quarta-feira, 3 de maio de 2017

3/5 - Blog " DE CANHOTA" de 2/5

De Canhota


Posted: 02 May 2017 07:30 AM PDT

A leitura de vários artigos críticos sobre o conteúdo da narrativa da greve geral esboçada pela grande mídia brasileira - especialmente os excelentes artigos dos jornalistas Igor Felippe e Rodrigo Vianna - nos conduziu a uma conclusão, repleta de consequências políticas, teóricas e estratégicas: a grande mídia brasileira - especialmente o conglomerado monopolista da Rede Globo - pratica um jornalismo de guerra. Por consequência, o jornalismo de guerra resulta numa espécie de militarização da imprensa.

Neste sentido, o jornalismo de guerra é a contrapartida na área estratégica da informação e contrainformação do Estado de Exceção. Segundo o filósofo italiano Giorgio Agamben - que faz a crítica teórica negativa do Estado de Exceção -, invocando a lógica amigo-inimigo do jurista nazista Carl Schmitt uma disputa política só se resolve pela eliminação do adversário. Não há possibilidade de acordo, de trégua política, nem de respeito ao outro, mas a apenas a possibilidade de manifestar a intolerância. Na história do Brasil, eventos como a campanha do “Brasil, ame-o ou deixe-o; na década de 1970, ou até a surpreendente campanha publicitária recente (ano passado) do golpista Temer de “vamos tirar o Brasil do vermelho” operam através da lógica política amigo-inimigo.

O novo Estado de Exceção brasileiro suspende o ideal de espaço público e a ação comunicativa dos discursos antagônicos das utopias habermasianas. Assim, não se realiza a cobertura de um evento como a greve geral de sexta-feira (28/04) a partir das premissas do contraditório e da abertura democrática a versões alternativas que, mesmo eventualmente minoritárias, são influentes na sociedade.

A rigor, a Rede Globo não fez cobertura da greve geral, mas guerra psicológica.

Nos dias anteriores à greve, simplesmente desconheceu o fato, insofismável a olhos vistos, do crescimento da greve nas ruas. No dia da greve, passou do desconhecimento ao jornalismo de guerra mais despudorado: criou uma versão à priori “pós-verdadeira” dos acontecimentos e, através da repetição insistente de alguns mantras, buscou dar ao falso a musculatura de verdade fabricada.

Não se busca a verdade, não se concede brecha ao empirismo de investigação dos fatos. Cessou qualquer possibilidade de jornalismo investigativo, o repórter é apenas um autômato, um papagaio a soldo, substituível caso não reze pela cartilha.

Até a pouco, apesar de todas as críticas, ainda havia uma réstia de porosidade na mídia – sobretudo cavada pelo profissional individual e a ação sindical. Contudo, depois do golpe, em que a mídia foi intelectual orgânico e protagonista ativo, a mínima porosidade antes existente transformou num espaço hermeticamente fechado. Não se trata mais de fazer a crítica à “imprensa marrom” ou “sensacionalista”, desvios que sempre existiram na imprensa – desde os achaques romanceados por Balzac.

Conforme demonstrado por vários comentaristas críticos, a cobertura da greve geral – a maior da história brasileira – ensaiou a novidade de um discurso compacto, totalmente orientado de cima para baixo e sem abrir brechas ao contraditório. Isto é guerra. O patamar mudou. Já é outro. As evidências da militarização da mídia são gritantes na cobertura da greve geral e da perseguição arrasa-quarteirão à personalidade de Lula. Como sempre, na guerra, a verdade é a primeira vítima.

Os métodos das networks brasileiras – especialmente a Rede Globo – são métodos de guerra. O melhor autor para explicar o comportamento da mídia é Carl von Clausewitz, o chefe militar do exército prussiano que lutou com os russos contra Napoleão e ficou conhecido como o “filósofo da guerra”. A guerra, em Clausewitz, compreendia, até principalmente, a ação de desarmar psicologicamente o inimigo. Daí, a necessidade de não apenas vencer pelas armas, mas ganhar a opinião pública. Ou seja, vencer pela força das armas sempre é provisório, ao passou que vencer a opinião pública na sociedade é mais duradouro.&nb sp;

Mencionamos Clausewitz, mas bateu na memória outra referência importante: a tela/olho controlador do Grande Irmão de 1984. Todos nós viramos espécies de Winston (s) Smith (s), o protagonista do romance de George Orwell. A metáfora é gasta pelo uso, mas o tempo do Ministério da Verdade – repartição estatal incumbida da “fabricação da verdade” na qual trabalhava Winston -, chegou. Plin Plin.


Lindibergh Farias é senador (PT-RJ).

Jaldes Meneses é professor associado da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Posted: 02 May 2017 06:30 AM PDT

O dia 28 de abril de 2017 entrará para a história do povo brasileiro como o dia em que a grande maioria dos trabalhadores disse NÃO à PEC 287, que destrói o direito à aposentadoria, NÃO ao PL 6787, que rasga a CLT e NÃO à lei 4302, que permite a terceirização de todas as atividades de uma empresa! Sob a palavra de ordem “Em 28 de abril vamos parar o Brasil” todas as centrais sindicais e suas bases se mobilizaram, de norte a sul do país, impulsionando uma imensa paralisação das atividades e grandes manifestações de protesto. Trabalhadores dos transportes urbanos, das fábricas, comércio, da construção civil, prestadores de serviços, escolas, órgãos públicos, bancos, portos e outros setores da economia cruzaram os braços.

E este ato contou com o apoio dos movimentos sociais, como a UNE, de entidades da sociedade civil como a CNBB, a OAB, o Ministério Público do Trabalho, associações de magistrados e advogados trabalhistas, com o apoio dos nossos companheiros do movimento sindical internacional, e contou também com uma enorme simpatia popular.

Com nossa capacidade de organização, demos um recado contundente ao governo Temer e ao Congresso Nacional: Exigimos que as propostas nefastas que tramitam em Brasília sejam retiradas. Não aceitamos perder nossos direitos previdenciários e trabalhistas.

Nos atos de todas as centrais sindicais pelo país neste 1º de Maio de 2017, dia do trabalhador, reafirmamos nosso compromisso de unidade para derrotar as propostas de reforma da previdência, da reforma trabalhista e da lei que permite a terceirização ilimitada.

O próximo passo é ocupar Brasília para pressionar o governo e o Congresso a reverem seus planos de ataques aos sagrados direitos da classe trabalhadora.

Sobre essa base, as centrais sindicais estão abertas, como sempre estiveram, ao diálogo. Se isso não for suficiente assumimos, neste 1º de Maio, o compromisso de organizar uma reação ainda mais forte.

VIVA A LUTA DA CLASSE TRABALHADORA! VIVA O 1º DE MAIO! ABAIXO AS PROPOSTAS DE REFORMAS TRABALHISTA E DA PREVIDÊNCIA! NENHUM DIREITO A MENOS!

Assinam os presidentes das centrais sindicais: 

Antônio Neto, presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB) 
Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) 
Vagner Freitas, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) 
Paulo Pereira da Silva, Paulinho, presidente da Força Sindical 
José Calixto Ramos, presidente da Nova Central (NCST) 
Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT)
Posted: 02 May 2017 05:30 AM PDT
Artigo publicado originalmente no Outras Palavras.


“A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer; neste interregno, aparece uma grande variedade de sintomas mórbidos”, escreveu Antonio Gramsci durante o longo período em que ficou encarcerado na prisão de Tudi di Bari, na Itália.

Sobre os dizeres do pensador italiano, escritos entre os anos 1920 e 1930, Zygmunt Bauman sugere que a atual situação do planeta corresponde a um novo interregno. O velho, assim, estaria morrendo, de maneira que se encontraria moribunda a antiga ordem baseada no entrelaçamento entre o território, o Estado e a nação enquanto referências de organismos operacionais soberanos. Neste contexto, a prevalência do capital financeiro e a transnacionalização das relações econômicas, características fundamentais da globalização, vêm sucessivamente transferindo os núcleos de decisão política dos Estados nação para entidades internacionais como o FMI e a Comissão Europeia. Tais entidades, no afã de atingir seus predatórios objetivos de acumulação, adotam como modus operandi a sistemática subjugação de soberanias nacionais e a incontida subversão de ordenamentos jurídicos, conseguindo escapar do princípio clássico de que “aquele que governa tem o poder e faz as leis”.

Eis onde se encontra, conforme refletiu Gramsci, o nascituro impossibilitado de sair do ventre: os organismos políticos herdados de tempos anteriores à globalização vêm se mostrando inadequados e insuficientes para lidar com uma realidade na qual as novas formas de organização política e econômica escapam do controle local por meio de leis e da própria Constituição. Veja-se o recrudescimento das medidas de austeridade aplicadas no Brasil, consagradas com a PEC da previdência e com a mais recente aprovação da PEC 55: para atender aos reclamos do rentismo internacional, comprometeu-se a normatividade de uma série de direitos fundamentais previstos na Constituição Federal de 1988, restringindo, assim, o aporte de recursos imprescindíveis para as suas concretizações. Munidos da tecnocracia vulgar, ignoraram as alternativas palpáveis ao arrocho fiscal e optaram por seguir à risca a cartilha da espoliação pós-moderna, na qual recursos são drenados para o mercado financeiro ao completo arrepio dos mecanismos de controle e dos objetivos programáticos encartados no texto constitucional.

Assim, toda a estrutura decisória que fundamenta esta nova ordem global passa a gravitar em torno das corporações internacionais, deixando um “déficit democrático” nos parlamentos, governos e instituições voltadas à participação popular direta, de maneira que as expressões de uma democracia eficaz costumam ser vistas com manifesta desaprovação. Basta atentarmos para a histeria com que foi recebido o Decreto nº 8.243/2014, que visa instituir a Política Nacional de Participação Popular na gestão pública, e as paradigmáticas experiências da Argentina, Equador e Eslovênia: enquanto os credores internacionais encararam com preocupação o fato dos países latino-americanos terem, em momentos diversos, demonstrado condições de saldar suas dívidas, preocupando-se com a possibilidade da liberdade econômica e a independência financeira adquiridas serem usadas para rechaçar a aplicação de medidas de austeridade, a suprema corte eslovena impediu a realização de um referendo constitucional convocado contra as imposições do mercado financeiro. Alegou que colocaria em perigo outros valores constitucionais que deveriam ter prioridade em uma situação de crise econômica. Que valores são estes? Os oriundos da racionalidade das autoridades financeiras internacionais que pressionavam o país europeu para que adotasse o austericídio que vêm destruindo nações como o Chipre, a Grécia e a Espanha.

Falar de um livre mercado nestas circunstâncias é uma piada de péssimo gosto, concluiu Chomsky em uma de suas entrevistas ao jornalista David Barsamian compiladas no livro A Minoria Próspera e a Multidão Inquieta. Sua declaração faz total sentido no momento em que é completamente estranha ao mapeamento cognitivo dos think tanks liberais a compreensão de que a verdadeira liberdade está indiscutivelmente ligada à efetiva soberania nacional, livre de pressões e ameaças. A abertura de canais para interferências externas na autodeterminação dos Estados nacionais, cuja desregulamentação é vista com satisfação pelos ideólogos do neoliberalismo, é tida por estes como uma expressão da “liberdade econômica” ainda que se trate de um descarado atentado ao poder e a liberdade das nações decidirem seus rumos conforme os interesses do que Rousseau definiu como “vontade geral”. Não assusta que o economista Friedrich Hayek, referência intelectual da apologética globalitária, tenha afirmado em uma reveladora visita ao Chile de Pinochet que sua “preferência se inclina na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo democrático que não pratique o liberalismo”.

No artigo “O mundo da ordem”, publicado em setembro de 1984 na Folha de S. Paulo, Marilena Chauí afirmava que a perenidade do pensamento conservador autoritário no Brasil apoia-se não apenas no conjunto das instituições e práticas sociopolíticas, mas também na interiorização de certas imagens. Uma destas imagens é a peculiar visão que se tem da luta de classes, que aparece simplesmente como um confronto armado provocado pelo andar de baixo contra o andar de cima da sociedade. Esta perspectiva reducionista da insolubilidade de interesses entre classes sociais não consegue observar que o conflito gira, sobretudo, em torno da conservação das formas de dominação através das instituições, leis e costumes. Os embates por maiores fatias do orçamento geral – hoje destinado quase em sua metade ao pagamento de juros e amortização da dívida – e contra a drenagem de recursos públicos em favor do mercado financeiro, por exemplo, correspondem a claras manifestações das lutas de classes, pois englobam postulações inconciliáveis acerca de quem o Estado deve servir. Ademais, se problemas globais requerem soluções globais, está correto o bilionário norte-americano Warren Buffet quando reconhece que “claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que está vencendo.”


Gustavo Henrique Freire Barbosa é advogado e professor substituto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

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