domingo, 25 de junho de 2017

25/6 - Blog " DE CANHOTA " de HOJE

De Canhota


Posted: 25 Jun 2017 08:00 AM PDT
Publicado originalmente no Outras Palavras.


Em outubro de 1921, quatro anos após a revolução dos Sovietes conduzida pelos bolcheviques, Lenin declarava que o proletariado industrial, devido a guerra e às terríveis destruições, havia deixado de existir enquanto proletariado. O líder da revolução russa não exagerava. A classe operária do país, que em 1917 somava 3 milhões de trabalhadores na indústria das grandes cidades, em 1921 estava reduzida pela metade. Já os funcionários das instituições soviéticas haviam passado de 115 mil para quase 6 milhões (sem contar os mais de 5 milhões do Exército Vermelho), ou seja, aumentado quase 60 vezes num período de apenas quatro anos. Lenin foi o primeiro a falar de um Estado operário com deformações burocráticas.

Em 1922, ele pergunta ao XI Congresso do Partido Comunista (bolchevique): “Se consideramos a máquina burocrática, quem dirige e quem é dirigido? Tenho muita dúvida que se possa dizer que os comunistas dirigem. Na verdade, não são eles que dirigem. São eles quem são dirigidos”. Ele poderia acrescentar que, em grande medida, quem dirigia esta grande máquina burocrática estatal eram os antigos quadros e especialistas herdados do regime czarista.

Por isso, em seus últimos meses de vida (até sofrer o colapso definitivo, em março de 1923, que o deixou inconsciente até a sua morte, em janeiro de 1924), Lenin lança uma batalha sobre a questão da burocratização. Em uma série de textos destinados ao Comitê Central e a todo o partido, publicados no Pravda, propõe soluções radicais para sair do “marasmo burocrático no qual está atolada a revolução”. Para ele, na situação lamentável em que se encontravam o proletariado e os sovietes, o partido era a única salvaguarda. Por isso, era preciso proteger o partido contra as deformações burocráticas. Ele menciona isso em seu “testamento”, escrito nesse mesmo período, em dois momentos (fins de 1922, início de 1923), propondo ampliar o Comitê Central, com a integração de dezenas de operários comunistas da produção.

Lenin observa que o governo e o partido começam a duplicar suas funções. Ele passa a exigir uma reforma profunda do sistema de direção do país que permita delimitar as fronteiras entre partido e governo, estabelecendo as responsabilidades precisas de ambos e a organização de órgãos de controle. Lenin declara que é preciso reformar completamente a Inspeção Operária e Camponesa, que havia sido criada dois anos antes a fim de investigar denúncias de abusos e de deformações burocráticas. Ele considerava, no final de 1922, que esta instituição de milhares de funcionários, dirigida por Stalin, tornara-se um órgão burocrático, e que não servia para cumprir os fins para os quais havia sido destinada.

Então, explode a questão das nacionalidades. Nesse tema, a reflexão de Lenin acentuava a obtenção da igualdade de direitos para as nações oprimidas pelo império russo (como ucranianos, georgianos, tadjiques, uzbesques, turcomenos, armênios), e também a garantia de uma situação que permitisse estar no mesmo nível que a nação russa tradicionalmente dominante. Lenin considerava indispensável que as diferentes nações oprimidas pudessem desenvolver sua própria cultura e comunicar-se em sua língua. Neste marco, defendia uma Federação de Repúblicas Soviéticas, e não uma república multinacional. Acontece que o responsável pela questão das nacionalidades no partido e no Estado era Josef Stalin. E este havia entrado em conflito com a direção bolchevique georgiana, que reivindicava uma autonomia relativa para conduzir a política comunista na Geórgia. Os métodos politicamente brutais utilizados contra os comunistas georgianos, vão levar Lenin a enviar uma carta declarando sua solidariedade aos camaradas e a denunciar esses métodos, declarando guerra contra Stalin, dizendo que seu comportamento era igual ao de um “grande chauvinista russo”.

Lenin decide pronunciar-se sobre a composição do Politburo (Comitê Político), o núcleo central da alta direção do partido. Como ele estava gravemente doente e há meses na cama, com sua capacidade de atuar politicamente limitada, considerava o futuro do partido e da revolução ante a possibilidade de sua morte. Escreve então as cartas dirigidas ao congresso que constituem o seu testamento político. Lenin teme a cisão após o seu desaparecimento, e como considera que o partido é o último bastião contra os perigos de deformação burocrática do Estado e que nesse processo a direção partidária é absolutamente decisiva, resolve apresentar o seu balanço sobre os principais dirigentes bolcheviques. Lenin decide que Stalin deve ser afastado da poderosa secretaria-geral do partido, justificando sua posição devido ao comportamento e aos métodos do secretário, que considera intoleráveis para essa função. Por outro lado, avalia Trotsky como “indubitavelmente o homem mais capaz do atual Comitê Central”, ainda que o critique duramente por muitas vezes ter uma visão administrativa (referência aos debates anteriores sobre os sindicatos e a militarização do trabalho).

Lenin tinha alguns problemas ao enfrentar a questão da burocratização, entre eles a sua concepção limitada sobre o fenômeno da burocracia, considerando-a sobretudo como uma herança czarista, acreditando que se a Rússia tivesse passado por um desenvolvimento capitalista como o de países adiantados esse problema seria mais fácil de superar. Porém, o maior problema político estava no próprio partido, e no desenvolvimento do processo revolucionário e das instituições soviéticas.

Devido à dinâmica contrarrevolucionária imposta ao poder soviético pela guerra civil e pelos ataques das potências imperialistas, e a oposição das forças de esquerda e populares (inclusive armadas), inicialmente aliadas (anarquistas, socialistas revolucionários – SR – de esquerda, mencheviques internacionalistas), esses partidos foram reprimidos, banidos e proibidos. As decorrências políticas dessa situação chegaram ao próprio partido bolchevique. No X Congresso, em 1921, Lenin propõe no último dia do congresso a proibição de frações e tendências internas, contrariando toda a história e a cultura política de centralismo democrático instaurada desde 1903. Essa medida será utilizada pela fração stalinista dois anos mais tarde contra a Oposição de Esquerda. E servirá para bloquear a derradeira iniciativa de Lenin de formar um bloco na direção com Trotsky contra Stalin.

Ernest Mandel assinalou o paradoxo do bolchevismo sobre essa questão, absolutamente decisiva para a democracia socialista na revolução russa. Após a vitória definitiva na guerra civil e dos resultados positivos na retomada da produção, com a nova política econômica (NEP) superando pouco a pouco o período do “comunismo de guerra”, inclusive com a recuperação numérica do proletariado industrial, o partido fecha-se em si mesmo e recusa-se a aproveitar a possibilidade de revitalizar os sovietes, potencializar a democracia interna partidária e voltar a apostar na politização da sociedade.

Lenin considera, então, que a tensão extrema que se desenvolve no país – durante o congresso ocorre o levante dos marinheiros de Kronstadt – exige uma limitação da democracia interna do partido para que ele resista em bloco a essa situação de “perigo mortal” (para usar as palavras de Trotsky, que tempos depois vai analisar de forma autocrítica as equivocadas decisões coletivas do período). Mandel assinala que a resposta ao problema do pluripartidarismo na transição ao socialismo por parte do bolchevismo, inicialmente correta, formando alianças com outras forças revolucionárias que atuavam nos sovietes, principalmente com os anarquistas e os SR de esquerda, rapidamente foi modificando-se, com as rupturas políticas desses partidos (devido ao Tratado de Brest-Litovsk e a guerra civil), passando então para a proibição e a repressão. Essa situação provocou uma limitação muito forte da vida democrática da jovem república soviética, inclusive no interior do próprio partido bolchevique e teve consequências dramáticas para a revolução.

Lenin e Trotsky contra Stalin


Em finais de 1922, Lenin propõe formar um bloco com Trotsky para intervirem na direção sobre os acontecimentos da Geórgia e sobre a questão das nacionalidades. Havia um acordo entre ambos, teórico e tático, tanto na condução da Internacional Comunista, como também sobre o fato de que o combate à burocracia devia começar no partido e nas instâncias de direção. Lenin propõe a Trotsky conduzir essa batalha política no XII Congresso do partido, já que estava debilitado, e redige suas cartas declarando a necessidade de destituir Stalin da função de secretário-geral. Esta última proposição só era conhecida pelos membros do Politburo e por alguns colaboradores próximos.

No início de 1923, Lenin sofre um derradeiro ataque que o deixa paralisado e impossibilitado de participar do Congresso. Trotsky então, recua e não assume a direção do combate partidário. Outros dirigentes bolcheviques entram em cena. Rakovsky e Bukarin assumem a frente do debate sobre a questão das nacionalidades, enquanto Preobrajensky enfrenta o tema central das deformações burocráticas. A resposta de Stalin vem através da constituição de uma aliança fracional durante a preparação do Congresso, com Kamenev e Zinoviev (a troika). Estes reúnem-se secretamente antes das reuniões do Politburo a fim de colocar Trotsky em minoria. Preobrajensky foi o primeiro dirigente bolchevique a denunciar publicamente a existência dessa articulação fracional. Por fim, no Congresso (março de 1923), por decisão do Politburo, sob os protestos da companheira de Lenin, Krupskaya, as cartas-testamento do líder bolchevique não são divulgadas. Trotsky declara em seu discurso ao Congresso que se encontra alinhado ao Politburo e, surpreendentemente, não adere às intervenções oposicionistas. Apesar das críticas e dos protestos de inúmeros dirigentes bolcheviques, sem contar com a liderança de Trotsky, sem a possibilidade de organizarem-se como oposição interna (devido a resolução adotada no Congresso de 1921), sem a publicação das cartas de Lenin ao partido e com o controle férreo da secretaria de Stalin sobre boa parte dos delegados, a dissidência interna não tinha como vencer. Assim, a troika consegue conduzir o congresso evitando uma crise política maior.

Alguns anos depois, em sua auto-biografia, “Minha vida”, escrita no exílio, Trotsky reconhece que se tivesse assumido a posição proposta por Lenin e mobilizado a oposição contra Stalin e seus aliados na máquina partidária, poderia ter conquistado a vitória. Então, ele ensaia uma explicação, completamente defensiva e subjetiva, para o seu comportamento no XII Congresso, cujo desfecho selou a possibilidade de reversão do processo de burocratização do partido. Estranhamente, Trotsky não reconhece o seu maior erro político. Na ausência de Lenin, ele não deu consequência ao acordo político selado entre os dois maiores líderes da Revolução de Outubro, que tinha como premissa deflagrar o combate interno no próprio congresso contra Stalin e os seus aliados, no momento em que estes ainda não haviam consolidado sua maioria na direção e no aparato do partido e do Estado.

Antes disso, Lenin havia se negado a buscar um acordo com Stalin sobre a questão georgiana e a das nacionalidades. Ele queria infringir uma derrota política completa a Stalin, incluindo a sua destituição da secretaria-geral do partido. Trotsky não compreendeu isso no momento decisivo e, provavelmente, receando empreender a batalha sem a participação efetiva de Lenin, recuou e conciliou com a troika no processo de preparação do congresso, deixando o combate aberto para os demais dirigentes da oposição bolchevique. Se era possível derrotar Stalin e a Troika na ausência de Lenin, não se pode afirmar, nem hoje e nem naquele momento. Porém, a batalha política certamente merecia ser levada a cabo, conforme o desejo expresso de Lenin e da totalidade da oposição. Trotsky não o fez então e, quando ele retomou o ímpeto oposicionista junto com os demais camaradas, as condições políticas já eram bem mais desfavoráveis. A vitória e a consolidação política do secretário-geral e da troika no XII Congresso haviam tornado a situação no partido e no aparato estatal muito mais difícil para a oposição.

Após a vitória do triunvirato de Stalin, Zinoviev e Kamenev no congresso, a oposição interna no partido manteve a agitação política, a partir das antigas plataformas existentes até 1921, a Oposição Operária e o grupo Centralismo Democrático, aproveitando o crescimento das greves nos grandes centros urbanos. Essa situação vai levar Dzerzinsky, chefe da GPU (sucessora da Tcheka), a propor ações repressivas contra os membros do partido que estivessem lutando contra a linha da direção. Trotsky então, decide confrontar a maioria do Politburo e denunciar a repressão. De forma autocrítica, anuncia que a partir desse momento expressará as suas divergências publicamente.

Ele vislumbra, então, um perigo de degeneração da velha guarda bolchevique, que poderia evoluir em uma direção parecida com a da II Internacional nas vésperas da Primeira Guerra Mundial. Propõe um Novo Curso para o partido, combatendo a burocracia e tendo como base a democracia interna e o direito de a militância de base expressar suas insatisfações no marco dos princípios e do programa partidário, antídoto para prevenir a ameaça de degeneração. Pouco depois da declaração pública de Trotsky, um texto confidencial assinado por 46 dos mais importantes quadros bolcheviques, entre eles Preobrajensky, Piatakov, Antonov-Ovsenko, Radek, Rakovsky e Krestinsky, é enviado ao Politburo. Na carta, os 46 pedem a convocação de uma conferência extraordinária do Comitê Central, ampliado pelos “operários mais importantes e ativos do partido” (na linha proposta por Lenin), questionam a maioria do Politburo tanto pela política econômica como pelo regime burocrático imposto ao partido.

A resposta do triunvirato de Stalin, Kamenev, Zinoviev é uma condenação violenta do texto de Trotsky e da “Carta dos 46”, combinada com a abertura de um debate público no jornal do partido, o Pravda. Trotsky é acusado de querer exercer uma ditadura pessoal no plano militar e econômico, enquanto os 46 são condenados pelo CC ampliado de outubro de 1923 como responsáveis por uma fração (estrutura proibida desde o X Congresso). Em novembro o debate se radicaliza, com Preobrajenski expressando nas páginas do Pravda as críticas dos 46, enquanto nas assembleias do partido em Moscou a oposição ganha a simpatia de amplos setores, inclusive de dirigentes da Juventude Comunista e o apoio da maioria das células do Exército Vermelho. Porém, nas fábricas, a oposição fica em minoria. Como sublinhou mais tarde o historiador E.H. Carr, o fracasso da oposição entre o proletariado revelava a debilidade política não só da oposição, mas também do próprio proletariado.

A discussão pública na imprensa do partido no final de 1923 será a última de uma longa história de polêmicas democráticas tão características do bolchevismo. A partir de 1924 isso não será mais possível no partido sob o comando da troika. Assim, quando o novo congresso do partido se reúne em meados de janeiro (poucos dias antes da morte de Lenin), Stalin e seus aliados se encontram em grande maioria. Apesar do abalo político provocado pela discussão pública, o sistema de controle do partido pela burocracia se revelou muito eficaz e seguro. A conjuntura de refluxo da revolução internacional e o esgotamento da energia política dos sovietes e da própria classe operária completaram o quadro de derrota da oposição.

A morte de Lenin, em 21 de janeiro de 1924, acontece logo depois da derrota política da oposição de esquerda bolchevique. O desaparecimento do líder inconteste da revolução de Outubro, no mesmo momento em que se afirma o poder de Stalin no partido, no contexto internacional da derrota da onda revolucionária do pós-guerra, marca o fim de um ciclo e foi chamado pelo grande historiador Moshe Lewin de “o último combate de Lenin”. O maior revolucionário do século XX havia sido derrotado politicamente pelo seu próprio partido. Depois de morto, ele foi traído em seu desejo de ser enterrado junto aos restos mortais de sua mãe. Embalsamado e exposto a visitação em um mausoléu, Lenin foi transformado por Stalin e a nascente burocracia soviética em objeto de propaganda e de culto, e o seu pensamento dialético, crítico, heterodoxo e revolucionário, foi erigido em dogma, ideologia vulgar e doutrina de Estado. A Revolução de Outubro de 1917 estava desfigurada.


Eduardo Mancuso é Historiador e membro do comitê local de Porto Alegre do Fórum Social Mundial.
Posted: 24 Jun 2017 01:30 PM PDT
Publicado originalmente no Outras Palavras | Tradução: Inês Castilho


A gruta de Lascaux (Dordogne, França) possui uma das mais impressionantes amostras de arte rupestre do Paleolítico. Em 80 a 90 metros de comprimento, foram classificadas 1.963 unidades gráficas entre pinturas e gravações, 915 das quais são de animais. Ao lado de Altamira (Cantabria, Espanha) e Chauvet (Ardèche, França), ela constitui o que os entendidos chamam de Capelas Sistinas da arte pré-histórica, ainda que as imagens não mostrem nenhum querubim.

Apesar de Lascaux não ter as atrações ou a variedade de um shopping e, diga-se o que quiser, não ser tão emocionante como a Eurodisney ou o final da Liga dos Campeões, até 1955 recebia mais de 1.200 visitantes por dia. O dióxido de carbono produzido pelos turistas começou a danificar as obras que o Homo sapiens sapiens pintou há uns 15 a 18 mil anos, de modo que, para garantir sua preservação, a gruta de Lascaux foi fechada ao público em 1963: triste fim de uma oportunidade de negócio.

Conta-se que Picasso esteve entre os privilegiados que chegaram a visitar Lascaux. Ao sair, os jornalistas perguntaram sua opinião. O pintor, impressionado pelo que havia visto, declarou: “não inventamos nada”.

Nem o abuso de criatividade de Picasso, que no seu auge pintava de diferentes maneiras, sem jamais satisfazer-se com o resultado, conseguiu superar as técnicas e a arte que praticaram os cro-Magnons do Paleolítico.

Por isso, entre outras razões, não me surpreendeu que Bernard Maris assegurasse, num de seus livros, que a Teologia e a Economia não descobriram nada nos últimos séculos. Questão de fé, há mais de dois mil anos é a mesma cantilena: o padre, o filho e o espírito santo. Amém. Por sua vez, quando perguntavam a Milton Friedman, “O que há de novo?”, Milton, que era um gozador, respondia “Adam Smith” — e morria de rir.

Como qualquer pessoa normal, considerava Adam Smith (1723-1790) e Jean-Baptiste Say (1767-1832) os fundadores da Economia Política. Sabendo que ainda em nossos dias a mão invisível do mercado é o dogma entre os dogmas, e a política econômica da oferta é a panacéia universal, compreende-se por que razão ambos autores pesam tanto.

O bom dos primeiros economistas é que não havia ilusões quanto à ciência econômica, a ciência do mal e da miséria, a dismal science, a ciência sinistra — porque sinistro é o destino a que conduzem o capitalismo e o liberalismo que eles defendiam (B. Maris). Um pouco mais tarde, Marx concordou com esse sentido quando escreveu: “A humanidade se situa fora da economia política, a desumanidade dentro”. Bernard Maris não deixou por menos, ao escrever: “Tudo o que é econômico é desumano. Tudo o que é desumano diz respeito à economia. A economia é o domínio do horror e da desumanidade. O homem nasce quando morre a economia”. Como não dou uma de erudito, não vou lembrar que para John Maynard Keynes a economia era um vasto horror que um dia, felizmente, iria dar lugar à cultura, à arte, à política, à liberdade, à felicidade.

Se conto essas coisas é porque, há alguns dias, uma leitora de Politika sentiu-se mal quando lhe fiz ver que os economistas são seres abomináveis. Eu não sabia que um de seus sobrinhos é economista, que sempre teve boas notas, que fez seus estudos nos EUA, que é um orgulho para a família…

E eu tentando explicar-lhe que “na melhor das hipóteses um economista não passa de um vigarista, um charlatão que esconde em seu palavrório, geralmente complicado, o objetivo imposto por seus senhores, que é manter os homens na servidão. Na pior, é a polícia ou o prostituto do capital. E a economia é o canto gregoriano da submissão do homem. A teoria da ordem dominante, a ciência da escravidão”. (B. Maris).

Não sou o único estraga-prazeres. Antes de mim, Nicolás Guillén, em um de seus poemas, falou do ofício do filho de “Dona Maria”:

Ai, pobre dona Maria,
ela que nada sabe!
Seu filho, o que tem a pele manchada
a soldo na polícia.
Ontem, sorrateiro e sutil,
andou rondando minha casa.
Passa! – pensei ao vê-lo – Passa!
(Ia de traje civil);
Senhora tão respeitada,
a pobre dona Maria,
com um filho na polícia,
e ela não sabe de nada [1]

Karl Marx e, por que não dizer, John Maynard Keynes, tentaram libertar o homem da economia. Não se deram bem. Hoje, não há santo dia em que meia dúzia de economistas não subam ao púlpito, perdão, à televisão, para nos contar suas fabulações, mentiras, dogmas, números e percentuais que, em sua visão distorcida, são mais importantes que o ser humano.

O certo é que Adam Smith, Jean-Baptiste Say, Karl Marx, John Maynard Keynes e muitos outros só tiveram que examinar uma realidade tão antiga quanto o mundo para se dar conta da cloaca em que se metiam ao dedicar-se à economia.

Adam Smith e Jean-Baptiste Say eram comerciantes; às vezes, produtores. John Maynard Keyner e David Ricardo foram especuladores. Marx foi pobre. Quando nasceram as técnicas de produção industrial, do comércio, dos bancos e das finanças, os truques da dupla contabilidade, os monopólios, o tráfico de influência, o conflito de interesses, o engano, a fraude, o golpe, o roubo, a arbitrariedade, a pilhagem, a exploração, a dissimulação, a informação privilegiada, os privilégios, a incúria, a prevaricação, as propinas, a usura, o abuso do poder, a conspiração — em suma, as técnicas do capitalismo já existem há séculos!

Se você vai a Provins, cidadezinha medieval perto de Paris, encontrará não apenas uma fortaleza, as imponentes muralhas e torres que circundam o povoado, mas também a igreja basílica colegial de Saint-Quiriace, que data do século XII, onde Joana d’Arc ajoelhou-se ao lado do rei Charles VII em 3 de agosto de 1429, e este escritor há cerca de um mês, mas não exatamente para rezar.

Se anda por Provins, chegará a Le Roy Lire, livraria especializada na Idade Média. Ali encontrei duas jóias que veem ao caso: um livro sobre as Foires de Champagne (Feiras de Champanhe), que reuniam comerciantes das cidades mercantes da Europa entre os séculos XII e XV. A cada ano, as cidades de Lagny-sur-Marne, Bar-sur-Aube, Troyes e Provins organizavam uma enorme feira à qual acorriam negociantes de Veneza, Florença, Gênova, Lucques, Bruges, Londres, Leipzig, Sevília, Stettin, Cracóvia, Lübeck, Barcelona, Praga, Paris, Novgorod e outras tantas.

Essas feiras precederam, por sua influência econômica e financeira, os primeiros centros financeiros internacionais. Ninguém saía andando com o dinheiro das vendas: já existiam redes bancárias e as duplicatas e ordens de pagamento emitidas em Bruges e compensadas em Veneza ou Londres.

Era preciso lidar com os incipientes caminhos cheios de grupos de assaltantes armados, da navegação aleatória em redes fluviais incertas e dos pedágios caros, para não falar de um tráfego marítimo exposto aos caprichos dos ventos e ao temor dos corsários. Goscinny conta, em um de seus Astérix: um navio de comerciantes fenícios avista um barco pirata. A reflexão de um comerciante diz tudo: “Piratas! Que má sorte! Poderiam nos afundar, ou então nos matar. Pior ainda, roubar nossas mercadorias”.

Se cada cidade possuía sua própria moeda e seu próprio sistema de pesos e medidas, os banqueiros e agentes de câmbio facilitavam os intercâmbios com uma ciência que já era milenar. O denier provinois (dinheiro de Provins) fazia as vezes do euro medieval, e a onça troy (medida de peso), que era então calculada no trébuchet (balança de precisão), continua ainda hoje sendo a referência mundial de peso para metais preciosos.

A outra joia é um livro de Jean Favier, membro do Instituto da França, ex-Diretor Geral dos Arquivos da França, e ex-presidente da Grande Biblioteca Nacional. Um erudito, o Favier. O título do seu livro diz tudo: Do ouro e das especiarias – Nascimento do homem de negócios da Idade Média.

Sua leitura oferece, para além de uma visão estereoscópica da vida medieval, um compêndio tão completo de truques, armadilhas e velhacarias que daria para poupar as cobranças das escolas de comércio. Harvard, The London School of Business and Finance, HEC Paris (Escola de Altos Estudos Comerciais de Paris) e outras instituições semelhantes são um arremedo perto dos comerciantes da Idade Média.

O livro é uma mina de ouro. Jean Favier nos conta que, entre os homens de negócios da época, “o grupo social se fecha deliberadamente para preservar e explorar suas vantagens”. Como se vê, o capítulo começa bem. Entre as vantagens, contam-se “as do reino ou cidade, a do ofício organizado, a arte ou a corporação”. Quer dizer que, no marco de determinadas fronteiras, quem exercia o poder estabelecia privilégios que a alguns caíam bem e a outros caíam mal — você sabe como é isso de livre concorrência…

Se havia concorrência, ela ocorria entre privilegiados de diferentes reinos, cidades-república ou domínios feudais. Assim, cada reino, cada cidade, cada ofício, cada corporação definia regras que dificultavam o trabalho da concorrência. “Eliminar as barreiras era desaparecer”, dizia Favier. Para definir privilégios, estabelecer barreiras, construir obstáculos, era imprescindível que “o poder público tivesse força para impô-los, e sobretudo obter a concordância, ainda melhor, a conivência dos meios de negócios”. Na Idade Média, os ricaços já manipulavam.

Os privilégios concedidos aos grandes, aos poderosos, aos peixes gordos, tornavam virtualmente impossível que surgisse um concorrente entre os peixes pequenos, “a impossibilidade para o pequeno comerciante de algum dia integrar o grupo dos comerciantes de horizontes amplos”. Soa familiar?

Em Veneza, no ano de 1297, acabaram fechando a lista das famílias mercadoras autorizadas a tomar parte do Grande Conselho. Desse modo “consolidavam-se as grandes fortunas, continham-se as audácias e cimentavam-se as mediocridades”. Não era o Chile [ou o Brasil — Nota da Tradução], mas a República de Veneza.

Biche e Mouche, comerciantes toscanos, conseguiram transformar-se nos conselheiros mais ouvidos de Felipe, o Belo, rei da França (1268-1314) “e aproveitaram-se disso sem vergonha. Reservaram para si as melhores especulações. Monopolizaram a moeda real. Receberam concessão dos impostos das Feiras de Champanhe. O privilégio de informação que confere a familiaridade com o rei lhes ofereceu muitas oportunidades no comércio e nos bancos. E seu sobrinho Tote foi o homem de negócios pessoal de Enguerran de Marigny, na época em que aquele que era chamado de vice-rei pelos invejosos transformou as relações diplomáticas – com o Papa, assim como com as cidades flamengas – numa sórdida negociata em escala europeia”. Das duas uma: ou naqueles anos não se conhecia a confiança cega, ou então eram especialistas no assunto.

Entre os anos de 1298 e 1326 sucedem-se as quebras e as crises. “A confiança afunda”. Para restaurar a confiança, parece mais útil eliminar a livre concorrência. “As empresas novatas que são formadas preferem então entender-se para não se arruinar mutuamente. Os mercados se distribuem, operam em conjunto nas praças bancárias. Cada empresa explora uma área geográfica bem definida”. Aparição – ou reaparição – dos carteis. Os Papas João XXII e Benedito XII bendizem as operações. Não inventamos nada.

“Uma das armas da livre concorrência – disse Jean Favier – é naturalmente o segredo”. Já na Idade Média. O que nos faz compreender a profundidade da “transparência” e os discursos sobre a simetria da informação, virtude sine qua non dos mercados perfeitos em que as barreiras de entrada devem ser as mesmas para todos os concorrentes. Palavrório oco.

A informação já é um ativo, um valor que não convém compartilhar com ninguém, nem sequer com os sócios que contribuem com capital: “As estruturas do capitalismo nascente – escreve Jean Favier – refletem esta preocupação: evitar que muitos sócios conheçam a realidade econômica. A prática do depósito remunerado, que atrai capitais estrangeiros no contrato constitutivo da sociedade, exclui com eficácia do conhecimento e da gestão dos negócios boa parte dos investidores. Bernard Madoff e as administradoras de fundos de pensão tiveram precursores.

Melhor ainda, “as sociedades em nome coletivo e as sociedades com filiais permitem de modo mais sutil a multiplicação de sócios, que em sua grande maioria não conhecem senão uma parte do negócio”.

Tal cidade, tal rei cobra pedágios nas pontes dos rios que cruzam seus territórios, ou exime de tais tributos determinados comerciantes, mediante retribuição. Paris exige que cada comerciante estrangeiro “se associe” a um parisiense, sob pena de exclusão de suas mercadorias. Assim nasceu – ou renasceu – o traficante de influências com entrada no palácio, o lobista, o “agente local” cujo aporte limitava-se a cobrar – naquela época – até uns 50% de lucro sem fazer absolutamente nada.

Às vezes a “livre concorrência” chega à agressão física. Os comerciantes ingleses pediram a Henri VI – no ano de 1949 – que afundasse os barcos bretões ou normandos para que pudessem “dominar os mares”.

Uma magnífica biografia de Jean-Baptiste Colbert (1619-1683) – ministro das finanças de Luis XIV e grande impulsionador do Estado no desenvolvimento econômico da França –, publicada no século XVIII, conta sobre a pirataria holandesa contra os navios mercantes franceses. E sobre a espionagem francesa que conseguiu apoderar-se das técnicas dos vidraceiros de Murano. Livre concorrência. Em matéria de pirataria, e de espionagem, os ingleses não ficam atrás. Às vezes vale a pena ler livros velhos.

Graças a estas joias da literatura econômica, à minuciosa pesquisa realizada durante décadas por verdadeiros estudiosos, ao exame de milhões de documentos comerciais dispersos por toda a Europa, cresce minha convicção: quando as grandes corporações, as multinacionais, algum chefe de Estado, dois ou três lacaios, muitos políticos, não poucos “homens de armas” e seus inúmeros criados acumulam uma rápida riqueza e transformam-se em milionários da noite para o dia, utilizam técnicas e recursos que nasceram, em alguns casos, há milênios.

Não inventamos nada nos tempos de nossa feliz modernidade.


[1]

¡Ay, pobre doña María,
ella que no sabe nada!
Su hijo, el de la piel manchada,
a sueldo en la policía.
Ayer, taimado y sutil,
rondando anduvo mi casa.
¡Pasa! – pensé al verle – ¡Pasa!
(Iba de traje civil).
Señora tan respetada,
la pobre doña María,
con un hijo policía,
y ella que no sabe nada.


Luis Casado é Editor geral da revista digital Politika, publicada pelo Partido de Izquierda (PAIZ) do Chile. Membro de Tlaxcala. Colaborador do site La Pluma.
Posted: 24 Jun 2017 11:07 AM PDT
Publicado em seu perfil no Facebook.


O Brasil se encaminha para a etapa final de um processo que acompanho e prevejo há anos.

Só a idade provecta, a desimportância pessoal e a mídia restrita que uso permitiram que expusesse minha certeza que, por certa, se confirma – assim mesmo porque me recuso a discutir com os apaixonados, os crentes e os convictos, que fazem dos desejos esperança e contam que alguém os realize.

Só um tarado formalista ou um bacharel brasileiro poderiam aceitar que o que ocorre tem algo remotamente parecido com democracia.

O legal não é legítimo: por meios institucionais, essa gente jamais devolverá o poder.

Ao contrário de 1964, quando o golpe foi dado contra o trabalhismo e no contexto da guerra fria, esse objetiva desmontar o Brasil – e o fará.

Quem se opuser será desacreditado, desmoralizado, combatido como criminoso, condenado por crimes quer os tenha ou não cometido, ou terá morte suspeita – provavelmente em desastre de avião, que é o mais fácil.

Radicalizaram.

O dragão da maldade comanda o Judiciário, o Legislativo, o Executivo, a mídia, as igrejas, armou um exército policial paralelo – uma espécie de SS frente a Wehrmacht. A dissidência será contida em guetos, sob pressão social, e se condenará a validar, pela existência, a iniquidade.

Ou uma improvável força oculta (nem poderia, obviamente expor-se) ergue-se com a força dos terremotos por sobre a desinformação da massa e o engano dos letrados – terá que buscar no povo forças para revolver o lixo o e enfrentar águias, hienas e urubus que cercam a carniça - ou .podemos cogitar do fracionamento do país em estados menores que (dou, como exemplo, guardadas nítidas diferenças, a Iugoslávia) poderiam, talvez, viver sob menor pressão e enfrentar com eficácia os problemas sociais que infernizam – e infernizarão cada vez mais – a nossa vida.


Nilson Lage é professor titular da UFSC.
Posted: 24 Jun 2017 10:16 AM PDT
1) O prefeito almofadinha e higienista de São Paulo, João Doria (PSDB), sancionou sem vetos a anistia de IPTU e multas a todas as igrejas do município de SP. E aí, amiguinhos da "jihad" (guerra santa) à brasileira, vão chamar o almofadinha de fundamentalista também? Aprendam, a bancada cristã, de católicos e evangélicos, caminha de mãos dadas quando o assunto é parasitar os recursos do Estado.

2) O Dória também pretende privatizar o sambódromo do Anhembi até 2019. Me referi ao Dória anteriormente pois ele é o modelo para o mandato do prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB). É o modelo da gestão não-política que acredita que o capital privado e o mercado resolvem todos os problemas da sociedade.

3) Numa sociedade bombardeada e lobotomizada pelos falsos encantos do capital, quando um prefeito se propõe a tirar o investimento público de uma manifestação cultural que é muito rentável e atrativa, ele permite a entrada de novos investidores para disputar essa "mina de ouro". Em suma, a intenção de reduzir o investimento no carnaval, em SP ou no RJ, é apenas de mercado, é comercial. A intenção de destruir a cultura do carnaval é exclusiva do capital, quando este a transforma em mero produto de entretenimento a ser consumido.

4) Aqui no Rio, a esquerda apela para o discurso moralista do campo dos costumes, da "jihad" (guerra santa) à brasileira, para rebater tal movimentação de Crivella, que parece ser uma besta, mas não tanto. Ao meu ver, quando ele anuncia a redução de verba do carnaval, ele ataca em duas frentes: a) reabre a negociação para novos investidores, tirando os atuais da zona de conforto, inclusive a Rede Globo; b) por outro lado, ele joga bem com o discurso moralista da nossa classe média. Um exemplo, eu ouvi nessa semana na Rádio Kiss FM Rio, uma rádio de rock n' roll, o apresentador apoiando abertamente a iniciativa do Crivella, dizendo que "o carnaval não pode ter mais vantagens que outras manifestações culturais, porque nem todo mundo gosta de carnaval", etc. Ou seja, com esse movimento, Crivella mexe com toda a sociedade, com todos os nichos e tribos. Não é uma exclusiva movimentação do "projeto de poder fundamentalista da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus)". Para os que não gostam de carnaval, por qualquer que seja o motivo, apoiar a iniciativa de Crivella é natural. Nos falta propositividade e isso é preocupante.

Abraços,
Daniel Samam 

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