domingo, 7 de maio de 2017

7/5 - Porque os EUA jamais vencerão no Afeganistão.

FONTE:Castor Filho <castorfilho@yahoo.com>

Porque os EUA jamais vencerão no Afeganistão.
 
 
Trump quer uma nova escalada afegã. Isso é uma ideia terrível – alguém precisa esclarecer ao presidente que ele nunca vencerá no Afeganistão.
 
 
Texto de Douglas Wissing, tradução de btpsilveira
 
 
O Comboio de MRAPs (veículos especialmente construídos para resistir a minas terrestres caseiras – NT) se arrasta através da paisagem lunar da província de Helmand no centro do Afeganistão, epicentro da guerra inútil que os EUA travam há meio século para reconstruir o Afeganistão à sua própria imagem. Gerações de pensadores e soldados norteamericanos pretendiam transformar essa terra austera em um celeiro e bastião para os valores democráticos. Em vez disso, criaram a maior plantação de papoulas para colheita de ópio do mundo e o coração da insurreição Talibã, cada vez mais próspera.
A partir de 2009, 20.000 tropas dos Estados Unidos travaram uma luta sangrenta de batalhas inconclusivas em Helmand até a retirada em 2014. Durante essa retirada, eu e uma equipe de soldados saímos amontoados dentro de um MRAP, sacolejando através de trilhas esburacadas, enquanto nas margens os homens Pashtuns olhavam carrancudos. Eles claramente estavam desprezando os esforços dos norteamericanos. O motorista subitamente apontou – “IEDs!” (IED – minas terrestres caseiras, altamente letais – NT) desviando violentamente para a direita, enquanto conseguia usar “porra!” como verbo, advérbio, adjetivo e nome, tudo ao mesmo tempo e na mesma frase. Os homens da tribo, ainda contidos, estavam só esperando a sua vez.
A insurgência Talibã cresce a uma taxa anual de dois dígitos desde 2005. O Inspetor Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão (SIGAR – sigla em inglês – NT) que os incidentes de segurança continuaram a acontecer durante o ano de 2016 seguiram crescendo no primeiro quarto do ano de 2017 e alcançaram seu nível mais alto desde 2007. Hoje, os insurgentes controlam cerca de metade do país. Governos Talibãs encobertos operam virtualmente em todas as províncias e controlam várias delas, inclusive Helmand. Os insurgentes pressionam centros governamentais através do país, até mesmo cercando Cabul, onde um homem bomba explodiu ao lado de um comboio militar norteamericano praticamente às portas da embaixada dos Estados Unidos nesta semana.
O Afeganistão atual continua sendo o maior esforço de Guerra dos EUA. De um ápice de cerca de 100.000 tropas no terreno durante a era de escalada de Obama, atualmente ainda permanecem no país cerca de 10.000 tropas dos Estados Unidos no Afeganistão, além de mais 26.000 contratados regiamente pagos do Departamento de Defesa e outras agências. Cada soldado dos EUA naquele país representa uma despesa de um milhão de dólares por ano. Economistas calculam que a guerra afegã já custou aos contribuintes norteamericanos cerca de um trilhão de dólares. Apenas em 2017 serão gastos 50 bilhões de dólares nas operações do exército e Departamento de Estado no país, custo de quase um bilhão de dólares por semana (como referência, mencione-se que o orçamento inicial anual dos EUA para as operações contra o Estado Islâmico na Síria é de “apenas” 5 bilhões de dólares).
Agora, o exército dos Estados Unidos quer nova escalada no Afeganistão. Os Marines estão de volta a Helmand. Em abril, o Pentágono pediu “mais alguns milhares” de tropas, até agora, 5.000. As apostas estão também se tornando maiores. Em 15 de abril, as forças norteamericanas despejaram uma bomba de 11.000 quilos denominada MOAB, a maior bomba não nuclear do arsenal norteamericano supostamente contra lutadores do Estado Islâmico no leste do Afeganistão. É a Escalada 2.0.
Enquanto o Pentágono exige mais tropas e despeja mais e maiores bombas, é importante que se pare e faça uma avaliação dos perigos de uma nova escalada. E que se considere se outra escalada pode causar uma reviravolta em uma guerra impossível de vencer. A escalada 2.0 é consequente, relevante, sustentável? Ou será apenas mais um capítulo inútil em uma guerra que não será vencida?
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A aposta em mais guerra encara uma realidade terrível. Depois de mais de 15 nos de guerra e “construção da nação”, o paradoxal Governo de Unidade Nacional afegão é um caso de disfunção que merece ser estudado. Asfixiado por uma enorme indústria ilegal de ópio, o governo afegão está entre os mais corruptos do mundo; 9º no índice de fragilidade estatal, que estabelece quais estados são mais vulneráveis a conflitos ou colapso. O índice de Estado de Direito do Projeto Mundial para a Justiça classificou o Afeganistão como o 111º pior entre 113 países pesquisados. As forças de segurança do Afeganistão, mal comandadas e profundamente infiltradas, estão perdendo a guerra.
Mesmo tendo os Estados Unidos inundado o país com mais de 117 bilhões de dólares para o desenvolvimento desde 2002, os afegãos permanecem nos últimos lugares em todos os índices de desenvolvimento humano da ONU: mortalidade infantil, expectativa de vida, ingestão de calorias, receita per capita, alfabetização, uso de eletricidade, etc. Cada vez mais alienados, os afegãos sabem que estão sendo vítimas de uma espécie de “ajuda fantasma” que é desperdiçada tanto entre os doadores quanto entre os que a recebem. Um cartaz de propaganda da USAID em Cabul proclamando os direitos das mulheres em inglês e dari, inadvertidamente ilustra o fracasso: depois de mais de uma década e de bilhões de dólares gasto em programas de ajuda mal administrados, apenas cerca de 10% das mulheres afegãs conseguem ler o cartaz.
Um diretor de museu afegão me disse: “acredito em nosso governo, mas não em nossos líderes. São uma máfia, todos eles. E sinto muito, mas muito mesmo em dizer, mas foi o seu país que fez isso. Máfia”.
Este é o custo humano de expandir ainda mais a Guerra no Afeganistão. Dezenas de milhares de combatentes afegãos perderam a vida em 2016. Apanhados entre o fogo cruzado e nos bombardeios, os civis afegãos estão morrendo em número cada vez maior. As Nações Unidas relatam que em 2016 houve 12.000 mortes de civis causadas pela guerra, entre eles 923 crianças mortas e 2.589 feridas. Em 2016, 600.000 afegãos foram expulsos de suas localidades pelo conflito, engrossando a crise dos refugiados. Muitos afegãos culpam a presença de tropas estrangeiras pela situação, reforçando o apoio popular para os insurgentes.
As guerras intermináveis dos Estados Unidos estão devastando nossos irmãos e filhos militares, muitos dos quais convocados múltiplas vezes. O setor administrativo para os veteranos está sobrecarregado com os veteranos feridos e incapacitados do pós 11/09: mais de 1.600 amputados pelas guerras; 327.000 veteranos apresentam doenças mentais traumáticas; 700.000 veteranos estão incapacitados em taxas de 30% ou mais. O estresse pós traumático está em ascensão. Mulheres veteranas têm uma taxa de suicídio entre duas e vinco vezes mais alta que as mulheres civis.
Os soldados dos EUA no Afeganistão estão cada vez mais frustrados com uma missão miserável em um país ignorante com feudos tribais e guerras por ópio. Em Desesperançado mas Otimista, meu segundo livro sobre o conflito afegão, conto caso após caso de soldados norteamericanos perdidos em missões sem uma estratégia abrangente; sem um final à vista; apenas uma guerra interminável que ceifa vidas aos montes. Um sargento grisalho me disse: “se você perguntar a qualquer desses soldados da infantaria, eles com certeza vão responder que querem mesmo é sair daqui. Este é um lugar terrível. Que diabos estamos fazendo aqui?”
Resta ainda a questão das prioridades fiscais de uma administração cujo slogan pretende ser “Estados Unidos primeiro”. Mais tropas requerem mais gastos. Perder mais sangue e dinheiro norteamericano no Afeganistão drena recursos de outros assuntos vitais para os EUA, entre eles a Coreia do Norte, Estado Islâmico na Síria e ameaças cibernéticas.
Os soldados com quem entrei em contato no Afeganistão estão consternados com os bilhões de dólares sendo desperdiçados| em projetos inúteis, enquanto suas famílias sofrem nos EUA. Encontrei muitos oficiais desesperados para conciliar seu senso de dever com a observação da ajuda extravagante dos Estados Unidos para o governo afegão predatório. Ouvi histórias de oficiais deixando o serviço e procurando ajuda psicológica para resolver essa dissonância cognitiva.
Um comandante me disse: “o exército dos Estados Unidos, o Departamento de Estado e o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos – NT) além de outras agências com certeza deram a este país a possibilidade de formarem um governo, um exército, um departamento de polícia e providenciar algum tipo de governança para a população”. Ele concluiu que já era o suficiente: “Agora é com eles. Afinal, é o país deles e eles é que têm que decidir como querem governá-lo.”
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Há um truísmo de que os generais sempre lutam a última guerra. Acontece que no Afeganistão a última guerra é sempre a mesma. Parece que a escalação dos generais tem o mesmo padrão comprovadamente fracassado do caminho da guerra eterna do século 21, com seus perversos incentivos governamentais e corporativos para continuar a lutar para sempre. Exército, inteligência e o desenvolvimento das corporações precisam de contratos. Funcionários estatais eleitos precisam das contribuições de campanha dos lobistas dessas corporações.
Além disso, há desafios ainda maiores para continuar a guerra. Quando os porta vozes do Pentágono pedem mais tropas, deixam de explicar como mais alguns milhares de soldados poderiam vencer uma guerra que 100.000 não conseguiram – especialmente com o crescimento exponencial dos ataques verde azulados (menção aos ataques feitos por tropas ou do próprio exército afegão ou de elementos disfarçados com uniformes comprados no mercado negro, visto que verde/azul são as cores dos uniformes do exército do país – NT) feitos pelas desmoralizadas e infiltradas forças de segurança afegãs. Para resolver esses problemas táticos de curto prazo, coisas como a MOAB e outros bombardeios cada vez mais frequentes se revelam inúteis. Na realidade, o crescimento dos bombardeios podem ter o efeito não desejado de distanciar o mundo muçulmano cada vez mais dos EUA, bem como inflamar ainda mais a insurgência.
Mesmo coisas básicas como o suprimento logístico são perigosas. Encaixada entre uma vizinhança realmente terrível, o Afeganistão é o pesadelo de qualquer intendente. Suprimentos, entre eles um galão de combustível a $600 dólares e jantares com frutos do mar que as tropas desejam, tem que passar pelo Paquistão, enfrentando a relação esquisita de amizade/ódio do país com os EUA, ou através de rotas mais ao norte, controladas por regimes que exigem recompensas extorsivas.
A administração Trump ainda está para formular uma estratégia para o Afeganistão. Depois do fracasso bem documentado da “construção da nação” no Afeganistão (e Iraque), a contra insurgência agora é uma doutrina desacreditada. O “contra terrorismo light” como as atuais operações são às vezes chamadas são menos uma estratégia que um amontoado de táticas de resultados desconhecidos.
Depois de 15 anos de uma Guerra com parceiros duvidosos e estratégias cada vez mais ilusórias, mais do mesmo Não levará a resultado diferente. A insurgência continua a crescer em força e domínio de território; através de anos de pressão do exército dos EUA; através de anos da estratégia de ataque contínuo da era Obama, quando da escalada 1.0 com 100.000 soldados e bilhões de dólares de ajuda para a “construção da nação”; e em anos recentes, com a poderosa campanha de contra terrorismo inundada com bilhões de dólares de equipamentos, suprimentos e treinamento das forças de segurança afegãs.
Nada funcionou. Lutar contra a insurgência afegã que tem apoio da população parece enxugamento de gelo. Como afirmou o General Stanley McChrystal, “você pode matar Talibãs para sempre, porque eles não se contam por números finitos”. Para os insurgentes, é uma guerra barata, lutada por soldados que custam alguns dólares por dia, usam velhas armas soviéticas e bombas caseiras feitas com fertilizante, lutando em casa, em montanhas íngremes e desertos escaldantes.
Além disso, os insurgentes são muito pacientes. Como dizem há longo tempo os comandantes insurgentes a seus combatentes: “os norteamericanos os são donos do relógio, mas nós somos donos do tempo”.
Mesmo que não existe alguém dentro dos círculos do poder em Washington que esteja disposto a admitir, não há nada que os EUA possam fazer para evitar o curso inexorável dos acontecimentos. Trata-se de colocar dinheiro bom em cima de uma causa ruim; depois da devastação que já aconteceu, mais vidas serão roubadas. Está passando da hora de aceitar o óbvio: não é possível vencer a guerra no Afeganistão. Está na hora dos Estados Unidos retirarem suas tropas, e deixar que os afegãos cuidem de seus próprios problemas.
 


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