Dito assim, cruamente, pode parecer um daqueles manifestos que circulavam nos meios universitários e sindicais durante a ditadura militar
Foto: Agência Brasil
Foto: Agência Brasil
Já se disse, neste espaço, que o processo político em curso no Brasil, desde a eleição presidencial de 2014, é um projeto fascista de poder.
Dito assim, cruamente, pode parecer um daqueles manifestos que circulavam nos meios universitários e sindicais durante a ditadura militar.
Dirá, então, o leitor ressabiado, que se trata de um exagerado alarmismo, uma vez que não se observam por aí aquelas milícias que precedem os regimes totalitários.
Acontece, porém, que, em toda a história contemporânea, desde que surgiram as modernas democracias representativas, o fascismo se infiltra no poder dessa forma sutil, pero no mucho.
As milícias, essas já foram às ruas, como se sabe, manipuladas pela mais assombrosa campanha de mídia de que se tem registro neste lado do mundo.
Saíram, bateram panelas, mostraram suas faces rosadas e foram devidamente descartadas, como o são as minorias silenciosas depois de usadas.
Agora frequentam apenas as redes sociais digitais.
Entregou-se, então, o poder ao chamado “baixo clero” do Congresso.
E o que se viu foi a sequência de revelações escapadas como gás metano do esgoto, de uma operação policial cujo objetivo era apenas criminalizar um dos lados da diversidade ideológica – exatamente aquele que poderia conter o domínio do poder central pelo fascismo.
O grupo deposto cometeu certamente seus desatinos, deixou-se engordar deliciosamente com o melaço da corte e fechou os olhos aos sinais evidentes de que havia algo de podre em seus domínios.
Mas o pragmatismo, ah, sempre o pragmatismo, aconselhava à brandura com os seus corruptos, e a presidente foi deposta acreditando que estava sendo vítima de uma “batalha da comunicação”.
O que está em curso não é uma simples batalha: é uma guerra de extermínio contra o projeto de capitalismo com diretrizes sociais experimentado na primeira década deste século.
É curioso observar que até mesmo destacados agentes desse projeto de reversão para o capitalismo “puro e duro”, indivíduos qualificados por décadas de exercício decente de suas atividades como juristas, comunicadores, líderes comunitários ou educadores, seguem candidamente a manada, sem se dar conta de que estão limpando o terreno onde será enterrada toda inteligência.
Como explicar, por exemplo, que um parlamentar declaradamente nazista seja convidado a pregar sua doutrina de violência e intolerância num clube de judeus, provocando risos de simpatia e aplausos entusiasmados?
O que é mais significativo? O aplauso dos mentecaptos presentes ou o silêncio daqueles intelectuais da comunidade judaica que se arvoram em gestores da consciência coletiva?
O mais significativo é certamente essa modorra, essa falta de uma ação política nos termos propostos por Hanna Arendt, ou seja, a ação política é inerente à condição humana.
O fascismo é exatamente o lado oposto dessa moeda: a imposição de uma condição humana de submissão por mio da negação da política.
O projeto fascista em curso no Brasil tem poucas possibilidades de se estabelecer no longo prazo, e quem diz isso é o guru dos gestores desse processo, o economista austríaco Ludwig von Mises.
Von Mises defendeu a admissibilidade do fascismo (exatamente como os judeus que aplaudem Bolsonaro), em seu livro intitulado “Liberalismo”.
Mas os leitores de Von Mises costumam omitir que seu guru defende o fascismo apenas como um meio de intervenção por curto prazo “um improviso para fazer face a uma emergência” – nas próprias palavras do autor.
No caso, a “emergência” é a destruição de todos os projetos de intervenção do Estado no campo social, oferecendo o território para privatizações.
O que vem depois é o campo arrasado sobre o qual será preciso construir novamente um projeto de bem-estar coletivo, inclusivo, democrático.
Como a História é plena de ironias, a ironia no caso presente é o fato de que os construtores desse projeto de demolição usam como massa de manobra as classes médias urbanas, manipuladas por uma mídia irresponsável.
Que vão pagar o preço dessa aventura.
Essa é uma das razões pelas quais chamamos esses indivíduos de “midiotas”.

Link curto: http://brasileiros.com.br/O7oKP
Tags: 
  • Luciano Martins Costa
    Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade, além de autor de vários livros