quarta-feira, 17 de maio de 2017

17/5 - Que sentido haveria em se opor aos soberanismos?



FONTE:Castor Filho <castorfilho@yahoo.com>



Que sentido haveria em se opor aos soberanismos?
Jacques Sapir responde a Eric Zemmour 16/5/2017, Le Causeur, Paris

Eric Zemmour acaba de publicar em Le Figaro Magazine de 12 de maio, sua análise da eleição presidencial. É análise simplista, mas é direito dele. Põe em discussão o que escrevi, mas sem cair no balde, melhor dizendo, na banheira em que se afogou um artigo do Monde – com sugestões antissemitas, como alguém já observou – publicado pouco antes do primeiro turno.

Vamos aos fatos. Sou acusado de "gerenciar o cérebro de Florian Philippot". Mas, que diabo?! Mme Bacqué acusou-me
de gerenciar o cérebro de Vladimir Putin. É demais para um só homem. Além de ser bem pouco lisonjeiro para os senhores Putin e Philippot, cuja autonomia intelectual é negada, não é verdade e nem pode ser levado a sério. É como se o hábito de participar de incontáveis "talk-shows" já estivesse tendo efeitos danosos sobre Eric Zemmour, como o vício de preferir a frase feita, para se 'fixar' na cabeça do telespectador, à análise mais aprofundada. E já me manifestei sobre a questão da laicidade e as questões dos "signos religiosos", tanto na grande imprensa como em outros espaços.

Eric Zemmour prefere a fórmula à substância, mas, pior que isso, parou de ler. O que é péssimo. Já há anos ampliei minha análise dos problemas da soberania, de questões econômicas – e assim também
da questão do euro – e das questões políticas e filosóficas. No fundo, a tese defendida por Eric Zemmour não é novidade: escolher um soberanismo dito "identitário" contra um soberanismo social. Mas essa oposição e respectiva escolha prende o soberanismo à margem e fora da política francesa.

As três correntes do soberanismo

O soberanismo é atravessado claramente, de fato, não por duas correntes, como assinalou Alexandre Devecchio, mas por três correntes.

A primeira é o soberanismo social. Enraíza-se na constatação de que todo progresso social implica que a comunidade nacional seja soberana, que não pode haver progresso social sem uma economia voltada para o maior número de pessoas, não para fazer crescer a riqueza dos mais ricos. Devecchio analisa o atual estado de fato como produto das regras da mundialização e da globalização financeira,
* daí que a moeda única, o euro, seja o ponto de articulação no seio da União Europeia. Por isso ataca esse estado de fato e exige "em nome do povo" e mais exatamente em nome dos trabalhadores que onde o emprego lhes tenha sido tirado, o emprego lhes seja devolvido, e a volta a uma soberania monetária inscreve-se no retorno global a uma soberania política.

A segunda corrente é o soberanismo político. As raízes, aí, vão até as regiões mais profundas da história da França. A preocupação nesse caso é com o Estado soberano como representante do povo (desde 1789). Essa corrente analisa a construção da União Europeia não como processo de delegação de soberania, mas como processo de cessão de soberania: a soberania nesse caso não seria delegada a outrem, mas cedida. Ora, soberania não é algo que possa ser cedida. E daí se deduz a natureza profundamente antidemocrática do processo europeu. Observa-se que essa natureza profundamente antidemocrática revelou-se no tratamento que as instituições da União Europeia e da Eurozona reservaram à Grécia. Esse soberanismo político, que Philippe Seguin ou Marie-France Garaud encarnaram, manifestou-se com força na Grã-Bretanha com o referendo que confirmou o Brexit. Esse soberanismo político é logicamente aliado do soberanismo social.

A terceira corrente prega o que se pode chamar de um soberanismo identitário. Partindo de uma reação espontânea nos casos em que a cultura seja posta em causa, seja na dimensão "cultural", em sentido vulgar, seja nas dimensões política e de culto, é corrente ao mesmo tempo muito vivaz e muito forte, mas também menos bem menos construída que as duas primeiras. Pode derivar na direção de teses xenófobas, até racistas. Mas põe-se questões que são as mesmas do soberanismo político.

Reunidos, os soberanistas são a maioria

Fazer oposição às demais correntes e optar pela temática identitária, equivale a descartar o que o soberanismo contém de realmente crítico contra o sistema. Porque o soberanismo identitário não é absolutamente incompatível com a ordem das coisas como as temos hoje, com a União Europeia e com o neoliberalismo. O soberanismo social e o soberanismo políticos, por sua vez, trazem uma crítica radical àquela mesma ordem de coisas. É quando se vê revelado, claramente, o jogo conservador, seja ideologicamente seja politicamente.

Nas grandes manobras que se anunciam para o desmonte da Frente Nacional [de Marine Le Pen], muitos sonham com fazer a FN voltar à posição de supletiva da direita tradicional. Esse é exatamente o sonho dourado de Macron: que a Frente Nacional devolvida à velha linha identitária esterilize uma parte das vozes da direita, o que deixará o campo politicamente livre para que ele, Macron, cuide de recompor à sua moda, a direita. O que Eric Zemmour acaba de fazer foi, conscientemente ou não, acrescentar sua contribuição à empreitada de Macron.

Macron precisa de uma Frente Nacional que volte a ser a própria caricatura dela mesma, para dar credibilidade ao golpe-armadilha da demonização na qual já conseguiu apanhar os franceses, nas eleições. Ou europeístas desejam empenhadamente, é claro, qualquer tipo de transformação que torne perenes as divisões e rachas entre os soberanistas.

Porque o que mais temem, acima de tudo, os apoiadores de Macron – que são menos de ¼ dos franceses (24%) – é que os soberanistas venham a tomar consciência de que são a maioria.

Somados, os soberanistas obtiveram explicitamente mais de 47% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial. Votaram a favor de posições muito claras e coerentes. E se Marine le Pen errou, foi com certeza ao abandonar essa coerência: seja quanto à idade para aposentadoria ou seja de oposição ao euro, na véspera do 2º turno –, para ceder a uma inútil agressividade verbal quando do debate pela TV, que pôs a perder todo o longo trabalho até ali bem-sucedido, de desdemonização.*****


* Orig. des règles de la mondialisation et de la globalisation financière . Os franceses usam com cuidado cirúrgico as palavras "mundialização" e "globalização". Fazem bem! (NTs).



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