terça-feira, 4 de abril de 2017

4/4 - Comece por aprender a pensar sobre Putin

FONTE:Castor Filho <castorphoto@gmail.com>
Comece por aprender a pensar sobre Putin 
Christopher Caldwell,* Imprimis, Março 2017, vol. 46, n. 3

"Putin se tornou um símbolo da defesa da soberania e da autodeterminação das nações em luta contra o globalismo – que não trata todas as nações como iguais e aprofunda as diferenças entre miséria e riqueza, em vez de reduzi-las. Essa é a batalha de nosso tempo.

Como o mostram as recentes eleições nos EUA – e o golpe de Estado no Brasil – é verdade nos EUA, como é verdade também na Síria e abaixo do Equador."
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Vladimir Putin é poderoso símbolo ideológico e teste limite altamente revelador. É um herói para conservadores populistas por todo mundo e anátema para progressivistas. Não quero compará-lo ao presidente Trump, mas se se sabe o suficiente sobre o que um norte-americano médio pensa sobre Putin, pode-se com certeza dizer o que o mesmo cidadão pensa de Donald Trump.

Permitam-se esclarecer, de início, que não tento aqui uma 'aula' de o que pensar sobre Putin, que cada um pode aprender a fazer por sua conta. E quanto a isso há uma verdade básica que não se pode esquecer, por mais que seja frequentemente esquecida. Nossos líderes podem ter deblaterado contra a soberania desde o fim da Guerra Fria, mas não significa que, nem por um minuto, a soberania tenha deixado de ser objetivo primário da política, nos EUA e em todo o mundo.

Vladimir Vladimirovich não é presidente de ONG feminista. Não é ativista dos direitos dos transgêneros. Não é ombudsman apontado pela ONU para produzir e exibir shows de imagens a favor da energia verde. É o presidente eleito da Rússia – país relativamente pobre, mas militarmente poderoso, que em anos recentes tem sido roubado, humilhado e mal governado. O serviço de Putin tem sido proteger as prerrogativas e a soberania de seu país num sistema internacional que visa a erodir a soberania em geral e considera a soberania da Rússia, especialmente, como ameaça.

Pelos padrões norte-americanos, o respeito de Putin pelo processo democrático é, no melhor dos casos, capenga. Tem atacado manifestações pacíficas. Oponentes políticos têm sido presos e encarcerados durante o seu governo. Alguns foram assassinados – Anna Politkovskaya, a corresponde chechena assassinada em seu apartamento em Moscou em 2006; Alexander Litvinenko, espião envenenado com polônio-210 em Londres, meses depois; o ativista Boris Nemtsov, assassinado numa ponte em Moscou no início de 2015. Mas em todos esses casos há no máximo provas circunstanciais de envolvimento de nomes do círculo de Putin e estão a exigir investigação detalhada.

Contudo, se usássemos critérios tradicionais para avaliar os líderes, que incluem em suas plataformas defender as próprias fronteiras e a prosperidade nacionais, Putin teria de ser reconhecido como o mais importante estadista de nosso tempo. No cenário mundial, quem se equipara ao presidente Putin nesse quesito? Apenas, talvez, Recep Tayyip Erdoğan da Turquia [muito mais que esse, indiscutivelmente, o presidente Bashar al-Assad da Síria, mas o autor não poderia usar esse exemplo, sem abrir guerra com o establishment norte-americano e desnortear a discussão (NTs)].

Quando Putin chegou ao poder no inverno de 1999-2000, seu país estava indefeso. Estava quebrado. Estava sendo dilapidado por suas próprias elites cleptocratas, em colusão com seus velhos rivais imperiais – os norte-americanos. Putin foi quem mudou tudo isso. Na primeira década desse século, fez o que Kemal Atatürk havia feito na Turquia nos anos 1920s. A partir de um império em ruínas, Putin resgatou a própria Rússia como estado-nação, deu coerência e propósito ao seu país. Disciplinou os plutocratas russos. Restaurou o poderio militar russo. E recusou-se, com retórica ainda mais incisiva, a aceitar para a Rússia o papel subserviente no sistema mundial comandado pelos EUA traçado por políticos e empresários de fora da Rússia. Os eleitores de Putin orgulham-se de ter posto na presidência o presidente que salvou a Rússia.

Por que tantos intelectuais norte-americanos são tão fortemente enviesados quando falam do "sistema internacional"? Provavelmente porque esses mesmos intelectuais norte-americanos conceberam o tal sistema; e porque assumem que não haja razões históricas legítimas pelas quais um político eleito se levantaria em oposição àquele sistema considerado sacrossanto. Os mesmos intelectuais ostentaram as mesmas razões contra o crescimento de Rodrigo Duterte nas Filipinas. Fizeram o mesmo com Donald Trump. E também fizeram com Putin. Deram por certo que Putin teria deixado a KGB com o único propósito de se converter em gênio do mal, contra o qual se deveriam levantar nossos impolutos líderes supostos muito superiores.

Putin não nasceu do nada. E mente quem diga que o povo russo o suporta: o povo russo o adora e reverencia. Pode-se ter boa ideia de por que governou por 17 anos, se se considera que, poucos anos depois da dissolução da URSS, a expectativa de vida na Rússia já caíra abaixo da de Bangladesh. É uma ignomínia, obra de Boris Yeltsin. O oportunismo temerário de Yeltsin o tornou inimigo sempre útil e indispensável do comunismo, no final dos anos 1980s. Assim como o converteu em inadequado pai fundador do desgraçado estado 'moderno' russo. Aleksandr Solzhenitsyn, cujos escritos sobre Comunismo fizeram dele um dos grandes nomes do século 20 acreditava que os líderes pós-comunistas tornaram a Rússia pior do que jamais fora. Em 2000, Solzhenitsyn escreveu: "Por efeito da era Yeltsin, todos os setores fundamentais de nossa vida política, econômica, cultural e moral foram ou saqueados ou destruídos. Continuaremos a saquear e destruir a Rússia, até que nada reste?" Naquele ano, Putin chegou ao poder. Chegou como a resposta à pergunta de Solzhenitsyn.

Houve duas coisas das que Putin fez que cimentaram a lealdade de Solzhenitsyn e de outros russos: Putin conteve a ação dos bilionários que saqueavam livremente o país; e restaurou o prestígio e a posição da Rússia em todo o mundo. Consideremos separadamente os dois feitos.

Ainda sobrevivem na Rússia elementos de uma cleptocracia baseada em controle oligárquico de recursos naturais. Mas temos de lembrar que Putin recebeu aquela cleptocracia, como espécie de herança macabra. Não a inventou. A transferência dos recursos naturais da Rússia para mãos de empresários desonestos foi momento trágico para a Rússia. Foi também vergonha para todo o Ocidente. Cientistas políticos ocidentais trataram de travestir o roubo organizado com pesadas vestes ideológicas, o apresentaram como "transição para o capitalismo" o que não passou de auge do processo pelo qual chegou ao poder político aquele bando de ladrões." Empresas ocidentais, inclusive bancos, garantiram o financiamento.

Permitam-me comentar esse ponto. Os oligarcas que fizeram da Rússia uma plutocracia armada em apenas cinco anos depois da dissolução da União Soviética se autoidentificavam como capitalistas. Mas eram, praticamente todos, homens criados como geração seguinte da nomenklatura comunista – gente como Boris Berezovsky, Vladimir Gusinsky e Mikhail Khodorkovsky. Eram os que conheciam a extensão e a natureza do patrimônio do Estado e controlaram os programas de privatização. Tinham acesso a financiamentos ocidentais e dispostos a usar de violência e intimidação. Assim assaltaram o poder, do mesmo modo como haviam planejado apoiá-lo quando ainda frequentavam as escolas para quadros comunistas – só que agora como proprietários, não como burocratas. Dado que o Estado era proprietário de tudo no regime comunista, foi um butim e tanto! O reinado de Yeltsin foi construído sobre essas fortunas de bilhões, e vice-versa.

Ainda recentemente Khodorkovsky foi convertido em símbolo do autoritarismo de Putin, porque o homem foi condenado a dez anos de prisão. Certamente, o julgamento de Khodorkovsky não satisfez os padrões ocidentais. Mas Khodorkovsky foi parte ativa dos mais obscenos processos de privatização. Em biografia recente de Putin, Steven Lee Myers, ex-correspondente do New York Times em Moscou, estima que Khodorkovsky e investidores associados a ele pagaram $150 milhões, nos anos 1990s pela principal unidade produtora de petróleo da empresa Yukos, que chegou a ser avaliada em cerca de $20 bilhões em 2004. Em outras palavras, compraram uma parte da empresa produtora de mercadoria essencial à Rússia – seu petróleo – por menos de 1% do valor real. Putin chegou a chamar essa gente de "bilionários por nomeação do Estado". Via-os como um cabo de conexão para o saque generalizado de todo o país. E logo buscou recuperar para o país o que lhe havia sido roubado. Também viu que a Rússia precisava controlar suas vastas reservas de petróleo e gás, das quais grande parte da Europa dependia – porque eram a única alavanca geopolítica com a qual a Rússia podia contar.

O segundo grande feito de Putin foi restaurar a posição da Rússia no exterior. Ele chegou ao poder uma década depois de seu país ter enfrentado situação complexíssima no Afeganistão. Depois do Afeganistão, os russos não conseguiram conter um levante sangrento de islamistas na Chechênia. E, pior de tudo, o país havia sido humilhado por EUA e OTAN na guerra da Sérvia de 1999, quando o governo Clinton apoiou um movimento nacionalista e independentista islamista no Kosovo. Aquela foi a última guerra na qual os EUA lutariam ao lado de Osama Bin Laden, e os EUA usaram a oportunidade para mostrar à Rússia o lugar degradado que ocupava então na ordem internacional, tratando os russos como incômodo sem qualquer importância. Putin chegou à presidência um semestre depois de Yeltsin ter sido manipulado para admitir o desmembramento da Sérvia, aliada da Rússia. Em dezembro de 1999, ainda candidato, Putin disse: "Não toleraremos nenhuma humilhação ou agressão ao orgulho nacional dos russos ou qualquer ameaça à integridade do país."

Putin referia-se à degradação da posição da Rússia representada pela Guerra da Sérvia quando descreveu, em frase que ganhou fama, o colapso da União Soviética como "a maior catástrofe geopolítica do século". A expressão é frequentemente mal entendida ou mal contextualizada: Putin não acalenta qualquer desejo de voltar ao Comunismo, que ele conheceu. Mas falava realmente muito sério quando disse que recuperaria o poder da Rússia. Combateu o avanço militar de exércitos islamistas na Chechênia e no Daguestão, e adotou linha dura contra o terrorismo – inclusive a decisão de não negociar, nem secretamente, com grupos que fizessem reféns.

Há um tema que percorre toda a política externa russa e assim tem sido por longo período da história do país. Nenhum outro país, exceto Israel, tem fronteira mais perigosa com o mundo islamista. Facilmente se pode tomar esse ponto de vista como básico, pelo qual analisar a conduta dos russos – um bom ponto para que o ocidente comece a tentar explicar o comportamento que alguém não compreenda logo à primeira vista. Mas a propaganda contra Putin no ocidente jamais chamou a atenção para esse fato. Os propagandistas anti-Putin tampouco jamais chamaram a atenção para a interferência da Rússia contra os terroristas do ISIS-Daech-Estado Islâmico na guerra na Síria. Nem, tampouco, para a evidência importante de que a Rússia dá abrigo até hoje a Edward Snowden, fugitivo dos EUA, 'sentinela vazador' de tantos segredos da inteligência norte-americana e que vive em Moscou.

Os dois episódios selecionados para agredir organizadamente os russos e Putin, em particular, envolveram, nos dois casos, questões triviais para o mundo, mas vitais para a mentalidade 'progressivista' norte-americana. O primeiro é de 2014, quando dos Jogos Olímpicos de Inverno, marcados para Sochi. Ali os 'progressivistas' viram uma oportunidade para ferir economicamente a Rússia. A maioria dos líderes mundiais assistiram felizes aos jogos, de Mark Rutte (Holanda) e Enrico Letta (Itália) a Xi Jinping (China) e Shinzo Abe (Japão). Mas três – David Cameron da Grã-Bretanha; François Hollande da França; e Barack Obama dos EUA – dedicaram-se aplicadamente a enlouquecer os cidadãos dos respectivos países, empurrando-os para 'discutir' exclusivamente uma curta lista de temas internos da política russa.

Primeiro, foi o magnata do petróleo Khodorkovsky, que estava preso, e Putin libertou antes do início dos Jogos. Segundo, o grupo performático feminino, que se autodenominava "Agito das Bucetas" [ing. Pussy Riot], cujas integrantes foram presas depois de invadirem uma missa para uma exibição "anti-Deus", e foram acusadas de violar leis russas q proíbem blasfêmias e protegem o direito à própria religião para todos (o ocidente praticamente nunca soube o que realmente aconteceu); Putin também libertou as moças antes da Olimpíada. Terceiro, há uma lei russa cujo artigo 6.21 foi, muito estranhamente, apresentado na imprensa nos EUA como lei contra "a chamada propaganda gay". Devidamente traduzido, o texto da lei proíbe qualquer "propaganda dirigida a crianças, de relações sexuais não tradicionais na sociedade russa".

Ora, até os norte-americanos que prefiram que a Rússia considere mais levianamente seja a religião sejam as homossexualidades sejam as crianças, nem por isso deixariam de concordar que essas são questões internas, que cabe à sociedade russa julgar. Há algo de muito suspeitamente fora de esquadro, se essas questões são convertidas em incidentes diplomáticos entre dois grandes países e, em função delas, um dos lados põe-se a disparar todos os tipos de ameaças.

A segunda campanha contra Putin começou com uma tentativa feita pelo governo Obama, já em ritmo de despedida do poder, de lançar dúvidas sobre o resultado das eleições presidenciais de novembro passado nos EUA, que elegeram Donald Trump, sugerindo que o governo russo teria, ninguém sabe como, "hackeado" o processo eleitoral. Esse foi evento absolutamente extraordinário na história da manipulação da opinião pública para "fabricar consenso".

Longe de mim apresentar-me como especialista independente, em ciberespionagem. Mas qualquer pessoa que tenha lido a documentação publicada sobre a qual repousam as acusações só encontrou especulação, diz-que-disse entre supostas autoridades, argumentos de autoridade e esforço para tirar a lógica e pôr em cena a mais incansável repetição.

Em meados de dezembro, o New York Times publicou artigo intitulado "How Moscow Aimed a Perfect Weapon at the U.S. Election" [Como Moscou apontou uma arma perfeita contra as eleições nos EUA. No Brasil, a Folha de S.Paulo imediatamente 'repercutiu' a 'notícia', cuidadosamente reservada só para assinantes pagantes (NTs)].

Praticamente tudo que se lê naquele artigo vem de fontes não identificadas de dentro do governo Obama e empregados de CrowdStrike, empresa de cibersegurança que os Democratas contrataram para investigar um computador hackeado no Comitê Nacional dos Democratas. Citam-se os que trabalharam na comissão secreta anti-hacking do Comitê Nacional Republicano, inclusive a presidenta do Partido, Debbie Wasserman Schultz, e o advogado do Partido Michael Sussmann. Depois, matéria do Conselho Nacional de Inteligência, distribuído pelo governo Obama em janeiro, onde se lê o núcleo da história toda: mais da metade da matéria são queixas contra 'o viés' de RT, a rede de televisão internacional do governo da Rússia.

Repito: ninguém sabe o que as agências sabem. Mas não há prova acessível que justifique que o senador John McCain do Arizona ponha-se a clamar que os russos cometeram "ato de guerra". Se houvesse, a discussão sobre provas teria continuado no governo Trump. Mas não. Não continuou: evaporou, desapareceu no ar, no instante em que perdeu completamente a utilidade como ferramenta para manipular eleitores e votos.

Há dois outros escândalos imaginários que Putin teria protagonizado e que já se sabe que são nada. Em novembro, o Washington Post publicou uma lista negra de organizações que teriam publicado "notícias falsas" a serviço de Putin. Imediatamente se descobriu que a lista fora construída por um grupo de ativistas [e uma professora de comunicações] que meteram na lista alguns blogs e serviços de notícia simplesmente porque lhes pareceu que suas opiniões sobre algumas questões selecionadas correspondiam às de RT. Depois, em dezembro, o governo Obama pôs-se a dizer que teria encontrado um código russo que, melodramaticamente foi batizado de "Estepe do Urso" [ing. "Grizzly Steppe"] na rede elétrica de Vermont. Gerou manchetes de primeira página. Mas não, nada disso. Foi erro. Alguém descobriu que o código russo podia ser comprado em qualquer loja e instalado, segundo um jornalista "em qualquer máquina, até num laptop não conectado à rede elétrica."

O que se vê é que os Democratas deram-se extraordinário trabalho para tentar desacreditar Putin. Por quê?

Parece que há mesmo um Zeitgeist, um espírito do tempo, de uma determinada época. Dada questão se torna assunto para toda a humanidade, e alguns homens serão vistos como símbolos daquele espírito daquele tempo. Há 50 anos, por exemplo, o Zeitgeist era de libertação para as colônias de todos os impérios. Pensem em Martin Luther King, em viagem à Noruega para receber seu Prêmio Nobel da Paz e parando em Londres para uma conferência contra o apartheid na África do Sul. O que o apartheid na África do Sul teria a ver diretamente com ele? Praticamente, nada. Simbolicamente, tudo. Foi uma oportunidade para falar sobre a questão moral do dia.

Hoje, o Zeitgeist é outro. Hoje o que comanda as paixões no Ocidente são questões de soberania e autodeterminação nacional. A razão disso tem muito a ver com o modo como terminou o conflito da Guerra Fria entre EUA e Rússia.

Nos anos 1980s, os dois países eram grandes potência, sim; mas ao mesmo tempo eram estreitamente limitados. As alianças que cada país comandava eram frágeis. Depois do fim do Muro de Berlin, os destinos respectivos tomaram rumos divergentes. Os EUA tiveram a oportunidade de propor as regras do sistema mundial. E acolheram a oportunidade com fúria de vingadores. À Rússia coube o papel de submeter-se ao sistema mundial criado à maneira dos EUA.

O quanto esses papéis são inconciliáveis, viu-se há dois anos, no conflito entre Rússia e Ucrânia. Pela história oficial construída pelos EUA, a Rússia teria invadido o país vizinho, depois que uma revolução glorioso teria derrubado uma plutocracia. A Rússia então anexou bases navais ucranianas na Crimeia. Do ponto de vista da Rússia, o governo democraticamente eleito da Ucrânia foi derrubado por golpe armado apoiado pelos EUA. Para impedir que uma OTAN hostil se estabelecesse em base naval própria no Mar Negro, segundo essa narrativa, a Rússia teve de tomar a Criméia a qual, de qualquer modo, é território russo histórico. Essas duas narrativas são perfeitamente corretas.

Problema é que algumas simples palavra aí têm um significado para os norte-americanos, e outro para os russos. Os EUA por exemplo não se cansam de repetir que os russos não acreditam na democracia. Mas, como diz o grande jornalista e historiador Walter Laqueur, "muitos russos acabaram por se convencer de que democracia é o que acontecia no país deles entre 1990 e 2000. E absolutamente não desejam aquilo para eles, nunca mais."

O ponto com o qual gostaria de concluir é o seguinte: não iremos a lugar algum se assumirmos que Putin teria de ver o mundo como nós o vemos. Um dos pensadores mais independentes em relação à Rússia em Washington, D.C., é o congressista Reaganista da Califórnia Dana Rohrabacher. Lembro que o vi ser repreendido num jantar em Washington há alguns anos. Outro convidado disse que ele devia envergonhar-se, porque Reagan teria idealistamente defendido Putin, na questão dos direitos humanos. Rohrabacher discordou. A melhor qualidade de Reagan como pensador de política externa, disse ele, nunca foi algum 'idealismo', mas sua capacidade para fixar prioridades, para ver com clareza onde estava, a cada momento, a ameaça mais grave.

Isso, para dizer que, hoje, a maior ameaça aos EUA não é Vladimir Putin.

Nesse caso, porque as pessoas pensam o que pensam de Putin? Porque Putin se transformou num símbolo do que é e do que pode alcançar um país que constrói a própria capacidade para se autodeterminar. Populistas conservadores veem Putin como os progressivistas antigamente viam Fidel Castro – como a única voz no mundo que dizia que não se submeteria ao mundo que o cercava de mais perto, e nunca se submeteu.

Ninguém precisa ser comunista para saber apreciar o modo como Castro sempre trabalhou para desbravar um espaço de autonomia para seu país.

Assim também a conduta de Putin com certeza conquistará simpatias até de alguns dos inimigos da Rússia – dos que sentem que o sistema internacional capitaneado pelos EUA não os está realmente ajudando.

De modo geral, se você aprecia esse sistema, você tenderá a ver Putin como ameaça – ainda que não seja. Se você não aprecia o sistema capitaneado pelos EUA, você mais facilmente terá olhos mais simpáticos para Putin.

É que Putin se tornou um símbolo da luta em defesa da soberania e da autodeterminação das nações em luta contra o globalismo – que não trata todas as nações como iguais e aprofunda as diferenças entre miséria e riqueza, em vez de reduzi-las. Essa é a batalha de nosso tempo.

Como o mostram as recentes eleições nos EUA – e o golpe de Estado no Brasil – é verdade nos EUA, como é verdade também na Síria e abaixo do Equador.*****


* Christopher Caldwell é editor sênior de The Weekly Standard. Graduado no Harvard College, tem ensaios, colunas e resenhas publicados na Claremont Review of Books, no Wall Street Journal, na New York Times Book Review, no Spectator (Londres), Financial Times e várias outras publicações. É autor de Reflections on the Revolution in Europe: Immigration, Islam, and the West, e trabalha num novo livro sobre os EUA pós-1960s.

O artigo aqui publicado é versão adaptada de discurso feito dia 15/2/2017, no Seminário de Liderança Nacional de Hillsdale College em Phoenix, Arizona.

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