sábado, 27 de maio de 2017

27/5 - Eleições gerais na Grã-Bretanha

FONTE:Castor Filho <castorfilho@yahoo.com>


Eleitores paralisados entre o direito de escolher e o bloqueio pela mídia-empresa

Eleições gerais na Grã-Bretanha
25/5/2017,
Mark Curtis,* The New Internationalist [contribuam]

Da série "Mídias-empresas atlanticistas [pró EUA & Israel] desgraçam qualquer democracia

Na Grã-Bretanha/2017: "A desinformação construída e disseminada pelas mídia-empresas que apoiam a atual política exterior da Grã-Bretanha e atacam Jeremy Corbyn é tão ampla e avassaladora, que já não se pode nem esperar que a eleição seja livre e justa. Os britânicos votarão sem terem sido corretamente informados sobre o papel de seu país no mundo e sobre o que realmente está em jogo."
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As próximas eleições têm dois traços chaves. Um é que os eleitores estão diante de uma escolha genuína pela primeira vez numa geração. Mas o outro é que a desinformação construída e disseminada pelas mídia-empresas que apoiam a atual política exterior da Grã-Bretanha e atacam Jeremy Corbyn é tão ampla e avassaladora, que já não se pode nem esperar que a eleição venha a ser livre e justa. Os britânicos votarão sem terem sido corretamente informados sobre o papel de seu país no mundo e sobre o que realmente está em jogo.

A política exterior dos Conservadores britânicos virou em grande parte ação clandestina, com tropas e ataques com drones em pelo menos
sete c guerras clandestinas [orig. covert wars] – na Síria, Iraque, Líbia, Iêmen, Afeganistão, Paquistão e Somália. Essas guerras, das quais algumas são ilegais, são mantidas sob cerrado sigilo, porque o governo sabe que os cidadãos e o Parlamento se oporiam, se soubessem do que o governo britânico está fazendo pelo mundo.

Há na verdade mais uma guerra que Theresa May comanda, essa contra os direitos humanos, agora que o governo britânico, nos últimos nove meses, aprofundou relações com conhecidos abusadores, especialmente Egito, Bahrain, Israel, Arábia Saudita, Uzbequistão e Turquia. O governo até divulga sua disposição para oferecer treinamento a esses estados em seus ‘desafios de segurança interna’ (quer dizer: a Grã-Bretanha está vendendo serviços de treinamento para forças interessadas em reprimir movimentos da própria população).

O atual governo britânico reforçou e aprofundou o relacionamento especial com dos EUA, agora de Trump, num momento que se pode descrever como o mais perigoso das relações internacionais desde o início dos anos 1980s. A Grã-Bretanha está aumentando a cooperação militar com Washington, ao mesmo tempo em que se compromete num programa de £178 bilhões (USD$231 bilhões) para reequipamento e desenvolvimento de novas capacidades ofensivas. Whitehall prepara-se para mais guerras, enquanto o objetivo já declarado da Marinha de Sua Majestade é controlar regiões ricas em recursos naturais e ameaçar todos que se oponham a esse objetivo.

As políticas propostas por Corbyn opõem-se e desafiam esses movimentos do neoliberalismo militarista que Trabalhistas e Conservadores infligiram ao mundo nas últimas décadas –, mas de modo algum são políticas radicais.

O manifesto do Partido Labour não promete pôr fim à exportação de armas para ditadores e governos dedicados a destruir direitos humanos, mas apenas às vendas que gerem 'preocupação' de que possam vir a ser usadas para violar a lei internacional humanitária. Mesmo as exportações de armas para a Arábia Sauditas só seriam suspensas até que investigações comandadas pela ONU emitissem conclusões nos casos de denúncia de violações da lei internacional.

Mesmo assim, as políticas do governo britânico são tão radicais e extremistas, que mesmo as modestas propostas do partido Labour já sinalizam ruptura de dimensões consideráveis. O Labour de Corbyn prometeu apoiar o reconhecimento do Estado Palestino, liderar esforços multilaterais para criar um mundo 'livre de bombas nucleares', promover o direito de retorno dos desalojados das Ilhas Chagos e revisar os programas de armamento e instrução para regimes repressores –, políticas as quais, todas elas, desafiam o consenso das elites e com certeza serão furiosamente combatidas pelo governo de Whitehall.

O Labour de Corbyn também se compromete a 'trabalhar nas Nações Unidas' e pôr fim ao 'apoio a guerras unilaterais de agressão intervencionista'. São políticas que se pressupõem em muitos países, mas a elite bipartidária britânica tornou-se de tal modo fanática que já faz falta uma lei que obrigue todos os partidos a registrar em seus manifestos que, em todos os casos, todos devem parar de destruir outros países e de assassinar outros civis (como o Iraque e os civis iraquianos, o Iêmen e os civis iemenitas ou a Líbia e os civis líbios e outros casos).

Mas a desinformação que a grande mídia-empresa promove e dissemina, que já alcança níveis de recorde mundial, impede que os eleitores realmente exerçam o próprio direito de escolher. Um dos aspectos de uma eleição livre e justa e algo que pelo menos aspire a ser cobertura 'não partidarizada' pelas empresas privadas, públicas ou mistas, de mídia & jornalismo. Não é o que se vê na Grã-Bretanha.

O noticiário que a BBC apresenta sobre eventos da política externa britânica é simples amplificação e eco das prioridades do estado, dedicado a ocultar todos os tipos de abusos de direitos humanos. A BBC ainda não noticiou, sequer, que a Grã-Bretanha está em guerra – no Iêmen, onde o governo de Tereza May está armando os sauditas para bombardeio massivo; já lhe forneceu aviões e £1 bilhão em bombas, ao mesmo tempo em que treina pilotos sauditas.

Entre 4 de abril e 15 de maio, o website da BBC mostrou apenas 10 artigos sobre o Iêmen, mas 97 sobre a Síria: focada em supostos crimes de governo inimigo, e cega para os crimes de nosso próprio governo britânico. Praticamente nenhum dos artigos da BBC sobre o Iêmen fala de exportações de armas britânicas. O governo de Theresa May é cúmplice no assassinato em massa de civis no Iêmen e também é cúmplice de empurrar para que morram de fome milhões de pessoas. Que nada disse seja tema discutido na atual campanha eleitoral é espantosa vitória da propaganda de guerra, contra o jornalismo de democratização.

A maioria das políticas exteriores britânicas são demonstrações eloquentes de o quanto o estado dá pouca importância à democracia e aos direitos humanos – mas essas políticas estão absolutamente ausentes da campanha eleitoral.

Listei e documentei 41 políticas que estão quase totalmente ausentes dos noticiários dos veículos das grandes mídia-empresas nesses tempos que antecedem as eleições – desde o papel que a Grã-Bretanha desempenha como paraíso fiscal do mundo, até as relações cada dia mais amistosas com o regime cada dia mais repressor que governa o Egito. O governo britânico disse que tem/teria perfeito direito de executar ataques militares com drones também em áreas onde não há conflito armado. O comando da Marinha de Sua Majestade declarou a relevância do papel dos militares britânicos no apoio à "crescente ambição econômica global" do país – eco dos tempos da glória do Império. Há pelo menos cinco políticas exteriores declaradas, nas quais o governo britânico viola legislação internacional. E a lista continua.

A agenda de Corbyn não está sendo corretamente exposta, além de ser atacada incansavelmente todos os dias por todos os veículos da mídia-empresa no país, desde o Mail pela direita, até o 'liberal' Guardian/Observer. Embora muitos jornalistas digam que se oporiam só ao que chamam de 'baixa capacidade de liderança' de Corbyn, a calúnia e a difamação começaram imediatamente depois de ele ter sido eleito líder do partido Labour e têm motivação sobretudo ideológica: a agenda de Corbyn, diretamente focada na defesa dos direitos humanos, é ameaça que o establishment atlanticista de direita e extrema direita considera gravíssima. O establishment atlanticista põe-se acima da lei internacional e obra como se tivesse direito de intervir onde bem entendesse – movido pelo 'relacionamento especial' que o liga aos EUA, Israel e Arábia Saudita.

O "Código de Conduta dos Editores de Jornais e Revistas do Reino Unido" [ing. UK Editors Code of Practice] exige que "a Imprensa cuide de não publicar informação ou imagens inacuradas, enganadoras ou distorcidas, inclusive manchetes que não se apoiem no texto". Quantas vezes por dia essa exigência civilizacional é atropelada? E porque é atropelada, o que se vê é o jornalismo como agente de produção de ignorância em massa. Por trás da fachada supostamente sofisticada e moderna, a cultura da elite britânica é belicista e miseravelmente tacanha. E as mídia-empresas faz o que pode para defender os interesses belicistas tacanhos da elite política e corporativa.

Dessa vez, tão logo a eleição passe, temos de abertamente nos levantar contra o modo como as mídia-empresas operam seus respectivos veículos, sempre contra o melhor interesse dos eleitores – cujo direito de se manifestar livremente aquelas mídia-empresas e veículos bloquearam e saquearam. Sem isso, a 'democracia britânica' jamais ultrapassará o estágio de boa ideia. *****


* Mark Curtis é historiador e analista de política exterior britânica e de desenvolvimento internacional. É autor de seis livros. Website: markcurtis.info. Twitter: @markcurtis30


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