sexta-feira, 2 de junho de 2017

2/6 - Blog " DE CANHOTA" de HOJE

De Canhota


Posted: 02 Jun 2017 08:30 AM PDT
Publicado originalmente no Blog do Roberto Moraes.


Ao ler na mídia comercial sobre áudio gravado com assessor de Temer, Gustavo vale com o deputado Rodrigo Rocha que seria relacionado ao decreto assinado no dia 10 de maio, em que Temer concedeu prazo de concessão de até 70 anos para os terminais portuários no país, logo após este diálogo, não há como não analisar o processo histórico deste setor.

Setor que aliás, sempre foi da área de grande interesse de Temer, Cunha e sua turma no PMDB.

A visita de campo feita na semana passada ao complexo portuário de Santos/Cubatão ajuda a relembrar fatos e a comparar como a elite econômica foi mudando para pior a sua forma de atuação.

O Porto de Santos com os velhos trapiches e pontes fincados em terrenos lodosos, desde as primeiras intervenções do feitor Braz Cubas, na época das capitanias hereditárias com Martim Afonso de Souza em 1534 tiveram perspectivas de modernização em 1888, com os Guinle (Eduardo) que ganharam uma licitação para modernizar o porto de Santos. 

Na verdade, na ocasião, ainda antes da Proclamação da República e logo após o fim oficial da escravidão, se tratava da implantação do porto saindo de um ponto de apoio com trapiches para a construção do primeiro terminal que exportaria café e mais adiante, passaria também a movimentar cargas importadas.

Imagem do Porto do Santos entre 1900 e 1910.

Assim, a Companhia Docas de Santos (CDS) colocou o Brasil de forma mais intensa (para além do Porto do Rio) mais integrado à navegação mundial ao entregar os primeiros 260 metros de cais, na área, até hoje denominada, do Valongo.

De lá para cá, o fluxo de cargas que não parou de crescer. O número de terminais portuários naquele complexo já é maior que meia centena e junto se ampliaram o uso com as retroáreas portuárias que também gerou o crescimento e a urbanização na cidade, hoje transformada na região Metropolitana da baixada Santista.

Pois bem, para empreender e implantar todas as bases materiais, os Guinle mantiveram a concessão dos primeiros terminais do Porto do Santos até o início da década de 80.

Pois bem, agora mais de um século depois, diante da ultra capacidade do mercado e de seu discurso de modernização e agilidade, o governo Temer (PMDB) concede até 70 anos – sim 70 anos - para as concessionárias permanecerem nos terminais portuários já construídos, apenas com pequenas adequações e enormes lucros intergeracionais. 

A interpretação é curta e lamentável.

A burguesia (que não pode e nem deve ser chamada de elite) de hoje parece muito pior que antes. 

As relações, articulações e cooptação que o poder econômico fazem sobre o poder político, parecem muito maiores e mais promíscuas que antes. 

E o pior de tudo é a impressão que o projeto de Nação e os interesses nacionais se esvaíram a favor dos interesses econômicos, sem levar em conta o trabalho que produz as riquezas.


Roberto Moraes é professor e engenheiro do IFF (ex-CEFET) em Campos dos Goytacazes,RJ. Pesquisador do NEED-IFF.
Posted: 02 Jun 2017 06:30 AM PDT
Publicado originalmente na Carta Capital.


PIB cresceu na margem. O PIB cresceu 1% no primeiro trimestre do ano em relação ao trimestre anterior, mas apresentou queda de 0,4% em relação primeiro trimestre de 2016. A agropecuária teve desempenho extraordinário, crescendo 13,4%. As exportações cresceram 4,8%. Transportes e armazenagem cresceram 2,8%. Tais números indicam que o PIB cresceu voltado para fora. Os investimentos e o consumo das famílias sofreram contração no trimestre, respectivamente 3,7% e 1,9%.

Que PIB é esse? A recuperação que ocorrera em relação ao trimestre anterior não está relacionada com a dinamização da economia doméstica. O consumo das famílias e os investimentos seguem a trajetória contracionista apontada no gráfico.

Desde quando a economia entrou em crise, ou seja, no último trimestre de 2014, até o primeiro trimestre de 2017, o consumo das famílias já contraiu aproximadamente 10%. No mesmo período, os investimentos retraíram 24%. Pelo oitavo trimestre consecutivo, todos os componentes da demanda interna apresentaram resultado negativo na comparação com igual trimestre do ano anterior.


O que representa o resultado do trimestre? Sabemos que o que acontece em um trimestre, ainda mais se não ocorreram mudanças extraordinárias no nível de investimentos, pouco significa. Mas se os investimentos ou o consumo das famílias tivessem crescido com taxas elevadas, haveria mais empregos e mais consumo no futuro próximo.

Portanto, o resultado de um PIB que cresceu para fora não apontou para o futuro uma trajetória consistente de recuperação. O crescimento na margem do PIB do primeiro trimestre, por enquanto, parece como o primeiro voo de galinha que, após queda profunda, continuará se debatendo dentro do poço. Suspiros acontecem e são naturais em economias deprimidas.

A economia não está se recuperando. O Brasil está mergulhado em uma depressão. A nossa depressão foi de 8,4% de perda de PIB entre o quarto trimestre de 2014 e o mesmo trimestre de 2016. A economia somente estará em recuperação se apresentar trajetória consistente de saída do poço que mergulhou e somente estará recuperada quando atingir um PIB equivalente ao do quarto trimestre de 2014.

O PIB do primeiro trimestre de 2017 é ainda 93% do PIB que finalizamos 2014. Daqui para frente, provavelmente, a economia dará saltos sem significância, alternados com maus resultados, tal como uma galinha que caiu no poço, dando saltos e quedas.  

Aproveitamento político. O suspiro que a economia está dando não tem nada a ver com a atuação do governo. Aliás, esse suspiro aconteceu apesar da paralisia do governo, tanto é que é um PIB que dependeu de demanda externa.O governo atribui uma suposta recuperação ao movimento bem-sucedido para aprovação das reformas trabalhista e previdenciária.

Que fique claro: o crescimento econômico jamais será impulsionado por movimentos pré-reformas previdenciárias ou trabalhistas. Tais reformas não estimulam nem o investimento e muito menos o consumo. Muito pelo contrário, podem estimular a poupança já que geram muita insegurança, principalmente para os trabalhadores.


João Sicsú é Professor do Instituto de Economia da UFRJ, foi diretor de Políticas e Estudos Macroeconômicos do IPEA entre 2007 e 2011.
Posted: 01 Jun 2017 04:30 PM PDT
Publicado originalmente no Blog do Roberto Moraes.


A desintegração das atividades da Petrobras já comprova vários prejuízos para o Brasil. Além da venda em partes das empresas da holding (grupo) Petrobras, as estratégias já mostram os graves equívocos na condução da estatal de petróleo que caminha para se tornar apenas uma empresa reduzida e que vive da extração mineral.

A política de preços de combustíveis adotada logo na entrada pela gestão da Petrobras, pelo governo Temerário, já apontam prejuízos que nem a nova redução de preços dos combustíveis (5,4% na gasolina e 3,5% no diesel) conseguirá segurar.

O fato é: a Petrobras está perdendo - de maneira seguida e forte - o mercado doméstico de combustíveis. A importação de gasolina pelas tradings que atuam no Brasil passou de 240 mil litros em fevereiro, para 419 milhões de litros, que, segundo consultorias do setor, deve se manter agora em maio.

No comércio de diesel a variação é ainda maior. As importações saíram de 564 milhões de litros em fevereiro, para 811 milhões em abril, com previsão de chegar a 1 bilhão de litros, agora em maio.

Estes números são espantosos e mostram o desastre da estratégia do Parente.

O Brasil possui um parque de refino com 10 refinarias, sendo 6 delas na região Sudeste, 2 no Sul e 1 no Nordeste e outra no Norte. A capacidade instalada de processamento delas está em torno de 2 milhões de barris por dia.

Com esta importação de combustíveis (petróleo refinado), o fator de utilização das refinarias que esteve há pouco tempo em torno de 95%, já caiu para 77% e deve chegar, em breve, a menos de 75%.

Este dado não pode ser analisado descolado da observação dos números das exportações de óleo cru, feitas pelo Brasil. Só em janeiro e fevereiro elas cresceram 65%, alcançando cerca de 86 milhões de barris, segundo dados do próprio governo. A China e a Índia – Brics – são nossos maiores importadores de óleo cru e que poderiam ser parceiros para expansão de nosso parque de refino para exportação de combustíveis com maior valor agregado.

É sabido que há uma diferença entre a capacidade de processamento de óleo pesado (da Bacia de Campos) e óleo leve que impõe uma faixa de exportação, mas nunca nesta proporção e muito menos com esta redução enorme do fator de utilização de nossas refinarias.

O resultado de tudo isto é que o Brasil está se tornando uma Nigéria ou Angola, exportando óleo cru e comprando derivados refinados no exterior, com nosso parque de refino trabalhando com folga de quase ¼ de sua capacidade.

Quem ganha com isto são as tradings (corporações que comercializam as commodities de petróleo e combustíveis). Aliás, elas já pediram autorização ao governo brasileiro para importar 3,3 bilhões de litros de diesel (mais 47%) que em janeiro e fevereiro e 49% maior que o volume importado no ano passado.

Quem perde com isto é a Petrobras que vai deixando de atuar como uma empresa integrada.

No dia 31 de janeiro de 2017, este blog comentou em postagem aqui, que o diretor mundial da área de abastecimento e refino da Shell, John Abbott comentou que a petroleira anglo-holandesa retira do refino a maior parte dos seus lucros e que por isto, a Shell não abria mão de ser uma empresa integrada, do poço ao posto, exatamente, o inverso que a gestão do governo Temerário (Parente) passou a fazer com a Petrobras.

A estratégia de Temer (Parente) foi a de desmontar a empresa - que foi fatiada para ser vendida em partes e a preços vil. Na ocasião da postagem sobre a posição da Shell, eu apresentei no mesmo texto, um esquema do processo de desintegração que vem sendo feito na Petrobras e em outros setores de nossa economia em termos de “desverticalização” ou desintegração. O esquema gráfico (veja abaixo) é parte da interpretação de minha pesquisa (tese de doutorado). Em breve resumo o assunto é melhor apresentado e detalhado na postagem de janeiro do blog citada no link acima. 

Enfim, este movimento resultante da alteração da política de preços de combustíveis da Petrobras, adotado desde setembro do ano passado, está desidratando a empresa, ao contrário do que se diz, em termos do que se chama de “saneamento” da empresa.

O emagrecimento do setor de refino da Petrobras tende a levar à privatização deste setor - o mais lucrativo da holding - e também do setor de distribuição, através da BR-Distribuidora, que oferecia garantias e espaço no mercado interno de combustíveis que, cada vez mais, passa a ser controlado pelas tradings como apresentado acima.

Assim, a Petrobras e o país, ao contrário da modernidade prometida pelos que endeusam o mercado, dão alguns passos atrás como grupo econômico brasileiro e enquanto nação.

É ainda mais lamentável observar que tudo isto se dá logo no momento posterior à descoberta o pré-sal, a maior fronteira de exploração de petróleo descoberta na última década no mundo, responsável por seis entre os dez maiores campos explorados neste período.

Diante do quadro tão real e claro, não é difícil compreender porque a mídia comercial e a especializada em negócios e finanças, trata estes dados e indicadores de forma fragmentada, sem uma interpretação mais totalizante.

Assim se pode ver que é a questão econômica que decide sobre os movimentos da política no Brasil contemporâneo. O país não pode ser interpretado sem se conhecer estes movimentos dos donos do dinheiro, em sua captura sobre o poder político (Estado), para implementar seus interesses, que, obviamente, diferem dos objetivos da Nação e de sua população.

O estudo desta fração do capital é elemento indispensável para se compreender os movimentos mais gerais da economia política no país. Os dados e indicadores expressam a materialidade do mundo real, mas só a observação e as análises mais totalizantes e calcadas em categorias e conceitos já conhecidos, permitem uma interpretação potente.

É lamentável enxergar tudo isto sendo feito no dia-a-dia. A resistência cresce e grande parte deste processo poderá ser revertido, conforme a orientação resultante da disputa pelo poder político ora em conflito aberto e clarividente.


Roberto Moraes é professor e engenheiro do IFF (ex-CEFET) em Campos dos Goytacazes,RJ. Pesquisador do NEED-IFF.

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