quarta-feira, 17 de maio de 2017

17/5 - Como os neoconservadores tomaram os EUA

FONTE:Castor Filho <castorfilho@yahoo.com>


História de como os neoconservadores tomaram os EUA (4 partes) 

10/5/2017, Paul Fitzgerald e Elizabeth Gould, Thruthdig in The Vineyard of the Saker
Parte 1/4 – Imperialismo norte-americano empurra o mundo para um inferno dantesco[1]

"Abandonai, ó vós que entrais, toda a esperança!"
("Inferno", Parte 1, canto 3, linha 9,
trad. [port.] José Pedro Xavier Pinheiro)
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Ver também

Parte 2/4 – Como os neoconservadores promoveram a guerra, maquiando as contas (Blog do Alok)

Parte 3/4 – Como a CIA inventou uma falsa realidade ocidental para sua "Guerra não convencional" (Blog do Alok)

Parte 4/4 – Estágio final da tomada dos EUA pelas elites maquiavelian à Burnham. De Trotsky a Burnham, de Burnham e Maquiavel ao neoconservadorismo: fecha-se o ciclo do imperialismo britânico
(Blog do Alok)


Antes de os mísseis Tomahawk começarem a voar entre Moscou e New York, os norte-americanos sabiam mais e melhor, autoeducados eles mesmos, sobre as forças agentes da
Rússia, que estaria dando cobertura a um ataque do governo sírio, com gás, contra o próprio povo, como continuam a dizer. Hoje, ninguém parece dar qualquer atenção à necessidade de provar, na ânsia de converter o mundo numa visão dantesca de Inferno. Absolutamente não faltam acusações partidas de fontes jamais identificadas, fontes espúrias e fraudes absolutas indisfarçáveis. A paranoia e a confusão de Washington são hoje impressionantemente semelhantes ao que se viu nos últimos dias do 3º Reich, quando a liderança em Berlin desconjuntou-se e todos os órgãos e unidades de governo entraram em falência.

A partir do outono, nos EUA, as tensões só aumentaram, com acusações de que
meios russos interferiram nas eleições presidenciais nos EUA e seriam hoje grave ameaça à segurança nacional dos EUA.

O mais recente grande conjunto de documentos vazados por WikiLeaks sugere fortemente que os agentes ativos por trás dos vazamentos de e-mails de Hillary Clinton seriam hackers contratados pela própria CIA, não os 'russos'. Os EUA têm longa reputação de acusar outros, em altos brados, de coisas que não fizeram e de plantar noticiário falso ("fake news") na mídia, como 'prova' de algum tipo de ataque contra os EUA, 'prova' que imediatamente é convertida em causa para atacar outros países e iniciar guerras. O trabalho dos serviços secretos de contrainteligência é desinformar a opinião pública, para assim modelar o pensamento dos cidadãos e eleitores, o que eles realmente conseguem fazer.

Hoje, a campanha em à qual todo o governo dos EUA está dedicado é destruir a Rússia, e por absolutamente qualquer coisa, e toda essa campanha mostra todas as marcas de uma campanha clássica de desinformação, mas, hoje, ainda mais ensandecida do que nunca antes.

Considerando que Washington pôs Rússia, China e Irã na sua lista de atores antiglobalização a serem destruídos – lista da qual depois de entrar, só se sai morto –, o ribombar alucinado de 'acusações' contra aqueles mesmos atores nem chega a surpreender. Mas acusar os russos de minarem a democracia norte-americana e de interferir em eleições nacionais equivale já a
um ato de guerra e não é movimento que se possa autoesvaziar facilmente, ou por inércia. Dessa vez, os EUA não estão demonizando algum inimigo ideológico (URSS) ou religioso (al-Qaeda, ISIS, Daech etc.). Agora, os EUA constroem sua mais recente 'ação belicosa' como a mais obscura das disputas de propaganda de guerra, exatamente como fizeram os nazistas quando planejavam invadir a Rússia, em 1941. – Mas a guerra do século 21 não é guerra que os EUA possam nem justificar, nem vencer.

O nível dessa recente espantosa campanha de desinformação vem subindo já há algum tempo. Mas os norte-americanos vivem há tanto tempo imersos numa cultura de noticiário inventado (que antigamente se conhecia como "propaganda"), que
muitos já aceitam o noticiário falso como se fosse a realidade.

George Orwell anteviu o que viria. Agora, aí está. Como grande apoiador da intervenção militar dos EUA em Cuba e militante confesso do que então se chamava
"jornalismo marrom" [ing. yellow journalism]", em 1897 William Randolph Hearst instruiu um ilustrador que mandara a Cuba para produzir ilustrações realistas: "Você me fornece as imagens, que eu fornecerei a guerra." Hearst acabou por conseguir a guerra que tanto desejava. E ali começou, a todo o vapor, aquele experimento imperialista dos EUA.

Hoje os norte-americanos já deveriam ter aprendido que as guerras que eles próprios espalham pelo mundo são campo fértil para noticiário violentamente falsificado, caolho, xenofóbico, inventado do começo ao fim; e que os EUA estão em permanente estado de guerra desde 1941. Embora os alvos tenham mudado ao longo dos anos, o objetivo da propaganda jamais variou. Incontáveis culturas foram coagidas, subornadas ou simplesmente ameaçadas e chantageadas para que aceitassem como verdades quaisquer falsidades que demonizassem os inimigos dos EUA em tempo de guerra – e o processo nunca mudou, por mais que as guerras se repetissem, e repetissem, e também as mentiras, não raras vezes ardilosamente construídas. Mas não há mentira que nunca seja revelada, se a guerra prossegue sempre, como se fosse sem fim. O legendário Guerreiro da Guerra Fria, Henry Luce [1898-1967], da revista Time and Life, via sua luta pessoal contra o comunismo como uma "declaração de guerra privada".

Luce chegou a perguntar a um de seus executivos se a ideia não seria
"ilegal e talvez louca?" Fosse como fosse, por mais que duvidasse até da própria sanidade, Luce permitiu que a CIA usasse a revista Time/Life como cobertura para operações da agência e para garantir credenciais ao pessoal da CIA, pelo mundo.[2]

Luce não estava sozinho no serviço que prestou às guerras de propaganda da CIA.
Documentos que recentemente foram divulgados depois de cumprido o período de sigilo obrigatório revelam que a propaganda feita pela CIA envolvia todos os veículos da chamada 'grande mídia'. Dúzias dos mais respeitados jornalistas e formadores de opinião durante a Guerra Fria consideravam um privilégio ser recrutado para o serviço de manter a opinião pública hipnotizada, controlada, subjugada pela CIA.

Hoje, quando a nova Guerra Fria volta a esquentar muito, somos levados a crer que os russos invadiram e furaram essa muralha de jornalismo e jornalistas nada confiáveis, e já começam a abalar as fundações da máquina de produzir informação quase sempre falsa sobre a pureza do processo eleitoral nos EUA e a "liberdade de imprensa" nos EUA.

Propaganda marrom é sempre operação de mentiras. Governos autoritários mentem regularmente e com tal frequência que já ninguém acredita no que dizem. Espera-se que governo baseado em princípios democráticos como o dos EUA fale a verdade, mas quando
documentos do próprio governo dos EUA revelam mentiras sucessivas e repetidas ao longo de décadas, é sinal de que todo o quadro está gravemente pervertido.

Os impérios infalivelmente seguiram essa via e ela não termina bem. Os norte-americanos estão ouvindo agora que todos, ininterruptamente devem considerar mentira qualquer coisa que qualquer russo diga, e ignorar qualquer informação que não coincida com o que a grande mídia-empresa e o governo dos EUA declarem que seja ou verdade ou mentira. Mas pela primeira vez na história os norte-americanos compreendem claramente que gente que o secretário de Estado
Colin Powell chamou certa vez de "os doidos" arrastaram o país para a beira do penhasco.

Os
pistoleiros e pistoleiras mercenários e mercenárias que vivem em Washington têm longa lista de alvos, que eles e elas transmitem de geração em geração. A influência do governo norte-americano sempre foi catastrófica, mas nem por isso muda ou chega a algum fim. O senador J. William Fulbright identificou o sistema irracional daquela gente para criar guerra sem fim no Vietnã há 45 anos, em artigo para a revista New Yorker intitulado (lit.) "Reflexões sobre o feitiço do medo" [ing. Reflections in Thrall to Fear].

"O aspecto mais notável da psicologia dessa Guerra Fria é a transferência absolutamente sem lógica, do ônus da prova: a prova deixa de ser obrigação de quem acusa e passa a ser de quem questiona as acusações (…)

Os Guerreiros da Guerra Fria, em vez de serem obrigados por lei a dizer como sabiam que o Vietnã fosse parte de um plano para implantar o comunismo em todo o mundo, manipularam de tal modo a discussão pública a ponto de terem conseguido que passasse a ser dever dos céticos provar que o Vietnã jamais cogitara de implantar comunismo em lugar algum. Se os que questionassem as acusações mais alucinadas não conseguissem provar a 'inocência' do Vietnã... então a guerra teria de continuar e continuar – até que toda a segurança nacional dos EUA já estivesse gravemente ameaçada."

Fulbright deu-se conta de que os doidos instalados em Washington haviam posto o mundo às avessas, e concluiu:

"Chegamos à lógica zero, ao absurdo absoluto: a guerra seria a via recomendável de sobriedade e prudência, até que alguém prove que a paz tenha qualquer utilidade por regras de evidência impossíveis de alcançar [ou jamais prove...] – ou até que o inimigo renda-se sem condições. Homens racionais não podem conviver entre si a partir desse tipo de 'fundamento'."

Sim, mas aqueles homens não eram racionais, e o imperativo da irracionalidade deles só aumentou e firmou-se cada vez mais depois que os EUA foram derrotados no Vietnã.

Já há muito tempo esquecidos das lições do Vietnã e depois de outra trágica derrota no Iraque, que o muito respeitado
general William Odom definiu como "equivalente à derrota dos alemães em Stalingrado," os doidos estão outra vez na ativa.

Sem quem os detenha, já lançaram e atualizaram nova versão da Guerra Fria contra a Rússia, como se nada no mundo tivesse mudado desde 1992. A Guerra Fria original foi imensamente custosa para os EUA e foi guerreada quando os EUA estavam no auge do poder militar e financeiro. Hoje, os EUA já não são aquele país. A Guerra Fria teria sido motivada por uma suposta ameaça ideológica chamada comunismo. Hoje, os norte-americanos devem-se perguntar, antes que seja tarde demais, exatamente que tipo de ameaça seria, contra o país líder do "Mundo Livre", hoje, uma Rússia cristã e capitalista. Qual?!

Agitando o lodo para turvar as águas com empenho jamais visto desde os anos do senador Joe McCarthy e do "Medo Vermelho" [ing. Red Scare] nos anos 1950s, a "Lei de Combate à Desinformação e à Propaganda" [ing.
"Countering Disinformation and Propaganda Act"] assinada e convertida em lei quase clandestinamente por Obama em dezembro de 2016 autoriza oficialmente a ação de uma burocracia de censores só comparável ao Ministério da Verdade que George Orwell nos mostra em seu romance 1984.

Referido como Centro de Engajamento Global (ing.
"The Global Engagement Center") o objetivo oficial da nova burocracia será "reconhecer, compreender, expor e trabalhar contra propaganda e desinformação promovida por estados e entidades não estatais estrangeiras que visem a agredir interesses da segurança nacional dos EUA." Mas o objetivo real desse centro absolutamente orwelliano será gerir, eliminar ou censurar qualquer visão que desafie a versão recentemente produzida em Washington da sua neoverdade, e intimidar, abusar ou encarcerar qualquer um que tente.

Criminalizar a opinião divergente não é novidade em tempos de guerra, mas depois de 16 anos de guerra sem fim no Afeganistão; depois de derrota no Iraque comparável à dos alemães em Stalingrado; e com Henry Kissinger como conselheiro do presidente Trump em política externa, o Centro de Engajamento Global já assumiu todas as características de perigosa fraude.

O brilhante compositor satírico norte-americano dos anos 1950s e 60s Tom Lehrer atribuía sua precoce aposentadoria a Henry Kissinger: dizia que "a sátira política tornou-se obsoleta [em 1973] quando Henry Kissinger recebeu o Prêmio Nobel da Paz".

As tentativas enganosas de Kissinger, dizendo que visava com elas a assegurar uma "paz honrosa" para os EUA na guerra do Vietnã mereciam, no mínimo vaia e ridículo. Aquelas longas, infindáveis negociações promovidas por Kissinger conseguiram estender a guerra por mais quatro anos, ao custo de 22 mil norte-americanos e incontáveis vietnamitas mortos. Segundo o pesquisador Larry Berman da University of California, autor de Nem Paz, Nem Honra [ing.
No Peace, No Honor]: Nixon, Kissinger e Traição no Vietnã de 2001, os acordos de paz de Paris negociados por Kissinger não foram negociados para funcionar, mas exclusivamente para servir como cobertura para uma guerra aérea brutal e ininterrupta, a partir do primeiro momento em que foram violados. Berman escreve que "Nixon reconheceu que a vitória e a paz eram objetivos inalcançáveis (a vitória era impossível); e que ele planejou um impasse sem fim, para o qual usou os bombardeiros B 52s para segurar no cargo o governo do Vietnã do Sul até o final de seu mandato em Washington (...). Poderia talvez ter dado certo, não fosse o 'evento' Watergate."

A Guerra do Vietnã [que os vietnameses chamam de "A Grande Guerra Americana" (NTs)] já rompera o controle que o establishment ocidental tinha sobre a política exterior, muito antes de Nixon e Kissinger entrassem em cena. A détente com a União Soviética começara no governo Johnson, num esforço para pôr alguma ordem naquele caos, e Kissinger estendeu o caos pelos governos Nixon e Ford. Mas se por um lado 'continha' uma crise, por outro lado a mesma détente criava outra, ainda pior, ao expor a já antiga e feroz luta interna, dentro do Estado Profundo, pelo controle da política dos EUA contra a União Soviética. O Vietnã representou mais que simples derrota estratégica: marcou
um fracasso conceitual na batalha de meio século para 'conter' o comunismo de estilo soviético.

Os
Pentagon Papers expuseram a extensão das mentiras e da incompetência em que naufragava o governo dos EUA. Mas, em vez de aceitar a derrota inegável e traçar nova rota, os proponentes da velha política fracassada voltaram a se reagrupar e atacar, com uma campanha ideológica maquiavélica, que seria conhecida como "experimento em análise competitiva" ou, abreviada, "Team B" [algo como "segunda equipe, para uma segunda leitura" (adiante o conceito explica-se melhor) (NTs)].

Em artigo para o Los Angeles Times em agosto de 2004, intitulado It's Time to Bench "Team B", Lawrence J. Korb, Senior Fellow no Center for American Progress e secretário-assistente da Defesa de 1981 a 1985 expôs claramente o que, para ele, havia sido a tragédia real de que o 11 de setembro fora a manifestação.

"Os relatórios da Comissão do 11/9 e da Comissão Especial de Inteligência do Senado deixaram passar sem registrar o verdadeiro problema que a comunidade de inteligência teria de enfrentar, que não é nem organização nem 'cultura', mas um conceito conhecido como "Team B". Os verdadeiros vilões são os 'linha-dura' que criaram o conceito porque não tinham interesse nem vontade de aceitar o veredito técnico e isento, dos profissionais da inteligência."
[Continua]
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História de como os neoconservadores tomaram os EUA (4 partes)
10/5/2017, Paul Fitzgerald e Elizabeth Gould, in Truthdig e The Vineyard of the Saker
Parte 2/4 – Como os neoconservadores promoveram a guerra, maquiando as contas[3]

Ver também


Parte 1/4 – Imperialismo norte-americano
empurra o mundo para um inferno dantesco
(Blog do Alok)

Parte 3/4 – Como a CIA inventou uma falsa realidade ocidental para sua "Guerra não convencional"

Parte 4/4 – Estágio final da tomada dos EUA pelas elites maquiavélicas: de Trotsky a Burnham, de Burnham e Maquiavel ao neoconservadoreservadorismo: fecha-se o ciclo do imperialismo britânico

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Muitos norte-americanos fora dos círculos políticos de Washington nunca ouviram falar de "Team B", de onde saiu ou o que fez, nem conhecem as raízes que conectam esse grupo e a 4ª Internacional, o ramo trotskista da Internacional Comunista.[4]

"As raízes do problema vão longe, até 6/5/1976, quando o diretor da CIA George H.W. Bush criou o primeiro Team B… O conceito de uma "análise competitiva" dos dados, produzida por equipe alternativa já enfrentara forte oposição de William Colby, antecessor de Bush como diretor da CIA e profissional de carreira (...) Embora o relatório do Team B contivesse poucos dados factuais, foi recebido com entusiasmo por grupos conservadores, como o Committee on the Present Danger [aprox. Comissão do Perigo Presente]. O relatório logo se revelou gravemente errado, mas o Team B acertava pelo menos num ponto: o relatório inicial da própria CIA estava, sim, errado. Mas estava errado na direção contrária."

Korb explicou que uma Comissão Especial de Inteligência do Senado em 1978 que revisou o relatório concluiu

"que a seleção dos membros do Team B levara a uma composição viciosa de visões e viezes políticos. E outra revisão, em 1989 concluiu que a ameaça soviética havia sido 'substancialmente superestimada' no relatório anual de inteligência da CIA (...). Nem assim o fracasso do Team B em 1976 impediu que os linhas-duras passassem os 30 anos seguintes a desafiar e desqualificar todas as avaliações produzidas pela CIA."

Hoje já perdidas no tempo, as origens do "problema" do Team B estendem-se de fato, para o passado, até as visões e viezes políticos radicais de James Burnham, sua associação com o revolucionário comunista Leon Trotsky e a criação ad hoc de grupos poderosos no establishment ocidental: a Comissão do Perigo Presente e o
American Security Council.

Desde o primeiro momento da Guerra Fria no final dos anos 1940s uma estranha coalizão de ex-radicais trotskistas e associações de negociantes e empresários de direita sempre fez lobby pesado a favor de grandes orçamentos militares, sistemas avançados de armamentos e ação agressiva para enfrentar o Comunismo Soviético. O Vietnã foi pensado para 'demonstrar' o acerto e o brilho das teorias deles, mas, como escreveu Fred Kaplan,

"o Vietnã trouxe à tona o lado obscuro de praticamente todos os que viviam dentro da máquina de segurança nacional dos EUA. E expôs algo estranho e perturbador sobre a própria empreitada na qual trabalhavam os intelectuais da Defesa. Revelou que o conceito de força subjacente a todas as formulações e cenários que construíam não passava de abstração: era praticamente imprestável como guia para a ação" (Wizards of Armageddon page. 336).

Kaplan conclui seu escrito com "Para alguns, a desilusão foi quase absoluta."

O Vietnã representou mais que apenas uma derrota estratégica para os intelectuais da defesa dos EUA: representou um
fracasso no plano conceitual na batalha de meio século para conter o comunismo de estilo soviético. Mas para o Team B, aquela desilusão representou oportunidade única que só se oferece uma vez na vida.

Intelectuais trotskistas tornam-se "Os" Intelectuais de New York, que se tornam "Os" Intelectuais da Defesa

Ocupado completamente por uma classe nascida ali mesmo de intelectuais ex-trotskistas, a abordagem do Team B marcou uma transformação radical da burocracia da segurança nacional dos EUA, num tipo novo de culto elitista.

Nos anos 1960s, os números e estatísticas reunidos por Robert McNamara justificaram decisões políticas erradas; agora, agendas pessoais e ferozes disputas inter-étnicas fariam da política exterior dos EUA uma cruzada ideológica.

Hoje, os que estão nas posições de controle daquela cruzada lutam desesperadamente para manter o próprio poder. Mas só se se decifram e compreendem-se a deriva e os movimentos desse
"duplo governo", será possível compreender a ininterrupta viagem dos EUA, depois da guerra do Vietnã, nos últimos 40 anos, em direção ao despotismo.

Preso ao que só se pode descrever como pensamento 'de culto religioso', o
experimento chamado Team B pôs fim ao que restava da objetividade profissional da CIA pré-Vietnã – e 'politizou' tudo. Antes, no início da década, o Gabinete de Pesquisa Estratégica [ing. Office of Strategic Research, OSR] da CIA fora pressionado por Nixon e Kissinger para que alterasse a análise já feita, de modo a justificar um aumento no orçamento da Defesa; mas a construção ideológica e o foco partidário militante do Team B exageraria de tal modo a ameaça, que o processo nunca mais voltou à normalidade.

A campanha foi comandada pela gangue neoconservadora russofóbica que incluía Paul Wolfowitz, Richard Pipes, Richard Perle e um punhado de linhas-duras russofóbicos anti-soviéticos[5] como Paul Nitze e o general Danny Graham. Começou com um artigo em 1974 no Wall Street Journal assinado pelo conhecido estrategista nuclear e ex-trotskista
Albert Wohlstetter que pintava em tons sombriou uma suposta vulnerabilidade nuclear dos EUA. Terminou dois anos depois, com um massacre ritualístico e a demissão de praticamente toda a CIA, assinalando o momento em que a análise baseada em ideologia, não em fatos, conquistava o completo comando sobre a burocracia governante nos EUA.

A ideologia que hoje é referida como
Neoconservadorismo pode reivindicar vários padrinhos, e até madrinhas. A reputação de Roberta Wohlstetter como destacada guerreira da Guerrra Fria da RAND igualava a do marido. As festas infames que o casal oferecia na casa de Santa Monica serviam como uma espécie de rito de iniciação para a ascenção à classe de "intelectual da defesa". Mas o título de pai fundador cabe mais a James Burnham. Saído do círculo mais íntimo de comunistas revolucionários trotskistas, o livro de Burnham, de 1941, The Managerial Revolution e o outro, de 1943, The Machiavellians: Defenders of Freedom defendia a tomada antidemocrática então em curso, na Alemanha Nazista e na Itália Fascista; e no outro livro, de 1945, Lenin's Heir, transferiu toda sua admiração, de Trotsky para Stálin, embora em meias palavras.

George Orwell criticou a versão elitista cínica da visão de Burnham em seu ensaio de 1946,
Second Thoughts on James Burnham:

"O que mais Burnham deseja mostrar [em The Machiavellians] é que jamais existiu sociedade democrática e jamais existirá. A sociedade é oligárquica por sua própria natureza, e o poder da oligarquia sempre depende de força e fraude (...) Às vezes pode ser possível obter e preservar o poder sem violência; mas jamais sem fraude."

Diz-se que Orwell teria usado como modelo para seu romance 1984 a visão de Burnham do futuro estado totalitário que descreve como "uma nova sociedade, nem capitalista nem socialista, e provavelmente baseada na escravatura."

Intelectual inglês educado em Princeton e Oxford (foi aluno de JRR Tolkien no Balliol College), Burnham obteve emprego como escritor e instrutor no departamento de filosofia na New York University, bem a tempo de assistir ao crash de 1929 de Wall Street. Embora inicialmente desinteressado de política e hostil ao marxismo, à altura de 1931Burnham já se convertera ao radicalismo empurrado pela Grande Depressão e, acompanhando seu colega também instrutor de filosofia na NYU
Sidney Hook, aproximara-se do marxismo.

Burnham considerou brilhante o modo como Trotsky usa o "
materialismo dialético" em História da Revolução Russa para explicar o jogo entre forças humanas e históricas. A resenha que publicou do livro de Trotsky aproximaria os dois e daria início a seis anos de odisseia, para Burnham, por dentro da esquerda comunista dos EUA, os quais, nessa estranha saga, acabariam por convertê-lo em agente da destruição daquela esquerda.

Criador do Exército Vermelho e marxista caloroso, Trotsky dedicara a vida à disseminação da revolução comunista pelo mundo. Stálin considerava as ideias de Trotsky desmedidamente ambiciosas e a disputa por poder que se instalou depois da morte de Lênin [1924] dividiu o partido. Por sua natureza, os
trotskyistas eram especialistas em disputas internas e infiltração. Burnham revelou-se nesse papel como intelectual trotskistas e nos infindáveis debates sobre o princípio fundamental do comunismo (materialismo dialético) por trás da cruzada de Trotsky. O Manifesto Comunista aprovava a tática de subverter partidos políticos maiores e mais populares ("entrismo"), e depois que Trotsky foi expulso do partido Comunista em novembro de 1927, seus seguidores deram bom uso ao entrismo. O caso mais bem conhecido de ação entrista foi a chamada "Virada Francesa" [ing. "French Turn"], quando, em 1934, os trotskistas franceses entraram no Partido Socialista Francês [SFIO], com a intenção de arrancar para o lado deles os elementos mais militantes.

Naquele mesmo ano, os seguidores norte-americanos de Trotsky na Liga Comunista dos EUA [ing. Communist League of EUA, CLA] fizeram uma ação entrista no Partido dos Trabalhadores da América [American Workers Party, AWP], movimento que pôs James Burnham do AWP no papel de tenente e principal conselheiro de Trotsky.

Burnham gostava da dureza dos bolcheviques e desprezava a fraqueza dos liberais. Segundo seu
biógrafo Daniel Kelly, "Orgulhava-se muito do que considerava como sua visão firme de mundo, em contraste com filosofias erguidas sobre 'sonhos e ilusões'." Também extraía grande prazer nas ações de infiltrar-se e subverter outros partidos de esquerda e, em 1935 "lutou incansavelmente pela Virada Francesa de outro Partido Socialista, muito maior, com cerca de 20 mil membros. Os trotskyistas queriam "capturar a ala esquerda e a divisão jovem, a Liga dos Jovens Socialistas [ing. Young People's Socialist League, YPSL]" – como escreveu Kelly –, e "levar com eles os convertidos quando deixassem o partido."

Burnham manteve-se como "Intelectual Trotskyista" de 1934 até 1940. Mas, embora tenha trabalhado seis anos para o partido, disseram-lhe que jamais fora do partido, e com a nova década começando, Burnham renunciou a ambos – a Trotsky e ao materialismo dialético, a "filosofia do marxismo" – numa só tacada. Em carta datada de 21/5/1940, ele resumiu os próprios sentimentos:

"Das mais importantes crenças associadas ao Movimento Marxista em qualquer de suas variantes, fosse reformista, leninista, stalinista ou trotskista, não aceito nenhuma em sua forma tradicional. Para mim, são crenças ou falsas, ou obsoletas ou sem sentido; ou ainda, em uns poucos casos, verdadeiras só em forma muito limitada e tão modificada que já nem poderiam ser ditas marxistas em sentido próprio."

Em 1976, Burnham escreveu, em carta para um agente secreto legendário, ao qual o biógrafo Kelly referiu-se como "o analista político britânico
Brian Crozier", que jamais engolira o materialismo dialético ou a ideologia do marxismo; que estava apenas sendo pragmático, dadas a ascenção de Hitler e a Depressão.

Mas dado o papel de grande influência que Burnham logo começaria a ter na nova classe revolucionária dos neoconservadores, e o papel crucial desses neoconservadores no emprego de táticas de Trotsky para fazerem lobby contra o relacionamento dos EUA com a União Soviética, é difícil acreditar que o envolvimento de Burnham com a IV Internacional de Trotsky não tivesse passado de simples exercício intelectual de pragmatismo. [Continua]

História de como os neoconservadores tomaram os EUA (4 partes)
10/5/2017, Paul Fitzgerald e Elizabeth Gould, in Truthdig e The Vineyard of the Saker

Parte 3/4 – Como a CIA inventou uma falsa realidade ocidental para sua "Guerra não convencional"[6]
Ver também

Parte 1/4 – Imperialismo norte-americano
empurra o mundo para um inferno dantesco
(Blog do Alok)

Parte 2/4 – Como os neoconservadores promovem a guerra, maquiando os livros (Blog do Alok)

Parte 4/4 – Estágio final da tomada dos EUA pelas elites maquiavélicas: de Trotsky a Burnham, de Burnham e Maquiavel ao neoconservadorismo: fecha-se o ciclo do imperialismo britânico (Blog do Alok)
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A ideologia estranha, psicologicamente conflitiva e politicamente divisionista que se conhece como Neoconservadorismo [ing.
Neoconservatism, de onde a forma reduzida "neocons"] pode reivindicar para ela muitos padrinhos nos EUA. Irving Kristol, pai de William Kristol, Albert Wohlstetter, Daniel Bell, Norman Podhoretz e Sidney Hook são nomes que logo vêm à mente, e há muitos outros. Mas, seja em teoria seja na prática, o título de pai fundador da agenda neoconservadora nos EUA – de guerra permanente [impossível não pensar no conceito de "revolução permanente" de Trotsky; para conhecê-lo nos próprios termos do autor-criador leia aqui (NTs)] – que rege o pensamento da defesa e das políticas exteriores dos EUA hoje cabe com mais propriedade a James Burnham.

Seus escritos nos anos 1930s acrescentaram um lustro de refinado intelectual de Oxford ao Partido dos Trabalhadores Socialistas; e, como conselheiro muito próximo do revolucionário comunista Leon Trotsky e de sua
IV International, Burnham aprendera na fonte as táticas e estratégias de infiltração e de subversão política. Burnham revelou-se no papel de "intelectual trotskista", sempre ativo no serviço de burlar os inimigos políticos em movimentos marxistas concorrentes, trabalhando para minar lealdades e capturar as cabeças mais talentosas.

Em 1940 Burnham renunciou a todas as formas de compromisso com Trotsky e com o marxismo, mas levaria com ele, para a nova vida, as táticas e estratégias para infiltração e subversão; e inverteria a direção do materialismo dialético, como método, fazendo-o operar contra os antigos companheiros.

Seu livro de 1941
The Managerial Revolution [A revolução dos Gerentes] lhe traria fama e o fixaria como profeta político astuto,[7] embora não muito acurado. Nesse livro, Burnham faz a crônica da ascensão de uma nova classe de elite tecnocrática. O livro seguinte, The Machiavellians, confirmaria seu movimento já distanciado do idealismo marxista, como um realismo muito cínico e não raras vezes cruel, crente aplicado do fracasso final inevitável da democracia e da ascensão dos oligarcas.

Em 1943 Burnham reuniria tudo isso num memorando para o Gabinete de Serviços Estratégicos dos EUA [ing. US Office of Strategic Services, OSS], pelo qual todo seu trotskismo e anti-stalinismo encontrariam caminho aberto direto para o pensamento daquela agência.

E em seu livro de 1947, The Struggle for the World [A disputa pelo mundo], Burnham expandiria aquela sua dialética confrontacional e adversária contra a União Soviética
ATENÇÃO e a converteria em política apocalíptica de guerra sem fim, permanente.

À altura de 1947 a conversão de James Burnham, que passara de comunista radical a conservador da Nova Ordem Mundial Norte-americana estava completa. Em Struggle for the World arrematava-se uma "Virada Francesa" [
French Turn] contra a revolução comunista permanente de Trotsky, que seria convertida em plano de batalha permanente por um império global norte-americano.

Para completar a 'dialética' de Burnham só faltava um inimigo permanente. Para construí-lo seria indispensável uma sofisticada campanha de propaganda psicológica, para manter vivo, por várias gerações de norte-americanos, o ódio à Rússia e aos russos.

A ascensão dos Maquiavelian

Em 1939 Sidney Hook, colega de Burnham na NYU e também filósofo marxista havia ajudado a fundarm um Comitê pela Liberdade Cultural [ing. Committee for Cultural Freedom] anti-Stálin para uma campanha contra Moscou. Durante a guerra, Hook também abandonara o marxismo e, como Burnham, de algum modo, logo se veria acolhido calorosamente na ala direita da comunidade de inteligência dos EUA durante e depois da 2ª Guerra Mundial. Hook foi visto pelo Partido Comunista como traidor e "réptil contrarrevolucionário" por suas atividades e em 1942 já fornecia informações ao FBI sobre os seus camaradas.

Convencer as elites europeias, empobrecidas e sem poder, das virtudes da cultura dos EUA era essencial para erguer o império norte-americano depois da guerra, e os primeiros escritos de Burnham forneceram a inspiração a partir da qual seria construída uma contracultura de "Liberdade". Veteranos de incontáveis lutas internas entre os trotskistas, ambos, Burnham e Hook tinham importante experiência nas artes da infiltração e da subversão, e com o livro "Os Maquiavélicos: Defensores da Liberdade" [ing.
The Machiavellians: Defenders of Freedom] de Burnham como plano e guia, os dois puseram-se imediatamente a pintar com as cores mais sinistras tudo que os soviéticos dissessem ou fizessem.

Como Burnham expôs muito articulada e claramente no livro Machiavellians, sua versão de Liberdade significava qualquer coisa menos a liberdade intelectual ou as liberdades definidas na Constituição dos EUA. Ela só significava, realmente, conformidade e submissão. A Liberdade, para Burnham, aplicava-se só aos intelectuais (os Maquiavélicos) dispostos a dizer ao povo a dura verdade sobre as realidades nada populares que o povo enfrentava. Essas verdades serviriam como chave de entrada para um novo bravo novo mundo de uma classe de 'administradores', de gerentes, que passaria a se dedicar a negar aquela democracia que eles acreditavam que já possuíssem. Como Orwell observou falando das crenças dos maquiavélicos de Burnham, em seu ensaio de 1946 Second Thoughts, "o Poder pode em alguns casos ser obtido ou mantido sem violência, mas jamais sem fraude, porque a fraude é indispensável para manobrar as massas (...)".

Em 1949, a CIA estava ativíssima no business de mentir às massas, apoiando secretamente a chamada esquerda não comunista, e agindo como se ela fosse apenas um ramo brotado espontaneamente de uma sociedade livre. Ao converter a esquerda e pô-la a serviço da expansão do próprio império, a CIA estava aplicando uma "Virada Francesa" dentro de casa, pode-se dizer, e ali mesmo recolhendo
os melhores e mais brilhantes. A criação do Estado de Segurança Nacional, em 1947, institucionalizou o movimento. Com a ajuda do Departamento de Informação e Pesquisa [ing. Information Research Department, IRD] britânico, a CIA recrutou ex-agentes chaves dos soviéticos treinados antes da guerra, que haviam administrado, a serviço de Moscou, grupos não comunistas de frente, e os haviam posto também a serviço de Moscou.

Como Frances Stoner Saunders escreve em seu livro A Guerra Fria Cultural [
The Cultural Cold War], "aqueles ex-propagandistas a favor dos sovietes foram reciclados, lavados e desinfetados até que não restasse neles nenhuma nódoa de comunismo, e acolhidos pelos estrategistas do governo, que viam no contato com eles uma oportunidade irresistível para sabotar a máquina soviética de propaganda que aqueles mesmos agentes haviam um dia feito operar."

A própria CIA admite que essa estratégia de promover a esquerda não comunista se tornaria o fundamento teórico das operações políticas da Agência contra o comunismo ao longo das duas décadas seguintes. Mas a guerra cultural sem limites contra o comunismo soviético começou logo, a pleno vapor, em março de 1949, quando um grupo de 800 destacadas figuras literárias e artísticas reuniram-se no Hotel Waldorf em New York para uma conferência "Cultural e Científica" patrocinada pelos soviéticos, que pregaria a paz. Ambos, Sydney Hook e James Burnham já estavam ativamente envolvidos em recrutar novos agentes para se contrapor aos esforços para influenciar a opinião ocidental, do Gabinete Comunista de Informação de Moscou [ing. Communist Information Bureau's (Cominform)]. Mas a conferência no Hotel Waldorf caiu sobre eles como presente inesperado e oportunidade para os mais sujos do arsenal de truques sujos da dupla.

Manifestantes organizados pela ala direita de uma coalizão de grupos católicos e a Legião Norte-Americana cercaram os convidados quando chegaram. Freiras católicas puseram de joelhos a rezar pela alma dos ateus comunistas presentes. Reunida numa suíte nupcial no 10º dandar do hotel, uma gangue de ex-trotskistas e ex-comunistas liderada por Hook interceptou a correspondência da conferência, comandou os releases 'oficiais' para a imprensa e distribuiu panfletos desafiando os conferencistas a assumir o próprio passado comunista.

No final, a conferência virou um teatro do absurdo. Hook e Burnham a usariam para convencer
Frank Wisner no Gabinete de Coordenação Política da CIA, a não deixar que aquela chama se apagasse e a pôr na estrada aquele mesmo show.

O Congresso pela Liberdade Cultural: por bem ou por mal[8]

Confiante no poder não abalado da IV Internacional, o evento seguinte aconteceu dia 26/6/1950 no Palácio Titania em Berlin ocupada. A partir sempre do conceito de Hook de 1939 para um comitê cultural, o 14º item do "Manifesto Liberdade" emitido pelo
Congress for Cultural Freedom ordenava que todos trabalhassem para identificar "Ocidente" e "Liberdade". E dado que tudo que tivesse a ver com o Ocidente passou então a ser dito livre, simultaneamente tudo que tivesse a ver com a União Soviética passou a ser dito não livre.

Organizada por Burnham e Hook, a delegação dos EUA reunia o crème de la créme dos intelectuais norte-americanos do pós-guerra. As passagens para Berlin foram pagas pelo Gabinete de Coordenação Política de Wisner, que se serviu de organizações de fachada e pelo Departamento de Estado que ajudou a viabilizar a viagem e pagou despesas e publicidade. Segundo o historiador da CIA Michael Warner o patrocinador da Conferência consideou muito bem gasto aquele dinheiro, e um representante do Departamento de Defesa definiu o evento como "guerra não convencional da melhor qualidade."

Burnham funcionou como conexão criticamente importante entre o gabinete de Wisner e a intelligentsia movendo-se sem dificuldade da extrema esquerda à extrema direita.

Burnham percebeu que o Congresso seria lugar ideal do qual falar não apenas contra o comunismo, mas também contra a esquerda não comunista e levou muito a conjecturar se suas ideias não seriam tão daninhas para a democracia liberal quanto o próprio comunismo. Segundo Frances Stoner Saunders, membros da delegação britânica acharam que a retórica que se ouvia no Congresso podia ser sinal terrivelmente preocupante do que estava por vir.

"Hugh Trevor-Roper ficou horrorizado com o tom de provocação (...)

Houve um discurso, de
Franz Borkenau que lhe pareceu'muito violento, de fato quase histérico. Ele falou em alemão, e lamento dizer que conforme o ouvia falar e ouvia as vozes e gritos de aprovação das grandes massas, senti, ora... que eram as mesmas pessoas que sete anos atrás provavelmente berravam denúncias contra comunistas e o comunismo saídas diretamente do Dr. Goebbels no Sports Palast. E senti que... Com que tipo de gente, afinal, estamos sendo identificados? Para mim, esse foi o maior choque. Houve um momento durante o Congresso que senti que nos mandavam seguir Belzebu, para conseguir derrotar Stalin'."

O Congresso pela Liberdade Cultural não precisou de outro Belzebu, porque já contava com um, sob a forma de Burnham, Hook e Wisner, e à altura de 1952 a festa só começava. Burnham trabalhou incansavelmente para Wisner, legitimando o Congresso como uma plataforma para os Maquiavélicos, ao lado de ex-comunistas e até de nazistas, dentre os quais o general alemão
SS General Reinhard Gehlen e sua unidade de inteligência do Exército Alemão que fora incorporada intacta à CIA depois da guerra. E. Howard Hunt, o 'encanador' que adiante trabalharia no edifício Watergate, já famoso por seus muitos truques sujos a serviço da CIA, lembra de Burnham em suas memórias: "Burnham era consultor da OPC para virtualmente qualquer assunto que nos interessasse (...) Tinha muitos contatos na Europa e, graças ao seu passado trotskista, era como uma autoridade em tudo que tivesse a ver com com partidos comunistas nos EUA e pelo mundo, e organizações de frente."

Em 1953, Burnham foi convocado por Wisner para ampliar a luta, além do combate aos comunistas, e ajudar a derrubar o governo democraticamente eleito de Mohammed Mossadegh em Teerã, porque Wisner entendia que o plano carecia de "um toque de Maquiavel".

Mas a maior contribuição de Burnham como "maquiavélico" ainda estava para começar. O livro dele, The Machiavellians: Defenders of Freedom viria a se tornar o manual da CIA para promover a substituição dos valores da cultura ocidental por uma doutrina alternativa, de ideias mal costuradas de conflito infinito, num mundo governado por oligarcas, que adiante escancararia as portas de um Inferno horrendo, do qual não haveria retorno. [Continua]

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História de como os neoconservadores tomaram os EUA (4 partes)
10/5/2017, Paul Fitzgerald e Elizabeth Gould, in The Vineyard of the Saker

Parte 4/4 – Estágio final da tomada dos EUA pelas elites 'maquiavélicas': de Trotsky a Burnham e de Burnham e 'Maquiavélicos' ao neoconservadorismo: fecha-se o ciclo do imperialismo britânico[9]
 
Ver também

Parte 1/4 – Imperialismo norte-americano
empurra o mundo para um inferno dantesco
(Blog do Alok)

Parte 2/4 – Como os neoconservadores promovem a guerra, maquiando os livros (Blog do Alok)

Parte 3/4 – Como a CIA inventou uma falsa realidade ocidental para sua "Guerra não convencional" (Blog do Alok)
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A recente
afirmativa, pela Casa Branca de Trump de que Damasco e Moscou teriam distribuído "falsas narrativas" para desviar a atenção do mundo, de modo a que ninguém visse o ataque com gás sarin dia 4 de abril em Khan Shaykhun, Síria, é perigoso passo adiante na guerra de propaganda em torno de "fake news" lançada nos últimos dias do governo Obama. E é passo cujas raízes profundas na IV Internacional Comunista de Trotsky [muito mais, isso sim, de 'seguidores-deformadores' de Trotsky (NTs)] têm de ser bem compreendidas, antes de se decidir quanto ao que realmente se passa aí.

Agitando o lodo para turvar as águas com empenho jamais visto desde os anos do senador Joe McCarthy e do "Medo Vermelho" [ing. Red Scare] nos anos 1950s, a "Lei de Combate à Desinformação e à Propaganda" [ing.
"Countering Disinformation and Propaganda Act" assinada e convertida em lei quase clandestinamente por Obama em dezembro de 2016 autoriza oficialmente a ação de uma burocracia de censores só comparável ao Ministério da Verdade que George Orwell nos mostra em seu romance 1984.

Referido como Centro de Engajamento Global (ing.
"The Global Engagement Center"), o objetivo oficial da nova burocracia será "reconhecer, compreender, expor e trabalhar contra propaganda e desinformação promovida por estados e entidades não estatais estrangeiras que visem a agredir interesses da segurança nacional dos EUA." Mas o objetivo real desse centro absolutamente orwelliano será gerir, eliminar ou censurar qualquer visão que desafie a versão recentemente produzida em Washington da sua neoverdade; e intimidar, abusar ou encarcerar qualquer um que tente.

Como já demonstrado pelo ato do presidente Trump de disparar mísseis Tomahawk contra uma base aérea do governo sírio, é receita para guerra mundial e, gostemos ou não, essa guera já começou.

Esse mais recente ataque contra narrativas supostas falsas dos russos nos leva diretamente de volta para 1953 e o início da guerra cultural entre Leste e Oeste. As raízes dessa guerra estão no Congresso para Liberdade Cultural; no movimento de pivô, de James Burnham, saindo da IV Internacional de Trotsky para a ala direita dos conservadores; e na ascenção dos Maquiavelian de Burnham como força política.

Como se lia já no livro
A luta pelo mundo [The Struggle for the World] de James Burnham, a 3ª Guerra Mundial já havia começado com a revolta dos marinheiros gregos de 1944 liderada pelos comunistas. No pensamento maniqueísta de Burnham, o ocidente estaria sitiado. A política de contenção da Guerra Fria, de George Kennan, não era diferente da política de appeasement [aprox. 'acalmamento': pacificação superficial (NTs)] de Neville Chamberlain. A détente com a União Soviética foi rendição. A paz não passaria de disfarce sob o qual se escondia a guerra de sempre, com a diferença de que a arma de guerra passava a ser a política, a subversão, o terrorismo e a guerra psicológica. A influência dos soviéticos tinha de ser detida e obrigada a retroceder em todos os pontos e aspectos da vida. Implicava subverter a União Soviética e aliados. E, implicava também, quando considerado necessário, subverter também democracias ocidentais.

A grande ironia dos esforços a que assistimos hoje, de Washington, nos estágios finais dos esforços para monopolizar a "verdade" e atacar todas e quaisquer narrativas alternativas não é tanto o desprezo absoluto por qualquer genuína liberdade de manifestação ou genuína liberdade de expressão. A maior ironia é que todo o "Manifesto Liberdade" que os EUA e Grã-Bretanha usam desde a 2ª Guerra Mundial jamais teve ou pregou qualquer tipo de liberdade real: sempre se tratou de venenosa sopa de conceitos elaborados em
Psychological Strategy Board's (PSB) da CIA –, programa de ampla guerra psicológica que a CIA há muito tempo distribui pelo mundo – uma guerra que é feita igualmente contra amigos e inimigos.

A CIA passaria a ver todo o programa iniciado com a Conferência de Berlim em 1950 como um marco na Guerra Fria, não só porque consolidou o controle da CIA sobre a esquerda não comunista e os intelectuais "livres" do ocidente, mas, também, porque capacitou a Agência para aprofundar o distanciamento entre europeus e americanos de um lado, e as respectivas próprias culturas locais de outro, de modo que nem eles próprios poderiam realmente compreender nem – e muito menos – criticar.

Como escreveu o historiador
Christopher Lasch em 1969, sobre a cooptação pela CIA da esquerda norte-americana,

"O estado [capitalista] moderno (...) é uma máquina de propaganda que, alternadamente, fabrica crises e pretende que seria o único instrumento capaz de efetivamente lidar com aquelas crises. Essa propaganda, para ser bem-sucedida, exige a cooperação de escritores, professores, artistas [jornalistas], não como propagandistas pagos ou funcionários do estado voluntários ou obrigados, mas, sim, como intelectuais 'livres' capazes, cada um de policiar o próprio 'público', e de implantar no âmbito dessas diferentes profissões intelectuais, padrões aceitáveis de 'responsabilidade'."

Fator crucial para converter esses intelectuais "livres" em agentes contrários aos seus próprios interesses foi o programa doutrinário da CIA para transformar culturalmente o Ocidente, e que está contido no documento
PSB D-33/2. PSB D-33/2 antevê um "movimento intelectual de longo prazo para: romper padrões de pensamento doutrinário já mundiais" [o que seria obtido] "criando confusão, dúvida, perda de confiança" [com o objetivo de] "debilitar objetivamente o apelo intelectual da neutralidade e predispor os adeptos [orig. adherents] a aceitar o espírito do Ocidente"; predispor elites locais a aceitar a filosofia incorporada nos planejadores", ao mesmo tempo em que usar elites locais "ajudará a encobrir a origem norte-americana do esforço, de tal modo que pareça ser desdobramento local."

Apesar de se autoapresentar como antídoto contra o totalitarismo comunista, um dos críticos internos desse programa, o funcionário do PSB Charles Burton Marshall, via o PSB D-33/2 como assustadoramente totatiltário, ao interpor "um amplo sistema doutrinário" que "aceita a uniformidade como substituto aceitável da diversidade", que cobre "todos os campos do pensamento humano – todos os campos do interesse intelectual, da antropologia e criação artistica até a sociologia e a metodologia científica"; para concluir: "Nada poderia ser mais totalitário que isso."

O elitismo dos 'maquiavélicos' à Burnham é visível em cada entrelinha ou sombra do documento. Como se lê no livro de Frances Stoner Saunder, The Cultural Cold War,

"Marshall também partilhou a confiança que se constata no PSB em 'teorias sociais não racionais', que enfatizavam o papel de uma elite', num modo que faz lembrar Pareto, Sorel, Mussolini e outros'. E não são esses os modelos usados por James Burnham em seu livro Machiavellians? É muito provável que houvesse por lá um exemplar à mão, quando o PSB D-33/2 estava sendo redigido. Mais provavelmente, tinham ali, à mão, o próprio James Burnham."

Burnham estava mais que apenas à mão, quando se tratou de implantar secretamente uma filosofia de elitismo extremo na ortodoxia da Guerra Fria dos EUA. Com The Machiavellians, Burnham havia construído o manual que punha lado a lado a velha esquerda trotskysta e a elite anglo-americana de direita. O fruto dessa união volátil seria chamado de neoconservadorismo, cuja missão declarada seria fazer retroceder a influência soviética/russa onde quer que houvesse sinal dela. A missão clandestina, ocultada sob a missão declarada, seria reafirmar a dominação cultural britânica sobre o emergente império anglo-norte-americano e mantê-la mediante propaganda ininterrupta.

Porque o Departamento (secreto) de Pesquisa de Informação [Information Research Department, IRD] do Ministério de Relações Exteriores da Grã-Bretanha e da Commonwealth já trabalhava duro nessa tarefa desde 1946.

Raramente citado no contexto das operações secretas financiadas pela CIA, o IRD serviu como unidade clandestina de propaganda anticomunista, de 1946 até 1977.

Segundo Paul Lashmar e James Oliver, autores do livro
Britain's Secret Propaganda War,

"a vasta empreitada que foi o IRD tinha um único objetivo: disseminar a propaganda que o órgão produzia sem cessar (i.e. um mix de mentiras descaradas e fatos distorcidos) entre jornalistas dos principais veículos que trabalhavam para as principais agências e revistas, dentre as quais Reuters e BBC, e para todos e quaisquer outros canais possíveis. Trabalhava no exterior para desacreditar os partidos comunistas na Europa Oriental que pudessem aspirar a obter alguma parcela de poder mediante processos inteiramente democráticos; e trabalhavam na Grã-Bretanha para desacreditar a esquerda britânica."

Esse Departamento de Pesquisa e Informação viria a ser uma máquina que quanto mais mentiras produzia mais se reabastecia de mentiras com as quais alimentava a extrema-direita da elite da inteligência internacional –, oferecendo informação inventada e distorcida para veículos "independentes" de notícias e simultaneamente se servindo das mesmas 'notícias' assim distribuídas como "prova" da veracidade da história inventada. Uma das empresas de fachada criadas para produzir falso 'noticiário' criada com dinheiro da CIA foi Forum World Features, operada por um seguidor de Burnham,
Brian Rossiter Crozier.

Descrito por Daniel Kelly, biógrafo de Burnham como "analista político britânico", verdade é que o legendário Brian Crozier operou por mais de 50 anos como um dos principais
propagandistas e agentes secretos britânicos.

Se hoje ainda há quem se choque com opiniões enviesadas, xenofóbicas a denunciar incansavelmente alguma 'influência' russa sobre as eleições presidenciais de 2016 nos EUA, basta examinar a prateleira de trabalhos de Brian Crozier e ali encontrará todos os mapas de todos os caminhos do que continua a ser feito como ele planejou. Como nos disse um importante e conhecido oficial militar norte-americano durante a primeira guerra no Afeganistão em 1982, os EUA "não precisaram" de prova alguma de que os soviéticos usaram gás venenoso". – Exatamente como hoje não precisam de prova alguma para dizerem o que bem entenderem contra a Rússia.

Crozier é mais adequadamente descrito como sonhador delirante, imperialista perigoso que
atua e faz acontecerem as suas fantasias  à luz do dia e de olhos abertos. Desde o início da Guerra Fria até a morte, em 2012, Crozier e seu protegido Robert Moss fizeram propaganda a serviço dos ditadores militares Francisco Franco e Augusto Pinochet, organizaram grupos privados de inteligência para desestabilizar governos no Oriente Médio, Ásia, nas áreas latinas dos EUA e na África; além de trabalharem para deslegitimar políticos na Europa e na Grã-Bretanha que não lhes parecessem suficientemente anticomunistas. Missão do Instituto para Estudo de Conflitos [ing. Institute for the Study of Conflict (ISC)] de Crozier, inaugurado em 1970 era expor uma suposta campanha da KGB para subversão planetária e distribuir matérias para desmoralizar – como idiota, traidor ou espião comunista – quem criticasse o Instituto.

Crozier considerava o livro The Machiavellians uma das principais influências formativas em seu próprio desenvolvimento intelectual; em 1976, escreveu que "na verdade, foi esse livro, mais que todos os demais, que pela primeira vez ensinou-me como [ênfase Crozier] pensar em política ". A chav e do pensamento de Crozier foi a distinção demarcada por Burnham entre significado "formal" do discurso político e o "real" – conceito que, claro, só as elites compreendiam bem. Em artigo de 1976, Crozier falou entusiasticamente sobre o modo como Burnham compreendia acertadamente a política, que lhe permitira varrer 600 anos de história; e o quanto o uso do "formal" para ocultar o "real" permanecia o mesmo, hoje, que havia sido quando usado pela mente medieval "presumivelmente iluminada de Dante Alighieri".

"O ponto é tão válido hoje quanto foi nos tempos antigos e nas Idades Média florentinas, ou em 1943. Impressionante, que autores e oradores políticos usem ainda tanto o método de Dante. Dependendo do gráu de obnubilação exigido (pelas circunstâncias ou pelo caráter da pessoa), o divórcio entre o significado formal e o formal é mais ou menos absoluto."

Mas Crozier foi mais que apenas pensador estratégico. Foi
agente político secreto de alto nível, que pôs o talento de Burnham para a ocultação e a obnubilação e sua experiência na IV Internacional a serviço de minar a détente e preparar o cenário para destruir a União Soviética.

Em reunião secreta num banco na City em Londres, em fevereiro de 1977 Crozier chegou a patentear uma organização de inteligência operacional do setor privado conhecida como a 6ª International (6I), para retomar as operações do ponto em que Burnham as deixara; politizar e, claro, privatizar muitos dos truques sujos que a CIA e outros serviços estatais de inteligência não podiam mais nem fazer nem ser apanhados fazendo. Como explicou em suas memórias Free Agent, o nome "6I" foi escolhido "porque a 4ª Internacional rachou. A 4ª Internacional era a trotskista, e quando rachou foi como se, no papel, houvesse cinco Internacionais. No jogo dos números, seríamos a 6ª Internacional, ou '6I'."

A cooperação de Crozier com numerosos vários "Congressistas hábeis e diligentes", bem como com "o notável general Vernon ('Dick') Walters, recentemente aposentado como vice-diretor da Inteligência Central (...) "cimentou a ascenção dos neoconservadores. Quando Carter afinal cedeu ao Team B e ao complô de seu Conselheiro de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski para atrair os sovietes para um Vietnã só deles no Afeganistão, ele completou a missão de Burnham e entregou o mundo aos Machiavellians sem que ninguém sequer percebesse. Como George Orwell escreveu em Second Thoughts on James Burnham, "O que mais Burnham deseja mostrar [em The Machiavellians] é que jamais existiu sociedade democrática e jamais existirá. A sociedade é oligárquica por sua própria natureza, e o poder da oligarquia sempre depende de força e fraude (...) Às vezes pode ser possível obter e preservar o poder sem violência; mas jamais sem fraude."

Hoje, o uso que Burnham deu ao tratado político de Dante, De Monarchia para explicar o entendimento medieval que tinha da política pode ser mais bem-sucedido se se usa a Divina Comédia de Dante, comédia de erros paranoica, na qual a porta do inferno abre-se para todos, inclusive para as elites, indiferente ao status. Ou como se lia gravado em pedra sobre o portão de entrada do Inferno, Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate. "Abandonai, ó vós que entrais, toda a esperança!"*********


NOTAS

[1] Orig. Thruthdig em ing. Ilustração: "Portal do Inferno", de Gustave Doré, para Dante Alighieri, "Inferno", Divina Comédia.
[2] Esse grupo Time-Life tem presença ativíssima no nascimento do Grupo Globo, BR, em 1962:
"No dia 24 de julho de 1962, Roberto Marinho firmou um acordo de assistência técnica com o grupo de comunicação norte-americano Time-Life, proprietário de alguns canais locais de TV nos Estados Unidos. (...) Apesar de o contrato, garantir que Time-Life não teria qualquer interferência direta ou indireta na direção ou administração da TV Globo, sua legalidade foi questionada pelo então governador do Rio, Carlos Lacerda (...). A briga foi parar no Congresso e na televisão. O argumento dos inimigos do acordo era de que o contrato feria o artigo 160 da Constituição brasileira, que proibia a participação de capital estrangeiro na gestão ou propriedade de empresas de comunicação. Roberto Marinho enfrentou uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), instaurada em 1965 para verificar a constitucionalidade do contrato. Dois anos depois, o acordo foi considerado legal" [Encontra-se informação valiosa sobre esse processo, que acompanha passoa a passo a gestão do golpe de 1964-1968, em SILVA, Carlos Eduardo Lins da, 1985, Muito Além Do Jardim Botânico.Um estudo sobre a audiência do Jornal Nacional da Globo entre trabalhadores, São Paulo: Summus Editora [em https://www.skoob.com.br/livro /14831#_=_ (NTs)]
[3] Orig. em ing. Ilustração: An 1898 cartoon features newspaper publishers Joseph Pulitzer and William Randolph Hearst dressed as a cartoon character of the day, a satire of their papers’ role in drumming up EUA public opinion for war by Leon Barritt (Wikimedia))https://commons.wi kimedia.org/wiki/File:Pulitzer HearstWarYellowKids.jpg
[4] Para compreender o argumento q se desenvolve nesse artigo, é preciso saber (ou recordar) a luta feroz, sangrenta, que se travou por todo o planeta entre Stálin e Trotsky (q Stálin conseguiu afinal assassinar à distância, dia 21/8/1940, em Coyoacán, México). Alguma coisa dos fundamentos históricos (mais do que teóricos, embora também haja diferenças teóricas de interpretação do marxismo) dessa luta aparece em O Trotskismo a Serviço da CIA Contra os Países Socialistas. MARTENS, Ludo, 20/10/1992, em marxists.org. Mas é discussão política e histórica muitíssimo complexa, que nos artigos aqui traduzidos é só apontada, muito de longe.

Nesse artigo, os autores argumentam que o deslizamento das agências de segurança nacional dos EUA na direção do totalitarismo e do belicismo e da fúria contra a Rússia – que hoje se manifestaria de modo tão terrível na loucura contra Putin – teria sido induzido (se não diretamente causado) pela infiltração, naqueles órgãos, nos anos 50, de um grupo de intelectuais trotskistas [furiosamente anti-stalinistas]. Interessante. Mas é preciso saber muito, de várias coisas, para que se possa avaliar mais corretamente o argumento aqui desenvolvido, e ver nele algum efetivo ponto de vista de 'equilibração' – o qual, nessa questão, implica esclarecer posições históricas de Stálin (e até de Mao Tse Tung). Interessantíssimo, sem dúvida, mas trabalhosíssimo ! [NTs]
[5] Nesse argumento há um quase imperceptível deslizamento de significados: até aqui, o argumento só falava de trotskistas, os quais absolutamente jamais foram russofóbicos, nem anti-soviéticos: sempre foram, isso sim, furiosamente anti-Stálin. Por causa de deslizamentos desse tipo, é que o argumento desenvolvido nesse artigo está sempre pendurado por um fio... [NTs]
[6] Orig. ing. Ilustração "The Evil Spirits of the Modern Day Press" [Os Espíritos Malignos da Imprensa de Massas Diária]. Puck (revista norte-americana), 1888).
[7] Nesse "O profeta astuto" ouvem-se ecos dos títulos dos três volumes da monumental biografia de Trotsky, escrita por Isaac Deutcher: O profeta armado [1879-1921] (1954), O profeta desarmado [1921-1929] (1953) e O profeta banido [1929-1940] (1963) [NTs].
ATENÇÃO A dialética confrontacional e adversária de Trotsky não é "contra a União Soviética", mas concentradamente anti-Stálin. Se a dialética confrontacional e adversária desse Burnham for mesmo "contra União Soviética", os autores desse ensaio ficam nos devendo pelo menos uma 'passagem' do argumento: como, quando, por quais artes, o movimento trotskista anti-Stálin teria sido convertido em movimento anti-soviéticos e, em seguida, em movimento xenófobo anti-russos nos EUA. Quando? (NTs)
[8] Orig. "By Hook or by Crook", trocadilho intraduzível, com o nome de [Sidney] Hook e a palavra crook. Em 2017, a palavra "crooked" [torto/torta, pervertido/pervertida, dado/dada a trapacear] reapareceu no léxico político de campanha eleitoral nos EUA, aplicada por D.Trump à sua concorrente (crooked) Hillary [NTs].
[9] Orig. ing. Ilustração: Capa da edição de 1550 de Il Principe i La Vita di Castruccio Castracani da Lucca, de Maquiavel.


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