quinta-feira, 18 de maio de 2017

18/5 - Blog " DE CANHOTA" de HOJE

De Canhota


Posted: 18 May 2017 09:00 AM PDT
Publicado originalmente no Jornal GGN.


Introdução


Neste texto, aponto três perspectivas complementares: a primeira aponta tanto o excesso de confiança nas instituições republicanas por parte do governo deposto assim como a complexidade que é preparar um contra-golpe ou uma antecipação de hipóteses de interferência estrangeira no país; na segunda, realizo uma analogia com o derradeiro momento de Salvador Allende e como as mesmas ilusões aqui encontradas estavam presentes no 11 de setembro da América Latina; na terceira, uma cronologia do crescimento desta linha chilena, com a versão viralatista dos herdeiros dos Chicago Boys do século XXI. Vamos ao debate, há muito a fazer.

A complexidade da antecipação e um conceito de alerta permanente


Há cerca de duas semanas, em debate coletivo através de aplicativos de celular, um amigo meu, o professor de Relações Internacionais Diego Pautasso, colocou um tema de fundo que me fez refletir: "estamos de acordo com a caracterização do golpe e da incidência de interesses externos em algumas instituições brasileiras. Mas, saliento que não é algo banal perceber estas movimentações e menos ainda antecipar possibilidades de contragolpe".

Diego e eu debatemos muito e ocupamos posições distintas dentro do pensamento à esquerda no Brasil. Mas, como ainda modestamente não sou adepto da pós-verdade, de imediato dei-lhe razão e me pus a pensar.

Concordo integralmente, não é algo banal antever este contragolpe e, logo, por tabela, tal antecipação permanente toma vulto de uma dimensão estratégica.

Na 2a feira, dia 08 de maio, em plena São Borja/RS, tive a alegria de fazer a aula magna do curso de ciência política-ciências sociais da Unipampa e o mesmo tema me foi apresentado pelo professor Edson Paniágua, coordenador deste curso onde fui tão bem recebido. De novo assumi esta razão e de imediato, no calor do debate, amarrei um construto.

"A coesão interna de um país com potencialidades de projeção internacional é proporcional à capacidade deste mesmo país enfrentar ameaças externas, tanto de forma direta como de forma indireta".

Na sequência, aí sim, avancei em minhas posições decoloniais: "O problema na América Latina e no Brasil é ainda mais profundo, pois não há sequer identificação do andar de cima com seu próprio povo e, logo, o inverso também é - ou deveria ser, e deveríamos incidir para que fosse - verdadeiro. A projeção autônoma do país passa por um profundo antagonismo sociocultural e radicalização dos instrumentos democráticos – como através de plebiscitos e referendos -, pois a luta interna reflete interesses externos e vice-versa”.

O 11 de setembro da América Latina e o problema da antecipação


A lenda que corre em torno da derrubada de Pinochet seria dos diálogos em pleno Palácio de la Moneda, quando da manhã de 11 de setembro de 1973. Magistralmente narrado no filme "Allende" (direção de Miguel Littin, 2014), o mandatário chileno gritava desesperado: "Onde está Pinochet, onde está Pinochet?!"; até que um de seus assessores lhe disse: "presidente, Pinochet comanda as forças golpistas". Mais à frente, no desenrolar daquele dia maldito, outro assessor afirma "presidente, até Pablo Neruda - poeta e diplomata filiado ao Partido Comunista de Chile, de linha pró-soviética - estava dizendo nos últimos dias que Míguel Enríquez - histórico líder do MIR chileno, representante da esquerda mais radicalizada - tem razão". Silêncio de Salvador Allende, culminando com outra mensagem: "Enríquez manda dizer que os Cordões Industriais e o bairro La Victoria ainda estão de pé, aguardando suas ordens e o reforço logístico".

Naquela semana mesmo, segundo o economista Paulo Timm, residente em Santiago no período, assistente dos maiores economistas na Universidade Nacional de Chile, houve o seguinte encontro: “Isto me foi relatado por Pedro Vuskovic, Ministro do Planejamento de Allende. Poucos dias antes do golpe o presidente Allende teria chamado os partidos que o apoiavam, de sobremaneira Partido Comunista de Chile e Partido Socialista, este último até mais radical no discurso, e informou da iminência do golpe, dando-lhes carta branca para uma ação revolucionária, que ele, como Presidente constitucional, jamais tomaria. Os Partidos nada fizeram... As razões já conhecemos: A acomodação no aparelho de Estado que leva à burocratização política”.

Allende morreu como um autêntico patriota latino-americano, mas não havia plano de contingência ou contra golpe para além da "confiança nas instituições oligárquicas e burguesas". Delegar a partidos políticos a liderança de um contra golpe que necessitava de uma legalidade constitucional para garantir a legitimidade, também teve efeitos nefastos. Em uma situação como esta, apenas Salvador Allende poderia convocar a resistência completa, assim como Jango no Brasil em 1961 e em 1964. Dito e feito.

O presidente eleito do Chile foi ainda mais confiante nas instituições. Allende sequer ouviu as antecipações nada alarmistas do G2 - a inteligência cubana - que lhe recomendou formalizar um dispositivo permanente de 2000 efetivos, da Guarda Técnica, com 24 horas em revezamento. A Guarda Técnica - de escolta presidencial e lealdade ideológica - não chegava nem a 50 pessoas. Dito e feito novamente. A confusão entre teoria e ideologia é permanente, mas a hermenêutica da política é mais dura. Ao não fazer perguntas-chave cujas respostas, caso levadas a sério, vão implicar em mudanças de perspectivas que possam vir a comprometer o projeto político original, ou a posição dos atores individuais em condição de protagonismo ou liderança, a cegueira ou a tática do avestruz termina por ser evocada.

Independente da orientação política de um governo minimamente reformista na América Latina, sua obrigação é - ou deveria ser - antecipar movimentos dos inimigos (internos e externos) e contar com a possibilidade de que pode haver virada de mesa. Se a modalidade atual é o emprego de Lawfare e o arranjo midiático quase suicida, isso implica em operar com as condições existentes, tomando as ameaças da continuidade democrática como um fato possível e até mesmo provável. Em nosso Continente, a única constância é instabilidade institucional e a eterna presença da projeção de poder da Superpotência, em distintas versões da Doutrina Monroe, Big Stick, Segurança Hemisférica, Diálogos do Sul, Comando Sul, novas vertentes da Escola das Américas (agora mais focada em enlaces civis) e a eterna subserviência e perspectiva ideológica do viralatismo brasileiro.

A herança maldita e o avançar dos Chicago Boys viralatistas no século XXI


Em 2015 o segundo governo Dilma Rousseff descia ladeira abaixo, mas ainda não havia o engajamento explícito de federações empresariais na aventura política do golpe. E, na contramão das poucas políticas ousadas do lulismo, havia - e há - um profundo mal estar do andar de cima com as ações afirmativas e tímidas políticas de reconhecimento. A simples existência de secretarias especiais com status de ministério e o transferir dos temas das identidades sociopolíticas para nossa antropofagia tropical - por mais equivocada e confusa que sejam as linhas acadêmicas e políticas que vêm dos países do norte - já criava celeuma suficiente para as posições estáticas do póscolonialismo duplamente colonizado (pela herança colonial e o presente viralatista).

Na primeira década do século XXI, a revolta de elite contra as cotas étnico-raciais-sociais nas universidades públicas massificou a nova direita na base do recalque. Eis a materialidade do 'racismo de classe' precisamente explicado pelo professor Jessé Souza em suas obras mais recentes. Esta mesma nova direita, veio sendo bombeada através de eventos "pioneiros" como o Fórum da Liberdade (realizado em Porto Alegre desde 1988) e as levas de jovens ultraliberais que iam fazer curso de "formação" nos eventos de verão em Washington D.C. da Atlas Network e financiados pela fundação dos irmãos Koch (já escrevi centenas de linhas a respeito, incluindo nesta publicação).

Hábeis nas redes sociais e arrivistas pela própria natureza inescrupulosa e acumulativa do capital financeiro (costumo dizer que a financeirização assassinou o que restava da moral e ética protestante no seio do capitalismo nascente), as criaturas advindas dos institutos e think tanks neoliberais, os jovens ainda mais jovens egressos da juventude recém-formada, portadores de diploma universitário e nenhuma vivência no concreto e asfalto, plantaram a metástase ao retornarem dos EUA proliferando "cursos de lideranças". Desta bolha nasceu o MBL, maior expoente da nova direita cibernética, assim como grupos concorrentes. Faltava a orquestração.

O processo crescente de "venezuelização" a partir do segundo turno de 2014 ganhava contornos de conspiração sem sincronia, como são todas as conspirações complexas. Antes do início de março de 1964, havia núcleos de conspiração e a rede do IBAD e IPES, além do tecer fino de Vernon Walters e a decisão pró-golpe de Lincoln Gordon deram a segurança necessária para a tomada do poder. No Brasil do século XXI, a massificação por direita veio através da umbilical relação entre os conglomerados de mídia com difusão nacional e a seletividade punitiva da Operação Lava-Jato.

A cada passo da nova direita, uma repercussão midiática, seguida de lambança, silêncio ou inação do segundo governo Dilma. Vendo a possibilidade concreta, o final do verão de 2016 trouxe à tona as mesmas instituições de 1964, como a OAB e a FIESP. O apelo midiático e massificado tinha a solidez da experiência de sequestro da pauta sem sujeito da ação em 2013 – e daí a falsa alegação dos defensores do governo deposto que em junho de 2013 estava o ovo da serpente, o que não é verdade - transformou-se na convocatória massiva, e com vento a favor, tanto da mídia como do Judiciário. A linha chilena chegava a passos de ganso e chamadas ao vivo na maior rede de TV do Brasil.

Linhas conclusivas


Como já foi afirmado neste portal em outras ocasiões, e também por este analista, vejo como urgente o debate franco e no limite da responsabilidade buscando amarrar um consenso popular em torno de mecanismos de tipo consulta direta. Quem afirmar que isso por si só prevê um novo avanço do retrocesso, mente ou está equivocado. Quem se colocar fielmente crente apenas no arranjo das instituições republicanas sem mexer na escalada da nova direita e não tocando nas estruturas da mídia oligopolista, simplesmente desconhece as regras da política como extensão dos conflitos. O tema é tão urgente como delicado, e entendo que devemos segui-lo até onde o espaço público cibernético nos permita.


Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.
Posted: 18 May 2017 07:30 AM PDT
Publicado originalmente no Ideas de Izquierda | Tradução: Inês Castilho no Outras Palavras.


Os avanços da robotização e da inteligência artificial, nos últimos anos, deram novo vigor à reflexão sobre o “fim do trabalho”. Quase toda semana surgem na mídia notícias sobre os milhões (ou mesmo dezenas de milhões) de empregos que desaparecerão nos pŕoximos anos como consequência desse avanço. Os fantasmas sobre o fim do trabalho vêm de antes – em 1995 saiu o livro de Jeremy Rifkin O fim do trabalho e já nos anos 80 o teórico crítico André Gorz apontou as mutações no mundo da produção que colocavam em crise o papel do trabalho. Mas agora, tornaram-se uma perspectiva mais próxima, ou ao menos assim parecia, dados os prognósticos mais alarmistas. No ano passado, o Fórum Econômico Mundial, que se reúne todos os janeiros em Davos, apresentou estimativas que projetam uma queda dramática da quantidade de assalariados em consequência da introdução de novas tecnologias. Todos esses estudos têm muito de alarmistas; como mostra Paula Bach neste dossiê, a ameaça da robotização mostra-se exagerada à luz das tendências atuais de acumulação de capital. Michel Husson expõe conclusões semelhantes em O grande “bluff” da robotização. Por outro lado, a crise mundial desencadeada pela queda do Lehman Brothers, que teve seus efeitos mais duradouros nas economias mais ricas da Europa e dos EUA, complicou ainda mais o panorama do emprego. Mesmo nos EUA, o país capitalista onde o emprego mais se recuperou mais desde a quebra de 2008, os empregos criados são principalmente nos setores de serviços e de comércio, mal remunerados.

Nesse contexto, colocar em discussão a redução da jornada de trabalho para 6 horas pareceria mais que razoável. O volume de trabalho humano a realizar diminui, tanto por fatores estruturais de longo prazo – a crescente automação dos processos produtivos faz com que se possa produzir o mesmo com menos tempo de trabalho – como por razões mais conjunturais (o fraco crescimento que parece ter chegado para ficar nas economias mais ricas). Por que não repartir o trabalho social por todas as mãos disponíveis?

Na contramão do “fim do trabalho”


Um projeto como este não é do agrado do exército de especialistas advogados da “modernização” das relações de trabalho para favorecer os lucros empresariais. Sua rejeição é lógica: a questão do tempo de trabalho na sociedade capitalista não é algo que possa ser vista de forma ligeira. Por mais empenho que a economia mainstream tenha colocado nos últimos 150 anos para refutar Karl Marx e economistas clássicos como David Ricardo e Adam Smith, que reconheciam no trabalho a única fonte de valor – e portanto de lucro – na hora da verdade os donos dos meios de produção e seus gerentes sabem que cada segundo conta. Obter mais trabalho pelo salário que se paga é uma das chaves para elevar a taxa de rentabilidade.

Não surpreende portanto que, apesar das possibilidades técnicas apresentadas pelo aumento da produtividade, trabalhe-se tanto, no século XXI – ou mais – que no século XX. Por exemplo, nos EUA a produtividade duplicou entre 1979 e 2016, segundo o Escritório de Estatísticas de Trabalho (e triplicou desde 1957). No entanto, se no começo deste período as horas semanais trabalhadas na ocupação principal nos EUA eram de 37,8, em 2016 foram de 38,6. Trabalha-se mais, e não menos, que há 40 anos.

A situação não é muito diferente em outros países. Na França, que em 2000 introduziu a semana de 35 horas de trabalho, estas já quase não se aplicam. O ataque começou cedo, em 2003, com a lei Fillon (elaborada pelo então ministro François Fillon, candidato da direita nas recentes eleições presidenciais), que ampliou as horas extras possíveis de 130 a 200 no ano, e manteve a possibilidade de que as empresas imponham horas extras. Em 2015-2016 a lei Macron (candidato “independente” eleito presidente nestas eleições) estabeleceu a obrigação de trabalhar domingo no comércio, igualou o trabalho noturno com o trabalho feito à tarde e estendeu o tempo da jornada de trabalho para 12 horas diárias e 60 semanais. A decisão posterior do Senado, de reintroduzir as 39 horas, no lugar de 35, foi mais um passo no caminho de eliminar todas as barreiras legais à liberdade dos empresários para explorar o trabalho. Segundo o Eurostat, na França trabalha-se 40,5 horas por semana. O hoje abatido ex-candidato Fillon quer mudar para 39 horas semanais, mas pagar somente 37, “para ganhar competitividade”.

Na Alemanha, apelando à chantagem da deslocalização do trabalho para o Leste, a Siemens impôs em abril de 2004 aos trabalhadores da fábrica em Bocholt um acordo considerado “uma ruptura de época na história econômica da República Federal”: a volta de 35 para 40 horas sem nenhum tipo de aumento dos salários. No mesmo ano, a Opel obrigou os trabalhadores e o sindicato a concordar com uma semana de trabalho de 47 horas em troca de uma promessa – descumprida – de não despedir. As estatísticas falam por si mesmas: na Alemanha, a proporção de trabalhadores do sexo masculino que trabalham entre 35 e 39 horas caiu de 55% em 1995 para 24,5% em 2015; a proporção dos que trabalham 40 horas ou mais aumentou no mesmo período de 41% a 64%. Considerando-se o total de trabalhadores, homens e mulheres, a primeira categoria caiu de 45% para 20,8%, enquanto o segundo aumentou de 32, 7% para 46%.

Mudar… para pior


Sem dúvida, as relações de trabalho atuais não se ajustam às necessidades das empresas que apontam para uma maior “flexibilidade”, sempre entendida como menos direitos para os trabalhadores e menos obrigações para os empregadores. Hoje, uma das principais contestações à tradicional jornada de 8 horas vem da parte das próprias empresas. E não precisamente porque busquem liberar os assalariados da pesada carga do trabalho.

Além disso, a própria relação salarial está sendo reformulada. Corporações como Uber constróem grandes redes contando com uma folha de pagamento mínima, enquanto o serviço que define a empresa é realizado por trabalhadores “independentes”. Isso, que vem sendo chamado de “economia gig”, vem acompanhado de novas técnicas de persuasão ou coerção para arrancar mais trabalho desses trabalhadores independentes. “Mostramos aos motoristas áreas de alta demanda ou os incentivamos para que dirijam mais”, admite um porta-voz do Uber [1]. No caso da Amazon, uma investigação da BBC mostrou que os motoristas encarregados de distribuir seus produtos na Grã Bretanha eram forçados a trabalhar 11 horas ou mais, e inclusive fazer suas necessidades dentro de seus veículos para poder cumprir as exigentes metas de entregas da empresa, que podiam chegar até a 200 pacotes diários. Mesmo assim, apesar disso, em muitos casos, o rendimento mal equivalia a um salário mínimo, já que era preciso arcar com os custos do aluguel do veículo (ou de sua manutenção, se próprio) e seguro [2]. Sim, é a mesma Amazon que inaugurou um local sem caixas em Seattle, mostrando aquí uma face bem menos amável e de vanguarda: o da economia “gig” como mais um salto na extensão do “precariado”. Que têm em comum uma caso e outro, e os de muitíssimas empresas semelhantes em todo o mundo? O fato de seus “colaboradores” terem contratos independentes, que carecem da maioria das proteções associadas com o emprego.

Há também outras propostas de mudanças na jornada. Carlos Slim, o magnata mexicano das telecomunicações, colocou que seu método para “repartir” o trabalho: jornadas de 3 dias por semana… 11 hors por dia! Em troca, “as pessoas se aposentadoriam aos 75”. Trabalhar menos dias, ainda que em jornadas intermináveis… e por muito mais tempo de vida. Uma proposta que, ao menos neste último aspecto, pode ser do agrado de governos como o de Mauricio Macri, na Argentina, ou Michel Temer, no Brasil, empenhados em aumentar a idade da aposentadoria, estendendo-a até 65 anos para homens e mulheres.

Sejam felizes e produzam mais


Se fosse necessários ainda mais indicadores de que algo está ocorrendo – e algo tem de mudar – com a jornada de trabalho, há os múltiplos casos de empresas que começaram a cortar a jornada, apesar de que cada minuto de trabalho que sacrificam é um “custo de oportunidade” para os empresários. Fazem-no, obviamente, não por qualquer vocação caritativa mas contando em conseguir, em troca, maior produtividade durante o tempo que seus empregados estão no trabalho. A Suécia colocou em prova uma iniciativa no setor público da assistência aos idosos, onde se reduziu a jornada para 30 horas semanais (6 horas diárias). Segundo a avaliação realizada, as enfermeiras declararam-se mais felizes, melhor remuneradas (é como se se pagasse 33 % a mais a hora de trabalho) e sua produtividade aumentou. Ainda que seu trabalho tenha custado mais caro — e isso acabou determinando no início deste ano o abandono desta experiência — o cuidado dos pacientes melhorou, já que as enfermeiras se cansavam menos.

A possibilidade de ganhar em produtividade é o que impulsiona muitas empresas a também experimentar com a redução da jornada de trabalho, embora se trate de experimentos limitados. A Toyota (em sua filial sueca) é uma das empresa que o fez, assim como várias do setor de tecnologia. Na maioria dos casos, seguindo a tendência que analisamos acima, a outra face da redução do tempo passado no trabalho é o aproveitamento da maior conectividade para fazer com que os empregados continuem realizando tarefas fora do horário de trabalho.

Embora isoladas e sem marcar nenhuma tendência geral, como vimos, essas experiências desmentem a ideia de que seja impossível avançar com direção à redução da jornada de trabalho. Mostram também que, se depender do capital, isso só poderá ocorrer em troca de maior produtividade (intensidade do trabalho) e sem permitir – ao menos não inteiramente – que os desempregados possam voltar a obter um trabalho, já que se tentará compensar qualquer redução da jornada com maior produtividade. Fazê-lo de outro modo — ou seja, reduzir a jornada assegurando que todos possam trabalhar e receber um salário digno — implica afetar os lucros,para assegurar o emprego.

Direito contra direito


Em 1930, um ano após o início da Grande Depressão, o lorde John Maynard Keynes publicou As perspectivas econômicas para nossos netos, um texto em que, apesar do presente penoso, mostrava-se confiante sobre as perspectivas futuras, que ofereceriam desenvolvimento da produtividade. “Poderia predizer que o nível de vida nos países avançados será, dentro de cem anos, de quatro a oito vezes mais alto do que é hoje”. Considerando essa perspectiva, confiava em que “turnos de três horas ou semanas de trabalho de quinze horas” seriam mais que suficientes para satisfazer as necessidades econômicas. Como já vimos, o aumento da produtividade deu razão a Keynes na maior parte dos países ricos, mas não ocorreu o mesmo com as horas trabalhadas.

As possibilidades criadas pelo desenvolvimento da técnica, nas mãos do capital, convertem-se num pesadelo para os trabalhadores. O auge das comunicações e o barateamento dos custos de transporte das últimas décadas não reduziram as horas de trabalho nos países industrializados — apenas diminuiram a quantiade de trabalhadores ocupados. Em parte, isso se deu devido à automação, e em parte porque os empregos foram relocalizados nos países onde a força de trabalho é mais barata e onde também se pode fazer com que se trabalhe mais horas. A degradação subsequente das condições de emprego operou ainda mais em favor do capital, que pode impor em todo o mundo uma “arbitragem trabalhista”, fazendo com que os trabalhadores dos diferentes países compitam entre si, cedendo em condições de trabalho e remuneração para assegurar o emprego, numa verdadeira “corrida em direção ao abismo” [3].

As forças produtivas hoje disponíveis permitiriam amplamente oferecer a toda a humanidade o acesso aos bens e serviços fundamentais, ao mesmo tempo que reduzir para milhares de milhões de homens e mulheres a carga de trabalho. Mas isso se choca com as relações de produção capitalistas, que dependem da exploração da força de trabalho, arrancando dela o sobretrabalho/ trabalho excedente para assegurar o lucro, que motor desta sociedade.

Projetar a redução da jornada de trabalho mediante a partilha das horas de trabalho entre todas as mãos disponíveis, sem afetar o salário (garantido para todos os ocupados uma renda digna), significa colocar na mesa que o aumento ou “flexibilização” da jornada não são as únicas alternativas. Elas, além disso, nunca serviram para que o emprego cresça significativamente (e em muitos casos, nem sequer para que deixe de cair); somente conseguem degradar a qualidade dos empregos existentes. Tampouco passa, como foi proposto em diversas modalidades, pela ilusão de que o Estado assegure uma renda universal tanto para os que estão empregados como para os que não estão. Trata-se de colocar em questão como se produz e como se repartem os frutos dessa produção.

Reduzir esta jornada significaria, além disso, desnaturalizar o “exército industrial de reserva”, termo com que Marx caracteriza o papel desempenhado pela força de trabalho desempregada ou semiempregada. Sua existência é o que permite que os mecanismos de mercado operem no que diz respeito aos salários, de forma favorável ao capital, limitando o crescimento dos salários nos momentos de auge e facilitando a queda dos mesmos em tempos de crise.

(…)

Não se trata aqui do choque “normal” de interesses materiais opostos. Trata-se de preservar o proletariado da decadência, da desmoralização e da ruína. Trata-se da vida e da morte da classe criadora e, por isso mesmo, do futuro da humanidade. Se o capitalismo é incapaz de satisfazer as reivindicações que surgem dos males engendrados por ele mesmo, só lhe resta morrer. A “possibilidade” ou a “impossibilidade” de realizar as reivindicações é, neste caso, uma questão de relação de forças que só pode ser solucionada pela luta. Sobre a base desta luta, quaisquer que sejam os êxitos práticos imediatos, os trabalhadores compreenderão, na melhor forma, a necessidade de acabar com a escravidão capitalista.

A proposta de trabalhar menos horas para que todos trabalhem, sem afetar os salários, coloca em questão a naturalização do “direito” do empresariado de dispor da força de trabalho como bem entende, em função de ampliar seus lucros, enquanto esse privilégio promove uma progressiva deterioração para uma faixa de assalariados. Trata-se de um projeto que só poderia realizar-se integralmente por um governo de trabalhadores que se proponha superar – em nível internacional – esse sistema baseado na exploração social. Se o capitalismo criou esta possibilidade – a de reduzir o tempo necessário para assegurar a reprodução dos bens socialmente necessários – mas se isso só pode ser feito questionando os mecanismo de exploração que sustentam este sistema, “só lhe resta morrer”, para abrir caminho para uma organização da produção articulada não em função do lucro privado, mas das necessidades sociais.

Notas


[1] Noam Scheiber, “Os truques psicológicos da Uber para que seus motoristas trabalhem mais”, The New Times, edição em espanhol, 6/4/2017.
[2] “Amazon drivers ‘work illegal hours’”, BBC, 11/06/16.
[3] Esteban Mercatante, “Uma corrida até o abismo”, IdZ 30, junho 2016.
Posted: 18 May 2017 06:00 AM PDT
Publicado originalmente no Brasil Debate.

O governo comemorou ontem (15/5) o que seria o primeiro sinal de recuperação da atividade econômica após oito trimestres de quedas sucessivas do Indicador de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). Mas o que explica o aumento em tal índice, quando todos os demais indicadores, especialmente o emprego, apontam para um movimento contrário?


Esse resultado foi muito influenciado por uma mudança importante em duas das séries que compõem esse indicador e que têm um peso muito elevado.

Quando olhamos a série mensal do IBC-Br, observa-se que o aumento no último trimestre foi decorrente de um aumento apenas no mês de fevereiro, sendo que já em março é possível verificar uma queda no mesmo indicador.


A principal explicação para esse resultado do mês de fevereiro foi a mudança metodológica nas Pesquisas Mensais de Comércio e Serviços do IBGE, cuja alteração afetou o nível dessas séries de forma significativa, conforme pode ser visto no gráfico abaixo.


A série antiga, que foi divulgada até jan/2017, apresentava uma clara trajetória de queda. Em abril de 2017, a série foi revisada e um novo valor para janeiro foi divulgado, em um nível consideravelmente acima do que havia sido divulgado anteriormente. Como pode ser visto no gráfico, houve um evidente deslocamento para cima da série, que nos meses seguintes voltou a apresentar sucessivas quedas, tanto em fevereiro quanto em março, em relação ao mês imediatamente anterior.

Por parte do IBGE, não houve qualquer mudança nos dados de dez/2016 para trás e, dessa forma, o crescimento do mês de janeiro, em relação a dezembro, foi consideravelmente elevado e acima de qualquer outro crescimento apresentado ao longo de toda a série histórica.
]

O grande problema é que, em fevereiro, o IBC-Br foi calculado já utilizando a nova série, o que claramente deslocou o nível da série do IBC-Br sem que efetivamente se verificasse uma mudança na sua trajetória. Com isso, o resultado do índice de fevereiro foi muito alto e a soma dos três primeiros meses mostrou-se acima do trimestre anterior.

Portanto, esse aumento do índice em fevereiro não decorre de qualquer mudança efetiva da economia, mas de um deslocamento das séries que compõem o IBC-Br, sem representar qualquer alteração na trajetória das séries. Como nos meses seguintes essas mesmas séries voltaram a cair, o indicador de março já refletiu tal movimento.

Em relação ao PIB, que será divulgado em 1/06/2017, o efeito dessa mudança das séries da PMC e PMS deve ser menor, pois há no cálculo do PIB mais controles, o que evita que tais variáveis determinem sozinhas a trajetória do mesmo. Ainda assim, haverá algum efeito que não deve ser visto como uma efetiva saída da recessão, sob o risco de ficarmos iludidos com um resultado que é meramente um efeito estatístico.


Esther Dweck é Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e assessora econômica do Senado Federal.
Posted: 17 May 2017 07:46 PM PDT
- O único ponto positivo de tudo que rolou nessa noite de 17 de maio de 2017 é que as "reformas" da previdência e trabalhista impostas pelo consórcio golpista subiram no telhado e estão em suspenso. 

- A matéria do O Globo revela que Temer foi rifado pelo consórcio golpista (capital financeiro, burguesia nacional e mídia). O roteiro que o estabilishment aponta é que Temer já foi jogado aos leões e o terreno começa a ser preparado para um presidente de toga e com um discurso de "limpeza da politica". Meu maior medo é a criminalização total da política e a suspensão do calendário de 2018. Tomara que eu esteja errado. A situação se revela gravíssima.

- Mas, fora isso, o que nos compete é a rua. Vamos tomar as ruas de todo o país amanhã (18) para derrubar Michel Temer, seja forçando sua renúncia ou por mais um processo de impeachment. E vamos lutar muito para garantir eleições diretas, já! 

Abraços,
Daniel Samam

#ForaTemer #RenunciaTemer #DiretasJá
Posted: 17 May 2017 04:00 PM PDT
Publicado originalmente na Carta Capital.


Há quase 40 anos, o Brasil vem construindo, passo a passo, o direito à regularização fundiária. Com apenas uma canetada, o governo ilegítimo de Michel Temer pretende alterar 18 leis, inclusive de nossa Constituição, passando por cima do que vem sendo trabalhado nestas décadas e avassalando o direito à terra e ao teto.

A MP 759, cujo relatório já aprovado vai a plenário nesta semana, pretende nada menos do que entregar 88 milhões de hectares à sanha do pernicioso mercado imobiliário. Pretende-se criar um mercado privado de terras a partir de todo um acervo nacional. Será o fim da reforma agrária e a legitimação da anistia a grileiros.

Sob a falácia de se aperfeiçoar procedimentos, cria-se novos dispositivos e altera-se profundamente leis nacionais ligadas ao uso do território brasileiro para que impere o direito individual de propriedade.

A MP 759, além disso, se apresenta de forma equivocada e ilegal desde sua natureza: medida provisória. Como pode o governo ignorar algo que vinha sendo construído há décadas por dezenas de entidades e movimentos? Para que este conteúdo se justificasse ser apresentado como medida provisória deveria seguir princípios de relevância e urgência. Como não há, sua apresentação fere o artigo 62 da Constituição Federal.

Não há como justificar uma lei que modifica todo o arcabouço legal no qual se sustenta a regularização fundiária no País e interfere nas três esferas da federação provocando um caos nos processos em andamento.

Outro aspecto extremamente prejudicial da natureza deste texto é que a MP 759 impede o debate com todos os interessados no tema. Foi editada sem consulta pública às populações atingidas, sem diálogo com os diversos segmentos que compõe o Conselho Nacional das Cidades, bem como o Ministério Público e a Defensoria Pública, sem ouvir os movimentos sociais, sem ouvir profissionais multidisciplinares da União, Estados e Municípios que trabalham com as políticas de regularização fundiária rural e urbana.

Por trás destas mudanças residem os interesses especulativos, tanto dos setores agrários quanto urbanos. Para ampliar seus negócios, devem expandir seus domínios para as terras públicas e, assim, atender a seus interesses privados.

Na cidade, os grandes beneficiados são os especuladores imobiliários, com a flexibilização de loteamentos e condomínios de alto padrão que são dispensados de contrapartidas e responsabilidades. Ademais, o licenciamento ambiental que hoje é diferenciado para áreas consideradas de interesse social é eliminado. Por fim, os loteadores irregulares de terras públicas que hoje devem adotar medidas corretivas passam a não ter essa obrigação, que é transferida para o poder público. 

No campo, esta medida representa o fim da reforma agrária porque retira da legislação o que resta de política agrária no País e a modifica favorecendo que se antecipe a emancipação dos lotes. Por trás desta flexibilidade há o interesse que essas terras voltem rapidamente ao mercado, que atua de forma implacável constrangendo os donos destas terras para que isso aconteça. Ademais, a mudança restringe a participação dos movimentos sociais rurais na negociação dos temas agrários.

Para ter dimensão do impacto desta mudança: hoje os assentamentos somam 80 milhões de hectares de terra onde (sendo aproximadamente 40 milhões na Amazônia) residem 1 milhão de famílias que produzem alimentos que vão para a mesa dos brasileiros e brasileiras – ao contrário da soja dos ruralistas.

A MP 759 permite, ainda, a concentração de terras e beneficia aqueles que a ocupam ilegalmente. Ela amplia um dos maiores erros do governo Lula, levado a cabo pelo então ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, Roberto Mangabeira Unger: o Programa Terra Legal na Amazônia.

Este programa (Lei 11.952/2009) permite a regularização em favor de quem já é proprietário de outro imóvel e para ocupantes após 2004. É uma anistia a grileiros e tolera inclusive o desmatamento como forma de ocupação. O Plano Amazônia Sustentável permitiu que se legalizasse até 15 módulos de uma região que pode ter até 100 hectares: terras griladas, roubadas, saqueadas do território nacional. Agora esta medida estende este absurdo a todo o País, destruindo vários procedimentos que vinham se consolidando.

Este, sem dúvidas, é o passo que querem dar rumo à privatização não só da Amazônia, mas de todo território brasileiro. Por trás desta medida está o grande objetivo de permitir a venda de terras rurais a estrangeiros, proposta pelo Projeto de Lei nº 4.059/2012, apoiado pelo atual governo.

A aprovação desta medida provisória somada à extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário representa a consolidação do projeto de estrangeirização de nossas terras. De acordo com dados do Incra, hoje temos 2,81 milhões de hectares nas mãos de estrangeiros, o que representa mais do que todo território do estado do Alagoas.

O que guia este interesse é o princípio da mercantilização e alienação do território brasileiro. Para que se alcance este objetivo, precisam retirar entraves, exatamente o que a MP 759 faz. Entregam o patrimônio público e distribuem senhas ao agronegócio provocando intensa violência social. 


Edmílson Rodrigues está deputado federal (PSOL-PA).
Posted: 17 May 2017 12:00 PM PDT
Reportagem de André Barrocal publicada na Carta Capital.


A “Casa do Povo” em Brasília tornou-se um bunker antipovo nos últimos dias. O Congresso tem estado sitiado, grades, viaturas e guardas cercam o prédio, entrar lá não tem sido nada fácil. Quem vence as barreiras e alcança o interior encontra policiais legislativos armados ostensivamente, a controlar a circulação. Tudo para proteger deputados e senadores de pressões contra as reformas trabalhista e da Previdência. O cenário e o que tem acontecido lá dentro mostram que a “Casa do Povo” é na verdade um camarote vip, retrato de uma democracia capturada pelo dinheiro.

Dos 594 parlamentares, 42% são empresários, fazendeiros incluídos, quase o dobro do total de assalariados (22%). O País tem mais mulheres (51%) do que homens (49%), mas elas são só 12% dos legisladores. Situação similar à dos negros, 54% na população e 10% dos congressistas. Eleger-se em 2014 custou fortunas impagáveis para um trabalhador, renda média de 1,7 mil mensais. Um deputado gastou, por baixo, 2 milhões de reais e um senador, 5 milhões, informa o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), autor de uma radiografia do Parlamento. Uma grana dada quase sempre por empresas, investimento disfarçado de doação.

Com um Legislativo desse perfil, não surpreende o avanço de reformas que farão o brasileiro trabalhar mais horas e anos e ganhar menos salário e aposentadoria, ao mesmo tempo que são votados perdões bilionários para calote tributário de empresa e, pasmem, de congressistas. Nem surpreende a bancada ruralista chantagear o governo para arrancar uma anistia particular de dívidas.

O perdão tributário despontou no embalo de outro daqueles programas de parcelamento de débito empresarial que já viraram rotina. O novo Refis nasceu de uma Medida Provisória assinada pelo presidente Michel Temer em janeiro, a 766. Permite aos caloteiros, tanto os que são cobrados apenas no âmbito administrativo quanto aqueles já processados na Justiça, pagar 20% à vista e dividir o resto em até dez anos. A proposta logo vai a votação no plenário da Câmara e, por obra de uma comissão especial de deputados e senadores, ficou ainda mais generosa, coisa de Madre Teresa de Calcutá. Prazo de até 20 anos para pagar e perdão de 90% a 99% de juros, multas e encargos.

As mudanças na MP, se aprovadas, custarão bilhões ao Erário. Com base em alguns cálculos da Receita Federal, é possível dizer que de cada 6 reais que o governo poderia obter, sobrará apenas 1. Os outros 5 serão embolsados pelos caloteiros. Para o Fisco arrecadar os 8 bilhões de reais pretendidos este ano, seria preciso haver a regularização de 630 bilhões em dívidas, e não mais de uns 100 bilhões. “É um impacto muito grande, violento. O relatório não ficou razoável”, afirma o secretário da Receita, Jorge Rachid.

A comissão que aprovou o relatório é uma cheia de legisladores em causa própria. Dos 50 membros, entre titulares e reservas, 22 estão com o nome na Dívida Ativa da União, cobrados na Justiça. Devem 212 milhões de reais. Dois personagens merecem destaque. Os deputados Newton Cardoso Jr., mineiro do PMDB, e Alfredo Kaefer, paranaense do nanico PSL. O primeiro foi o relator da MP, responsável por dar a cara final ao texto prestes a ir a plenário.

É o caloteiro medalha de prata na comissão, 53 milhões de reais em débitos vinculados à sua pessoa física ou a empresas das quais é diretor ou presidente. Um de seus financiadores de campanha, o Banco Mercantil do Brasil, deve 38 milhões. Kaefer foi o campeão de propostas de alteração da MP. Das 376 emendas apresentadas 44 eram dele. Queria prazos maiores e perdão de multas e juros, entre outras. É o devedor medalha de bronze, 32 milhões.

Os empresários Cardoso Jr. e Kaefer são doutores em rolos tributários. O peemedebista, que na época da montagem da equipe de Temer, em maio de 2016, anunciou-se no Facebook como ministro da Defesa e depois ficou a ver navios, é réu em duas ações penais no Supremo Tribunal Federal (STF). Uma delas, a 983, é por crime contra a ordem tributária. O jovem de 38 anos, sobrenome ilustre e suspeito em Minas, é alvo ainda de quatro inquéritos por sonegação fiscal e crime contra a ordem tributária, entre outras razões. A Companhia Siderúrgica Pitangui, da qual é dirigente, responde por 49 milhões dos 53 milhões de suas dívidas e anda encrencada no Judiciário.

O experiente Kaefer, 62 anos, é um caso interessante. O Ministério Público desconfia que fez fortuna com calote em credores. Ele reelegeu-se em 2014, pelo PSDB, como o deputado mais rico do Brasil, 108 milhões de reais em bens declarados à Justiça. Hoje é réu no STF em uma ação penal aberta durante a campanha. O MP acusa-o de esconder do Banco Central que uma instituição que ele comandava em 2000, a Sul Financeira, tinha passivo de 72 milhões de reais e patrimônio de 4,5 milhões, uma situação a justificar uma intervenção do BC.

Os empréstimos omitidos teriam mascarado encrencas financeiras do seu grupo empresarial, o Diplomata. Logo após a campanha, uma juíza decretou a falência do grupo, decisão recém-anulada pelo Superior Tribunal de Justiça. Kaefer é alvo de mais cinco inquéritos no STF, por fraude contra credores e crime contra a ordem tributária. Compreensível a “alegria” expressa por ele na comissão no dia da votação. “Posso dizer de cadeira, de letra" que essa proposta atende "o anseio de milhares de empresas”.

A votação de 3 de maio teve uma única dose de emoção. O deputado Pauderney Avelino, do DEM do Amazonas, tentou reverter a aprovação. Estava inconformado com a exclusão, pelo relator, de um mimo tributário existente há anos para a Coca-Cola na Zona Franca de Manaus. Alegou que ninguém conhecia o relatório previamente, daí que a votação estava sub judice. O presidente da comissão, senador Otto Alencar, do PSD da Bahia, perguntou em nome de quem Avelino falava.

Era do governo? “Da moralidade”, foi a resposta. “Da moralidade?”, espantou-se Alencar. Numa daquelas famosas conversas com figurões do PMDB sobre o enterro da Operação Lava Jato em consequência do impeachment de Dilma Rousseff, gravadas por ele mesmo, Sérgio Machado comentou: “Aquele cara, Pauderney, agora virou herói. Um cara mais corrupto que aquele não existe, Pauderney Avelino”. Alencar não deu bola para o esperneio do moralista sem moral e encerrou a sessão.

Naquele instante, uma CPI do Senado a investigar maracutaias na Previdência ouvia o presidente do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional, Achilles Frias. Esses procuradores são os responsáveis por cobrar dívidas tributárias na Justiça. Frias foi duro contra a comissão dos caloteiros. “É grave o que ocorreu hoje”, comentou. “Em um país sério, um devedor ou um grande devedor não votaria uma medida dessa sendo parlamentar.” Carinho especial em Cardoso Jr: “É um grande devedor, e ele não só votou como foi o relator, ou seja, um grande devedor acabou de apresentar um relatório para anistiar as suas próprias dívidas”. Enquanto isso, disse, “o trabalhador ou assalariado não tem nem como parcelar, porque ele não tem nem como dever, é descontado na fonte”.

O órgão federal da carreira de Frias, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), foi quem elaborou a lista dos congressistas caloteiros. De cada três parlamentares, dois estão com o nome na Dívida Ativa da União. Um total de 337, com débitos de quase 3 bilhões de reais. A lista nasceu de um pedido da Folha de S.Paulo, feito com base na Lei de Acesso à Informação (LAI). A PGFN publicou-a na internet um dia após a votação na comissão. Deixou-a na web por meia hora e então a retirou, por haver imprecisões. Dizia que voltaria a divulgar após correções, mas a pressão do Congresso sobre o Palácio do Planalto foi tanta que a ideia foi abortada. CartaCapital solicitou a lista corrigida, com base na LAI, e ainda espera resposta.


O Planalto amarelou devido à reforma da Previdência, proposta que alçou à condição de Santo Graal e agora o deixa à mercê da chantagem dos aliados congressuais. “Estão enfiando a faca no governo”, diz um deputado do PMDB sobre o que se tem visto em Brasília, uma desavergonhada barganha de cargos e dinheiro para obras (emendas parlamentares) em troca de votos pró-reforma. No caso do novo Refis, a área econômica até que tenta resistir à pressão.

Em debate no Senado na terça-feira 9 sobre o sistema tributário, Rachid, o chefe do Fisco, foi claro: a criação periódica de programas de rolagem de dívidas é um convite ao calote, especialmente por parte de grandes empresas. Segundo ele, nos últimos anos, quando a expectativa de parcelamentos e perdões entrou no horizonte empresarial, a Receita deixou de arrecadar uns 18 bilhões de reais anuais.

O que acontece, diz Achilles Frias, é que a rotina de rolagem tornou o calote tributário uma opção lucrativa para o empresariado, que embolsa a grana dos impostos para fazer negócios. A monografia “Análise Histórica sobre o Refis”, concluída no ano passado na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), dá uma pista de como o calote é lucrativo.

Seu autor, Roberto Alexandre do Amaral, examinou todos os Refis, uma história iniciada em 2000, no governo Fernando Henrique Cardoso. Ele pegou o caso concreto de uma empresa devedora de 30 milhões de reais em dezembro de 2014. Com base nas regras do último Refis, instituído em 2009 e reaberto em 2013, a empresa poderia pagar 127 mil reais mensais por 15 anos para regularizar a situação e, graças aos perdões de juros e multas, lucrar 9 milhões. Um “excelente negócio”, anotou o autor.

Já agraciados no Refis de Temer juntamente com o empresariado, os ruralistas querem agora um presente só para eles, para quitar uma fatura de 8 bilhões a 10 bilhões de reais que, com juros e multas, chega a 22 bilhões. No fim de março, o Supremo julgou uma ação antiga a tratar de uma lei de 2001 que taxa em 2,3% as vendas dos fazendeiros. A taxação, chamada de Funrural, serve para financiar a seguridade social e a aposentadoria de camponeses. Os fazendeiros não pagam, recorrem à Justiça, mas agora perderam no STF. E enlouqueceram. Alguns de seus representantes no Congresso foram a Temer, no fim de abril, cobrar uma solução, já no forno.

Em 3 de maio, mesmo dia da aprovação do novo Refis na comissão dos caloteiros, puseram 500 produtores no Senado, em um evento destinado a fazer barulho e chantagem. “O Congresso é nossa última esperança”, dizia o líder da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Nabhan Garcia. “O Funrural foi mais um dos agravantes, não aguentamos mais perseguição de ordem trabalhista, de ordem ambiental, de ordem fundiária.”

O pessoal não aceita quitar a dívida acumulada no Funrural, no máximo pagar daqui em diante. Ex-líder da UDR, o senador Ronaldo Caiado, do DEM de Goiás, propôs uma lei com perdão total da dívida. E desafiou o Planalto: “Para o governo entender, a classe rural tem maioria nas duas casas, porque é suprapartidária”.

Como foi que a democracia no Brasil acabou dominada pelo empresariado, seja urbano, seja rural? Obra do nosso sistema eleitoral, sem igual no mundo, segundo o cientista político Bruno Reis, da UFMG, um dos quatro autores da pesquisa “Dinheiro e política: a influência do poder econômico no Congresso Nacional”, em fase de conclusão. O País, afirma, tem poucas empresas doadoras de campanha, pois a economia é oligopolizada, e muitos candidatos em colégios eleitorais grandes. Como a oferta de financiamento é pequena e a disputa por verba, muita, o parlamentar fica refém do doador.

Ou então é rico e paga a campanha do bolso. “Montamos uma plutocracia, os grandes financiadores ditam o jogo, o poder econômico capturou o sistema de representação política”, diz Reis. Eis a razão para a greve geral e a raquítica popularidade de Temer não terem sido capazes até aqui de levar ao enterro da votação das reformas trabalhista e da Previdência.

Deputado no sexto mandato seguido, presidente da Câmara em 2007 e 2008, Arlindo Chinaglia, do PT de São Paulo, não tem dúvidas. Há enorme influência do poder econômico no Congresso. A doação empresarial, mesmo que não “compre” o parlamentar, cria no mínimo um acesso facilitado ao patrocinar no Legislativo. “Toda vez que houver uma votação capital versus trabalho, o capital vai ganhar”, diz.

A próxima dessas batalhas será dia 24, a reforma da Previdência no plenário da Câmara. Vários movimentos sociais prometem ocupar Brasília para pressionar contra. Terão de gritar bem alto se quiserem se fazer ouvir pelo camarote vip. 
Posted: 17 May 2017 10:00 AM PDT
Publicado originalmente no Jornal GGN.


É errado supor que o passado não pode ser modificado. Entre 1945 e 1950, foram feitas pesquisas na França, perguntando a quem os franceses atribuíam a vitória na segunda guerra. A resposta de mais de 70% da população francesa era de que os responsáveis pela vitória sobre os nazistas haviam sido os comunistas, soviéticos e franceses. Após 1960, as mesmas pesquisas revelavam que mais de 68% dos franceses acreditavam que a segunda guerra havia sido ganha pelos norte-americanos.

Este é um caso de reconfiguração do passado. Milhões de dólares despejados num processo de propaganda ideológica reorganizava as memórias de todo um continente, virtualmente apagando o esforço de guerra feito pelos soviéticos em sua luta contra os fascistas. Este processo é tão violento que hoje há ainda quem acredite que a URSS é ameaça para o mundo ocidental. A quem acredite que o comunismo ameaça o Brasil.

Isto nos serve para perceber que as elites sabem muito bem como jogar com a propaganda. Sabem como reconstruir memórias, criar e atacar símbolos. Além dos imensos recursos materiais que os detentores da riqueza mundial têm ao seu dispor, eles entendem este processo de dominação ideológica de forma muito mais apurada do que a esquerda.

A Lava a Jato foi designada desde 2012, pelo menos, para reescrever a História do Brasil. O objetivo principal não é acabar com a corrupção, não é entregar riquezas brasileiras a estrangeiros ou destruir o governo Dilma. Todos estes pontos são e foram secundários. O objetivo é lutar pela memória dos últimos catorze anos. Como o período entre 2002 e 2014 será lembrado? Será um momento virtuoso do Brasil em que conquistamos autonomia política externa pelo pagamento de dívidas e forte desenvolvimento, acabando com a fome e redistribuindo riqueza? Ou será um período de aparelhamento perverso do Estado com destruição da economia por uma corrupção nunca antes existente e que colocou o país em uma crise pelos vinte anos seguintes?

Impossibilitados de lutar contra o passado, opositores políticos de Lula resolveram apagar completamente o governo da história. Reescrevendo a narrativa através dos golpes institucionais, se reorganiza o pensamento elitista de que “o povo não sabe governar”. O interrogatório de Moro a Lula, na semana passada, expressa exatamente isto. Das cinco horas de interrogatório, o juiz usou três horas para suas perguntas, e quase todas remetiam ao início do período entre 2002 e 2010. Por isto a mídia é tão importante. Nada tem a ver com o combate à corrupção, que pode ser feito sem alarde e seguindo os preceitos legais. Mudar a história não pode ser feito em silêncio, em gabinetes de juízes ou desembargadores. É preciso horas em jornais diários, construindo a narrativa da terra arrasada.

Infelizmente, neste jogo, uma parte da esquerda cai como um pato amarelo. Talvez por ingenuidade ou por tentarem amealhar votos, parte da esquerda tem feito exatamente o mesmo papel de desconstruir o período entre 2002 e 2014. Começam por pejorativamente chamar de “lulismo” e, em seguida, colocam-se ombreados com a direita a exigir prisão de A ou B e declarar que tudo não passou de um “populismo irresponsável”. Não vou entrar aqui na discussão historiográfica sobre os absurdos desta tese. O fato é que quando a esquerda se une para atacar o “lulismo” ela joga um papel gratuito. Papel que o capital pagou alguns milhões de dólares para grupos como MBL e outros fazerem.

Precisamos entender duas coisas: primeiro, todos aqueles que culpam o “lulismo” pelo não desenvolvimento de alternativas de esquerda durante este tempo, o fazem para não reconhecer o seu próprio fracasso eleitoral. O fato é que nenhuma figura de esquerda hoje faz mais de 10% de intenções de voto sozinha. E não se pode nem acusar Lula que, a bem da verdade, colocou TODAS as lideranças que o apoiaram em postos de governo. Desde Cristóvão Buarque, até Marina Silva, todos participaram do primeiro governo. Se fizeram guinadas à direita ou se não conseguiram andar pelas próprias pernas, isto é outro problema. Luciana Genro não conseguiu passar para o segundo turno nas últimas eleições, em Porto Alegre. Freixo, mesmo com todo o apoio que recebeu no Rio, não conseguiu eleger-se. Haddad da mesma forma. Mesmo o novo “nome de ouro” da esquerda, Ciro Gomes, não faz mais votos que Bolsonaro. Ouso dizer que se alguma candidatura emplacasse mais de 10% de votos, Lula não concorreria.

O segundo ponto é compreender que defender Lula hoje, para a imensa maioria da população, não é defender um político que pode ou não ter cometido atos desabonadores. Que pode ou não ter sido beneficiado em alguns negócios. Que pode ou não ter deixado de fazer reformas em nome de uma composição política questionável. Apoiar Lula hoje é defender a própria história. Apoiar Lula é dizer que os últimos catorze anos não foram uma farsa. É lutar pela própria sanidade mental, dizendo que se trabalhou, e muito, neste período para um Brasil mais justo. Lula é, portanto, não mais o metalúrgico Luís Inácio que organizava greves em 1970. Lula hoje significa um período de tempo na vida de cada um. Um período em que o Brasil saiu do mapa da fome, ficou mais rico e menos desigual. Defender o símbolo Lula, não é compactuar com reformismo ou com alianças fisiológicas. Defender Lula é reafirmar os últimos catorze anos da vida de todos e de cada um, dizendo a altos pulmões que eu estive aqui e sei o que aconteceu.

A direita sabe disto, por isto ataca o símbolo Lula e não o metalúrgico Luís Inácio. Por isto precisa de mídia e não de justiça. O fato é que se a direita brasileira tivesse um trunfo destes governaria pelos próximos vinte anos. A esquerda, entretanto, continua se fagocitando. Destruindo seu capital político em troca de nada. Se Lula será ou não candidato em 2018 é secundário. Hoje é preciso lutar pela História dos últimos catorze anos. É preciso dizer que é possível crescer e incluir, que é possível desenvolver e distribuir e que é possível que o povo exerça sim o poder.


Fernando Horta é Graduado em História pela UFRGS e com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, Fernando Horta é o novo articulista do Jornal GGN. Atualmente, Horta trabalha em seu doutorado, com o tema "Realismo e Guerra Fria: A construção das Relações Internacionais", também na UnB.

Nenhum comentário:

Postar um comentário