sexta-feira, 23 de junho de 2017

23/6 - PARA RECORDAR: Altamiro Borges DE 30/4

Altamiro Borges


Posted: 30 Apr 2017 08:55 AM PDT
Por Altamiro Borges

“Se acreditais que enforcando-nos podeis conter o movimento operário, esse movimento constante em que se agitam milhões de homens que vivem na miséria, os escravos do salário; se esperais salvar-vos e acreditais que o conseguireis, enforcai-nos! Então vos encontrarei sobre um vulcão, e daqui e de lá, e de baixo e ao lado, de todas as partes surgirá a revolução. É um fogo subterrâneo que mina tudo”. Augusto Spies, 31 anos, diretor do jornal Diário dos Trabalhadores.

"Se tenho que ser enforcado por professar minhas idéias, por meu amor à liberdade, à igualdade e à fraternidade, então nada tenho a objetar. Se a morte é a pena correspondente à nossa ardente paixão pela redenção da espécie humana, então digo bem alto: minha vida está à disposição. Se acreditais que com esse bárbaro veredicto aniquilais nossas idéias, estais muito enganados, pois elas são imortais''. Adolf Fischer, 30 anos, jornalista.


“Em que consiste meu crime? Em ter trabalhado para a implantação de um sistema social no qual seja impossível o fato de que enquanto uns, os donos das máquinas, amontoam milhões, outros caem na degradação e na miséria. Assim como a água e o ar são para todos, também a terra e as invenções dos homens de ciência devem ser utilizadas em benefício de todos. Vossas leis se opõem às leis da natureza e utilizando-as roubais às massas o direito à vida, à liberdade e ao bem-estar”. George Engel, 50 anos, tipógrafo.

“Acreditais que quando nossos cadáveres tenham sido jogados na fossa tudo terá se acabado? Acreditais que a guerra social se acabará estrangulando-nos barbaramente. Pois estais muito enganados. Sobre o vosso veredicto cairá o do povo americano e do povo de todo o mundo, para demonstrar vossa injustiça e as injustiças sociais que nos levam ao cadafalso”. Albert Parsons lutou na guerra da secessão nos EUA.

As corajosas e veementes palavras destes quatro líderes do jovem movimento operário dos EUA foram proferidas em 20 de agosto de 1886, pouco após ouvirem a sentença do juiz condenando-os à morte. Elas estão na origem ao 1º de Maio, o Dia Internacional dos Trabalhadores. Na atual fase da luta de classes, em que muitos aderiram à ordem burguesa e perderam a perspectiva do socialismo, vale registrar este marco histórico e reverenciar a postura classista destes heróis do proletariado. A sua saga serve de referência aos que lutam pela superação da barbárie capitalista.

A origem do 1º de Maio está vinculada à luta pela redução da jornada de trabalho, bandeira que mantém sua atualidade estratégica. Em meados do século XIX, a jornada média nos EUA era de 15 horas diárias. Contra este abuso, a classe operária, que se robustecia com o acelerado avanço do capitalismo no país, passou a liderar vários protestos. Em 1827, os carpinteiros da Filadélfia realizaram a primeira greve com esta bandeira. Em 1832, ocorre um forte movimento em Boston que serviu de alerta à burguesia. Já em 1840, o governo aprova o primeiro projeto de redução da jornada para os funcionários públicos.

Greve geral pela redução da jornada

Esta vitória parcial impulsionou ainda mais esta luta. A partir de 1850, surgem as vibrantes Ligas das Oito Horas, comandando a campanha em todo o país e obtendo outras conquistas localizadas. Em 1884, a Federação dos Grêmios e Uniões Organizadas dos EUA e Canadá, futura Federação Americana do Trabalho (AFL), convoca uma greve nacional para exigir a redução para todos os assalariados, “sem distinção de sexo, ofício ou idade”'. A data escolhida foi 1º de Maio de 1886 - maio era o mês da maioria das renovações dos contratos coletivos de trabalho nos EUA.

A greve geral superou as expectativas, confirmando que esta bandeira já havia sido incorporada pelo proletariado. Segundo relato de Camilo Taufic, no livro “'Crônica do 1º de Maio”, mais de 5 mil fábricas foram paralisadas e cerca de 340 mil operários saíram às ruas para exigir a redução. Muitas empresas, sentindo a força do movimento, cederam: 125 mil assalariados obtiveram este direito no mesmo dia 1º de Maio; no mês seguinte, outros 200 mil foram beneficiados; e antes do final do ano, cerca de 1 milhão de trabalhadores já gozavam do direito às oito horas.

“Chumbo contra os grevistas”, prega a imprensa

Mas a batalha não foi fácil. Em muitas locais, a burguesia formou milícias armadas, compostas por marginais e ex-presidiários. O bando dos “'Irmãos Pinkerton” ficou famoso pelos métodos truculentos utilizados contra os grevistas. O governo federal acionou o Exército para reprimir os operários. Já a imprensa burguesa atiçou o confronto. Num editorial, o jornal Chicago Tribune esbravejou: “O chumbo é a melhor alimentação para os grevistas. A prisão e o trabalho forçado são a única solução possível para a questão social. É de se esperar que o seu uso se estenda”.

A polarização social atingiu seu ápice em Chicago, um dos pólos industriais mais dinâmicos do nascente capitalismo nos EUA. A greve, iniciada em 1º de Maio, conseguiu a adesão da quase totalidade das fábricas. Diante da intransigência patronal, ela prosseguiu nos dias seguintes. Em 4 de maio, durante um protesto dos grevistas na Praça Haymarket, uma bomba explodiu e matou um policial. O conflito explodiu. No total, 38 operários foram mortos e 115 ficaram feridos.

Os oito mártires de Chicago

Apesar da origem da bomba nunca ter sido esclarecida, o governo decretou estado de sítio em Chicago, fixando toque de recolher e ocupando militarmente os bairros operários; os sindicatos foram fechados e mais de 300 líderes grevistas foram presos e torturados nos interrogatórios. Como desdobramento desta onda de terror, oito líderes do movimento - o jornalista Auguste Spies, do “'Diário dos Trabalhadores”', e os sindicalistas Adolf Fisher, George Engel, Albert Parsons, Louis Lingg, Samuel Fielden, Michael Schwab e Oscar Neebe - foram detidos e levados a julgamento. Eles entrariam para a história como “Os Oito Mártires de Chicago”.

O julgamento foi uma das maiores farsas judiciais da história dos EUA. O seu único objetivo foi condenar o movimento grevista e as lideranças anarquistas, que dirigiram o protesto. Nada se comprovou sobre os responsáveis pela bomba ou pela morte do policial. O juiz Joseph Gary, nomeado para conduzir o Tribunal Especial, fez questão de explicitar sua tese de que a bomba fazia parte de um complô mundial contra os EUA. Iniciado em 17 de maio, o tribunal teve os 12 jurados selecionados a dedo entre os 981 candidatos; as testemunhas foram criteriosamente escolhidas. Três líderes grevistas foram comprados pelo governo, conforme comprovou posteriormente a irmã de um deles (Waller).

A maior farsa judicial dos EUA

Em 20 de agosto, com o tribunal lotado, foi lido o veredicto: Spies, Fisher, Engel, Parsons, Lingg, Fielden e Schwab foram condenados à morte; Neebe pegou 15 anos de prisão. Pouco depois, em função da onda de protestos, Lingg, Fielden e Schwab tiveram suas penas reduzidas para prisão perpétua. Em 11 de novembro de 1887, na cadeia de Chicago, Spies, Fisher, Engel e Parsons foram enforcados. Um dia antes, Lingg morreu na cela em circunstâncias misteriosas; a polícia alegou “suicídio”. No mesmo dia, os cinco “'Mártires de Chicago” foram enterrados num cortejo que reuniu mais de 25 mil operários. Durante várias semanas, as casas proletárias da região exibiram flores vermelhas em sinal de luto e protesto.

Seis anos depois, o próprio governador de Illinois, John Altgeld, mandou reabrir o processo. O novo juiz concluiu que os enforcados não tinham cometido qualquer crime, “tinham sido vitimas inocentes de um erro judicial”. Fielden, Schwab e Neebe foram imediatamente soltos. A morte destes líderes operários não tinha sido em vão. Em 1º de Maio de 1890, o Congresso dos EUA regulamentou a jornada de oito horas diárias. Em homenagem aos seus heróis, em dezembro do mesmo ano, a AFL transformou o 1º de Maio em dia nacional de luta. Posteriormente, a central sindical, totalmente corrompida e apelegada, apagaria a data do seu calendário.

Em 1891, a Segunda Internacional dos Trabalhadores, que havia sido fundada dois anos antes e reunia organizações operárias e socialistas do mundo todo, decidiu em seu congresso de Bruxelas que “no dia 1º de Maio haverá demonstração única para os trabalhadores de todos os países, com caráter de afirmação de luta de classes e de reivindicação das oito horas de trabalho”. A partir do congresso, que teve a presença de 367 delegados de mais de 20 países, o Dia Internacional dos Trabalhadores passou a ser a principal referência no calendário de todos os que lutam contra a exploração capitalista.

*****

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Posted: 30 Apr 2017 08:42 AM PDT
Por Luis Nassif, no Jornal GGN:



Circula na Internet um vídeo editado de palestra que proferi no mês passado em um evento em São Paulo. O vídeo é fiel ao que eu disse. Mas o título e o texto podem induzir a conclusões taxativas que não fiz ou passar a ideia de que o vídeo faz parte dessas guerrilhas que ocorrem periodicamente em redes sociais. As informações foram divulgadas em 2014 e 2015. Estão sendo agitadas agora.

O trecho em questão faz parte de um seminário no mês passado, do qual participei com a colega Helena Chagas.

Limitei-me a apontar indícios, indícios fortes, sem dúvida, que merecem ser investigados, mas não acusações frontais.

Aqui, o que falei sobre o tema, não editado.

A história é a seguinte.

Historicamente, as APAEs (Associações de País e Amigos de Excepcionais) fizeram-se contando, na ponta, com cidadãos bem intencionados, mas passando a trabalhar com recursos públicos, sem prestar contas para os órgãos formais de controle.

Essas liberalidades abriram espaço para desvios e uma utilização política da estrutura das APAEs, através da Confederação e das Federações estaduais de APAEs, incluindo a do Paraná.

Na sua gestão, o ex-Ministro da Educação Fernando Haddad decidiu assumir a tese da educação inclusiva – segundo a qual, o melhor local para desenvolvimento de crianças com necessidades especiais seria as escolas convencionais, convivendo com crianças sem problemas.

Sabendo da resistência que seria feita pelas APAEs – já que a segregação de crianças com deficiência, apesar de tão anacrônica quanto os antigos asilos para tuberculoses, é o seu negócio – Haddad pensou em um modelo de dupla matrícula: a escola pública que acolhesse um aluno com deficiência receberia 1,3 vezes o valor original da matrícula; e uma segunda matrícula de 1,3 se houvesse um projeto pedagógico específico para aquela criança. Imaginava-se que essa parcela seria destinada à APAE de cada cidade, atraindo-a para os esforços de educação inclusiva.

As APAEs mais sérias, como a de São Paulo, aderiram rapidamente ao projeto, sabendo que a educação inclusiva é pedagogicamente muito superior ao confinamento das pessoas, tratadas como animais.

O jogo das Federações de APAES foi escandaloso. Trataram de pressionar o Congresso para elas próprias ficarem com as duas matrículas, preservando o modelo original.

O ápice desse jogo é a proposta do inacreditável senador Romário, nesses tempos de leilão escancarado de recursos públicos, visando canalizar para as APAEs e Institutos Pestalozzi todos os recursos da educação inclusiva.

É um jogo tão pesado que, na época da votação do Plano Nacional da Educação, a própria Dilma Rousseff pressionou senadores a abrandar a Meta 4, que tratava justamente da educação inclusiva, com receio de que as APAEs do Paraná boicotassem a candidatura da então Ministra-Chefe da Casa Civil Gleise Hoffmann.

O caso do Paraná

Comecei a acompanhar o tema através da procuradora da República Eugênia Gonzaga, uma das pioneiras da luta pela educação inclusiva.

Em 2002, Eugenia levantou princípios constitucionais - do direito à educação - para forçar o poder público a preparar a rede para crianças com deficiência. Na ocasião, foi alvo de 3.500 ações judiciais de APAEs de todo o país.

No auge da pressão política das APAEs, ainda no governo Dilma, decidi investigar o tema.

As APAEs tem dois lobistas temíveis. A face "boa" é a do ex-senador Flávio Arns, do Paraná; a agressiva de Eduardo Barbosa, mineiro, ex-presidente da Federação das APAEs, que pavimentou sua carreira política com recursos das APAEs.

Uma consulta ao site da Secretaria da Educação do Paraná confirmou o extraordinário poder de lobby das APAEs. O então Secretário de Educação Flávio Arns direcionou R$ 450 milhões do estado para as APAEs, com o objetivo de enfrentar a melhoria do ensino inclusivo da rede federal.

No próprio site havia uma relação de APAEs. Escolhi aleatoriamente uma delas, Nova California.

Indo ao seu site constatei que tinha um clube social, com capacidade para 2.500 ou 4.500 pessoas; uma escola particular. Tudo em cima das isenções fiscais e dos repasses públicos dos governos federal e estadual.

O argumento era o de que o clube era local para os professores poderem confraternizar com a comunidade; e a escola privada para permitir aos alunos com necessidades especiais conviverem com os demais.

Telefonei para a escola. Não havia ninguém da direção. Atendeu uma senhora da cozinha. Indaguei como era o contato dos alunos com deficiência e os da escola convencional. Respondeu-me que havia um encontro entre eles, uma vez por ano.

A república dos Arns

As matérias sobre as APAEs, especialmente sobre o caso Paraná, tiveram desdobramentos. Um dos comentários postados mencionava o controle das ações das APAEs do estado pelo escritório de um sobrinho de Flávio, Marlus Arns.

Entrei no site do Tribunal de Justiça. Praticamente toda a ação envolvendo as APAEs tinha na defesa o escritório de Marlus.

Uma pesquisa pelo Google mostrou um advogado polêmico, envolvido em rolos políticos com a Copel e outras estatais paranaenses, obviamente graças à influência política do seu tio Flávio Arns.

Quando a Lava Jato ganha corpo, as notícias da época falavam da esposa de Sérgio Moro. E foi divulgada a informação de que pertencia ao jurídico da Federação das APAEs do estado.

Por si, não significava nada.

No entanto, logo depois veio a dica de um curso de direito à distância, de propriedade de outro sobrinho de Flávio Arns, irmão de Marlus, o Cursos Online Luiz Carlos (http://www.cursoluizcarlos.com.br).. No corpo docente do cursinho, pelo menos um da força tarefa da Lava Jato.

Finalmente, quando Beatriz Catta Preta desistiu de participar dos acordos de delação, um novo elo apareceu. Até hoje não se sabe o que levou Catta Preta a ser tão bem sucedida nesse mercado milionário. Nem o que a levou a sair do Brasil. Mas, saindo, seu lugar passou a ser ocupado justamente por Marlus Arns que, pouco tempo antes, escrevera artigos condenando o instituto da delação premiada.

São esses os elementos de que disponho.

Recentemente, fui convidado pela Polícia Federal para um depoimento em um inquérito que apura um suposto dossiê criado pela inteligência da PF supostamente para detonar com a Lava Jato – conforme acusações veiculadas pela Veja.

Fui informado sobre o dossiê na hora do depoimento. Indagaram se eu tinha tomado conhecimento das informações.

Informei que o dossiê tinha se limitado a reproduzir os artigos que escrevi acerca da República dos Arns.

http://jornalggn.com.br/noticia/a-historia-do-novo-campeao-das-delacoes-premiadas 10/8/2015

http://jornalggn.com.br/noticia/a-lava-jato-e-a-influente-republica-dos-arns de 1/10/2015
Posted: 30 Apr 2017 08:18 AM PDT
Por Marcelo Auler, em seu blog:

Em uma postagem na sexta-feira, dia 28/04, anunciei “Temer perdeu! Com ele a Câmara e a mídia“. Mostrei que, independentemente do sucesso que a greve teve, só os preparativos davam outra dimensão à luta política que estamos vivenciando. Apontei ainda, junto com Temer, a Câmara dos Deputados, em especial os parlamentares que aprovaram a Reforma Trabalhista, assim como a chamada mídia tradicional, também perderam. Os primeiros por aprovarem um Projeto de Lei que vai contra os interesses dos brasileiros, o que certamente refletirá nas próximas eleições. Já jornais e televisão, por terem tentado esconder uma movimentação que deu certo e que, ao dar certo, desmoralizou ainda mais o papel deles na sociedade atual

Na sexta-feira eu estava em São Paulo. Passei o dia no computador, escrevendo e declarando imposto de renda. Não vi televisão, não circulei em manifestações, fiquei apenas com noticiário da internet. Depois, li em alguns lugares que a TV Globo – sempre ela – foi obrigada a recuar e noticiar no Jornal Nacional a greve como greve. Fui verificar nos vídeos da internet e continuo discordando. A Globo deixou de fazer jornalismo. A omissão da grande imprensa foi comentada em diversos artigos aqui na Internet, mas destaco em especial A Globo, a população, o serviço de utilidade pública, a notícia e a Greve Geral, por Alexandre Tambelli, publicado no Jornal GGN.

Neste domingo (30/04), Luiz Carlos Azenha, em Viomundo, escreve uma excelente análise com base no que ele mesmo presenciou em 1983, quando pertencia à redação da TV – Na histórica Greve Geral de 2017, Globo fez pior do que nas Diretas Já de 1984. Foi reproduzido por Luis Nassif no Jornal GGN, e aqui destaco dois trechos:

“A maneira como a TV Globo tratou a histórica Greve Geral do 28 de abril de 2017 é, na minha avaliação, muito pior do que aconteceu com a cobertura das Diretas Já em 1983/1984 (…..) Agora, porém, não tem como se esconder atrás da ditadura, da qual foi a principal beneficiária, como fez em 1984. Agora, fez mau jornalismo - distorcido, omisso, descontextualizado - porque coloca seus interesses empresariais, representados pelo governo Temer, acima do interesse da maioria dos brasileiros”.

Recorri à internet, por recomendação de uma querida amiga, e assisti ao Jornal Nacional de sexta-feira e de sábado para verificar o que ela disse ter sido “interessante” na mudança de comportamento da emissora com relação à greve.

Não me satisfez. Tentaram apenas remendar o erro maior, já abordado por Tambelli. Sobre o que vi, comentei com a minha amiga e aqui reproduzo, com pequenos acréscimos:

1 – O Jornal Nacional todo foi basicamente em cima da paralisação dos motoristas de ônibus, das barreiras impedindo o ir e vir, e de serviços que a população não contou;
2 – Todas as referências à greve foram no sentido do movimento chamado pelas centrais sindicais.
3 – Na hora de debater as mudanças trabalhistas, além de ter sido algo muito reduzido para o tamanho do estrago que essas mudanças causarão, ouviu-se apenas governo e centrais sindicais.

Em cima disso, questiono?

1 – A OAB e a CNBB foram favoráveis à greve, mas a emissora nem sequer falou das duas. Por que da omissão? Ou seja, a TV Globo errou, pois não foram só as centrais sindicais que convocaram o movimento. Seus telespectadores, novamente foram mal informados;

2 – Ministros do Tribunal Superior do Trabalho (TST), desembargadores dos Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs) e procuradores do Ministério Público do Trabalho (MPT) também apoiaram a greve, inclusive suspendendo expediente. A própria Procuradoria Geral da República não funcionou. Faltaram motoristas. Assessores e servidores paralisaram seus trabalhos com o consentimento e apoio da maioria dos procuradores. Tudo isso foi totalmente ignorado. Não era notícia?

3 – As críticas às mudanças da CLT são amplas, inclusive por muitos membros da Justiça do Trabalho, como desembargadores, juízes, procuradores do Trabalho e advogados. São muitas as notas mostrando onde é que a mudança que o governo Temer defende gerará retrocessos e prejuízos à classe trabalhadora e também à economia brasileira. Tudo isso passou ao largo no noticiário da TV Globo. Não ouviram esses críticos e sequer os citaram ao debaterem essas mudanças. Por que da omissão? O papel da imprensa não é mostrar todas as opiniões e divergências sobre um tema?

4 – Em Brasília, o governo não funcionou? Ao que consta, não. Aliás, com a ajuda dos próprios governantes, que montaram tapumes nos ministérios e criaram barreiras na Esplanada. Mas à TV Globo só interessava mostrar que escolas, postos de saúde e o transporte público paralisaram. O tempo inteiro dando a entender que a paralisação foi consequência da falta de condução. Não de uma opção voluntária dos trabalhadores.

5 – Curiosamente, nenhuma equipe do jornalismo da maior rede de TV do país – que são concessões públicas, recorde-se – visitou a porta de uma fábrica. Não houve um balanço isento de que indústrias funcionaram ou deixaram de fazê-lo. Provavelmente medo de mostrar a dimensão da paralisação.

Questiono ainda: e as decisões de órgãos públicos suspendendo as atividades, não por falta de transporte, mas pelo reconhecimento do legítimo direito à greve? Isso não interessa aos ouvintes da emissora? Mais parece que não interessa à emissora.

Ou seja, a Globo, que segundo consta durante o dia teria evitado em falar de greve, teve que recuar diante do tamanho do movimento. Mas o fez de forma capenga e sem realmente mostrar a dimensão do que ocorreu. Não fez jornalismo.

Hoje, domingo, o assunto é abordado – e muito bem – por Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha de S. Paulo, em uma análise mais ampla da cobertura que o jornal deu, mas que vale, no meu entendimento, para toda a chamada grande imprensa.

Do comentário que fecha o artigo dela, adaptei o título dessa matéria. Ela diz:

“Na sexta-feira, o bom jornalismo aderiu à greve geral. Não compareceu para trabalhar.”

Não sou de republicar integra de artigos escritos pelos outros. Costumo dar o link, para respeitar o autor e levar leitores às páginas do original. Mas muitos dos meus poucos leitores não teriam acesso ao texto, pois ele só é aberto a assinantes. E como a Folha não precisa de leitores, peço desculpas à Paula e republico abaixo a integra. Os grifos são meus:

*****

“Assim como a de milhões de brasileiros, minha rotina diária foi alterada pela greve geral da sexta-feira, 28. Lojas de que precisei estavam fechadas; no supermercado, o gerente disse que apenas um terço dos funcionários comparecera; a experiência nos aeroportos de amigos e familiares que viajaram foi sofrida, apesar de a Folha ter dito que os aeroportos funcionaram normalmente. Pode não ter sido um caos, mas normal não foi.

De modo geral, esse foi o problema da cobertura da greve geral convocada contra as reformas da Previdência e das leis trabalhistas. Focou a alteração da rotina das cidades, de modo previsível, sem inventividade nem relatos ricos.

Em suma, os jornais se concentraram no impacto sobre as árvores e deixaram de abordar a situação da floresta. A velha imagem é eficiente por condensar a mensagem de modo tão claro.

Um parágrafo do editorial da Folha trazia o resumo do que pretendo dizer quando cobro abordagem mais ampla: “Em nenhum país do mundo, propostas de redução de direitos relativos à aposentadoria contarão com apoio popular. Governantes, em geral, só as apresentam quando as finanças públicas já estão em trajetória insustentável. Este é, sem dúvida, o caso do Brasil”.

Essa é a visão da floresta que deveria ser discutida nos jornais. É preciso acrescentar que a discussão sobre a reforma trabalhista é também uma discussão sobre perda de direitos, contraposta à possibilidade de dinamização e crescimento do mercado do trabalho – promessa de comprovação difícil. Esses são os dois lados da moeda.

Pode-se até afirmar que essa discussão está presente no jornal. Não com a clareza do dilema exposto pelo editorial da Folha: está em jogo a perda de direitos em nome do ajuste fiscal. Jornais estrangeiros assim enquadraram a manifestação. A imprensa brasileira abriu mão da discussão sobre a floresta.

A greve geral convocada por centrais sindicais e movimentos de esquerda mostrou que a mídia precisa se qualificar para esse tipo de cobertura, complexa e de altíssimo interesse do público leitor.

Quase em uníssono, os três principais jornais destacaram nas manchetes de suas edições impressas o efeito no transporte e a violência com que terminaram manifestações em São Paulo e no Rio.

Será que o vandalismo em pontos isolados do Rio e de São Paulo era notícia a destacar em enunciado de manchete, se a própria Folha escreveu que a calmaria reinou durante quase todo o dia? Por que valorizar as cenas de confronto, em vez de imagens que pudessem, por exemplo, mostrar o que diziam as faixas levadas às manifestações.

A greve paralisou, segundo o noticiário da Folha, parcialmente as atividades nas principais capitais do país e em ao menos 130 municípios, em todos os Estados e no Distrito Federal. Os organizadores classificam como a maior greve da história do país: cerca de 40 milhões paralisaram suas atividades.

Não há reportagem ou quadro na edição que diga qual era exatamente o objetivo da greve ou, se fosse o caso, a análise de seu impacto nos objetivos do movimento.

Há dois pontos básicos a que o jornal, na minha avaliação deveria ter respondido:

Qual foi o tamanho da paralisação? Era preciso encontrar parâmetros que permitissem ao leitor entender o que foi o movimento de agora em comparação com convocações anteriores.

Quais as possíveis consequências da greve? Terá algum efeito em seu objetivo principal de parar a tramitação das reformas trabalhista e da Previdência, obrigando Executivo e Legislativo a negociar com a sociedade e os sindicatos?

Eram desafios difíceis, mas a imprensa não conseguiu nem chegar perto de enfrentá-los.

À exceção dos colunistas André Singer e Demétrio Magnoli, não houve tentativa de interpretação do que aconteceu. Cientistas políticos, sociólogos e analistas não estão nas páginas da Folha ajudando a entender o que aconteceu e o que pode vir a acontecer.

Deputados e senadores não se manifestaram de forma a sinalizar se o protesto pode vir a ter algum efeito objetivo nos projetos em discussão. Apenas o governo federal fala, expressando a óbvia e obrigatória avaliação de que adesão foi pequena, fracassou.

Ainda há muito a aprender e a ser desenvolvido em cobertura de casos dessa magnitude.

Na sexta-feira, o bom jornalismo aderiu à greve geral. Não compareceu para trabalhar“.
Posted: 30 Apr 2017 08:05 AM PDT
Por Luiz Carlos Azenha, no blog Viomundo:

Em 1983 eu era repórter da TV Bauru, afiliada da Globo no interior paulista. Porém, vivia “cedido” à emissora em São Paulo, cobrindo férias de colegas. Morava no Hotel Eldorado da rua Marquês de Itu, no Higienópolis, na capital paulista, como repórter do chão de fábrica.

Fui, como pessoa física, à primeira manifestação pelas Diretas Já em São Paulo, diante do estádio do Pacaembu, à qual compareceram cerca de 15 mil pessoas. Foi em 27 de novembro de 1983, poucos dias depois de meu aniversário.

Outros protestos já tinham acontecido antes, pedindo que a ditadura estabelecida em 1964 tivesse fim com eleições presidenciais diretas. Outras aconteceriam depois, com destaque para Curitiba, onde se reuniram cerca de 40 mil pessoas.

Portanto, posso dizer que eu estava lá vivendo a realidade paralela pela primeira vez: enquanto as notícias fundamentais para o futuro do Brasil aconteciam do lado de fora, a TV Globo desconhecia as notícias do lado de dentro - especificamente, na sede da emissora em São Paulo, na praça Marechal Deodoro.

Era uma sensação bizarra. As ordens vinham do Rio: na Globo, nada de Diretas Já.

Portanto, não houve exatamente surpresa quando, no aniversário de São Paulo, em 25 de janeiro de 1984, o repórter Ernesto Paglia falou sobre a manifestação de cerca de 300 mil pessoas na praça da Sé, que reivindicava outra vez Diretas Já, como se fosse a comemoração da efeméride. Sim, é fato que a reportagem tratou dos discursos e da manifestação em si, mas foi embalada pelos editores, a mando da direção da Globo no Rio, como se fosse a cobertura de uma festa.

A maneira como a TV Globo tratou a histórica Greve Geral do 28 de abril de 2017 é, na minha avaliação, muito pior do que aconteceu com a cobertura das Diretas Já em 1983/1984.

Àquela época, a emissora poderia alegar - como alguns globais chegaram a alegar - que vivíamos os estertores de uma ditadura militar e que desafiar o regime poderia ter consequências para a própria abertura “lenta, gradual e segura” prometida pelo ditador João Figueiredo.

Agora, não. Graças às redes sociais - facebook, twitter, whatsapp - qualquer pessoa pode avaliar o grau de descontentamento com as medidas de impacto social tomadas por um governo que tem o presidente da República e nove de seus ministros sob suspeita e/ou investigação, medidas que por sua vez são submetidas a um Congresso igualmente sob suspeita.

Mesmo os mais devotos apoiadores do impeachment de Dilma Rousseff e antipetistas vários sabem que Michel Temer não foi eleito vice-presidente para tomar o rumo que tomou, nem tem legitimidade para golpear os direitos sociais da forma como pretende fazê-lo.

Age em nome do 1% do topo, com 4% de ótimo/bom na pesquisa de opinião pública mais recente e desemprego na casa dos 14%, quando a promessa era de que a derrubada de Dilma provocaria um cavalo-de-pau imediato na economia.

Portanto, desta feita a TV Globo e seus satélites não tem onde se esconder: o apoio dado às medidas do governo Temer expressa acima de tudo o interesse político e econômico dos próprios donos da mídia e dos usurpadores do poder no Planalto e no Congresso que os representam.

No caso da emissora, é absolutamente impossível do ponto-de-vista jornalístico que uma organização com tantos tentáculos espalhados por todo o Brasil tenha sido incapaz de registrar o descontentamento popular ANTES da greve geral, de forma a expressá-lo em seu noticiário.

Será que só nós, internautas, vimos por exemplo as manifestações da CNBB e de um terço dos 100 bispos da Igreja Católica, os quais certamente não podemos acusar de agirem a mando do anarco-sindicalismo?

A Globo, para ficar apenas na nave mãe, simplesmente fez mau jornalismo. Não foi pela primeira, nem será pela última vez.

Agora, porém, não tem como se esconder atrás da ditadura, da qual foi a principal beneficiária, como fez em 1984.

Agora, fez mau jornalismo - distorcido, omisso, descontextualizado - porque coloca seus interesses empresariais, representados pelo governo Temer, acima do interesse da maioria dos brasileiros.

PS: Que fique registrado. Quando Lula se elegeu presidente e foi à Globo do Rio dar entrevista ao Jornal Nacional - estava em minha segunda passagem pela emissora - eu fui um dos poucos jornalistas presentes que não o aplaudiram na entrada. Não acho que o papel de jornalista seja bater palma para autoridade, tampouco negar a realidade que o cerca.
Posted: 30 Apr 2017 07:38 AM PDT
Por Gilberto Maringoni, em seu blog:

1. A greve geral desta sexta (28) se constitui, em seu conjunto, em uma das mais expressivas manifestações populares da História do Brasil. A lembrança mais recorrente tem sido compará-la aos movimentos paredistas de 1983 e 1986.

2. É preciso ajustar a régua. Há uma grande diferença qualitativa. Em 1985, a economia brasileira vivia o ápice da participação da indústria na composição do PIB: 27,5%, porcentagem de país altamente industrializado. Hoje esse número está em torno de 10%.

3. Isso ensejou, ao longo dessas três décadas, o advento de inúmeras teorias dando conta da perda da centralidade do trabalho na sociedade e, logo, na organização social, em favor de outras pautas relevantes.

4. Essa é a primeira lição a se tirar do vulcão desatado a partir das ameaças da perda dos direitos trabalhistas e previdenciários: o que toca a vida concreta das pessoas, sua sobrevivência e o mundo da produção é o trabalho. Embora tenhamos importantes agendas laterais, como corrupção e direitos de setores específicos, o que unifica os de baixo e faz tremer os de cima é o trabalho. A classe dominante interveio nessa questão e provocou um curto-circuito que não esperava.

5. Assim, a efervescência social desatada a partir dos protestos de 15 de março e potencializados dia 31 só tendem a crescer. Mas essa tendência se dá de uma maneira também distinta às chamadas jornadas de junho de 2013. Agora há foco, direção, tática e estratégia. Sua base são os setores organizados e em processo de organização. Não há espontaneísmo.

6. A marca mais auspiciosa é a inédita unidade de ação entre todas as centrais sindicais e praticamente todos os movimentos sociais. Ao avançar sobre os direitos do trabalho, o governo Temer conseguiu fazer convergir contra si forças que há décadas não se juntavam.

7. O sentimento de vitória e de que a conjuntura mudou contagia ativistas, lideranças e rompe a bolha da militância de esquerda, fortemente minoritária no país. Mais que a conjuntura, a agenda nacional foi virada de ponta-cabeça: os de baixo podem definir os rumos do país.

8. O golpe faz água. A aprovação, nesta semana, da reforma trabalhista na Câmara foi um espasmo, apesar dos 296 votos que obteve. Com toda a pressão, chantagem e compra de apoio, a administração federal não tem nenhuma segurança de que aprovará a mãe de todas as reformas, a das aposentadorias, para a qual necessita de quórum qualificado.

9. Mais do que isso: não há segurança de que mesmo a trabalhista – que pede maioria simples – seja aprovada no Senado. Renan Calheiros abriu clara dissidência, premido por sua necessidade de sobrevivência política e pessoal. Caso não se reeleja em 2018, seu mais provável destino é a cadeia, nas águas da Lava-jato. Sabedor da baixíssima popularidade – 4%! – do governo, o prócer das Alagoas não quer afundar junto com o barco avariado no qual é tripulante.

10. Nas disputas entre a direita para 2018, um personagem tenta ocupar o centro da cena na base da cotovelada. Trata-se do saltitante João Doria Jr., prefeito de São Paulo. Ele se tornou figura de destaque da greve geral ao buscar matar no peito e desafiar o movimento social. Anunciou a proibição da realização do ato de 1o. de Maio na avenida Paulista, cartão de visitas da cidade. As centrais bancaram o jogo e disseram não arredar o pé de lá.

11. Para lograr seu objetivo, Dória terá de se armar com um aparato repressivo de proporções exageradas. Embora tudo seja possível e o equilíbrio – como tem ficado claro – não seja o seu forte, é pouco provável que, após o dia 28, obtenha unanimidade entre a direita paulista para bancar a brincadeira. Se recuar, fica desmoralizado. Tem um problema a resolver nas próximas 48 horas. Problema sério.

12. Assim, o Dia do Trabalho será o novo desafio do movimento popular. O sabor de vitória parece indicar um inédito patamar de lutas.

* A partir de conversas com Edson Carneiro Índio e Artur Araújo.
Posted: 30 Apr 2017 07:32 AM PDT
Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:



Na última sexta-feira, o ministro da Justiça, Osmar Serraglio, criticou as manifestações realizadas pelas centrais sindicais contra as reformas trabalhistas e da previdência. Serraglio afirmou que as paralisações da greve geral “foram pífias” e que “não teve (sic) a expressão que se imaginava ter”.

E concluiu: “O povo brasileiro demonstrou que está conosco”.

Instado a se manifestar sobre a mobilização, o presidente Michel Temer fez uma declaração pública na qual reduziu a greve geral a “pequenos grupos que bloquearam rodovias e avenidas”.

A manhã de sexta-feira, porém, despontou no coração de São Paulo sem transeuntes. O que se via eram basicamente os moradores de rua que ali passam seus dias.

Lojas fechadas, pouquíssimo trânsito e entradas de metrô completamente desertas. A imagem se repetiu durante horas nas principais cidades brasileiras. Foi uma demonstração de força do movimento sindical que convocou uma greve geral contra as reformas trabalhista e previdenciária do Governo Michel Temer e conseguiu paralisar a rotina nas capitais graças

Foi a primeira paralisação realmente nacional em 21 anos. Os sindicalistas contaram com apoios pouco frequentes contra o Planalto, como a participação da Força Sindical, organização que apoiou o impeachment de Dilma Rousseff.

A mobilização congregou a cúpula da Igreja católica e gerou até interrupção das aulas em caros colégios particulares em várias capitais. “É preciso reivindicar nossos direitos que estão sendo retirados por um presidente impopular e ilegítimo”, dizia, na zona oeste de São Paulo, o estudante de escola privada André Neto, de 17 anos, num dos poucos protestos da jornada que acabaria em repressão policial diante da casa de Michel Temer na cidade.

O país literalmente parou.

O Blog da Cidadania esteve lá. Convidado a subir ao carro de som da CUT, este Blogueiro entrevistou Wagner Freitas, presidente da entidade, Guilherme Boulos, líder do MTST, Carina Vitral, presidente da UNE, e Eduardo Suplicy. Também gravei o discurso do Senador Lindbergh Farias. O Felipe Masini, nosso editor de imagens, áudio e vídeo registrou algumas belas cenas [veja os vídeos].

Mas interessante mesmo é o vídeo que evidencia o alheamento da realidade que tomou o governo Temer, em sua marcha da insensatez na eliminação de direitos do povo brasileiro, invertendo a decisão popular tomada por esse povo em 2014 e aprovando leis trabalhistas que a maioria esmagadora rejeita. Assista, reflita, divulgue. Ano que vem daremos a resposta.
Posted: 30 Apr 2017 07:24 AM PDT
Editorial do site Jornalistas Livres:

Cerca de 40 milhões de trabalhadores de braços cruzados; atos e manifestações em todos os estados do país e no Distrito Federal; transporte público, bancos e fábricas paradas; lojas fechadas; apoio das igrejas católica, evangélicas e de diversas entidades da sociedade civil. O Brasil viveu ontem a maior greve geral de sua história.

Num fato inédito, viram-se as principais centrais sindicais se unirem no chamamento à paralisação –unidade que foi uma das chaves a explicar o sucesso do movimento. Tão importante quanto isso foi a mobilização espontânea de coletivos formados em áreas onde o sindicalismo não alcança. Inúmeros relatos dão conta de atos e manifestações organizadas diretamente a partir da base, com destaque para regiões no Norte e Nordeste do país.

Eis os fatos que a grande mídia tenta abolir em seus veículos. Sua narrativa mentirosa seguiu o mesmo tom adotado antes da greve. Tais veículos esconderam o quanto puderam a realização do movimento. A manipulação desconheceu limites. Discípulos de Joseph Goebbels, o chefe da propaganda nazista, embriagaram-se na ilusão de que uma mentira repetida mil vezes acaba virando verdade.

Na véspera, a maior rede de TV do Brasil (mas não dos brasileiros) simplesmente riscou de seu noticiário que a greve ia acontecer. Nem um pio. No dia seguinte, porém, foi obrigada a colocar em campo quase todos os seus jornalistas para uma greve que, segundo eles, não ia acontecer… A mudança fala por si só. Retratou o reconhecimento covarde de que, apesar da torcida em contrário dos poderosos, a greve era uma realidade que nem o clã biliardário dirigente do grupo podia ignorar.

A narrativa do grande capital, difundida pelos que lhe prestam serviços e obediência, cobriu-se do mesmo tom falacioso diante do êxito da greve geral. Neste sábado, 29, os grandes jornais ainda se contorcem para reduzir o movimento a uma paralisação localizada e inexpressiva, coisa de minorias. O contraste com os fatos é tão brutal que provavelmente nem peixes aceitem ser embrulhados por papel desta categoria.

O governo golpista recitou o mesmo script. Não surpreende: tudo farinha do mesmo saco. Durante a greve, Temer e a camarilha de ladrões que (des) governa o país escalou ministros de segunda linha para dar curso à verborragia de falsificações. Osmar Serraglio, isso mesmo, aquele pilhado em tratativas destinadas a extorquir propinas de frigoríficos, foi aos rádios, TVs e jornais para pregar o “fracasso da greve”. O sujeito, pasmem, é ministro da Justiça. Nada melhor para retratar o tipo de criatura que tomou o poder de assalto –poucas vezes a expressão teve tanto ar de verdade.

Já o chefe desta gente, Michel Temer, recolheu-se no conforto palaciano. Cogitou fazer um pronunciamento à nação para festejar o suposto revés do movimento. Desistiu, e todos sabem as razões. Preferiu uma nota da qual é difícil se lembrar o começo, o meio e o fim. Não sem motivo. Com 4% de popularidade, rejeitado por 92% da população, odiado pelo povo, esnobado pelo papa e pendurado em acusações de ter comandado o roubo US$ 40 milhões durante a campanha eleitoral, Temer agiu com a mesma autoridade de meliantes que olham para um lado, gritam pega ladrão e saem correndo para o outro com a bufunfa alheia na carteira.

O prefeito Dória não perdeu a chance de exercitar sua vigarice com medo dos trabalhadores. Chegou ao gabinete de helicóptero. Lobista que fez fortuna à base de expedientes com empresários, sócios e órgãos públicos como a Embratur, Dória teve o desplante, bem ao seu feitio, de chamar o povo de vagabundo. Forçou servidores a dormirem no emprego. E obrigou um deles a uma humilhação sem precedentes: a de dizer que era a favor de greve, menos em dia de trabalho.

Fosse apenas assim, teríamos o cenário de um país governado por gente incapaz e desorientada. Mas não se trata disso. Na falta da força de ideias, a gendarmeria fantoche novamente recorreu à ideia da força. E dá-lhe polícia. Os golpistas convocaram milhares de fardados para atacar sem dó o movimento legítimo do povo contra as reformas que rasgam a CLT e praticamente exigem atestado de óbito de quem quer usufruir as já magras aposentadorias.

Fatos, fotos e imagens comprovam: os confrontos cantados em prosa e verso pela mídia oficial tiveram origem na repressão brutal aos grevistas. Os feridos passam de dezenas. Ao menos um trabalhador perdeu o olho; mulheres grávidas deram à luz ao não resistir ao impacto das bombas de gás e efeito (i) moral; manifestantes foram atropelados quando tentavam fugir das bombas.

Houve prisões em várias cidades. O espetáculo de violência protagonizado pela polícia encontrou seu ápice no cerco montado em volta da casa do presidente golpista. Centenas de soldados lançaram bombas e atiraram balas de borracha em trabalhadores e jovens que só queriam defender o direito a um presente digno, a um futuro melhor.

Mas o povo não recuou, mesmo diante de tamanha disparidade de condições de luta. O recado está dado. Os trabalhadores, estudantes, a juventude e a população mais pobre não vão aceitar calados abrir mão de direitos duramente conquistados. Existe tempo para anular a famigerada reforma trabalhista, aprovada só em primeira votação. Há tempo de impedir as mudanças reacionárias na aposentadoria.

A luta apenas começou. O caminho é o mesmo da greve geral: unidade na ação contra os golpistas. Nisso, a imprensa independente ocupa um papel fundamental. Não é à toa que as notícias sobre a greve conquistaram o primeiro lugar no Twitter mundial durante várias horas da sexta-feira.

É um trabalho que não se restringe às centenas de trabalhadores e jovens que compõem esta rede de informação verdadeira. Conta, como contou no dia da greve, com a colaboração de gente anônima que envia fotos, vídeos, notícias e mensagens de áudio mostrando o que de fato acontece - não a pós-verdade (mentiras, em bom português) difundidas pela mídia oficial. Os Jornalistas Livres congratulam e agradecem a todos que se juntam nesse esforço para resgatar a verdade.

De tudo isso, emerge uma certeza: nada será como antes depois deste 28 de abril histórico.
Posted: 30 Apr 2017 07:19 AM PDT
Por André Barrocal, na revista CartaCapital:

O IBGE, calculador oficial do PIB brasileiro, anunciou recentemente mudanças em algumas de suas pesquisas. Essas alterações são capazes de salvar o governo Michel Temer de uma recessão este ano, graças a um efeito estatístico. Uma história a alimentar suspeitas indesejáveis para um órgão que depende da credibilidade para sobreviver.

Na quinta-feira, 27, o Conselho Federal de Economia mandou uma carta ao presidente do IBGE, Paulo Rabello de Castro, a cobrar explicações públicas sobre as mudanças metodológicas e a data da decisão a respeito delas. Até agora, só houve explicações a portas fechadas em um seminário de duas horas realizado no dia 18, na sede do instituto no Rio, com consultorias e bancos.

Além do presidente do Conselho, Júlio Miragaya, também assina a carta o presidente da regional fluminense da entidade, José Antonio Lutterbach Soares, que é do IBGE e anda desconfiado.

Para Lutterbach, o instituto botou a nova metodologia na praça antes de ela estar madura e, por esse motivo, cometeu erros nas contas. “Essa pressa sugere que houve pressão do presidente do IBGE”, afirma. E por que teria havido pressão? “Porque ele é amigo do Temer e agora os resultados estão mais favoráveis ao governo.”

Na equipe econômica do governo Dilma Rousseff, era senso comum que revisões de pesquisa do IBGE significavam, via de regra, um PIB maior, daí que mudanças eram animadamente esperadas.

Em uma nota pública divulgada em 20 de abril, a associação dos funcionários diz que o instituto está sob comando de alguém “preocupado em fazer propaganda do governo Temer”, daí terem nascido dúvidas após as novidades metodológicas. O mesmo texto repudia, porém, insinuações de que tenha havido manipulação de dados com fins políticos.

No Senado, na quinta-feira 25 a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) chamou Rabello de Castro para prestar esclarecimentos sobre o assunto, a pedido do petista Lindberg Farias, do Rio. “Se essa história tivesse acontecido no governo do PT, seria um escândalo”, diz o senador.

As alterações referem-se a duas pesquisas mensais do IBGE, uma sobre vendas no varejo, outra sobre o desemprenho do setor de serviços. As modificações são semelhantes nos dois casos.

O instituto atualizou o cadastro de empresas entrevistadas (algumas entraram, as que fecharam as portas saíram). Mudou o peso amostral de certos subsetores (as vendas dos supermercados, por exemplo, perderam peso no levantamento sobre o comércio, as de combustíveis ganharam). E fixou um novo marco zero comparativo, o ano de 2014 (antes era 2011).

Com essa repaginada, preparada há cerca de dois anos e meio, o IBGE acredita ter produzido um retrato mais fiel sobre o varejo e o setor de serviços.

Os primeiros dados na nova metodologia foram coletados em janeiro e divulgados em março. No comércio, as vendas caíram 0,7% em relação a dezembro, enquanto os serviços recuaram 2,2%. Em abril, ao divulgar os números de fevereiro, o IBGE revisou os dados de janeiro e, surpresa, queda virou expansão. De 5,5% no comércio e de 0,2%, nos serviços.

A surpresa logo influenciou uma espécie de PIB mensal calculado pelo Banco Central (BC), o Índice de Atividade Econômica do BC, IBC-Br. Quatro dias depois da revisão do IBGE, o BC informou que o IBC-Br de fevereiro era de 1,3%. E que o do janeiro, antes negativo em 0,26%, virou positivo, de 0,62%. As pesquisas do IBGE sobre comércio e serviços entram na conta do IBC-Br.

No mesmo dia dos anúncios do BC, 17 de abril, o presidente Michel Temer festejou no Twitter. “O índice do Banco Central cresceu 1,3% em fevereiro. É o segundo crescimento seguido. Resultado do fortalecimento das reformas econômicas”, escreveu.

“As mudanças [nas pesquisas do IBGE] impactam, de maneira drástica, as perspectivas para a atividade econômica não apenas no primeiro trimestre, mas também para o ano de 2017”, diz um documento interno do BNDES, ao qual CartaCapital teve acesso. Segundo o texto, é bem provável que o PIB do primeiro trimestre “seja positivo e de magnitude significativa, encerrando a sequência de oito trimestres de queda”.

Até então, diz o documento, apenas a indústria e a agropecuária andavam para frente. O peso dos dois setores no PIB é relativamente pequeno perto de comércio e do setor de serviços. Este último representa, sozinho, cerca de 60% da economia. Detalhe: a pesquisa mensal do IBGE sobre serviços entra nos cálculos do instituto sobre o PIB.

No “mercado”, conta o economista de uma consultoria, estima-se que o efeito estatístico gerado pelas mudanças metodológicas do IBGE pode gerar de 0,3% a 0,6% de crescimento apenas no primeiro trimestre.

Pouco antes das novidades, já surgiam no “mercado”, reduto de fãs da política econômica do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, previsões de nova recessão este ano. A Gradual Investimentos estimava uma queda de 0,2%, mesmo patamar projetado pela consultoria 4E. A Fazenda trabalha com uma alta de 0,5%.

“É muito estranho o IBGE fazer uma mudança dessas no meio de uma recessão e justamente quando a política econômica do governo é contestada”, diz o economista Pedro Paulo Zahluth Bastos, da Unicamp. “Como pode ter havido uma virada tão grande no comércio [de -0,7% para +5,5%], ainda mais com o desemprego ainda crescendo e o crédito em queda?”

A reportagem conversou sobre o assunto com dois funcionários de carreira do IBGE, que não serão identificados para poupá-los de eventuais represálias. Ambos dizem que o instituto cometeu um erro: comparou os dados de janeiro de 2017 dos setores de comércio e serviços, calculados com base em uma metodologia nova, com os dados de dezembro de 2016, calculados na metodologia velha.

O mais correto, segundo eles, seria o IBGE aplicar a metodologia nova aos dados de 2016, 2015 e 2014, processo conhecido no mundo das estatísticas como retropolação, e só depois disso fazer os cálculos de 2017. De acordo com um dos funcionários, a ausência da retropolação antes da aplicação da nova metodologia é resultado de pressão de Rabello de Castro, presidente do instituto, que queria as novidades na praça logo.

O outro funcionário diz ainda que o IBGE também errou no modo como comunicou as novidades metodológicas. Não houve um anúncio antecipado, conversas prévias com especialistas de fora do instituto, explicações preliminares à imprensa.

As únicas explicações detalhadas dadas até aqui pelos técnicos do IBGE foram a portas fechadas para uns 40 representantes de bancos e consultorias no dia 18 de abril, na sede do instituto, no Rio. O seminário durou duas horas e, conforme relatos obtidos por CartaCapital, houve certa tensão.

Alguns convidados do seminário, especialmente aqueles ligados a consultorias, disseram que as mudanças nas pesquisas impedem que se saiba qual é, afinal, o estado real da atividade econômica. O salto de 5,5% nas vendas do varejo de dezembro para janeiro é resultado do quê, exatamente: da realidade ou da estatística? Como calcular agora nova previsão do PIB para este ano?

Comentário feito durante a reunião por um dos presentes: “O analista vai ter que interpretar que houve crescimento de 5,5% na história do comércio [de dezembro de 2016 para janeiro de 2017]. Esse índice não existe, não existiu até aqui. A gente atravessou até aqui um ciclo de expansão contínua, estamos em dúvida se saímos ou não da recessão e vem uma pesquisa importante para o mercado e diz que houve um crescimento real de 5,5% no total do comércio varejista”.

Para desfazer as dúvidas, um dos convidados pediu ao IBGE que fornecesse os dados coletados pelo instituto entre novembro de 2016 e fevereiro de 2017, a fim de permitir cálculos por conta própria nas consultorias. O instituto respondeu que só liberaria se o recebedor assinasse um termo se comprometendo a manter os dados sob sigilo e sem divulgar a ninguém.

O diretor de Pesquisas do IBGE, Roberto Olinto, nega ter havido qualquer intenção de manipular dados para ajudar o governo ou mesmo ingerência de Rabello de Castro. “É viver no mundo da lua achar que o presidente do IBGE tem esse poder de passar por cima da equipe técnica e que ninguém denunciaria. Falar em manipulação é uma tolice absurda”, diz. “É fantasia falar em manipulação.”

A reportagem pediu uma entrevista com Rabello de Castro mas não foi atendida.
Posted: 30 Apr 2017 07:14 AM PDT
Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:



Devastadora.

Não há nenhuma outra qualificação adequada, do ponto de vista da direita, para a pesquisa Datafolha publicada hoje sobre as intenções de voto presidencial em 2018.

Tanto que seu mais sincero e grosseiro porta-voz, o site de Diogo Mainardi, diz com todas as letras: “É preciso impedir a candidatura de Lula em 2018.”

Porque, mesmo depois de todo o carnaval de delações, o que surge, cristalino, é o aumento das preferências pelo voto no ex-presidente.

Nos cenários com Aécio e Alckmin concorrendo pelos tucanos, Lula sobre 4 ou 5 pontos, chegando a 30%. Seus adversários afundam, perdendo mais dois e três pontos sobre os resultados já terríveis do último levantamento, feito em dezembro passado, quando tinham 11 e 8%, respectivamente.

Como o Datafolha, à espera do “milagre Doria”, absteve-se de publicar resultados de pesquisas durante mais de 4 meses, não é possível saber se Lula até possa ter tido algum prejuízo, . Ou melhor, reduzido em parte seu crescimento.

Aliás, a ” grande esperança branca”, João Doria Junior, aparece com pífios 9%, nada para quem é apontado como “fenômeno” e conta, há quatro meses, com uma onipresença espalhafatosa em toda a mídia nacional. De Sérgio Moro, com o mesmo percentual, pode-se dizer o mesmo, embora o tempo de endeusamento pela mídia supere em muito o do falso rapaz paulistano.

Pior ainda porque, viu-se, não tomou os votos, cada vez mais sólidos, do pensamento selvagem representado por Jair Bolsonaro, que, embora politicamente seja seu pitbull, não lhes serve eleitoralmente, porque é a garantia de repugnar a maioria.

Sobre Marina Silva, nenhuma novidade. Segue, para usar uma palavra fora de moda, desmilinguindo-se. Por si mesma e pelo e, perdão pelo paradoxo, pela ausência que marca sua presença.

Temer, claro, dispensa comentários. Sua maior influência é negativa, sobre os tucanos que a ele se agarraram. Só serve, mesmo, como advertência para quem acha que vale a pena grudar-se com ele na votação da reforma previdenciária.

Lula passou por mais um sessão de sova e, como pão-de-ló, cresceu.

Ao ler a Folha, hoje, não serão poucos os conservadores não-transtornados de ódio que pararão para pensar que ele pode não ser um problema, mas uma alternativa para terminar-se a crise infinda do Brasil.

Está claro para quem quiser entender que só ele tem raízes profundas na alma brasileira e, por isso, sobrevive ao massacre de proporções nucleares a que o submeteram.
Posted: 30 Apr 2017 06:24 AM PDT
Montagem: Jornalistas Livres
Por Altamiro Borges

A exemplo do que ocorreu no processo do impeachment de Dilma Rousseff, deflagrado em abril do ano passado por uma “assembleia de bandidos chefiada por um bandido” [Eduardo Cunha] – segundo a síntese de um jornal português –, a imprensa mundial voltou a dar um baile na mídia brasileira na cobertura da greve geral desta sexta-feira (28). Enquanto o noticiário local insistia em afirmar que a paralisação “foi um fracasso” e exibia apenas cenas de violência, visando criminalizar o movimento, os veículos estrangeiros não vacilaram em reconhecer que a greve geral foi um sucesso e poderá atrapalhar os planos regressivos do Judas Michel Temer. Como nos tempos da ditadura militar, para entender o que ocorre no Brasil hoje é melhor acompanhar a imprensa internacional.

O jornal estadunidense The New York Times, por exemplo, publicou longa reportagem com o título “O Brasil se mobiliza contra a austeridade”. O veículo, que já serviu de bíblia para a mídia nativa, afirma que a greve foi nacional e paralisou transportes, bancos, fábricas e escolas. Já o alemão Deutsche Welle afirma em sua manchete que “Brasileiros se mobilizam pela democracia” e lembra que a última greve geral no Brasil ocorreu em 1996, no governo FHC. O veículo explica que o protesto foi as reformas propostas “pelo governo conservador do presidente Michel Temer”. Já o espanhol El País estampa no título: “Greve geral desafia as reformas do governo brasileiro". O francês Le Monde destaca: “Greve histórica”. A rede britânica BBC registra: “Primeira greve geral em duas décadas”. Até o conservador Clarín, da Argentina, foi mais honesto do que os jornais nativos.

O jornalista brasileiro Flávio Aguiar, que atualmente reside na Alemanha, relata que “a repercussão mundial foi enorme... A mídia mundial reconheceu: uma greve enorme sacudiu o Brasil de norte a sul, de leste a oeste”. Até o colunista Nelson de Sá, da Folha, confirmou que a cobertura da imprensa estrangeira foi diferenciada. Ele destacou as matérias de dois veículos dos EUA. "No New York Times, ‘Brasil é tomado por greve geral contra medidas de austeridade’. Segundo o jornal, ‘a capacidade das centrais sindicais de organizar a greve refletiu a ampla insatisfação com Temer’... No Wall Street Journal, ‘Greve geral e manifestações rompem transporte no Brasil’. Segundo o jornal, ‘Temer já enfrenta resistência no Congresso à impopular reforma previdenciária, e a greve pode tornar a aprovação mais difícil ainda’”. Ele também citou outros veículos internacionais:

“Na agência chinesa Xinhua, ‘Lula afirma que greve geral no Brasil foi um 'sucesso completo'... Na agência americana Associated Press, ‘Greve para grande parte do Brasil para protestar contra leis trabalhista e previdenciária’... O correspondente no Rio da ZDF, TV pública da Alemanha, Luten Leinhos, destacou ser um movimento ‘contra o presidente Temer’ e que ‘foi apoiado na Igreja Católica também’... O correspondente em São Paulo da BBC, TV pública do Reino Unido, Daniel Gallas, relatou ‘ruas vazias’ na cidade e ouviu de um porta-voz da Igreja Anglicana que ‘oficialmente a igreja tomou a posição de encorajar seus membros a tomar parte desse movimento, porque entende a situação política’”.

TV Globo tenta justificar o antijornalismo

Já no Brasil, a mídia chapa-branca – alimentada com muita grana em publicidade oficial e por outras mutretas – fez de tudo para invisibilizar os preparativos do protesto e, no dia, acionou seus holofotes para destacar as cenas de violência. As manchetes dos jornalões neste sábado (29) refletem a visão reacionária dos barões da mídia. “Temer lamenta bloqueios e reafirma que fará as reformas" (O Globo); “Manifestação contra reformas afeta as grandes cidades e termina em violência” (Estadão). “Greve atinge transportes e escolas em dia de confronto” (Folha). Nas emissoras de televisão, que desinformam e manipulam milhões de lares brasileiros, a cobertura foi ainda mais grotesca. Como concessões públicas, elas até mereciam a abertura de processo pelo crime de censura e atentado à liberdade de expressão.

Há boatos de que a TV Globo deu ordens aos seus repórteres para não usarem o termo “greve geral” e focarem a cobertura nas cenas de vandalismo – muitas delas patrocinadas por agentes infiltrados da própria polícia. Durante a manhã de sexta-feira, os telejornais da emissora até pareciam agências de trânsito, apenas relatando os congestionamentos e transtornos para os passageiros de ônibus, metrô e trem. A cena foi tão grotesca, de negação total que qualquer manual básico de jornalismo, que a TV Globo teve até que se justificar. A marota autocrítica foi registrada pelo blogueiro Mauricio Stycer, do UOL, na matéria intitulada “Após silêncio na véspera, Globo ‘prova’ que cobriu greve com matéria no JN”. Vale conferir sua postagem neste sábado:

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Ignorada em seus principais telejornais na véspera, a greve geral ocorrida nesta sexta-feira (28) em todo país mereceu cobertura caprichada da Globo ao longo do dia, em todos os seus noticiários, tantos os locais quanto os nacionais. No ‘Jornal Nacional’, além de variados relatos sobre paralisações em inúmeros Estados, houve uma longa e didática explicação sobre as causas da greve – uma reportagem que poderia muito bem ter sido exibida um dia antes. O mais curioso foi, ao fim da cobertura, a exibição de uma matéria de quase dois minutos mostrando como a própria Globo cobriu a greve geral. ‘Durante todo dia o jornalismo da Rede Globo cobriu as paralisação por todo o Brasil’, anunciou Renata Vasconcellos, mostrando trechos da cobertura exibidos em outros telejornais. Qual a razão disso? A única explicação que me ocorre é a má repercussão que teve o silêncio de quinta-feira. Na véspera, noticiários da Globo ignoram a greve geral de sexta-feira.

*****

Em outro post no dia anterior à greve geral, Mauricio Stycer foi ainda mais incisivo na crítica à cobertura “jornalística” do império global:

*****

Convocada por centrais sindicais, em protesto contra as propostas de reforma trabalhista e da Previdência, uma greve geral tem atos programados nesta sexta-feira (28) em 24 Estados e no Distrito Federal. Sob qualquer ângulo que se olhe o assunto, concorde-se ou não com o movimento, trata-se de notícia de interesse público. Pois os telejornais da Globo ignoraram completamente o tema nesta quinta-feira (27). Nenhuma notícia sobre a convocação da greve, nem sobre os eventuais efeitos que pode causar em áreas de interesse do espectador, como transporte, saúde e educação, foi ao ar.

O “SPTV” segunda edição, que sempre presta serviço aos espectadores em caso de decretação de greves em serviços essenciais, não tratou do protesto que ocorrerá nesta sexta-feira em São Paulo. O principal telejornal da emissora, o “Jornal Nacional”, igualmente ignorou o assunto, apesar de o movimento ter alcance nacional. O blog não conseguiu apurar o que levou a Globo a tomar uma decisão tão drástica. Mas parece claro, nos dias de hoje, com tantas fontes de informação disponíveis, que o silêncio da maior emissora do país faz mais barulho do que qualquer notícia que ela tivesse dado sobre o assunto.


*****

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Posted: 29 Apr 2017 09:02 PM PDT
Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:

Esta aberração marqueteira que ocupa o cargo de prefeito de São Paulo anda precisando de quem lhe enfrente e certamente não merece que seja Lula, porque isso é tudo o que ele quer, já que sua ação política e administrativa, como tudo o que fez na vida, é marketing.

Agora está nos jornais dizendo que as pessoas que protestaram, ontem, contra a reforma da previdência, foram lá para ganhar R$ 100, um sanduíche e uma lata de refrigerante.

Foram, diz ele, porque “adoram estas boquinhas”.

É natural que João Doria pense assim.

Sempre foi desta forma que viveu.

Ou não é recebendo verbas de governos e de empresas para seus eventos e suas revistas – o título de uma delas, Caviar Lyfe Style, bem revela com quem elas falam – que Doria fez sua fortuna?

Verdade que não são boquinhas, mas “bocões”, bocas ricas.

A promoção política não lhe deu uma viagem de van, mas um jato executivo, mas o processo é o mesmo que ele acusa manifestantes, com poucas diferenças.

A primeira é na quantia.

A mortadela doriana é de dezenas e centenas de milhares de reais a cada merchandising que fazia (ou será que ainda faz?).

A segunda, ainda é maior.

A causa.

Povo, pobre, trabalhador, no universo de Dória, é cenário.

O macacão de gari é fantasia da cashmère, a média com pão e manteiga é folclore do champanhe e dos canapés.

João Doria é destes micro-organismos que proliferam na superfície de uma elite apodrecida, inculta, escravista, incapaz de produzir arte, cultura, inteligência para o bem geral.

A única coisa boa é que, exposto à luz, não dura muito.
Posted: 29 Apr 2017 04:47 PM PDT

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