domingo, 28 de maio de 2017

28/5 - Altamiro Borges DE HOJE

Altamiro Borges


Posted: 28 May 2017 09:33 AM PDT
Por Ricardo Kotscho, em seu blog:

Ao mesmo tempo em que Michel Temer se segura como pode na cadeira presidencial, a cada dia mais isolado e enfraquecido, para não perder o foro privilegiado, aliados e oposicionistas movimentam-se abertamente na busca de um nome de consenso para por no seu lugar.

Só que não está fácil antecipar a saída do ainda titular do Planalto, e muitos menos encontrar uma solução constitucional para o impasse político criado com as delações da JBS.

E a renúncia está fora dos planos de Temer, como ele já anunciou várias vezes.

Qualquer que seja o caminho escolhido para encurtar o mandato do presidente - impeachment, cassação no TSE, convocação de eleições diretas ou indiretas - os rituais de passagem são demorados e, com isso, Temer vai ganhando tempo, que é seu principal objetivo no momento.

A fórmula mais rápida e menos traumática seria a cassação da chapa Dilma-Temer no julgamento marcado para começar no dia 6 de junho, mas nada garante que o desfecho possa acontecer ainda este ano.

Como de costume, os ministros podem pedir vistas (o governo acabou de nomear dois novos integrantes do tribunal), sem prazo para devolver o processo e, caso perca o mandato, Temer já comunicou que vai recorrer em todas as instâncias.

Enquanto isso, a cada dia que passa, nomes de possíveis substitutos para uma disputa no colégio eleitoral entram e saem das listas de apostas.

A semana começou com o favoritismo do ex-ministro Nelson Jobim, um político-jurista que circula com desenvoltura em todos os partidos e poderes, mas nesta sexta-feira ele já foi rebaixado a possível ministro da Justiça num eventual governo comandado pelo tucano Tasso Jereissatti, tendo Rodrigo Maia como vice.

"Não contem comigo", avisou Jobim na véspera, em almoço com investidores promovido pelo banco BTG Pactual, onde é sócio, quando lhe perguntaram sobre uma possível candidatura presidencial. Ministro, então, nem pensar.

Com passagem marcada para uma longa viagem ao exterior, o ex-ministro não quer nem falar no assunto, alegando motivos profissionais e familiares, mas em política nunca se sabe.

Senador e ex-governador do Ceará, Jereissati teria dificuldades para impor seu nome na Câmara, dona de 513 votos no colégio eleitoral (o Senado tem 81), o que favorece Rodrigo Maia, outro presidenciável indireto.

O desespero é tamanho com a falta de opções viáveis que, na quinta-feira, começou a circular o nome do governador paulista Geraldo Alckmin, do PSDB. O tucano já descartou seu nome e indicou os de Tasso e FHC.

Talvez se torne necessário importar algum executivo estrangeiro para ocupar o cargo, como sugeri aqui no começo do ano quando Barack Obama ficou desempregado depois de passar a presidência para Donald Trump.

Ficha limpíssima, saiu do governo americano aplaudido pelo mundo todo, tem um currículo invejável e, além de tudo, fala bem inglês.

Tem o detalhe de que não nasceu no Brasil, mas Rodrigo Maia também não (nasceu no Chile, quando seu pai era exilado político). Nada que uma pequena mudança na lei não resolva. Por que não?

O outro lado da história

Acostumamo-nos tanto com o pensamento único na mídia nativa que ouvir o outro lado da história foi uma agradabilíssima surpresa.

De um lado da mesa,estava o jornalista Mario Sergio Conti, apresentador do programa "Diálogos", na Globo News.

De outro, o ex-ministro Gilberto Carvalho, apresentado como um quadro histórico do PT.

Durante meia hora, já tarde da noite, chegando do trabalho, voltei a me sentir partícipe de um diálogo de fato democrático, sem cartas marcadas.

Um perguntava o que deveria perguntar e o outro respondia na lata como um militante político daqueles de antigamente.

Conti já havia entrevistado outros petistas em seu programa, abrindo espaço para o contraditório, mas nenhum tinha defendido com tanto empenho o lado derrotado na guerra política que dividiu o Brasil.

Gilberto tinha acabado de sair da batalha campal de Brasília e veio dar a entrevista em São Paulo. Deu uma uma versão bem diferente da oficial.

Quem está contando a verdade?

Para saber, só vendo o programa que pode ser resgatado na internet nestes mil canais que existem hoje em ida.

Foi, para mim, acima de tudo, um momento de grandeza do jornalismo e do que restou da velha militância em nosso país, qualquer que seja o nosso lado nesta interminável guerra política.

Quem foi?

Ao anunciar a retirada das tropas do Exército de Brasília, no dia seguinte ao protesto que acabou em confronto entre manifestantes e a polícia, com atos de vandalismo e barbárie dos dois lados, o ministro da Defesa Raul Jungmann, que me lembra muito o personagem do "sambarilove" no modo de falar, disse que o governo quer identificar e punir os responsáveis pelos prejuízos causados ao patrimônio público.

Acho ótimo que isso seja feito. Assim, finalmente, saberemos quem são e de onde vêm os pequenos grupos de alucinados chamados de "black-blocs", que aparecem no meio das manifestações com pedras, paus e coquetéis molotov, apesar da revista que é feita pela polícia.

Não se deve descartar a ação de agentes provocadores infiltrados, como aconteceu no ano passado aqui em São Paulo, quando um oficial foi detido antes de um protesto, e de quem nunca mais se ouviu falar.

Vida que segue.
Posted: 28 May 2017 09:13 AM PDT
Por Erika Kokay, na revista CartaCapital:

As “ações controladas” da Operação Lava Jato, de iniciativa da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal, que constituíram provas materiais contra o senador tucano Aécio Neves​ e o presidente ilegítimo Michel ​T​emer, desmascarou de uma vez por todas a parcialidade do juiz Sergio Moro e dos procuradores da “República de Curitiba”.

Não estamos falando de PowerPoint com convicções para ser exibido de forma espetaculosa pela mídia, mas de provas documentais, de amplo e farto material fotográfico, áudios e vídeos, dinheiro rastreado, malas com chips, enfim, todo um processo de investigação sigiloso da Polícia Federal que comprovou esquemas de propina e corrupção envolvendo dois importantes nomes da política nacional.

Desde o início da Lava Jato, Aécio e Temer foram citados dezenas de vezes em depoimentos de réus, delatores e investigados da operação, apareceram em diversos diálogos gravados por operadores de esquemas de corrupção na Petrobras, Furnas, Caixa Econômica Federal, mas nada foi suficiente para que a seccional da Lava Jato de Curitiba tomasse qualquer providência contra eles.

Quem não se lembra das gravações de áudio a envolver o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, e o então ministro do Planejamento, Romero Jucá ​ (PMDB-RR)​

Eles revelaram que o impeachment da presidenta legitimamente eleita, Dilma Rousseff, era parte de uma estratégia para “estancar a sangria” da Lava Jato. Além disso, foram realizadas citações contundente envolvendo Aécio Neves, naquele momento citado cinco vezes na operação. “Quem não conhece o esquema do Aécio?”, pergunta Machado a Jucá. Pelo visto, Moro era o único que não conhecia ou fingia não conhecer tal esquema.

Várias vezes o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ)​ dirigiu perguntas a Temer. A sociedade brasileira sabia que o conteúdo das perguntas tinha o sentido de pressionar e chantagear Temer. Cunha fazia essas perguntas para deixar claro que sabia muito e que seu silêncio era muito valioso. E o que fazia Moro com essas perguntas? Engavetava. Em vez de agir como juiz, Moro atuava como advogado de defesa de Temer, a exemplo de quando impugnou 21 das 41 questões levantadas por Cunha. Moro chegou a cometer o absurdo de dizer que o roteiro das perguntas de Cunha era um “episódio reprovável” e “tentativa de intimidação da Presidência da República”.

Diferente desse joguete de compadres com corruptos do PSDB e do PMDB, Moro não hesitou em fazer da Lava Jato uma trincheira de perseguição jurídica e política contra Lula, Dilma e o PT.

Em todo o tempo, Moro preocupou-se tão somente em fazer o uso político da operação para vazar delações e fazer escutas ilegais e influenciar o cenário político nacional. Em um momento crucial do processo de impeachment contra Dilma, Moro vazou para a Globo diálogos da presidenta com o ex-presidente Lula. Apesar do diálogo não ter absolutamente nada de comprometedor, foi decisivo para o desfecho do processo, tornando-se um episódio emblemático da atuação política persecutória de Moro.

Em vez de investigar, qual era o uso que Moro dava às delações? Com auxílio da mídia, as utilizava de modo ilegal e discricionário a partir do calendário político-partidário. Ora, as delações eram vazadas em momentos em que a população brasileira ia às ruas em atos pró ou contra o impeachment, em véspera de eleições, em momentos-chave da política nacional.

E por que Moro nunca optou por um processo investigatório profundo? Sabia e sabe que se desse um passo para além de delações sem provas inocentaria Lula. Não poderia continuar com o discurso farsesco de que o ex-presidente é o chefe de um esquema criminoso na Petrobras, dono de um tríplex que não lhe pertence, dono de um sítio que não lhe pertence, enfim, com acusações sem lastro comprobatório de que o Instituto Lula teria adquirido um terreno que nunca foi comprado. Um processo investigatório sério que buscasse provas, certamente inocentaria Lula, o que não interessa e nunca interessou à “República de Curitiba” e àqueles que tramaram um golpe contra a democracia.

A ação da PGR e do STF deixa clara a parcialidade de Moro, a conveniência de suas ações ao sabor da conjuntura política, não tendo em nenhum momento a responsabilidade que o P​oder Judiciário exige de investigar os fatos e elucidar os supostos crimes denunciados.

E o que faz o juiz de Curitiba após as avassaladoras provas contra Temer e Aécio? Tenta de modo desavergonhado manter uma narrativa furada de que “não havia, na época da decisão, qualquer notícia do envolvimento de Temer nos crimes que constituem o objeto daquela ação penal”.

Definitivamente, Moro foi desmascarado. A casa da Lava Jato de Curitiba caiu.

* Erika Kokay é deputada federal e presidenta do PT-DF​.
Posted: 28 May 2017 09:05 AM PDT
Por Marcelo Auler, em seu blog:


Quem lê o editorial deste domingo (28/05) da Folha de S. Paulo – Sucessão Especulada – e foi testemunha, em 1983, da audaciosa coragem do jornal ao publicar o editorial Por eleições diretas, conclui facilmente que na ausência do seu antigo dono, Octávio de Oliveira Frias, o jornal, hoje comandado por seus filhos, Octávio Filho, na parte editorial, e Luís Frias, como presidente da empresa, se acovardou. Lamentavelmente!

A Folha, que nos anos de 1983/84 escreveu parte da História do Brasil (com maiúscula) ao se transformar em porta-voz do que a sociedade civil clamava, hoje é capaz de criticar o processo de escolha indireta, como faz o editorial, sem, contudo, assumir aqui que milhões de brasileiros já pedem em praça pública e renovarão os pedidos ao longo deste mesmo domingo ao ocuparem ruas de diversas cidades brasileiras: Diretas Já!

Este foi o primeiro, mas não o único. Talvez, o mais importante tenha sido o de 3 de novembro do mesmo ano – Diretas agora - que marcou definitivamente o ingresso do jornal na campanha, transformando-o no Jornal das Diretas. Algo bastante ousado na época, mas que só a Folha, por sua independência financeira e editorial, poderia fazer. O resultado, até comercialmente falando, foi palpável, a ponto de tornar-se o maior matutino do país. Em termos de respeitabilidade então nem se fale. Quem viveu aquela época como seu repórter sabe disso.

Vivo fosse “Sr. Frias”, que muitos acusavam de ser um “granjeiro dono de jornal”, jamais publicaria uma posição em cima do muro como a que seus filhos fizeram hoje em um jornal que, merecidamente, foi chamado por Ulisses Guimarães de “Porta-voz das Diretas Já!“. Basta lembrar a forma como ele decidiu engajá-lo e toda a sua equipe, a partir de novembro daquele ano, na campanha que ainda se iniciava. Fui partícipe desta bela época e testemunhei tais fatos, ainda que possa não ter estado em todas as reuniões que o levaram a ganhar destaque na sociedade brasileira.


Editoria de 3 de novembro de 1983, que marca o ingresso do jornal na campanha.

A ideia de o jornal – que se intitulava um “saco de gatos” por se dar ao direito de, em plena ditadura, publicar artigos de todas as correntes ideológicas -, abraçar a bandeira do voto do eleitor para escolher o sucessor do general de plantão no Planalto, João Baptista Figueiredo, partiu do Ricardo Kotscho. Ele, casualmente, sentava-se ao meu lado na velha redação da Rua Barão de Limeira. Entre a apresentação da proposta que idealizou durante um fim de semana e a decisão do “Sr. Frias” não foram gastos nem 24 horas, como narro mais adiante. O jornal poderia – como queriam alguns, entre os quais Boris Casoy, então diretor de redação -, não abraçar esta bandeira. Jamais, porém, tomaria uma posição dúbia, como consta do editorial deste domingo, quase três décadas e meia depois.

Kotscho entregou as três laudas em que expôs e defendeu o engajamento na campanha como forma de a Folha tomar o partido da sociedade civil que já clamava há tempos pelo direito de escolher seu presidente, a Adilson Laranjeiras, então chefe de reportagem. Pouco tempo depois estava nas mãos do Sr. Frias que convocou editores e repórteres especiais para uma reunião na mesma tarde, ou fim de tarde. Após ler o que recebera como proposta, todos foram ouvidos.

Eu não estava nessa reunião, ainda era um “bagrinho” como diziam, embora participasse da Comissão de Redação – a primeira instituída oficialmente em órgão de imprensa. Pelo que soube, o último a falar foi justamente Casoy, que se posicionou contrário à ideia, dando seus motivos. “Sr. Frias”, porém, não se convenceu e decidiu ali mesmo que o jornal se engajaria na campanha.

No relato do próprio Kotscho no livro “Explode um Novo Brasil – Diário da Campanha das Diretas” (Editora Brasiliense, 1984), na hora foi constituído um grupo para cuidar de toda a cobertura da campanha que era coordenado exatamente por Octávio Frias Filho, então secretário do Conselho Editorial. Como tal ele respondia, junto com o pai, pela linha editorial que o jornal tinha. Por isso, causa estranheza a quem viveu aquele período dentro do que chamávamos de “Vênus Pastilhada” (por conta das pastilhas amarelas que cobriam sua fachada e em um contraponto ao prédio da Rede Globo no Rio, conhecido como Vênus Platinada), ver a Folha, ainda sob o comando de Octávio Frias Filho, publicar um editorial com as passagens que destaco abaixo:



Nem se recorra ao argumento de que hoje a Constituição prega a eleição por meio do Congresso Nacional. Isso também acontecia em 1983 e a Folha foi clara ao se opor ao texto daquela Carta, reescrita durante a ditadura civil-militar, que o jornal apoiou no seu início, com episódios lamentáveis que a História registrou. A campanha de 1983, no fundo, é quase idêntica à campanha atual que ganha cada vez mais adesão da população: mude-se a regra.

O “quase idêntica” fica por conta de que hoje, como narramos em TSE pode provocar Diretas Já!, existir na legislação vigente a previsão da eleição direta no caso da vacância dos cargos de presidente e vice-presidente. Está no Código Eleitoral. É verdade que a constitucionalidade dele está sendo questionada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no Supremo Tribunal Federal, desde maio de 2016.

Mas, não é menos verdade, que na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 5525 foi pedida uma liminar suspendendo a validade da lei e o ministro relator, Luís Roberto Barroso, não a concedeu. Portanto, para todos os efeitos, a lei está vigente.

A propósito da discussão da constitucionalidade desta mudança que o Congresso Nacional fez em 2015, vale a leitura do artigo do ex-procurador regional da República, Daniel Sarmento, professor de Direito Constitucional na UERJ. Ele, em nome da Clínica de Direitos Fundamentais da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, pediu ingresso no processo, na qualidade de amicus curiae (amigo da corte). Com isso, terá voz na hora do julgamento do caso.

A tese que ele defende para justificar a mudança na legislação e o acatamento a ela, independentemente do texto constitucional está muito bem explicada em artigo que publicou em outubro de 2016, no site Jota -Eleições presidenciais (in)diretas, a ADI 5.525 e o espírito da Constituição cidadã. Deste artigo, copio o trecho abaixo em que ele expõe quando deve ocorrer a eleição indireta prevista no art. 81 da Constituição e quando ela deve ser Direta, como o Congresso incluiu no Código Eleitoral:

“De acordo com a disciplina legislativa adotada, quando a segunda vacância ocorrer na metade final do mandato presidencial, e derivar de causas não eleitorais – e.g., morte, renúncia, impeachment, condenação criminal – aplica-se o art. 81, § 1º, da Lei Fundamental, com a convocação de eleições indiretas. Nesse caso, a primeira eleição foi presumivelmente válida, mas ocorreram fatos supervenientes, impeditivos da conclusão do mandato pelo Presidente e por seu substituto. Já quando o pleito tiver sido contaminado por vícios reconhecidos pela Justiça Eleitoral, o art. 81, §1º, não incide. Nessa última hipótese, diante da invalidade do resultado da eleição originária ou dos mandatos por ela conferidos, entendeu o legislador que se deveria, na medida do possível, atribuir ao próprio povo a prerrogativa de eleger validamente a sua (ou o seu) Presidente da República, ao invés de se conferir tão importante poder ao Congresso Nacional. Em outras palavras, na ótica do legislador, a incidência do art. 81, § 1º, da Carta, pressupõe a validade do pleito eleitoral original e dos mandatos que dele resultarem“.

Há, portanto, uma diferença básica entre a situação de 1983 e a atual. Mas, no fundo, há coincidências também maiores que devem ser levadas em conta.

Inicialmente, tanto quanto o governo militar de Figueiredo, ainda que por motivos diversos, o atual governo de Michel Temer não tem respaldo popular. Ambos foram conquistados na base do golpe. Um que levou25 anos para terminar. Outro, o atual, que pode se encerrar em pouco mais de um ano. O impossível, na visão dos eleitores, é se manter este governo mais do que suspeito, mas envolvido com diversos de seus membros em casos explícitos de corrupção.


Outra coincidência entre as duas situações é a falta de confiança da população no Congresso Nacional (CN). Ou seja, no chamado “colégio Eleitoral indireto”. Isto, por sinal, é explicitado nos dois editoriais da Folha.

No corajoso editorial que defendeu Diretas em 1983, o jornal retrata a realidade de então:

“Falta ao Colégio Eleitoral previsto pela Constituição, antes de tudo, representatividade para escolher em nome do povo, uma vez que sua composição, definidas a garantir a supremacia do PDS, não reflete sequer aproximadamente as tendências do voto popular nas eleições de 1982“.*

Na posição ambígua e covarde que adotou neste domingo (28/05), o editorial também, expõe, ainda que de forma disseminada, as dificuldades políticas que envolverão uma negociação para a escolha do sucessor de Temer dentro do Legislativo. Inclusive, como lembra o próprio editorial, incluindo acordos para salvar a pele de políticos corruptos, a começar pelo próprio presidente golpista:

“(…) O acordo dependerá de um rearranjo de forças e papéis entre os múltiplos partidos governistas, PMDB e PSDB em especial.

Conforme os cenários mais discutidos no momento, trata-se de decidir pela candidatura tucana do senador Tasso Jereissati (CE) ou a do preferido dos deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara. Há mais, porém.

Mesmo o PMDB tendo sido gravemente avariado por escândalos, não haverá composição viável sem o apoio do partido, que, além de postos no poder, demanda uma transição que não deixe sua cúpula no sereno da Justiça.

Mesmo antes da irrupção da crise, era árduo o trabalho para aprovar as reformas, em especial a da Previdência. A maioria que se articulava teria de ser, no mínimo, renegociada em uma hipotética troca de comando do Executivo.

Tendem a ser reabertos ainda, nesse caso, entendimentos em torno de projetos legislativos capazes de atenuar punições aos políticos hoje ameaçados por processos judiciais. Iniciativas do gênero, se levadas a cabo, agravariam o descrédito geral da elite dirigente perante a opinião pública.”


Se o próprio jornal afirma que a saída que os políticos buscam para resolver a sucessão entre eles, sem ouvir a opinião popular, “envolve o risco de acentuar fissuras na base partidária, o que inviabilizaria medidas ambiciosas”.

Mais ainda. Ao dizer que acontecendo isso, o governo eleito indiretamente “pouco poderia fazer além de evitar um desastre econômico maior, conduzindo o país em banho-maria até as eleições de 2018“, a conclusão óbvia é de que a melhor definição será a escolha direta, pelo povo, dando legitimidade ao novo governo. Tal conclusão não é apenas óbvia, mas acima de tudo lógica.

Para expô-la, porém, era preciso ter a coragem que, usando o termo carinhoso de Kotscho, “o velho Frias” teve, em 1983. Mas aos seus sucessores ela parece ter faltado, seja por que motivos (interesses?) forem. Perderam uma boa oportunidade que o pai jamais perderia.
Posted: 28 May 2017 08:50 AM PDT
Por Tatiana Carlotti, no site Carta Maior:

É cada vez mais explícito, dentro do governo Temer, o abismo que separa os interesses do capital e os da população brasileira. A diferença de tratamento também: aos investidores, especuladores, CEOs, injeções de tranquilidade e a promessa “as reformas irão passar”; à população nas ruas, bombas, porretes, detenções.

Na última semana, enquanto Michel Temer frustrava o país ao bradar “eu não renunciarei”; Henrique Meirelles, o todo poderoso ministro da Fazenda, garantia que, “independentemente de qualquer coisa”, “as reformas sairão” e a “agenda econômica será idêntica”.

Meirelles tenta “tranquilizar o mercado”, “minimizar os ricos”, em suma: fazer com que a crise política e a pressão popular não prejudiquem a agenda de austeridade econômica. Com a catilinária neoliberal na ponta da língua, o ministro não menciona os 10% de aprovação do governo Temer, tampouco sua responsabilidade no irrisório índice.

Sem mídia para cobrar, Meirelles vende aos investidores e ao país que a economia está se recuperando. Daí a importância de declarações como as do presidente do IBGE, Paulo Rabello de Castro, para quem os números não indicam melhoria, pelo contrário, “são muito ruins” (leia mais).

Blindagem da mídia

Em relação a Meirelles, a blindagem da mídia vai muito além de uma efetiva cobrança de eficiência ou de um questionamento da agenda de austeridade, mesmo se tratando de decisões que afetarão a vida de milhões de pessoas. Vendido como um antídoto contra o caos, Meirelles é incensado como a “parte boa do governo”.

Talvez isso explique, embora não justifique, por que a imprensa deu pouco destaque à sua posição no conselho da J&F, entre 2012 e 2016, período investigado pela PF. Embora não exista nenhum indício contra o ministro – é bom frisar - a diferença de tratamento da mídia, Rede Globo à frente, foi colossal.
Basta lembrarmos o bombardeio midiático contra outras personalidades públicas envolvidas com empresas, delatores ou criminosos investigados pela PF, sobretudo pessoas que ocupavam cargos decisórios e importantes nessas empresas.

Em “Meirelles era o presidente do JBS e não sabia de nada?”, artigo publicado no GGN, Mauro Lopes faz uma pergunta que os veículos do oligopólio silenciaram: “se Meirelles foi o presidente do grupo entre 2012 e 2016 e não soube que saíram R$ 500 milhões do caixa das empresas, nas mãos de quem está a economia do país?” (leia a íntegra).

Outra reportagem que merece destaque foi a da TV Gazeta, onde o jornalista Rodolfo Gamberini foi taxativo: “qualquer presidente de conselho, mesmo consultivo, sabe o que se passa em uma empresa. Aliás, é essa a sua função. Mas no caso da JBS não. O presidente do conselho não percebeu que a empresa desviou centenas de milhões de reais para corromper”.

Gamberini comenta ainda: “Quem era o presidente do conselho da J&F, holding da JBS? O banqueiro Henrique Meirelles, hoje ministro da Fazenda que quer reformar a aposentadoria dos outros, mas não a dele que seria de mais de 200 mil reais por mês, paga pelo banco FleetBoston”. Assista ao vídeo:

Exceções à parte, o ministro manteve-se blindado. Vale lembrar que em julho do ano passado, quando outra empresa da J&F, a Eldorado Celulose, entrou na mira da Lava Jato, Meirelles afirmou ter sido conselheiro de diversas entidades:

“Neste caso, era o conselho consultivo, objeto de consulta. Não tenho mais nada a ver com nenhuma dessas empresas. Em todas fui convidado e aceitei, mas fiz contratos de encerramento” (leia mais).
E não se falou mais nisso.

“Agora é com ele”

Reportagem de março de 2012, publicada na revista Exame, dimensiona o peso da contratação de Meirelles para a holding que, naquele momento, controlava outras seis empresas e tinha uma receita estimada em 65 bilhões de reais.

Apesar disso, a JBS contava com uma dívida de 10 bilhões de reais, suas ações não conseguiam se valorizar na bolsa de valores – neste sentido, a credibilidade de Meirelles contribuiu bastante - e a empresa estava sendo alvo de críticas por ter obtido mais de 5 bilhões de reais em empréstimos do BNDES.

Diante do quadro, à Exame, Joesley afirma: “Agora é com ele [Meirelles]”, acrescentando que o ex-presidente do Banco Central não seria “apenas um consultor”, mas cobraria “resultados dos executivos” e traçaria “estratégias para a expansão do negócio”.

A reportagem, inclusive, questiona por que Meirelles escolheu trabalhar na holding J&F, citando que assim que saiu do Banco Central, o ex-ministro recebeu doze boas ofertas de emprego, entre elas, trabalhar para o Goldman Sachs, com direito à vaga no conselho da matriz do banco, em Nova York.
Meirelles que, segundo a reportagem, receberia um salário anual de até 40 milhões, respondeu: “Quando assumi o BC, o maior desafio do Brasil era a estabilidade econômica. Hoje, é a competitividade das empresas. É aí que eu posso dar minha maior contribuição”.

Para além da participação de Meirelles no conselho das empresas dos irmãos Batista, outra pauta pouco explorada pelo noticiário foram as várias de citações a Meirelles durante a conversa entre Temer e Joesley.

Um diálogo que não o desabona, pelo contrário, exalta a correção do ministro “muito trabalhador” de Temer, mas que deixa patente como se dá a rede de influência e as conversas noturnas de gabinete.
Combinado com a PF, o dono da Friboi gravou sua conversa com o decorativo e citou várias vezes o nome do ministro. Vale ouvir a íntegra e reparar na linguagem, a forma natural como pedidos desta monta são feitos e ouvidos sem reprimenda.

No caso, Joesley pede apoio a Temer para tornar Meirelles mais receptivo em relação aos seus interesses. Lamenta que o ministro se esquiva e pergunta se pode usar a influência do presidente – dizendo que eles haviam conversado – junto ao ministro. Temer confirma: “pode avisar para ele (Meirelles) que (você) tem meu apoio”.

Reformas

Evidente que a diferença de tratamento da mídia em relação a Meirelles diz respeito à função central que o ministro cumpre dentro do golpe. Assim como o mercado, a mídia não é um ser incorpóreo, mas empresas de comunicação que defendem interesses corporativos.

A Meirelles cabe - independentemente do presidente da vez – garantir a aprovação das reformas e a implementação da austeridade. Daí que não espanta ele ter sido cotado como possível substituto do decorativo. Questionado se pretende se candidatar à Presidência, Meirelles não respondeu, apenas sorriu.

Na semana passada, reportagem da Folha apontava como fator positivo à escolha de Meirelles o fato dele “se vender como o ´homem das reformas´” e ter a capacidade de “acalmar o mercado que prevê o Apocalipse a cada crise”.

“Seria impopular, como Temer, mas o mandato é tampão”, afirmava o texto, citando como fator negativo, mas sem problematizar, a participação do ministro no conselho da J&F.

O que espanta é que Meirelles é incensado como uma boa escolha justamente por causa de reformas, contra as quais milhares de brasileiros vêm ocupando as ruas. Reformas que destroem garantias e direitos constitucionais e que drenam recursos essenciais à sobrevivência de milhões de pessoas.

Pelo medo – a ameaça do Apocalipse criado pelo deus mercado – reafirma-se a catilinária neoliberal e se apresenta a ideia de que as reformas afastarão este risco. Quanto aos riscos da fome e da velhice sem direitos, só para citarmos duas ameaças muito concretas, nenhuma linha na imprensa.
O fato é que escorado pelas reformas, o ministro suplica a paciência do mercado.

Foi assim em julho de 2016, quando afirmou sobre a reforma da Previdência: “a expectativa é concluir as mudanças antes de outubro. Espero que seja antes das eleições municipais”.

Foi assim na semana passada, quando a assessoria do ministro divulgou que ele está “trabalhando pela aprovação da proposta” e que “um eventual atraso não fará grande diferença porque o efeito da reforma no país é de longo prazo”.

Bola de Cristal?

O autoritarismo é tamanho que Meirelles começou a profetizar. Disse à Folha, por exemplo, que não enxerga a possibilidade da oposição, contrária às reformas, assumir o poder e mudar o curso da política econômica.

Disse também que embora não tenha os 308 votos para a aprovação da Reforma da Previdência, “a agenda de reformas nesse momento se tornou parte da agenda do Congresso” e que “os líderes mais importantes do Congresso já entenderam que as medidas fiscais têm de ser aprovadas e estamos seguindo adiante”.

Para uma plateia composta de empresários do setor de infraestrutura, Meirelles garantiu a manutenção das reformas: “essa é a agenda econômica independente de qualquer coisa”. E jogou no ar uma metáfora, no mínimo, intrigante: o que interessa são “as correntes profundas”.

Em meio a tanta profundeza, ele ainda afirmou que a agenda econômica vai continuar “independente[mente] de qualquer coisa”. E que “existe uma consciência nacional de que as reformas precisam ser feitas”.

Consciência nacional?

É provável que o ministro da Fazenda tenha ouvido a consciência nacional em Brasília na última quarta-feira (24.05). A reação popular às reformas vem sendo de fundamental importância, bem como a perspectiva de eleições em 2018.

Em entrevista à Folha, o próprio relator da reforma da Previdência, Arthur Oliveira Maia (PPS-BA) mencionou o impacto da aprovação da reforma nas eleições de 2018: “a cada dia que passa, é mais difícil, é mais complicado. O que é difícil hoje será mais difícil daqui a um mês”.

Enquanto isso Meirelles continua repetindo o mantra de que o país está em “trajetória de crescimento” e cantando os louros da aprovação do teto de gastos: “não vamos achar que é pouca coisa a aprovação de teto de gastos. É a primeira vez que se altera a Constituição para isso”.

Se depender das forças progressistas, primeira e última.

Em vídeo de treze minutos, divulgado no youtube, o economista Amir Khair alerta:
“O país não estava melhorando. A gente só começa a melhorar quando a massa salarial começar a crescer e a massa salarial ainda está decrescendo. E do ponto de vista fiscal, está levando cada vez mais a dívida crescer. Nós já nos aproximamos de R$5 trilhões de dívida do país. Isso não pode continuar deste jeito”.
Posted: 28 May 2017 08:29 AM PDT
Por Hamilton Pereira/Pedro Tierra, no site da Fundação Perseu Abramo:

Eles e elas chegaram de todo o Brasil, convocados pelas centrais sindicais, pelas frentes Brasil Popular e Povo sem Medo e pelos partidos de esquerda. Vieram para se manifestar contra a violência que tem marcado, há um ano, o assalto aos direitos dos trabalhadores consagrados na Constituição de 1988. Em particular contra a liquidação da Previdência Social que lhes garanta uma aposentadoria digna no fim da vida e contra a reforma trabalhista que remete as relações capital-trabalho para a etapa anterior à Lei Áurea.

Os trabalhadores do Brasil desembarcaram na capital do país, neste 24 de maio, para expressar seu inconformismo e afirmar sua cidadania. Uma vigorosa demonstração de apreço pela democracia e uma advertência aos que imaginam tratá-los como rebanhos sem consciência dos seus direitos, submetidos a poder de vara: haverá resposta contra o esbulho dos direitos conquistados.

O que vimos em Brasília, na tarde de 24 de maio de 2017, foi a exibição da truculência de um governo acuado por todos os lados, despido de todo resquício de legitimidade, contra uma manifestação democrática, anunciada há dias, preparada pelos setores organizados dos trabalhadores brasileiros. Desprovido de argumentos capazes de convencer a sociedade, o governo arreganha os dentes e mobiliza o mais conhecido instrumento que define as tiranias: a força bruta para vencer seus opositores pela intimidação. Brasília converteu-se na emblemática imagem do que ocorre no conjunto do país: um Estado policial.

Para alcançar aquele objetivo, o governo golpista produziu duas ações convergentes: desencadeou uma repressão brutal contra os manifestantes – incluindo aí um antigo expediente utilizado pela direita: a infiltração de agentes provocadores para desencadear distúrbios e quebra-quebras – e assim, sob a alegação de assegurar a Ordem Pública, legitimar a violência do Estado contra os cidadãos; e expediu um Decreto (GLO) autorizando a utilização das Forças Armadas de 24 a 31 de maio de 2017, numa tentativa canhestra de submeter a Capital da República ao Estado de Sítio enquanto são votadas no Congresso Nacional as reformas rejeitadas pela esmagadora maioria da população.

Problemas: a) o anúncio do Decreto feito pelo Sr. ministro da Defesa, Raul Jugmann, e pelo Gal. Sérgio Etchegoyen, do Gabinete de Segurança Institucional, teve como justificativa uma solicitação do Deputado Rodrigo Maia, Presidente da Câmara dos Deputados. O Presidente da Câmara veio imediatamente a público desmentir o Ministro e dizer que não havia feito tal pedido, que o Decreto era de inteira responsabilidade do Executivo; b) o Governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg também veio a público por meio de nota oficial afirmar que não foi informado previamente da emissão do Decreto, como determina o protocolo, e que a PMDF reúne plenamente as condições para garantir a ordem pública no Distrito Federal; c) o comandante do Exército, Gal. Vilas Boas, reiterou os termos da declaração do governador do DF e disse entender que a PMDF tem condições para assegurar a ordem pública na capital.

Em menos doze horas esse arreganho autoritário, esse simulacro que buscava conferir ares de legalidade ao arbítrio, ruiu sob o peso do próprio ridículo, da falta de credibilidade e da reação firme de diferentes setores sociais e políticos, mesmo aqueles que se identificaram com o golpe que produziu esse governo lamentável. Ficou reduzido à sua própria nudez: uma tentativa malsucedida de oferecer escudo protetor a um escroque que, de posse da faixa presidencial, conferida por um golpe parlamentar, judiciário e midiático pago com o generoso dinheiro da JBS, humilha a nação brasileira. E, para manter-se, tenta servir-se das instituições do Estado em favor de uma agenda antipopular e antinacional.

Os acontecimentos de 24 de maio revelam que os partidos e empresas que deram sustentação ao golpe de 2016 vivem um momento de impasse, sem unidade tática que oriente o próximo movimento. Os reais interesses que conduzem a calculada calamidade a que levaram o Brasil: os interesses financeiros, agrários, industriais e das petroleiras internacionais expressos diuturnamente pelos monopólios de comunicação encontram dificuldade para controlar o lumpen que, em seu nome, assumiu a operação da agenda de assalto aos direitos dos trabalhadores e aos interesses nacionais.

A presença da massa significativa de trabalhadores convocados pelos movimentos populares atesta que a resistência dos setores da base da sociedade, beneficiados pelas políticas sociais dos governos democráticos de Lula e Dilma, têm o condão de por em pânico a camarilha que sente o chão ceder sob seus pés. Não por acaso, o Brasil do governo golpista vem assistindo no último ano a cenas que mostram aos seus cidadãos e ao mundo como helicópteros da Polícia Militar lançam bombas de gás lacrimogêneo sobre multidões de cidadãos e cidadãs desarmados que se manifestam para reivindicar direitos garantidos na constituição.

O Brasil do governo Temer, sustentado pelo PSDB, PMDB, DEM e demais siglas auxiliares, levado à desmoralização por seus próprios delatores, nutrido pelo ódio de classe, vê emergir um Estado Policial que prefigura a substituição da política como forma de equacionar e resolver conflitos pela utilização bestial da força armada do Estado contra seus cidadãos.

Neste 24 de maio, as classes trabalhadoras deram um passo adiante na árdua disputa que se trava na sociedade brasileira em torno do conteúdo essencial da agenda golpista: a destruição dos direitos sociais assegurados na Constituição de 1988, a liquidação da Previdência Social e a abolição dos direitos trabalhistas com uma reforma que nos remete aos tempos da escravidão. A sociedade organizada, para além dos setores mais mobilizados, se dá conta de que foi lesada com o atropelo da soberania popular por meio do golpe e com a venda da soberania nacional em curso com a entrega das jazidas do pré-sal e da venda de terras a estrangeiros. Fica evidente que o Brasil se tornou ingovernável ao se romper o pacto constitucional de 1988, e não há saída duradoura para a crise em que as elites lançaram o país sem a participação popular por meio de Eleições Diretas Já!

* Pedro Tierra é poeta. Ex-presidente do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo.
Posted: 28 May 2017 08:26 AM PDT
Por Rodrigo Vianna, no blog Escrevinhador:



O jestor privado João Dória é um jênio.

Decretou o fim da cracolândia. E ao fazê-lo demonstrou ter sérios comprometimentos de fundo psíquico, já que parece acreditar na mitologia que fabrica todos os dias – à base de propaganda e discurso autoritário. Dória começou usando propaganda pra enganar os outros. E acabou enganando a si mesmo.

Agora se desespera, maltratando repórteres que perguntam o óbvio: “como o senhor responde às críticas de que praticou na cracolândia um ato higienista, de limpeza social?” Clique aqui pra saber como o prefeito reagiu à pergunta, de forma destemperada, típica de quem não sabe ser contrariado.

O prefeito de São Paulo comandou uma operação absurda e desastrada, em que bombas, tiros e tratores foram usados de forma covarde, contra pessoas que precisam de tratamento médico. Claro, não há solução simples nesse caso. A gestão Haddad (e antes dele outros gestões de variadas tendências políticas) vinham tentando enfrentar o drama da cracolândia. Jamais, nenhum jênio – de direita ou esquerda – acreditou que tudo se resolvesse com “tiro, porrada e bomba”.

O problema de Dória foi vender a seu distinto público que “basta vontade pra resolver tudo”. O prefeito agiu de forma descabida, apostando na linguagem do “aqui a gente não quer papo, não; vamos fazer acontecer”.

São Paulo não é estúdio de TV, mas Dória é de fato um aprendiz de prefeito.

Foi criticado pelo Ministério Público. Viu sua secretária de Direitos Humanos se demitir por se opor ao desastre, e agora criou um problema muito mais sério para a cidade.

Dória acaba de inaugurar uma nova cracolândia. O amontoado de usuários de crack se deslocou algumas quadras, e agora se concentra na praça Princesa Isabel. A “nova cracolândia” fica a dois quarteirões da sede da “Folha” – diário conservador paulistano. E a “Folha não parece estar muito contente com o jestor – leia aqui o tiro que a Folha dispara contra Dória.

Mais que isso. A praça Princesa Isabel abriga o maior monumento paulistano a Duque de Caxias (herói do Exército brasileiro). Ou seja: o jênio que pisa sobre os pobres plantou uma nova cracolândia às portas da “Folha” e sob a sombra de Caxias.

A situação é tão dramática que os comerciantes da região passaram a apelar ao… Exército pra tentar resolver a balbúrdia criada pelo jestor.

Depois de aumentar velocidade nas marginais, desprezar ciclovias e derrubar prédio com moradores dentro na cracolândia, Dória vira um zumbi.

É ele quem vaga pela cidade, como um viciado, um dependente crônico de marketing.
Posted: 28 May 2017 08:11 AM PDT
Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

Uma das queixas mais frequentes entre os simpatizantes de Dilma é esta: onde foram parar as panelas?

A cada denúncia de corrupção, a questão reaparece nas redes sociais: e aquele pessoal que batia panela o tempo todo?

Pois bem.

Houve nas redes sociais registros de panelas no pronunciamento de Temer no Natal.

Mas nada comparável aos panelaços de antigamente.

Que houve com elas, as panelas? O fato é que elas já não são as mesmas.

Os panelaços eram não exatamente contra a corrupção. Eram contra o PT e Dilma. Por isso sumiram.

Qualquer coisa servia de pretexto para ir para a janela do apartamento com uma panela. Os tolos estavam sendo manipulados, mas pensavam estar fazendo história.

Era uma atitude que para sempre estará vinculada a uma classe média reacionária e visceralmente analfabeta política.

É um tipo de gente que aceita corrupção nos outros, e até em si própria. Mas no PT qualquer boato, qualquer suspeita de corrupção é um horror de proporções ciclópicas.

Outra diferença vital entre as panelas está na mídia.

A imprensa decide a repercussão que vai dar a qualquer manifestação. O jornalismo de guerra dá volume máximo para protestos contra o PT, e mínimo ou nenhum para os outros.

Ainda que houvesse uma adesão maciça às panelas na fala televisiva de Temer, isto não teria sido notícia.

Há panelas e há panelas. Aquelas que vinham envoltas em xingamentos contra Dilma e o PT só sairão das cozinhas quando - e se - o PT voltar ao poder.

Até lá, pode esquecer.
Posted: 28 May 2017 08:02 AM PDT
Por Wallace dos Santos de Moraes, no jornal Le Monde Diplomatique-Brasil:

Desde 2013, o Brasil vive um quadro de crise política institucional dos mais profundos. A iminente queda de Michel Temer constitui-se como apenas mais um capítulo dessa novela. Para discutirmos as denúncias contra o presidente da República e termos mais dados para análise, sem cairmos em previsões infundadas, é necessário clarear algumas constatações históricas fundamentais da política brasileira:
1) a Rede Globo é ainda hoje o principal meio de formação de opinião dos brasileiros sobre política;

2) historicamente, ela representou os interesses majoritários dos capitalistas do país;
3) desconhecemos evidência de recuo de uma proposta dela com relação à retirada de um presidente da República do seu cargo, seja através de golpe militar explícito, de golpe institucional ou de impeachment.
Se admitimos que essas assertivas são verdadeiras, Michel Temer cairá em breve.
Se isso não acontecer, significará que a Rede Globo não representa mais os interesses majoritários do grande capital, nem dos principais políticos no país e seu império midiático está prestes a ruir.
Nesse sentido, é sempre importante fundamentarmos nossas hipóteses com base na história política brasileira. Nos últimos 65 anos, a Rede Globo ocupou o espaço de um dos principais atores políticos, sempre participando com grande poder de decisão em momentos-chaves. Vejamos.
O jornal O Globo, quando ainda não havia sido constituída a poderosa Rede Globo, foi um dos principais atores na desestabilização do governo de Getúlio Vargas em 1954. Quando Vargas aceitou a proposta de João Goulart, então escolhido para o Ministério do Trabalho, de dobrar o salário mínimo, foi gerada uma convulsão nas elites empresariais do país. O Jornal O Globo, como porta-voz desse setor, publicou várias denúncias contra o presidente da República, acusando-o de mandar assassinar seu principal inimigo político, Carlos Lacerda. Nesse mesmo ano, Getúlio Vargas cometeu o suicídio, alegando em carta-testamento que forças ocultas o impediam de governar. Depois da morte de Vargas, o jornal O Globo foi atacado por milhares de manifestantes no Rio de Janeiro.
Dez anos mais tarde, entre 1961 e 64, o herdeiro de Vargas, João Goulart, assumiu a presidência da República. Mais uma vez, o Jornal O Globo se opôs veementemente ao seu governo e ajudou a preparar o golpe militar-civil que o retiraria do poder em 31 de março de 1964, por meio de uma quartelada.
Durante os vinte anos da ditadura militar-civil foi construída a Rede Globo, um grande império midiático, chegando a vários pontos do país e incluindo o seu meio de comunicação mais importante: a televisão. Ela serviu de apoio político-ideológico do governo dos generais e se mostrou como a maior formadora de opinião no Brasil, difusora de informações, verdadeiras ou não, mas sua principal prática foi esconder, e muito bem, as torturas, os assassinatos, as perseguições, a corrupção, as falcatruas realizadas nesse período sombrio da história brasileira. A Rede Globo exacerbou a autocensura jornalística, isto é, antes da censura dos militares, o jornal só informava aquilo que agradaria ao regime.
Com o fim do regime militar, teve início a luta pelas “Diretas Já” e a Globo impediu que as imagens dos governados nas ruas fossem exibidas na TV e nos seus jornais e rádios. A censura era seletiva: atentava exatamente contra os movimentos populares. Nada de reivindicações poderia aparecer no seu império. Quando era inevitável, tinha que aparecer como algo negativo. Essa foi e é a lógica.
Depois do apoio incondicional à ditadura militar-civil e a tentativa de esconder a campanha pelas “Diretas Já”, em 1984, a Rede Globo voltou sua atuação intensa contra a criação de direitos sociais na Constituição de 1988, atendendo às demandas das associações empresariais (FIESP, FIRJAN, CNI). Assim, os trabalhadores, hoje, possuem menos direitos do que poderiam usufruir, em função da ajuda da empresa de Roberto Marinho.
No ano seguinte, em 1989, na primeira campanha eleitoral pós-ditadura militar-civil, a Globo apoiou totalmente o candidato Fernando Collor de Mello, fazendo-o vencedor, mas sobretudo impedindo a vitória de seu principal inimigo político, herdeiro de Vargas e de Goulart, Leonel Brizola, e também do operário, Lula da Silva. Para tanto, o jornalismo global trabalhou intensamente para desmerecer as candidaturas de seus inimigos e para vender Collor de Melo como um salvador da pátria. Por consequência, a Rede Globo apoiava o neoliberalismo no país.
Como a vitória de Collor havia sido por uma margem de votos muito pequena e ainda vinha exercendo um governo bastante impopular com confisco da poupança da população, diminuição dos lucros dos empresários etc., a Globo defendeu abertamente o seu processo de impeachment. O objetivo era apaziguar o país, as lutas sociais e resgatar sua supremacia nas comunicações depois de ajudar a eleger um candidato extremamente antipopular. A manipulação da informação por parte da Globo era percebida por grande parte da população e o apoio ao impeachment também significava retomada da credibilidade. Em 1992, os militantes petistas pediam as pessoas para assistirem a Globo!
Em 1994, a Globo apoiou incondicionalmente a candidatura de Fernando Henrique Cardoso para a presidência e protegeu seu governo de uma tal maneira que não era possível sair nenhuma crítica. Inclusive, em episódio incidentalmente gravado por ela mesma, em uma entrevista com o então ministro da economia Rubens Ricúpero, transmitida apenas para quem possuía antena parabólica, que havia admitido que não tinha escrúpulos pois se prestava a fazer campanha aberta para FHC como ministro e dizendo ainda: “o que é bom, a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Isso em plena campanha eleitoral. A Rede Globo não mostrou nenhuma linha, em nenhum dos seus meios de comunicação, jornais, rádios, e TV, sobre o assunto.
A Globo blindou o governo de FHC tal como blindou a ditadura militar-civil. Sob o governo do PSDB, o Brasil viveu uma das piores crises econômicas de sua história, com um dos maiores índices de desemprego e de queda do PIB, mas nada disso era discutido, sequer apresentado nos meios de comunicação do império midiático.
Apesar de tudo, os governados não são idiotas e perceberam que a crise econômica era muito intensa, fruto das medidas neoliberais adotadas pelos tucanos. Em função disso, ocorre o crescimento de votos nulos desde os anos 1990, com sua exacerbação depois dos protestos de 2013. Assim, em 1998, FHC foi eleito com menos votos que a soma de votos em branco, nulos e abstenções. Uma verdadeira vergonha.
Em 2002, Lula da Silva recebeu o apoio da Rede Globo e venceu as eleições. O PT não era mais uma ameaça nem para os capitalistas nem para sua porta-voz principal. Ao contrário, alguns setores acreditavam que uma política de neodesenvolvimentismo, com fácil financiamento do BNDES e com intervenção do Estado, injetando dinheiro em determinados setores, poderia alavancar a economia. E assim aconteceu com a Odebrecht, com JBS, com os bancos e outros setores. Isto não é uma contradição no capitalismo. Vários estudos mostram como as grandes empresas dos países imperialistas cresceram com a ajuda deslavada do Estado. A própria Globo foi favorecida com dinheiro público durante a ditadura militar para instituir seu império. 

Durante o governo Vargas, a criação das estatais tinha por objetivo favorecer o desenvolvimento do chamado capital nacional através de vendas de produtos a preço de custo para as empresas. Sob o governo de FHC, o BNDES cumpriu função equivalente no processo de privatização das estatais, pois emprestava dinheiro para determinados grupos comprarem as empresas antes públicas e depois passaram a cobrar pelos serviços prestados. Outros processos semelhantes a esses foram as concessões para explorações de rodovias. O Estado investia, deixava a estrada pronta com o dinheiro público e depois concedia a uma empresa a exploração dos pedágios. Um verdadeiro escárnio com o dinheiro público e a inteligência da população.
Portanto, atribuir esses problemas apenas aos governos petistas é tentar impor uma visão seletiva que não colabora para entendermos amplamente o processo. A crítica, portanto, correta e real deve ser feita a todo o sistema que pelo menos desde a ditadura militar-civil favorece aos grandes capitalistas com dinheiro dos governados, depois de muito suor, de muito trabalho explorado e extraído para alavancar determinadas empresas em conluio com políticos no poder.
Por fim, a Globo atuou com toda sua força para retirar a presidente Dilma Rousseff da presidência em 2015/16, que por incrível que possa parecer vinha realizando as reformas exigidas pelos grandes capitalistas, todavia em ritmo mais lento do que aquele implementado pelo governo atual.
Embora Michel Temer viesse encaminhando uma reforma absolutamente reacionária e conservadora, a Rede Globo fez campanha, assumindo inclusive, em editorial do dia 19 de maio do jornal O Globo, que só restava ao presidente da República a renúncia.
É importante entender que Michel Temer vinha sendo apoiado amplamente pelo PMDB, PSDB, DEM e outros partidos menores. A base aliada estava bastante sólida, ampla e unida no conservadorismo que há muito tempo não estava tão organizado no Brasil. Tudo indicava que a reforma da previdência e trabalhista passaria com bastante folga no Congresso. Por que, então, defender a retirada de Temer? Por que desestabilizar ainda mais o país que já está em crise econômica?
Se vale a pena aprendermos com as experiências do passado, poderíamos dizer que o governo federal possuiu uma notória e grande rejeição popular. Assim, pode ser que a Globo queira se livrar da pecha de quem colocou o Temer no poder, venha resgatar sua credibilidade como a emissora que também retirou o mesmo do poder. Curioso é que seria a repetição daquilo que aconteceu exatamente com Collor de Mello.
Em tempos de poder crescente das redes sociais (Facebook, WhatsApp e outras) com uma circulação imensa de ideias, o poder dos grandes conglomerados de mídia está claramente em declínio, se eles perdem a credibilidade ficam fadados a total desconstrução de seus impérios.
Outra hipótese diz respeito a desestabilizar o país, descredenciando todos os políticos para que a própria população queira/aceite um outro golpe militar-civil. Com Donald Trump no poder nos EUA, a conjuntura torna-se absolutamente favorável para esse tipo de golpe. Um golpe no Brasil, seria o cenário ideal para que se realizasse um golpe também na Venezuela e virasse de vez a visão política no continente com um alinhamento natural ao governo autoritário e conservador dos EUA. Ademais, um golpe militar-civil no Brasil acabaria com todas as denúncias da operação “lava-jato” e dos procuradores que estão colocando na cadeia alguns políticos. O Congresso seria fechado, mas todos os políticos que lá estão se livrariam dos processos de corrupção de que fazem parte.
Além do mais, os militares já possuem um candidato “forte, nacionalista, impetuoso, autoritário, conservador e que se apresenta como corajoso para destruir todas as enormes mazelas da política e da sociedade brasileiras”. O golpe militar pode servir para colocar um deputado federal, militar da reserva, no poder Executivo. Trata-se de Bolsonaro.
Esse candidato está em plena campanha eleitoral, visitando quase que diariamente todos os quartéis do país. Ele ainda possui uma enorme rede de think tanks que divulgam suas ações pelas redes sociais, sendo amplamente compartilhada por militares, seus familiares e amigos.
No pré-1964, a Globo apoiou o “quanto pior, melhor”, justamente para garantir o caminho dos militares ao poder Executivo. Algo similar aconteceu com o lançamento da candidatura de Fernando Collor em 1989. Como os políticos estão muito desgastados, Collor apareceu como o candidato da antipolítica. Bolsonaro é também apresentado dessa maneira, nem parece que ele é um político profissional há muito tempo.
Por consequência, a Rede Globo mostra as falhas de todos os candidatos, mas blindando exatamente Bolsonaro, tal como fez com FHC, com Collor e a ditadura militar. Enquanto aponta as críticas de todos os candidatos e não fala de um deles, é óbvio que o está favorecendo. Enquanto todos se desgastam, a candidatura mais perigosa de todas vai sendo construída subliminarmente. O SBT apresentou no último domingo, dia 21 de maio de 2017, um programa inteiro sobre a candidatura de Bolsonaro, como um herói brasileiro, para tirar o país do que ele chama de bagunça.
Em resumo, com base na história política brasileira, não podemos descartar a preparação de um golpe militar-civil por parte da Globo e de seus oligopólios de comunicação de massa aliados, nem o lançamento da candidatura de Bolsonaro como salvador da pátria. Esses são os piores cenários para a política brasileira, pois estaríamos sem liberdade de expressão e, portanto, nem esse artigo poderia circular.
Por fim, com todas as denúncias apresentadas, as suspeitas populares de que os políticos estão meramente a serviço dos interesses de alguns empresários/banqueiros escolhidos, se confirmou. Os depoimentos ratificam que o dinheiro público, que deveria servir a sua população que contribui, é amplamente utilizado para favorecimento recíproco de políticos e empresários por meio de corrupção e falcatruas. Aquela sensação de corrupção ampla e ativa nos meios políticos e empresariais está agora mais que confirmada. Percebemos também que com esse sistema, do jeito que está organizado, o voto dos governados de pouco adianta, pois os políticos precisam de aliança com aqueles que possuem dinheiro para suas campanhas eleitorais, sejam eles, empresários, banqueiro, narcotraficantes ou qualquer outro, para comprar jornalistas, juízes, televisões, rádios, apoios nas favelas e periferias.
Esse sistema oligárquico-representativo requer que o candidato faça de tudo para se eleger, inclusive, prostituir suas ideias. Para ele, o importante é ganhar a eleição. Trata-se daquela velha máxima: “os fins justificam os meios”, que não deu certo em lugar nenhum. Assim, ele se vende para chegar e manter-se no poder, mesmo que tivesse uma ideologia crítica a isso tudo.
Portanto, não adianta votar nesse ou naquele político. É necessário mudar todo o sistema de organização política da sociedade, sem a qual, continuaremos a transformar algumas pessoas, até com boas intenções, em verdadeiros canalhas corruptos. É necessário jogar todo o sistema político-eleitoral existente no país abaixo e construir um modelo marcado pelo total controle da população sobre todos os rumos das verbas públicas, de seus direitos, enfim o autogoverno. Único que é verdadeiramente oposto a todo tipo de ditadura. Um autogoverno que viabilize a democratização dos meios de comunicação e que acabe com os oligopólios de comunicação de massa para se garantir a verdadeira liberdade de expressão.
Se queremos acabar sinceramente com o uso de dinheiro público para financiar empresas e o dinheiro das empresas para financiar políticos inescrupulosos, se queremos acabar com o compra e venda de votos no Congresso Nacional, com os cargos do Estado virando moeda política, só existe um jeito: governo (Kratos ou cracia) do povo (demos) ou democracia no seu sentido etimológico. Esse modelo só será concretizado quando qualquer pessoa do povo puder exercer influência sobre os rumos do dinheiro público que é construído pelo seu trabalho. Quando sua voz for ouvida pelos demais, quando suas considerações forem levadas em conta, e isso não acontece com um regime representativo no qual um eleito não possui nenhuma obrigação de atender aos interesses dos governados, mas apenas de responder aos financiadores de sua campanha eleitoral. Enfim, estamos vendo no Brasil a total falência do regime representativo e ainda estão tentando nos impor um regime ainda mais ditatorial, quando a melhor solução é a real democracia, que significa autogoverno popular.
Posted: 28 May 2017 07:51 AM PDT
Por Flávia Quirino, no site do FNDC:

Qual o papel da mídia no avanço da pauta conservadora e o discurso de ódio? Essa foi a pergunta central do Painel 1, realizado na tarde deste sábado, 27/5, como parte da programação do 3º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação (3ENDC), em Brasília. O debate foi mediado pela jornalista Beth Costa, secretária geral da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e contou com a presença dos jornalistas Cynara Menezes e Ricardo Melo, além da filósofa Márcia Tiburi.

"Não existe discurso de ódio. Existe o discurso da luta de classes. De um lado, a voz da elite que sempre foi dominante; do outro, o silêncio da maioria explorada" sentenciou o jornalista e ex-presidente da EBC – Empresa Brasil de Comunicação, Ricardo Melo, ao iniciar sua fala. Para ele, a disputa de narrativa e o consequente acirramento da luta de classes no Brasil está atrelado ao monopólio e concentração midiática.

Segundo Melo, isso reflete no conteúdo produzido pela mídia, como, por exemplo, ao noticiar sobre as manifestações e reduzi-las entre manifestações de vândalos e manifestações de defensores da ordem, “essas manchetes são sintomáticas”. "Uma família controlar e monopolizar vários meios como faz a família Marinho é o maior exemplo de concentração de mídia que devemos combater", afirmou Melo.

Para a jornalista Cynara Menezes, a questão do discurso de ódio é indissociável ao ódio à esquerda como um todo, fruto de um contexto histórico que vem desde o período de Ditadura Militar no país e em toda a América Latina. No caso do Brasil, nos últimos anos, alia-se a isso o empobrecimento do debate da imprensa na tentativa de disseminar o antipetismo, somado à falta de informação está também a falta de argumentação de quem dissemina mensagens de ódio na internet.

A blogueira que mantém o blog Socialista Morena informou que a maioria dos seus seguidores na internet não possuem argumentos para contrapor as informações que publica em sua página. “A maior parte das pessoas entram para dizer ‘kkkkk’, é o máximo da argumentação que a pessoa consegue ter”.

“Jornalismo dissemina ignorância”

Menezes destaca ainda que a isso também está relacionada a ausência do papel social do jornalismo, que é de disseminar o conhecimento. “Antigamente, os jornais tinham muito em conta a disseminação de conhecimento, com a chegada do PT no poder, parece que os jornais se esqueceram do seu papel social e se transformaram num partido político que é contra a esquerda. Trocaram esse papel social pela disseminação da ignorância”, sentencia.

“Educação meia boca”

Para a filósofa Márcia Tiburi, que entre outros livros é autora do “Como conversar com um fascista”, o discurso de ódio é fruto de uma “educação meia boca”. “Entendo que esse espírito da nossa educação atual, que deixa as pessoas tratadas pela metade, essa educação que o Paulo Freire chamava de bancária, essa educação que é uma mercadoria, que é a educação para o vestibular, para um tipo de trabalho servil, uma educação que não visa juntar, reunir as perspectivas sociais e que não tem como objetivo oferecer aos formandos, educandos, uma compreensão mais lúcida e complexa da realidade, uma educação que simplifica e vejo muito isso na vida das pessoas”, explicou.

Atuante também nas redes sociais, a filósofa disse que não dá bola para o discurso de ódio. "Nós vivemos a era do empoderamento pelo ódio. Xingar na internet é um ato de autocapitalização de atenção, simplesmente para aparecer e se fazer conhecido. Esse sujeito capitaliza para existir”, destacou Márcia.

No auditório, muitos militantes, ativistas, estudantes, profissionais da comunicação interessados na compreensão sobre o tema do Painel, entre elas a professora do curso de graduação e mestrado em Comunicação da UFT – Universidade Federal do Tocantins, Cynthia Mara Miranda. “Meu interesse em participar é decorrente das minhas inquietações para compreender o momento político atual onde observamos uma divisão ideológica constante entre as pessoas que tem culminado com atos de violência. Assistir essa mesa foi uma oportunidade de conhecer estratégias discursivas para enfrentar esse momento difícil na realidade brasileira”, ressaltou.

3º ENDC

O 3º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação (3ENDC), promovido pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, iniciou na noite da sexta-feira, 26 de maio, com um Ato Público em Defesa da Liberdade de Expressão e vai até este domingo, 28, na Universidade de Brasília (UnB). A programação do 3º ENDC comporta duas conferências e 12 painéis temáticos.

Plenária

Como parte da programação do 3º ENDC, o FNDC também realizará sua 20ª Plenária Nacional, no dia 28 de maio. Entidades Nacionais filiadas e Comitês Regionais do FNDC poderão indicar delegados e delegadas, de acordo com as regras gerais aprovadas pelo Conselho Deliberativo do Fórum.
Posted: 28 May 2017 07:45 AM PDT
Por Ergon Cugler, no site da UJS:

Temer se demonstra cada vez mais insustentável. Ao lado de suas reformas que atacam direitos do povo brasileiro, em especial dos trabalhadores e trabalhadoras, carrega a maior impopularidade das últimas décadas e se segura por um fio fino, tecido por acordões, propinas e pela tragédia de um projeto neoliberal que busca se enraizar no Brasil.

O curioso é que a Rede Globo já se encampou de mudar sua tática perante Temer. Antes isentava sua figura da tragédia do governo, apontando minúsculas movimentações no cenário econômico como algo positivo e fazendo do presidente ilegítimo um “presidente certo na hora certa”, mas quando nasce a possibilidade de eleições indiretas ao lado de sua impopularidade caótica, não sobra um grande empresário que consiga defender Temer.

A realidade é que todo este setor que apoiou o processo de impeachment de Dilma Rousseff por interesses financeiros, hoje não pode mais utilizar de Temer como garoto propaganda da “ponte para o futuro”. Há necessidade no mercado de alguém novo, que fuja do debate político e se agarre em um debate oportunista de anti-corrupção. Aécio Neves poderia ser este garoto propaganda, tendo em vista seu peso dentro do PSDB e nas últimas eleições, no entanto a Rede Globo também tem a expertise de identificar em Aécio a marca da corrupção de forma explícita e intensifica, portanto, seu isolamento para, além de fazer uma média, garantir espaço para o tal novo personagem.

Eleições indiretas são o caminho mais fácil para este setor das gigantes empresariais consagrarem o projeto que hoje está nas mãos de Temer, até porque para isto seria necessário apenas pagar propina sob os votos dos parlamentares e sabemos muito bem que dinheiro é o que não falta para estes que lucram com a queda da nação.

Precisamos ter no radar que, mesmo via eleições diretas, este setor disputará com personagens como João Dória, Roberto Justus ou, até mesmo, Luciano Huck – aqueles que adoram dizer que não são políticos, mas “gestores” e que, sendo ricos, não teriam motivos para roubar dos cofres públicos – mas ao menos assim teremos a oportunidade de desmascarar a tragédia e os interesses por trás deste projeto lesa-pátria.

Para o setor que visa entregar o Brasil ao capital estrangeiro com novos garotos propaganda não existem limites. Sua investida será com Temer, com eleições indiretas ou mesmo com eleições diretas, mas o que sabemos é que a única forma de derrotar este projeto é dando ao povo o poder de decidir, pois o desespero de forçar eleições indiretas é por saber que o projeto de entrega do país e redução de direitos básicos jamais passariam pelas urnas.

Precisamos tensionar, mais do que nunca, e garantir a construção de três passos pela saída da crise política e econômica que o Brasil enfrenta: 1. Fora Temer, com sua queda através das mobilizações populares; 2. Diretas Já, dando ao povo o poder de decidir o futuro do país e, finalmente, legitimidade a algum governo; 3. Soberania Nacional, ao garantir o fortalecimento de um projeto huno, que combata o entreguismo e garanta direitos ao povo brasileiro.

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