domingo, 18 de junho de 2017

18/6 - Ocidente não sabe o que a Eurásia está cozinhando

FONTE:Castor Filho <castorfilho@yahoo.com>


Ocidente não sabe nem do cheiro

do que a Eurásia está cozinhando
16/6/2017, Pepe Escobar,
SputnikNews

Uma mudança geopolítica tectônica aconteceu em Astana, Cazaquistão, há poucos dias. Pois ainda não se viu nem qualquer mínima repercussão nos círculos atlanticistas.

Na reunião anual da cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), fundada em 2001, os dois países, Índia e Paquistão foram admitidos como membros plenos, como Rússia, China e quatro '-stões' da Ásia Central (Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão e Tadjiquistão).

Assim sendo, a OCX já é, não apenas a maior organização política – por área e por população –, do mundo; ela também reúne quatro potências nucleares. O G-7 é irrelevante, como se viu claramente na recente reunião em Taormina. Ação à vera doravante, à parte o G-20, virá desse G-8 alternativo.

Permanentemente desqualificada no Ocidente já há uma década e meia como se não passasse de mero salão de conversas, a OCX, lentamente, mas sem parar nunca, continua a promover um quadro que o presidente Xi Jinping da China qualifica, de forma discreta muito atenuada, como "um novo tipo de relações internacionais com vistas a cooperação ganha-ganha".

É o mínimo que se pode dizer, do grupo no qual se reúnem China, Índia e Paquistão.

A marca OCX, sob o jogo do radar, é muito sutil. A ênfase inicial, quando se entrava no mundo pós-11/9, foi combater contra o que os chineses chamam de "os três males" do terrorismo, do separatismo e do extremismo. Pequim – e Moscou – desde o início pensavam nos Talibã no Afeganistão, e nas suas conexões centro-asiáticas, especialmente por conta do Movimento Islamista do Uzbequistão (MIU).

Agora, a OCX está ativamente alertando para a "deterioração" da segurança no Afeganistão e conclamando todos os membros a apoiar o processo de "paz e reconciliação". É a senha para a OCX, daqui em diante, engajar-se diretamente em encontrar uma solução "completamente asiática" [ing. "all-Asian"] para o Afeganistão – com ambos, Índia e Paquistão também a bordo –, que transcenda o "remédio" sempre fracassado do Pentágono: mais soldados.

OTAN, por falar dela, perdeu miseravelmente a guerra que fez no Afeganistão. Os Talibã controlam hoje pelo menos 60% do país – e continuam a avançar. E para acrescentar insulto supremo a ofensa previsível, o Estado Islâmico do Corasan, EIC – braço do Daech no Afeganistão – acaba de capturar Tora Bora, onde, nos meses finais de 2001, os B-52s do Pentágono insistiam em bombardear Osama bin Laden e Ayman al-Zawahiri, que já estavam muito longe de lá.

Que ninguém se engane: a OCX agirá, sim, no Afeganistão. E essa ação incluirá levar os Talibã à mesa de negociações. A China acaba de assumir a presidência rotativa da OCX e se empenhará para colher resultados práticos a exibir na próxima reunião de cúpula em junho de 2018.

Ponha o pé no gás, pague em yuan

A OCX evoluiu muito também em termos de cooperação econômica. Ano passado, Gu Xueming, presidente da Academia Chinesa de Comércio e Cooperação Econômica Internacionais no Ministério do Comércio, propôs que se faça uma aliança com um think-tank econômico da OCX, também para estudar a implantação de zonas de livre comércio da própria Organização de Cooperação de Xangai.

É movimento que sugere fortemente integração econômica ainda maior – que já está em curso para muitos negócios de pequeno e médio porte. A tendência é inevitável, paralela à interpenetração das Novas Rotas da Seda, também chamadas "Iniciativa Cinturão e Estrada", ICE, e a União Econômica Eurasiana, UEE, liderada pela Rússia.

Assim sendo, nem chega a ser surpresa que, na reunião em Astana, Xi e o presidente Putin mais uma vez tenham promovido a possibilidade de fusão entre ICE e UEE. E ainda não estamos falando do trio ICE, UEE e OCX – o que diz respeito ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, BAII; o Novo Banco de Desenvolvimento, NBD; o Fundo Chinês da Rota da Seda – todo um potente arranjo de mecanismos político-econômicos.

As coisas movem-se com incrível rapidez – em todos os fronts. Numa recente conferência "Future of Asia" em Tóquio, o suposto ferozmente anti-China primeiro-ministro Shinzo Abe anunciou, embora ainda sujeito a muitas condições, que o Japão está pronto a cooperar com a ICE, com seu "potencial para conectar Oriente e Ocidente, e também as diversas regiões que há entre um e outro." Um possível reset China-Japão daria impulso definitivo à interpenetração de ICE, UEE e OCX.

Crucialmente importante é que ambas
China e Rússia estão em perfeita harmonia em termos de aprovar rapidamente a admissão do Irã como membro pleno da OCX.

Agora, comparem esse tipo de projeto-ação, com o secretário de Estado "T.Rex" Tillerson a 'exigir'
mudança de regime no Irã.

Com a integração da Eurásia avançando inexoravelmente por saltos e elos, o contraste com a proverbialmente pantanosa e repugnante arrogância atlanticista não poderia ser mais flagrante.

Quando Moscou decidiu a favor de agir na tragédia síria e mudar aquele jogo, nenhum analista no ocidente, exceto
Alastair Crooke, viu o quanto esse movimento configurava uma espécie de operação 'estilo-OCX'. OK, Irã, Síria e Hezbollah não são membros da OCX, mas o modo como coordenaram seus movimentos com os russos já evidenciava uma alternativa factível, diferente do imperialismo 'humanitário' da OTAN e das aventuras tipo 'mudança de regime'.

O mecanismo "4+1" – Rússia, Irã, Iraque, Síria e Hezbollah – silenciosamente apoiado pela China foi instituído para combater todas as formas de terrorismo jihadista salafista e, ao mesmo tempo, para prevenir qualquer tentativa de 'mudar o regime' em Damasco – sonho molhado da OTAN-CCG.

Agora, com a estrambótica política exterior de Trump, em que nada se coordena com coisa alguma, exceto com provocar o Irã, ambos os países, Rússia e China, compreendem como é realmente chave que o Irã torne-se, sem demora, membro pleno da OCX.

Pequim já compreendeu, via suas relações com o Qatar – fornecedor chave de gás natural –, as apostas extremamente altas de o Qatar, mais dia menos dia,
aceitar pagamento em yuan, pela energia.

O silencioso movimento de pivô do Qatar na direção do Irã – razão chave que enlouqueceu completamente a já encurralada Casa de Saud – tem tudo a ver com a exploração em comum do maior campo de gás do mundo, North Dome/South Pars, que os dois países partilham no Golfo Persa.

Demorou um pouco para que Doha se desse conta de que, depois que os "4+1" estabeleceram fatos em campos, um gasoduto do Qatar até a Turquia via Arábia Saudita e Síria até o mercado europeu jamais acontecerá. Ancara também sabe disso. Mas pode talvez eventualmente haver um gasoduto Irã-Iraque-Síria – mesmo com uma possível extensão para a Turquia —, de gás fornecido conjuntamente pelo campo North Dome/South Pars.

Esse evento revolucionaria toda a equação da energia no Sudoeste da Ásia; e a hegemonia do petrodólar pode bem ser principal 'dano colateral' nesse quadro, o qual Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos aceitam devidamente.

Imaginem Qatar/Irã vendendo seu futuro gás para a Europa em euros, não em dólares norte-americanos, bem como os chineses que passarão a pagar em yuan, a energia que comprarem do Qatar – e da Arábia Saudita.

Que ninguém se engane: o futuro – inexorável – indica que o comércio de energia deixará de ser feito em petrodólares, para ser feito em yuan, moeda que pode ser convertida em
ouro.

Longa vida ao novo Califato

Jamais será demais destacar a importância da parceria estratégica Rússia-China coordenando todas as suas políticas para a integração da Eurásia, inclusive com os incansáveis esforços, pelos suspeitos de sempre, para impedir que a integração aconteça.

Durante a primeira metade de 2017, a hipótese de trabalho de Moscou e Pequim foi que o governo Trump teria interesse em assumir a Rússia como parceira para novos projetos de petróleo e gás na Eurásia. Ideia
de traços Kissingerianos, sugerida a Trump, a parceria estratégica Rússia-China seria assim enfraquecida, com Washington aumentando a pressão em múltiplas frentes, sobre Pequim.

Bem, talvez não aconteça já – se se considera a enlouquecida vasta histeria anti-Rússia que consome o governo dos EUA.

O que continua é a Guerra Global ao Terror, GGaT, corolário da política de Trump: conter – por todos os meios necessários – e impedir que avance a influência já crescente do Irã em todo o Sudoeste da Ásia. Para isso, é preciso inflar o poder geopolítico do CCG – comandado pela nociva Casa de Saud.

Isso explicaria o surto entusiástico de Trump, no Twitter, a favor da guerra relâmpago da Casa de Saud contra o Qatar – que se desdobra em movimento contra o Irã. Pequim, por sua vez, observa de perto, e já identificou a coisa pelo que realmente é: tentativa de perturbar o avanço das Novas Rotas da Seda.

Ao mesmo tempo, Pequim e Moscou não podem deixar de observar com gosto as flagrantes inconsistências. O Pentágono não parece inclinado a anexar o resto do Qatar; bastam a base aérea Al Udeid e o quartel-general do Centcom. O chefe do Pentágono, Mattis "Cachorro Louco" adorou vender $12 bilhões em F-15s para Doha "apoiadora de terroristas". Trump "apoia" a Casa de Saud. Mattis "Cachorro Louco" "apoia" Doha. Tillerson declara-se superior e abre mão de escolher lado.

O CCG como o conhecemos pode já estar morto e enterrado – como também o embrião de 'OTAN Árabe' que Trump tanto festejou com aquela patética
dança das espadas em Riad. Mesmo assim, Moscou e Pequim – como também Teerã – estão perfeitamente conscientes de como esses revezes só farão exacerbar o ambiente no Excepcionalistão, codinome, o pântano; codinome, o estado profundo; para que subam as apostas e os riscos, e continuem a gerar conflito e tumulto.

O Califato no deserto do "Siriaque" está morto – especialmente se os russos confirmarem que o
próprio Califa foi-se mandado encontrar o Criador. Não é bom – porque uma Síria totalmente desestabilizada seria excelente para desestabilizar a Rússia, do Cáucaso à Ásia Central; a inteligência russa sempre se concentrou naqueles 900 km, de Aleppo a Grozny.

Como o Terminator, o estado profundo dos EUA voltará. Um sonho molhado ampliado ainda é criar as condições para a desestabilização de vasta faixa, do Levante ao Sul da Ásia — com possíveis futuras ondas de terror a se expandirem para o norte da Rússia e leste, para a China. O alvo: a interpenetração de ICE, UEE e OCX.

Para completar, o Pentágono recusar-se-á a abandonar o Afeganistão – cabeça de ponte para gerar tumulto e caos na Ásia Central. O que poderia talvez dar errado?! Afinal, o Daech está virtualmente plantado na Ásia Central, não distante de Xinjiang e do Corredor Econômico China-Paquistão (CECP) – nodo chave da Iniciativa Cinturão e Estrada.

Ainda assim, a guerra relâmpago dos sauditas contra o Qatar – que parece estar continuando – pode, no médio prazo, precipitar uma mudança sísmica, acelerando a entrada para a Organização de Cooperação de Xangai, do Irã e também da Turquia; consolidando o movimento de pivô de Doha na direção de uma entente com Rússia e Irã; e antecipando golpe grave na hegemonia do petrodólar. Tudo isso deve ter sido discutido em detalhes na reunião de cúpula da OCX em Astana – sobretudo no encontro bilateral Putin-Xi.

Com o Excepcionalistão mais errático a cada dia, todas as decisões estratégicas chaves ficarão para Xi-Putin – e ambos sabem disso. Certo é que a OCX com certeza se envolverá mais e mais profundamente nas ações para proteger o projeto chave do jovem século 21: a integração da Eurásia.*****


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