-se, não interferirão. Continuarão a perseguir Lula e seus pedalinhos.

No próximo mês, o Estado de Bem Estar, já duramente golpeado pela emenda constitucional do congelamento dos investimentos, será praticamente destruído pela reforma contra a aposentadoria e a reforma contra o trabalhador.

No ritmo em que a destruição do país vai, não haverá mais um Brasil em 2018.

Diretas Já ou Brasil nunca mais.
Posted: 18 Apr 2017 06:36 AM PDT
Do site da Federação Única dos Petroleiros (FUP):
No dia 17 de abril de 2016, a Câmara dos Deputados Federais protagonizou um dos mais vergonhosos capítulos da história do nosso país, ao aprovar a instalação do processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff, sob a falsa acusação de crime de responsabilidade, as supostas pedaladas fiscais, que meses depois foram liberadas para os exercícios seguintes.

Moralistas sem moral transformaram o Plenário da Câmara em uma arena, golpeando a democracia em rede nacional, em nome de Deus e de suas famílias, homenageando torturadores, criminalizando os partidos de esquerda e os movimentos sociais, em um espetáculo dantesco que indignou a nação brasileira.

ÂncoraUm ano depois, diversos dos parlamentares responsáveis por esse show de horrores estão mergulhados em escândalos de corrupção, enquanto a conta do golpe cada vez fica mais cara. O Brasil vive a maior crise política e institucional de sua história, com a economia em frangalhos e milhões de desempregados, a miséria e a violência crescendo em ritmo acelerado, programas sociais sendo desmontados, direitos trabalhistas e previdenciários em vias de serem extintos e a Petrobrás e o Pré-Sal, pilares do desenvolvimento do país, sendo entregues de bandeja ao capital estrangeiro.

A primeira grande conta do golpe paga pelo povo foi a abertura da operação do Pré-Sal, que deixou de ser exclusividade da Petrobrás, que também perdeu a garantia de participação mínima de 30% nos processos de licitação. Não por acaso, os golpistas colocaram na presidência da estatal Pedro Parente, o ex-ministro do apagão do governo FHC, que já chegou desdenhando do Pré-Sal e escancarando as reservas da empresa para as multinacionais.

Em um intervalo de seis meses, ele entregou parcelas preciosas de Carcará, Iara e Lapa, áreas do Pré-Sal que foram adquiridas pela Statoil e pela Total a preço de banana. O desmonte é tamanho que mais de 60% das sondas de perfuração que a Petrobrás tinha em 2013 já foram paralisadas, fazendo as reservas da empresa voltarem aos níveis de 15 anos atrás.

De apagão em apagão, Pedro Parente conseguiu até mesmo desmantelar a cadeia produtora nacional que era movimentada pela estatal. Além de priorizar as empresas estrangeiras nos processos de contratação, transferiu para o exterior as encomendas de plataformas e equipamentos. A política de conteúdo local, que já vinha sendo confrontada por ele, foi praticamente dizimada pelos golpistas, deixando um rastro de falências e desemprego pelo caminho.

Como nos anos 90, a prioridade voltou a ser o investidor estrangeiro. No feirão que o presidente da Petrobrás vem promovendo mundo afora, ativos estratégicos estão sendo doados à concorrência por preços irrisórios e, o que é pior, sem nem sequer licitação. Parente corre contra o tempo despejando no mercado de sondas seminovas, como a P-59 e a P-60, ofertadas por menos de 5% de seus valores, a campos de petróleo no mar e terra, unidades de refino, petroquímicas, usinas de biodiesel, empresas de distribuição de derivados, como a Liquigás e a BR, terminais e redes de gasodutos, como a NTS, responsável pelo escoamento de 70% do gás natural do país, que já foi arrematada a preços módicos por um grupo de investidores estrangeiros.

E assim, a Petrobrás e o Pré-Sal estão sendo doados ao capital internacional. É o script do golpe, que, desde o início, tinha por foco o petróleo brasileiro. Enquanto isso, o projeto nacional de soberania e de desenvolvimento econômico está novamente à deriva, comprometendo não só os investimentos e conquistas que tivemos nos últimos anos, como o futuro da nação. É a conta mais perversa do golpe.
Posted: 18 Apr 2017 06:32 AM PDT
Por Miguel do Rosário, no blog Cafezinho:

Cá estamos, pessoas comuns, sentados no alto de nosso isolamento, contemplando um triste e violento espetáculo. Lá embaixo, na planície, a república arde em chamas, diante de um público fascinado, perplexo, confuso. A Lava Jato cumpre, enfim, o seu destino, que é assumir o poder político no país.

Os delatores foram usados como combustível humano. Os representantes da Odebrecht, em particular, foram tratados com um cuidado muito especial, porque a Lava Jato cultivou, desde o início, a esperança de que a bala de prata contra Dilma, Lula e o PT viria do ex-presidente da empresa, Marcelo Odebrecht.

ÂncoraAo invés disso, o que vimos foi o espetáculo mais grotesco da história mundial do direito. Todo o modus operandi da Lava Jato, baseado desde o início no uso indiscriminado de delações premiadas, culmina com as delações da Odebrecht, transformadas em armas de destruição em massa para subsidiar mais um brutal ataque à política.

Tornamo-nos uma república de delatores. Em plena crise econômica, o Brasil não discute planos para voltar a crescer. A agenda única da mídia é a última fofoca relatada por um delator.

Uma delação é pior que uma verdade com provas.

Uma verdade com provas cabais permite que você assuma uma posição firme, a favor ou contra.

Uma delação, ela é a antiverdade por excelência, porque você não sabe se é uma verdade, uma meia-verdade, ou uma mentira.

Uma mesma delação pode vir cheia de verdades, mas com capciosas mentiras enfiados no meio. As verdades seriam usadas para legitimar a mentiras enxertadas.

Uma mesma delação pode ser quase inteiramente mentirosa ou absurda, mas conter uma verdade.

Ah, mas é preciso apontar provas para a delação, dirão alguns.

Desde quando, pergunto eu?

As delações estão aparecendo, há mais de dois anos, sem provas. E as provas, além disso, podem ser facilmente manipuladas, desde que a autoridade e a mídia estejam mancomunadas.

O que fazer, todavia, com uma delação que apenas afirma que fulano “sabia” ou “não sabia”, sem apresentar, igualmente, nenhum tipo de comprovação?

Na minha opinião, os progressistas e os liberais precisam tomar muito cuidado com um sistema de repressão que não tem controle social.

A Lava Jato representou uma revolta dos aparelhos de repressão do Estado contra o sistema político.

Essa revolta foi preparada também pelos erros dos governos Lula e Dilma, que se descuidaram daquilo que deve ser a prioridade número 1 de qualquer força política: a educação.

E, em especial, a educação enquanto educação política, que por sua vez apenas pode se materializar através dos meios de comunicação.

Ah, mas é muita roubalheira, eles – o aparelho de repressão – tinham que fazer isso, alegam alguns.

Cuidado com essas falácias. A Lava Jato não combateu a corrupção no Brasil: ela a ampliou a níveis alucinantes. Basta ver os quadros que passaram a tomar o poder nas estatais e no governo. A gente só conhece os ladrões mais famosos da elite do governo, mas os escalões inferiores estão sendo inteiramente ocupados por pessoas indicadas por esses mesmos ladrões.

O patrimônio público está sendo desmontado a toque de caixa.

Quem está ganhando com tudo isso?

Agora está mais fácil entender: os grandes bancos e grupos estrangeiros de energia e construção civil.

O Brookfield, um dos maiores fundos de investimento do mundo, está comprando a Odebrecht e a Petrobrás.

A cotação do petróleo foi reduzida no momento certo. Cai às vésperas da votação do impeachment, e em seguida volta a crescer.

Se os EUA fizeram um pacto com Arábia Saudita, conforme acreditam alguns analistas, para derrubar Rússia, Venezuela e Irã, a principal vítima, até o momento, parece ter sido o Brasil. O que, inclusive, nos faz pensar se analisamos corretamente. E se esse dumping dos preços do petróleo tivesse almejado o Brasil desde o início?

O modus operandi da Lava Jato, com todas as delações, é monstruoso. Se você prender todos os empresários, jornalistas, servidores, políticos de um país, e mantê-los encarcerados, sob ameaça de prisão perpétua, perseguição à família, fim do patrimônio acumulado ao longo de várias gerações, até que eles delatem tudo aquilo que fizeram ou viram de errado em suas vidas, qual será o resultado?

A delação, obviamente, não visa fazer com que o delator faça um discurso de tudo de bom que ele e sua empresa fizeram ao Brasil. O acordo implica em confessar todos os crimes cometidos, ou mesmo não-cometidos, desde que eu escape das masmorras de Curitiba.

As delações da Odebrecht confirmam um fenômeno: a Lava Jato há tempos percebeu que não se trata apenas de uma operação de cunho jurídico. Ela tem uma agenda, a qual, para ser implementada, precisa controlar a política.

Daí que a operação, ou pelo menos o espírito e os interesses que a governam, disseminaram-se por toda a república, dominando tudo.

Legislativo, MPF, PGR, Judiciário, Executivo, TSE, empresas, mídia, tudo está sob o tacão pesado da Lava Jato.

Ouse discordar! Em pouco tempo, aparecerá um delator envolvendo você numa história.

Até mesmo alguns ingênuos, como Luciana Genro, ex-candidata do PSOL à presidência da república, que vinha cumprindo o triste papel de fazer campanha em apoio à Lava Jato, viu-se, que ingratidão, delatada! O delator em questão visava os deputados da esquerda gaúcha, e sobrou para Genro.

A defesa de Luciana Genro foi pior que a encomenda. Ela divulgou uns “emails”, em que o empresário que lhe havia doado pede algum tipo de favor ou intermediação com seu pai – favor ou intermediação que ela não atendeu. Ou seja, para escapar de uma delação, ela ainda põe o nome do pai na história!
Posted: 18 Apr 2017 06:31 AM PDT
Por Kiko Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

Uma boa medida da coragem e do caráter impoluto de Jair Bolsonaro está em sua atitude depois da divulgação da lista de Fachin.

Gravou vídeos contra alguns de seus desafetos, sendo que o mais lunático era dirigido a Maria do Rosário, sua nêmesis, por quem nutre uma obsessão que só pode ser amor.

“Que decepção para a esquerda do Brasil! A petralhada vai chorar a noite toda hoje. Mas tem duas pessoas maravilhosas aqui: Carlos Zarattini e Maria do Rosário! Mas o que é isso, Maria do Rosário? A Papuda lhe espera!”, diz ele, dando uma gargalhada de Coringa.

ÂncoraO mito, no entanto, está quieto diante das denúncias contra o presidente de seu partido, o Pastor Everaldo, aquele que o batizou no rio Jordão, em Israel, numa cena tragicômica.

Candidato a presidente em 2014, Everaldo recebeu dinheiro da Odebrecht, segundo um delator, para ajudar Aécio naquele debate da Globo em que os dois formaram uma dobradinha inesquecível.

JB não se manifestou até agora e, provavelmente, ficará quietinho no seu canto.

Se alguém vier lhe perguntar, vai alegar que é questão de disciplina militar.

Aliás, o mito não está na lista de Fachin, mas é um dos nomes da de Furnas.
Posted: 18 Apr 2017 06:29 AM PDT
Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:

A matéria, hoje, no Congresso em Foco, na qual o ex-diretor da Odebrecht João Nogueira diz que o empresário Marcelo Odebrecht, ex-presidente do grupo, fez ameaças a Dilma Rousseff para tentar frear as investigações da Operação Lava Jato, é mais um sinal de que há, entre a empresa e o PT uma relação de ódio, não de cumplicidade como se transmitiu à opinião pública.

ÂncoraSegundo o delator, Marcelo sinalizou que revelaria documentos sobre repasses ao caixa dois da campanha de 2014, na qual Dilma e Temer se reelegeram. “Ela cai, eu caio”, teria dito o empresário em mensagem de celular em poder dos investigadores.

Ora, Marcelo foi preso quase um ano antes da deposição de Dilma e, portanto, a mensagem é anterior á sua prisão, pois não poderia tê-la mandado desde o cárcere. A ordem do raciocínio, pois, é inversa: “eu caio, ela cai”.

Na versão do delator, o herdeiro da Odebrecht queria que Dilma interferisse no caso, induzindo o STF a afastar o caso de Sérgio Moro. E está claro que que se irritou com o fato de que ela não o fez. Ou seja, Dilma não tomou – e quem a conhece sabe que não o faria, qualquer iniciativa para obstruir a Justiça, mesmo que uma justiça caolha e autoritária como a que se faz na Lava Jato.

A pergunta – que as fartas contribuições aos adversários da ex-presidente (o interno, Temer, e o externo, Aécio) só fazem tornar mais instigante – é o quanto as delações, que vieram após a deposição de Dilma, contêm de vingança e de retaliação a quem, na visão deles, poderia ter travado o processo que os incriminou.

Outras indagações ocorrem – aliás, só não ocorrem, aparentemente, à mídia e aos procuradores e ao juiz Moro – se havia uma relação de promiscuidade financeira pesada, da ordem de, pelo menos, dezenas de milhões de dólares, é que não houvesse, para o mesmo fim, um canal de comunicação do Michel Temer.

A Odebrecht vai, cada vez mais, assemelhando -se a um papel de Cunha-2: formalmente, uma aliada; na prática, uma conspiradora que saiu tosquiada de todo este processo e, agora, dá seu abraço de afogado a seus desafetos.

Ou, no mínimo, se presta a boneco de ventríloquo, que articula, falsamente, aquilo que seus manipuladores querem que seja dito.
Posted: 18 Apr 2017 06:28 AM PDT
Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:

Na semana passada, o Brasil tomou um choque de realidade com a descoberta tardia de que os políticos que vinham posando de virgens escandalizadas com a zona de meretrício não passam de hipócritas desavergonhados que contavam com a proteção da mídia e da direita fundamentalista que controla o Judiciário e a Lava Jato.

Acontece que vinha ficando chato. Ninguém é tão trouxa de acreditar que só existem corruptos no PT e nos partidos que se aliaram ao PT. Foi preciso entregar os anéis (suspeitos tucanos) para salvar os dedos (a destruição do PT e de Lula).

ÂncoraAécio, sim, vai ser o primeiro a ser comido, como dizia Romero Jucá. Será imolado para pegarem Lula. E talvez tenham que entregar Serra também.

FHC e Alckmin, só em último caso.

Isso não é motivo de comemoração. Sabe por que, leitor? Porque estão usando bodes expiatórios. Querem substituir essa classe política desgastada por uma casta de inimputáveis que vem por aí.

Promotores e policiais federais estão sendo docemente convencidos a entrar na política. E vão entrar. Todos eles.

Chegarão ao poder ostentando ligações com o Judiciário, com as polícias, com o Ministério Público e terão gás para fazer o que quiserem por um longo tempo, até que o país descubra que colocou no poder gente sem compromisso com a sociedade e que almeja altos salários, poder e estrelato.

E dane-se o social, a desigualdade, a miséria.

Enquanto isso, a pobreza e a desigualdade continuarão tocando fogo no país. A crise social que estão construindo ao manterem o país em crise econômica por tanto tempo vai jogar o Brasil em uma guerra civil.

Ou melhor, em uma revolução francesa.

Os mauricinhos empertigados, com seus colarinhos brancos como a neve vão descobrir que linchamento de políticos não enche barrigas. O povo quer emprego, quer melhorar de vida, quer viver e consumir como a elite branca. Ou de forma parecida.

Experimentou consumismo, experimentou dignidade na era Lula e aquele tempo não vai lhe sair da memória.

A corrupção? Ora, a corrupção. Alguém acha mesmo que os “super-heróis” que estão prendendo os “super-vilões” da política pertencem a uma espécie angelical infensa à corrupção?

Não tem corrupção no Judiciário? Pergunte a Eliana Calmon, ministra aposentada do Superior Tribunal de Justiça, ex-corregedora nacional de Justiça. Em entrevista à Folha de São Paulo ela explicou muito bem quanta podridão há nesse poder.

E o Ministério Público? Para mensurar quanta corrupção há no Ministério Público basta ver os casos José Serra e Geraldo Alckmin

O executivo Fabio Gandolfo, um dos delatores da Odebrecht na Operação Lava Jato, afirmou que o senador José Serra (PSDB-SP) recebeu R$ 4,67 milhões em 2004 sobre obras da Linha 2-Verde do Metrô de São Paulo.

Investigado há três anos, o esquema de formação de cartel em contratos de trem e metrô do governo do Estado de São Paulo não levou ninguém para a prisão até agora. O Ministério Público denunciou cerca de 30 pessoas, entre empresários, lobistas e ex-funcionários das estatais paulistas que cuidam do transporte sobre trilhos em oito processos diferentes.

Todavia, as ações que investigam a participação de políticos no esquema não provocaram a acusação formal de nenhuma pessoa. Ou seja: NENHUM POLÍTICO FOI ACUSADO.

Para o Ministério Público de São Paulo, o ex-governador José Serra e o governador Geraldo Alckmin “não sabiam” da roubalheira de BILHÕES no metrô e na CPTM.

O cartel dos trens foi descoberto após uma mudança no comando da multinacional Siemens, que decidiu assinar um acordo de leniência com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em 2013, denunciando as irregularidades que aconteceram desde 1995, durante os governos dos tucanos Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin.

Durante as mais de duas décadas que os tucanos governam São Paulo, BILHÕES DE REAIS foram surrupiados dos cofres paulistas e os governadores “não perceberam”.

Há, ainda, o escândalo do Rodoanel. São bilhões e bilhões de reais a mais cobrados dos cofres públicos. O Ministério Público não viu nenhuma responsabilidade de políticos. Mais uma vez, só técnicos e empresas indiciados.

Acima de tudo, as delações da Odebrecht que implicam José Serra e Geraldo Alckmin são um atestado ou de incompetência ou de corrupção do Ministério Público de São Paulo, que conduz, há décadas, pseudo investigações sobre roubalheiras ferroviárias e rodoviárias no Estado e jamais teve a curiosidade de se perguntar se os governadores de plantão tinham responsabilidade.

Como se vê, a iniciativa de espertalhões como Marina Silva de levar membros do MP, das polícias ou do Judiciário para a política resultará na troca de seis por meia dúzia.

Como esta página vinha dizendo, a Lava Jato tem sido ruim para o país por vários fatores. Primeiro, por restringir as acusações de corrupção aos inimigos da elite branca dominante – petistas. Segundo, por preservar setores notoriamente infestados pela corrupção como Judiciário, polícias, Ministério Público.

As acusações a tucanos são tardias e só não direi insuficientes porque as prisões que atingem só ao PT e a aliados não são um caminho correto, pois violam o direito de defesa e o princípio de presunção da inocência. Mas as acusações a políticos blindados pelo MP de SP e pela mídia não passam de marketing, voltado a criar a ilusão de que a Lava Jato investiga sem viés político.

Para emoldurar esse quadro dantesco, a sociedade termina a semana esbofeteada por pilantras, gente imoral, sem vergonha na cara que ousa afrontar a todos nós com sorrisos estampados em suas caras-duras.

Ao longo da semana passada, os telejornais mostraram os rostos sorridentes como os desses dois picaretas da foto abaixo [aqui].

Do que riem esses sujeitos? Do mal que causaram a dezenas de milhões de brasileiros humildes que mal e porcamente sobrevivem com serviços públicos precários, muitas vezes sem saneamento básico, sem escolas decentes, sem hospitais humanizados, sem vias seguras para se locomoverem…

O cinismo desses sujeitos se conecta com o de autoridades que nos fazem de idiotas ao tentarem restringir a corrupção desbragada que esmaga este país e que não está no PT, no PSDB ou no Ministério Público e, sim, na alma do brasileiro, acostumado a querer, sempre, levar vantagem em tudo.

Não existe povo ético com homens públicos corruptos. Estes vêm daquele. A corrupção não é “dus puliticu”, é de um povo que precisa entender o sentido de coletividade, de que não existe país bom para alguns e péssimo para todos. O Brasil só será um país bom para se viver quando houver liberdade, igualdade e fraternidade por aqui.
Posted: 18 Apr 2017 06:26 AM PDT
Por Mauricio Torres e Sue Branford, no site Outras Palavras:
“Aqui não existe assalto. Todo mundo anda armado”, explica, orgulhoso, um taxista da cidade de Novo Progresso, no sudoeste do Pará. As armas podem não estar à vista, mas todos parecem portá-las. Em Novo Progresso, as aparências não enganam.

Sob uma fachada de prosperidade, alguns dos donos dos principais estabelecimentos comerciais do município estão em liberdade condicional. Foram presos por desmatamento, grilagem e formação de quadrilha na Operação Castanheira, em 2014, promovida pelo Ministério Público Federal, Polícia Federal e Ibama. A operação foi batizada “em homenagem” a Ezequiel Castanha, dono da ampla rede “Supermercados Castanha” e que, como se soube com as investigações, lucrava mesmo era com a grilagem e a venda de terras públicas.

ÂncoraEm novembro de 2016, a pauta do momento em Novo Progresso era a renovada confiança na redução da Floresta Nacional (Flona) Jamanxim.

Floresta Nacional (Flona) é uma modalidade de área protegida de uso sustentável prevista no Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (Snuc). O território coberto pela Flona Jamanxim alcança mais de 1,3 milhão de hectares, uma área maior que o Líbano. Localizada ao longo da rodovia BR-163, nos arredores de Novo Progresso, foi criada em 2006 no pacote que incluía outras sete unidades de conservação (UCs), somando 6,4 milhões de hectares de florestas protegidas. A criação da Flona aconteceu no eixo do Plano BR-163 Sustentável, anunciado em 2004 para mitigar os impactos do asfaltamento da rodovia.
Um dos supermercados da rede de Ezequiel Castanha em Novo Progresso. O nome inspirou a Operação Castanheira, que prendeu Ezequiel e outros grileiros e desmatadores. Foto: Mauricio Torres

Às vésperas do último Natal, as Medidas Provisórias 756 e 758 mutilaram 57% da dimensão original da Flona Jamanxim e tiraram um naco de 861 hectares do vizinho Parque Nacional do Jamanxim.

O retrocesso na proteção da região veio após anos de pressão de quem nunca aceitou ser privado da grilagem e da venda de terras (públicas) que se valorizaram muito e rapidamente com o asfaltamento da BR-163.

Desde o início, os protestos dos ruralistas iam do fechamento da rodovia a ameaças de derrubar a floresta toda caso não houvesse a redução da unidade de conservação: “Não quero, mas vamos derrubar essas árvores todinhas.”, disse, em 2006, Agamenon da Silva Menezes, presidente do Sindicato de Produtores Rurais de Novo Progresso. Repetia-se à exaustão o discurso de que a reserva ambiental “engessou a região e proibiu que os moradores continuassem a produzir”. Os dados mostram que as ameaças não se limitaram apenas a palavras.

Grilagem e Violência

Os pretensos “donos” de terras localizadas no interior da Flona Jamanxim têm perfil no mínimo questionável. Segundo dados do ICMBio, 67% das detenções de terras instalaram-se depois da criação da UC, e 60% desses ocupantes não residiam ali. Estudos do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) afirmam que a área média dessas pretensões é de 1.843 hectares, escala muito acima das ocupações médias dos colonos da região.

Fonte: Imazon

Cândido Neto da Cunha, perito federal agrário do Incra no oeste do Pará, mostra que, na média, essas ocupações são ilegais, pois, além de configurarem invasão de UC, “a legislação não permite a regularização de ocupações tão recentes e de dimensões tão grandes”. Segundo o perito, “mesmo com a área não destinada à Flona, continuam a configurar tentativas de apropriação ilegal de terras públicas, ou mesmo, grilagens”.

Como grilagem é uma atividade que não se conjuga sozinha, a Flona Jamanxim passou a disputar as primeiras colocações na lista de UCs mais desmatadas da Amazônia, além de ser palco de outros crimes violentos.

Fonte: ISA/ICMBio

Em 2009, o ICMBio fez um estudo para reavaliar os limites da Flona. A conclusão da pesquisa refutou a possibilidade de redução da unidade e alertou que isso “levaria a um recuo de estratégia governamental de conservação que traria consequências ambientais imprevisíveis não só para a própria área da Flona, mas também para várias outras UCs da Amazônia” que também sofriam invasões e pressões decorrentes de interesses políticos.

A porção da Flona Jamanxim mais cobiçada pelos invasores era, precisamente, a mais próxima à BR-163– não por acaso, a área que se valorizava mais rapidamente e também a mais estratégica para conter o desmatamento.

“Mata Plantada”

Durante nossa passagem por Novo Progresso, em novembro passado, encontramos Agamenon da Silva Menezes, porta-voz dos latifundiários instalados nas terras públicas da região. Animado, ele acabara de retornar de Brasília e, apesar da longa viagem de ônibus, deu entrevista garantindo que a UC é uma ilegalidade. “Resolveram fazer, mandaram a caneta para cima e fizeram [a Flona], sem cumprir nenhuma norma”. Sorridente, assegurou que tudo seria resolvido em breve, já que, em Brasília, havia agora “um ambiente bem mais positivo”.

“O Brasil é pobre porque não desmata”, explica Agamenon ao defender a redução da UC. Quando indagado sobre a possibilidade da medida provocar aumento nos índices de desmatamento, ele foi rápido em apontar: “O termo desmatar já é provocativo. Na verdade, é alteração da floresta. Você não vai deixar a área no chão. Ela vai ser usada com lavoura, com pasto, com alguma coisa. Ela não é desmatada, apenas se altera de uma mata nativa para uma mata plantada”.
Porém, nem todos em Novo Progresso concordam com Agamenon. Lincoln Brasil Queiroz – um dos poucos fazendeiros que têm títulos da sua terra, decorrente da compra que seu pai fez junto ao Incra há décadas, tem outra visão. Para ele, a redução da Flona seria uma lição prática de que “o crime vale a pena, pois beneficia quem continua desmatando e ocupando ilicitamente”.

Com as mesmas preocupações, a procuradoria da República em Itaituba (PA) abriu, em novembro, uma ação civil pública, pedindo a interrupção do processo de redução da UC. A ação pretendia impedir “a anistia das grilagens de terras através da desafetação de áreas protegidas”. O MPF demandava ainda que a Justiça Federal ordenasse “o reforço imediato de políticas públicas para intensificação de fiscalizações e responsabilizações da cadeia produtiva da pecuária – especialmente porque as áreas invadidas são destinadas a criação extensiva de gado”.

O presidente Michel Temer assinou as medidas provisórias 756 e 758 que retiraram status de área protegida de partes da Flona e do Parque Nacional do Jamanxim.

O MPF estava certo. Entrevistas com intermediadores de negociações de gado na região de Novo Progresso revelaram que, anualmente, são produzidas ilegalmente cerca de 20 mil cabeças de gado dentro da Flona (onde a pecuária é proibida). Esse gado é comercializado sem qualquer embaraço usando esquemas de “lavagem de boi”, revelados na recente Operação Carne Fria, do Ibama, que embargou frigoríficos da empresa JBS por comprar carne produzida em áreas desmatadas ilegalmente.

Em 19 de dezembro, antes da ação do MPF ser avaliada, o presidente Michel Temer assinou as medidas provisórias 756 e 758 que retiraram status de área protegida de partes da Flona e do Parque Nacional do Jamanxim.

A medida garantiu a alegria nas comemorações de fim de ano do grupo de Agamenon, que anunciava, a partir da redução, “que o Oeste do Estado possa ter um maior desenvolvimento econômico com a implantação de grandes investimentos tanto do setor privado quanto do setor público”.

Parques de Papel

Garantindo que a pavimentação da rodovia BR 163 não repetiria os desastres do passado, há 13 anos, o governo Lula anunciou que a licença da obra seria complementada pelo “Plano BR-163 Sustentável”. Entre providências em diversas áreas, o plano previa a criação de UCs como medida de preservação florestal.

Unidades de conservação criadas ao longo da BR-163. Elaboração: Mauricio Torres

“O Plano simplesmente não foi implementado”, explicou Brent Millikan, que, à época, era assessor técnico da (extinta) Secretaria de Coordenação da Amazônia, do Ministério do Meio Ambiente, “e foi substituído, em fevereiro de 2007, pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”.

Os cenários mais pessimistas imaginados há uma década sobre a destruição florestal no eixo da BR 163 são hoje realidade.

Para Millikan, isso refletiu decisões que apostaram na manutenção no poder “a partir de alianças com grupos políticos e econômicos tradicionais, cujos interesses resultariam em práticas sistemáticas de saque do patrimônio público (dinheiro público, recursos naturais) que eram absolutamente incompatíveis com os objetivos do Plano BR-163 Sustentável”.

A amputação do Parque Nacional do Jamanxim corrobora a análise de Millikan: o Parque foi reduzido com o “objetivo é permitir a passagem da ferrovia Ferrogrão, que segue o eixo da BR 163 e encontra-se em processo de licenciamento”, segundo nota do próprio governo federal.

Segundo Juan Doblas, que monitora o desmatamento na região pelo Laboratório de Geoprocessamento do Instituto Socioambiental, “dez anos depois do licenciamento das obras, o desmatamento acumulado atingiu as piores projeções. A perda de floresta às margens da rodovia está tão fora de controle que entre 2004 e 2013 (exceto 2005), enquanto o desmatamento caía em toda a Amazônia, aumentava na região”.

A situação, para Doblas, “seria muito pior sem a decretação das UCs, ainda que não tenham sido implementadas de fato”. Essa aparente contradição, segundo Doblas, novamente pode ser entendida pela conexão direta entre desmatamento e grilagem: “Mesmo que apenas no papel, as UCs fizeram com que o desmatamento como função de especulação imobiliária perdesse seu sentido e caísse bruscamente”. O ato de transformar terras públicas formalmente em UCs retirou-as do mercado da grilagem, pois “tornava inviável que tais áreas saíssem do patrimônio público para serem tituladas em nome de grileiros”, completa.

Como as terras indígenas, as unidades de conservação têm um relevante efeito de deter o desmatamento. Fonte: ISA/Prodes

Desmontando o que sobrou

Foi Dilma Rousseff, na sua primeira gestão presidencial, que criou o precedente de alterar limites de áreas protegidas por meio de medidas provisórias. Em sua febre por construir barragens na Amazônia, reduziu UCs que seriam inundadas com a pretensa hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, garantindo que as reservas não fossem obstáculo ao licenciamento da mega obra.

Paulo Carneiro, diretor de Criação e Manejo de Unidades de Conservação do ICMBio, admitiu que a redução da Flona Jamanxim é prejudicial, mas, segundo ele, ante a escalada de conflitos envolvendo a área, a saída encontrada pelo ministério foi flexibilizar a UC. “A categoria APA abre brechas para a ocupação ilegal e não segura o desmatamento.”

Na prática, retirou-se pouco mais da metade – 743 mil hectares – da área da Flona Jamanxim. Desse total, 438 mil ha foram anexados ao vizinho Parque Nacional do Rio Novo, aumentando o rigor da categoria de proteção ambiental. Entretanto, outros 305 mil hectares (o equivalente a 117 ilhas de Fernando de Noronha) foram realocados na permissiva categoria de Área de Proteção Ambiental. A APA Jamanxim é uma modalidade de UC muito menos restritiva e que permite a quem invadiu e desmatou no interior da Flona manter a posse da terra. Ou seja.

Para Juan Doblas a mudança de Flona para APA é um eufemismo para a redução da área protegida: “Essa APA, na fronteira da expansão do agronegócio, reforça a corrida especulativa e a disputa da terra, agora, ‘grilável’, pois a categoria APA abre brechas para a ocupação ilegal e não segura o desmatamento.”

O Ministério do Meio Ambiente e o ICMBio não responderam às perguntas sobre a redução da Flona enviadas por The Intercept Brasil.

Um servidor do ICMBio que trabalha na região e pediu para não ser identificado defende o oposto. A partir da experiência de quem vivencia o problema presencialmente, ele diz: “A redução mostra que se uma UC for invadida e desmatada, deixará de ser uma área protegida e o criminoso ficará com a terra. Quero ver se alguém virá de Brasília para conter novas invasões agora”.
Mais baixas previstas no front

Apesar de toda concessão à grilagem e ao crime ambiental, a bancada ruralista considerou a alteração da Flona Jamanxim demasiado “modesta”, posição que abre um quadro de possibilidades assustador.

Vale lembrar que o atual ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, é acusado de grilagem de terras.

Como é de praxe com qualquer assunto, as Medidas Provisórias que alteraram as UCs serão analisadas e votadas por uma comissão mista de deputados e senadores, possivelmente ainda no mês de março. A comissão já indicou sete emendas ao texto original, todas abrandando ainda mais a proteção e ainda dilapidando outras UCs.

Vale lembrar que o atual ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, é acusado de grilagem de terras dentro do Parque Serra Ricardo Franco, unidade de conservação localizada no Mato Grosso. Assim, não é de se estranhar a solidária posição a demais grileiros da Flona Jamanxim e de outras partes do país.

Mais áreas protegidas estão na mira dos ruralistas. Em janeiro, o governo federal anunciou a intenção de efetivar brutal redução em UCs no estado do Amazonas. Planeja-se a dilapidação da Reserva Biológica do Manicoré, do Parque Nacional do Acari, das Florestas Nacionais do Aripuanã e de Urupadi e a extinção da Área de Proteção Ambiental dos Campos de Manicoré, resultando na retirada de status de proteção de cerca de 1 milhão de hectares. Em carta aberta, ONGs já pediram ao governo que aborte a proposta.

Para Adriana Ramos, coordenadora de Política e Direito do Instituto Socioambiental, “a estratégia do setor rural, representada pela Frente Parlamentar da Agropecuária, é fragilizar e neutralizar o alcance da legislação ambiental e dos direitos territoriais dos povos e comunidades tradicionais. Então, essas iniciativas estão no mesmo contexto de ataque aos direitos socioambientais por parte dos representantes do agronegócio”.

Já para o líder rural de Novo Progresso, Agamenon da Silva Menez, “a sociedade sempre progride e a mudança é inevitável e benéfica”. Ele pergunta “Vocês sentem falta de dinossauros?”

A resposta aparece nos artigos anteriores desta série e em seguidas pesquisas científicas sobre o papel da floresta amazônica para o equilíbrio climático do planeta. A cobiça ruralista, com seu discurso marketeiro e suas práticas socioambientais e trabalhistas jurássicas, antagoniza a ciência do clima, o respeito à legislação e aos povos tradicionais e consolida o agronegócio como o verdadeiro “parque dos dinossauros” do século XXI. Agamenon está em casa.

* Esta matéria é da série exclusiva “Tapajós sob Ataque”, escrita pela jornalista Sue Branford e pelo cientista social Mauricio Torres, que percorrem a bacia Tapajós. A série é produzida em colaboração com Mongabay, portal independente de jornalismo ambiental. Leia a versão em inglês. Acompanhe outras reportagens no The Intercept Brasil ao longo das próximas semanas.
Posted: 18 Apr 2017 06:25 AM PDT
Por Luis Nassif, no Jornal GGN:

Peça 1 – sobre o essencial e os detalhes

Para colocar um pouco de ordem nessa barafunda.

1. No epicentro do terremoto relaxe e espere a terra assentar. A realidade nunca é tão ruim quanto parece no olho do furacão.

2. Toda essa movimentação em torno da lista de Fachin tem dois objetivos claros. O atual, é o desmonte do sistema de seguridade social e outras reformas antissociais; o de 2018 obviamente são as eleições.

O que está em jogo é o desenho de país que se terá, o futuro dos avanços civilizatórios das últimas décadas, o destino de milhões de pessoas hoje em dia amparadas pelo sistema de seguridade social.

Esse é o ponto central. O restante são os meios, as táticas políticas.

ÂncoraPeça 2 – sobre o jogo político

O segundo cuidado é entender de que lado estão os principais personagens da Lava Jato:

1. Globo, Procuradoria Geral da República e Lava Jato estão do mesmo lado. Eles são o chicote nos parlamentares para acelerar a reforma da Previdência, a reforma trabalhista, o desmonte da seguridade social. A cenoura é o imenso leilão que ocorre no Congresso.

2. Só é aceita a delação cujo conteúdo corresponder plenamente aos desejos do procurador. Se não concordar com as condições impostas , o sujeito continua preso. Se corrigir as delações depois de solto, o sujeito volta para a cadeia.

3. As delações são a seco, procurador e delator, sem nenhuma espécie de mediação. Os procuradores têm poder absoluto para induzir os delatores e sua intenção maior é colher elementos para reforçar as teses previamente definidas.

4. Delação sem provas não tem valor penal. Mas, politicamente, ajuda a construir a narrativa necessária para insuflar a opinião pública.

5. A qualificação de crime de peculato (aquele praticado por funcionário público) depende de um benefício atrelado a uma contrapartida.

Entendidos esses pontos, vamos ao jogo.
Peça 3 – Lula, Aécio, Serra e Alckmin

O que havia entre Lula e Emílio Odebrecht era uma relação de estreita confiança política e pessoal baseada em um projeto: as empreiteiras seriam a ponta de lança do soft power brasileiro na África e América Latina.

Dentro dessa estratégia, criaram-se inúmeros mecanismos de apoio, ferramentas de políticas públicas utilizadas por qualquer país em estímulo à expansão externa de suas empresas, como financiamento à exportação e ofensiva diplomática.

Aí se entra na zona cinzenta. A partir dessa parceria, o PT passou a ter acesso a um butim no qual já se refastelavam o PSDB e o PMDB. Com a explosão da economia, o butim ficou imenso para todos os comensais.

A prova do pudim, para separar propinas de financiamento eleitoral, é a relação causal: se a cada contribuição correspondia uma contrapartida ou não. Na Petrobras, a relação era nítida. Fora da Petrobras, não.

Nos três casos tucanos – José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves -, por exemplo, há a acusação de pagamento de propinas: o dinheiro correspondia a um percentual das obras em andamento. No caso de Serra, uma propina adicional pelo pagamento à Odebrecht de um dinheiro bloqueado na justiça.

Mais ainda: as delações da Odebrecht confirmam o que já adiantamos aqui do que seria a delação de Léo Pinheiro, da OAS. Na gestão Alckmin, o percentual era de 5% sobre as grandes obras do Estado. Serra entrou e exigiu uma redução no valor das obras. A empreiteiras descontaram da propina. Imediatamente Serra enviou Paulo Preto para renegociar os percentuais de propina.

Constata-se, portanto, que, na cobrança de propinas, a maior garganta era de Alckmin.

Por outro lado, por enquanto ainda não se sabe se o dinheiro recebido por Alckmin foi utilizado para enriquecimento pessoal. Depende do rastreamento dos R$ 10 milhões entregues ao seu cunhado. No caso de Aécio e Serra, há indícios veementes de enriquecimento pessoal. Se abrir as contas dos fundos de Verônica Serra, se levantará o principal mecanismo de lavagem de dinheiro de Serra para atividades pessoais.

No caso de Lula, a intimidade brasileira –descrita nas obras de Sérgio Buarque de Holanda – foi utilizada para pequenos favores solicitados à Odebrecht: a ajuda ao irmão, o apoio ao filho, a reforma do sítio que seria usado por ele.

É evidente que a constatação de favores não engrandece a biografia de Lula. Servirá para um estudo acurado sobre os contrastes entre o maior estadista contemporâneo e os pequenos vícios do cidadão Lula. Mesmo assim, estão a léguas de distância do que se entende por corrupção.

As quantias destinadas ao Instituto Lula tinham objetivo claro. Fora da presidência, Lula mantinha largo prestígio no mundo todo, e em especial na América Latina e África. Qualquer empresa do mundo gostaria de tê-lo como embaixador para esses mercados.

Ora, havia um jogo de interesse comercial nítido e legítimo para quem não dispunha mais de cargos públicos: a Odebrecht apoiava Lula e se beneficiava de seu capital político internacional.

Obviamente, essa narrativa não atendia aos interesses da Lava Jato. Os procuradores trataram, então, de induzir as delações, para estabelecer nexos causais entre decisões de políticas públicas com as contribuições recebidas.

Nas transcrições, fica nítido o prego sobre vinil, a identificação dos cacos incluídos nas delações: Emilio Odebrecht teria concordado em apoiar o filho de Lula, se este ajudasse a quebrar as resistências de Dilma em relação ao próprio filho de Emílio. Ou então, a suposta compra do terreno, que não houve, seria em troca do Refis para o setor petroquímico.

A disparidade de valores é tão grande que soa ridículo. Mas como estabelecer o nexo causal é pré-condição para a delação ser aceita, mesmo sem provas, a maior corrupção do planeta fica reduzida, assim, a miçangas e paetês.

Por exemplo, uma das delações acusa Guido Mantega de ter intercedido junto à Previ, para a capitalização de uma das empresas da Odebrecht, mediante o pagamento de determinado valor ao PT. Na sequência, o mesmo delator diz que não houve, da parte de Guido Mantega, “um pedido de contrapartida especifica em razão do esforço que nos deu junto à Previ, mas a demanda financeira dele já estava atendida pelos valores até então pactuados e controlados por mim na planilha Pós-Itália". Tudo isso na mesma delação.

Mas, durante dias, deixou a direita indignada e a esquerda perplexa, trocando tiros entre si, com total falta de foco.

Peça 4 – sobre Dilma

Em relação a Dilma, é pior ainda. À medida em que vão se juntando as peças, fica claro que o PMDB começou a armar sua conspiração quando Dilma incumbiu Graça Foster de limpar a Petrobras e quando impediu qualquer acordo com Eduardo Cunha.

As delações comprovam que, sob a presidência de Marcelo, a Odebrecht jogava contra Dilma.

Uma das delações confirma pagamento de R$ 6 milhões ao pastor Everaldo, para investir contra Dilma nos embates do primeiro turno. Outra, confirma o pagamento adicional a Aécio, visando derrotar Dilma. Outra, o pagamento a Eduardo Cunha, visando dobrar Dilma. Agora, a confissão de Michel Temer, de que Eduardo Cunha só aceitou o pedido de abertura do processo do impeachment por ter seus interesses contrariados.

No entanto, as manchetes são de que Dilma tinha sido avisado sobre a corrupção da Petrobras. Apenas isso, dando a entender que nada fez.

Dilma caiu paradoxalmente por simbolizar tudo o que a Lava Jato pretende como legítimo: o símbolo máximo do político apolítico que não negocia favores com políticos, com o Congresso, com empresas e com o Judiciário, que não disputa poder no Ministério Público Federal nem no Tribunal Superior Eleitoral, e não levanta uma pena em defesa de seu governo.

Quando ajudou na sua derrubada – divulgando os áudios de conversas dela com Lula – a Lava Jato tinha plena consciência da sua inocência e do envolvimento de seus adversários. Mas foi ela quem foi para a guilhotina se transformando, a posteriori, em uma heroína popular, a anti-Joana D´Arc que, para proteger sua virgindade política, lança todo um projeto nacional à fogueira.

Como entender essa hipocrisia da Lava Jato?

Peça 5 – a Lava Jato e o exercício da hipocrisia

Em dezembro de 2010 (https://goo.gl/WSPglZ) e julho de 2013 (https://goo.gl/LJqSNl) abordei os problemas que haveria para a política com o fim da hipocrisia, decorrente do advento das redes sociais.

Hoje em dia, há uma cartelização e massificação ampla do noticiário produzido pela dobradinha PGR-Lava Jato – mídia. O impacto das denúncias nubla temporariamente outros aspectos do jogo. Com o tempo – e a atuação anti-cartelização das redes sociais – a poeira assenta e os fatos vão se tornando progressivamente mais nítidos.

O desenho que emerge dos políticos mencionados pela Odebrecht é de uma organização criminosa, na qual os principais cabeças – Eduardo Cunha e Michel Temer – atuavam na linha de frente, participando pessoalmente das reuniões em que eram negociadas as propinas.

De outro lado, um segundo grupo que chantageia os chantagistas: se quiserem permanecer no comando do país, terão que entregar as reformas. No caso, as reformas mais antissociais da história, que praticamente acabarão com todo o sistema de seguridade social, condenando idosos pobres à morte antecipada, eliminando a saúde e a educação para os mais vulneráveis, sendo implementada por uma organização política tendo atrás de si o trabuco dos cidadãos de bem.

Há duas armas nas costas dos chantagistas: a imprensa e o Ministério Público Federal.

No impeachment da Dilma Rousseff a hipocrisia tinha um alvo: uma suposta organização criminosa sendo derrotada pelo clamor das ruas e pela aliança de brasileiros íntegros: Aécio, Serra, Aloysio, Alckmin. Para tanto, bastou a Lava Jato e a PGR esconder as evidências contra os “íntegros”.

Agora entra-se em outro terreno. O revólver da mídia e as balas do MPF estão apontados para que os chantagistas entreguem o combinado: antecipar a sobrevivência de idosos pobres, jogar ao mar os vulneráveis, tirando acesso a condições mínimas de sobrevivência, restringir a saúde e a educação para os brasileiros de baixa renda. E, por consequência, expor toda uma nova geração ao crime organizado que, sem investimentos em segurança, conseguirá seu intento de transformar o país em um imenso México.

Até quando o álibi dos justiceiros resistirá a esse segundo tempo?

Peça 6 – o pacto hipócrita

Há uma regra política infalível: excesso de poder leva à corrupção. Ou à antessala, que é a promiscuidade com outros poderes.

Dia desses, a Folha noticiou um suposto acordo entre o PGR Janot e Michel Temer. Segundo as notícias, Janot teria se apresentado para o terceiro mandato - ou para o fim da lista tríplice, desde que fosse indicado alguém do seu grupo para sucedê-lo - valendo-se do álibi Lava Jato. Ele seria a garantia de continuidade da operação. Como não é um argumento que sensibilize particularmente Temer, a grande indagação é o que teria sido oferecido por ele, em troca.

Não se sabe o grau de veracidade da notícia. O que causa estranheza é que imediatamente se pronunciou a ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República). Apesar de ser uma entidade de classe, bancada pelas contribuições dos associados, a ANPR foi incapaz de arrancar um desmentido sequer de Janot. Soltou uma nota que é muito mais uma cobrança prévia do que uma defesa (https://goo.gl/xGjJAQ):

“Rodrigo Janot - que outrora presidiu a ANPR - não encerraria sua indelével trajetória no Ministério Público Federal construindo um sucessor em conchavos palacianos. Estes criariam uma crise institucional e uma desconexão entre o PGR e os procuradores - qual ele conheceu na sua juventude ao ingressar no MPF antes da redemocratização do Brasil e a definitiva autonomia do Ministério Público”.

Por outro lado, assim que Temer assumiu a presidência, a ANPR foi a primeira organização a ir ao beija-mão. E, quando da nomeação escandalosa de Alexandre de Moraes para o STF (Supremo Tribunal Federal), a ANPR emitiu uma nota de apoio igualmente escandalosa (https://goo.gl/m5n8nP).

“Jurista de notável saber jurídico, com passagem de mais de uma década pelo Ministério Público do Estado de São Paulo, Alexandre de Moraes intermediou discussões importantes para o país à frente do Ministério da Justiça”.

O Ministério Público Federal é composto por um grupo heterogêneo de procuradores, dentre aqueles de inegável vocação pública e profissionalismo, aos que se encantam com o exercício leviano do poder. Ouso dizer que a maioria é firmemente comprometida com o trabalho e o profissionalismo.

Na cúpula, no entanto, há o mesmo movimento que se observa nos partidos políticos, no Judiciário, um jogo de poder hipócrita, disfarçado nas bandeiras da anticorrupção.

Seria interessante saber como esse fenômeno é analisado pelas lentes do nosso brasilianista de boutique, Ministro Luís Roberto Barroso.

Peça 7 – 2018

Assim que refluir a ofensiva atual, a disputa política se voltará para os fatos concretos da política: a disputa de projetos nacionais em 2018.

Portanto, é hora de arregaçar as mangas e trazer para o centro do jogo os intelectuais, os gestores públicos, as associações empresariais e os movimentos sociais, sindicatos e academia. É hora de começar a discutir o novo Brasil, depois do vendaval.
Posted: 18 Apr 2017 06:21 AM PDT
Por Fernando Horta, no site Brasil Debate:

Desde o século XIX, o mundo não se sentia tão desconfortável pelo surgimento de um “xerife” que se arrogava o direito de intervir em qualquer parte do mundo, a partir de seus pressupostos éticos. Em 1845, a Inglaterra lançou o Bill Aberdeen, declarando-se em condições e legitimidade de atacar qualquer embarcação carregando escravos, em qualquer lugar do mundo. Trump, nos últimos dias, avisou que os ataques que foram lançados sobre a Síria seriam um “aviso” a todos os países “fora da ordem internacional”. Para amenizar o discurso, assessores de Trump rapidamente apontaram para a Coreia do Norte e seu teste de mísseis balísticos próximos ao Japão.

ÂncoraAs tensões entre Washington e Kim Jong Un parecem realmente incomodar Coreia do Sul e China, não devido às bravatas do líder coreano, mas ao fato de que, agora, um presidente norte-americano se incomoda com elas. Trump deslocou pesada força marítima para a região da península da Coreia, ao que foi rebatido com a ameaça de ser “transformado em cinzas” pela Coreia do Norte. É impossível deixar de ligar os dois casos, e passar a perceber que os EUA de Trump parecem querer agir como reserva moral do planeta.

Esta posição tem, ao menos em curto prazo, dado resultado frente ao público norte-americano. A opinião pública norte-americana oscila entre o apoio aberto às ações de Trump e uma silenciosa neutralidade. Curiosamente, os democratas abriram mão de atacar Trump. Hillary Clinton apoiou as ações do presidente e Bernie Sanders declarou que o problema dos bombardeios era o fato de serem “unilaterais”. Não houve uma crítica mais contundente à falta de adesão aos princípios de direito internacional ou à ética dos ataques. As vozes mais agressivas contra o bombardeio vieram de Rand Paul (senador republicano pelo Kentucky). O “fogo amigo” por parte dos republicanos foi minorado pelo senador John McCain (republicano pelo Arizona) que não só apoiou as ações de Trump como afirmou que Paul “não tem influência alguma no Senado”.

Se o ambiente interno parece ter se acomodado às ações de Trump, sua diplomacia deixou bem clara que esta será a tônica de suas atitudes. A embaixadora norte-americana na ONU, Nikki Haley, afirmou que “os ataques estão plenamente justificados” e que “os EUA podem atacar novamente”, deixando clara a posição de polícia que Trump parece se sentir à vontade em exercer. Imediatamente, Rússia e Irã estreitaram ainda mais os laços e declararam que estão prontos a reagir a qualquer nova tentativa de ação norte-americana que venha a atacar o direito internacional na Síria. China e Coreia do Sul imediatamente se puseram a interceder na disputa entre EUA e Coreia do Norte, tentando diminuir o tom das ameaças e evitar um confronto. De qualquer, forma o mal-estar internacional está estabelecido.

É fato que os EUA têm constantemente lançado mão de intervenções unilaterais, mas existem diferenças com relação a este momento. A primeira e mais gritante delas é que os EUA (seu território e cidadãos) não foram atacados para justificar uma ação como a tomada contra a Síria. À luz do direito internacional, a ação de Trump é uma agressão imotivada e poderia ser tratado como um “ato de guerra” sem um “casus belli” legítimo.

O segundo ponto de diferença é que a busca de apoio internacional se deu APÓS a tomada das ações e não antes, como aconteceu, por exemplo, na segunda guerra do Iraque. Os EUA antes, ainda que reunindo poucos e inconsistentes apoios, buscavam formar uma “coalizão” para somente então atacar. Trump atira primeiro e pergunta depois. Usando abertamente e unilateralmente o poder militar, Trump ajuda a enterrar a já combalida estrutura internacional montada após 1945.

Há muito se sabe que o custo da ação militar aberta vai subindo exponencialmente com o seu uso. Ao mesmo tempo, a legitimidade das ações tomadas tende a cair violentamente. Mesmo durante a Guerra Fria, os EUA evitaram o uso aberto da força de forma unilateral para, segundo a interpretação de John Ikenberry, fortalecer uma ordem em longo prazo. Ao evitar o uso explícito da força, os EUA trocavam realizar suas vantagens materiais de forma imediata por estabilizar o sistema internacional, construindo amarras que contivessem o comportamento dos Estados de forma não violenta. Trump vai em sentido contrário.

Existem, ao menos, dois outros grandes problemas nesta estratégia. O primeiro é que “faltou combinar com os russos”, parafraseando Garrincha. Putin rompeu os acordos de cooperação militar com os EUA 24 horas após o ataque e já colocou uma boa parte da sua máquina de guerra em alerta. Irã também se manifestou e no mesmo diapasão russo. Os EUA precisam tomar cuidado para não provocarem uma aliança contra-hegemônica com vantagem geopolítica para o oriente. Duvida-se também que a situação financeira norte-americana seja propícia para a guerra. Os elevados déficits internos não são um cenário convidativo para conflitos duradouros. Se o “complexo industrial-militar” norte-americano vislumbra lucros em situações como esta, o tesouro do país sente o esforço de guerra, especialmente quando o presidente reduz impostos.

O segundo ponto a ser levantado trata da amplitude do termo “países fora da ordem internacional”. Quais ordens seriam suficientes para fazer o líder norte-americano ensejar um ataque? Estaria Israel e sua sempre mencionada política de assentamentos fora desta ordem? A Arábia Saudita e suas execuções sumárias em desacordo com convenções de direitos humanos? A Rússia e sua política para a Crimeia? A China com sua relação conturbada com Hong Kong? O Brasil e seu estendido mar territorial ou a construção do submarino nuclear? Efetivamente até onde vai a discricionariedade do novo xerife na aplicação das normas internacionais?

Infelizmente, o governo Trump, enquanto não oferecer respostas claras sobre estas indagações, lançará mais e mais o cenário internacional em uma época de incertezas. Entretanto, parece que o mandatário norte-americano não se importa de criar incertezas internacionais contanto que estas lhe tragam a consolidação de certezas internas. De fato, isto também não é novo. Os EUA historicamente consolidaram poder interno através de guerras internacionais. A novidade é que, dada a baixa popularidade de Trump já no início do seu mandato, a consolidação interna demandará ações externas de calibre bastante alto. Terá o sistema internacional capacidade de assimilar estas pressões?
Posted: 18 Apr 2017 06:19 AM PDT
Por Saul Leblon, no site Carta Maior:

Marcelo Odebrecht é um capitalista para ninguém botar defeito.

Herdeiro da empresa fundada pelo avô e expandida pelo pai, uma das maiores construtoras do país e do mundo, logo entendeu que era inexorável servir à lógica da acumulação intrínseca ao sistema do qual é senhor, ‘mas também escravo’, como já disse um alemão especializado no assunto no século XIX.

O roteiro dessa dinâmica persegue objetivos sabidos.

Otimizar os fatores pela ampliação da escala.

Explorar oportunidades convergentes.

ÂncoraDevorar o concorrente para não ser devorado por ele –canibalismo hoje expandido à escala global.

Elevar as taxas de retorno ao paradigma rentista que se libertou da etapa produtiva da acumulação.

E, claro, exercer a ganância na exploração da fonte fundamental da riqueza. Aquela para a qual o capitalismo nunca cessa de aperfeiçoar as formas de extrair o suor e aquilo que o acompanha: o lastro real de valor das coisas.

O impulso inexorável à expansão conduziu e foi conduzido pelo herdeiro da Odebrecht num período favorável de alta do ciclo econômico no Brasil, com gigantesca carteira de obras públicas.

A holding Odebrecht, sob sua batuta desde 2006 e, oficialmente, a partir de 2009, estendeu o alcance do núcleo original da engenharia de construção para 15 eixos de negócios, com ramificações nos EUA, Europa, Oriente, América Latina e África.

Não é uma singularidade pantagruélica dos ‘odebrechts’.

Ou uma artimanha urdida nos bastidores do ‘lulopetismo’, como gostaria a frivolidade pedestre das mirians leitões.

É a lógica compulsiva do processo sistêmico de acumulação capitalista.

O mesma que traz a Alstom ao Brasil, por exemplo, para disputar com os mesmos métodos e o mesmo arrojo, as ‘quase-licitações’ das obras do metrô de São Paulo --e vencê-las da forma sabida, ao preço agora escancarado.

Oito anos depois de assumir a frente dos negócios da família, Marcelo tinha sob seu comando 180 mil funcionários; um faturamento de R$ 130 bilhões.

A meta do empresário cuja delação escancarou a cooptação de um sistema de representação política do século XIX, pela engrenagem capitalista do século XXI, era atingir R$ 200 bilhões em 2020.

Carta Maior chama a atenção para a dinâmica estrutural por trás de um capítulo devastador da história brasileira não para edulcorar a responsabilidade das maiores forças e lideranças progressistas nesse processo ecumênico e suprapartidário.

A verdade é que dele participaram, ‘ todas as elites, todos os poderes, inclusive a imprensa, (que dele) tinham ciência(...) há 30 anos (porque tudo) acontecia sob as barbas de todos...’ .

O desabafo de Emilio Odebrecht, pai de Marcelo, diante da indignação seletiva do bravo jornalismo brasileiro à delação da família e de seus funcionários resume a hipocrisia dos escandalizados.

Não há querubins nem serafins nessa história.

Tampouco ela cumprirá integralmente seu papel no esforço do esclarecimento se ficar restrita à narrativa da demonização maniqueísta e moralista, mesmo quando expressa no idioma de esquerda.

Carta Maior registra aqui seu esforço, antigo, para escapar às armadilhas das boas intenções movediças.

Já a partir da crise do dito ‘mensalão’ Carta Maior sublinharia sistematicamente sua crítica : ‘ (...) às aberrações que a prática (do caixa 2) encerra, a saber: descarna partidos, esfarela programas, subverte a urna e aleija lideranças...’ (trecho do editorial de Carta Maior publicado em 23 de outubro de 2012)

Esse contraponto não contradizia o apoio claro a avanços sociais e econômicos inéditos e substantivos que para serem aprofundados necessitavam ser reconhecidos e defendidos com estruturas democráticas compatíveis --insistiria nossa angustiada crônica dos acontecimentos.

Ele levaria a outra ressalva diante de um equívoco de gravidade histórica superlativa.

O economicismo no poder.

Ele permeou doze anos de governos progressistas, lastreados na desastrosa suposição de que ganhos incrementais de renda das camadas populares promoveriam mecanicamente e consciência política indispensável à autodefesa popular do processo.

Foi assim que se terceirizou às gondolas dos supermercados a responsabilidade pelo salto ideológico, político e organizativo capaz de promover a mudança crucial na correlação de forças da sociedade.

A negligência mostrou-se fatal.

Quando a persistência da desordem global secou o lubrificante das receitas externas que permitiam girar a roda da riqueza sem luta social aberta, sobreveio o golpe.

Um vetor da ofensiva, porém, já corroía a solidez das conquistas há mais tempo.

Desde o mensalão, em 2006, a mídia cuidava de direcionar ao PT, e personalizar em Lula, o que era uma distorção suprapartidária intrínseca ao sistema político brasileiro.

Incansáveis pelotões da indignação seletiva escrita e falada empenhavam-se em convencer a opinião pública de que, no caso do PT, a política transformara-se em degeneração sistêmica. A corrupção metabólica entranhara-se em suas lideranças.

Nas demais siglas relevantes, o desvio –quando inevitável reconhece-lo-- seria pontual.

A delação de Marcelo Odebrecht não vem apenas desembaçar a visão de uma sociedade deliberadamente vedada, anos a fio, por um jornalismo e um judiciário vergonhosamente cúmplices desse esbulho.

Ela permite, a quem quiser, enxergar melhor o que havia por trás da fuligem.

Havia a crise de uma democracia subordinada a um sistema político integralmente cevado na captura do Estado para servir ao capital.

O dispositivo midiático conservador optou conscientemente pelo argumento de que a 'maçã podre’ era o lulopetismo: um consenso jornalístico dispensável de provas que o judiciário endossou.

Não se economizou paiol nessa fuzilaria.

Em 2012, no auge do jornalismo isento, apenas nas quatro semanas terminadas em 13 de agosto, como informou então Marcos Coimbra, da Vox Populi, 65 mil textos foram publicados na imprensa sobre o ‘mensalão’.

Todos repisavam o esbulho que circunscrevia o geral no particular.

No Jornal Nacional da Globo, no mesmo período, para cada 10 segundos de cobertura neutra houve cerca de 1,5 mil segundo negativos, batendo na mesma tecla da demonização do PT.

Nos anos mais recentes, coube ao juiz Sergio Moro lapidar a avalanche.

E corroborar a farsa rudimentarmente sagrada no patético power point de um figurante do enredo já a meio caminho do messianismo.

A pedra angular do processo, assim, permaneceu oculta.

Mesmo após Marcelo Odebrecht ter nivelado o que durante décadas se pretendeu distinguir --carecas, mineirinhos, santos, príncipes da sociologia, a cúpula do golpe, o baile todo, enfim – a sociedade continua a ser entorpecida pelas lentes da simplificação.

Essa que reduz o jogo pesado no qual se movem as forças monumentais do capitalismo a um duelo romântico entre anjos e demônios, entre ‘liberais’ e ‘aparelhistas’.

Agora que a porta foi arrombada não basta que guardiões da fé nesse dogma ofereçam algumas carcaças mortas às labaredas do inferno para dar consistência à fabula maniqueísta.

É preciso ir além de chutar cachorro morto.

Para tirar o país do socavão em que se encontra --emparedado entre o esgotamento de um ciclo de desenvolvimento e a indisponibilidade de canais democráticos para repactuar o seguinte-- será necessário institucionalizar novas práticas que sustentem um degrau superior de participação popular na ordenação do passo seguinte de nossa história.

Somente assim será possível subordinar a dinâmica que fez a Odebrecht ser o colosso que é.

E concentrar o poder que tem.

Nada muito diferente, repita-se, das dimensões e intrusões cometidas pelos executivos da Siemens, Alstom e assemelhados no metrô de São Paulo.

Ou do que fazem bancos e endinheirados nativos, parte deles flagrada em escândalos de sonegação que ungiu a plutocracia brasileira ao topo do ranking mundial de lavagens e golpes fiscais...

Se enxergasse esse horizonte a sua frente –ele não enxerga-- o meritíssimo de Curitiba perceberia que a sua lógica jurídica conduz ao mapa de Borges: aquele que se amplia a exaustão, até adquirir finalmente a escala da realidade.

A escala capitalista do século XXI é a das grandes corporações e a da voragem financeira que se expande no terreno cedido pela democracia e no recuo imposto pela agenda do Estado mínimo desde os anos 70, urbi et orbi.

Estudos do economista francês, François Morin, indicam que um núcleo formado por 28 megabancos globais funciona como uma espécie de fígado do aparelho circulatório do capital na atualidade: todo o sistema passa por eles de alguma forma.

Visto desse mirante o Estado é o anão capturado pelos paquidermes da concentração de capital e das megacorporações privadas.

Esse é o reino das Odebrechts.

Nele, a crise fiscal reflete o endividamento de um Tesouro tangido a emprestar de quem deveria taxar.

E a hipertrofia corporativa é a contraface de um Estado atrofiado em sua capacidade de ouvir a população, planejar o desenvolvimento, empreender e coordenar as respostas às demandas da sociedade.

Essa constatação não endossa a tese da corrupção como fatalidade.

Mas tampouco reconhece na agenda dos depuradores do capitalismo uma resposta à altura da encruzilhada vivida pelo país.

Dotados não raro de indisfarçável escovão ideológico, como no caso da Lava Jato, os depuradores frequentemente pavimentam um paradoxo.

Fortalecem interesses que convalidam o que se afirma combater. Ou seja, a rapinagem do interesse público pela sucção dos apetites unilaterais

O que está em jogo, portanto, é algo mais que uma ópera bufa de salvadores da pátria.

É uma tragédia que a encruzilhada do desenvolvimento brasileiro nesse momento seja escrutinada por critérios tão bisonhos, incensados por uma mídia de singular mediocridade, empenhada acima de tudo em agilizar o abate daquele que desde 2002 estorva suas preferências na savana eleitoral.

A suposição de que existe um mercado puro --como o Deus com o qual o procurador de Curitiba se comunica-- enfrenta colisões apreciáveis com a realidade do capitalismo em nosso tempo.

É isso, sobretudo isso, o que a trajetória da Odebrecht e a delação de Marcelo e Emilio escancaram.

Vivemos um tempo em que a supremacia dos oligopólios e a deriva da democracia e do desenvolvimento não são realidades antagônicas.

Antes, são complementares.

O conjunto exprime uma racionalidade impossível de se combater sem uma intervenção política que credencie o Estado e a democracia para subordinarem o mercado à finalidade social do desenvolvimento.

Esse é o drama do povo brasileiro, turvado em sua visão política pela indigência ética e intelectual de um jornalismo que deforma aquilo que a sirene da história informa.

A delação da Odebrecht evidencia o quão profunda pode ser a ingerência privada na esfera pública, quando esta jaz imobilizada por um torniquete composto de Estado fraco (‘mínimo’), sistema político apartado da vigilância cidadã, insuficiência fiscal e crispação da ganância privada, expressa na fusão entre partidos e mercado.

O conjunto culminou no caso brasileiro na excrescência de um congresso argentário, em assembleia permanente contra o povo.

Nessas condições verifica-se que são as corporações que planejam a sociedade.

Aos ingênuos, ou espertos, que embarcam o ‘gigantismo estatal’ na lista dos demônios a serem calcinados na fornalha de Curitiba, cabe esclarecer: a tragédia atual reside justamente em um ‘intervencionismo' às avessas.

Esse em que o oligopólio subordina a sociedade, suas lideranças, seus partidos, seus direito e seu projeto de futuro.

A matriz local dessa engrenagem pegou carona na Lava Jato na tentativa de retornar ao poder e terminar o serviço iniciado nos anos 90, quando a agenda neoliberal chegou ao Planalto.

A saber: comprimir ganhos reais de salário, esfacelar o pleno emprego, implodir a Carta de 1988, transformar direitos sociais em serviços pagos, revogar a legislação trabalhista de Vargas, espremer o poder de barganha sindical e, o mais importante, retomar as grandes privatizações do patrimônio público brasileiro --o Banco do Brasil, o BNDES, a Caixa Federal, a Previdência Social, o SUS e a joia da coroa deste e de todos os tempos, o pré-sal.

Aquilo que já foi feito está presente no DNA da corrupção que agora se combate para promover um upgrade nas suas causas.

Ou seja, erigir um Estado ainda mais fraco, diante de um mercado desregulado ainda mais forte, com governantes, partidos, lideranças e urnas adicionalmente reféns de seus interesses.

Não é uma jabuticaba brasileira.

Trata-se do metabolismo constitutivo do capitalismo em nosso tempo.

Razões sistêmicas, associadas às derrotas e recuos da esquerda mundial, reforçaram esse movimento de expansão e concentração do capital desde os anos 70, coagulado em um poder financeiro desterritorializado, graças à liberalização imposta às contas de capitais, e em grandes ‘odebrechts’ regionais e globais.

É preciso adicionar história às tensões desse momento político extremado, se não quisermos errar de novo a porta de saída.

O fato é que, ademais de configurar uma etapa superior de dominação, essas megaempresas e oligopólios atendem também às necessidades estruturais da sociedade em nosso tempo.

A formação de grandes corporações operacionais e respectivos fundos financeiros é um requisito à escala das obras e dos custos impostos pelo agigantamento dos projetos de infraestrutura, dos planos de universalização de serviços e, cada vez mais, das exigências de enfrentamento dos desequilíbrios climáticos (gigantescos planos de reciclagem energética, prevenção de desastres climáticos etc).

Essa agregação de capacidade empreendedora e financeira tem que ser feita por alguém.

Que ela ocorra por meio de processos dilapidadores ou se dê subordinada ao planejamento democrático, eis a disjuntiva crucial da luta pelo desenvolvimento no século XXI.

É em torno dela também que se dilacera a sociedade brasileira nesse momento.

Não se trata, porém, de uma quimera.

A experiência das sucessivas rupturas capitalistas desde 1929 evidencia a necessidade incontornável de um poder de coordenação capaz de colocar essas forças úteis à sociedade, de fato a seu serviço.

A delação da Odebrecht, a amplitude de suas intervenções, a expertise e a escala de suas ramificações reafirma esse desafio.

Sua capacidade empreendedora e a de outras empreiteiras –sem falar a das estruturas estatais, como a da Petrobras e BNDES— só escapa à indigência política e intelectual dos liquidacionistas da nação embarcados na Lava Jato.

Todo o desafio brasileiro hoje gira em torno de um nó górdio: quem vai destravar o passo seguinte do desenvolvimento?

A mitologia faxineira assegura que a purga atual fará emergir um mercado mais livre e saneado, capaz de equacionar os desafios do crescimento e da cidadania à margem do Estado,

Não há precedente histórico de um ciclo de prosperidade e soberania nacional dissociado dos grandes pactos que aglutinam recursos, ferramentas e estruturas dotadas de força e consentimento para deflagrar o impulso inicial e garantir sua sustentação no tempo.

O verdadeiro antídoto à captura do interesse público pelo privado nesses processos não está em negar sua necessidade ou o papel do Estado como amalgamador do conjunto.

Menos ainda em demonizar seus personagens de carne e osso. Com as virtudes e defeitos da carne e do osso.

O repto da virtude –da sociedade, de seus cidadãos e governantes-- depende da construção de instituições virtuosas.

Essas que nos faltam para, entre outras coisas, devolver ao povo brasileiro o comando do seu destino e o destino do seu desenvolvimento, capacitando-o a escrutinar suas escolhas com um salto nos mecanismos de participação e consulta popular

O pleito de 2018 só não será a antessala de uma terrível frustração se do embate político emergir uma rua assim mais organizada, capaz de protagonizar o passo seguinte do nosso desenvolvimento. E nele ocupar o espaço hoje açambarcado pela cepa das odebrechts.
Posted: 18 Apr 2017 06:15 AM PDT
Por Cynara Menezes, no blog Socialista Morena:
Hoje, 17 de abril, faz um ano da tenebrosa sessão em que uma Câmara corrupta votou pela abertura do processo de impeachment de uma presidenta honesta, Dilma Rousseff. Onde estão hoje os principais personagens desta história? E onde está Dilma?

Michel Temer: citado na Lava-Jato, o presidente ilegítimo já precarizou a vida do trabalhador, congelou gastos com a saúde e a educação pelos próximos vinte anos e agora planeja destruir a aposentadoria.

ÂncoraEx-presidente da Câmara Eduardo Cunha: está preso em Curitiba, acusado de receber propina por um contrato de exploração de petróleo no Benin, na África, e de usar contas na Suíça para lavar o dinheiro.

Deputado Jair Bolsonaro: o parlamentar que homenageou o torturador de Dilma em seu voto está sendo processado por quilombolas do país inteiro por insultá-los em uma palestra no clube Hebraica, no Rio. As ofensas já resultaram em uma ação do MPF no Rio de Janeiro.

Deputada Raquel Muniz (PSD-MG): chamou a atenção ao gritar “sim! sim! sim!” e dedicar o voto ao marido, prefeito de Montes Claros, que foi preso no dia seguinte.

Geddel Vieira Lima: saiu do ministério de Temer após a revelação de que pressionava o ministro da Cultura, Marcelo Calero, para liberar um prédio embargado pelo IPHAN em Salvador onde teria um apartamento. Geddel também é citado como tendo recebido milhões em caixa 2 da Odebrecht.

Deputado Bruno Araújo (PSDB-PE): autor do voto de número 342, que autorizou a abertura do processo, se tornou ministro das Cidades do governo golpista e é acusado de lavagem de dinheiro e corrupção passiva e ativa na Lava-Jato.

Deputado Wladimir Costa (SD-PA): enganou muita gente posando de democrata com a bandeira amarrada no pescoço. Em fevereiro deste ano, o TRE do Pará cassou seu mandato por unanimidade por ter recebido dinheiro “oriundo de fontes não declaradas” (caixa 2) e ter omitido doações à Justiça Eleitoral.

Deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ): votou a favor do impeachment elogiando Eduardo Cunha. “O senhor entra para a história hoje”. Agora, ele e seu pai, César, a quem também homenageou, viraram réus na Lava-Jato, acusados de terem recebido pagamentos irregulares da construtora Odebrecht.

Deputado Jovair Arantes (PTB-GO): o relator do processo de impeachment foi citado em escutas da operação Carne Fraca, em que um fiscal aparece fazendo um pedido de dinheiro a um frigorífico para sua campanha.

Deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS): membro da “bancada ética” (sic), Lorenzoni votou pelo impeachment “para dizer um basta à roubalheira”. Mas foi delatado na Lava-Jato como suspeito de falsidade ideológica por não ter declarado ao TSE o recebimento de 175 mil reais da Odebrecht.

Deputado Paulinho da Força (SD-SP): votou na Câmara contra a “boquinha do PT” e o “roubo generalizado”, mas aparece na lista do ministro Facchin em dois inquéritos, acusado de corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro por ter recebido doações irregulares da Odebrecht.

Os paneleiros: permanecem em silêncio. As panelas voltaram a soar apenas quando o PT transmitiu seu programa de TV, semana passada. Contra outros partidos, nada.

E Dilma, onde está?

Enquanto o Brasil descobre que Marcelo Odebrecht tentava pressioná-la para barrar a Lava-Jato e que não se encontra nenhuma comprovação de que tenha feito algo ilegal, a presidenta eleita do Brasil faz uma série de palestras em universidades dos Estados Unidos denunciando o golpe e a situação em que nosso país se encontra. Nada como ter a consciência tranquila.
Posted: 18 Apr 2017 06:06 AM PDT
http://pataxocartoons.blogspot.com.br/
Por Tereza Cruvinel, em seu blog:

Pode-se dizer que o estouro das delações da Odebrecht pelo STF não foi politicamente cronometrado e que atingiu todo o sistema político, mas é certo que a explosão criou o tempo perfeito para a pressa que o juiz Moro tem de condenar o ex-presidente Lula em primeira instância, com vistas à sua inelegibilidade. Com o depoimento do ex-presidente marcado para o dia 3 de maio, numa espécie de juízo final que pode resultar em confronto de manifestantes em Curitiba, Moro marcou para o dia 20 de abril, a próxima quinta-feira, o depoimento do executivo da OAS Léo Pinheiro sobre o caso do tríplex do Guarujá. Não havendo até agora colhido provas de que o apartamento pertença ou tenha pertencido a Lula, parece haver uma aposta de Moro em revelações de Pinheiro e de outros executivos da OAS que o incriminem.

ÂncoraLéo Pinheiro será ouvido juntamente com outro executivo da empreiteira, Agenor Medeiros. No dia 26 serão ouvidos Paulo Gordilho, acusado de comprar a cozinha planejada para o tríplex, e os executivos Fábio Yonamine e Roberto Ferreira. O presidente do Instituto Lula, Paulo Okamoto, prestará depoimento no dia 28.

No meio jurídico, aposta-se que Moro dará a sentença de Lula nesta ação até o final de junho, no máximo no início de agosto, encurtando o prazo que ele terá para recorrer ao Tribunal Federal de Recursos em Curitiba, onde 95% das sentenças de Moro têm sido mantidas. E aí a candidatura de Lula a presidente em 2018 entra num limbo jurídico de difícil previsão. Como as candidaturas devem ser registradas até o final de junho, se até lá ele já tiver sido condenado nas duas instâncias terá se tornado ficha suja ou poderá recorrer ao TSE? E se for candidato com recursos pendentes de julgamento, poderá ter depois sua eventual eleição contestada? Tudo isso não tem resposta agora, porque são questão que habitam o mundo da crise e da disputa política, não o das regras eleitorais ordinárias. Certo é que está em curso a ofensiva para impedir sua candidatura.

O bode expiatório

Com as delações da Odebrecht reveladas em texto e vídeo, o país soube detalhes do que nunca ignorou: que todo o sistema político era financiado por empresas numa permanente troca de favores. Soube que a Odebrecht desembolsou R$ 1,68 bilhão para quase 500 políticos e lobistas, sob a forma de propinas ou doações de campanha via caixa 2. Alguns nomes reluzentes da antiga oposição aos governos petistas receberam as maiores somas, como Aécio Neves (R$ 50 milhões só numa operação) e José Serra (R$ 23 milhões, sendo parte na Suíça). Entretanto, apesar da doença sistêmica revelada. a mídia vem carregando nas tintas contra Lula, por suas relações com a Odebrecht, como se fosse ele o campeão das propinas e o arquiteto do descalabro. A Rede Globo tem lhe dedicado espaços caudalosos e O Estado de S. Paulo, no editorial “A responsabilidade de Lula”, neste domingo, afirma que ele é o maior culpado pela cooptação de quase todos os partidos pela Odebrecht.

Em nota neste final de semana, a defesa de Lula apontou a ausência de materialidade nas acusações, como inexistência de provas de que ele pediu ou recebeu recursos de uma conta virtual que existiria à sua disposição na empresa, ora no valor de R$ 35 milhões, ora no valor de R$ 40 milhões. Lembrou também a nota que, assim como a Odebrecht, outras grandes empresas brasileiras mereceram a atenção do governo Lula para viabilizar projetos de interesse nacional, domésticos ou internacionais, contribuindo para o período de crescimento e afirmação nacional verificados em seu período. Não só a Odebrecht teve acesso a créditos do BNDES ou a outras medidas para sua internacionalização, dentro da política estratégia do momento.

A nova ofensiva contra Lula teve, inclusive, o efeito de “decepcionar” aliados que passaram a criticá-lo, declarando estupefação diante das relações que ele tinha com Emílio Odebrecht. Se há algo que Lula nunca escondeu foi sua natureza conciliadora, em oposição a núcleos de origem “revolucionária” do PT, os que vieram de organizações marxistas-leninistas ou da luta armada. Seu governo foi de conciliação de classes, como bem resumido pelo próprio patriarca Odebrecht quando disse, na delação, em outras palavras: Lula quis, e conseguiu, dar um pouco aos pobres, retirando do Orçamento, sem tirar das classes dominantes, que também muito ganharam. E ganhando, no entender de Lula, estavam gerando emprego e riqueza para o país.
Quem conhecia esta natureza de Lula não pode ignorar a multiplicidade de suas relações e alianças, inclusive com empresários, que não significa que elas eram movidas a corrupção. Nem pode agora sancionar a caçada com recriminações desta ordem. Lula foi e continua sendo para o Brasil um grande líder popular, intérprete das necessidades e dos sentimentos dos mais sofridos, disposto a reduzir as grandes injustiças e desigualdades, dentro das regras democráticas, observando e conciliando o interesse da Nação com as necessidades dos despossuídos. Até o radical PCO vem dizendo isso: tem divergências com Lula mas a hora é defende-lo, não de contribuir para que seja banido.
Posted: 18 Apr 2017 06:04 AM PDT
Por Paul Craig Roberts, no site Vermelho:

Está se tornando embaraçoso ser (norte)-americano. Nosso país teve quatro presidentes em sucessão, todos criminosos de guerra. Clinton lançou dois ataques militares contra a Sérvia, ordenando que a Otan bombardeasse a antiga Iugoslávia duas vezes, em 1995 e 1999, cometendo assim dois crimes de guerra.

George W. Bush invadiu o Afeganistão e o Iraque e atacou províncias do Paquistão e do Iêmen pelo ar. Quanto a Bush, são então quatro crimes de guerra. Obama usou a Otan para destruir a Líbia e mandou mercenários para destruir a Síria, cometendo desta forma dois crimes de guerra. Trump atacou a Síria com as forças dos Estados Unidos, cometendo assim um crime de guerra logo no início de seu regime.

ÂncoraNa medida em que a ONU participou destes crimes de Guerra junto com os vassalos europeus, canadenses e australianos, também é culpada de crimes de guerra. Talvez fosse bom que a própria ONU fosse levada aos tribunais de crimes de guerra junto com Estados Unidos, União Europeia, Austrália e Canadá.

É um belo currículo. A civilização ocidental, se é que pode ser chamada de civilização, é a maior criminosa de guerra da história da humanidade.

E há outros crimes – a Somália, e os golpes de Obama contra Honduras e Ucrânia, bem como as tentativas em andamento de derrubar os governos da Venezuela, Equador e Bolívia. Washington precisa derrubar o governo do Equador só porque quer prender e torturar Julian Assange, um dos maiores líderes da democracia mundial.

Estes crimes de Guerra foram cometidos por quatro presidentes dos EUA em sequência, causando milhões de mortes e ferimentos de civis e oprimindo e deslocando milhões de pessoas, que agora estão chegando como refugiados na Europa, Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e Austrália, trazendo consigo uma série de problemas, como os já causados aos europeus, como a formação de gangues e estupros.

Qual é a razão para todas essas mortes e destruição que faz o ocidente ser inundado por refugiados que fogem da violência ocidental? Não sabemos. Ouvimos um monte de mentiras: Saddam Hussein possui “armas de destruição em massa”, mesmo quando o governo dos Estados Unidos sabia muito bem que essas armas não existiam. “Assad fez uso de armas químicas”, uma mentira deslavada e óbvia. “Bombas nucleares iranianas”.Outra mentira absurda. As mentiras sobre Kaddafi na Líbia foram tão absurdas que é perda de tempo repeti-las aqui.

Que essas mentiras estavam sendo usadas para justificar o bombardeio de tribos no Paquistão ou o novo governo do Iêmen? Os (norte)americanos não sabem nem se importam. Por que a violência dos Estados Unidos contra a Somália? Mais uma vez os (norte)americanos não sabem nem querem saber.

Ou então os imbecis pensam que é um filme.

Violência em benefício próprio. É isso o que os Estados Unidos se tornaram.

De fato, violentos é o que são os Estados Unidos. Não há mais nada. A violência está no coração dos EUA.

Não pense apenas nos bombardeios e na destruição de países, mas também na interminável violência policial, gratuita e ultrajante, contra cidadãos dos Estados Unidos. Se alguém tem que ser desarmado, é a polícia dos EUA. A polícia comete mais “violência armada” que qualquer outro, e, ao contrário de gangues de traficantes lutando uns contra os outros por território, a violência policial não têm outra razão a não ser a vontade de cometer violências contra outros seres humanos. A polícia (norte)americana está sempre baleando crianças (norte)americanas de 12 anos de idade, antes de fazer qualquer pergunta, especialmente se forem negros.

Os Estados Unidos são violentos e a violência é própria dos Estados Unidos. Os liberais beócios culpam os proprietários de armas pela violência, mas a fonte de violência sempre é a administração pública. É por essa razão que os pais fundadores da pátria nos deram a Segunda Emenda (direito que os cidadãos (norte)americanos têm de possuir e portar armas sob determinadas condições, que variam de estado a estado – NT). Não foram os possuidores de armas que destruíram no total ou em parte oito países. Foi o governo dos Estados Unidos armado-e-financiado-pelos-contribuintes, que cometeu estas violências.

A tara dos Estados Unidos pela violência está neste momento levando os dementes de Washington contra povos que podem devolver a violência na mesma medida: Russos, Chineses e Nortecoreanos.

A escalada de falsas acusações contra a Rússia e seu presidente continua sendo construída pelo antigo regime Obama, para aumentar a tensão entre poderes nucleares, a antítese da política de Ronald Reagan. Ainda assim os imbeciloides liberais amam Obama e odeiam Reagan.

Por acaso você sabia que a Rússia é tão poderosa e a NSA e a CIA tão fraquinhas e indefesas que foram incapazes de impedir a Rússia de influenciar nas eleições dos Estados Unidos? Você deveria saber disso, porque é isso que você ouve todo santo dia através do totalmente corrompido Partido Democrata, da CIA, do FBI, da imprensa prostituta dos EUA, e dos cretinos que escutam a CNN, MSNBD, NPR ou leem o New York Times e oWashington Post.

Com certeza você já ouviu pelo menos mil vezes que a Rússia invadiu a Ucrânia; no entanto, mesmo assim o fantoche colocado no poder na Ucrânia pelos EUA continua em Kiev. Ninguém precisa ter um QI acima de 90 para entender que se a Rússia tivesse mesmo invadido a Ucrânia, Porochenko não estaria mais lá.

Você sabia que o presidente da Rússia, o líder mais popular do mundo, por todas as pesquisas já realizadas é, de acordo com Hillary Clinton, o “novo Hitler”?

Você sabia que o mais respeitado líder em todo o mundo, Vladimir Putin, é um chefe da Máfia, um bandido, uma tarântula no centro de uma rede de espiões, de acordo com membros do governo dos Estados Unidos que são estúpidos a ponto de não saber soletrar os próprios nomes?

Você sabia que Putin, que tem respondido as provocações agressivas dos Estados Unidos sempre deforma contida, não por medo, mas por respeito à vida da humanidade, está sendo acusado de querer reconstruir o Império Soviético? Mesmo assim, quando Putin mandou uma força expedicionária contra o exército da Geórgia, treinado e financiado pelos Estados Unidos e Israel, que tinha invadido a Ossétia do Sul, o exército russo conquistou a Geórgia em cinco horas; na sequência, o exército russo se retirou, depois de ter dado aos imbecis uma lição. Se Putin quisesse mesmo reconstruir o Império Soviético, por que se retirou da Geórgia, que tinha sido uma província da Rússia por 300 anos antes que Washington promovesse a dissolução do império russo, com o colapso da União Soviética? Caso Putin tivesse resolvido que a Geórgia tinha voltado a fazer parte da Federação Russa, Washington nada poderia fazer.

Agora estamos sendo constrangidos pelo diretor da CIA nomeado por Trump, Mike Pompeo, talvez a pessoa mais imbecil dos Estados Unidos. Aqui nós temos uma besta realmente de grande calibre. Não tenho certeza do tamanho de seu QI. Talvez esteja beirando o zero.

Esse imbecil, se é que ele está qualificado pelo menos para ser chamado assim, do que duvido, está acusando Julian Assange, o Principal Jornalista do mundo atual, a pessoa que atualmente representa mais que ninguém a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, de ser um demônio que labuta ao lado de ditadores e inimigos da hegemonia (norteAmericana com a ajuda da Rússia. Tudo porque o Wikileaks publicou material de fontes oficiais que revelam o comportamento criminoso do governo dos EUA. Acontece que o Wikileaks não roubou tais documentos. Eles foram vazados para o Wikileaks por informantes de dentro do governo que não conseguem mais tolerar a imoralidade e as mentiras do governo dos EUA.

Qualquer um que diga a verdade torna-se instantaneamente inimigo dos Estados Unidos. E o tonto do Pompeo sai a campo para agarrá-los.

Quando li pela primeira vez as acusações de Pompeo contra Assange, pensei que era uma piada. O Diretor da CIA quer nada mais nada menos que revogar a Primeira Emenda? Acontece que a besta do Pompeo quer fazer exatamente isso: WikiLeaks ‘hostile intel,’ Assange & his followers ‘demons’: CIA chief goes ballistic

O que podemos fazer, o que o mundo pode fazer, quando temos cretinos dessa laia como Diretor da CIA, Presidente dos Estados Unidos, Assessor para a Segurança Nacional, como Secretário da Defesa, de Estado, como embaixadora dos Estados Unidos para a ONU, como editores de jornais como The New York Times, Washington Post, CNN, NPR, MSNBC? Com apenas gente estúpida no poder, onde vamos encontrar algum bom senso?

Gente estúpida só pode fazer coisas estúpidas. O governo chinês está alertando que os estúpidos (norte)americanos podem cometer a estupidez de atacara a Coreia do Norte a qualquer momento. Aparentemente, agora a Coreia do Norte já possui armas nucleares. Basta uma bomba nuclear pra destruir toda a frota americana na Península Coreana. Por que Washington parece estar pedindo para que isso aconteça? A única resposta possível é numa estupidez ao quadrado.

A Coreia do Norte não está incomodando ninguém. Por que Washington fica provocando a Coreia do Norte? Será o Benedito que Washington quer uma guerra contra a China? Se for esse o caso, Washington está desistindo da Costa Oeste dos Estados Unidos? Por que diabos a população da Costa Oeste dos EUA apoia políticas que implicam o desaparecimento da Costa Oeste do país? Ou os idiotas da Costa Oeste pensam que os EUA podem iniciar uma guerra contra a China ou a Coreia do Norte sem nenhum tipo de consequências para a Costa Oeste? Até os (norte)americanos que vivem lá são uns grandes imbecis?

Individualmente, tanto a China quanto a Rússia podem destruir os EUA. Juntos, podem tornar os Estados Unidos inabitáveis até o fim dos tempos. Por que os imbecis de Washington estão provocando potências nucleares? Será que pensam que a Rússia ou a China vão se submeter às suas ameaças?

A resposta é: Washington atualmente é uma respeitável coleção de idiotas, pessoas estúpidas em todo o glorioso significado da estupidez. Pessoas tão afastadas da realidade que imaginam que basta a sua arrogância e orgulho desmedido para elevá-los acima da realidade.

Quando o primeiro Satan 2 (míssil balístico intercontinental russo com capacidade de destruir países inteiros do tamanho da Inglaterra ou França, ou o Estado do Texas com apenas um disparo – NT) atingir Washington essa enorme coleção de gente idiota deixará de existir.

O mundo poderá então respirar aliviado.

Façam isso! Vamos lá, estúpidos, eliminem a si mesmos! O resto de nós mal pode esperar...

* Fonte: Blog do Alok.
Posted: 18 Apr 2017 06:02 AM PDT
Por Breno Costa, Reinaldo Chaves e Rodrigo Menegat, no site The Intercept-Brasil:
O então governador de Minas Gerais Aécio Neves, o empresário Alexandre Accioly e o jornalista Diogo Mainardi (que nega este relato) jantavam no restaurante Gero, um dos mais conceituados do Rio de Janeiro, em algum momento entre o fim de 2007 e começo de 2008. No mesmo salão, mas em outra mesa, estava um velho conhecido de Aécio, Henrique Valadares, então diretor da área de energia da Odebrecht. Valadares achava normal encontrar o mineiro em Ipanema, onde o tucano se habituara a passar seus finais de semana quando era governador.

ÂncoraIsso já faz quase dez anos, mas o representante da Odebrecht diz não se esquecer desse dia até hoje. É que, dias depois, o ex-diretor de Furnas e homem de extrema confiança de Aécio no setor elétrico Dimas Toledo procurou Valadares no escritório da Odebrecht na Avenida Pasteur, no Rio. Não era a primeira vez dele ali, nem seria a última. Dimas levava consigo um pedaço de papel com algumas informações sobre dados bancários. Era uma conta bancária em Cingapura, identificada como “Accioly”.

Valadares não teve dúvidas e até hoje afirma que a conta era do amigo de Aécio. Depois de um tempo, disse o diretor em um de seus depoimentos no acordo de delação premiada, ele viu Accioly também com Dimas, o que reforçou sua convicção. Nessa conta, foram depositados algo em torno de R$ 2 milhões, disse Valadares.

Mas a história, conforme conta o delator, não começa nem termina aí. Em fevereiro de 2008, Henrique Valadares e Marcelo Odebrecht marcaram um encontro com Aécio Neves. A conversa foi na residência oficial do governador, o Palácio das Mangabeiras, num ponto alto de Belo Horizonte. Com os três sentados nos confortáveis sofás do palácio, com vista para a cidade, a noite foi de conversas sobre a situação política e econômica do país, mas em tom de amenidades. Na saída, Aécio falou rapidamente com Valadares, sem dar maiores explicações: “O Dimas vai te procurar”.

O delator afirma que não presenciou o pedido de propina durante a noite. No entanto, ao entrar no carro com Marcelo, Valadares – sempre segundo seu depoimento aos procuradores da Lava Jato – foi informado do grande fato da noite: eles tinham acertado um pagamento de R$ 50 milhões para Aécio. Era uma contrapartida a ações que o tucano, hoje senador e presidente do PSDB, iria tomar, usando sua influência como governador, em favor do consórcio que a Odebrecht formou com a Andrade Gutierrez pelas obras da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, no Rio Madeira.

As empreiteiras queriam resolver questões em relação ao leilão da usina de Jirau, que aconteceria dali a três meses. Daqueles R$ 50 milhões, R$ 30 milhões caberiam à Odebrecht pagar. O restante da propina seria executada pela Andrade Gutierrez.

Dias depois, Dimas Toledo foi mesmo ao encontro de Valadares, no Rio. Não perdeu tempo. Já levava consigo um cronograma de pagamentos a serem feitos. Antes de cada data prevista para os repasses, Dimas voltava ao diretor da Odebrecht e entregava um pedaço de papel com informações sobre o destino de cada remessa. Pelo que se recorda Valadares, todos os pagamentos, sempre da ordem de até R$ 2 milhões, eram feitos para contas no exterior (embora ele admita que pode ter havido alguma conta também no Brasil). Considerando que foram R$ 30 milhões pagos, teriam sido indicadas cerca de 15 contas bancárias diferentes para os depósitos.

A respeito disso, o que as delações da Odebrecht mostram é que o padrão da empresa para pagamento de contribuições irregulares de campanha era por pagamentos em dinheiro vivo para emissários indicados dentro do Brasil. Pagamentos no exterior, em tese, teria como objetivo final enriquecimento pessoal. Valadares disse em depoimento não saber para que o dinheiro era usado.

Todos os R$ 30 milhões que teriam sido pagos pela Odebrecht, no acerto com Aécio Neves, foram desviados do contrato da Usina de Santo Antônio, conforme relato de Henrique Valadares.

O acerto do total de R$ 50 milhões para Aécio chama atenção também por um outro motivo. Na mesma época, segundo narrou Valadares aos procuradores, o mesmo valor foi acertado pela Odebrecht e Andrade Gutierrez também para o então deputado Eduardo Cunha, que passou a exercer forte influência no setor elétrico a partir do governo Lula, e também com o objetivo de garantir facilidades para o consórcio no projeto das usinas do Rio Madeira.


Relato do Ministério Público sobre o depoimento de Henrique Valadares.
"Fôlego" de R$ 15 milhões
Corta para 26 de setembro de 2014. Aécio saiu do governo de Minas Gerais com alto cacife político. Quase disputou as eleições de 2010, quando tinha mais de 70% de aprovação da população de Minas Gerais ao seu governo, conhecido pelo “choque de gestão”. Acabou perdendo a disputa interna no PSDB para José Serra e foi disputar uma vaga no Senado. Depois, com a derrota de Serra para Dilma Rousseff, conseguiu prevalecer internamente e foi eleito presidente do partido, encaminhando-se como nome natural para disputar o Planalto em 2014.

Naquele dia, em declarações a jornalistas, Aécio bateu mais uma vez no PT. Segundo ele, o partido de Dilma “era complacente com a corrupção” e tinha “absoluto desprezo pela ética”. Aécio estava preocupado, porque a eleição estava na reta final do primeiro turno, e ele corria risco de ficar de fora do segundo turno com a ascensão de Marina Silva.

Foi por isso que, dias antes, Marcelo Odebrecht foi procurado por Aécio. O candidato foi atrás de “um fôlego”. Pediu R$ 15 milhões, que, por motivos que Odebrecht acaba não detalhando em seu depoimento, acabaram não sendo pagos.

Mas a Odebrecht já vinha financiando ilegalmente a campanha de Aécio desde o primeiro semestre, como conta Marcelo. Só naquele mês de setembro, quando o candidato criticou a falta de ética do PT, sua campanha e de aliados próximos tinham recebido três pagamentos de R$ 1 milhão, segundo delatores. Antes, os repasses em dinheiro vivo – doze ao todo – eram de R$ 250 mil e vinham ocorrendo desde maio daquele ano. O dinheiro era entregue para emissários indicados por Aécio: Dimas Toledo e Oswaldo Borges da Costa, tesoureiro informal de Aécio e presidente da Companhia de Desenvolvimento do Estado de Minas Gerais (Codemig).

* Colaboração: Alline Magalhães, Bruno Pavan, Jéssica Sbardelotto, Guilherme Zocchio, Kleyson Barbosa, Lúcio Lambranho e Renan Antunes de Oliveira.

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