quinta-feira, 4 de maio de 2017

4/5 - Altamiro Borges DE 1/5

Altamiro Borges


Posted: 01 May 2017 07:53 AM PDT
Por Renato Rovai, em seu blog:

Em reportagem de 26 de janeiro deste ano o jornal Folha de S. Paulo informava que o advogado Sérgio Bermudes, que defendia o empresário Eike Batista nas causas cíveis, disse que ele estava entre Nova York e Miami e que teria viajado aos EUA para cuidar de um processo relacionado ao bloqueio de US$ 63 milhões em bens pela Justiça das Ilhas Cayman.

Naquele momento Eike Batista era procurado pela Polícia Federal por conta da deflagração da Operação Eficiência, uma fase da Operação Lava Jato, da qual ele era o principal alvo.

Sérgio Bermudes é um dos advogados mais renomados do Brasil. Nada demais que advogue para aquele que já foi o homem mais rico do país.

Mas nesta caso, a curiosidade é que Bermudes, como se pode confirmar aqui, já teve como uma das advogadas do seu escritório Guiomar Feitosa Lima Mendes, que vem a ser a esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Ontem, Gilmar Mendes concedeu habeas corpus a Eike Batista que agora pode ser defender da justiça em liberdade, o que não acontece com a imensa maioria dos que tiveram prisão preventiva na Operação Lava Jato.

Um experiente advogado consultado pelo blogue disse em condição de anonimato, porque tem receio de ser prejudicado em futuros processos no Supremo, que isso é um escândalo e que numa situação dessas, Gilmar Mendes deveria se considerar impedido de julgar o caso.

A decisão de Gilmar é defendida por vários juristas como correta. A questão neste caso não é a decisão em si, mas a relação do juiz com o escritório do réu. E também a diferença dessa decisão em relação a tantas outras que vêm sendo tomadas pelo STF.
Posted: 01 May 2017 07:35 AM PDT
Por Marcio Pochmann, na Rede Brasil Atual:

O tema da corrupção tem sido continuamente colocado como central no Brasil de hoje pelos meios de comunicação, assim como transcorreu no período que antecedeu o golpe de estado de 1964. Comparativamente ao mundo, contudo, a percepção de corrupção no Brasil em 2016, por exemplo, equivaleu a dos anos de 1998 e 2002, segundo a indicação adotada pela Transparência Internacional desde o ano de 1995 em quase duzentas nações. Nos anos citados, o índice no Brasil ficou em torno de 40 pontos, de acordo com os critérios da pesquisa da ONG.

Em grande medida, a temática da corrupção aparece nos meios de comunicação enquanto crítica neoliberal, tanto ao Estado, quanto ao sistema político. Destaca-se que a primeira reforma no sistema eleitoral, realizada em 1881, pela Lei Saraiva, teve como uma das razões principais, a redução do custo das eleições, que eram financiadas por proprietários rurais e senhores de escravos.

Com a introdução do título de eleitor, em pleno Estado mínimo dominante durante o regime monárquico (1822 – 1889), o Brasil reduziu a participação de cerca de 10% da população nas eleições, para apenas 1,5% dos brasileiros. A proibição do voto dos analfabetos foi a solução encontrada para diminuir o patrocínio eleitoral de parte dos donos do Brasil à época.

Passadas quase 14 décadas, o país convive com delações premiadas de parte dos donos do país que revelam esquemas sofisticados de propinas que parecem revelar novo modo da competição intercapitalista, dominada pelas grandes corporações transnacionais.

Em conformidade com a Transparência Internacional e o Anuário Estatístico das Empresas Participantes do Mercado Global dos Contratos Públicos, os casos de corrupção têm sido crescentes, aproximando-se de meio milhar ao ano.

Alguns casos mais recentes de corrupção – como o da Samsung e o governo sul-coreano; o da Volkswagen, nos Estados Unidos; das firmas de energia estadunidenses KMR/Halliburton e Enron Corporation, com parceria da Arthur Andersen; da empresa de segurança BAE Sytem, na Arábia Saudita e Estados Unidos; da Siemens em vários países; entre outros –, parecem emblemáticos de que, neste início do século 21, a corrupção tornou-se modalidade acentuada da competição capitalista.

Mas de onde viriam os recursos da corrupção? Da parcela dos lucros que não "aparece", uma vez que a organização da grande corporação transnacional circunscreve à sofisticada categoria de gestão dos recursos não contabilizados oficialmente e aplicados, geralmente, em paraísos fiscais.

Justamente aí que tende a se concentrar a fonte do propinoduto que provem da contabilidade fraudulenta, muitas vezes acobertada por empresas de auditoria e agência de avaliação de riscos. Tudo isso constituído por esquemas legais e ilegais de sonegação fiscal, que permitem maior folga na soma de recursos financeiros voltada ao uso da propina e sem tocar nos lucros e dividendos.

Neste sentido que vem à tona a lei 9.249, de 1995, que isentou – inédita e incomparavelmente – a cobrança de Imposto de Renda sobre os dividendos distribuídos a pessoas físicas no Brasil.

O volume de recursos liberados do fisco pode alcançar até 63 bilhões de reais ao ano, engrossa o lucro privado das empresas, podendo também servir a outros fins, associados às exigências atuais da competição intercapitalista.

Talvez por isso que qualquer tentativa de instituição da modalidade tributária como havia sido a Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras (CPMF) encontre tão intensa reação no país, especialmente de parte de bancos e empresas.

Para além do efeito arrecadatório, este tipo de tributação tende a contribuir muito para o monitoramento da legalidade das operações financeiras e as relações corruptivas.

* Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Posted: 01 May 2017 07:28 AM PDT
Por Mário Augusto Jakobskind, no jornal Brasil de Fato:

Era comum em outras épocas quando se falava da Argentina em comparação com o Brasil se responder “eu sou você amanhã”, referindo-se a um ou a outro país. Mas agora isso entrou em desuso, porque nada mais igual nos tempos atuais do que Argentina e Brasil com governos que executam o mesmo tipo de política econômica que leva os respectivos países a um retrocesso sem tamanho e afeta negativamente a vida dos trabalhadores.

As reformas trabalhistas e previdenciárias propostas e defendidas ardorosamente pelo Ministro da Fazenda Henrique Meireles em reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) são exemplos nesse sentido. O golpista Michel Temer, possivelmente pressionado por Meireles e ele pelo FMI, decidiu que a reforma da Previdência tem de ser aprovada pelos seus áulicos da base aliada de qualquer maneira e como está.

Enquanto isso, na Argentina, o povo está preocupado diante da situação econômica, tanto pela inflação como a perda do emprego e que o dinheiro não dá até o fim do mês. Ou seja, cada vez mais mês no fim do salário.

É o que revela recente pesquisa realizada no país vizinho pelo Centro de Estudos de Opinião Pública (CEOP). Como as eleições por lá se aproximam, não será nenhuma surpresa se a política de Macri for repelida pela maioria dos argentinos, até porque as pesquisas indicam que 45% dos eleitores garantem que a economia é um fator decisivo na hora de votar.

No Brasil, o governo golpista que quer a aprovação imediata das reformas lesivas aos trabalhadores está a cada dia sendo repelido pela opinião pública, como indicam as mais recentes pesquisas em que o ilegítimo Presidente Temer tem o apoio de 5% da população.

Por estas e ainda outras, nada mais próximo atualmente que a rejeição aos governos de Macri e Temer, que estão agindo da mesma forma em matéria de retrocesso e até de subserviência em matéria de interesse econômicos externos. Os dois presidentes estão alinhados em tudo, inclusive em apoio incondicional às forças internas venezuelanas que querem de qualquer jeito derrubar o governo constitucional para colocar em prática exatamente o mesmo tipo de política econômica do golpista Temer e de Macri com o apoio incondicional da mídia comercial conservadora.

Nesse sentido, caiu em desuso o refrão “eu sou você amanhã”, valendo um novo refrão do tipo “estamos juntos agora contra os trabalhadores” e em defesa do empresariado. O golpista Temer nem mais esconde o fato de que quando consulta algum setor da sociedade só convoca os empresários. Macri não faz diferente.

Assim caminham para trás o Brasil com Temer e a Argentina presidida por Macri. Resta aguardar as vozes das ruas, seja através de greves gerais de protesto ou nas urnas, como acontecerá brevemente na Argentina, E se no Brasil fosse decidido que se consultaria ainda este ano a opinião dos eleitores, certamente o golpista Temer seria repelido, como já demonstram as pesquisas.
Posted: 01 May 2017 07:22 AM PDT
Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

A nova ascensão de Lula nas intenções de voto para 2018 é o melhor termômetro do sistema político brasileiro.

Lula subiu depois da liberação das delações da Odebrecht, a começar pelo risonho patriarca da maior empreiteira do país, fazendo insinuações de todo tipo, inclusive citando um nefasto general da ditadura para falar sobre seu caráter. Lula também atravessou a delação premiada de Leo Batista, o executivo da OAS que, como um aluno em exame de segunda época, refez o primeiro depoimento para tentar diminuir a própria pena, produzindo afirmações sob medida para atingir Lula. Nada.

Enquanto Lula subiu, seus adversários tradicionais desabaram. Contemporâneos em tantas disputas nos últimos 20 anos, estão caindo fora. Aécio, que foi adversário de Dilma em 2014, já teve mais de 20 pontos no Datafolha. Agora tem menos de 10, mesmo patamar de Geraldo Alckmin, que nunca chegou a 20 nas pesquisas e até enfrentou Lula em 2006. Quanto a José Serra, adversário de Lula em 2002, de Dilma em 2010, sequer se considerou a hipótese de incluir seu nome entre os concorrentes, o que diz muita coisa sobre as profecias que rondam seu futuro.

Vamos lembrar o essencial: nenhum dos maiores caciques tucanos até aqui enfrentou um Sérgio Moro para divulgar diálogos ilegais, como ocorreu na conversa entre Lula e Dilma em abril de 2016; as conversas privadas da mulher, da amante, da namorada, o que for, de qualquer um deles, nunca foi gravada e distribuída aos jornais; nenhum foi acordado em casa para uma condução coercitiva; nenhum foi impedido de assumir um cargo público - ministério ou equivalente - por uma liminar de um juiz do STF; nem teve direito a um editorial onde a maior empresa de comunicação do país se manifesta contra sua candidatura em 2018 depois de promover um ataque de 18 horas consecutivas nos tele-jornais da casa.

Mesmo assim, todos viraram fumaça. Foram esmigalhados por denuncias que só se tornaram notícia - às vezes manchete - a muito custo, quando não era possível esconder fatos graves que há muito mereciam atenção e cuidado, em particular de uma imprensa que fez das acusações de corrupção contra Lula e o PT o principal alimento de sua cobertura política.

A liquidação do comando tucano mostra a fraqueza congênita do PSDB, partido que já foi a grande esperança dos círculos conservadores do país após o colapso do malufismo e do PMDB. Vencidos pelas urnas, em quatro eleições consecutivas, seus caciques se revelam como políticos sem luz própria para enfrentar sequer três meses de notícias desagradáveis - que jamais chegaram ao canibalismo que atinge Lula, há mais de 30 anos. O desmoronamento triplo mostra o caráter artificial da legenda, plástico, de mentirinha, sem vida independente, incapaz de se defender por méritos próprios - apenas com a proteção dos amigos na mídia, no aparelho judiciário e nos grandes negócios.

A natureza especulativa dessas anti-candidaturas, lançadas como barreira para enfrentar Lula de qualquer maneira, se reflete nos pré-lançamentos ensaiados por esses dias. De João Dória a Bolsonaro, passando por Marina, o que se pretende não é discutir ideias nem projetos - mas experimentar quem teria melhores condições de enfrentar Lula. Essa é a prioridade, a linha divisória.

A liderança de Lula, numa situação de perseguição implacável na qual nada mais lhe resta além da memória do povo, mostra uma verdade importante de ser afirmada após o golpe parlamentar contra Dilma. Sua força política reside em sua história, no saldo dos governos do PT que, apesar de erros e muitas limitações, deixaram um perfil único de luta contra a miséria e contra a desigualdade, pelo crescimento.

Qualquer calouro de Ciência Política sabe o valor de políticos feitos desse material - a aprovação do povo - e sua importância na preservação do regime democrático. Políticos de fantasia, dependentes, obras de marketing, são uma porta aberta para pressões indevidas e perniciosas, que podem ser destruídos por meia dúzia de manchetes. Já lideranças de raiz verdadeira tem um contato direto com o povo. São a principal referência da soberania do povo, clausula número 1 da Constituição.

O Datafolha vem em boa hora. Não se trata de procurar astrólogos para tentar adivinhar como estará o eleitor em 2018, cenário da pesquisa, quando devem concorrer novos nomes e novos rostos para velhíssimas ideias, saídos da linha de montagem da fábrica de candidatos que faz parte do arsenal de domínio político dos interesses que governam o país há cinco séculos.

A questão é reconhecer o principal: mais do que nunca Lula tornou-se uma peça-chave da preservação da democracia brasileira. É preciso entender as tentativas de afastá-lo da vida política como um esforço para consolidar uma ditadura, num processo idêntico ao que se fez em junho de 1964, quando a ditadura cassou Juscelino Kubitscheck para impedir que pudesse disputar a eleição de 1965, na qual era o favorito disparado. Não havia provas contra JK. Havia um discurso que o chamava de corrupto.

Nem há provas contra Lula. Há uma narrativa em construção.

O saldo da perseguição a JK foi vergonhoso e trágico, nós sabemos. Logo depois de sua cassação a eleição direta para presidente foi abandonada. Só 24 anos depois os brasileiros puderam voltar a urna presidencial.
Posted: 01 May 2017 07:11 AM PDT
Por Kiko Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

O golpe engendrado por Michel Temer, Eduardo Cunha e Aécio Neves, em conjunto com a mídia, resultou numa vitória de Pirro que pariu Jair Bolsonaro 2018.

A guinada direitista dos tucanos, o blábláblá neandertal contra o bolivarianismo, a corrupção, o financiamento de “movimentos de rua” e a obsessão da imprensa, puxada pela Globo, com o PT, resultaram na viabilização de uma alternativa fascista indigente.

JB vai se firmando como o antiLula prometido na Bíblia.

A nova pesquisa Datafolha, que traz Lula na liderança novamente, registra que Jair foi de 9% para 15% e de 8% para 14% em dois cenários, empatando com Marina Silva.

É o segundo nome mais lembrado espontaneamente, com 7%. Lula tem 16% e os demais, 1%.

Seu eleitorado está concentrado em jovens de alta renda e instrução formal.

O PSDB é sócio de Temer num governo rumo a zero de aprovação, rejeitado por 61%. As eleições diretas são desejadas por 85%.

Aécio, Alckmin e Serra derretem numa economia em frangalhos. Doria ultrapassa o padrinho Geraldo pela primeira e não a última vez, mas perde para Ciro Gomes.

Bolsonaro surfou na criminalização de Lula e da esquerda. É, como Trump, uma espécie de outsider (de mentirinha, claro, mas engana trouxa). A extrema direita que não tem medo de dizer seu nome.

JB vai cometendo suas barbaridades sem ser incomodado. Volta e meia sai uma denúncia leve, com a de que usa a cota parlamentar para fazer campanha. A Folha deu uma vez e não tocou mais no assunto.

Em abril de 2016, depois que homenageou o coronel Ustra na votação do impeachment, Miriam Leitão, que dorme e acorda pensando em Dilma, se indignou.

“A democracia brasileira precisa ser defendida pelos pares do deputado Jair Bolsonaro. O voto dele é apologia de dois crimes, fere duplamente a Constituição. Por que não sofre um processo de cassação pelo Conselho de Ética da Câmara dos Deputados?”, escreveu em seu blog.

Se ela e a Globo tivessem dedicado a Jair um oitavo do tempo dedicado a destruir Lula, talvez a situação fosse diversa.

Quantos editoriais o Estadão dedicou ao “lulopetismo”?

Quantas capas imbecis da Veja gritando que “Lula acabou”? A mais recente foi desmentida pelo próprio site da revista dois dias depois.

A mera candidatura de Bolsonaro é uma prova do fracasso do jornalismo da velha mídia.

Ele foi adotado como herói e salvador da pátria por sites de notícias falsas, por gurus como Olavo de Carvalho e youtubers como Joice Hasselmann. Alguns desses jihadistas têm milhões de seguidores.

Monomaníaca, a imprensa falhou em contar a história real de Bolsonaro. A única entrevista em que ele falou de suas “ideias” foi para seu igual Danilo Gentili.

O resultado foi o esperado - uma cavalgadura com a cabeça oca. Alguns trechos:

*****

Como presidente, você acha que o seu repertório tem que aumentar, tem que falar sobre economia?

“Eu falo sobre economia. Por exemplo, eu falo do nióbio, do grafeno, das riquezas do Vale do Ribeira. (…) Mais utilizado do que o nióbio só o grafeno. (…) Nós não podemos continuar permitindo uma exploração predatória do nióbio”.

(...)

Mas você já tem um princípio de plano?

“Isso ninguém tem, né?”

Então me explica, por que alguém deve votar em Bolsonaro para presidente?

“Eu sou uma pessoa autêntica. As minhas propostas podem ser até pior (sic), mas são completamente diferente (sic).”

(...)

O que garante que você não irá copiar alguns modelos do regime militar que você elogia?

“Na Educação, vai ser convidado um general que já tenha um comando de colégio militar”.

Você tem muitos opositores, talvez uns 80, 90% de Brasília é opositor seu. Se você for presidente, como é possível governar com tanta oposição?

“Nós vamos ter mais gente de direita no parlamento. (…) E eu acho que economia vai estar tão debilitada até lá que teremos que partir do zero”.


*****

A farsa do impeachment deu num Bolsonaro de 7 arrobas se espichando nas entranhas do cadáver da democracia, espancada diariamente por Michel e seus sócios, entre os quais a mídia chapa branca.
Posted: 01 May 2017 06:55 AM PDT
Por Augusto C. Buonicore, no site da Fundação Maurício Grabois:

Sem dúvida nenhuma, o preconceito e o sectarismo estão por trás desse injustificável desconhecimento. Na década de 1990 a estes dois aspectos se juntou outro: a crise da perspectiva revolucionária e a capitulação de vários intelectuais e organizações do campo da luta pelo socialismo. Hoje, mais do que nunca, é necessário resgatar a história e as contribuições teóricas de homens como Lênin e Gramsci. Somente assim poderemos construir alternativas viáveis para a crise do socialismo e para a teoria que lhe serviu de suporte durante todo o século XX: o marxismo.

A infância e a adolescência na Sardenha

Gramsci nasceu em 22 de janeiro de 1891 numa pequena cidade na ilha da Sardenha – uma das regiões mais pobres da Itália. Sua infância foi marcada pelo infortúnio. Logo nos primeiros anos de vida desenvolveu uma deficiência física que o impediu de crescer normalmente.

Outra tragédia atingiu a família do pequeno Gramsci. Seu pai, gerente do cartório local, foi preso e acusado de roubo. O caso tratou-se de uma vingança política de seus adversários. A prisão colocou a família em uma situação de penúria. Em 1903 Gramsci, que fora aprovado no exame de admissão no ginásio, não pôde cursá-lo e foi obrigado a trabalhar numa repartição pública na qual passava dez horas por dia carregando pastas de processos volumosos. Um trabalho que agravou seu problema físico e de saúde. Tinha na ocasião apenas 12 anos de idade.

Dois anos depois seguiu para o ginásio na pequena cidade de Santu Lussurgiu, onde viveu na casa de uma família de camponeses pobres. Ali teve contato, pela primeira vez, com as ideias socialistas. Seu irmão mais velho que trabalhava em Turim – um importante centro industrial da Itália – enviava-lhe esporadicamente o jornal do Partido Socialista Italiano, o Avante!. Depois se mudou para Cagliari, capital da Sardenha, onde passou a morar com seu irmão que havia voltado para trabalhar na Câmara do Trabalho, uma espécie de organização sindical. Os dois passaram a frequentar as reuniões de operários socialistas.

A forte influência do ambiente já podia ser sentida em suas redações escolares. Aos 19 anos escreveu: "A Revolução Francesa abateu muitos privilégios, despertou oprimidos; não fez mais do que substituir uma classe por outra no domínio. Deixou, contudo, uma grande lição: que os privilégios sociais, sendo produtos da sociedade e não da natureza, podem ser superados. A humanidade necessita de outro banho de sangue para cancelar muitas dessas injustiças".

Gramsci em Turim Vermelha

Em 1911, graças a uma bolsa de estudos, ingressou na Universidade de Turim para fazer o curso de Letras. Na academia entrou em contato com a filosofia de Benedetto Croce e Giovanni Gentile, filósofos idealistas (neo-hegelianos) e adversários do positivismo dominante nos meios intelectuais progressistas da Itália do norte. A influência hegeliana podia ser sentida nos trabalhos do jovem Gramsci entre 1914 e 1917. Num artigo, publicado em 1914, afirmou: "Os revolucionários (...) concebem a história como criação do próprio espírito".

O idealismo, antipositivista, se traduziu também no famoso artigo sobre a revolução socialista na Rússia. Segundo ele a Revolução Bolchevique era “cimentada mais por ideologia que por fatos”. Ela havia sido uma “revolução contra O Capital de Karl Marx”. Continua ele: “O Capital de Marx era, na Rússia, o livro dos burgueses, mais do que dos proletários. Era a demonstração crítica da fatal necessidade de que na Rússia se formasse uma burguesia, se iniciasse uma era capitalista, se instaurasse uma civilização de tipo ocidental (...). Os fatos superaram as ideologias. Os fatos fizeram explodir os esquemas críticos segundo os quais a história da Rússia deveria desenvolver-se conforme os cânones do materialismo-histórico (...), se os bolcheviques renegam algumas afirmações de Marx de O Capital, não renegam seu pensamento imanente, vivificador. Eles não são 'marxistas', eis tudo (...). Vivem o pensamento marxista que não morre nunca, pois é a continuação do pensamento idealista italiano e alemão, os quais em Marx se haviam contaminado de incrustações positivistas e naturalistas".

Na universidade conheceu os jovens socialistas Palmiro Togliatti, também da Sardenha, e Antonio Tasca. Este último era militante da juventude socialista. Através dele Gramsci e Togliatti entraram em contato com os círculos socialistas turinenses e com o movimento operário mais avançado da Itália. Seu primeiro artigo político foi "Neutralidade ativa e operante", escrito em outubro de 1914, no qual defendeu uma posição que o aproximava dos socialistas que defendiam a guerra. Postura que rapidamente abandonou, mas pela qual pagou caro nos anos seguintes.

Em 1915, Gramsci abandonou a universidade e se tornou redator do jornal socialista O Grito do Povo e responsável por uma coluna na página turinense do Avante!, órgão oficial do PSI. Dois anos depois lançou a revista A Cidade Futura. Neste momento sua grande preocupação era construir uma cultura e uma moral socialista na classe operária e concentrava todas as suas forças neste objetivo.

No mesmo rumo propôs a criação de uma Associação Socialista da Cultura. Tanto os reformistas como os maximalistas (radicais) recusaram a proposta, considerada idealista. No mesmo ano criou o Clube da Vida Moral, onde se debatiam temas culturais e filosóficos. Para ele a questão da construção de uma nova moral (socialista) entre os trabalhadores era central, e a própria conquista do socialismo passava por ela. A deficiência física o livrou do alistamento militar, mas a maior parte dos jovens socialistas, propositalmente, foi convocada e o Clube fechou suas portas.

Em 13 de agosto de 1917 Turim realizou um grande ato público de apoio à Revolução Russa e aos bolcheviques. A data coincidiu com a chegada de dois membros do governo de Kerensky. A multidão nas ruas gritava: Viva Lênin!

Uma semana depois eclodiu uma greve geral pelo pão. Rapidamente ela se transformou numa insurreição operária. Ergueram-se barricadas e ouviu-se o grito "façamos como na Rússia!". Cinquenta operários morreram e cerca de duzentos ficaram feridos. Turim foi declarada zona de guerra. A prisão de quase todos os membros da seção turinense do PSI levou Gramsci, pela primeira vez, a assumir uma função na direção partidária. No entanto, Gramsci acabou sendo preso.

L'Ordine Nuovo e os Conselhos de Fábrica

Em abril de 1919 Gramsci e um grupo de jovens socialistas de esquerda lançaram o jornal L`Ordine Nuovo, que se intitulava "resenha semanal de cultura socialista". Os outros jovens eram Palmiro Togliatti, Ângelo Tasca e Umberto Terracini. Sob influência da radicalização da Revolução Russa, o jornal rompeu com a linha "culturalista" e lançou-se a uma ação nitidamente política. No final de julho saiu o artigo de Gramsci intitulado "Democracia Operária".

Escreveu ele: "As comissões internas (de fábrica) são órgãos da democracia operária e é preciso libertá-las das limitações impostas pelos empresários e infundir-lhes vida e energia novas. Hoje, as comissões internas limitam o poder do capitalista na fábrica e desempenham funções de arbitragem e disciplina. Desenvolvidas e enriquecidas, deverão ser amanhã os órgãos do poder proletário que substituirão o capitalista em todas as suas funções úteis de direção e administração".

O grande objetivo dos redatores do L'Ordine Nuovo era elaborar uma estratégia compatível com a realidade italiana, que possibilitasse ao proletariado conquistar e manter o poder político. Mas para realizar tal objetivo era preciso responder a uma pergunta crucial: "Existiria na Itália (...) um germe, um projeto, um esboço de sovietes?".

A resposta de Gramsci era que sim. E este germe eram as comissões internas de fábricas. Mas era preciso mudar o seu caráter. Elas deveriam deixar de ser meros aparelhos dos sindicatos burocratizados, eleitas diretamente pelo conjunto dos trabalhadores, independentemente de serem ou não sindicalizados. Deveriam ter representação de todas as profissões: operários, empregados e técnicos. Assim, as comissões de fábrica se transformariam em verdadeiros Conselhos de Fábricas, embriões dos sovietes.

Em outro artigo, "Sindicatos e conselhos", publicado em outubro de 1919, ele criticou os sindicatos italianos, dirigidos pelos socialistas. "Os operários”, escreveu ele, “sentem que o conjunto da organização deles tornou-se um aparelho tão gigantesco que terminou por obedecer às leis próprias imanentes a sua estrutura e ao seu complicado funcionamento, mas estranhas à massa que adquiriu consciência de sua missão histórica de classe revolucionária (...) Sentem que, mesmo na casa deles, na casa que construíram com tenacidade, com esforços pacientes, cimentando-a com sangue e lágrimas, a máquina esmaga o homem e o funcionalismo esteriliza o espírito criador (...). Os sindicatos profissionais (...) são o tipo de organização proletária específico do período histórico dominado pelo capital. Num sentido pode-se afirmar que eles são partes integrantes da sociedade capitalista (...), os operários (...) tornam-se comerciantes da sua única propriedade, a força de trabalho e a inteligência profissional".

Em outubro de 1919, apesar da resistência da ala reformista do PS e da direção da CGT, mais de 50 mil operários elegeram diretamente suas comissões de fábrica; em 1920 esse número subiu para mais de 150 mil – somente em Turim. Entre 1919 e 1920 o movimento atingiu o seu auge. No mês de abril de 1920, diante da uma medida governamental que alterava a jornada de trabalho, os metalúrgicos de Turim ameaçaram deflagrar uma greve geral. Os patrões, tendo em vista enfraquecer os conselhos, ameaçaram fechar as fábricas e demitiram vários dirigentes operários. Olivetti, secretário-geral da Confederação das Indústrias, afirmou: "Não é possível que nas fábricas se constitua um organismo que se proponha a decidir à margem e sobre os órgãos diretivos da fábrica".

Os operários não se intimidaram e responderam com uma greve. Ela ficou conhecida como "greve dos ponteiros" e se transformou numa greve geral em Turim – em seguida se estendeu por toda a região do Piemonte, atingindo mais de 500 mil trabalhadores. As direções reformistas da CGT e do PSI recusaram-se a publicar os manifestos dos grevistas e buscaram de todas as maneiras fazer com que a greve não se estendesse para outras regiões. A própria convenção do PSI, marcada para Turim, foi transferida para Milão – buscou-se, assim, evitar a pressão dos operários em luta sobre os delegados.

Aproveitando o isolamento dos operários, os patrões partiram para a ofensiva e endureceram o jogo. Os trabalhadores foram obrigados a voltar ao trabalho. Afirmou Gramsci: "Abandonado por todos, o proletariado turinenese foi obrigado a enfrentar sozinho, com suas próprias forças, o capitalismo e o poder do Estado burguês (...). A intervenção enérgica de centrais sindicais poderia equilibrar as forças se não determinar a vitória", e concluiu: "regressam os operários às fábricas com a convicção de não terem triunfado, mas também não terem sido dominados".

Apesar da derrota e da repressão patronal que se seguiu, os operários conseguiram manter sua organização dentro das fábricas. A "Torino Rossa" continuava sendo uma ameaça constante à burguesia italiana. Era preciso quebrar a espinha dorsal da organização dos trabalhadores, era preciso destruir as comissões de fábrica.

Em junho, a Federação Italiana dos Operários Metalúrgicos (FIOM) apresentou novamente aos industriais suas reivindicações. Os patrões recusaram-se a atender a maior parte delas. Em algumas fábricas os trabalhadores começaram um lento processo de obstrução da produção. Os industriais, organizados na Federação das Indústrias, suspenderam as negociações. A FIOM decidiu-se, então, pelo desencadeamento de um processo de obstrução da produção por toda a Itália. A Federação das indústrias ordenou o fechamento de todas as fábricas, iniciativa que já vinha sendo tomada por alguns industriais isoladamente. Ao lockout patronal os operários responderam com uma nova tática, a ocupação das fábricas. Em Turim mais de 140 empresas foram ocupadas. Os operários passaram a organizar a produção, estabelecendo a autogestão. O movimento pouco a pouco foi adquirindo um caráter insurrecional. Mais de 500 mil operários participaram da luta.

A classe operária mostrou, na prática, que a burguesia era uma classe socialmente desnecessária para o desenvolvimento do processo produtivo. Os próprios trabalhadores poderiam organizar a produção sem patrões ou capatazes.

Os industriais pressionaram o governo para que assumisse posições mais duras contra os operários e não permitisse que as mercadorias que vinham sendo produzidas nas fábricas ocupadas pudessem ser comercializadas. Os empresários lançaram um ultimato ao governo, afirmando que "a retração das autoridades tolhe qualquer fé nos defensores das presentes instituições", levantaram dúvidas sobre "a capacidade do governo de garantir as liberdades constitucionais" e, por fim, ameaçaram suprir com "suas próprias iniciativas aquela defesa que lhes era recusada".

O governo, por sua vez, percebeu que não era possível se opor abertamente a um movimento daquela proporção. O próprio Giolitti, primeiro-ministro, respondeu aos industriais enfurecidos: "Como poderia o governo impedir a ocupação das fábricas? Trata-se de 600 manufaturas e indústrias metalúrgicas. Para impedir essas ocupações deveria ter colocada uma guarnição em cada um destes estabelecimentos, nas pequenas uma centena de homens, nas grandes alguns milhares. Teria empregado, para ocupar as fábricas, toda força de que poderia dispor. E quem vigiaria os 500 mil operários que ficariam para fora das fábricas?". O governo preferia usar outra tática e confiar nas direções reformistas do PSI e da CGT, uma posição que se mostraria acertada.

A FIOM, buscando romper com o isolamento que lhe era imposto, ofereceu a direção do movimento à CGT, que por maioria decidiu que a luta deveria se reduzir ao campo das reivindicações meramente econômicas e sindicais. A proposta de estender a greve para todas as categorias do país foi rejeitada.
O governo aproveitou a oportunidade e convidou as partes para negociar o fim do movimento; os patrões cederam em alguns pontos, concordaram com a concessão de um pequeno aumento salarial a título de indenização pela carestia e ampliação do direito de férias. A CGT e a FIOM decidiram aceitar a contraproposta patronal e defenderam o fim das ocupações. Em Turim a resistência durou ainda mais alguns dias.

A burguesia não estava contente com o resultado, ela havia concedido mais do que desejava. Fortalecia dentro dela a convicção de que era preciso pôr fim à experiência dos conselhos de fábrica. Entre 1921 e 1922, as principais lideranças foram demitidas e incluídas nas "listas negras". Mais de 31 mil operários também perderam seus empregos em Turim. Mas a derrota final só veio mesmo com a ascensão e consolidação do fascismo na Itália. O secretário da Confindústria enfatizou: "Durante a hora de trabalho, trabalha-se e não se discute. Na fábrica só pode existir uma autoridade. O poder da fábrica deve pertencer ao empresário".

Os limites teóricos de L'Ordine Nuovo

As propostas apresentadas por L'Ordine Nuovo foram atacadas pela direita socialista, acusadas de serem uma vertente do "sindicalismo revolucionário". Contraditoriamente houve críticas provindas da ala esquerda do partido. O principal expoente deste grupo, Amadeo Bordiga, acusou as teses de Gramsci de serem no fundo reformistas, uma concessão às opiniões sindicalistas.

As críticas de Bordiga, embora possuíssem um viés esquerdista, acertava pelo menos em três pontos essenciais. O primeiro era a constatação de que haveria uma subestimação do papel do Partido Comunista no processo de transformação revolucionário; o segundo, a supervalorização da experiência dos Conselhos de Fábrica, na ilusão de que seria possível um controle operário da produção nos marcos do domínio político da burguesia. O terceiro, o de compreender o espaço da fábrica como "território nacional da classe operária", caindo assim em um desvio economicista e corporativista. O território da classe operária só poderia ser o território abarcado pelo conjunto da nação.

Gramsci chegou a afirmar: "A organização por fábricas forma a classe (toda a classe) em uma unidade homogênea e coesa que adere plasticamente ao processo industrial de produção e o domina, para dele se apossar definitivamente. Na organização por fábricas, portanto, encarna-se a ditadura proletária". Para Bordiga, sem a direção do partido de vanguarda, as comissões de empresa poderiam se tornar um eficiente meio de dominação do reformismo sobre a classe operária, como vinha ocorrendo em vários países europeus.

Seria um erro, segundo ele, acreditar que "o proletariado pudesse se emancipar ganhando terreno nas relações econômicas, enquanto o capitalismo ainda detém, com o Estado, o poder político". Continuou: "Quando ainda vigora a dominação do Estado burguês, o Conselho de Fábrica nada controla (...). Concluímos: não somos contrários à constituição dos conselhos (...). Mas afirmamos que a atividade do Partido Comunista deve alicerçar-se sobre outra base: sobre a luta pela conquista do poder político (...). Enquanto o poder político ainda se acha nas mãos da classe capitalista, uma representação dos interesses revolucionários comuns do proletariado não pode ser obtida a não ser no terreno político (...)".

A essas mesmas conclusões chegariam os comunistas de L' Ordine Nuovo. Ainda no meio dos acontecimentos de 1920, eles iniciaram um balanço autocrítico dos erros cometidos pela direção do movimento de ocupações das fábricas. "Os operários turinenses”, afirmou Gramsci, “compreenderam que não basta invadir as fábricas e nelas hastear a bandeira vermelha para fazer a revolução, sabem que a conquista das fábricas não pode substituir a luta pela conquista do poder político (...), mas os operários turinenses compreenderam e sabem estas verdades porque conquistaram tais verdades experimentalmente através das discussões e da prática dos conselhos de fábrica". A partir deste momento Gramsci se jogaria de corpo e alma na tarefa de organizar o Partido Comunista da Itália e colocá-lo à altura das grandes tarefas da revolução democrática e socialista na Itália.

A constituição do Partido Comunista

Em 1919 Bordiga organizou uma fração comunista no interior do Partido Socialista Italiano. Ela tinha ramificações por todo o país. O centro irradiador de suas ideias era o jornal Il Soviet, editado em Nápoles. O grupo de Bordiga se intitulou "maximalista abstencionista", por sua rejeição à participação em eleições. A corrente comunista de Bordiga possuía uma linha política esquerdista. Suas fundamentações teóricas, contraditoriamente, eram as mesmas da direita social-democrata: o positivismo e o economicismo. A partir delas fez uma avaliação fatalista da crise do capitalismo e da vitória iminente do socialismo. O resultado foi o predomínio do doutrinarismo e do imobilismo político.

Bordiga e seu grupo eram avessos a construir uma corrente comunista de massas. Sua concepção de partido era de um pequeno agrupamento de revolucionários puros que não se contaminasse quer pelas lutas cotidianas quer pela ação político-institucional – e estivesse preparado para o grande dia da ruptura que chegaria pela própria dinâmica (espontânea) do desenvolvimento capitalista.

No Congresso do Partido Socialista em Livorno, realizado em 1921, as frações comunistas obtiveram 58.783 votos, a fração reformista de Turati apenas 14.685. No entanto, a fração centro-esquerda de Serrati conquistou 98.028 votos – esta se denominava "comunista unitária" e defendia o ingresso na Internacional Comunista (IC), mas era contra a expulsão da ala direita como exigia a direção desta organização.

Em 21 de janeiro os delegados da fração comunista, hegemonizados por Bordiga, se retiraram do plenário e fundaram o Partido Comunista da Itália (PCI). No comitê central de quinze membros, apenas dois eram ligados ao L' Ordine Nuovo: Gramsci e Terracini. Este jornal passou a ser o órgão central do novo Partido e Gramsci continuou sendo seu diretor-responsável. A linha esquerdista era amplamente hegemônica no novo partido. A primeira grande polêmica foi, justamente, quanto à participação nas eleições parlamentares que aconteceriam no mesmo ano. Bordiga era contra e Gramsci a favor. A intervenção da IC fez com que as posições abstencionistas fossem derrotadas.

Nenhum membro de L'Ordine Nuovo participou do segundo congresso da III Internacional. Mas, Lênin fez referências positivas às posições de Gramsci e seu grupo. Afirmou ele: "considero substancialmente justas as críticas e as propostas práticas, publicadas (...) em nome da seção turinense do próprio partido, na revista L'Ordine Nuovo (...) que correspondem plenamente a todos os princípios fundamentais da III Internacional".

As teses do segundo congresso do PCI, realizado na cidade de Roma em 1922, foram abertamente criticadas pela direção da Internacional como de natureza esquerdista. Em plena ofensiva fascista elas previam uma "fase social-democrata", que representaria a completa desmoralização do Partido Socialista e a ascensão do PCI. Elegiam a esquerda do PSI como alvo principal de seus ataques e se recusavam a entabular qualquer tipo de aliança com ele, inclusive com suas bases operárias. Neste congresso Gramsci foi eleito representante do partido junto à IC.

O terceiro congresso da IC, realizado em 1921, já havia levantado a palavra de ordem "frente única operária". Diante da ofensiva reacionária era preciso estabelecer alianças políticas entre comunistas e socialistas e mesmo constituir governos operário-camponeses. Ou seja, estabelecer objetivos intermediários que visavam a acumular forças para a conquista do socialismo. Bordiga recusou-se a aplicar essas resoluções – negou a justeza da tática de frente única com os socialistas e possibilidade de criação de governos operários.

A Internacional Comunista e a ascensão do fascismo

Em um artigo publicado em janeiro de 1921 Gramsci procurou, pela primeira vez, analisar as particularidades do movimento fascista italiano e identificar o que o diferenciava dos demais movimentos reacionários. Segundo ele, o fascismo possuía uma base de massa, sustentado na pequena burguesia urbana, que buscava recuperar espaço econômico e político perdido com a ascensão do capitalismo monopolista na Itália. No mesmo ano escreveu o artigo "Subversismo reacionário" que constatava que além de possuir uma base de massa destacava-se por não se prender à legalidade burguesa e, em certo sentido, negá-la. Para ele, o fascismo era a junção entre as massas pequeno-burguesas – impregnadas de um sentimento antioperário e antissocialista – e os agrupamentos reacionários ligados aos latifundiários no campo – mobilizados contra a possibilidade de uma revolução agrária no Sul.

Esses artigos ainda eram marcados pelo esquerdismo de inspiração bordiguiana. Era visível, por exemplo, a subestimação sobre a capacidade do fascismo de tomar o poder e uma excessiva crítica à social-democracia. Falava, inclusive, de uma possível fusão entre socialistas e fascistas e que "os socialistas se tornariam vanguarda da reação antiproletária". Tudo isto poucos meses antes da marcha fascista sobre Roma e sua ascensão ao poder.

Em maio de 1922 Gramsci chegou a Moscou, onde participou, pela primeira vez, da plenária da Executiva da IC. Ali as teses de Roma foram duramente criticadas e os comunistas italianos fizeram uma autocrítica superficial. O excesso de trabalho fez com que ele ficasse seriamente doente e fosse obrigado a se internar num sanatório soviético. Ali conheceu Júlia Schucht, que seria sua companheira por toda a vida.
No final de outubro de 1922, o PSI resolveu expulsar a sua ala direita e iniciou uma reaproximação com a IC. Os reformistas expulsos, comandados por Turati, fundaram o Partido Socialista Unificado. Bordiga buscou de toda maneira sabotar a tentativa de unificação entre a esquerda socialista e os comunistas. Somente em 1925, após sua derrota no interior do partido, Serrati e seu grupo, denominado terceirista, puderam ingressar nas fileiras do PCI.

Os esquerdistas, comandados por Bordiga, acreditavam que o governo fascista de Mussolini não passava de uma simples mudança de ministério. Gramsci num primeiro momento foi fiel à maioria esquerdista e defendeu a sua política junto à Internacional. O representante soviético Zinoviev culpou os comunistas italianos pelo fracasso da tentativa de unidade da esquerda e pela vitória do fascismo.

No entanto, em Moscou, Gramsci se pôs em total acordo com a tese de frente única operária e começou a articular a formação de um novo grupo dirigente para o PCI. Escreveu ele: "O camarada Lênin nos ensinou que, para vencer nosso inimigo de classe – que é poderoso, que tem muitas reservas à sua disposição –, devemos aproveitar qualquer rusga em seu seio e devemos utilizar todo aliado possível, ainda que incerto, vacilante e provisório. Ele nos ensinou que, na guerra dos exércitos, não se pode atingir o fim estratégico, que é a destruição do inimigo e a ocupação do seu território, sem ter atingido antes uma serie de objetivos táticos tendentes a desagregar o inimigo antes de enfrentá-lo em campo aberto".

Entre 1923 e 1924 conseguiu ganhar para suas posições seus velhos camaradas Togliatti e Terracini. Em 1924 a corrente dirigida por Gramsci venceu o congresso do PCI. O Partido entrava numa nova fase. Começava a deixar de ser um partido de poucos, mas bons – como pretendia Bordiga. Afirmou Gramsci: "Foi na última Conferência que o nosso Partido se colocou explicitamente, pela primeira vez, o problema de se tornar o partido das mais amplas massas italianas, de se tornar o partido que realiza a hegemonia do proletariado no amplo quadro de aliança entre a classe operária e as massas camponesas".

Gramsci passou a advogar a necessidade de utilizar palavras de ordem intermediárias que não fossem apenas um apelo vazio de constituição de sovietes e a conquista da Ditadura do Proletariado. "Não é certo e nem mesmo provável”, escreveu ele, “que a passagem do fascismo à ditadura do proletariado seja imediata". Levantou a palavra de ordem Assembleia Constituinte Republicana, ainda que sob bases de conselhos de operários e camponeses.

Neste período Gramsci foi eleito para assumir a direção do PCI e compor um novo núcleo dirigente, juntamente com Togliatti e outros companheiros de L'Ordine Nuovo. Não podendo regressar à Itália, onde tinha prisão decretada, foi para Viena. Em janeiro de 1924, com a finalidade de criar vínculos permanentes entre comunistas e socialistas, criou o jornal L'Unità. Um jornal de toda esquerda socialista. Um instrumento da frente única, proposta pela IC.

O PCI também conclamou a unidade dos partidos de esquerda tendo em vista as eleições de março de 1924. Bordiga, ainda a principal expressão popular do Partido, se recusou a ser candidato. Mesmo assim o resultado eleitoral acabou sendo favorável aos comunistas que elegeram 19 deputados, entre eles Gramsci que se encontrava no exterior. Agora, munido de imunidade parlamentar, ele podia voltar para a Itália e agir mais abertamente.

Em junho de 1924 eclodiu o "caso Matteoti". Um grupo de fascistas sequestrou e assassinou o renomado deputado socialista Giacomo Matteotti, que havia feito duras críticas ao governo fascista. Abriu-se uma crise política profunda. Os deputados oposicionistas, entre eles os comunistas, abandonaram o parlamento e se reuniram em outro lugar chamado Aventino. Realizaram-se manifestações massivas contra o assassinato. O regime de Mussolini chegou a balançar. Os comunistas propuseram a realização de uma greve geral, mas a proposta foi recusada. Apesar disso, no dia 27 de junho, 500 mil trabalhadores entraram em greve contra o fascismo.

A assembleia do Aventino se recusou a constituir-se em poder paralelo e convocar o povo, como propuseram os comunistas. Agravaram-se as divergências internas na oposição: os comunistas chamavam o grupo parlamentar liberal de "semifascista". Pouco a pouco a iniciativa política passou para as mãos dos fascistas.

Constatando as vacilações da oposição, Mussolini cassou os mandatos dos ausentes e transformou o parlamento mutilado em assembleia nacional constituinte. Pouco antes os comunistas haviam resolvido reassumir suas cadeiras na Câmara dos Deputados. Em tese isto os excluía do decreto que cassava os mandatos. Mas, os fascistas não respeitariam nem a sua própria legislação e destituiriam também os deputados comunistas.

Em agosto de 1924 Gramsci foi eleito para o recém-criado cargo de secretário-geral do PCI. Em setembro Bordiga foi eleito secretário-geral da federação comunista de Nápoles, fazendo dela uma trincheira contra a direção partidária. Neste mesmo ano nasceu o primeiro filho de Gramsci, Délio.

Em 16 de maio de 1926 Gramsci subiria pela última vez à tribuna da Câmara dos Deputados para denunciar a lei contra a maçonaria. Esta, segundo ele, seria apenas o começo de uma nova onda contra as organizações operárias. Neste dia enfrentou pessoalmente o próprio primeiro-ministro Benito Mussolini. Dirigindo-se a ele afirmou: "Vocês podem 'conquistar o Estado', podem modificar os códigos, podem procurar impedir a existência das organizações nas formas até então vigentes, mas vocês não podem prevalecer sobre as condições objetivas nas quais são obrigados a se movimentar (...). Em outras palavras, nós queremos declarar ao proletariado e às massas camponesas italianas, desta tribuna, que as forças revolucionárias italianas não se deixarão abater e que o seu turvo sonho (do fascismo) não conseguirá realizar-se".

A sua postura combativa no parlamento e o seu desafio ao próprio Duce colocou-o na mira dos agrupamentos fascistas. Por isto foi obrigado a entrar na clandestinidade, mas recusou-se a seguir o conselho dos membros da direção para que abandonasse o país.

Carta ao CC da URSS

Em meados da década de 1920 a direção do Partido Comunista da União Soviética estava envolvida numa grave luta interna. Os dois principais expoentes desta disputa eram Stálin e Trotsky. Gramsci se preocupava com o desfecho deste conflito e as consequências negativas para o movimento comunista internacional. Apesar dessa justa preocupação não deixou de expressar sua opinião, amplamente favorável à maioria, encabeçada por Stálin e Bukharin.

Numa carta ao Comitê Central do Partido bolchevique, datada de outubro de 1926, afirmou: "Declaramos agora que consideramos fundamentalmente justa a linha política da maioria do CC do PC da URSS e que neste sentido, com toda certeza, deverá se pronunciar a maioria do Partido italiano, se se tornar necessário, (...) nos impressiona o fato de que a atitude das oposições envolva toda a linha política do CC, atingindo o coração mesmo da doutrina leninista da ação política de nosso Partido na URSS. São colocados em discussão os princípios da hegemonia do proletariado; são prejudicadas e postas em perigo as relações fundamentais de aliança entre operários e camponeses, ou seja, os pilares do Estado operário e da revolução". Continuou: "É fácil fazer demagogia nesse terreno; é difícil deixar de fazê-la quando a questão foi posta nos termos do espírito corporativo e não nos termos do leninismo, da doutrina da hegemonia do proletariado (...). Na ideologia e na prática do bloco das oposições, renasce plenamente toda a tradição da social-democracia e do sindicalismo, que até agora impediu o proletariado de se organizar com classe dirigente".

Defendeu energicamente a necessidade da unidade e disciplina no interior do partido, especialmente na fase de transição representada pela NEP. Mas alertou que "a unidade e a disciplina, nesse caso, não podem ser mecânicas e impostas; devem ser leais e fruto da convicção, não a de um destacamento inimigo aprisionado ou cercado". E por fim afirmou: "gostaríamos de estar seguros de que a maioria do CC da URSS não tem pretensão de exagerar na vitória na luta e está disposta a evitar medidas excessivas". Devido a esta última frase Togliatti não entregou a carta oficialmente à direção do PCUS e sim informalmente a Bukharin. Isto desagradou profundamente Gramsci.

As Teses de Lion e alguns temas da questão meridional

Às vésperas do novo congresso agravou-se a ação divisionista de Bordiga. Gramsci se viu obrigado a publicar uma coluna diária no L'Unità intitulada "Contra o divisionismo fracionista, pela férrea unidade do Partido". O III Congresso do PCI se realizou em janeiro de 1926 na cidade francesa de Lion. Ele representou a vitória definitiva de Gramsci sobre Bordiga. As teses da maioria receberam mais de 90% dos votos. Foi a primeira tentativa de uma interpretação marxista da realidade italiana e de construir uma tática e de uma estratégia revolucionária nacional.

Foi uma dura resposta ao esquerdismo de Bordiga e a sua resistência de estabelecer uma política de aliança com a social-democracia, inclusive com sua ala esquerda, e a constituição de um partido de massas.

Escreveu Gramsci: "O companheiro Lênin dera a fórmula lapidar do significado das cisões, na Itália, quando disse ao companheiro Serrati: 'Separem-se de Turati, e depois façam aliança com ele'. Como era indispensável e historicamente necessário, devíamos nos separar (...) do reformismo (...) depois disso tudo, e continuando a luta ideológica e organizada contra aquelas correntes, procurar fazer uma aliança contra a reação. Para os dirigentes do nosso partido, qualquer ação da Internacional dedicada a obter uma aproximação com esta linha aparecia como se fosse uma implícita negação da cisão de Livorno, como uma manifestação de arrependimento".

O congresso também reforçou a importância da aliança operária e camponesa. Escreveu Gramsci: "Faz-se necessário que o nosso partido se aproxime estreitamente do camponês meridional, que o no nosso partido destrua no operário industrial o preconceito nele inculcado pela propaganda burguesa, segundo o qual o Sul é uma bola de chumbo que se opõe aos grandes desenvolvimentos da economia nacional, destruindo também no camponês meridional o preconceito ainda mais perigoso de que o norte da Itália seja um único bloco de inimigos de classe".

Em setembro de 1926 Gramsci começou e escrever um de seus textos mais importantes, o artigo "Alguns temas da questão meridional". Este ficou inacabado devido à sua prisão. Nele, ele trata fundamentalmente do problema da construção da hegemonia operária. Escreveu: "O proletariado pode se tornar classe dirigente e dominante à medida que consegue criar um sistema de aliança de classe que permita mobilizar contra o capitalismo e o Estado burguês a maioria da população trabalhadora; o que significa, na Itália, (...) na medida em que consegue obter o consenso das amplas massas camponesas". Continuou: "O proletariado, para ser capaz de governar como classe, deve se despojar de qualquer resíduo corporativo, de qualquer preconceito ou incrustação sindicalista (...). O metalúrgico, o marceneiro, o operário da construção civil etc. devem não só pensar como proletários e não mais como metalúrgicos, marceneiros etc., mas devem dar outro passo à frente: devem pensar como operários de uma classe que tende a dirigir os camponeses e os intelectuais, de uma classe que só pode vencer e construir o socialismo se for ajudada e seguida pela grande maioria desses estratos sociais (...)".

Gramsci no cárcere

No início de novembro de 1926, o Conselho de Ministro tomou medidas que anularam as liberdades individuais, instituiu a pena de morte e o Tribunal Especial para julgar os crimes contra o Estado. A ditadura fascista fechou o cerco sobre a oposição. No dia 8 de novembro os comunistas ainda se reuniram para articular um protesto contra a votação do projeto que seria feito no dia seguinte durante a sessão da Câmara. No entanto, na mesma noite, Gramsci e demais deputados comunistas foram presos em suas próprias casas.

Depois de preso, Gramsci foi de prisão em prisão numa verdadeira via crucis. Seu julgamento foi marcado para 28 de maio de 1928 no Tribunal Especial para crimes contra o Estado. No julgamento, dirigindo-se aos juízes, afirmou: "Os senhores conduzirão a Itália à ruína: a nós comunistas caberá salvá-la". Em resposta, num duríssimo discurso acusatório, o promotor fascista afirmou: "É preciso impedir que este cérebro funcione durante 20 anos". No dia 4 de junho foi decretada a sentença: vinte anos, quatro meses e cinco dias de prisão.

Gramsci já estava há mais de um ano e meio preso e tinha agravado seu estado de saúde. Foi remetido à prisão de Turim. Em 8 de fevereiro de 1929, quase três anos após a prisão, começou a redigir seus Cadernos do Cárcere. Durante aproximadamente seis anos (até 1935) preencheu 33 cadernos escolares com uma letra miúda – equivalentes a 2.500 páginas de texto impresso. Escreveu sobre temas variados como linguística, crítica literária, história italiana, papel dos intelectuais e, principalmente, sobre teoria política (estratégia e tática no Oriente e Ocidente, concepção ampliada do Estado, hegemonia etc.). Ele conseguiu obter alguns livros, como as obras de Croce. Mas, não lhe foi permitido ter acesso aos livros de Marx, Engels, Lênin e aos documentos do movimento comunista internacional.

A doença se agravou na prisão. Em 7 de março de 1933 caiu desmaiado em sua cela. Diagnóstico: doença de Pott, lesões tuberculosas no lóbulo superior do pulmão, arteriosclerose, hipertensão arterial e gota. Havia perdido todos os dentes e quase dez quilos. Dores de cabeças, insônia e falta de apetite levaram-no a um estado-limite.

Em novembro daquele mesmo ano o governo autorizou sua transferência para uma clínica. Pela primeira vez se livrou da roupa de presidiário estampada com seu número de matrícula 7047. Duas dezenas de guardas vigiavam o perigoso paciente já moribundo. A situação continuou a se agravar. Agora tinha dificuldade para ler e escrever, mas ainda sonhava em voltar a ver sua terra natal, a Sardenha.
Finalmente, em 25 de abril de 1937 foi suspensa sua pena de prisão. Ele tinha agora 46 anos, cerca de dez passados em prisões fascistas. Estava livre, mas seu corpo e cérebro não mais respondiam. No mesmo dia de sua libertação caiu novamente e desta vez não se levantou mais. Em 27 de abril um derrame cerebral pôs fim à sua heroica vida.

Togliatti, ao saber da notícia, escreveu: "Gramsci foi assassinado do modo mais desumano, do modo mais bárbaro, do modo mais requintado e cruel. Dez anos durou a sua morte" e concluiu: "Com a sua morte desapareceu o primeiro bolchevique do movimento operário italiano".

Bibliografia

COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci, L&PM, RS, 1981.
FIORI, Giuseppe. A vida de Antônio Gramsci, Paz e Terra, RJ, 1979.
LAJOLO, Laurana. Antônio Gramsci: Uma vida, Brasiliense, SP, 1982.
TOGLIATTI, Palmiro. Antônio Gramsci, Seara Nova, Lisboa, 1975.
Posted: 01 May 2017 06:43 AM PDT
Por Roberto Requião, no site Carta Maior:

O juiz Sérgio Moro publicou em jornais desta terça-feira (25) um arrazoado contra o Projeto de Lei de abuso de autoridade. Citando especialmente a experiência norte-americana, complementada por argumentos de Rui Barbosa, ele pretendeu congelar no início do século passado e trazer para hoje conceitos de direito que estão inteiramente superados pela atualidade.

Ninguém é contra a independência da Magistratura, do Ministério Público e de autoridades democraticamente constituídas. Mas é um retrocesso na estrutura legal de qualquer democracia possibilitar que essas autoridades, abusando de direitos do cidadão, abusem da própria dignidade de sua investidura. Não se trata apenas de juízes. Trata-se do guarda da esquina que aborda um motorista para achacá-lo.

O exemplo norte-americano sobre a tentativa de impeachment do juiz Samuel Chase, da Suprema Corte, não tem pertinência para a discussão do Projeto de abuso de autoridade. O impeachment foi aprovado pela Câmara, mas rejeitado pelo Senado. O que tem isso a ver com um eventual processo por abuso de autoridade que venha a ser promovido sob os ditames do Projeto de Lei que estamos discutindo?

Absolutamente nada!

O Projeto remete ao próprio Judiciário o julgamento do eventual processo por abuso de autoridade. Estaria, acaso, o juiz Moro com medo de ser julgado por seus próprios pares, no caso improvável de ser denunciado por abuso de autoridade? Não cuidariam esses pares de repelir qualquer denúncia improcedente contra ele? Por outro lado, se a denúncia fosse acatada, não seria forte indício de cumprimento da justiça?

Mais adiante observa o juiz que “o projeto não contém salvaguardas suficientes” para o exercício da Magistratura. O Projeto afirma que “a interpretação não constituirá crime se for “razoável”, mas “ignora que a condição deixará o juiz submetido às incertezas do processo e às influências dos poderosos na definição do que vem a ser uma interpretação razoável. Direito, afinal, não admite certezas matemáticas. ”

Aqui está um ponto extremamente relevante. O juiz Moro, também nesse caso, não confia na interpretação dos seus pares da palavra razoável. Além disso, sustenta que “direito, afinal, não admite certezas matemáticas”. Á vista disso, devíamos temer ainda mais o abuso de autoridade, pois entre a dúvida e a certeza matemática o juiz poderia extravasar de forma totalmente aberrante a sua autoridade em detrimento do cidadão.

Como se não bastasse, o § 1º do art. 1º do Substitutivo que apresentei traz uma indiscutível salvaguarda – deliberadamente ignorada pelo Juiz Moro – pois exige, para a configuração do crime, a presença do dolo específico. Vale dizer, ainda que a divergência não seja considerada razoável, isso não implica o cometimento do crime, pois imprescindível o dolo de prejudicar outrem ou de obter benefício para si ou para terceiro, ou ainda para mera satisfação pessoal.

Em síntese, o juiz, a cujo trabalho, junto com o dos promotores da Lava Jato não tenho poupado elogios, não parece muito preocupado com as raízes históricas do Direito. Não estou tratando de definição de prerrogativas e deveres de funcionários públicos. Estou tratando exclusivamente de abuso de autoridade. A Magistratura deve ter toda a liberdade na sua ação, exceto a de violar direitos da cidadania por abuso de autoridade.

Essa é uma prerrogativa essencialmente civil, protegida pelo Direito Penal, na relação do cidadão com o Estado. Nenhuma autoridade pública que exerça autoridade de forma competente e responsável, sem abuso, deveria se opor ao Projeto de Lei em tramitação. A alegação que servirá para dar cobertura aos ricos e poderosos é infame. Ao contrário, ela protegerá sobretudo o pequeno, aquele que só tem a lei para protegê-lo de uma autoridade opressiva.

Aos meus pares no Senado, gostaria de perguntar, com o coração aberto: a quem acham que estão defendendo ao se oporem de forma tão determinada ao Projeto de abuso de autoridade? Aos pobres, aos perseguidos por autoridades que abusam do poder, ou aos promotores e ao juiz da Lava Jato, que tendem a funcionar como uma casta acima do bem e do mal?

* Roberto Requião é senador da República no segundo mandato. Foi governador do Paraná por três mandatos, prefeito de Curitiba e deputado estadual. É graduado em direito e jornalismo com pós graduação em urbanismo e comunicação.
Posted: 01 May 2017 06:31 AM PDT
Por Eugênio Aragão
Como se sentiu na sexta-feira, golpista? Não adianta fingir. Se desse, teria baixado o pau, né? Mas não baixou, porque lhe deu paúra. Gente demais. Mais de 30 milhões de trabalhadores paralisados em todo o País. E seu ministro da porrada, aquele da bancada ruralista, chama isso de pífio. A raposa falando das uvas. Para quem não tem popularidade e é avaliado como o pior "governante" da história do Brasil, tanta gente na rua não é um bom presságio.

Pífios são vocês. Traidores mesquinhos. Gente feia. Smeagols. Poderia ter entrado para a memória como pacificador, dando apoio à Presidenta Dilma Rousseff e articulando sua base parlamentar, mas preferiu comprar bancada para golpeá-la pelas costas com o Eduardo Cunha, que hoje apodrece na cadeia em Curitiba. E agora você distribui cargos num descarado clientelismo, como se a República fosse res privata sua. A Funai, por exemplo, não serve mais aos povos indígenas, serve ao PSC, "é do André Moura"... 

Nada mais impressiona nesse arrastão que você e sua turma promovem no governo. Política indígena, assim como a educacional, a de saúde, a de moradia... tudo deixou de existir. As pastas que deveriam dar suporte às políticas públicas foram transformadas em regalos para os politiqueiros sem princípios que lhe dão apoio por pura ganância e ambição. Nunca o Brasil chegou tão baixo.

Já não nos comovem cenas deprimentes como aquela experimentada semana passada por seu ministrinho da falta de educação, o Mendoncinha, que gosta de conselhos de ator pornô. Saiu da Universidade Federal da Bahia cortando a cerca, para não ser vaiado pelos estudantes. Neste seu "governo", nada mais surpreende. Nem mesmo manter nos seus cargos oito ministros investigados por corrupção.

Você conseguiu zerar o investimento público neste ano. Assaltou o BNDES, desviando 1 bilhão de reais de seus cofres. Tudo para debelar uma crise que você e os seus criaram para derrubar uma Presidenta eleita com 54 milhões de votos. Depois a aprofundaram com um déficit primário artificial de 170 bilhões de reais, para distribuir 50 bilhões a amigos. E este ano quis fazer a mesma coisa, não fossem os cofres vazios.

Para alimentar sua rede de favores, resolveu desnacionalizar o Brasil, vendendo campos de petróleo a preço de banana para companhias estrangeiras, abrindo o mercado aéreo para empresas não brasileiras, permitindo a venda de terras a estrangeiros sem qualquer limite e por aí vai. É o jeito de manter seu cassino funcionando, né? Ou será o butim que coube a seus aliados do Norte na guerra que moveu contra nossa jovem democracia?

E acha que nós aceitamos pagar a conta desse seu jogo contra a sociedade? Claro que não. Quando as instituições se omitem na defesa da democracia, devolve-se ao detentor da soberania popular – ao povo – o direito de resistir à arbitrariedade. Somos nós os verdadeiros e originários guardiões da Constituição! Os próximos dias de seu "governo" serão seu ocaso. É bom se acostumar. Sexta-feira foi só o começo. Quem sabe a gente se surpreenda em algum momento próximo com um lampejo de dignidade que em toda sua vida não mostrou e possa aceitar seu pedido de renúncia na paz? Sonhar é de graça. Mas seria melhor assim. Seria melhor você sair pela porta dos fundos da história, para não ter que passar por seu corredor polonês pela frente.

Agora, se insistir nessa coisa bandida de destruição da previdência pública para enriquecer seus sócios de fundos financeiros e em pensar que o trabalhador brasileiro é otário e se submeterá a seu capricho de nos catapultar de volta para o regime constitucional de 1891, estará escolhendo o caminho mais doloroso. O povo vai se transformar no pior pesadelo de sua malta. Pense bem antes de testar. Ano que vem – ou até antes – haverá eleições. Ainda é tempo de recuar.

O dia 28 de abril de 2017 foi nossa primeira resposta, a da sociedade brasileira, ao espetáculo deprimente que você e seus ratos no Congresso protagonizaram em 17 de abril de 2016. Foi uma resposta à altura e é bom ouvi-la. Sua liga de super-heróis, a Rede Globogolpe e os MBLs da vida, não tem tamanho para enfrentar o que começamos sexta-feira. Quem viver verá.

Vaza, Temer, vaza!
Posted: 01 May 2017 06:23 AM PDT
Por Miguel do Rosário, no blog Cafezinho:



Principais informações do Datafolha divulgado de hoje na Folha, em dois artigos (sobre Temer aqui e sobre 2018 aqui), com pesquisa de campo realizada nos dias 26 e 27 de abril de 2017, após várias semanas de massacre midiático contra Lula:

1) As intenções de voto em Lula cresceram. O que não se sabe – mas pode-se especular – é quanto poderiam ter crescido não fosse o massacre midiático. Segundo o Datafolha, ele cresceu de 25% para 30% ou 31%, no primeiro turno, dependendo do cenário.

2) A rejeição a Lula se mantém estável em 45%, a mesma de pesquisas anteriores. Seguramente, teria caído mais, conforme revelam outros institutos que fizeram apurações prévias às delações da Odebrecht, não fosse o recrudescimento dos ataques midiáticos nas últimas semanas, provavelmente em agenda sincronizada com essa pesquisa Datafolha. (Tipo assim: grande mídia combina ataques e depois o Datafolha faz a pesquisa exatamente no momento que seria o “pior possível” para Lula).

3) Lula é o único que pode bater Jair Bolsonaro, o qual, por sua vez, está devorando todos os votos do PSDB.

4) Datafolha testa Sergio Moro para primeiro e segundo turnos. No 1º turno, Moro tem apenas 9% e ainda não incomoda. No segundo turno, Lula (40%) e Moro (42%) empatam. A exposição de Moro como candidato presidencial, no entanto, tira sua aura de juiz. Agora ele é candidato, e será visto assim pela população, que poderá, a partir deste momento, discutir essa possibilidade e ouvir críticas a seu respeito. A mídia também será pressionada a publicar críticas, pela mesma razão. É muito improvável, todavia, que Moro participe do pleito, porque isso implicaria em tirar toda a credibilidade, já em queda, de seu trabalho na Lava Jato.

5) Maioria esmagadora da população rejeita Temer, cuja aprovação caiu para 9%. Dilma tinha 13% às vésperas do impeachment. Com uma diferença: Dilma havia sofrido o maior massacre midiático da história, conforme mostram dados do Manchetômetro. Temer é paparicado de maneira inédita pela grande imprensa.

6) Folha insiste na bizarrice de Temer, de que sua impopularidade é o que lhe garante legitimidade política para levar adiante reformas impopulares. Nem Maria Antonieta teria coragem de afirmar tal coisas às vésperas da revolução francesa.

7) Aécio despencou para quarto lugar no cenário 1, depois de Marina Silva e Bolsonaro. É o preço pago pelo apoio ao golpe e pela participação no governo. João Dória, embora ainda atrás de Alckmin e Aécio, desponta cada vez mais como um candidato viável para o PSDB em 2018 – mas terá que disputar o voto anti-Lula com Bolsonaro.








Posted: 01 May 2017 06:17 AM PDT
Do site Vermelho:

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidenta eleita em 2014, Dilma Rousseff, apontaram, na tarde de sábado (29), em Rio Grande (RS), a Rede Globo como a direcionadora política do golpe que depôs Dilma em 2016 e que vem implementando medidas de desmonte de direitos e de políticas de desenvolvimento como a de fortalecimento da indústria naval brasileira.

“Este país sofreu um golpe. Eu fui afastada sem crime de responsabilidade por um bando de corruptos. É um golpe que tem na Rede Globo o seu principal partido político e que possui um objetivo muito claro: enquadrar o Brasil social, política e economicamente no neoliberalismo”, disse Dilma. Lula falou sobre o tema ao relatar quais são os seus dois principais desejos hoje.

"Estou pedindo a Deus para fazer o meu depoimento dia 10 em Curitiba. Será a primeira chance que eu terei de dizer tudo o que penso sobre o que está acontecendo no país. Em segundo lugar, desejo que a Globo escolha logo o seu candidato para 2018. Terei o maior prazer em derrotar o escolhido da Rede Globo. A Globo não se presta mais a transmitir informações, mas em tentar destruir o PT, Dilma e Lula. Eles devem ficar com uma azia desgraçada, porque, depois de meses tentando me destruir, cada pesquisa eleitoral nos mostra a frente de todos os outros candidatos”, ironizou o ex-presidente.

A reação do público foi imediata e sacudiu a praça central de Rio Grande. Milhares de pessoas passaram a gritar “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Ao lado da carroceria de um caminhão improvisada como espaço para a imprensa acompanhar o ato, uma mulher aparentando ter mais de 80 anos de idade, pediu que a carregassem para um ponto mais alto, junto com a sua cadeira de rodas. “Eu quero ver o Lula e a Dilma”, explicou. Em cima do caminhão, fotógrafos e cinegrafistas disputavam cada centímetro de terreno para tentar captar imagens do clima apoteótico que foi se criando ao longo da fala de Lula.

Moro, Dallagnol e Fidel

Em seu pronunciamento, o ex-presidente denunciou o processo de destruição da infra-estrutura e de direitos em curso no país e identificou os adversários e os desafios políticos a serem enfrentados nos próximos meses. “Se eu tiver mais um minuto ou mais vinte anos de vida, esse tempo será dedicado a recuperar a democracia e o direito do povo mais pobre ter três refeições por dia”. “Eu continuo sendo o Lulinha Paz e Amor. Não estou radicalizando. Só estou me virando para não apanhar tanto. A Polícia Federal foi na minha casa e, depois que eu já tinha saído, viraram o meu colchão. Acharam que eu tinha dinheiro escondido embaixo do colchão. O Moro e o Dallagnol não estão tentando me julgar por corrupção, mas sim pelo modo como eu governei o país. Estou tranquilo. Como disse o Fidel, a história me absolverá”.

Didático, o ex-presidente se preocupou em contextualizar historicamente o que está acontecendo no Brasil hoje, lembrando a importância que o Rio Grande do Sul tem na história do país pelas lideranças e movimentos nacionais que surgiram no Estado. “Eu visitei o Rio Grande do Sul pela primeira vez em 1975, convidado pelo então presidente do Sindicato dos Bancários, Olívio Dutra. Ali conheci também o Tarso Genro, que era o advogado do sindicato. Depois de passar dois dias aqui, fiquei fascinado com o grau de discussão política que encontrei. Fiquei pensando. O Rio Grande do Sul já teve lideranças como Brizola, Jango, Getúlio e Júlio de Castilhos. Já lá em São Paulo, nós tivemos Jânio, Ademar e Maluf. Mas hoje, sinto que aqui houve um certo retrocesso, como aconteceu também em nível nacional. A direita tem avançado para destruir tudo aquilo que construímos”.

Lula também falou sobre o clima de ódio que foi se criando no Brasil contra ele, contra Dilma, o PT, sindicatos e movimentos sociais. “Por que tanto ódio? No início eu achava que era preconceito pelo fato de eu ser nordestino e não ter formação. Mas depois veio a Dilma, uma mulher de classe media, bem formada, com mestrado na Unicamp e tudo, e eles conseguiram ter mais ódio dela. Aí eu descobri que o motivo desse preconceito era porque a elite desse país trata a mulher como um objeto de cama e mesa”, assinalou, numa das várias referências que fez ao machismo e às desigualdades de gênero no Brasil. Ele defendeu o aumento da participação e da representação política das mulheres, destacando que os partidos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais devem dar o exemplo, fazendo isso internamente e combatendo o machismo que existe dentro deles.

O clima de ódio que foi alimentado no país tem ainda um outro componente, acrescentou: o ódio de classe. “O PT iniciou um processo de mudanças no país. Foi isso que irritou os nossos adversários. Quando surgiu a ocasião, eles perceberam nossa fragilidade e mandaram a gente para fora do governo. Hoje, nós temos a existência cotidiana de uma luta de classes que muita gente achou que tinha acabado. Tem gente que não suporta ver uma menina negra se formando em odontologia. Tem gente que não suporta ver uma menina de periferia se formando em medicina. Outros não suportam ver pobre andando de avião e querendo comer peito de frango e picanha. Para eles, pobre tem que comer pescoço de frango. Esse é o limite”.

Lula defendeu ainda a política de fortalecimento da indústria naval e de valorização do conteúdo local que tornaram Rio Grande em um dos principais pólos navais do Brasil. “A Petrobras é um patrimônio cultural, tecnológico e empresarial deste país. A Dilma é testemunha de quantas brigas tive durante a campanha, quando decidi assumir um compromisso com a reconstrução da indústria naval brasileira. Hoje, estão tentando destruir essa indústria. Não dá para aceitar ter um navio mais barato construído lá em Singapura e aqui ter rio-grandinos pobres dormindo na sarjeta”. Para o ex-presidente, as políticas que estão sendo implementadas por Temer estão destruindo o país: “Eles não estão fazendo reformas. Estão demolindo o país”

“Deram um golpe na Dilma dizendo que iam melhorar o Brasil. Mas o país só piorou. Agora, estão destruindo tudo o que Getúlio fez em termos de legislação trabalhista. Quando a gente diz que vai fazer uma reforma em nossa casa é para melhorá-la. Eles não estão fazendo reformas, mas sim demolindo o Brasil. Estamos regredindo a uma situação quase de trabalho escravo. Não sei o que vai acontecer comigo, mas eles podem se preparar. Nós vamos voltar e recuperar a indústria naval deste país. A Petrobras vai voltar a ser do povo brasileiro. O petróleo pertence ao povo brasileiro e não às multinacionais. O BNDES vai voltar a ser um banco de desenvolvimento, o Banco do Brasil vai voltar a abrir as agências e nós vamos regular os meios de comunicação”, prometeu. Por fim, mandou um recado a Temer e seus aliados:

“Quem está desempregado não pode esperar até 2018. Ou devolvem o mandato a quem foi eleita pelo povo com mais de 54 milhões de votos ou tenham coragem de convocar eleições diretas já. Esse país não pode ficar de quatro para os norte-americanos como quer a nossa elite”.

Dilma: “o golpe não acabou”

Dilma Rousseff disse que ficou extremamente triste ao ver a situação do polo naval de Rio Grande. “Eu vi ele nascer. Vi o Estaleiro Rio Grande sair do chão nesta região que era considerada sem vocação. Estávamos construindo estaleiros por todo o país. Na década de 1980, o Brasil tinha uma indústria naval forte. Os governos Collor e FHC trataram de enterrar a nossa indústria naval. Hoje, tentam fazer isso de novo. Temos uma plataforma 60% construída aqui que hoje está parada, quando já poderia estar produzindo, gerando emprego, renda e riqueza. Eles têm uma visão de entregar o país”.

Ela também chamou a atenção para o caráter continuado do golpe e de sua agenda. “Eu vivi na pele dois golpes. Em 1964, tivemos um golpe militar que tirou direitos de toda a sociedade. O golpe parlamentar, midiático e judicial de hoje tem uma característica mais perversa ainda. Ele não acabou, continua sendo aplicado por meio de várias medidas. Uma delas é o fim do polo naval, um golpe contra a soberania nacional. Outra é a Reforma Trabalhista. Outra ainda é a Reforma da Previdência. Nenhum brasileiro ou brasileira votaria a favor dessa perda de direitos e de soberania. Cada uma dessas medidas é uma parte do golpe.”

Dilma apontou ainda aquela que considera a principal tarefa política do presente. “De hoje até outubro de 2018, temos que ter um pensamento na cabeça: a luta pelo voto direto para a presidência da República. Eles não consolidaram todas essas medidas. Para evitar isso, não podemos deixar que eles se consolidem no poder. Não podemos deixar que eles ganhem no tapetão, impedindo Lula de ser candidato. Isso seria uma afronta ao nosso direito de voto. A democracia é o nosso caminho para o Brasil voltar a crescer, gerar empregos e para pegarmos os nossos direitos de volta.”

Desmonte do Polo Naval

O prefeito de Rio Grande, Alexandre Lindenmeyer (PT), agradeceu a presença de Lula e Dilma no município e as políticas que seus respectivos governos implementaram para o desenvolvimento do polo naval. “A Metade Sul ficou mais de três décadas estagnada, sendo meramente um corredor de exportação. Os governos Lula e Dilma investiram no polo naval e em energia eólica e tivemos um crescimento sem precedentes, que chegou a 12%. Hoje, tudo isso está sendo destruído. Estão desmontando o polo naval e fechando a usina de Candiota. Já tivemos 20 mil trabalhadores aqui no polo naval. Hoje, temos 3 mil, somando os de Rio Grande e os de São José do Norte. Não podemos permitir que o nosso polo vire sucata”.

Em nome das frentes parlamentares municipal, estadual e nacional em defesa do polo naval, o deputado estadual Nelsinho Metalúrgico (PT) entregou a Lula e Dilma um documento agradecendo pelos investimentos feitos na indústria naval e se comprometendo a lutar pela mesma.

Também participaram do ato o ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, o ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, do Trabalho e da Previdência, Miguel Rossetto, a bancada gaúcha de deputados federais do PT e do PCdoB, deputados estaduais, o presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos, Paulo Cayres, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, o integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo, a senadora Gleise Hoffmann (PT) e o líder da bancada do PT na Câmara, Carlos Zarattini (PT-SP), além de autoridades locais e representantes de sindicatos e movimentos sociais de várias regiões do Estado.
Posted: 01 May 2017 05:44 AM PDT
Por Altamiro Borges

Animadinho com a decadência dos tucanos tradicionais – como Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra, que despencam a cada pesquisa de opinião –, o midiático prefeito João Doria não vacila mais em se comportar como o presidencial do PSDB para 2018. A cada dia que passa, ele abandona mais a cidade de São Paulo e sobe no palanque com seu discurso raivoso, fascistoide. Sua estratégia consiste em seduzir o eleitorado de direita e centro-direita, que ganhou projeção com a recente onda conservadora no país – que resultou no impeachment de Dilma Rousseff e na sua vitória para a prefeitura paulistana. Nos últimos dias, no clima da greve geral contra as “reformas” de Michel Temer, o aliado “João Dólar” exibiu plenamente seus dotes. Chamou os grevistas de “vagabundos” e “preguiçosos” e ameaçou bater e arrebentar, lembrando a postura truculenta dos generais durante a ditadura.

Em entrevista à rádio Jovem Pan – também batizada de “Ku Klux Pan” pelo seu time de “calunistas” de extrema-direita –, o prefeito se travestiu de valentão: “Acordo cedo e trabalho. Não sou grevista, que dorme, é preguiçoso e acorda tarde... Volto a dizer a esses grevistas, que se quiseram inclusive bloquear o meu acesso, que acordem mais cedo. Vagabundos! Porque o prefeito acorda cedo. Da próxima vez acordem mais cedo se quiserem bloquear o acesso do prefeito ao seu espaço de trabalho”. Em vários trechos, ele se referiu aos trabalhadores que aderiram à greve geral como “pelegos”, “vagabundos” e “preguiçosos”, e ainda ameaçou que vai cobrar multa do sindicato dos condutores e cortar o ponto dos servidores municipais que não foram ao trabalho.

Também no programa Mariana Godoy Entrevista, exibido na RedeTV! na noite de sexta-feira (28), “João Dólar” voltou a subir no palanque com sua retórica reacionária. Mesmo questionado pela apresentadora, ele insistiu em desqualificar o protesto que teve forte adesão na capital paulista e tratou os sindicalistas como “vagabundos”, que “agridem fisicamente pessoas que não aderiram, batendo, jogando pedras, quebrando, assaltando...”. No maior cinismo, ele negou que tenha apoiado as marchas golpistas pelo impeachment de Dilma Rousseff e reafirmou seu apoio às regressões patrocinadas pela máfia de Michel Temer. “Sou inteiramente a favor, tanto da reforma trabalhista como da previdenciária, exatamente como estão”. Para a frustração dos sindicalistas que apoiaram a eleição do ricaço, ele ainda atacou com virulência o movimento sindical, dizendo que “virou um negócio”.

Estas e outras declarações fascistoides servem para cativar o eleitorado conservador – o que deve gerar ciúmes no troglodita Jair Bolsonaro –, mas geraram forte reação em outros setores da sociedade. Nas redes sociais, muitos internautas lembraram que ele só conseguiu chegar à prefeitura na sexta-feira porque foi de helicóptero. Outros reproduziram postagens do golpista em apoio a uma greve geral contra Dilma Rousseff – que não vingou, já que foi convocada pelos fascistinhas do Movimento Brasil Livre (MBL), que não trabalham e nem prestam contas das suas receitas. E alguns ainda se referiram à vida de playboy do prefeito, afirmando que ele sim é um típico “vagabundo” das elites. Teve até a reprodução de uma postagem no Facebook do período eleitoral. Vale conferir:

*****

Mas, afinal, quem é João Dória Jr.?

João Dória é integrante da família Costa Dória, formada no período colonial e composta por senhores de engenho e de escravos. Um de seus personagens mais importantes, Antonio de Sá Dória (1590-1663), possivelmente o mais rico dos moradores de Salvador em seu tempo, teve, em apenas um de seus engenhos, 40 escravos.

O patrimônio do candidato a prefeito que, segundo levantamento de reportagem do UOL, supera R$ 170 milhões, não foi conseguido com o suor de seu trabalho, mas sim com o suor do trabalho dos 5,5 milhões de negras e negros escravizados no Brasil. Patrimônio que foi repassado e acumulado por gerações até chegar à sua conta bancária, que terá como herdeiro João Doria Neto, seu filho.

Ao contrário da imagem que tenta transmitir em campanha eleitoral, João ‘trabalhador’ não tem nada de trabalhador. Aos 13 anos, começou a trabalhar em uma agência de publicidade por indicação do pai, publicitário e ex-deputado federal, e aos 21 anos tornou-se diretor de comunicação da FAAP e da Rede Bandeirantes de Televisão, quando começou a carreira política como Secretário de Turismo de São Paulo e Presidente da Paulistur, durante o governo Mário Covas, e Presidente da Embratur no governo José Sarney. Duas empresas estatais. Uma trajetória muito diferente da maioria dos paulistanos.

Dória não representa a nova política, mas sim o que há de mais antigo e sujo na política brasileira, a elite proprietária de terras e de escravos do período colonial no Brasil. A sua eleição seria uma afronta às negras, aos negros e aos trabalhadores da cidade e, por isso, é o nosso dever combatê-la.


*****

Leia também:

João Doria, a mortadela e o caviar

Morte na Marginal Tietê. Cadê o Doria?

Doria, o falso gari, reduz varrição de ruas

João Doria: o pobretão de R$ 180 milhões

Bia Doria vai depor na CPI da Lei Rouanet?

A tenebrosa equipe de João Doria

As mentiras do demagogo João Doria

Doria loteia a prefeitura e faz negócios

“Doria é mais falso que o botox que aplica”

João Doria, o poste (de pole dance)

Demagogo e falastrão, Doria não terá paz!

Doria, o “defeituoso”, enganou o eleitor

Chuva testa Doria, o prefeito videomaker

Doria e o chapa branquismo da 'Folha'

Polícia protege Doria. Medo do quê?

A lista dos fracassos do governo Doria

Nenhum comentário:

Postar um comentário