terça-feira, 4 de abril de 2017

4/4 - Altamiro Borges DE 3/4

Altamiro Borges


Posted: 03 Apr 2017 02:55 PM PDT
Por Felipe Bianchi, no site do Centro de Estudos Barão de Itararé:



A crise que não sai nos jornais foi tema de debate na sexta-feira (31), na sede do Barão de Itararé, em São Paulo. De acordo com o senador Roberto Requião (PMDB-PR), não adianta os grandes meios de comunicação contrariarem os indicadores para fingir que as promessas de melhoras na economia, que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff, deram algum resultado. Pelo contrário, a despeito de manchetes espalhafatosas e esperançosas, "a realidade entra pelas portas e janelas de nossas casas", afirmou.

Segundo Requião, o programa do governo de Michel Temer baseia-se na regressão e caminha para atirar o país de volta à economia agro-industrial, de produção de commodities. "A Ponte Para o Futuro é uma agenda de funcionários de bancos que se dizem economistas. Acaba com a soberania social e o Estado social", critica. "A história", acrescenta o senador, "mostra que não dá pra enfrentar recessão só com a cartilha dos bancos e do rentismo".

O governo Temer, na avaliação de Requião, está fazendo tudo errado. "Congelar investimentos e retirar direitos não é o caminho. É loucura". Ao contrário do que tenta argumentar a maioria dos comentaristas econômicos da mídia monopolista, o senador não concorda com a tese de que o setor vem melhorando. "Os indicadores não apontam rigorosamente nenhum sinal de recuperação da economia". Até por isso, opina, a rejeição a Temer atinge níveis altíssimos em pesquisas recentes. "Há alguma coisa no ar além dos aviões de carreira", sugere.

Terrorismo midiático, um velho expediente

Professora da Universidade de São Paulo e ex-Secretária Municipal de Planejamento da cidade de São Paulo, Leda Paulani criticou o método do terrorismo econômico empregado pela mídia para atingir seus objetivos. De acordo com ela, desde a primeira eleição de Lula, em 2002, os meios de comunicação passaram a atuar como ferramenta de pressão. "O projeto dos donos da mídia era claro: derrotar Lula. Por isso, o discurso empregado foi de que a economia se desfazia como manteiga e de que estaríamos a poucos passos do abismo. No caso de Lula vencer, porém, o ambiente criado ajudaria a forçar o presidente a adotar uma agenda conservadora, da política macro-econômica. Foi o que aconteceu", diz.

Apesar disso, ela destaca: "Políticas sociais, somadas a uma política externa ativa e altiva, diferenciou os governos dos últimos 13 anos. Nunca houve boa vontade com um governo liderado por um operário. Mas tentaram cassar esse 'alvará' desde 2005, no caso da cobertura da ação penal 470 [o chamado mensalão]".

Em 2014, Paulani explica que a economia sofre abalos do impacto da crise mundial e o modelo adotado pelos governos Lula e Dilma, baseados no consumo interno, começou a se esgotar "Um crescimento puxado apenas pelo consumo, e baseado no crédito, tem pouca autonomia", frisa a economista. Com esse cenário, em 2014 os setores conservadores e a grande mídia 'deram de barato' que venceriam as eleições, mas perderam novamente. "A partir daí, o terrorismo econômico da mídia se intensifica", pontua. O final desse filme é o impeachment, sem crime de responsabilidade por parte de Dilma Rousseff, alçando ao poder um governo que, até a data do debate, contou com nove ministros com graves acusações de corrupção.

"A batalha travada pelas mídias alternativas é fundamental justamente porque enfrentam gigantes", exalta Paulani. "A desonestidade desta mídia hegemônica é preocupante. Mesmo conservadora, a imprensa internacional não é mentirosa e descarada como a daqui".

Golpe na indústria nacional

O desmonte da indústria nacional também foi abordado no debate. Para Murilo Pinheiro, presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo e da Federação Nacional dos Engenheiros, a situação do setor de engenharia e construção civil no país é quase que de calamidade. "Para cada empresa grande, há cerca de 50 a 100 empresas menores que são afetadas pela crise", enumera.

Pinheiro calcula na casa dos 50 mil o número de desempregados na área. "Depois da Lava Jato, da discussão da Petrobras, as empresas de engenharia que exportavam tecnologia, trabalhavam em muitos países, praticamente acabaram. A corrupção tem que ser punida, não as empresas”, salienta, em tom crítico ao modus operandi da Operação Lava Jato.

Assim como Requião, que classificou a reforma previdenciária como a entrega da Seguridade Social à banca privatista nacional e internacional, Pinheiro também alerta para os danos que o ataque à aposentadoria e a reforma trabalhista devem causar. "Terceirização e as reformas trabalhista e da Previdência devem agravar ainda mais a crise não só para os engenheiros, mas para todas as categorias de trabalhadores".

Diretor da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Mario Bernardini opina que, assim como no tema das reformas, a mídia teve papel fundamental também para a destituição de Dilma Rousseff. "Nosso país, até o ano passado, tinha uma série de problemas não resolvidos. Os meios de comunicação focaram apenas nas contas públicas e na corrupção. O fato de que a economia não ia bem e o país não crescia criou um ambiente propício para a ideia da mudança de governo", diz.

O que houve, porém, não foi apenas a troca de governo, mas a troca de um grupo de poder. "Dois setores saíram extremamente empoderados a partir do impeachment: o Judiciário e os banqueiros". Para ele, essa 'turma' vem causando sérios estragos. A forma como a Lava Jato investiga e pune as empreiteiras, por exemplo, já reduziu cerca de 300 mil empregos, aponta Bernardini.

Assista à íntegra do debate[aqui]:
Posted: 03 Apr 2017 02:48 PM PDT
Por Eduardo Maretti, na Rede Brasil Atual:

O julgamento do presidente Michel Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), previsto para começar na próxima terça-feira (4), ocorre num momento de ventos desfavoráveis. Sua popularidade está baixíssima e em queda. As duras críticas do líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), ao governo, nos últimos dias, indicam que até mesmo correligionários do presidente começam a se preocupar mais com as eleições de 2018 do que com a salvação do próprio governo. E as manifestações contra Temer aumentam.

Isso tudo pode influenciar um julgamento do TSE que casse a chapa de Dilma Rousseff e Michel Temer, considerando que, apesar da roupagem jurídica, ele tem um caráter eminentemente político?

“Do ponto de vista da opinião pública, Temer está muito mal. E também no próprio parlamento”, avalia o analista político Antônio Augusto de Queiroz, diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Ele lembra que o Congresso vem demonstrando ao governo que o apoio no Legislativo pode ser mais volátil do que se imagina, o que ficou registrado na votação da terceirização, aprovada na Câmara por bem menos votos do que Temer esperava (231 a 188).

Na quarta-feira, o governo foi derrotado na votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 395, que instituía a cobrança de mensalidades em universidades públicas para os cursos de pós-graduação lato sensu. A PEC teve 304 votos a favor e 139 contra. Para ser aprovado, o texto precisava de 308 votos, assim como a reforma da Previdência.

E para acrescentar mais um revés ao momento de inferno astral de Temer, Renan Calheiros (PMDB-AL), já de olho nas eleições de 2018 e consciente da impopularidade do presidente, publicou na quinta-feira (30), nas redes sociais, um vídeo com ácidas críticas a políticas do governo. "Corte de investimento público, reoneração da folha, aumento de imposto, terceirização geral, tudo isso junto só vai drenar as energias de uma economia que não consegue se levantar”, disse o líder do PMDB no Senado.

“Tudo isso são sinais claros de enfraquecimento e rejeição do governo. Mas quanto mais impopular ele fica, mais esforço faz para agradar o mercado e apresentar mais coisas em favor dele, para ser sustentado”, diz Queiroz. O analista entende que, se o julgamento do TSE fosse hoje, muito provavelmente Temer seria derrotado.

Mas o peemedebista tem estratégias protelatórias para ganhar tempo. “Acredito que vai ter pedido de vista no julgamento, para adiar e permitir que sejam trocados os dois ministros no TSE, alterando a correlação de forças no tribunal”, diz Queiroz. Dois dos ministros da corte vão terminar os mandatos em breve: Henrique Neves, em 16 de abril, e Luciana Lóssio, em 5 de maio. Os novos ministros, ambos substitutos no tribunal, serão indicados por Temer: Admar Gonzaga ficará no lugar de Neves. Para a vaga de Luciana, o indicado deve ser Tarcísio Vieira de Carvalho Neto.
Votos e variáveis

Os ainda titulares Luciana e Neves podem antecipar seus votos antes de deixar o tribunal. Seus votos são atualmente contabilizados como contrários a Temer, a favor, portanto, da cassação da chapa, o que poria ponto final no mandato de Temer.

Embora sigiloso, o posicionamento de Herman Benjamin, relator da ação, ironicamente proposta pelo PSDB, também é esperado a favor da cassação. Como o TSE tem sete ministros, nessas circunstâncias Temer já teria contra si três votos, faltando apenas um para ser derrotado. Os outros membros são Gilmar Mendes (presidente), Luiz Fux, Rosa Weber e Napoleão Nunes Maia Filho. Cabe ao presidente colocar o julgamento na pauta de votação.

Para a professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FespSP) Jacqueline Quaresemin, a análise do tema é complexa e envolve muitas variáveis. “Por que uma pesquisa de avaliação do governo (CBI/Ibope) é divulgada no mesmo dia de mobilizações de diversas categorias e movimentos sociais contrários às políticas e reformas propostas pelo governo?”, questiona.

“Seria uma pressão dos setores empresariais, apoiados por grandes veículos de comunicação, devido às propostas anunciadas esta semana pelo ministro Henrique Meirelles?” A possibilidade de aumentar impostos, levantada pelo ministro da Fazenda nas últimas semanas, para cumprir a meta fiscal, desagradou os empresários.

Para Jacqueline, “os baixos índices de aprovação e confiança do governo Temer não garantem sua cassação”. Isso porque, em sua avaliação, entre outros motivos, ele ainda mantém apoios importantes numa correlação de forças envolvendo setores da grande mídia, empresários e partidos políticos.
Conjecturas

Supondo que a chapa seja cassada e Temer perca o mandato, quem poderia ser eleito indiretamente no Congresso? Para o analista do Diap, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, seria candidato cotado, pois é “o mais identificado com o mercado”, atualmente, nas hostes dos organizadores do impeachment de Dilma. “Ele se elegeu presidente da Câmara muito facilmente”, diz Queiroz.

As informações dão conta de que Fernando Henrique Cardoso não está disposto a assumir a tarefa. O ex-ministro da Defesa Nelson Jobim também não. Gilmar Mendes teria dificuldade para ter votos no parlamento, na avaliação do cientista político. Além disso, tanto ele como Cármen Lúcia, a presidenta do Supremo Tribunal Federal, ambos cogitados, precisariam se filiar a um partido e obedecer o período de seis meses de filiação para concorrer.

No início do mês, o cientista político Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília, disse à RBA considerar Rodrigo Maia um nome fraco para postular a liderança do país. “Do ponto de vista popular, ele teria muita dificuldade”, disse. Para Barreto, hoje, “existe mais risco de se eleger uma tutela do Judiciário do que do Congresso.”

Mas Queiroz, do Diap, entende que Maia pode, sim, vir a ser o nome. “Quem vai eleger será o Congresso. Ele é fraco mas teve mais de 300 votos para presidente da Câmara. Não precisa ser uma grande liderança, precisa é ter compromisso com a agenda do mercado e ter capacidade de implementar na instância que delibera isso, que é o Congresso Nacional.”
Posted: 03 Apr 2017 02:35 PM PDT
Por Tomás Chiaverini, no site The Intercept-Brasil:

O processo de cassação da chapa Dilma-Temer, que começará a ser julgado nesta terça-feira, dia 4, para quem não lembra, foi iniciado em 2014, com uma birra do PSDB que, diante da derrota na corrida presidencial, em vez de sentar e chorar como qualquer menino mimado de respeito, resolveu tentar melar o jogo na Justiça.

Vivíamos, então, uma época de pureza e inocência, na qual ninguém sonhava com um Eduardo Cunha na presidência da Câmara e o impeachment não passava de uma ideia disparatada, oculta sob os cabelos metaleiros da desconhecida Janaína Pascoal. Então os tucanos apelaram para o que tinham à mão: acusaram a chapa adversária de, entre outros malfeitos, usar recursos não contabilizados para pagar contas de campanha. A ideia, ao que tudo indica, era usar o tapetão para que Aécio Neves, na condição de segundo mais votado, fosse alçado à Presidência. O processo era um tiro no escuro e tinha poucas chances de dar resultados, já que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nunca tinha julgado um processo contra um presidente eleito.

Mas eis que o impeachment tornou-se real e a coisa parecia estar resolvida. Dilma era carta fora do baralho, o PT sangrava, o PSDB se aninhava no colinho do Conde Temer, os patos eram desinflados e as almas palacianas suspiravam aliviadas com os sinais de retorno à normalidade. A sanha justiceira arrefecia.

Políticos acusados de corrupção voltavam a ocupar cargos-chave da República sem maiores infortúnios, e o caixa dois finalmente recebia sua merecida redenção pública. O bastião social-democrata Fernando Henrique Cardoso relativizou a prática, Marcelo Odebrecht atestou a impossibilidade de qualquer político ser eleito sem um empurrãozinho por fora, e o ministro do Supremo Gilmar Mendes decretou que caixa dois nem sempre é corrupção.

Desafortunadamente, essa visão mais, digamos, conciliadora, não pareceu contaminar o relator do processo no TSE, ministro Herman Benjamin. Até então pouca gente sabia da existência do magistrado paraibano e teve até leitor se perguntando o que aquela foto do Elton John estava fazendo nas páginas de política.

Mas o fato é que o homem levou a sério essa história de julgar presidente. Tomou a ação – que antes havia permanecido um ano no colo de sua antecessora, Maria Thereza de Assis Moura sem grandes avanços – como o processo de sua vida, e foi se meter a ouvir testemunhas. Foram mais de 50. Entre elas, claro, estava o povo das empreiteiras.
Em outras palavras, Dilma sabia do caixa dois porque… bem… porque sabia. Tinha que saber. Já Temer, não fazia ideia.

Nessa altura da tragicomédia, a bizarrice mais saborosa talvez tenha sido o depoimento de Marcelo Odebrecht. Nele, o empreiteiro disse que a sua empresa doou R$ 150 milhões à campanha vitoriosa, e que Dilma sabia dos pagamentos de caixa dois enquanto as eleições ainda estavam em curso. Quando os interrogadores pediram detalhes sobre o nível de conhecimento da presidente deposta, o empresário ofereceu a cristalina resposta a seguir:

“O que… o que Dilma sabia… o que Dilma sabia era que a gente fazia, tinha uma contribuição grande – a dimensão da nossa contribuição era grande, ela sabia disso – e ela sabia que a gente era responsável por muitos pagamentos para João Santana. Ela nunca me disse que ela sabia que era caixa dois, mas é natural, é só fazer uma… ela sabia que toda aquela dimensão de pagamentos não estava na prestação do partido.”

No mesmo depoimento, Odebrecht tratou de limpar a barra do Conde Temer. Contou que foi a um jantar no palácio do Jaburu no qual se combinou um repasse de R$ 10 milhões por baixo do pano. Mas garantiu que o então vice-presidente se levantara da mesa antes de o trabalho sujo começar. Em outras palavras, Dilma sabia do caixa dois porque… bem… porque sabia. Tinha que saber. Já Temer, não fazia ideia.

Vejam, o então vice-presidente da república recebeu, em sua residência, o dono da empresa que elevou o conceito de propina a um nível de profissionalismo jamais visto na história enlameada da pátria, com direito a um “setor de operações estruturadas” só pra distribuir recursos ilícitos.

Marcelo Odebrecht estava acompanhado de ninguém menos do que Claudio Melo Filho, que, para quem não se lembra, era o principal encarregado de comprar políticos e foi o responsável pela famosa delação premiada que trouxe à luz apelidos como Todo Feio, Boca Mole, Santo, Siri, e tantos outros.

Temer, por sua vez, estava ladeado por Eliseu Padilha, homem de sua total confiança, que, a despeito das acusações de corrupção que ainda pairam sobre sua calva incipiente, hoje ocupa o cargo de ministro-chefe da Casa Civil. Atenção. O sujeito ocupa o segundo cargo mais importante do Executivo.

Pois, essa gente boa estava toda reunida para um jantar descompromissado, no qual talvez tenha se falado do preço do cimento, do talento de Michelzinho para as artes e do assado Friboi habilmente preparado pela bela e recatada Dona Marcela. Eis que, em dado momento da noite, Conde Temer teria recebido uma iluminação divina (quiçá diabólica) e resolvido que era hora de se retirar. Só então a mutreta finalmente teria sido acordada entre os empreiteiros e Eliseu Padilha – o atual ministro-chefe da Casa Civil, não custa repetir.
A coisa pode parecer um pouco estranha, mas fez sentido para muita gente. O PSDB, por exemplo, achou tudo muito convincente. Na segunda-feira passada (27), o partido entregou ao TSE um relatório com as alegações finais sobre o processo, cria ingrata que agora lhe ameaça comer os olhos.

Nele, disse mais ou menos o mesmo que Marcelo Odebrecht: “Ao cabo da instrução destes processos não se constatou em nenhum momento o envolvimento do segundo representado em qualquer prática ilícita. Já em relação à primeira representada, há comprovação cabal de sua responsabilidade pelos abusos ocorridos”.

A defesa de Temer também parece achar convincente a tese de que Dilma sabia de tudo enquanto o Conde era uma espécie de donzela no bordel. Tanto que, entre outras providências, pediu que as contas de cada campanha fossem julgadas separadamente.

Ao que tudo indica, até mesmo Herman Benjamin comprou a ideia, ao menos em parte. Ele deve votar pela cassação da chapa como um todo, mas pela manutenção dos direitos políticos de Dilma e de Temer.

Porque, segundo o que ministros que tiveram acesso ao relatório têm dito à imprensa, as mais de mil páginas do documento de Benjamin evidenciam que houve uma série de irregularidades na campanha. Mas, ao mesmo tempo, não trazem provas “cabais” de que Dilma ou Temer estavam cientes das falcatruas enquanto elas estavam acontecendo.

Por lei, para serem punidos com a cassação da chapa, os candidatos não precisam saber que atos ilícitos ocorriam. O simples fato de se beneficiarem deles, já implica na chamada “responsabilidade objetiva”, prevista no artigo 37 da Constituição. Já para que sejam retirados os direitos políticos, é preciso se provar que eles tinham conhecimento dos desvios durante a campanha.

A lógica por trás dessa decisão fica mais clara se usarmos o exemplo de uma temporada de Formula 1. Suponhamos que nela, uma determinada equipe de engenheiros use matérias mais leves do que o permitido e o piloto, sem saber da fraude, ganhe o campeonato. Seria justo tirar o título dele, porque foi conquistado com vantagens indevidas. Mas, uma vez que ele não sabia do esquema, seria injusto impedi-lo de disputar as temporadas seguintes.

Resta saber se levantar da mesa para não escutar detalhes das sujeiras é o equivalente legal a não ter conhecimento de que há sujeiras ali. E se depoimento de corruptor pode ou não ser considerado “prova cabal”. Além disso, claro, seria necessário encontrar uma chapa que tenha concorrido sem lançar mão da vantagem indevida do caixa dois, o que, convenhamos, não soa como a mais simples das tarefas.
A protelação permitiria que a formação do TSE fosse alterada em favor do Planalto.

Mas, enfim, suponhamos que assim seja. O primeiro voto, do relator, é pela cassação, com manutenção de direitos políticos. O que isso significa na prática? Bem, provavelmente nada.

Temer, além de tirar a gravata para se aproximar do povo, deve usar outro truque bastante eficiente no arcabouço das malandragens políticas: ganhar tempo. O jeito mais simples de conseguir isso é através dos pedidos de vistas, em que juízes do colegiado solicitam a interrupção do julgamento para examinar melhor o processo antes de votar.

A protelação permitiria que a formação do TSE fosse alterada em favor do Planalto. Sem quadro fixo, o tribunal, que a cada dois anos julga as campanhas políticas, é composto de sete juízes. Três do Supremo, dois do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e dois advogados, nomeados pelo presidente. Em breve, um par de cadeiras deve ganhar novos titulares. A primeira em 16 de abril, a segunda em 5 de maio. E quem indicará os novos ministros? Temer, é claro.

Na quinta-feira (30), ele escolheu o primeiro dos dois novos ministros. Admar Gonzaga, um advogado ligado ao DEM e ao PP, que se apressou em dizer que não tem rabo preso com o presidente – e claro que todo mundo acreditou.

Mas por fim, para além das indicações e manobras, se o TSE julgar o processo com celeridade e cassar Michel Temer, ele deve recorrer ao Supremo e esperar que a querela se arraste até 2018. As chances não são das piores: “a gente não sabe quantos incidentes vamos ter”, já se apressou em profetizar Gilmar Mendes o onipresente magistrado que preside o TSE.

Ah, mas o julgamento será um duro golpe na popularidade do governo, dizem certos analistas. Sério? Temer tem 10% de aprovação popular, está cercado de nomes suspeitos de corrupção, assinou as mesmas pedaladas fiscais que serviram de pretexto para derrubar Dilma, comete gafes trumpianas, propõe as reformas mais impopulares da história e continua lá. Por quê? Bem, talvez porque nosso vampiresco presidente tenha outro belo trunfo sob as abotoaduras douradas: para muita gente, ele representa simplesmente o menor dos males.

Eis, portanto, o bombástico final da narrativa: Michel Temer está se tornando o menor dos males. Seria um quadro de insanidade coletiva? Antes de berramos siiimmm e saírmos correndo pelados pelas ruas do bairro, vale uma última reflexão.

Não há clareza sobre o que aconteceria se a Presidência ficasse vaga na segunda metade da legislatura. O artigo 81 da Constituição Federal diz que deve haver uma eleição indireta, conduzida pelo Congresso. Mas não há lei que regulamente esse artigo. Não foi definido nem quais pré-requisitos deve ter um postulante à Presidência nessa situação.

Nem vamos pensar em Bolsonaros, mas o falador Gilmar Mendes, por exemplo, poderia muito bem se candidatar. E ser eleito. E governar, com toda a convicção de que caixa dois e corrupção são coisas diferentes. Seria melhor ou pior que Temer?

Pronto. Agora podemos sair correndo pelados pelo bairro.
Posted: 03 Apr 2017 02:26 PM PDT
Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

O esforço de Michel Temer e seus aliados para impedir o avanço do julgamento no TSE se explica por um cálculo evidente. Em posição insustentável, a cassação dos direitos políticos de Temer abre o debate sobre a escolha do novo presidente, aquele que irá governar o país até 2018.

Em condições normais, não haveria o que discutir fora da regra constitucional, que determina a escolha pelo Congresso, em voto indireto, no prazo de 90 dias.

Mas o país não vive um período de normalidade desde o afastamento de Dilma sem crime de responsabilidade configurado. Desde o 15 de março de 2017, os brasileiros e brasileiras demonstraram, na rua, que estão mobilizados para defender seus direitos.

Apresenta-se, então, a situação que os aliados de Temer temem, mas que a população deseja com clareza e simplicidade: a brecha política que pode abrir caminho para um movimento por diretas agora, contra um golpe dentro do golpe.

É esta a possibilidade aberta pelo julgamento no TSE.

Caso o julgamento determine o afastamento de Temer, será o início do desmonte da articulação que produziu o golpe parlamentar e, sem consultar ninguém a não ser seus próprios patrões ideológicos, deu início a uma ofensiva contra direitos e conquistas que a maioria condena sem rodeios.

A coalizão golpista, que já perdeu vários alicerces desde a posse, estará esfrangalhada -- antes que o novo presidente venha ser escolhido.

Cientes do risco a ser enfrentado quando o povo se coloca na rua -- é bom não esquecer da greve geral marcada para 28 de abril, numa mobilização que está longe dos protestos importantes, mas sem maiores consequências políticas, de nosso passado -- os aliados de Temer tudo farão para embaralhar o julgamento, atrasar uma decisão e ganhar tempo. O esforço será concentrado nos pedidos de vista, destinados a fugir da discussão e evitar um debate sobre o mérito das denúncias contra Temer.

É sua maior esperança - mesmo assim, um esforço precário, que irá corroer a credibilidade que Temer ainda desfruta junto a seus aliados mais fiéis, socialmente insignificantes, mas poderosos do ponto de vista econômico e político.

A manobra infantil de tentar separar a chapa, iniciativa escabrosa, quando se recorda a jurisprudência firmada em casos semelhantes, confirmada na ação que pediu a impugnação da chapa Dilma-Temer em dezembro de 2014 e a posse de Aécio Neves, perde credibilidade mesmo entre aliados do governo na mídia amiga. Compreende-se.

Depois de denunciar "doações feitas em decorrência de benesses ou de abstenção de criar entraves por parte dos agentes da empresa estatal," o advogado do PSDB, Eduardo Alckmin, escreveu que a "eleição presidencial de 2014, das mais acirradas de todos os tempos, revelou-se manchada de forma indelével pelo abuso de poder, tanto político quanto econômico, praticado em proveito de Dilma e Michel." Está lá, para não haver dúvidas -- que também foram dissipadas pelos depoimentos e delações recentes.

A mesma corte que encaminha a convicção para condenar Dilma - como se todos as acusações estivessem comprovadas acima de qualquer dúvida - não pode alterar suas convicções e mudar de caminho no caso de Temer. Recorde seletivo, nem o mensalão PSDB-MG chegou a tamanho disparate.

Apenas profissionais cotidianamente empenhados em procurar opções favoráveis a Temer conseguem cogitar uma acrobacia especial. Ser cassado no TSE, preservar os direitos políticos - como aconteceu com Dilma no Senado - e ele poderia ser eleito como presidente pelo Congresso. Fácil de imaginar, difícil de fazer - em qualquer circunstância. Ainda mais com o povo na rua e reprovação recorde. Imagine o que iria acontecer no país.
Posted: 03 Apr 2017 02:21 PM PDT
Por Jaime Sautchuk, no site Vermelho:

O jornal Folha de S.Paulo, apontado como o maior do País, está realizando nova reforma editorial e divulgou no final de março um projeto destinado a informar seu público sobre sua proposta. Não tem grandes novidades, mas propõe um jornalismo bem diferente daquele que pratica.

Este é um dos principais veículos do que costumamos chamar de “grande mídia impressa brasileira”, que apoiou o golpe de estado que foi o impeachment da presidente Dilma Rousseff, democraticamente eleita. Participou, portanto, de um dos momentos mais vergonhosos da história da imprensa tupiniquim.

A Folha circula em papel, mas usa também a plataforma virtual, acessada só por assinantes. Segundo o IVC (Instituto Verificador de Circulação), em fevereiro deste ano teve uma tiragem média diária de 341,5 mil exemplares, dos quais 117,7 mil via Internet. O segundo colocado foi OGlobo, com 311,5 mil exemplares, 93,2 mil dos quais na versão virtual.

As mudanças que o jornal pretende fazer agora são também no seu design gráfico, como tipologia e disposição de matérias e ilustrações, mas se atém mais ao conteúdo. O projeto foi apresentado aos leitores num formato longo, um catatau só lido por interessados no tema, mas disponibilizou também uma lista de 12 itens que considera mais importantes, de fácil leitura.

Abriu de igual modo uma espécie de debate sobre o projeto, divulgando artigos e opiniões de pessoas convidadas. Há, nesse material, opiniões diversas, embora todas convergentes, visivelmente favoráveis a um veículo de comunicação que seja porta-voz das elites que estabeleceram o atual regime político e econômico que vem sendo imposto aos brasileiros.

Isto, embora diga em sua proposta que o jornal deve “manter atitude apartidária, desatrelada de governos, oposições, doutrinas, conglomerados econômicos e grupos de pressão”. Entra, contudo, em contradição em vários momentos, em especial quando fala do “vigor financeiro da empresa”.
Mas, já no primeiro ponto eu aborda, o projeto assegura que o jornal deve “confirmar a veracidade de toda notícia antes de publicá-la”, coisa que sabidamente não faz. O que seus editores perguntam, em verdade, é se os fatos são contra ou favor suas posições políticas e ideológicas.

O projeto afirma, ainda, que a Folha irá “obrigar-se a ponderar os argumentos da parte acusada e, publicando uma acusação, garantir espaço ao contraditório”. E assegura que publicará “com visibilidade compatível pontos de vista diversos implicados em toda questão controvertida ou inconclusa”.

Só se for daqui pra frente, pois esta não é a pratica que temos visto neste jornal há anos e anos a fio. Especialmente após o início da tal Operação Lava Jato e do processo de impeachment de uma chefe de estado contra quem nunca se conseguiu provar um detalhe que fosse das mentiras publicadas. Sempre sem desmentidos.

Enfim, apesar de um novo projeto editorial, a Folha de S.Paulo continuará a mesma. Vale a pena continuar lendo pra quem, como eu, a tem como a principal porta-voz das elites paulistas.
Posted: 03 Apr 2017 02:15 PM PDT
Por Cynara Menezes, no blog Socialista Morena:

O “presidente” Michel Temer, ansioso para aprovar a terceirização sem limites antes que o Supremo Tribunal Federal pudesse opinar sobre os dois mandados de segurança impetrados pelo PT e pela Rede, sancionou a lei do jeito que veio da Câmara, sem nenhuma modificação que pudesse proteger os trabalhadores. A sanção foi divulgada na noite de sexta-feira, quando já não havia atividade legislativa ou dos tribunais em Brasília.

Está comprovado que a terceirização precariza as relações de trabalho e atende apenas a empresários gananciosos e inescrupulosos que pretendem lucrar mais pagando menos. O bando que está no poder quis agradar aos patrões desenterrando um projeto de 1998, do governo Fernando Henrique Cardoso, notório por não dar a mínima para a vida do trabalhador. Um governo marcado pela miséria e pelo desemprego.

Mas, se você é um dos ingênuos que acreditou na falácia da direita de que terceirizar será melhor, deixo aqui uma lista de promessas para que cobre de si mesmo quando elas não forem cumpridas. Imprima e guarde este post. Em seis meses a gente volta a conversar: se eu estiver errada, me cobre. Se não, só lamento por você e por todos nós.
1. A terceirização vai gerar empregos

2. A terceirização não vai afetar os direitos trabalhistas

3. A terceirização vai fazer você ganhar mais

4. A terceirização não vai precarizar as relações de trabalho

5. O trabalhador será mais valorizado pela empresa com a terceirização

6. A terceirização não vai empobrecer você e sua família

7. A terceirização vai garantir seu emprego pelos próximos anos

8. A terceirização é tão boa para o trabalhador quanto para o patrão

9. Rasgar a CLT é melhor para o trabalhador, porque vai tirar três férias por ano e o fim do FGTS vai virar aumento salarial

10. A terceirização vai fazer sua vida melhorar
Posted: 03 Apr 2017 02:07 PM PDT
Por Aldo Fornazieri, no Jornal GGN:

O prefeito Dória é um político esperto, inteligente, flexível, tem método, tem estratégia e sabe o que quer e como quer chegar. Ao contrário da maioria esmagadora dos políticos brasileiros sabe jogar com a lógica do poder e usa os instrumentos de psicologia nas suas relações pessoais e com a sociedade. Por tudo isso, Dória é um político perigoso pelo potencial que ele tem de alcançar distâncias consideráveis no seu projeto de poder. Nada disso seria recriminável se Dória fosse um político autêntico, um democrata compromissado. Mas o fato é que ele não o é e sequer é um liberal, algo que aqui no Brasil nunca existiu.

Dória, como se sabe, reza pelos piores manuais da enganação, da manipulação e do charlatanismo (Robert Greene). A cartilha que o prefeito segue, cita e admira é a cartilha da vigarice. Por isso, ele é perigoso. Quer o poder pelo poder, pelo brilho que o poder oferece e pelas suas benesses, evidentemente. A personalidade de Dória é a condensação pura da vaidade. Para usar a linguagem weberiana, em Dória não há causa a realizar, não há propósito, não há senso de proporção, não há distanciamento crítico e nem existem as mediações necessárias entre o essencial e o aparente. Tudo é jogo de aparência, dissimulação, ardil.

O manual de Dória é o do antimaquiavelismo. Não se trata do Príncipe virtuoso e prudente que, pela sua coragem e dedicação à causa, age para governar bem os governados, quer realizar as grandes obras físicas e morais, quer dar o exemplo para construir a grandeza da cidade e alcançar a glória nos tempos. Dória é o antípoda de Moisés, de Ciro, de Teseu e de Rômulo, heróis de Maquiavel. O prefeito faz um tipo mais próximo de um Agátocles o Siciliano e de um Oliverotto de Fermo. Parafraseando Maquiavel, não se pode reputar como virtude a manipulação, a propaganda enganosa, a mentira e o charlatanismo. Tal modo de agir pode levar à conquista do poder, mas não à glória.

A compulsão autoritária de Dória

Seria um erro, contudo, reduzir Dória aos tipos consagrados da cartilha pela qual reza. Pela sua inteligência, astúcia e ambição, ele é bem mais perigoso do que os escroques que querem simplesmente se dar bem enganando os outros. Como prefeito, Dória age pelo descomedimento, pela destemperança e pela provocação. Tudo indica que é um jogo calculado, mas é um jogo que pode provocar consequências nefastas.

Dória age como se fosse dono da cidade. Foi assim com as pichações e com o grafite. Cercado de seguranças, parte para cima dos seus críticos em vários eventos. Quer expulsá-los para Curitiba. Semeia os ventos da fúria persecutória que é secundada pelos seus camisas amarelas, uma espécie de Camisas Pretas (Mussolini) do facebook e das redes sociais que o mitificam e pregam o ódio e a violência como meios de imposição política. Não respeita nem FHC e menos ainda Lula. Entregou o primeiro para que fosse destroçado pela milícia verde-amarela. Ataca Lula com violência verbal diária incitando a violência física dos seus seguidores.

A violência verbal e os enfrentamentos que Dória promove não se coadunam com o cargo de prefeito. Pelo contrário, retiram-lhe a dignidade e a autoridade que o cargo de um governante sempre deve ter. Dória vem se transformando, de forma recorrente, em um provocador, um arruaceiro político. Calculadamente ou não, o fato é que o prefeito vai assumindo dimensões de um desequilibrado, seja pela violência verbal que pratica e pela violência física que incita, seja pela espalhafatosa exposição propagandística a que se expõe até aos exageros da saciedade. Um governante não pode apresentar-se como chefe de uma facção. Deve ser o ponto de unidade dos governados, conduzindo-se pelo equilíbrio e pela prudência.

Ao semear tantos ventos poderá, por um lado, colher dolorosas tormentas e, por outro, o espalhafato poderá identificá-lo mais com um ator circense do que com um prefeito realmente dedicado a buscar soluções aos duros problemas de São Paulo. A Cidade Linda, até agora, é uma propaganda enganosa. Nos últimos anos a cidade nunca esteve tão esburacada como está agora e nunca existiram tantos semáforos queimados com tanto tempo para serem concertados. Seria risível se não fosse trágico sugerir que o Corujão solucionou os problemas de saúde da cidade, que passam por uma de suas piores crises. Por outro lado, cultura e programas sociais sofrem o mesmo desmantelamento que o governo golpista está promovendo no plano nacional.

Se os riscos políticos e o mal que Dória representa se restringissem à cidade de São Paulo, o desassossego com a sua figura seria circunscrito e até suportável. O problema é que as circunstâncias e a Deusa Fortuna parece que se enamoraram do alcaide paulistano: podem torná-lo candidato a presidente da República, mesmo que ele não queira - embora tenha feito o jogo para querer, ao menos até agora. Os imponderáveis da crise política e da Lava Jato podem destruir as pretensões presidenciais dos outros líderes tucanos.

Um novo tipo de líder de direita

Quando se diz que Dória representa uma potência do mal não se trata de um mero artifício retórico. Ocorre que, de fato, ele é um novo tipo de líder político, mas que tem fortes reminiscências nos líderes autoritários do passado. O prefeito se dirige diretamente às massas, na rua e nas redes sociais, e busca construir uma identidade com elas, dissolvendo as mediações necessárias que as instituições democráticas e representativas exigem. Prescinde até mesmo do PSDB. Essa identidade, à medida que se constrói com os recursos da violência verbal e do ódio, pode prescindir também das mediações da lei, da ordem e dos outros recursos do sistema político e tornar-se imposição de força e de violência física numa conjuntura que caminha cada vez mais para a polarização.

A novidade singular que Dória representa surge num momento que lhe foi muito oportuno e que ele soube aproveitar. O sistema político brasileiro está destroçado, cheio de escombros e de cadáveres políticos. A crise de legitimidade que devasta instituições, partidos e líderes é imensa. A sociedade vê corruptos por todos os lados. Num ambiente como este, nada mais oportuno do que apresentar-se como antipolítico, como empresário rico, honesto e empreendedor, mesmo que parte dessa riqueza tenha sido amealhada com recursos do Estado e com a parvoíce de outros empresários.

Nesse cenário de devastação, onde políticos e partidos se caçaram, brigaram, se denunciaram e se mataram, o mentor de Dória recomenda que a conduta mais adequada seja a da hiena ou a do abutre. Ou seja: os outros animais (políticos) trabalharam para que o cenário propício a Dória (e no limite, a Bolsonaro), surgisse sem que ele fizesse nenhum esforço. Ele simplesmente se aproveitará deste ambiente putrefato proporcionado pelos outros.

Qual é o principal problema de Dória? Como um falso brilhante, ele não é nenhum líder autêntico, entranhado e enraizado na vida e nas lutas sociais do povo. Surgiu repentinamente, quer o poder pelo poder e se promove pela propaganda. As massas sentem um fascínio por ele, pela sua inteligência, pela sua esperteza. Consegue enganar ao mesmo tempo a elite branca dos Jardins e a periferia. Quer promover uma aliança entre ambas. A propaganda, contudo, não resolve os problemas da vida. Sem substância real e conteúdo político e social, a liderança de Dória pode se esfumar de forma tão repentina quanto a rapidez do seu sucesso.

Mas existe um perigo em tudo isso. Dória não é um Collor, um Aécio ou um Serra. É bem mais astuto e preparado do que todos eles. Percebeu que a substância do seu sucesso não está nele, mas fora dele, na sociedade cindida, desencantada, desiludida. Acena para essa sociedade com a possibilidade do sucesso, pois ele se apresenta como a encarnação do sucesso. Numa sociedade que precisa desesperadamente de esperança, Dória poderá se tornar a fúria de sua busca arrastando massas atrás de si, mesmo que isto implique graus variados de violência e uma destruição ainda maior da democracia e dos direitos.
Posted: 03 Apr 2017 02:02 PM PDT
Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:

Andrea Neves, irmã do senador e presidente do PSDB, gravou, às lágrimas, um vídeo [assista aqui] para o Youtube, dizendo que são mentiras as denúncias veiculadas pela revista Veja, de que a construtora Odebrecht fez depósitos para Aécio, numa conta de Nova York controlada por ela, segundo a delação de um dos dirigentes da empresa.

Nele, Andrea se pergunta “por que tanto ódio” em relação a ela e ao irmão.

Não posso, obvio, explicar se houve o depósito de milhões no exterior.

Mas talvez ela possa pedir explicações para seu próprio irmão, que inaugurou este clima na disputa, ao não se conformar com a derrota e disse que tinha perdido a disputa eleitoral para “uma organização criminosa”, logo após as urnas falarem.

Pode perguntar-lhe porque despejou, na TV e nas redes sociais, tantas acusações e xingamentos a Dilma e ao ex-presidente.

Quem sabe indagar dele porque sorria e cochichava com Sérgio Moro.

Talvez obtivesse algumas pistas sobre quem inaugurou este clima de desequilíbrio e denuncismo que, agora, a atinge em cheio.

Assim poderia nos livrar a todos do constrangimento de ter de assisti-la chorar dizendo querer falar olhando nos olhos da sua mãe e de sua filha, o que pode fazer, é óbvio, sem usar o Youtube.

Só isso já demonstra que, embora preservando a sua presunção de inocência até que se prove o contrário (quem pratica isso quando as delações visam a esquerda) há escassa sinceridade na fala da irmã de Aécio.

Por isso, foi mais um tiro pela culatra. Quem usou a mídia para gritar e xingar não tem autoridade moral para reclamar.
Posted: 03 Apr 2017 01:56 PM PDT
Por Mário Augusto Jakobskind, no jornal Brasil de Fato:

O ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que todos se lembram teve papel relevante no processo de afastamento da presidenta Dilma Rousseff, na prática um golpe parlamentar, pegou 15 anos e quatro meses de prisão ao ser julgado em Curitiba. Terá também que devolver o que surrupiou da Petrobras por ter recebido propina em contrato com a empresa petrolífera para a exploração do ouro negro em Benin, na África.

O ex-presidente da Câmara dos Deputados, que quando ocupava o cargo fazia e acontecia, vai apelar da sentença e os seus advogados vão declarar que ele é inocente e tudo o mais. Cunha, hoje execrado por praticamente todos os setores da sociedade tem carta escondida e segundo denúncias continuava a pressionar parlamentares que ajudou a eleger através de métodos que envergonham a classe política honesta.

Na época em que fazia e acontecia, Cunha era recebido com aplausos pela mídia comercial conservadora e alguns colunistas de sempre. Depois de cumprir a missão a ele designada pelos golpistas de colocar na ordem do dia o impedimento, sem crime de responsabilidade, de Dilma, as denúncias contra ele foram se avolumando, passou a ser persona non grata pelo próprio sistema golpista. Fez inúmeras ameaças de que contaria verdades incômodas para os políticos que se apossaram do poder com a sua inestimável colaboração, inclusive o próprio Presidente ilegítimo Michel Temer. Por enquanto ficou só na ameaça.

De uma forma ou de outra, Cunha hoje é uma peça que preocupa os políticos golpistas, porque é inevitável fazer a ligação entre o condenado e figuras do governo atual. Temer, segundo analistas, não sairia ileso se Cunha finalmente divulgasse o que sabe em matéria das picaretagens do PMDB que desembocaram no golpe parlamentar, midiático e judicial.

Resta agora aguardar se Cunha ao se sentir abandonado por aqueles a quem ajudou a dar o golpe decida contar o que sabe. E pelo visto sabe muita coisa que provavelmente pode abalar ainda mais o já combalido governo ilegítimo de Michel Temer e seus seis Ministros que estão sendo investigados por denúncias de corrupção.

O lamentável dessa história toda é o cinismo de certos setores políticos e midiáticos que consideravam Cunha uma “grande figura” e hoje o tratam como se não tivessem nada a ver com ele. Mas o temem da mesma forma que no passado não tão distante o cultuavam. Não adianta verdadeiramente tapar o sol com a peneira e esconder o que acontecia. Mesmo tendo memória curta, quem tiver dúvidas basta consultar os espaços midiáticos de quando Cunha tinha poder no Parlamento e em outras áreas nacionais.

Na verdade, Cunha é um exemplo concreto do que se transformou a política brasileira nos últimos tempos, sobretudo a partir do golpe parlamentar, midiático e judicial que culminou com a ascensão de Michel Temer e sua patota do PMDB, PSDB, DEM e outros agrupamentos políticos que compõem a base aliada golpista, que Cunha se quiser e tiver coragem pode balançar o coreto.

Resta agora aguardar o que vem por aí em matéria de Cunha, se é que ainda vem, e se ele realmente abrir o bico e entornar o caldo, o que acontecerá? De qualquer forma é impossível retirar a figura do ex-presidente da Câmara dos Deputados do processo golpista que culminou com o impedimento da Presidenta eleita Dilma Rousseff. Essa é uma verdade que por mais que os golpistas queiram não se pode omitir. Entrou para a história.

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