terça-feira, 27 de junho de 2017

27/6 - Blog " DE CANHOTA" de HOJE

De Canhota


Posted: 27 Jun 2017 06:30 AM PDT
Publicado originalmente no Jornal GGN.


A Coreia do Norte parece mais um país saído de um universo ficcional inverídico: é uma espécie de monarquia que sobreviveu ao... comunismo. Parecem quadrinhos dos anos cinquenta (ruins). Para além disso, o pouco que nos chega não nos permite firmar opinião clara, mas a imaginamos como um... estalinismo monárquico... (um esdrúxulo conceito). Não sabemos se haverá guerra entre esse país e os EUA. Até aqui não houve e parece que há muito a considerar antes que os Estados Unidos desfiram um ataque preventivo.

Sun Tzu n’A Arte da Guerra diz que os maiores generais não são conhecidos, porque ninguém soube das guerras que eles ganharam sem lutar. A guerra até aqui não havida entre a Coréia do Norte e os Estados Unidos, à qual a mídia ocidental não vem dando qualquer relevância (sinal que é importante), parece estar sendo vencida de forma esmagadora pela Coreia do Norte. Essa “não guerra” está definindo parâmetros cruciais para os próximos conflitos e para o futuro e bem que poderia constar nos livros de história como o evento de inauguração do mundo multipolar. O meu acompanhamento pobre vem sendo feito pelo Google, com “North Korea” e selecionando a “última hora”. Sem querer prever o que virá, a ênfase das notícias vêm saindo da guerra propriamente dita e migrando para os aspectos morais do regime de Piong Yang, sinalizando a meu ver uma perda de temperatura. O episódio envolvendo um estagiário americano preso por lá e devolvido quase morto à família não permite, é verdade, alimentar muitas ilusões sobre o regime. Porém, no contexto das relações internacionais esse “não conflito”, ainda que se converta num conflito de verdade, parece configurar uma virada decisiva na história contemporânea.

Guerra Nuclear


Após ter lançado a mãe de todas as bombas no Afeganistão e uma dezena de mísseis na Síria o governo Trump pretendia encostar alguns porta aviões e submarinos nucleares na costa Norte Coreana e fazer o país se ajoelhar. Porém, a vida continua a correr normalmente por lá e o país continua, aliás, à sua vontade, a realizar todos os testes balísticos que deseje, tranquila e ostensivamente. A não guerra da Coréia provou que o risco de um ataque nuclear torna qualquer guerra impagável. Não interessa se os Estados Unidos têm mais bombas, maior capacidade bélica ou o que for. A armada americana que se dirigiu até lá, com mais de um porta aviões e pelo menos dois submarinos nucleares parece ter feito uma viagem no tempo, e não para a Coréia do Norte. Partiram como o florão naval do país mais poderoso do mundo e voltam como latas velhas imprestáveis, exceto para meter medo em países onde nem os cientistas militares e nem a indústria de defesa são importantes...

Tecnologia Convencional


A capacidade bélica da Coreia do Norte torna a guerra impagável até mesmo do ponto de vista convencional. O teste de um míssil anti-navio (terra-mar) da Coréia do Norte obrigou a invencível armada americana a afastar-se da costa coreana onde poderia ser... alvo fácil.

Rússia e China


Ora, a inviabilidade (ao menos até aqui) de uma guerra entre Estados Unidos e Coréia do Norte tornou aquela já esquecida aventura militar americana contra a China (que na doutrina Trump substituiria a aventura da Rússia, tão cara a Hillary Clinton) totalmente inviável. Não interessa mais saber quantas ogivas cada lado tem, como parecia ser o caso até o mês retrasado, quando os milhares de ogivas americanas pareciam substancialmente mais numerosas do que as duzentas e tantas da China... A Coréia do Norte mostrou que basta ter um punhado de mísseis nucleares para ser dissuasiva. Contra quem? Contra os Estados Unidos. Os caríssimos Porta Aviões também se encontraram com a obsolescência, pelo menos em se tratando de conflitos entre países que dignamente façam parte do concerto das nações o que, obviamente, não nos inclui.

Lições da segunda guerra mundial


Na segunda guerra mundial, que foi uma guerra total para a maior parte das nações europeias, não foram empregadas as bombas de gás que já existiam desde a primeira guerra mundial. Nem os nazistas nos seus últimos suspiros a utilizaram, nem nenhum país em suas heroicas e extremas guerras de resistência nacional. O fato de todos terem a arma evitou, na verdade, que fosse utilizada. A Coréia do Norte vem, ao menos até aqui, demonstrando que esse mesmo fenômeno está se repetindo. Detendo a arma dissuasiva por excelência, a bomba nuclear, conseguiu garantir a paz em suas fronteiras sem recuar em nada, mesmo tendo às suas portas a maior força militar já reunida pelos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial.

E o que acontece depois?


Essa demonstração de fraqueza dos Estados Unidos complicará enormemente a sua busca de hegemonia na Ásia, onde a China emerge como potência cada vez mais difícil de rivalizar. Se não há guarda-chuva nuclear contra a Coréia do Norte, o que poderia ser feito contra a China? Na Europa a OTAN teve que repensar a sua estratégia de enfrentamento da Rússia quando essa sinalizou que a sua expansão para o leste era inaceitável. A Rússia avisou que começaria a fazer ataques preventivos com armas nucleares táticas a quaisquer instalações militares que pudessem ser entendidas como ameaça. Obviamente que isto sinalizou à época, e foi acompanhado dos exercícios civis correspondentes, um claro preparo para a guerra total. Desde então a temperatura caiu. Impagável a guerra nuclear, vamos sendo devolvidos à diplomacia que é uma geografia política bem mais complexa do que a da força bruta. Como dizem os indianos estamos vivendo o fim da era Vasco da Gama na qual o Ocidente recua.

Uma importante pergunta nessa quadra, a ser respondida pelos americanos e europeus é: como será o capitalismo num contexto em que a imposição pela força está irremediavelmente fissurada no jogo principal que se joga entre os grandes? A Rússia também sinalizou que qualquer tentativa de retirá-la da Síria seria entendida como um ataque à Rússia e converteu, galhardamente, o país num seu protetorado, ao arrepio de Israel e da OTAN.

Desdobramentos atuais


Se os porta-aviões americanos retornarem ao país sem ter disparado um tiro teremos entrado numa nova era, porém e isso é a pior notícia para os Estados Unidos, se houver guerra também. Há sempre o risco de que uma guerra comece por acidente ou por loucura e isso não está descartado na Coréia do Norte. Esse risco não altera, em absoluto, o contexto de mudança de era em que o, até aqui, “não conflito” está imerso. Se ocorrer a guerra assistiremos à materialização da nova era sob a sua expressão mais sombria: milhões de mortos em toda parte, a Coréia do Norte varrida do mapa, assim como o Japão, a Coréia do Sul e talvez um punhado de cidades americanas.

Essa é a razão pela qual a Coréia do Norte realmente posicionou o sarrafo alto demais até mesmo para a América. O encontro desse limite pelos Estados Unidos inaugura, quer se queira, quer não, o mundo multipolar.

Não para nós, é claro.


Ion de Andrade é Médico e professor universitário. É colaborador de uma instituição social ligada à igreja católica num bairro popular de Natal. Está concentrado no estudo dos avanços sociais e da emancipação das periferias como fatores da ampliação da democracia política.
Posted: 26 Jun 2017 11:30 AM PDT
Publicado no Jornal GGN.


No Brasil basta que um político, um jornalista ou um intelectual seja xingado num aeroporto ou num restaurante para que os bem-pensantes liberais e de esquerda se condoam com o "insuportável clima" de radicalização e de ódio. Todos derramam letras e erguem vozes para exigir respeito e para deplorar as situações desagradáveis e constrangedoras. Até mesmo a nova presidente do PT e parlamentares do partido entram na cruzada civilista para exigir o respeito universal, mesmo  que para inimigos. Os bem-pensantes brasileiros, cada um tem seu lado, claro, querem conviver pacificamente nos mesmos aeroportos, nos mesmos restaurantes e, porque não, compartilhar as mesmas mesas. Deve haver um pluralismo de ideias e posições, mas a paz e os modos civilizados devem reinar entre todos e a solidariedade e os desagravos precisam estar de prontidão. As rupturas na democracia e no Estado de Direito não devem abalar este convívio.

Trata-se de um pacifismo dos hipócritas. O fato é que no Brasil, a paz é uma mentira, a democracia é uma falsidade e a realidade é deplorável, violenta e constrangedora. Deplorável, violenta e constrangedora para os índios, para os negros, para as mulheres, para os pobres, para os jovens e para a velhice. A paz, a cultura e a ilustração só existem para uma minoria constituída pelas classes médias e altas que têm acesso e podem comprar a seguridade social, a educação, a cultura e o lazer. O Estado lhes garante segurança pública.

A hipocrisia pacifista das elites econômicas e políticas e dos bem-pensantes sempre foi um ardil para acobertar a violência que lhes garante os privilégios, o poder e a impunidade. Ardil que anda inseparado de sua irmã siamesa - a democracia racial - e, juntos, constituem a ideologia da dominação e da dissimulação da tragédia social e cultural que é o nosso país.

O pacifismo é um brete, uma jaula, que procura aprisionar e conter a combatividade cívica dos movimentos sociais e dos partidos que não compartilham com a ideia de ordem vigente. Essa ideologia operante exige que as manifestações de rua sejam sempre tangidas pelas polícias e, quando algo não fica no figurino, a violência e a repressão são legitimadas para manter a paz dos de cima. A democracia racial, que sempre foi uma crassa mentira, difundida por bem-pensantes e por representantes do Estado, é uma rede de amarras e de mordaças que visa impedir a explosão de lutas e os gritos por direitos e por justiça de negros e pobres, que são pobres porque são negros. A ideia de democracia racial também não passa de um ardil para acobertar a violência e a opressão racial e econômica e para escamotear o racismo institucionalizado - herança escravocrata entranhada como mentalidade e como cultura na alma pecaminosa da elite branca.

Uma história violenta

O Brasil nasceu e se desenvolveu sob a égide da violência. Não da violência libertadora, da violência cívica que corta a cabeça dos dominadores e dos opressores para instituir a liberdade e a justiça. Aqui, os malvados, os dominadores e opressores, nunca foram ameaçados e mantêm o controle político a partir de um pacto preliminar do uso alargado da exploração e da violência como garantia última do modo de ser deste país sem futuro.

Primeiro, massacraram e escravizaram índios. Depois, trouxeram cativos da África, muitos dos quais chegavam mortos nos porões dos navios e foram jogados como um nada nos mares e nas covas e se perderam, sem nomes, nos tempos. Trabalho brutal, açoites e exploração sexual foi o triste destino a que estavam reservados. Essa compulsão violenta ecoa até hoje, no racismo, na exploração e na própria violência contra as mulheres em geral, pois a genética e a cultura brancas trazem as marcas da impiedade machista da vontade de domínio, até pela via da morte.

A hipocrisia do pacifismo bem-pensante não se condói sistematicamente com os 60 mil mortos por ano por meios violentos - prova indesmentível de que aqui não há paz. Mortos, em sua maioria, jovens pobres e negros. Também não se condói com o fato de que as nossas prisões estão apinhadas de presos, em sua maioria, pobres e negros e sem uma sentença definitiva. Presos que vivem nas mais brutais condições de desumanidade.

Não se pode exigir paz e civilidade num país que ocupa o quarto lugar dentre os que mais matam mulheres no mundo, sem contar os outros tipos de violência de gênero. E o que dizer da continuada violência contra os camponeses e do recorrente extermínio dos índios?

A paz e a civilidade existem nos restaurantes dos Jardins, nos gabinetes e palácios, nas redações da grande mídia, nos intramuros das universidades, nos escritórios luxuosos, nos condomínios seguros, nos aviões que voam levando os turistas brasileiros para fazer compras no estrangeiro. Mas elas não existem nas ruas, nas praças, nas periferias, nas favelas, no trabalho.

O Brasil caminha para o abismo, sem destino, tateando no escuro, aprisionado pela sua má fundação e de sua má formação. Precisamos recusar este destino e isto implica em recusar a mentira hipócrita do pacifismo e da civilidade dos bem pensantes e falsidade da democracia racial. Os gritos das dores das crueldades praticadas ao longo dos séculos precisam retumbar pelos salões de festa das elites e nos lares e escritórios perfumados pela alvura que quer disfarçar uma herança de mãos manchadas de sangue e de rapina. Os historiadores precisam reescrever a história deste país para que possamos entender a brutalidade do passado e do presente e projetar um outro futuro.

A doce ternura da paz e da civilidade dos bem-pensantes, dos bem-educados, dos bem-vestidos, dos bem-viventes, precisa ser confrontada e constrangida pelo fato de que nos tornamos uma nação de insensíveis e de brutais, praticantes do crime imperdoável de desalmar as vítimas da violência para dar-lhe uma alma (branca) também insensível e brutal. Não temos o direito de persistir na mentira hipócrita e na enganação. Não temos o direito de interditar caminhos de liberdade e de justiça pelas nossas ideologias ludibriantes. Se não fomos capazes de construir um nação com direitos, justiça, democracia e liberdade, deixemos que os deserdados deste país a construam e, se possível, vamos ajudá-los com humildade e sem vaidades. A paz efetiva só existirá quando estes bens se tornarem realidade para todos.


Aldo Fornazieri é Professor da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

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