domingo, 11 de junho de 2017

11/6 - O triunfo eleitoral de Corbyn

FONTE:Castor Filho <castorfilho@yahoo.com>


Fatos que provam o triunfo eleitoral de Corbyn
9/7/2017, Jonathan Cook,
Counterpunch


Assistindo à cobertura que a BBC deu à eleição, qualquer um chegaria a duas conclusões. Primeira, que a campanha de Theresa May foi horrível e sabotou a candidata, em vez de promovê-la; e segunda que, por mais que Jeremy Corbyn estivesse festejando, ele saía das urnas, isso sim, absolutamente derrotado.

São as conclusões que se poderia esperar de uma classe de especialistas midiáticos que consumiram dois anos, sem trégua, ofendendo e caluniando Corbyn, declarando-o "inelegível", avisando que só teria votos de um pequeno nicho de radicais de esquerda, e anunciando que os Trabalhistas estavam a um passo da pior derrota eleitoral da história contemporânea – se não de todos os tempos. A mensagem de justiça social de Corbyn estaria alienando o interior do Reino Unido.

Assim sendo, temos de dar um passo atrás, examinar os números da eleição e ver como se saiu, na verdade, o partido Trabalhista liderado por Corbyn.

Corbyn obteve 41% dos votos, contra 44% para May. Dado o sistema inerentemente falhado do Reino Unido, obteve cerca de 50 cadeiras a menos que os Conservadores – mas mesmo assim obteve melhora muito significativa em relação ao número de cadeiras trabalhistas sob Ed Miliband. Não há grupo majoritário no Parlamento e, para sobreviver, May dependerá dos votos de um pequeno grupo de sindicalistas do Ulster da Irlanda do Norte, o que cria governo terrivelmente instável.

Mas como se saiu Corbyn, se se comparam os votos Trabalhistas dados a ele e a seus predecessores recentes? Corbyn teve muito mais votos que Ed Miliband, Gordon Brown e Neil Kinnock, alguns dos que, às vezes muito espalhafatosamente, fizeram oposição à liderança de Corbyn dentro do Partido. Todos esses perderam as respectivas eleições.

Mas o que dizer dos votos que Corbyn obteve, comparados aos de Tony Blair, seu crítico de mais alta hierarquia 'midiática', cujos muitos aliados na bancada Trabalhista nunca se cansaram de desafiar e subverter a liderança de Corbyn nos últimos dois anos, e tentaram derrubá-lo, inclusive encenando um movimento contra o líder, ano passado?!

Aqui vão os números das três vitórias de Blair. Em 2005, obteve 36% dos votos – muito menos que Corbyn. Em 2001, 41% – praticamente o mesmo que Corbyn. E a vitória arrasadora de Blair em 1997 foi-lhe assegurada por 43% dos votos, apenas 2 p.p. acima da porcentagem de votos para Corbyn, em 2017.

Resumo da história, Corbyn é hoje comprovadamente o líder Trabalhista mais popular entre os eleitores em mais de 40 anos, exceto no caso da vitória de Blair em 1997. Sim, mas é preciso lembrar o preço que Blair pagou por uma vantagem realmente muito pequena sobre os votos dados a Corbyn. Por baixo dos panos, Blair vendeu a alma do Partido Trabalhista à City de Londres, às megacorporações e aos seus lobbyistas. Esse pacto faustiano atraiu para a candidatura de Blair o apoio de quase toda a mídia-empresa britânica, inclusive do bloco de jornais e canais de TV comandado por Rupert Murdoch. As empresas mobilizaram toda sua máquina de propaganda para pôr Blair no poder. E com tudo isso Blair só conseguiu 2 p.p. de votos a mais que Corbyn – que teve a mesma violenta máquina de propaganda, mas trabalhando contra ele.

Além disso, também diferente de Corbyn, Blair não precisou enfrentar grande parte do próprio partido que obrava para destruí-lo também de dentro para fora.

Além disso tudo, Blair contou com muitos votos escoceses para os Trabalhistas, bloco que já não existia quando Corbyn chegou à liderança. Hoje, a maior parte daqueles votos vão para o Partido Nacional Escocês [ing. Scottish National Party (SNP)] que trabalha pela independência da Escócia.

Todos esses números já indicam claramente a extensão do feito de Corbyn.

Outro ponto. A grande vitória em 1997 foi o auge do sucesso de Blair. Quando os membros do Partido Trabalhista deram-se conta do que Blair fizera para chegar àquela vitória, o apoio parlamentar começou a diminuir e nunca mais se recuperou, até que Blair teve de deixar a liderança; e entregou ao sucessor, Gordon Brown, um partido exangue.

Com Corbyn, a campanha eleitoral provou que há enorme apetite por sua honestidade, pela paixão, pelo compromisso a favor de justiça social – pelo menos sempre que os eleitores puderam ouvir a própria voz do candidato, em vez de só conhecerem o político e suas respectivas políticas depois de mediadas e correspondentemente distorcidas nas/pelas empresas de mídia. Diferente de Blair, que destruiu o Partido Trabalhista a ponto de convertê-lo em partido Thatcherista, Corbyn está reconstruindo o Partido Trabalhista como movimento social instrumento de políticas progressistas.

Nesse
gráfico ("Maior aumento na porcentagem de votos trabalhistas em relação à eleição geral anterior, desde 1945") vê-se outra dimensão do grande feito de Corbyn nessas eleições.

Aí se vê que Corbyn obteve o maior aumento na porcentagem de votos trabalhistas em relação à eleição geral prévia, desde
Clement Attlee em 1945. Em resumo: Corbyn conseguiu reformatar o destino eleitoral do Partido Trabalhista inglês mais completamente que qualquer outro líder do partido, em 70 anos.

E, diferente de Blair, Corbyn fez o que fez sem acordos de sarjeta com o big business para esquartejar os programas econômicos e sociais do próprio partido
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