terça-feira, 9 de maio de 2017

9/5 - Pequim contrata empresa de Prince

FONTE:Castor Filho <castorfilho@yahoo.com>


Pequim contrata empresa de Prince, ex-Blackwater 

30/4/2017, F. William Engdahl, New Eastern Outlook, NEO [excertos]

Entreouvido na Vila Vudu:

Qual, diabos, seria o problema, de os chineses contratarem o mercenário Erik Prince pra garantir a segurança de suas rotas comerciais?! Quem disse que os comunistas teriam alguma obrigação de perder infindavelmente as guerras para as quais sejam arrastados?!

A ideia de contratar Prince & Seus Mercenários Unidos é excelente, ideia de gênio. Pra começar, contratados pelos chineses, os mercenários de Prince não trabalharão muito facilmente para os inimigos da China; e os exércitos mercenários de Prince vencem as guerras em que se metem – diferentes nisso dos exércitos 'patrióticos' do 'ocidente', na OTAN ou na União Europeia, que existem para perder guerras, impedir que jamais cheguem ao fim e prolongá-las, prolongá-las, prolongá-las...

Complicadíssimo, nessa 'operação', é, apenas, o risco de que o capitalismo com características chinesas esteja correndo na direção de se aproximar perigosamente do capitalismo com características do Pentágono, da OTAN, da CIA/Al-Qaeda e de Israel...

É assunto para acompanhar, sem histerias puristas.
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O jornal do governo chinês Global Times, divulgou que uma empresa com sede em Hong Kong, de nome Frontier Services Group (FSG) construirá duas bases operacionais: uma na Região Autônoma Uigur de Xinjiang no noroeste da China; a outra na Província de Yunnan. As prov Xinjiang e Yunnan são dos nodos cruciais do projeto chinês que está em andamento, "Uma Ponte, Uma Estrada", de infraestrutura, com ferrovias de alta velocidade, portos, oleodutos e gasodutos. O que chama a atenção quanto a os chineses contratarem a empresa de segurança FSG é o presidente da empresa.

O presidente e principal executivo de operação do Frontier Services Group é o mais conhecido mercenário do mundo, Erik Prince, fundador da empresa Blackwater Security, hoje já defunta.[1]

Em entrevista ao London Financial Times, Prince recentemente descreveu como segue o seu trabalho com a China:

"Não estamos trabalhando para os objetivos da política exterior chinesa. Só trabalhamos para aumentar o comércio." – E acrescentou: – "O comércio entre a China e seus vizinhos, e a infraestrutura que estão construindo para essa finalidade só traz benefícios. E insistiu que "Não se trata de uma versão chinesa da Blackwater. FSG é uma empresa de logística. Não somos empresa de segurança privada. Nosso pessoal nunca usou nem jamais usará armas. Claro que a gestão da segurança é parte do processo de logística."

Gestão da segurança é eufemismo para guarda-costas. Quem sabe o pessoal de Prince são como os mestres de artes marciais de Jason Statham, que nunca usam armas de fogo. Ou talvez esteja mentindo. Seja como for, é evento de grande magnitude que a China de emprego como zelador de sua estratégica Nova Rota da Seda Econômica, a Erik Prince, ex-Marine, agente ativo da CIA e co-fundador da afamada Blackwater.

CITIC

Ninguém diga que o relacionamento com os chineses seja apenas periférica, ou mal informado. O principal investidor da FSG é o fundo de investimentos CITIC – de propriedade e controlado pela República Popular da China. O fundo CITIC é proprietário de 20% do Frontier Services Group. Ao que se sabe o primeiro contato entre o fundo CITIC e Erik Prince aconteceu em 2013, quando Prince estava em Hong Kong procurando investidores para seu grupo Africa de segurança. Ao lado de Prince, como co-presidente do FSG está Dongyi Hua, conectado a uma subsidiária do fundo CITIC da qual é presidente executivo em exercício. O endereço de Dongyi Hua em Pequim é a Torre CITIC. Chun Shun Ko é vice presidente do Frontier Services Group. Os dois são cidadãos chineses e vivem em Pequim.
Tudo leva a crer que os chineses souberam de Prince por causa de seu trabalho de segurança na proteção de empresas de gasodutos em zonas de conflito na África como a Nigéria, em luta contra o grupo Boko Haram ligado à Al-Qaeda; e no Sudão Sul, onde a China tem grandes investimentos em petróleo. Agora, em entrevisa publicada dia 21 de março no jornal Global Times, Prince anunciou que sua empresa FSG foi contratada para expandir seu foco, até aqui concentrado na África, para construir o que a empresa chama de duas "bases operacionais."

Nas palavras de Prince, "no final de 2016, FSG expandiu o seu foco geográfico, da África, para incluir os corredores noroeste e sudoeste da iniciativa Um Cinturão, Uma Estrada – projeto dos chineses que inclui a promessa de se constituir numa alternativa positiva ao mundo atlântico da OTAN, já em colapso.

Prince disse, na entrevista ao Global Times:

"O corredor noroeste inclui Cazaquistão, Uzbequistão, Paquistão, Afeganistão; e o corredor sudoeste inclui Myanmar, Tailândia, Laos e Cambodia." – Acrescentou que "A unidade planejada a ser construída na Província chinesa de Yunnan permitirá que nossa empresa FSG atenda empresas em todo o corredor sudoeste. Subsequentemente, a FSG abrirá uma unidade de treinamento em Xinjiang para atender empresas no corredor noroeste."

A base da FSG na Região Uigur Autônoma na província Xinjiang no noroeste da China estará no coração das atividades dos terroristas uigures instigados pela CIA-EUA. Xinjiang é lar do Movimento Islâmico do Turquestão Leste, instigado pela CIA e aliados da Al-Qaeda, ativa entre os muçulmanos uigures em Xinjiang. A própria província Xinjiang é ponto de entroncamento dos maiores gasodutos e oleodutos que partem do Cazaquistão para a China, a Rússia e outros pontos, inclusive os campos de petróleo em território chinês.

A segunda "base operacinal" ficará na província Yunnan no Sudoeste da China, onde Kunming é ponto estratégico de entroncamento de todos os oleodutos e gasodutos de Myanmar, além de porto de águas profundas para o Oceano Índico e cruzamento emergente de toda a infraestrutura de ferrovia para trens de alta velocidade que chegará até Cingapura e atenderá todo o sudeste da Ásia.

Pelo dinheiro?

Erik Prince insiste que não está construindo uma "Blackwater Chinesa", mas simplesmente fazendo negócios com os chineses, no vasto projeto comercial deles, para garantir segurança às empresas, dentre outros serviços. Insiste que o pessoal de segurança da nova empresa não trabalhará armado.

O jornal oficial do governo chinês Global Times entrevistou especialistas chineses que defendem a contratação da empresa de segurança privada de Erik Prince. Wu Xinbo, diretor do Centro para Estudos Norte-americanos na Universidade Fudan, disse ao Global Times que "é indispensável prover serviços de segurança a empresas chinesas pelo mundo, para implementar a iniciativa "Um Cinturão, uma Estrada". É aconselhável para a China recolher, como aprendizado, a experiência dessas empresas privadas norte-americanas." Li Jiang, diretor do departamento de negócios internacionais no Grupo de Segurança e Proteção da China, braço do Ministério de Segurança Pública, acrescentou que

"As empresas chinesas precisam desesperadamente de serviços de proteção em outros países. As empresas chinesas de segurança não têm teorias avançadas de gestão."

(...) A empresa de segurança de Prince, Blackwater Security, trabalhou para a CIA durante a guerra do Iraque, em contratos que passaram dos $600 milhões. Jamie Smith, co-fundador da Blackwater, foi oficial da CIA e chegou à vice-presidência da Blackwater USA e a diretor da empresa Blackwater de Segurança. Cofer Black, vice-presidente da Blackwater de 2006 a 2009, foi diretor do Centro de Contraterrorismo da CIA. Em resumo, a 'operação' de Prince é uma 'CIA privada', que não é limitada pelas restrições que o governo dos EUA impõe às operações clandestinas [dito assim, até parece que o "governo dos EUA" imporia alguma restrição às "operações clandestinas" levadas a cabo pelo próprio governo dos EUA... (NTs)].

(...) Em 2009, soube-se que Prince fora parte de uma força-tarefa da CIA, com a missão de matar terroristas. E chegou a ser contratada para fazer a segurança do quartel-general da CIA em Langley, Virgínia [até aí, se eu fosse a China, tudo isso seria muito interessante e me empurraria a pagar o que Prince pedisse, para o ter a meu serviço. Se eu fosse a CIA, sim, teria muito com o que me preocupar... (NTs)]

Laços com Trump

Também muito interessantes são os laços que unem Erik Prince e o governo Donald Trump.

Prince, que conhece Trump pessoalmente, doou mais de $100 mil dólares à campanha eleitoral do amigo. A irmã de Trump, a bilionária Betsy DeVos da família AmWay, é secretária de Educação do governo Trump. E Prince também é amigo do (ex) principal estrategista do governo Trump, Steve Bannon (...). Prince também é muito próximo do bilionário operador de hedge fund Robert Mercer de Renaissance Technologies, um dos principais finaneiadores de Trump e do Brexit na Grã-Bretanha.

É possível que o governo chinês vise a obter duas vantagens, ao contratar
Erik Prince para chefiar a segurança nas artérias mais críticas do projeto "Um Cinturão, Uma Estrada", da China. A primeira, óbvia, é que Erik Prince é indiscutivelmente uma das maiores autoridades mundiais em segurança empresarial em áreas onde haja atividade terrorista. Certamente sabe mais que as empresas chinesas de segurança. A segunda, é que os laços íntimos que há entre Prince e o governo Trump, o qual, pelo menos na retórica, está em aberta campanha anti-China, possam eventualmente ajudar a gerir as relações do pessoal chinês, com o pessoal de Trump, o que poderia ajudar a melhorar as relações com Washington. (...)

[É verdade que Prince passa a viver muito perto de segredos cruciais do mais importante projeto do governo chinês em décadas; em posição que lhe facilitaria, em tese, entregar segredos chineses aos terroristas da CIA, ativos contra o novo projeto das Rotas da Seda (...), como diz Enghdal, no artigo acima, em trecho aqui omitido. Sim, é verdade que poderia fazer isso. Mas está sendo pago para não fazer – e provavelmente não fará além de um limite que mesmo que comentaristas 'ocidentais' não vejam, sempre há; e, afinal, não passa de "mercenário imoral", como diz tb o próprio Enghdal. E será vigiado. Muito mais importante, contudo, que essa fraseologia de comentariato vão, é que tudo sugere que a China já aprendeu a dispensar 'conselhos' dos 'especialistas' ocidentais sobre o que fazer, como, onde e com quem. Tudo sugere que os chineses estão sabendo muito bem "cruzar o rio sentindo as pedras" – como Deng Xiaoping, o Pequeno Timoneiro", recomendava (NTs)].*****


[1] Sobre Erik Prince, ver também: 27/6/2010, "Empresário, soldado, espião", Vanity Fair [trad. em redecastorphoto]; e 21/9/2010, "Blackwater & Co. - A 'negabilidade' total", Jeremy Scahill, The Nation [trad. em redecastorphoto] (NTs).


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