domingo, 18 de junho de 2017

18/6 - Chico vai à Justiça por um basta nas agressões

SARAIVA 13


Posted: 17 Jun 2017 07:37 AM PDT
A blogueira Elika Takimoto conta neste texto o seu encontro com Lula e a sua filiação ao PT.
Por Elika Takimoto

Hoje, como muitos já sabem, encontrei-me com o homem que, quer queiram ou não, será citado em todos os livros da história do Brasil. Muitos já o estão acusando de aproveitador sem sequer saber da missa a metade.
(Como assim ele o aproveitador e não eu? Nem entendi…).

Tudo aconteceu por conta dessa fama que conquistei nas redes. Não sei como justificá-la, pois não sou nada demais. Apenas há anos falo sobre o que me dá na telha.
Seja lá o que for, aconteceu. Hoje, vejam vocês, me param nas ruas para tirarem selfie. Acho mega esquisito tudo isso… mas, mais do que isso, muito mais do que isso… ando sendo convidada para palestras em todo o Brasil e para entrar para política. Para quem não sabe, faço parte de um.coletivo político onde debatemos vários temas para tentar compreender essa loucura chamada Brasil e essa galera animada em fazer e acontecer tem insistido na minha candidatura. Vejam vocês o que é a vida…
Uma coisa é fazer textão em blog pessoal e postar no Facebook. Outra, completamente diferente, é atuar em algum cargo político. Há meses já venho conversando com muita gente, ouvindo opinião de quem é do meio, colhendo conselhos de quem não tem nada a ver com política, escutando meus pais… enfim, ando ponderando tudo, podem ter certeza.
Não sei se é do conhecimento de vocês, mas devido a um texto que escrevi relatando um processo de censura que sofri por conta do.mercado editorial, Lula me ligou apenas, na ocasião, para me parabenizar pela minha coragem. Disse, fofamente, para eu continuar assim. Foi lindo e emocionante demais. Imagina. Eu. Toca o telefone. Lula…
Depois daquela conversa, tudo começou a mudar em minha vida em um sentido diferente. Políticos entraram em contato querendo conversar comigo e comecei a receber de onde menos sonhava orientações sobre as possibilidades de meu futuro.
Há duas semanas, já perdida com tanta informação, tive a ideia de tentar ir direto ao papa. Se for para me aconselhar com alguém, que seja por aquele que mais ganhou meus votos de confiança nessa vida: Lula.
Entrei em contato com sua assessora que havia chegado até mim e pedido meu telefone por causa daquele texto já supracitado que tocou o coração do meu presidente.
– Gabi, olha, vou parecer ridícula, mas estou vivendo um dilema em minha vida…
E contei-lhe tudo.
– Será que Lula me receberia para uma conversa? Tenho certeza de que ele pode dar uma luz sobre o que fazer com meu futuro. Estou tensa… mas sei que há muitos problemas mais urgentes, sei que o tempo dele é curto… mas vai que né?
Gabi pediu um tempo que ia perguntar a Lula se ele me receberia.
– Elika, ele disse que te recebe com prazer.
Morri.
Ok. Respira.
Marcamos uma data e cá estou eu em São Paulo de frente para o Instituto Lula escrevendo esse texto…
Pulando todas as etapas e sem aprofundar na loucura que foi eu trazer meus três filhos e Lucimar, minha empregada, junto, hoje, fui recebida por ele.
Ao ver toda a minha comitiva que lotou a sua sala, Lula bateu o olho em Lucimar e desatou a perguntar de onde ela tinha vindo (Maranhão), como era lá, como ela está aqui, se está feliz… esse tipo de coisa. Enfim, depois que Lucimar estava íntima dele, Lula se virou para me dar atenção e se prontificou a me ouvir.
Comecei assim:
– Presidente, primeira coisa gostaria de agradecer esse tempo que você me disponibilizou. Sou uma figura que se tornou conhecida nas redes sociais e quando disse que viria te ver, recebi mensagens do Brasil inteiro e recados para te dar. Mas trarei o principal antes de entrar no motivo pelo qual estou aqui. Você precisa se cuidar, estamos preocupados com sua saúde. Tem se cuidado, presidente? Está se alimentando direito?
A seguir, entrei na minha vida propriamente dita e falei um punhado de coisas terminando com a possibilidade de eu me candidatar e me filiar ao PT ou continuar seguindo em frente com a minha vida de professora somente.
Hora de ouvi-lo:
– Elika, primeiro. Uma “vida de professora” já é algo extremamente grandioso. Você é uma figura adorável. Não é sem motivo que muitos te amam. Eu, companheira, te digo que a sua filiação pode te trazer muita dor de cabeça. As pessoas vão passar a te odiar como muitos me odeiam. Lidar com o ódio é algo que você não merece. Eu adoraria ter você com a gente, mas penso muito nas pessoas antes de mim. E olhando para você não tem como não te alertar sobre o quanto você pode perder por se filiar ao PT que está sofrendo ataques de todos os lados.
A Ana Júlia, – continuou Lula – aquela menina linda, esteve aqui e eu disse que antes de ela pensar em filiação deveria pensar no Enem, ler mais sobre tudo, viver outras coisas.
– Lula, eu não sou mais adolescente… e já li muito… – interrompi o presidente.
– Eu sei, companheira. Mas no seu caso, eu fico olhando para o que você faz e fico pensando em você. Uma candidatura pode te trazer muita dor de cabeça que hoje você não tem. Uma coisa é as pessoas dizerem que te amam. Outra é elas votarem em você. E, se você entrar para o PT, muitos dos que te seguem vão parar de te seguir. Estou pensando em seu futuro, Elika. É claro que bom para mim seria ter você aqui com a gente. Mas e você? Você perguntou da minha saúde. E a sua?
– Lula, veja bem. Eu já sou xingada por muitos. Lidar com o ódio para mim não é problema. As pessoas me xingam, mas eu não me ofendo. Tenho pena de quem faz isso e sinto vontade de conversar com quem não consegue dar amor porque sei que lhe falta. A gente dá o que recebe.
Eu não aguento mais ver a educação pública ser sucateada. – continuei – Devo meu doutorado a você. O CEFET permitiu que eu reduzisse a minha carga para estudar. Investiu em minha formação.
Nesse momento, Lula me entrevistou. Quis saber como andava o CEFET.
– Nossos laboratórios estão super atualizados. Hoje há cotistas formados e já trabalhando. Tenho dado palestras em todo o Brasil. Em cada Instituto Federal que visito é uma surpresa pelas instalações e pela qualidade do corpo docente. Isso tudo foi pelo seu governo. Agora, estamos com a corda no pescoço. Não temos mais verbas para nada. Sou, além de professora, coordenadora de física e faço parte do conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão. As reuniões de orçamento das quais participo estão desesperadoras.
A Reforma do Ensino Médio está vindo a galope. – segui falando angustiada – A escola pública está sofrendo o maior golpe nunca dantes já visto na história do Brasil. Eu não aguento mais ver isso calada e, se houver algo que eu possa efetivamente fazer, eu quero fazer.
Acredito na bandeira do PT,Lula. – continuei -. Não tem partido que mais fez pelo Brasil e pelo povo que esse. Sei que houve erros crassos cometidos. Mas sei que a imagem do PT foi enlameada injustamente por essa corja que tomou o poder e que está acabando com a educação pública. O discurso de ódio aos petistas não se justifica a não ser por uma lavagem cerebral cometida pela grande mídia incentivado por uma elite que quer que o povo se exploda.
Eu sou essa fofura mesmo que você está vendo. – falei sem modéstia – E sei que precisamos renovar a política. Acredito que posso mostrar o quão injusto é esse discurso de ódio. E o que me tem feito mal é ver as escolas sendo sucateadas por essa quadrilha.
Acha mesmo que é melhor eu ficar longe, presidente? – perguntei com um nó na garganta.
– Elika, querida, você não é fácil. Não ouve os mais velhos… sempre foi assim?
Balancei a cabeça positivamente.
– Está triste mesmo tudo isso. Não é difícil fazer esse país dar certo. Basta dar o poder aos pobres, companheira. E é aí que muitos não aceitam. As pessoas me perguntam se pretendo voltar e se quero voltar. Vou te dizer, Elika. Eu queria muito voltar, não sei se vão me deixar. Queria só para mostrar que não é difícil fazer as coisas acontecerem. Me acusam de assistencialista. Mas eu acho que só há uma saída mesmo: dar poder para a classe mais sofrida. E por isso eu pretendo continuar lutando.
Pois a minha vontade, querida, – disse Lula olhando no branco dos meus olhos – é fazer um evento solene com sua chegada. É pedir para que me tragam o documento agora para você ser nossa. Qualquer político sonharia com seu apoio. Queria fazer uma festa com bumbo, surdo, samba para te receber. Mas, tenho medo. Tem certeza que está preparada para uma filiação e entrar para a política de alguma forma?
– Lula, estou aqui pronta. O que falta para você me estender a sua mão, presidente?
Ele a pegou, puxou, e me deu um forte abraço e boas vindas.
Depois de todos os trâmites explicados e marcada uma nova data para um novo encontro onde ele disse que faz questão de estar presente quando eu me filiar no Rio de Janeiro ao Partido dos Trabalhadores para colocar, efetivamente, de um jeito ou de outro, a mão na massa para tentar reverter esse massacre que estão fazendo com as nossas escolas públicas, aí sim, depois de tudo isso, vieram a sessão de fotos para registrar esse grande encontro e a entrega de livros que lhe levei de presente e uma belíssima tela pintada pelo artista Sergio Ricciuto.
Foi isso que aconteceu resumidamente. Em breve, oficialmente, serei uma petista. Estou bem certa desse passo. Para quem tem ódio ao PT, sinto muito, que vocês não consigam entender que entre o branco e o preto há infinitas graduações de cinza. O mundo, fiquem sabendo, não é dicotômico como mostram as novelas. Não existe somente o bem e o mal. E há, podem acreditar, os que tentam com toda a força melhorar o nosso país para os mais necessitados. Mas esses, não são super heróis. São seres humanos comuns plenos de toda a complexidade que qualquer universo possui.
Para finalizar, Yuki estava preocupado que havia perdido aula hoje para vir até São Paulo. Quando Lula foi brincar com ele um pouco ele disse:
– Estava angustiado porque perdi aula e prova hoje. Mas tive a maior aula de história da minha vida! Obrigado.
Fofo meu filho…
Enfim, estou mega feliz por esse encontro e por ter conseguido apresentar meus filhos ao homem que tirou o Brasil do mapa da fome e deu a oportunidade para muitos brasileiros – que nem sonhavam que isso seria possível – de estudar. Seguirei agora, ao seu lado e com seu apoio, lutando pela educação de qualidade para todos.
Animada com tudo o que tenho que viver pela frente.
Posted: 17 Jun 2017 01:49 AM PDT

Filmes: "Machuca"

TRÁGICO E DOLOROSO

Assista este filme para entender porque, afinal, ninguém tem coragem de se assumir como sendo de “direita” na América Latina...

- por André Lux, crítico-spam

Você já se perguntou por que ninguém tem coragem de admitir que seja de “direita” na América do Sul? Assista “Machuca” e vai saber a resposta. Este filme chileno do diretor Andrés Wood se passa durante os últimos meses do governo socialista de Salvador Allende, quando o padre que dirige uma escola para crianças da classe média alta implanta uma política do governo que reserva vagas para alunos oriundos das classes pobres.

Um desses meninos é justamente o Machuca do título, que acaba ficando amigo de Gonzalo, um filho das “elites” e provável alter-ego do próprio cineasta (o filme termina com uma frase em homenagem a um padre real, que obviamente deve ter semelhanças com o personagem de "Machuca").

A amizade dos dois representa o abismo que existe entre as classes sociais, o qual fica escancarado quando um vai visitar a casa do outro. Gonzalo, que mora numa bela residência, tem um pai boa praça, porém ausente e alienado, enquanto sua mãe é a personificação da “dondoca” suburbana fútil e louca por dinheiro (ao ponto de ser amante de um político rico do qual recebe vários “presentes” chiques). A irmã do menino namora uma boçal violento e agressivo que faz parte do “Comando de Caça a Comunistas” chileno.

Já Machuca mora numa favela com a mãe, a irmã e um tio. Seu pai é um bêbado que aparece só para arrancar dinheiro da mãe e dar porrada nos filhos. Só por curiosidade, li um profissional da opinião dizendo que o filme “falha” ao mostrar a pobreza de forma idílica! Concordo com ele, afinal quem é que não sonha em morar num barraco feito de tábuas e lonas enquanto recebe uns sopapos do pai bêbado e cafetão dia sim, dia não?

Enfim, dessa improvável amizade acompanhamos os dois meninos passando por várias situações que servem para reforçar o caos político promovido pelos golpistas que se abatia sobre o país. O tio de Machuca ganha a vida vendendo bandeiras dos partidos de direita e de esquerda nas várias passeatas contra e a favor do governo. E leva os garotos juntos, que ignorantes do que se passava, saiam alegremente repetindo os jargões dos manifestantes, seja de qual tendência eram representantes.

Mas as coisas começam a mudar para Gonzalo quando encontra o namorado truculento da irmã e a própria mãe numa das passeatas, durante a qual a irmã de Machuca é humilhada e agredida por fazer parte da “ralé”. Em outra cena emblemática e muito triste, os pais da high society protestam numa reunião do colégio contra a presença das crianças pobres que, nas palavras deles, não devem se misturar com seus filhos. Uma das mães pobres faz então um tocante discurso sobre a trágica história de toda sua família, só para ser acusada por uma dondoca de “ressentida, rancorosa, volte para o lugar de onde veio!”.

Não quero revelar mais da trama, mas basta dizer que o filme segue o ritmo dos golpistas até a sangrenta derrubada do governo socialista pelos milicos do general Pinochet, que lançaram sobre o Chile a mais brutal e selvagem ditadura da América Latina. Ditadura que foi notável também por ter sido o primeiro regime a implantar - sobre o cadáver de milhares de cidadãos que ousaram lutar por um mundo mais justo e menos desigual - a nefasta ideologia neoliberal, que hoje colocou o mundo de joelhos.

Nem preciso dizer que o final de “Machuca” será terrivelmente trágico e doloroso. E basta assisti-lo para entender porque, afinal, ninguém tem coragem de se assumir como sendo de “direita” por essas bandas...

Cotação: * * * *

Reações: 
Nenhum comentário: Links para esta postagem
Posted: 17 Jun 2017 01:42 AM PDT
Artista processará o jornalista João Pedrosa, que publicou em seu perfil no Instagram, ao comentar uma foto da atriz Silvia Buarque, filha de Chico, ao lado do pai e da irmã Helena: "Família de canalhas!!! Que orgulho de ser ladrão!!!"; para Chico, chegou a hora de dar um basta às falsas acusações que circulam na internet, inclusive as de que ele é beneficiário da Lei Rouanet; em dezembro, o cantor foi alvo de agressão verbal ao sair de um restaurante com amigos, no Rio; o artista foi chamado de "merda" e "petista ladrão" por um grupo de jovens por fazer defesas ao governo do PT

Brasil 247

Alvo recente de agressão verbal no Rio de Janeiro por defender o governo do PT, o cantor e compositor Chico Buarque processará por danos morais, junto com a atriz Marieta Severo e as filhas do casal, o jornalista paulista João Pedrosa.

No fim de dezembro, Pedrosa postou em seu perfil no Instagram ao comentar uma foto publicada pela atriz Silvia Buarque ao lado do pai e da irmã Helena: "Família de canalhas!!! Que orgulho de ser ladrão!!!".
Posted: 17 Jun 2017 01:33 AM PDT
Focada em operações internas contra a corrupção, a Polícia Federal deixa livre para a facção criminosa as fronteiras com o Paraguai e a Bolívia

Enquanto a PF persegue os holofotes, o PCC domina o tráfico na fronteira
Com a Polícia Federal praticamente à disposição da força-tarefa da Operação Lava Jato, a principal facção criminosa brasileira, o Primeiro Comando da Capital, encontrou o ambiente propício para prosperar, internacionalizar suas atividades e iniciar, no Paraguai, uma guerra contra o seu principal rival, o Comando Vermelho.

Nascido de São Paulo, o PCC tem ganhado musculatura nos últimos 20 anos, baseado em uma visão empresarial sólida e premiado pela sucessão de erros das forças de segurança pública, que vão das péssimas condições do sistema carcerário à falta de interlocução entre as polícias. Só agora, e não por acaso, a facção conseguiu entrar de fato no radar internacional.

Além do Brasil, há provas da presença do PCC no Paraguai e na Bolívia e indícios de que o grupo alcançou a Argentina e o Uruguai. Segundo a própria Polícia Federal, a organização chegou à África Ocidental. Um crescimento vertiginoso, respaldado pela falta de articulação brasileira para enfrentar o problema.

Em tese, quem deveria combater facções com essa capilaridade deveria ser a PF, responsável por investigar crimes transnacionais. Há dúvidas, porém, se as leis permitiriam aos federais atuar em investigações de assaltos a carros-fortes ou assassinatos em pontos localizados. Na dúvida, ninguém faz nada. Ou quase nada.

O caso da PF é emblemático. De acordo com o presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais, Luís Antônio Boudens, está tudo errado. A corporação tem cerca de 15 mil profissionais, mas menos de mil atuam ao longo dos 17 mil quilômetros de fronteiras do Brasil com outros dez países da América Latina. Para agravar a situação, normalmente são designados agentes em início de carreira, menos experientes. Mais, explica Boudens: “Quando há uma ação prioritária, os agentes são realocados e deixam a fronteira aberta. Na época dos grandes eventos esportivos, a PF parou”.

Maior produtor de maconha da América Latina, o Paraguai é uma área cobiçada pelas facções. “O Brasil volta-se para questões internas, o que criou uma oportunidade enorme para o PCC e para o CV crescerem e atuarem nos países vizinhos. Assistimos neste momento a uma guerra de traficantes brasileiros em território paraguaio”, afirma o jornalista paraguaio Cándido Figueredo, do jornal ABC Color, especialista no tema.

Com o assassinato de Jorge Rafaat Toumani, o PCC e o CV dominaram a venda de drogas na fronteira paraguaiaFoto: Najla Passos
O tráfico movimenta, segundo Figueredo, ao menos 300 milhões de dólares ao ano apenas no aglomerado urbano formado por Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, e Pedro Juan Caballero, no Paraguai, principal rota do tráfico para a América do Sul e a Europa, onde é possível atravessar de um país a outro sem nenhum trâmite burocrático ou aduaneiro. “Se o PCC e o CV não entrarem em acordo sobre como dividir esse dinheiro, será um banho de sangue”, prevê.

A circulação de drogas na fronteira é realmente livre. Reconhecido como o órgão mais eficiente no combate ao narcotráfico, o Departamento de Operações de Fronteira, ligado à Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul, apreendeu 7 mil toneladas de maconha entre janeiro e maio. O volume é 46% maior do que no ano anterior.No comando do órgão há um ano, o coronel Kleber Haddad Lane atribui o incremento ao trabalho da unidade. “Decidimos centrar nossas operações na região de Ponta Porã, que, por causa da localização geográfica, escoa também a cocaína produzida na Bolívia, no Peru e na Colômbia.”

Lane admite, entretanto, que a estratégia adotada está longe de deter o problema. “Somos reconhecidos pelo alto número de apreensões por fazermos um trabalho contínuo. Sabemos que, se partirmos para o enfrentamento direto com o narcotráfico, vamos perder.” No departamento, compara, falta até rádio para comunicação, enquanto os traficantes dispõem de drones, fuzis e aviões.

Crimes com alto grau de sofisticação e violência, com DNA atribuído ao PCC, são cada vez mais frequentes nas fronteiras com o Paraguai e a Bolívia. Os roubos de carros-fortes e, mais recentemente, dos depósitos das próprias empresas que transportam dinheiro, crescem vertiginosamente. O mais emblemático episódio, considerado o marco zero da guerra em curso, foi o assassinato do narcotraficante Jorge Rafaat Toumani, 56 anos, há um ano. Considerado “o rei do tráfico”, Rafaat dominou a fronteira durante duas décadas. Com prisão decretada no Brasil, circulava por Pedro Juan Caballero com status de chefe de Estado. “Ele fechava a rua para entrar ou sair de casa, sempre com dois carros de seguranças à frente e dois atrás”, conta Figueredo.

O traficante foi morto durante uma ação conjunta do PCC com o CV, quando circulava em uma caminhonete blindada, que não suportou o impacto da metralhadora de calibre 50, utilizada pelo Exército dos Estados Unidos para derrubar aviões. Mais de cem homens fortemente armados participaram da operação, cujos custos foram estimados em cerca de 1 milhão de dólares. O “narcoexército” desapareceu no ar. Até hoje ninguém foi preso, nem no Brasil nem no Paraguai. Depois da operação conjunta e da eliminação do inimigo comum, o PCC e o CV entraram em guerra pelo controle da área.

Sem efetivo necessário para garantir a segurança dos seus próprios agentes, a delegacia da PF em Ponta Porã terceirizou o serviço. Glauber Araújo, delegado responsável pela área, não informa o tamanho do atual efetivo, por “questões de segurança”. E não nega a contratação de segurança privada. “Sabemos que a região de fronteira é mais delicada e tomamos mais precauções”, limita-se a dizer. Boudens critica a terceirização. “Em Pernambuco há decisão judicial para a PF retirar os terceirizados dos aeroportos, pois segurança pública é função do Estado.” A Polícia Federal não respondeu às perguntas encaminhadas por CartaCapital.

Depósito de drogas apreendidas pelo DOF. Este ano foram mais de 7 mil toneladasFoto: Najla Passos
Na Polícia Civil, a questionável solução serve de apoio ao baixo efetivo. Com apenas três agentes para cuidar dos registros e investigações de ocorrências, o titular da 2ª Delegacia de Polícia de Ponta Porã, Patrick Linares da Costa, decidiu tomar uma atitude discutível quando soube que o PCC pretendia invadir o local para resgatar um dos seus integrantes preso: amarrou o criminoso em um bujão de gás e colocou na porta. “Até hoje não apareceram”, gaba-se.

A falta de recursos causa outros constrangimentos. O principal aeroporto da região está localizado há cerca de 100 quilômetros do foco da guerra, no município de Dourados. Mantida pela prefeitura, a pista recebe dois voos comerciais nos dias de semana e um aos sábados e domingos. Conforme um servidor municipal que pediu o anonimato, o aeroporto não tem raio X para inspecionar bagagens. E o controle com cães farejadores, função da PF, foi interrompido há meses.

De todas as soluções inusuais utilizadas pelas forças de segurança da fronteira para sobreviver à guerra do tráfico, a mais polêmica foi adotada pela Polícia Militar paranaense, em parceria com a Polícia Nacional do Paraguai. Após a morte de Rafaat, quando o aumento dos roubos passou a assustar a população e os enfrentamentos com os narcotraficantes começaram a atemorizar os policiais, firmou-se o seguinte pacto bilateral.

“Pelo nosso acordo, qualquer uma das polícias pode atuar no país vizinho, em caráter excepcional, desde que em situa-ção de diligência. Isso aumenta a segurança da população, pois os criminosos sabem que não podem mais atravessar uma rua e sair impunes como ocorria antes”, acredita o coronel Waldomiro Centurião, comandante do Batalhão da PM em Ponta Porã. “Nossa parceria prevê também que, em caso de ataque do narcotráfico, possamos acessar os dois países para uma ação mútua”, acrescenta o comissário Manuel Irrazabal, comandante do Grupo de Operações Táticas da PNP. “A população quer resultados. Não importa quem prenda o criminoso. Com esse acordo, reduzimos a criminalidade em 80%.”

'Nossa parceria prevê também que, em caso de ataque do narcotráfico, possamos acessar os dois países para uma ação mútua', afirma o comissário Manuel Irrazabal, comandante do Grupo de Operações Táticas da PNPFoto: Najla Passos
Por causa da presença das facções brasileiras, descreve o comissário, policiais passaram a comprar armas e munições com o próprio salário para se defender. O major Ulisse Canete encaixa-se nesse perfil. Apesar de carregar um fuzil de propriedade do governo paraguaio, achou por bem pagar 2 mil dólares por uma pistola de fabricação tcheca. “O Paraguai possui uma política muito permissiva em relação à venda e ao porte de armas. Qualquer um pode comprar com facilidade. Os criminosos, por consequência, estão muito mais bem armados do que as polícias”, avalia Irrazabal.

O pacto local não tem respaldo das relações diplomáticas dos dois países, também inoperantes em relação ao tema. Centurião rebate, porém, as críticas de que a atuação de policiais estrangeiros em outro país possa ferir a soberania nacional. “O acordo respalda-se no princípio da garantia da dignidade humana, que se sobrepõe ao da territorialidade. O intuito não é atentar contra a soberania dos países, mas proteger as populações.”

A parceria na fronteira anima quem vive e atua na região, principalmente os agentes ameaçados pelo poder de fogo do tráfico. Em maio, Irrazabal foi condecorado com a Medalha Tiradentes pelo comando da PM em Campo Grande (MS). Tornou-se herói em uma terra sem lei.

Najla Passos
No CartaCapital

Nenhum comentário:

Postar um comentário