quarta-feira, 17 de maio de 2017

17/5 - A situação geral no Oriente Médio

FONTE:Castor Filho <castorfilho@yahoo.com>


Duas palavras sobre a situação geral no Oriente Médio

2/5/2017, Said Hassan Nasrallah, excerto (vídeo, 15'55'') Transc. e trad. ao francês, em Said Hassan.

A primeira coisa da qual temos de falar, sobre a situação geral na região é a luta pela liberdade e a dignidade feita hoje por 1.500 prisioneiros palestinos... Entramos hoje no 16º dia dessa greve de fome, que a rua palestina apoia integralmente e com a qual se solidariza, seja dentro (da Palestina ocupada) seja fora, por todo o mundo.

Como sempre, claro, nós também apoiamos e nos unimos a eles, e anunciamos nossa firme solidariedade, total, com essa ação de djihad e de resistência muito forte empreendida hoje pelos prisioneiros palestinos e suas reinvindicações legítimas e esperáveis. Mas é nossa tarefa, também, extrair dessa ação tudo que ela nos possa ensinar sobre o que ali se passa.

Quanto à primeira questão, sobre a situação da região, tenho dois pontos a desenvolver.

Primeiro, a primeira lição a extrair do que se vê acontecer ali, é que é possível construir uma via política permanente. Claro, Israel finge que não ouve e não vê (...) Não querem negociar nem responder ao que reivindicam os palestinos.

Os prisioneiros palestinos não estão reivindicando a libertação da Palestina, nem a libertação de Al-Quds (Jerusalém). Eles reivindicam direitos que são direitos naturais de todos os prisioneiros, direitos humanos básicos. Israel faz que não ouve e, como de hábito, conta com que o tempo corre a favor dela, conta com o cansaço e com o recuo dos prisioneiros palestinos, desejando crer que esse movimento seria apenas uma erupção passageira, sem qualquer resultado.

Precisamente o que se deve esperar de Israel, nosso inimigo usurpador, terrorista, ocupante. Mas considerem o resto do mundo. Observem o resto do mundo. Onde estão os regimes árabes? Onde estão os povos árabes? Onde está a União dos Países Árabes? Onde está a Organização dos Estados Islâmicos, a Organização de Cooperação Islâmica? E o resto do mundo? E a Europa? Onde está o Ocidente? Onde está a ONU? Onde está o Conselho de Segurança? Todos esses que tão rapidamente tanto se mostram indignadíssimos nos casos mais triviais que acontecem num ou noutro ponto do mundo, onde estão todas essas vozes? A greve de fome dos prisioneiros palestinos chega já ao 16º dia... e nada se ouve sobre ela pelo mundo, nada de nada.

Na cerimônia em homenagem aos dirigentes mártires, falei um pouco sobre isso, disse que nos levaram a tal ponto, todo o mundo árabe e a região, a tal ponto que a Palestina converteu-se em causa esquecida. Aí está uma prova disso.

Hoje, me digam, onde estão os reis e os presidentes árabes. Amanhã não faltará quem diga que o Sayed [Senhor (Nasrallah)] só fala de reis e presidentes árabes. Mas, sim, onde estão os regimes árabes? Onde está a União dos países árabes? Onde está a reação séria, onde estão as pressões reais? Onde está alguma pressão sobre os seus amigos norte-americanos, as pressões sobre os seus amigos europeus? Onde estão as organizações de defesa dos direitos do homem? Onde está a voz árabe? Onde estão os veículos árabes de comunicação de massa? E os canais de TV árabes? Onde estão os jornalistas e escritores árabes?

Se o que se vê hoje na Palestina estivesse acontecendo em algum país não aliado ou alinhado com os EUA, aliado ou alinhado com o Ocidente, vocês estariam vendo todo o planeta levantado em indignação, em ação, sem descanso. Nem digo que se tratasse de Irã, de Síria, sei lá. Não. Falo de qualquer país que não se tivesse deixado reduzir e submeter à vontade e às ordens dos EUA e do Ocidente, que não se tivesse engajado no projeto dos EUA, já teríamos ouvido os protestos do Conselho de Segurança da ONU, da ONU, da Casa Branca, de ministros de Relações Exteriores, de organizações de direitos humanos em todo o mundo. Não no 16º dia de greve de fome, mas logo no primeiro, na primeira hora. E o estado ou governo que se recusasse a discutir com os prisioneiros e de acatar o que reivindicam estaria sendo acusado de agressão, de crueldade, de tratamento desumano, de opressão, de tortura, de tirania etc.

Mas quando se trata de Israel, filhote mimado dos EUA, base militar avançada do Ocidente em nossa região... Aí, não! Netanyahu que faça como quiser! Crimes à vontade, pelo tempo que desejar. Problema algum. Tudo como se ele tivesse para si todo o tempo do mundo para fazer quantas guerras queira contra Gaza. Pode fazer o que quiser, mais uma vez, seja na questão dos prisioneiros ou em qualquer outra; na questão das colônias ou qualquer outra.

E se trabalhamos para reunir provas comparáveis, de menos de um ano, ou já velhas, desde 2003 no Iraque... Porque desde 2003, as organizações terroristas takfiris realizaram milhares de operações suicidas, sem nem falar das outras, e vêm matando xiitas, sunitas, árabes, curdos, turcomenos, e não pouparam ninguém, no povo do Iraque. E os massacres quotidianos, a ponto de viaturas atacadas no Iraque já ser evento diário, considerado normal e natural. E o mundo inteiro em silêncio...

Claro que o mundo sabe quem os mantém, quem lhes paga, quem os financia, quem os protege, quem lhes garante apoio e plataformas midiáticas, até hoje. E houve cadeias árabes de televisão que, na batalha de Mossul, defenderam os terroristas, defenderam o Daech. Não defenderam o governo do Iraque, nem as forças iraquianas. E o mundo nada diz desses apoiadores, assistentes, parceiros mediáticos, financiadores e facilitadores (dos terroristas do Daech). Por quê? Porque é indispensável destruir e submeter o povo do Iraque, humilhá-lo, obrigá-lo a calar e a se integrar ao projeto de Israel e dos norte-americanos.

Ou então, pensemos no Iêmen. Ainda há poucos dias o secretário-geral da ONU, em discurso de luto, disse que, enquanto falamos, morrem 50 crianças iemenitas. Eh, sim, o mundo fala de milhões de seres humanos ameaçados de morrerem de fome no Iêmen. E todo o mundo, o mundo inteiro sabe quem ataca sem parar o Iêmen, quem bombardeia o Iêmen, quem mata o Iêmen de fome... Mas quem se atreve a declarar o nome conhecido de todos, dos verdadeiros criminosos?

Dizem que a culpa é minha, se os turistas desaparecem do Líbano... Como se eu falasse de eventos secretos, que ninguém conhecesse: que a Arábia Saudita e seus aliados continuam a atacar, a sitiar e estão matando de fome o povo iemenita, sem parar nunca, dia e noite... E sou eu quem põe em risco o turismo no Líbano?! Uma pequena palavra de verdade... e sou acusado de todos os crimes.

Mas e quanto ao mundo inteiro que aí está, em silêncio, deixando morrer de fome aqueles milhões de pessoas, e mais milhões que morrem assassinadas e bombardeadas, e as centenas de milhares de feridos e mutilados? Que importa toda essa gente? E não é verdade que o mundo não saiba. Sabem, porque até a ONU reconheceu a situação. Dito simplesmente, é porque se trata de Arábia Saudita, aliada dos EUA, do Ocidente, e que paga fortunas, centenas de bilhões de dólares aos EUA. E agora é Trump, de olho no dinheiro dos sauditas....

Mas quanto ao pobre povo do Iêmen, ninguém tem dinheiro para pagar aos EUA, nenhum dinheiro para pagar a Trump, nem para pagar ao primeiro-ministro britânico nem ao presidente da França, para que se mexam e decidam que basta, e se ponham em campo para pôr fim ao sítio, à guerra, à agressão contra o Iêmen.

E, sim, falemos agora da Síria. Há poucos dias, foi perpetrado um massacre contra os habitantes de Fou'a e Kafraya que não deixam suas áreas sitiadas no bairro de Al-Rachidin na entrada da cidade de Alepo. Um assassino kamikaze sanguinário veio com uma caminhonete, que jogou contra um comboio de ônibus. E quem viajava naquele comboio? 5 mil civis, maioria esmagadora de mulheres e crianças. Em resumo, aquele atentado fez centenas de mártires, de feridos e de desaparecidos. Como reagiu o mundo? O que fez o mundo?

Que Deus nos proteja... Porque no acordo que firmamos, o estado sírio e nós, nós mesmos, garantimos a segurança dos que estavam sendo evacuados [dos enclaves controlados por terroristas] de Madaya, Zabadani, Biqqin, Sarghaya, Blodan e Borj Blodan, para que fossem levados até um local protegido depois da cidade de Alepo. Imaginemos que alguém (porque não há kamikazes entre nossos soldados), por engano, pegasse uma metralhadora e abrisse fosse [contra comboio do inimigo], ou que alguém lançasse um foguete contra um ônibus e causasse a morte de certo número de pessoas. O que diriam e fariam contra nós?! Quem pouparia o Exército Sírio, o Hezbollah e os demais partidos que avalizaram aquele acordo? O Conselho de Segurança da ONU, os EUA, Trump e o mundo inteiro aí estariam, furiosos, e muito provavelmente mandariam seus aviões atacarem a Síria.

Vejam pois a situação atual real. Claro, sei que nada digo de novidade. Quero só confirmar uma ideia já estabelecida há muito tempo, mas que todos os dias, cada dia, um dia depois do outro é novamente confirmada, contra tudo que dizemos, e nos acusam sem alívio, sempre sem prova alguma, sem exibir uma mínima prova, que fosse!

Em vez de provar o que dizem, o que seria impossível, porque são mentiras e mais mentiras, depois dos eventos em Khan Cheikhoun... Depois de o governo sírio ter sido acusado de usar armas químicas... por que não investigam? Por que não se dedicam a descobrir a verdade? Onde está a prova, meus amigos, de que o governo sírio teria usado realmente alguma arma química? Ah, mas ele usou (é o que dizem). Não há provas. Quanto às imagens que circularam, ninguém sabe se foram encenadas, se são autênticas. Nada disso impede que as imagens circulem.

Por que não enviam uma comissão de investigação, composta de russos, iranianos, outros países do mundo... Não é pedir muito. Queremos simplesmente uma investigação séria. Mas os EUA não querem nem ouvir falar de investigação séria. Não querem ouvir falar de nenhuma investigação! Queremos conhecer a verdade. E eles sempre se recusam, até, a começar uma investigação.

Na verdade, desde o primeiro momento Trump e o governo dos EUA, como já é hábito, se autoinstituíram juízes, procuradores gerais, investigadores, juízes e carrascos, e só pensaram em atacar o aeroporto de Chu'eirat, e acharam que fizeram grande coisa! E logo começaram a chover sobre eles felicitações vindas da Arábia Saudita, da Turquia, de alguns dos países do Golfo, de forças política [que diziam] "Bravo, muito bem, que Deus te abençoe e te recompense, que teus recursos sejam duplicados, triplicados"... Ou não foi assim? Ou não foi exatamente o que aconteceu?

Tudo isso... e por quê? Movidos por qual causa? Porque o alvo deles aqui, Bachar al-Assad, não é 'colaborador', não é fiel seguidor, não se submete... e só pensam em submetê-lo, humilhá-lo, quebrá-lo. A equação é essa.

Hoje, se se vem para não importa que lugar de país que não alinhado com os EUA, e imaginamos que haja uma cidade completamente sitiada, com centenas de homens e mulheres em luta, em pé, dia e noite, para proteger um homem puro e sábio, o grande sábio do Bahrein, Sua Eminência Aiatolá Xeique Issa Qassem e, isso, depois de sete, oito meses, um ano de luta, em área muito severamente atacada. Isso está esquecido. Não mobiliza ninguém, pessoa alguma no mundo... Porque essas pessoas que resistem então dentro de um país submetido, alinhado, que faz parte do projeto norte-americano... Então nada acontecerá, o país não será pressionado para que ali se faça justiça. Quem lhes pedirá contas dos crimes? Não. Esses criminosos receberão elogios, elogiarão o belo kôhl dos olhos deles, dirão "Muito bem, continuem".

Aí está. Nem é preciso listar mais e mais exemplos, já falei demais. Mas a conclusão a extrair disso tudo, ô nossos irmãos, ô nossas irmãs, ô nosso povo é que incontáveis fatos e incontáveis experiências só fazem confirmar a ideia, nossa ideia desde sempre, desde o início.

Hoje, quando nosso território for libertado, quando os nossos que continuam presos nas galés israelenses voltarem para nós (há casos ainda sem analisar), quando nosso país afinal se livrar das ameaças dos israelenses, não será por ação ou mérito deles, nem do Conselho da ONU, nem dos EUA, nem do Ocidente, nem da União dos Países Árabes, nem de resoluções e mais resoluções internacionais, não, nada disso.

Quando afinal estivermos novamente livres, terá sido graças exclusivamente a vocês, só a vocês, o Exército, o Povo e a Resistência, os nossos mártires, os feridos. Se hoje o Líbano vive em liberdade, com dignidade, com segurança, é graças às almas elevadas de vocês, aos sofrimentos de vocês, ao puro sangue dos seus mártires e dos seus corpos feridos vertido sobre a terra desse país e dessa região do mundo. Só, só, exclusivamente graças a vocês e a mais ninguém.

Não esperem daquele mundo, daquela comunidade internacional, dos EUA ou do Ocidente, nem justiça, nem imparcialidade, nem reconhecimento da verdade, não esperem nada disso. Não significa que não cobraremos deles, mas nada esperamos.

Além do mais, não lastimamos que nos ignorem, que não façam o que é dever deles fazer, que não tomem a posição que é dever deles tomar e que não pressionem, nem de longe, os opressores. Em todos os casos, eles são o inimigo. Portanto, cuidado com eles! Eles são a base de todos os nossos males. Eles mesmos, dos quais cobramos que tomem posição, que tomem medidas, que se posicionem, eles mesmos são a base dos nossos problemas. Quanto aos demais, não passam de instrumentos, apenas vão sobrevivendo, não passam de peões num tabuleiro de xadrez que servem aos projetos de dominação contra nossos países. E o que, meus amigos, querem eles? Querem pilhar nossa fontes, nossos recursos, nosso petróleo, nosso gás, e agora querem nos pilhar ainda mais. Não há tempo que baste para falar da nova política norte-americana: é a pilhagem manifesta, a pilhagem explícita.

É preciso portanto contar com a presença dos nossos nos campos de combate, é preciso contar com a nossa própria força. O que tantas vezes lhes tenho dito, hoje, de todos os eventos e desenvolvimentos que se produzem, quero dizer ainda mais uma vez: vivemos num mundo de lobos. Não há lei internacional, só há a lei da selva. O mais forte come o mais fraco. Se formos fracos, seremos devorados. Se formos mais fortes, o mundo nos respeitará.

Temos de ter um peso nas equações e nos interesses. Esse mundo busca interesses, não se interessa por princípios ou por valores. Consequentemente, nossa força está onde nossos interesses estão, e nosso destino e nosso futuro dependem de nossa força, de nossa unidade, de nossa presença, da resistência de nosso povo, da consciência de nossa Comunidade (Islâmica).

Eis os ensinamentos que devemos extrair do que se passa hoje à nossa volta (fim do excerto).*****


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