quinta-feira, 1 de junho de 2017

1/6 - FOLHA DIFERENCIADA de 31/5

Folha Diferenciada


Posted: 31 May 2017 12:06 PM PDT

Contando com atores estratégicos, os usurpadores lograram êxito em seu plano de sabotagem da ordem constitucional.



Paulo Kliass *




Passado mais de um ano desde que Dilma Roussef foi afastada do exercício da Presidência da República de forma casuística, o balanço do período em que o vice passou a ocupar as funções no Palácio Planalto pode ser qualificado como bastante trágico. A crise política, econômica, social e institucional aprofundou-se de maneira impressionante.
O principal argumento utilizado pelos setores do financismo, como tentativa de justificativa para o golpeachment, era a suposta incapacidade da equipe que vencera as eleições em outubro de 2014. Dessa forma, todos os problemas do Brasil seriam resolvidos, da noite para o dia, apenas com a saída da Presidenta. De acordo com tal raciocínio carregado de oportunismo, pouco importa o rito democrático e o respeito à institucionalidade da ordem republicana.
Contando com atores estratégicos no universo das finanças, no comando dos grandes meios de comunicação e em postos chave no mundo da Justiça, os usurpadores lograram êxito em seu plano de sabotagem da ordem constitucional. Do ponto de vista do discurso e do convencimento, armou-se a narrativa da panaceia. Bastaria substituir a equipe econômica considerada aventureira e irresponsável por novos integrantes apresentados à sociedade como portadores de elevada capacidade técnica.
E assim chegam ao comando da economia dois banqueiros, ambos com larga experiência de vida profissional na defesa aguerrida dos interesses do sistema financeiro. Henrique Meirelles vai para o Ministério da Fazenda, posto para o qual Lula havia pressionado Dilma a nomeá-lo meses antes. O diretor do Itaú, Ilan Goldfajn, vai para a Presidência do Banco Central. Trata-se de uma dupla perfeitamente azeitada e com acurada competência para levar a cabo a estratégia integral do austericídio. Sim aquela perversa combinação de taxas de juros elevadas e cortes nas áreas sociais do orçamento público, que já havia sido iniciada meses antes por Nelson Barbosa e Joaquim Levy.

Meirelles e Goldfajn: missão destruidora.
Por outro lado, revelam-se como o par adequado para implementar o desmonte do Estado brasileiro e para promover a destruição das últimas conquistas de direitos sociais ainda existentes em nosso País. Assim, oferecem o arsenal conceitual e operacional para viabilizar a privatização de áreas estratégicas, para a concessão de setores essenciais ao capital internacional e para as reformas como a previdenciária e trabalhista.
Além dessas missões de vital importância para os interesses do grande capital, os responsáveis pela economia também deveriam se dedicar às tarefas do cotidiano da política monetária e fiscal. Dentre outros instrumentos, reveste-se de especial destaque a fixação do patamar da taxa oficial de juros, a SELIC. O discurso ortodoxo sempre manteve um bombardeio permanente sobre toda e qualquer tentativa de redução da mesma, praticamente desde a edição do Plano Real em 1994. Com o argumento surrado a respeito do eventual risco de retorno aos ambientes de hiperinflação, os arautos do financismo desqualificavam as poucas tentativas de diminuição dos juros.
Não foi outra a razão, aliás, pela qual o Brasil tem ocupado com destaque a posição de campeão mundial nesse quesito ao longo das últimas duas décadas. Em raras ocasiões, durante um ou outro mês, acabamos sendo ultrapassados por países como Turquia ou Rússia. Não apenas oferecemos para os investidores do mercado especulativo internacional as melhores alternativas de rentabilidade, como também temos uma autoridade monetária – o Banco Central – que insiste em fazer cara de paisagem face aos exageros dos spreads praticados pelas instituições financeiras em suas operações na ponta com seus clientes.
No dia 31 de maio, o Comitê de Política Monetária (COPOM) deve encerrar sua 207a Reunião Ordinária e divulgar o nível da SELIC a viger ao longo dos próximos 45 dias. Temer conta com seu último recurso para a difícil tarefa de convencer as classes dominantes de que sua saída será ainda pior do que sua desastrosa permanência. Ele fundamenta seu argumento na ilusória capacidade de promover a recuperação da atividade econômica e de concluir “com êxito” a encomenda relativa à aprovação de suas reformas estratégicas.

SELIC caiu, mas a taxa real cresceu.
Se considerarmos apenas a superficialidade dos fenômenos, pode parecer realmente contraditório que o COPOM tenha de fato promovido a redução da SELIC do patamar de 14,25% ao ano para os atuais 11,25% ao longo de seus últimos 6 encontros. Ocorre que tal diminuição não correspondeu à diminuição dos monumentais diferenças entre as taxas de aplicador e de tomador de recursos junto aos bancos. Tampouco houve queda nos espantosos volumes de dinheiro do orçamento público alocados para o pagamento de juros da dívida - atualmente o governo registra o dispêndio de R$ 437 bilhões ao longo dos últimos 12 meses com tal benesse.

Mas o aspecto mais relevante refere-se ao fato de que a taxa de juros em termos reais aumentou ao longo desse período de queda da SELIC. Ao contrário do que imagina o senso comum, esse fato causa estranheza inicial. O “pequeno detalhe” suge pelo fato de que devemos descontar a inflação para avaliarmos os efeitos efetivos da taxa de juros. Isso significa que os ganhos de quem se beneficia pela taxa ou as perdas de quem é devedor no mercado financeiro aumentaram desde maio do ano passado. Esse aparente paradoxo pode ser explicado de forma bastante simples. Na verdade, tudo se deve graças à extrema competência e à grande dedicação com que a equipe econômica logrou mergulhar o Brasil na mais profunda crise recessiva de sua História.

O desemprego em nível recorde, a falência de empresas que se generaliza e a redução extrema do nível de atividades compromete de forma absurda a capacidade de renda de todos os agentes econômicos. Com isso, não havia razões para duvidar que os níveis da inflação iriam realmente baixar. O raciocínio liberal conservador pouco se importa com os efeitos sociais e mesmo econômicos da destruição provocada pela estagnação. O essencial, para os defensores da ortodoxia, é que os preços baixem. Ah, mas os trabalhadores estão desempregados e não têm mais renda nem mesmo para consumir o básico. Isso pouco importa, é aspecto secundário no debate. O relevante é que consegui provar que a inflação caiu.

Pois bem, mas nem assim, o argumento se sustenta. Consideremos que a inflação em maio do ano passado registrava um IPCA de 9,32% anuais. Com a SELIC em 14,25%, pode-se calcular uma taxa de juros real por volta de 4,5% ao ano. A recessão brutal provocou a queda do IPCA para 4,08% em abril deste ano. A redução da SELIC para 11,25% fez com que os ganhos reais, descontada a inflação, saltassem para 6,9% ao ano. Isso significa que os ganhos do sistema financeiro só fizeram aumentar considerando a rentabilidade de suas operações. Para que a taxa de juros real não tivesse aumentado em relação ao mês período do ano anterior, seria necessário que a SELIC estivesse arbitrada atualmente no patamar de 8,75%.

Enquanto isso, na sala de juros.

Mas não parece ser esse desejo nem as intenções dos representantes do financismo. Assim, ficamos com o pior dos dois mundos. O lado real da economia despencando com a crise e as esferas do mundo financeiro lucrando com o desastre e a miséria. E enquanto isso na sala de juros, os diretores do Banco Central passam 2 dias a discutir os riscos da saída de Temer, as ameaças da delação de Joesley Batista, as hipóteses de eleição direta ou indireta, as possibilidades de Lula, Meirelles ou Jobim ocuparem a presidência, entre outros fatores a influenciarem a conjuntura.
Mas eles não devem se preocupar demais. Afinal, tudo parece controlado. O Presidente do Senado, Eunício de Oliveira (PMCB/CE) assegura que a reforma trabalhista será aprovada sem problemas. Já o Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ) se entusiasma mais ainda e tenta vender aquilo que não consegue entregar - a Reforma da Previdência.
Mas o filho de Cesar Maia, que foi exilado no Chile durante a ditadura, extrapola o senso do ridículo na tentativa de se legitimar como eventual escolhido pelo Congresso Nacional pela via indireta. Em sua busca de convencer o financismo de sua fidelidade ao capital, não se importa com papas na língua e lança o impropério que deve fazer corar até o mais autêntico dos liberais:
“A agenda da Câmara, em sintonia com a do presidente Michel Temer, tem como foco o mercado, o setor privado”.
Enquanto isso na sala de juros, os diretores do Banco Central se reúnem sob a etiqueta de COPOM. Do lado de fora, o mercado espera pela fumaça branca a respeito daquilo que convenientemente já haviam convencido os integrantes do colegiado. Habemus SELIC!
Fim de peça. Baixou o pano.

* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.




Créditos da foto: EFE/Antonio Lacerda

Carta Maior



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Posted: 31 May 2017 11:50 AM PDT


Votação realizada nesta quarta-feira contou com a aprovação de senadores da base governista. "É uma grande vitória, que nos dará muito fôlego para ir ao plenário", afirmou Lindbergh Farias

por Redação RBA


MÍDIA NINJA - Aprovação da PEC dá impulso a movimento das ruas por eleições diretas


São Paulo – A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado aprovou por unanimidade a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 67, que prevê a realização de eleições diretas para presidente da República quando o cargo ficar vago decorrido até três anos do mandato. A PEC votada na manhã desta quarta-feira (31) foi apresentada pelo senador José Reguffe (sem partido-DF).

“É uma grande vitória, um dia histórico”, exclamou o senador Lindbergh Farias (PT-RJ). “Contra tudo e contra todos, essa PEC vai andar e vamos conseguir recuperar a nossa democracia”, afirmou.

A aprovação na CCJ contou com os votos de senadores da base governista, como Ana Amélia Lemos (PP-RS), Marta Suplicy (PMDB-SP), Ricardo Ferraço (PSDB-ES), Simone Tebet (PMDB-MS), entre outros senadores. Ao todo, a comissão é composta por 27 titulares e 27 suplentes.

O senador petista explicou que, para obter consenso, retirou modificações que havia feito anteriormente no texto. Assim, ficou mantido no texto original o princípio da anualidade, ou seja, que as regras eleitorais só podem ser alteradas no mínimo um ano antes da eleição. No relatório anterior, de Lindbergh Farias, as novas regras não teriam de cumprir a anualidade.

“Quem vota a favor na CCJ, tem que votar a favor no Plenário”, disse o senador petista, em vídeo publicado no Facebook. “Eles vão ter cada vez mais dificuldade de segurar, principalmente se tiver mobilização nas ruas. Agora é fazer o movimento de pressão e pautar a votação no plenário.”

Com informações da Agência Senado




Rede Brasil Atual



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Posted: 31 May 2017 11:41 AM PDT
Cortejo fúnebre do operário José Martinez na ladeira do Carmo


A Paula Beiguelman

“Em São Paulo só não ganha dinheiro quem não trabalha, só é pobre quem é vadio.” (Correio Paulistano, junho/1917)



Um operário morreu, e agora?

A situação era tensa. Um grupo de operários chegou à porta do cotonifício Crespi e conclamou os trabalhadores a aderirem ao movimento grevista, que tinha se iniciado havia dias. A polícia, decidida a não permitir piquetes, interveio violentamente. O saldo do conflito: um morto. A vítima chamava-se José Ineguez Martinez, era sapateiro e tinha apenas 21 anos. Depois deste dia São Paulo não seria mais a mesma.

Numa fria manhã de julho, dia 11, uma multidão de cerca de 10 mil pessoas caminhou lentamente pelas principais ruas da cidade paralisada, numa última homenagem ao operário assassinado. As bandeiras vermelhas e negras tremulavam entre choros e sentimentos de vingança. A São Paulo proletária estava nas ruas, nunca se tinha visto aquilo antes.

O cortejo fúnebre seguiu lento pelo aterro do Carmo – hoje continuação da Avenida Rangel Pestana –, tentando se dirigir ao Palácio do Governo, mas foi impedido pela polícia. Seguiu então pela Rua Floriano Peixoto até a praça XV de Novembro. De repente, a multidão parou e só se ouviu um grito: “Libertem Nalepinsk! Libertem Nalepinsk!”.

Nalepinsk, outro sapateiro, preso por ter denunciado o assassinato de Martinez. Uma comissão se deslocou até a Secretaria da Justiça estadual para exigir a sua libertação. O delegado-geral, acuado, prometeu soltá-lo logo após o enterro. Uma vitória. A primeira. A multidão avançou e chegou à Praça da Sé. Agora era a vez dos discursos. O cortejo então seguiu para o cemitério do Araçá, sua última parada.

Ali, diante do túmulo de Martinez, os oradores se revezavam. Eram homens e mulheres do povo. Na voz traziam a indignação e a revolta. “Soldados, não deveis perseguir vossos irmãos de miséria. A fome reina em nossos lares, e os nossos filhos nos pedem pão. Os perniciosos patrões contam, para sufocar as nossas reclamações, com as armas de que vos armaram (...). Soldados! Recusai-vos ao papel de carrascos.”. Parte da assistência chorava. Nem mesmo os soldados, escalados para vigiar o movimento, contiveram-se. Notava-se que alguns deles enxugavam os olhos com as mangas de suas fardas. Um operário morreu, e agora?

Produzir, produzir, deve ser o lema dos paulistas

Ser operário naqueles dias não era nada fácil, nunca foi. Trabalhava-se em média 14 horas diárias, sem férias, sem descanso semanal remunerado e sem nenhum tipo de assistência pública. Para eles apenas o trabalho. “Produzir, produzir, deve ser o lema dos paulistas”, afirmava a imprensa burguesa. Mas, produzir para quem? Começavam a se perguntar os operários.

Por todo este trabalho, recebiam parcos salários que não eram o suficiente para o sustento de suas famílias – o que levava mulheres e crianças a se empregarem nas fábricas, submetendo-se às mesmas condições de trabalho dos homens e recebendo menores salários. Os locais de trabalho eram insalubres, as jornadas longas, sem horário para as refeições, que eram feitas ao lado das máquinas. Afinal, São Paulo não podia parar. “Oh! Pobre dos proletários!”, dizia uma canção anarquista.

Em 1912, 67% dos trabalhadores têxteis eram mulheres. Em 1918, mais de 50% do operariado fabril eram constituídos de menores de idade, como podemos constatar neste trecho de artigo publicado em um jornal da época: “Assistimos a entrada de cerca de 60 menores, às 7 horas da noite (...). Essas crianças saem às 6 horas da manhã. Trabalham, pois, 11 horas a fio em serviço noturno, apenas com um descanso de 20 minutos (...). O pior é que elas se queixam de serem espancadas pelo mestre de fiação (...). Alguns apresentam mesmo ferimentos produzidos por uma manivela. Trata-se de crianças de 12, 13 e 14 anos.”.

O custo de vida aumentava dia a dia. Em 1916, os gêneros alimentícios subiram mais de 60%, sem que houvesse qualquer reajuste salarial. Começavam a faltar alimentos e toda a produção nacional era vendida à Europa, que estava em guerra. A fome batia às portas das famílias dos trabalhadores. É neste contexto dramático que teve início a onda da greve que abalaria o país.

Em julho de 1917, o que parecia mais uma simples greve – como outras tantas que já haviam ocorrido desde o começo do século – acabou por desembocar no maior movimento de contestação operária da historia do Brasil até aquele momento.

E os operários disseram não!

Uma comissão de operários do Cotonifício Crespi se dirigiu à direção da empresa exigindo um aumento salarial de 20%, baseado na elevação do custo de vida. O dono da empresa não aceitou o pedido. Os operários o ameaçaram com uma greve. A resposta patronal foi fechar a fábrica. A paralisação então se ampliou estendendo-se a outras categorias.

No dia 8 de julho ocorreu o primeiro incidente na porta da fábrica. Um choque entre operários e policiais deixou inúmeros feridos, e os ânimos se acirraram. Na manhã do dia seguinte, novo conflito, agora na porta da Companhia Antártica. Trabalhadores enfurecidos tomaram de assalto um caminhão da empresa de bebida e destruíram as garrafas por ele transportadas. A massa seguiu em passeata pelo Brás até a fábrica de tecelagem Mariângela. Ali ocorreu um novo e mais grave confronto com a polícia. O jovem Martinez caiu mortalmente ferido. Um operário morreu, e agora?

Saindo do enterro do sapateiro, a multidão dirigiu-se à Praça da Sé para um grande comício de protesto. Ali exigiu-se a reabertura das ligas operárias, proibidas de funcionar no dia anterior, a libertação dos grevistas presos e a punição dos assassinos de Martinez.

O Comitê de Defesa Proletária, formado no dia anterior, assumiu a direção do movimento e apresentou a sua pauta de reivindicações: aumento de 35% nos salários; proibição do trabalho de menores de 14 anos; abolição do trabalho noturno para menores de 14 anos e mulheres; jornada de trabalho de 8 horas; respeito ao direito de associação; congelamento de preços dos alimentos e redução dos aluguéis.

Nos bairros operários cresceu o descontentamento. Milhares de populares saquearam lojas e armazéns, especialmente os que estocavam alimentos. O número de grevistas crescia dia a dia. De 10 mil subiu para 20 mil – mais de quarenta mil trabalhadores entrariam em greve durante o movimento. Eram sapateiros, eletricitários, trabalhadores das companhias de gás, mecânicos e a quase totalidade dos operários de pequenas oficinas, que compunham o grosso do proletariado do período.

A repressão recrudesceu e a resposta popular foi imediata: ergueram-se barricadas. Os grevistas tomaram os bondes da cidade. Alguns foram destruídos pela fúria popular. “Uma multidão de garotos”, afirmou o jornal O Estado de S. Paulo, “se entregou a todos os excessos, escolhendo para alvo de suas loucuras os carros elétricos (...). E o que é mais deplorável, é que um bando de mocinhas, infelizes operárias de fábricas, imitou os gestos da garotada, tomando conta de três elétricos no Largo da Sé.”. Os grevistas tentaram ocupar a 5ª delegacia, localizada no Brás, mas não conseguiram. O posto policial passou a ser defendido por tropas de Infantaria e a Cavalaria.

No largo da Estação Norte, os policiais tentaram invadir um Café, onde se reuniam alguns líderes grevistas. Foram recebidos à bala. No tiroteio que se seguiu, vários caíram feridos. Novamente, apareceram as barricadas com sacos de mantimentos e veículos tombados. As ruas do Brás e da Mooca transformaram-se, instantaneamente, num labirinto, que ninguém ousava percorrer. No dia 13 de julho, os jornais publicaram uma nota da Delegacia Geral: “Pedimos ao povo pacífico que se recolha às suas casas para não ser recolhido no meio dos desordeiros (...), pois a polícia (...) vai manter a ordem, para isso empregando os meios mais enérgicos.”.

Frente aos constantes casos de insubordinação da Força Pública e da Guarda Civil, que se recusavam a reprimir os grevistas, foram solicitadas tropas do interior. Navios de guerra aportaram no porto de Santos. Marinheiros foram destacados para reprimir alguns populares que saqueavam os armazéns da cidade. “A polícia não permitirá reuniões nas praças e ruas, dissolverá pela força os que pretenderem ir contra esta resolução”, afirmava um novo comunicado do governo. Tropas de Infantaria e a Cavalaria percorriam as ruas dispersando aglomerações.

Na sexta-feira, faltavam pão, gás e transporte. Um grupo de operários tentou parar os poucos bondes que ainda teimavam em circular, escoltados por policiais fortemente armados. Novo tiroteio, nova vítima fatal: uma menina de apenas 12 anos. A fuzilaria prosseguiria. Outro morto, o pedreiro Nicola Salermo. O que era uma simples greve por aumento salarial e melhoria de condições de trabalho estava se transformando numa insurreição operária.

Diante do impasse nas negociações entre operários e patrões, formou-se uma comissão de jornalistas de diversas publicações da capital paulista. O seu objetivo era mediar o conflito. Desse esforço nasceu uma proposta de aumento geral de salários de 20%, respeito ao direito de associação e não dispensa dos grevistas. O governo, por sua vez, comprometeu-se a libertar os presos e reconhecer o direito de reunião. Afirmou também que “o poder público intercederá (...) para que sejam estudadas e votadas medidas que protejam os trabalhadores menores de 18 anos e as mulheres no trabalho noturno.”. Propostas que foram aceitas prontamente pelo Comitê de Defesa Proletária.

O Comitê decidiu, então, comunicar a proposta em três grandes comícios: no Largo da Concórdia, na Lapa e no Ipiranga. Em todos eles foi aceita a contraproposta patronal e decidida a volta ao trabalho, sob a condição de se retornar à greve caso os patrões descumprissem o acordo. “Com a volta de alguns milhares de operários ao trabalho, a cidade retomou ontem o aspecto que tinha antes de se iniciar o movimento grevista”, noticiou aliviado O Estado de S. Paulo. Mas, a calma era apenas aparente. Depois destes dias turbulentos, a cidade de São Paulo não seria mais a mesma. A paisagem urbana havia mudado com a entrada em cena de um novo personagem: o proletariado.



As lições da greve (ou um novo ator à procura de outro roteiro)

Embora os acontecimentos de julho de 1917 tenham representado uma das mais belas páginas da luta do proletariado brasileiro, apresentou também suas limitações. Pouco a pouco a maioria das conquistas foi sendo retirada pelos patrões. As perseguições e prisões dos líderes não só continuaram como aumentaram. As promessas da burguesia, pouco a pouco, transformaram-se em pó. Por que isso ocorreu?

Primeiro, apesar de combativos, os operários constituíam-se em minoria da população e se encontravam dispersos em pequenas oficinas, existindo, assim, uma fragilidade nas suas organizações de classe. Segundo, esta fragilidade deu lugar à proliferação de ideias anarquistas, típicas dos pequenos artesãos. O anarquismo era a força hegemônica no setor mais combativo do movimento sindical brasileiro. Eles recusavam-se a organizar os operários de forma mais centralizada, negavam a necessidade de o proletariado constituir um partido classista e revolucionário – única maneira de travar uma luta política consequente contra a burguesia e o seu Estado.

Esta concepção da luta operária os prendia, fundamentalmente, aos marcos da luta estritamente econômico-corporativa. Questões-chave – como ampliação da democracia (eleições livres, voto secreto, direito de voto aos analfabetos, a mulheres e estrangeiros residentes no país, legalização dos partidos de esquerda), a luta pela reforma agrária e contra o imperialismo – passavam ao largo das reivindicações anarquistas. Num país dependente, composto por uma população majoritariamente camponesa, dirigido por uma oligarquia agrária, que excluía grande parte do povo da efetiva participação política, estas seriam bandeiras que poderiam trazer aliados importantes aos operários em luta.

Somente assim poderiam se constituir em força político-social autônoma, e disputar efetivamente a hegemonia da sociedade brasileira e garantir as condições indispensáveis à consolidação e à ampliação das conquistas do conjunto dos trabalhadores.

Se, por um lado, a greve de 1917 representou o ápice do anarquismo no movimento operário brasileiro, por outro, mostrou todas as suas limitações, que em pouco tempo acabariam por reduzir e mesmo eliminar a sua influência. A Revolução Russa de outubro de 1917 mostrou outro caminho: O da organização do proletariado enquanto partido independente, como instrumento de luta pela conquista do poder político e construção de um Estado socialista de caráter proletário. Coisas então incompreensíveis para os anarquistas. Uma das consequências da greve geral de 1917 – e de outros embates que se seguiram – foi a fundação do Partido Comunista do Brasil, ocorrido em março de 1922. Este foi o marco da crise geral do anarquismo e representou o início de uma nova fase na história da luta dos trabalhadores brasileiros rumo à sua libertação.

* Artigo publicado originalmente na revista Debate Sindical, n. 12, de set/out de 1992.

* Augusto Buonicore é historiador, presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e desencontros, Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução. Todos publicados pela Editora Anita Garibaldi.



Bibliografia

BANDEIRA, M.; MELO, C.; ANDRADE, A. T. O ano vermelho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967 (há uma edição atual da editora Expressão Popular).

BEIGUELMAN, Paula. Os companheiros de São Paulo: Ontem e hoje. São Paulo: Cortez, 2002.

KHOURY, Yara Aun. As greves em São Paulo. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1981.



Filmografia

Os libertários – dirigido por Lauro Escorel

Fundação Maurício Grabois



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Posted: 31 May 2017 11:30 AM PDT

Enfiemo-nos na pele de uma pessoa que apenas dispusesse dos media para se informar sobre a Venezuela e que dia após dia se falasse de 'manifestantes' e " ;repressão" ;. Como não entender que essa pessoa acreditasse que a população está na rua e que o governo a reprime?

Porém, não há nenhuma revolta popular na Venezuela. Apesar da guerra económica a grande maioria da população vai para as suas ocupações, trabalha, estuda, sobrevive. É por isso que a direita organiza as suas marchas com início nos bairros ricos. É por isso que recorre à violência, ao terrorismo e se localiza nos municípios de direita. Os bairros venezuelanos são em 90%, bairros populares. Compreende-se a enorme lacuna: os media transformam as ilhas sociológicas das camadas ricas (alguns % do território) em "Venezuela". E 2% da população em "população". [1]

A ex-presidente argentina Cristina Fernandez, depois de Evo Morales, denunciou: "a violência é utilizada na Venezuela como metodologia para alcançar o poder e derrubar um governo" [2] . Do Equador, o ex-presidente Rafael Correa recordou que "a Venezuela é uma democracia. É através do diálogo, com eleições, que devem ser resolvidas as diferenças. Muitos casos de violência vêm claramente dos partidos da oposição [3] . Esta também é a posição do Caricom, que inclui os países do Caribe [4] . O papa Francisco teve que incitar os bispos da Venezuela que, como no Chile em 1973, arrastavam os pés face ao diálogo nacional proposto pelo Presidente Maduro [5] . Este lançou o processo participativo para a Assembleia Constituinte, e confirmou a eleição presidencial legalmente prevista para 2018.

Desde o desaparecimento de Hugo Chávez, em 2013, a Venezuela é vítima de uma guerra económica que visa privar a população de bens essenciais, principalmente alimentos e medicamentos. A direita local reúne certos elementos da estratégia implementada no Chile pelo par Nixon-Pinochet, claramente para causar a exasperação dos sectores populares e legitimar a própria violência. De acordo com o relatório do orçamento 2017 colocado no site do Departamento de Estado [6] , Foram entregues 5,5 milhões de dólares à "sociedade civil" da Venezuela. O jornalista venezuelano Eleazar Diaz Rangel, editor do diário Últimas Notícias (centro-direita) revelou trechos do relatório que o Almirante Kurt Tidd, chefe do comando Sul, enviou para o Senado dos EUA: "com a política do MUD (coligação da oposição venezuelana)estabelecemos uma agenda comum, que inclui um cenário duro, combinando acções de rua e dosificando o emprego da violência a partir da perspectiva de cerco e asfixia." [7]

A fase insurreccional implica atacar os serviços públicos, escolas, maternidades (El Valle, El Carrizal), instituições de saúde, bloquear ruas e artérias principais para bloquear a distribuição de alimentos e paralisar a economia. Através dos media privados, a direita apela abertamente aos militares para realizarem um golpe de Estado contra o Presidente eleito [8]. Mais recentemente os bandos paramilitares colombianos passaram do papel de formadores para um papel mais activo: o corpo sem vida de Pedro Josué Carrillo, militante chavista, acaba de ser encontrado no Estado de Lara, com marcas de tortura típicas do país de Uribe [9] .

Apesar dos morteiros, armas, granadas ou coquetéis Molotov usados por manifestantes " ;pacíficos" ; (sem esquecer as efígies de chavistas enforcadas em pontes, assinatura dos paramilitares colombianos), a lei proíbe a polícia ou a guarda nacional de usar as armas de fogo. Manifestantes da direita aproveitam a oportunidade para forçar a sua vantagem e evidenciam o seu ódio sobre guardas ou polícia, provocá-los com jactos de urina, excrementos e disparos com balas reais, observando a reacção das câmaras da CNN.

Elementos das forças de segurança que desobedeceram e foram culpados de ferimentos ou mortes de manifestantes foram presos e processados [10] . O facto é que a grande maioria das vítimas são trabalhadores que iam para o trabalho ou voltavam, activistas chavistas ou elementos das forças da ordem [11] . É por isso que os media falam de mortes em geral – para que se acredite que se trata de "mortos pelo regime." A lista dos "mortos" serve para aumentar o apoio global à desestabilização: há nestes assassinatos, é terrível constatá-lo, o efeito de uma encomenda para os media.


Qualquer manifestante que mata, destrói, agride, tortura, sabota sabe que será santificado pelos media internacionais. Estes tornaram-se um incentivo para perseguir o terrorismo. Todos os mortos, todas as sabotagens económicas serão atribuídas ao "regime", incluindo dentro da Venezuela, onde os media, como a economia, é na sua maioria privada. Que a democracia participativa que é a da Venezuela tente defender-se como compete a todo o Estado de direito, vai ser imediatamente denunciada como "repressiva". Quem ouse punir um terrorista, e isto o tornará de imediato um "preso político". Para o jornalista e sociólogo argentino Marco Teruggi " ; uma intervenção na Venezuela, o governo dos Estados Unidos tem condições mais favoráveis do que tinha para bombardear a Líbia, tendo em conta o facto de que a União Africana tinha condenado essa intervenção quase por unanimidade. (..) Tudo depende da capacidade da direita manter mais tempo o braço de ferro na rua como espaço político. Donde a importância de manter a caixa de ressonância mediática". [12]

Exemplo sórdido desta ligação: em 5 de Maio de 2017, usando uma foto digna de um fotograma de Hollywood (mas que não é a da vítima) Le Monde denuncia "a morte de um líder estudantil morto durante os protestos contra o projecto do Presidente Maduro convocar uma Assembleia Constituinte". Ora a vítima, Juan (e não José como escreveu Le Monde ) Bautista Lopez Manjarres é um jovem líder estudantil revolucionário, assassinado por um comando da direita quando participava numa reunião em apoio do processo da Assembleia Constituinte.

Le Monde menciona também a reacção do maestro Gustavo Dudamel, em digressão no estrangeiro, pedindo para que "cesse a repressão" após a morte do jovem violista Armando Canizales. No entanto, este músico não foi vítima da repressão, mas também ele de um projéctil disparado das fileiras da direita.

O jornal espanhol La Vanguardia, virulentamente oposicionista da Revolução Bolivariana, admite excepcionalmente pelo texto do seu enviado especial Andy Robinson: "Tal como em outros momentos da crise, a narrativa de uma juventude heróica, morta pela ditadura Bolivariana não cola no caso de Armando Canizales. (..) É quase certo que o projéctil não foi disparado pela polícia, mas pelos próprios manifestantes. É sabido que alguns deles fizeram armas artesanais para os choques diários a polícia."[13] .

A reacção rápida do Sr. Dudamel é representativa das numerosas personalidades artísticas submetidos a forte pressão mediática nos seus países, obrigados a fazer declarações para satisfazer a opinião pública, 99% convencida pelos media, para denunciarem a "repressão na Venezuela" ;.

A 16 de Maio, o Le Monde denunciou " ;a morte de um jovem de 17 anos, baleado num comício contra o Presidente Maduro" ;. Não é verdade. A pesquisa mostra que Yeison Natanael Mora Castillo foi morto por um projéctil idêntico ao usado para assassinar o violista Canizales. Ele não participava numa reunião anti-Maduro. Seus pais são membros de uma cooperativa em luta para recuperar um latifúndio de sete mil hectares, suportando desde há muito ataques do grande proprietário. Eles apresentaram uma queixa contra os organizadores da marcha da oposição, e numa entrevista ao jornal local Ciudad Barinas denunciaram a manipulação que falsamente atribuía ao governo Maduro o assassinato de seu filho.[14]

Imputar sistematicamente ao governo bolivariano os assassinatos cometidos pela direita, é todo o "jornalismo" de Paulo Paranaguá no Le Monde. Em 21 de Abril, atribui aos colectivos chavistas a morte de um estudante de 17 anos, Carlos Moreno, morto por uma bala na cabeça, bem como de Paola Ramírez Gómez, de 23. Dupla mentira. De acordo com a família de Carlos Moreno, o adolescente não participava em qualquer manifestação e dirigia-se para um torneio de desportivo. O assassino foi preso: é um membro da polícia de Oscar Oscariz, presidente da Câmara Municipal de Sucre. O jornal da oposição Tal Cual assim relata. [15] . Quanto à segunda vítima referida por Paranaguá, Paola Rodríguez, o seu assassino foi preso pelas autoridades: é Ivan Aleisis Pernia, um militante da direita.

O "diário dos mercados" ; não é o único a mentir de forma assim tão sórdida nesta 'luta pela liberdade'. O La Libre Belgique, New York Times, France-Culture, El Pais, Le Figaro, ou mesmo Mediapart são robôs da vulgata global. Esta invenção da "repressão" é tanto mais fácil quanto a imagem típica do manifestante maltratado por um polícia tem vantagem quando se é privado do contexto relativo à imagem. Longe da Venezuela, apenas alguns poderão dispor dos cenários onde jovens são treinados, armados, pagos para provocar as forças de segurança e produzir a " ;imagem" ; necessária. A concentração global dos meios de comunicação e a crescente convergência de redes sociais com os grandes media fazem o resto, fixando o imaginário tanto à esquerda como à direita. Vêem-se assim os politicamente " ;insubmissos" ; submeterem-se aos media e acrescentarem sem dar por isso a sua pedrinha para a campanha global:

Os que retransmitem na internet este poster provavelmente não imaginam a falsidade que se esconde por trás do " ;Anonymous Venezuela" ;. A capacidade da extrema-direita de se servir de alguns símbolos do movimento alternativo global e capitalizar apoios é revelada aqui: Quando cai a máscara de Guy Fawkes da oposição venezuelana". [15]

Em suma, como se da história da propaganda e das guerras nada se tivesse aprendido, caímos sem cessar na armadilha. Malcolm X tinha prevenido: "se não tivermos cuidado, os media vão fazer que as vítimas sejam consideradas os torturadores e os carrascos as vítimas" ;. Transformando a violência da extrema-direita em "revolta popular", travestindo de " ;combatentes da liberdade" ; assassinos nostálgicos do apartheid dos anos 90, é em primeiro lugar contra os cidadãos da Europa, que a uniformização mediática se volta: a maioria dos telespectadores, leitores e ouvintes apoiam sem saber uma agressão para derrubar um governo democraticamente eleito. Sem a democratização em profundidade da propriedade dos media, a profecia de Orwell acaba por ser tímida. A Venezuela é suficientemente forte para evitar um golpe como aquele que acabou com a unidade popular de Salvador Allende, mas a crescente desconexão da população de ocidente com o mundo voltar-se-á contra ela própria.


Micromanual de autodefesa perante a vaga mediática

"A Venezuela é um "regime ditatorial" . Falso. Desde 1999, a Venezuela bolivariana organizou um número recorde de votos (25), reconhecidos como transparentes por observadores internacionais. De acordo com o antigo presidente do Brasil Lula da Silva, é um "excesso de democracia". Por Jimmy Carter, que observou 98 eleições em todo o mundo, a Venezuela tem o melhor sistema eleitoral no mundo. Em Maio de 2011, o relatório da canadiana Fondation pour l'Avancée de la Démocratie (FDA) colocou o sistema eleitoral da Venezuela no primeiro lugar do mundo pelo respeito das normas de base da democracia. A ONG chilena Latinobarómetro estabeleceu no seu relatório de 2013 que a Venezuela bate registos da confiança dos cidadãos na democracia na América Latina (87%), seguidos por Equador (62%) e México (21%). O Presidente Nicolás Maduro acaba de lançar um processo participativo para a Assembleia Constituinte que permite que todos os sectores sociais façam as suas propostas, o que vai resultar num novo escrutínio, tendo também reafirmado que as eleições presidenciais terão lugar em 2018, conforme estipulado na lei.

"Não há liberdade de expressão para a Venezuela" Falso. Das mais de 1000 estações de rádio e televisão, a que o Estado concedeu permissão para emitir, 67% são privadas (a grande maioria opostas à Revolução Bolivariana), 28% estão nas mãos das comunidades, mas transmitem apenas a um nível estritamente local e 5% são Propriedade do Estado. Em 108 jornais que existem, 97 são privados, 11 públicos; 67% da população venezuelana tem acesso à internet. Esta plataforma é dominada pelos media privados, reforçada pela rede das transnacionais desempenha um papel crucial na desinformação e no serviço de desestabilização. Para um dossier pormenorizado e quantificado desta paisagem mediática ver "François Cluzel ou l'interdiction d'informer sur France-Culture". [17]

"Existem prisioneiros políticos na Venezuela". Falso. A menos que se considere "presos políticos" assassinos de extrema-direita do partido Aurora Dourada presos na Grécia. No Estado de direito, quer se chame França ou Venezuela, ser de direita não significa estar acima da lei, nem poder cometer impunemente crimes como assassinatos, ataques à bomba ou ser corrupto. Não é pelas suas políticas, mas por este tipo de crimes que as pessoas têm sido julgadas e aprisionadas. [18] Na prática, observa-se também um certo laxismo da justiça. De acordo com pesquisas da empresa privada Hinterlaces , 61% dos venezuelanos consideram que os promotores da violência e actos de terrorismo devem responder pelos seus actos perante um tribunal. [19]

Lembremos que os actuais líderes da direita nunca respeitaram as instituições democráticas: estes são os mesmos que, em Abril de 2002, lideraram um sangrento golpe de Estado contra o Presidente Chavez, com a ajuda da confederação patronal local e soldados treinados na School of Americas. Estes são os mesmos que organizaram a violência de 2013 a 2016. Observe-se a identidade de um dos seus mentores

Alvaro Uribe, um dos maiores criminosos contra a humanidade da América Latina, antigo presidente de um país governado pelo paramilitarismo e os cartéis de drogas, que tem as maiores valas comuns do mundo, o que conta 9 500 prisioneiros políticos, 60 630 pessoas desaparecidas nos últimos 45 anos e que desde a assinatura dos acordos de paz retomou uma política selectiva de assassinato de líderes sociais e defensores dos direitos humanos. Para informações completas e fotos destas ligações dos heróis do Le Monde com o paramilitarismo colombiano, leia-se Venezuela: la presse française lâchée par sa source?

Venezuela, 20 de maio de 2017.


Notas
[1] Ver venezuelainfos.wordpress.com/...
[2] Entrevista integral de Cristina Kirschner com Jorge Gestoso www.youtube.com/watch?v=-WM6nD6hPu0
[3] ambito.com/883274-tras-reunirse-con-michetti-correa-defendio-a-venezuela Ver também www.telesurtv.net/...
[4] correodelorinoco.gob.ve/...
[5] www.ultimasnoticias.com.ve/...
[6] www.state.gov/documents/organization/252179.pdf , (pág. 96)
[7] www.southcom.mil/...
[8] Como reconhece Julio Borges, líder do partido de extrema-direita Primero Justicia e atual presidente da Asembleia Nacional, numa entrevista não complacente que lhe fez o jornalista da BBC Stephen Sackur, em 19 maio de 2017: bbc.co.uk/programmes/p052nsxd
[9] /tatuytv.org/...
[10] Detalhes de vários casos no site Parquet bit.ly/2ro4iXE ; bit.ly/2qE9MNb ; bit.ly/2q5RsbU ; bit.ly/2rnNT5s
[11] albaciudad.org/2017/05/lista-fallecidos-protestas-venezuela-abril-2017/
[12] hastaelnocau.wordpress.com/2017/05/09/radiografia-de-la-violencia
[13] www.lavanguardia.com/...
[14] www.desdelaplaza.com/poder/yeison-lo-mataron-manifestantes-la-mud-destacado/
[15] www.talcualdigital.com/Nota/...
[16] venezuelainfos.wordpress.com/...
[17] venezuelainfos.wordpress.com/...
[18] venezuelainfos.wordpress.com/...
[19] hinterlaces.com/...

O original encontra-se em www.legrandsoir.info/comment-le-monde-invente-la-repression-au-venezuela.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

resistir.info



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Posted: 31 May 2017 11:18 AM PDT

O diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, afirma que a declaração do presidente da Câmara dos Deputados mostra que os interesses por trás das reformas não são da população, mas dos patrões


por Redação RBA
FOTOARENA/FOLHAPRESS - Maia vê a pauta do Congresso em sintonia com a de Temer


São Paulo – Durante o Fórum de Investimentos Brasil 2017, na segunda-feira (30), em São Paulo, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) afirmou aos empresários que a propostas da Câmara está em sintonia com a agenda do mercado financeiro. Para o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, a declaração mostra que os interesses por trás das reformas não são do povo, mas dos patrões.


"A agenda que vem sendo proposta, que inclui a redução do gasto dos estados, como a reforma da Previdência, além da regressiva reforma trabalhista, que tem cerca de 300 mudanças que reduzem os direitos dos trabalhadores, tem efeito perversos aos trabalhadores, à dinâmica econômica e a massa salarial", afirma.

Na ocasião, Maia declarou que a agenda da Câmara está "em sintonia" com a do presidente Michel Temer, e tem como foco o mercado, o setor privado. Clemente analisa que "agenda" significa trabalhar a favor dos empresários para "criar um ambiente de proteção legal para reduzir o custo do trabalho no Brasil".

Rede Brasil Atual



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Posted: 31 May 2017 10:52 AM PDT


David Harvey provoca: cada fase do capitalismo gera uma forma de resistência que a espelha. Por isso, distintas gerações da esquerda não deveriam se estranhar

Entrevista a por Bjarke Skærlund Risager, na Jacobin | Tradução:Inês Castilho

Autor de numerosas outras obras, o geógrafo britânico David Harvey publicou em 2005 o livro Uma Breve História do Neoliberalismo [1], que marcou época pela análise desse novo modo de dominação capitalista. A entrevista que reproduzimos aqui foi realizada pelaJacobin.

Um excerto de sua Breve História do Neoliberalismo, portanto do Estado neoliberal, pode ser lido em Contretemps. Podemos igualmente consultar este artigo [em francês] de Razmi Keucheyan, que lembra a trajetória e originalidade intelectual do geógrafo marxista estadunidense.

Neoliberalismo é um termo maciçamente utilizado em nossos dias. Mas aquilo que as pessoas projetam nele é bastante turvo. Em seu uso mais sistemático, ele se refere a uma teoria, uma paleta de ideias, uma estratégia política ou um período histórico. Você poderia começar dando sua interpretação de neoliberalismo?

Sempre disse que o neoliberalismo era um projeto político lançado pela classe capitalista quando ela se sentiu muito ameaçada, política e economicamente, do fim dos anos 1960 até os anos 1970. Eles queriam desesperadamente apresentar um projeto político que reduzisse a força da classe operária.

A classe capitalista ficou então verdadeiramente com medo e se perguntou o que fazer. Ela não era onisciente, mas sabia que havia um certo número de frentes nas quais devia lutar: o front ideológico, o front político e acima de tudo a necessidade de reduzir por todos os meios possíveis o poder da classe trabalhadora. É a partir de lá que emergiu o projeto político que chamarei de neoliberalismo.

Poderia nos dizer um pouco mais a propósito dos fronts político e ideológico, assim como os ataques contra o mundo do trabalho?

No front ideológico, isso consistia em seguir o conselho de um cara chamado Lewis Powell, que havia escrito um memorando dizendo que as coisas haviam ido longe demais e que o capital precisava de um projeto coletivo. Essa nota ajudou a mobilizar a Câmara de Comércio e a Távola Redonda dos negócios. As idéias tinham então sua importância. Essa gente pensava que era impossível organizar as universidades porque elas eram muito progressistas; e o movimento estudantil, forte demais. De repente, eles montaram todos esses grupos de reflexão, think tanks como o Instituto Manhattan, as fundações Ohlin ou Heritage. Esses grupos levaram adiante as idéias de Friedrich Hayek, de Milton Friedman e da economia da oferta.

O plano era que esses think tanks fizessem pesquisas sérias […] que seriam publicadas de maneira independente, influenciariam a imprensa e fariam pouco a pouco o cerco das universidades. Esse processo tomou um tempo. Penso que eles estão agora num ponto em que não têm mais necessidade de coisas como a fundação Heritage. As universidades foram amplamente penetradas pelos projetos neoliberais que as cercam.

No que diz respeito ao trabalho, o desafio consistia em tornar competitivo o custo do trabalho local em relação ao custo do trabalho globalizado. Uma solução teria sido demandar mão de obra imigrante. Nos anos 1960, por exemplo, os alemães apelaram aos turcos, os franceses aos magrebinos e os ingleses aos trabalhadores originários de suas antigas colônias. Mas isso havia criado muito descontentamento e agitação social.

Desta vez, os capitalistas escolheram outra via: exportar o capital de onde havia uma força de trabalho mais cara. Mas para que a globalização funcionasse, era preciso reduzir as tarifas e reforçar o capital financeiro, pois esta é a forma de capital mais móvel. O capital financeiro e o fato de tornar as moedas flutuantes tornaram-se essenciais para conter a classe operária. Ao mesmo tempo, os projetos de privatização e de desregulação criaram desemprego. Portanto, desemprego no interior do país e deslocalizações para fora, assim como um terceiro componente, as mudanças tecnológicas, a desindustrialização por meio da automação e da robotização. Esta foi a estratégia para triturar a classe operária.

Depois da publicação, em 2005, da Breve história do neoliberalismo, muito foi escrito sobre esse conceito. Parece haver principalmente dois campos: os pesquisadores que estão mais interessados na história intelectual do neoliberalismo e as pessoas que são sobretudo preocupadas com o “neoliberalismo realmente existente”. Onde você se situa?

Existe uma tendência nas ciências sociais, à qual eu tento resistir, que consiste em procurar uma fórmula mágica para explicar um fenômeno. Há assim uma série de pessoas dizendo que o neoliberalismo é uma ideologia e que escrevem uma história idealizada sobre ela. Um exemplo é o conceito de Foucault de “governabilidade” [designando uma presumível racionalidade própria à função de governar – nota do tradutor] que vê tendências neoliberais já presentes no século XVIII. Mas se vocês tomam o neoliberalismo unicamente como uma ideia ou um pacote de práticas limitadas de “governabilidade”, encontrarão numerosos precursores.

O que falta aqui é a maneira como a classe capitalista desenvolveu seus esforços durante os anos 1970 e o início dos anos 1980. Penso que é justo dizer que nessa época, ao menos no mundo anglo-saxão, ela se unificou de modo suficiente. Os capitalistas se colocaram de acordo sobre muitas coisas, como a necessidade de forças políticas que realmente os representem.

Esse período caracteriza-se por uma grande ofensiva em várias frentes, ideológicas e políticas, e a única maneira de explicá-la é reconhecer o alto nível de solidariedade da classe capitalista. O capital reorganizou seu poder numa tentativa desesperada de reencontrar sua prosperidade econômica e sua influência, que havia sido seriamente enfraquecido do fim dos anos 1960 até os anos 1970.

Houve várias crises desde 2007. Como o conceito e a história do neoliberalismo podem nos ajudar a compreendê-las?

Houve muito poucas crises econômicas entre 1945 e 1973. Nesse período, atravessamos problemas sérios mas não grandes crises. A virada para as políticas neoliberais operou-se no decorrer dos anos 1970 no quadro de uma crise severa, e todo o sistema sofreu depois uma série de outras crise. Bem entendido, estas produzem, a cada vez, todas as condições para crises futuras.

Entre 1982 e 1985, houve também a crise da dívida no México, no Brasil, no Equador e, no fundo, de todos os países em desenvolvimento, inclusive a Polônia. Em 1987-1988, vimos nos Estados Unidos uma grande crise de empresas de poupança e empréstimo; depois uma enorme crise em 1990 na Suécia, onde todos os bancos tiveram de ser nacionalizados; e por certo a Indonésia e o Sudeste asiático em 1997-1998, antes que a crise se espalhasse para a Rússia e depois para o Brasil e a Argentina em 2001-2002. Houve enfim problemas nos Estados Unidos em 2001, que foram tirando dinheiro na Bolsa de Valores para injetar no mercado imobiliário. Em 2007-2008, o mercado imobiliário implodiu, e isso foi uma grande crise. Você pode olhar um mapa do mundo e visualizar as crises percorrendo o planeta.

O conceito de neoliberalismo é útil para compreender esses fenômenos. Uma das grandes mudanças do neoliberalismo, em 1982, foi livrar o Banco Mundial e o FMI todos seus keynesianos. Eles foram substituídos por teóricos neoclássicos da oferta e a primeira coisa que estes decidiram é que doravante o FMI seguiria, em face de todas as crises, uma política de ajuste estrutural.

Em 1982, o México viveu uma crise da dívida. O FMI disse “nós vamos salvá-los”. De fato, eles salvaram os bancos de investimento novaiorquinos e impuseram políticas de austeridade. Como resultado das políticas de ajuste estrutural do FMI, a população mexicana sofreu uma perda de poder de compra da ordem de 25% nos quatro anos que se seguiram a 1982. Depois, o México sofreu quatro outros ajustes estruturais. Numerosos países conheceram mais de um. Essa prática tornou-se clássica.

O que fazem hoje na Grécia? É quase uma cópia do que fizeram no México em 1982. E é também o que se passou nos Estados Unidos em 2007-2008. Eles resgataram os bancos e fizeram a população pagar a conta através das políticas de austeridade.

Haverá qualquer coisa, nas crises recentes e no modo como elas foram geradas pelas classes dirigentes, que o faria hoje rever sua teoria do neoliberalismo?

Bem, não creio que a solidariedade da classe capitalista seja hoje o que era então. Em nível geopolítico, os Estados Unidos não estão mais na posição de conduzir a dança como faziam nos anos 1970.

Penso que assistimos a uma regionalização das estruturas globais de poder no seio do sistema dos Estados, com hegemonias regionais como a da Alemanha na Europa, do Brasil na América Latina ou da China no Leste da Ásia. Evidentemente, os Estados Unidos conservam uma posição dominante, mas os tempos mudaram. Trump pode comparecer ao G20 e dizer “devemos fazer isso”, e Angela Merkel lhe responder “não o faremos”, o que era inimaginável nos anos 1970. A situação geopolítica está, portanto, regionalizada, e há mais autonomia. Penso que é em parte um resultado do fim da guerra fria. Países como a Alemanha não dependem mais da proteção dos Estados Unidos.

Aliás, isso que chamamos “a nova classe capitalista” de Bill Gates, da Amazon e do Vale do Silício têm uma política que difere da dos gigantes tradicionais do petróleo e da energia. O resultado é que cada um tenta seguir seu próprio caminho, o que leva a conflitos entre por exemplo a energia e as finanças, a energia e o Vale do Silício etc. Existem sérias divergências sobre temas tais como as mudanças climáticas, por exemplo.

Um outro aspecto que me parece crucial é que o impulso neoliberal dos anos 1970 não foi imposto sem fortes resistências. Houve importantes reações da classe trabalhadora, dos partidos comunistas na Europa etc. Mas eu diria que ao final dos anos 1980 a batalha havia sido perdida. E como a classe trabalhadora não tem mais o poder de que dispunha àquela época, a solidariedade no seio da classe dirigente não é mais também necessária. Não há mais uma séria ameaça vindo de baixo. A classe dirigente se vira muito bem e não tem muita coisa a mudar.

Se a classe capitalista se arranja bem, em contrapartida o capitalismo vai bastante mal. As taxas de lucro se recuperaram, mas as taxas de reinvestimento são extremamente baixas. Por isso, um monte de dinheiro não retorna para a produção mas é dedicado à conquista de terras ou à compra de ativos.

Falemos um pouco mais das resistências. Em seu trabalho, você insiste no fato, aparentemente paradoxal, de que a ofensiva neoliberal se desenvolveu paralelamente a um declínio na luta de classes, pelo menos no Norte, em favor de “novos movimentos sociais” pela liberdade individual. Poderia explicar como o neoliberalismo gerou certas formas de resistência?

Aqui está uma questão a meditar: o que faz com que cada modo de produção dominante, com sua configuração politica particular, crie um modo de oposição que se constitui em seu reflexo? À época da organização fordista da produção, o reflexo era um movimento sindical centralizado e partidos políticos baseados no centralismo democrático. À época neoliberal, a organização da produção para uma acumulação flexível produziu uma esquerda que é também, na verdade, seu reflexo: trabalho em redes decentralizadas, não hierarquizados. Penso que é muito interessante. E até certo ponto, o reflexo do espelho valida o que tentava destruir. O movimento sindical, assim, sustentou o fordismo.

Penso que neste momento muita gente à esquerda, sendo muitos autônomos e anarquistas, reforçam na verdade o neoliberalismo em seu jogo final. Muita gente de esquerda não quer saber dessa afirmação. Mas a pergunta que se coloca é, evidentemente: haverá um meio de se organizar que não seja no espelho do neoliberalismo? Podemos quebrar esse espelho e organizar qualquer outra coisa, que não jogue o jogo do neoliberalismo?

A resistência ao neoliberalismo pode assumir diversas formas. No meu trabalho, ressalto o fato de que o lugar de realização do valor é também um ponto de tensão. O valor é produzido no processo do trabalho, e é um aspecto muito importante da luta de classes. Mas o valor se realiza no mercado através da venda, e uma boa parte da política tem aí seu lugar. Uma grande parte da resistência à acumulação do capital se exprime não somente no lugar de produção, mas também através do consumo, na esfera da realização do valor.

Tome a indústria de automóveis: grandes fábricas podiam antes empregar cerca de 25 mil pessoas, e hoje empregam 5 mil porque a tecnologia reduziu a necessidade de trabalhadores. O trabalho encontra-se assim cada vez mais deslocado da esfera da produção para a esfera da vida na cidade. O principal centro de insatisfação, no quadro das dinâmicas capitalistas, desloca-se para a esfera de realização do valor, para as políticas que têm impacto na vida cotidiana na cidade. Os trabalhadores evidentemente preocupam-se com um monte de coisas. Se nos encontramos em Shenzhen, na China, as lutas no quadro do processo de trabalho são dominantes. E nos Estados Unidos teríamos apoiado a greve de Verizon [2] por exemplo.

Mas em vários pontos, o que domina são as lutas em torno da qualidade da vida cotidiana. Vejam as grandes lutas dos dez a quinze últimos anos. Um conflito como o do Parque Gezi, em Istambul, não foi uma luta trabalhista. O descontentamento tinha a ver com a política cotidiana, a falta de democracia e o modo de tomar decisões. Nos levantes ocorridos das cidades brasileiras, em 2013, foram também os problemas da vida cotidiana os detonadores: os transportes e as despesas suntuosas para a construção de grandes estádios em detrimento de escolas, hospitais e moradias acessíveis. Os levantes a que assistimos em Londres, em Paris ou em Estocolmo não estavam ligados ao processo de trabalho, mas à vida cotidiana.

Nesse terreno, a política é muito diferente daquela que é implementada no local de produção. Na produção, o conflito opõe claramente o capital ao trabalho. As lutas pela qualidade de vida são menos claras em termos de configuração de classe. As políticas claramente de classe, que procedem em geral de uma compreensão do processo de produção, tornam-se teoricamente mais vagas à medida que se tornam mais concretas. Elas expressam uma disputa entre classes, mas não no sentido convencional.

Você acha que se fala demais de neoliberalismo e não o suficiente de capitalismo? Quando é mais apropriado usar um ou outro desses termos, e quais são os riscos de confundi-las?

Muitos liberais clássicos dizem que o neoliberalismo foi longe demais em termos de desigualdade de renda, que todas essas privatizações foram longe demais e que há numerosos bens comuns a proteger, como o meio ambiente. Há também modos de falar do capitalismo, como quando falamos de uma economia de partilha, que na verdade acaba por ser extremamente capitalista e exploradora.

Há a noção de capitalismo ético, que significa apenas ser razoavelmente honesto ao invés de roubar. Algumas pessoas pensam que é possível uma reforma da ordem neoliberal em direção a uma outra forma de capitalismo. Penso que talvez haja uma forma de capitalismo melhor que essa que existe hoje – mas não tão melhor. Os problemas fundamentais tornaram-se agora tão profundos que, sem um vasto movimento anticapitalista, será de fato impossível chegar até eles. Gostaria então de colocar as questões atuais em termos de anticapitalismo, em vez de antineoliberalismo. E quando ouço as pessoas falarem sobre neoliberalismo, me parece que o perigo é acreditar que não é o próprio capitalismo, de uma forma ou de outra, que está em questão.

Notas

[1] Publicado pela Oxford University Press. https://www.amazon.com.br/Brief-History-Neoliberalism-David-Harvey/dp/0199283273



[2] Sete semanas de greve nessa gigante das telecomunicações possibilitaram obter 10,5% de aumento de salários em três anos para 36 mil assalariados e a contratação de 1.400 pessoas até 2019.

Outras Palavras



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Posted: 31 May 2017 10:41 AM PDT


A PROFUSÃO DE ÁUDIOS vazados por delatores, ex-amigos e investigadores no Brasil da Lava Jato tem ajudado a desnudar os processos de produção de estratégias políticas, notas e opiniões na imprensa, salsichas, financiamento de salsicheiros e compra de apoio político na bancada do boi.

Quem escuta com atenção os áudios dificilmente encontra conversas do tipo “Fomos pegos, descobriram nosso esquema”, mas uma certa surpresa, misturada com indignação, com o avanço de suspeitas sobre eles.

Nesta segunda (29), por exemplo, chegou ao público o áudio de uma conversa entre o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) e o aliado Zezé Perrella (PMDB-MG). Aécio estava chateado porque o colega se gabava em uma entrevista por não constar da lista de investigados do procurador-geral da República, Rodrigo Janot – que tinha o aliado como um dos alvos. Perguntava se Perrella havia se esquecido de como sua campanha havia sido financiada. E argumentava que declarações como a dele nivelavam o seu grupo político ao dos adversários, estes sim, segundo ele, bandidos.
Aecio Neves durante sessão do impeachment em agosto 2016. Em novo áudio, senador demonstra chateação com amigo. ANDRESSA ANHOLETE AFP/Getty Images



Perrella, ao pedir desculpas a quem lhe falava como chefe, justificava a declaração como resultado da tensão provocada pela “história do helicóptero” (em 2013, a aeronave de uma empresa de seu filho foi apreendida com 445 kg de cocaína). E, num surto de cinismo ou ironia macabra, concluiu: “Não faço nada de errado, só trafico”. A conversa é interrompida por risos nervosos.

Em outro diálogo, desta vez com Joesley Batista, dono da JBS, Aécio defendeu a troca do delegado-geral da PF. Há um ano, o senador mineiro já havia sido citado em um diálogo gravado pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com Romero Jucá. “Quem não conhece o esquema do Aécio?”, questionou o delator.

Foi nesta conversa, sem saber da gravação, que o senador de Roraima definiu a estratégia para levar Michel Temer à Presidência: para conter a Lava Jato, era preciso botar o Michel num grande acordo nacional, “com Supremo, com tudo”. Ministro do Planejamento na época da divulgação, Jucá caiu pouco depois.
“Ótimo, ótimo”

Antes mesmo da mudança de governo, alguns diálogos interceptados já causavam constrangimento às antigas lideranças políticas. Então prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB-RJ), apontado como possível presidenciável por aliados, chegou a se queixar, em conversa com o ex-presidente Lula, da “alma de pobre” do petista. “Todo mundo que fala no meio, eu falo o seguinte: imagina se fosse aqui no Rio esse sítio dele (em Atibaia). Não é em Petrópolis, não é em Itaipava. É como se fosse em Maricá. É uma merda de lugar”.

Ex-governador da Bahia, Jaques Wagner também teve conversa interceptadacom Lula na qual comemorava quando o ex-presidente contava que Marta Suplicy havia sido chamada de “puta” por manifestantes na Avenida Paulista. “É bom pra nega aprender”, disse Wagner.

Em outra conversa, Lula se queixava com um advogado da “ingratidão” do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao decidir investigá-lo.

De todos, porém, o diálogo mais constrangedor foi entre Joesley Batista e Michel Temer, no qual o presidente ouve o dono da JBS narrar como comprou juízes e um procurador e reage de forma, digamos, pouco espantada. “Ótimo, ótimo”, respondeu o peemedebista.

A exposição de lideranças destituídas das máscaras do discurso treinado por marqueteiros, e da própria forma como marqueteiros eram pagos pelos clientes, deixou amedrontados os esperançosos e esperançosos os amedrontados.

O que temos observado, nestes tempos, não é a desconstrução das lideranças políticas, mas dos mitos criados em torno delas.

Aqui a construção dos afetos políticos se esborracha. O que temos observado, nestes tempos, não é a desconstrução das lideranças políticas, mas dos mitos criados em torno delas; expostas a olho nu, sem a mediação dos discursos ensaiados, derretem. É uma ferida narcísica e tanto para quem confiava nos discursos oficiais e dormia tranquilo com a sensação de que, longe dali, alguém em Brasília saberia como lidar em caso de incêndio. Ninguém parece saber, e quem diz o contrário ou mente ou está iludido.



Talvez resida na sensação de desamparo, resultado da descoberta de que em política não há pai, mãe nem santo fora das planilhas da Odebrecht, a chave para compreender a desilusão de quem observa em um passado em linha reta (um outro mito) a solução para todos os problemas.

Em entrevista concedida há dois anos, o filósofo Vladimir Safatle definiu, em uma entrevista há dois anos, a mobilização em torno do Estado-nação como uma gestão social do medo, daí o apelo a soluções autoritárias observado aqui e mundo afora. A esperança, por sua vez, significa expectativa de que um bem ocorra no futuro – algo que, grifo meu, parece diluído a cada novo vazamento de conversa privada entre agentes públicos em um tempo em que até o santo protetor dos animais seria suspeito, em algum momento, de maus tratos ou zoofilia.

Qual, então, o caminho?


A resposta está em aberto, e não será encontrada pelos atalhos dos lugares-comum da internet. Uma pista, porém, pode estar no que Safatle chama de capacidade de lidar com a dimensão contingente dos acontecimentos. “Firmar seu desamparo quer dizer que você entra nas relações sabendo que não vai encontrar no outro aquilo que o ampara”, diz.

Levado para o campo político, é possível pensar numa outra relação entre representantes e representados quando esta relação deixa de ser mediada pela construção de mitos ou pela crença apaixonada em deuses ou demônios. O grau de exposição dessa fronteira ainda mal divisada entre a vida pública e privada, o legítimo e o legal, demandará uma outra ideia de transparência e participação política – uma participação que, ao destituir o sujeito político da aura que separa eleito e eleitores, os aproxima numa espécie de coautoria de projetos, acompanhamento e cobrança. Isso exigirá um salto de amadurecimento aos que se situam entre o imobilismo e o ativismo infantil costurado entre bonecos infláveis, panelas na janela e memes lacradores.
Isso exigirá um salto de amadurecimento aos que se situam entre o imobilismo e o ativismo infantil costurado entre bonecos infláveis, panelas na janela e memes lacradores.

Além das consequências jurídicas em torno da validade das gravações como provas e da legalidade de sua divulgação, há um impacto político profundo na forma como seus agentes se organizam em uma época de intensa transformação tecnológica e expansão dos canais de compartilhamento. Se antes era possível filtrar ou barrar notícias desabonadoras pelo funil dos veículos tradicionais, hoje qualquer pensamento solto, expresso em voz alta ou à meia voz, pode cair nas redes e enfrentar seus tribunais.

Não tem marqueteiro político capaz de impedir a sentença de que o rei, gravado em conversas privadas, está nu. Por nu entenda-se não apenas com as mãos atoladas em dinheiro sujo (não são poucos, diga-se), mas com um inesperado despreparo e descolamento da realidade expostos a quem quiser ver ou ouvir.

Em uma cultura política baseada em mitos – o pai dos pobres, o homem do povo, o cidadão honesto e, mais recentemente, o gestor aplicado – fica difícil explicar ao eleitor como a outrora raposa política se deixa gravar em conversa imprópria com investigado em residências oficiais; ou como o deputado temente a Deus engordou as burras na Suíça; ou que o defensor dos oprimidos andava em companhia de empreiteiros graúdos; ou como oherdeiro incorruptível do príncipe civil defendia em voz alta (e aos palavrões, para desespero dos filhos das Senhoras de Santana) interferência na Polícia Federal para salvar a própria pele.

Mais do que tramoia, as conversas divulgadas lícita ou ilicitamente mostram articuladores políticos desconectados com a nova régua estabelecida, ainda que de forma confusa, pelos representados, sobretudo a partir de 2013.

The Intercept Brasil



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Posted: 31 May 2017 09:47 AM PDT
A primeira pesquisa popular sobre governo de Michel Temer após a delação da JBS, que o tornou investigado por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução à Justiça, mostra que a popularidade do presidente peemedebista derreteu ainda mais.

O Instituto Paraná Pesquisa mostra que apenas 6,4% dos entrevistados avaliam o governo Temer positivamente (5,5% veem a administração como boa e 0,9% como ótima), enquanto 74,8% dizem que o governo é ruim (20,1%) ou péssimo (54,7%). Quando questionados genericamente, 84% dizem que desaprovam o governo.

Isso torna o presidente uma “persona non grata” no Brasil, diz a comentarista Jovem Pan Vera Magalhães, que obteve os números em primeira mão.
Diretas?

A pesquisa também aferiu a intenção da população sobre a possibilidade de uma nova eleição presidencial diante da possibilidade da queda de Temer. Nove entre dez entrevistados (90,6%) preferem a escolha direta, embora Constituição atualmente preveja que a eleição na segunda metade de um mandato seja feita de forma indireta (pelo Congresso Nacional). Apenas 7% acham que a o novo presidente deve ser escolhido por deputados e senadores.

Economia salva Temer?

Segundo a avaliação do instituto, não. Embora os números melhorem ligeiramente para Temer, 73,5% responderam que uma “garantia de que a economia vai melhorar” não dá um voto de confiança ao presidente. Entendem que os indicadores econômicos podem ser um motivo para manter Temer 23,5% dos entrevistados. Não sabem ou não opinaram, 3%.

Nomes para eleição indireta

O Paraná Pesquisas também levantou os nomes mais populares no caso de uma eleição indireta. O ex-ministro do STF Joaquim Barbosa é o preferido de 24,4%, seguido pela atual presidente da Corte, Cármen Lúcia (13,2%), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (11,9%), o ex-prefeito Fernando Haddad (4,8%), o presidente da Câmara Rodrigo Maia (4,3%), o ministro da Fazenda Henrique Meirelles (2,9%), o ex-ministro Nelson Jobim (1,5%) e o presidente da Petrobras Pedro Parente (0,7%). Não sabem responder a essa pergunta 9,9% dos entrevistados e 26,5 % (a maioria) responderam “nenhum”.Foram ouvidas pelo Instituto Paraná Pesquisas 2.022 pessoas entre 25 e 29 de maio.A pesquisa foi publicada na JovemPan

Os Amigos do Presidente Lula



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