sexta-feira, 30 de junho de 2017

30/6 - Blog "DE CANHOTA" de HOJE

De Canhota


Posted: 30 Jun 2017 07:30 AM PDT
Publicado originalmente no Brasil 247.


A revista Carta Capital produziu entrevista com o sociólogo Jessé de Souza, ex-presidente do IPEA, que provoca em todos nós uma profunda reflexão sobre a natureza da sociedade que foi construída nesse país chamado Brasil.

Segundo o sociólogo, após a abolição da escravatura formou-se na sociedade um pacto antipopular entre a pequena elite econômica e a classe média. É um pacto histórico, que perpassa os governos do século passado e adentra o século XXI, e se manifesta sob a forma de ódio ao pobre, ao negro, ao imigrante nordestino, o trabalhador rural.

É o que Jessé Souza chama por “SOCIEDADE DA CHIBATA”, que se materializa na exclusão social e na violência contra os trabalhadores e moradores das favelas e periferias. São todas elas socialmente invisíveis, alvos da violência policial e da humilhação cotidiana.

Essa análise merece ser lida e refletida, pois toca fundo em nossa realidade e na situação atual do golpe que deram contra a presidenta Dilma.

O tal combate à corrupção foi apenas um simples pretexto para tirá-la do governo por conta das políticas de combate à desigualdade social, algo inaceitável pelo pacto antipovo das elites reacionárias. Agora que a corrupção está escancarada, instalada oficialmente na Presidência da República, não se escuta uma panela batendo nas varandas da classe média. E não se escuta porque, apesar da corrupção, o Brasil voltou à sua “normalidade” histórica, voltou a colocar no seu devido lugar, os segmentos mais pobres que tinham ascendido socialmente nos governos de Lula e de Dilma.

O golpe contra a Constituição Cidadã de 1988 mostra que para a base popular os direitos da cidadania são apenas pedaços de papel sem valor para os donos do poder.

A cidadania social em construção foi radicalmente varrida por um golpe de classe, dos ricos contra os pobres. Mas o povo que sofre e é oprimido chama a cidadania social por outro nome, a chama por LULA.

Por isso, o perseguem e querem condená-lo sem provas para impedir que a luta pela cidadania do povo, a cidadania social volte ao governo e restabeleça seus direitos roubados e vá mais além, criando garantias institucionais e políticas para que outros golpes não tenham êxitos.


Benedita da Silva é Deputada federal pelo PT-RJ, ex-governadora do Rio de Janeiro e primeira senadora negra do Brasil.
Posted: 30 Jun 2017 06:00 AM PDT
Publicado originalmente na Carta Capital.


O imperativo do ajuste fiscal encobre o real propósito de alterar o modelo de sociedade pactuado em 1988. Essa marcha foi deflagrada no início dos anos 1990. Nesse sentido, a atual estratégia de implantar o projeto neoliberal turbinado no Brasil nada tem de novidade.

A mesma estratégia foi tentada sempre com êxito incompleto nos governos Collor, Itamar e Fernando Henrique. Em 2002, ela reapareceu sob o disfarce da famigerada “Agenda Perdida”, a qual, para surpresa de muitos, foi incorporada pelo ministério da Fazenda do governo Lula. Mais adiante, em 2005, a mesma estratégia apareceu reembalada como “Programa do Déficit Nominal Zero”, fustigado como “programa rudimentar” pela então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

Após uma breve trégua, outra vez a estratégia de radicalizar o neoliberalismo reaparece nos programas dos candidatos derrotados em 2014, mas que, paradoxalmente, foram chancelados pela presidenta eleita, Dilma Rousseff.

Na etapa de preparação do golpe contra a democracia, a ofensiva do mercado inicia-se com a chamada “Agenda Brasil” (2015) e culmina no documento “Uma Ponte para o Futuro” (2016), reedição do passado com nova roupagem, e que se transformou no “programa de governo” da coalização espúria que assumiu o poder.

Assim, desde 1990, o modelo econômico que as elites financeiras tentam implantar aparece traduzido na política de ajuste fiscal na qual as classes dominantes acertam-se em torno de uma agenda de desconstrução de direitos sociais, sindicais, trabalhistas, humanos, ambientais e culturais.

No caso da proteção social, a mudança no modelo de sociedade pactuado em 1988 tem por propósito acabar com o embrionário Estado Social e implantar o Estado Mínimo Liberal. Para isso, os ventríloquos do mercado utilizam-se do falso consenso de que os gastos constitucionais “obrigatórios” (previdência social, assistência social, saúde, educação, seguro-desemprego, dentre outros) teriam crescido num ritmo que comprometeria as contas fiscais. Por esse raciocínio, a estabilização da dinâmica da dívida pública exigiria modificar o “contrato social da redemocratização”.

Argumentam que a crise atual decorreria da trajetória “insustentável” de aumento dos gastos públicos desde 1993, por conta dos direitos sociais consagradas pela Carta de 1988. A visão de que “o Estado brasileiro não cabe no PIB” ou que “as demandas sociais da democracia não cabem no orçamento” tem sido sentenciada por diversos representantes do mercado. Vendem a falsa ideia de que a questão fiscal somente será resolvida se se extinguirem os direitos sociais de 1988. Essa construção ideológica não se sustenta, como se argumenta a seguir.

O gasto social reflete as demandas da democracia

O comportamento do gasto social no Brasil a partir da Constituição Federal não é “um ponto fora da curva” na história das nações industrializadas e democráticas. O que ocorreu no Brasil a partir de 1988 guarda semelhanças com a experiência de muitos países da Europa e da América desde 1880 e, mais acentuadamente, a partir de 1945.

Lindert (2004) aponta que o “grande avanço” das transferências sociais como porcentagem do PIB ocorrido em diversos países europeus entre 1880 e 1930 reflete “o aparecimento tardio e parcial do estado de bem-estar”. Esse fenômeno foi impulsionado, dentre outros fatores, pelo contínuo avanço do processo de “democratização que moldou a história pré-1880”.

Mais impressionante é o aumento dos gastos sociais em relação ao PIB, entre 1945 e 1975. Pierson (1991) destaca que o aumento do gasto social “foi um dos mais marcantes fenômenos do desenvolvimento capitalista de pós-guerra”. Nos países da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE), a taxa média anual de crescimento dos gastos sociais cresceu de 0,9% (entre 1950-1955), para 6,5% (1960-1975). No período de maior expansão (1960-1975), a proporção do PIB destinada ao gasto social aumentou, em muitos países, de 12% para 23%.

Gasto social, neoliberalismo e crise financeira internacional

Entretanto, o dado mais relevante é que a relação gasto social/PIB continuou a crescer na maior parte dos países desenvolvidos entre 1990 e 2000, mesmo no contexto da hegemonia neoliberal. E continuou a crescer entre 2000 e 2015, mesmo com as restrições impostas pela crise financeira global de 2008 (Figura 1).


O gasto social do Brasil não é elevado, na comparação internacional

Documento elaborado pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN) revela que, entre 2002 e 2013, “o gasto social do Governo Central aumentou mais de 11% em todos os grupos de países no período analisado” [Europa Emergente, Zona do Euro, Países Nórdicos e América Latina Emergente], com exceção da Ásia emergente (STN, 2016: 59).

Além disso, o estudo demonstra que o patamar do gasto social do Governo Central no Brasil não é elevado na comparação internacional. Ele é superior ao realizado pelos países emergentes da Ásia e encontra-se num patamar próximo dos países emergentes da América Latina. Entretanto, “em relação aos países europeus e seu estado de bem-estar social, o gasto social brasileiro ainda é relativamente baixo”.

Por outro lado, o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais do mundo. O estudo da STN ressalta que o índice Gini do Brasil “ainda se apresenta expressivamente superior ao dos grupos de países desenvolvidos e, até mesmo, das regiões emergentes do mundo”. Nesse sentido, “mesmo com os significativos avanços com relação ao combate à desigualdade nos últimos anos, o Brasil ainda tem grande potencial para aprimoramento nesse indicador” (idem, p.63).

A distensão do represamento secular dos direitos sociais em 1988

Os adeptos da visão de que “as demandas sociais da democracia não cabem no orçamento” desconsideram que o ano de 1993 coincide com a distensão do represamento secular dos direitos sociais que ocorreu a partir desse ano por força de decisão do Supremo Tribunal Federal que determinou o cumprimento imediato da Constituição de 1988.

Em mais de 500 anos de história, pela primeira vez os trabalhadores rurais, submetidos a condições de trabalho reminiscentes da escravidão, passaram a ter os mesmos direitos previdenciários que o segmento urbano. Com o início da vigência das aposentadorias rurais o número de concessões salta de um patamar anual de 120 mil para 900 mil. Após o reconhecimento desses direitos, a concessão de benefícios se manteve num patamar em torno de 300 mil anuais (Figura 2).


A partir de 1993 também passou a vigorar o programa Seguro-Desemprego, adotado no Brasil com mais de meio século de atraso em relação às nações desenvolvidas. Atualmente são concedidos cerca de 7 milhões de benefícios.

Com a regulamentação da Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) em 1994, deu-se início à implantação do programa Benefícios de Prestação Continuada (BPC), que atende atualmente quase 5 milhões de famílias com renda per capita inferior a ¼ do salário mínimo e pessoas portadoras de deficiências.

Também passaram a vigorar as novas regras da Previdência Social urbana, com destaque para a introdução do piso de aposentadoria equivalente ao salário mínimo.

A série de dados iniciada em 1993 também não leva em conta fatores atípicos como, por exemplo, a notável “corrida às aposentadorias” urbanas ocorrida nos anos que precederam a Reforma da Previdência ensaiada pelo governo Collor e realizada pelo governo de FHC (Emenda Constitucional 20 de 1998).

A Figura 3 mostra que o número de aposentadorias concedidas por tempo de contribuição na área urbana saltou de um patamar de 60 mil por ano (até 1990) para 416 mil por ano em 1997. Essa “corrida às aposentadorias” foi fruto do temor das mudanças restritivas trazidas pela tramitação da reforma da Previdência no Congresso Nacional.


No período atual, assiste-se à nova “corrida às aposentadorias”, uma reação ante a proposta excludente da Previdência que tramita no Congresso. Se estudassem o passado, saberiam que reformas da Previdência sempre agravaram as dificuldades e tornaram ainda mais difícil o ajuste fiscal.

As transferências de renda para os ricos

Talvez por conflito de interesses, os adeptos da visão de que os direitos sociais “não cabem no PIB” não escrevem uma linha sequer sobre os formidáveis mecanismos de transferência de renda para os ricos que poderiam ser contidos, por quem se interessasse em algum ajuste fiscal real.

Eles não mencionam, por exemplo, as renúncias fiscais para grupos econômicos e famílias de alta renda, que totalizaram 280 bilhões de reais em 2015 (cerca de 4% do PIB). Significa que, anualmente, o governo Federal abre mão 20% das suas receitas, transferidas na forma de isenção fiscal.

O poder público também deixa de arrecadar cerca de 500 bilhões de reais anualmente pela ausência de políticas severas de combate à sonegação fiscal. A falta de rigor na fiscalização fez com que o estoque da Dívida Ativa Federal atingisse mais de 1,8 trilhão de reais em 2016.

Também não há referência aos gastos com juros que, em 2015 (502 bilhões de reais), foram superiores aos gastos previdenciários (486 bilhões de reais). Observe-se que, sobretudo em função da elevada taxa de juros, o ritmo de crescimento do estoque da dívida pública triplicou em uma década (2006-2016), passando de 1 trilhão de reais para 3 trilhões de reais (em valores nominais). Em apenas um mês (de agosto a setembro de 2016), esse estoque cresceu 3,1%.

Diante desse fato, como sustentar que os gastos sociais sejam os vilões da dívida pública, se no período pós Constituição de 1988 eles cresceram em torno de 3% ao ano, e os gastos financeiros crescem 3% ao mês?

Também não se mencionam as possibilidades de crescimento da receita governamental caso se providenciasse uma reforma tributária que incidisse sobre a renda e o patrimônio. Como se sabe, a estrutura fiscal brasileira é extremamente regressiva, e promover melhor justiça fiscal pode também ser uma alternativa para enfrentar com eficácia a questão fiscal.

Todo o poder emana do mercado

Em suma, o gasto social no Brasil não é um “ponto fora da curva” do cenário internacional. Ele reflete um fenômeno global associado ao avanço do processo democrático nas sociedades industrializadas. As alternativas para o ajuste fiscal passam pela revisão dos programas de transferência de renda para os ricos e pelo choque das receitas, o que depende de ações concretas voltadas para ativar o crescimento da economia.

Contudo, muito diferente do que ordena o artigo primeiro da Constituição, no Brasil todo o poder emana do mercado, que o exerce diretamente, ou por meio de representantes eleitos.


Eduardo Fagnani é Professor do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho (Cesit) e coordenador da rede Plataforma Política Social.
Posted: 29 Jun 2017 02:00 PM PDT
Publicado originalmente no Jornal GGN.

Não é novidade que Minas Gerais, assim como todo o País, enfrenta uma profunda crise financeira - a qual, diga-se de passagem, foi herdada das más gestões anteriores. Mas somente nesse aspecto nos igualamos aos demais estados. Diferentemente de outros, que mergulharam no caos, a exemplo do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, aqui, o Governo tem buscado saídas criativas para recuperar a capacidade de investimento.

Recusamo-nos a trilhar o caminho "mais fácil" de, para obter ajuda federal, "engolir" sem questionar o receituário recessivo de Michel Temer, à custa do sacrifício dos servidores públicos e do patrimônio de Minas. Em vez disso, o governador Fernando Pimentel buscou alternativas, comprovando, mais uma vez, sua capacidade de gestão.

Nesta perspectiva, enviou à Assembleia Legislativa, há cerca de três meses, projetos de lei para a criação de seis fundos de investimentos com vistas à captação de recursos no mercado financeiro. São eles: o Fundo de Investimento do Estado de Minas Gerais (MG Investe), o Fundo de Pagamento de Parcerias Público-Privadas (FPP), o Fundo de Garantias de Parcerias Público-Privada (FGP), o Fundo Especial de Créditos Inadimplidos e Dívida Ativa (Fecidat), o Fundo de Ativos Imobiliários (Faimg) e o Fundo de Investimentos Imobiliários (Fiimg).

Aumentar a arrecadação e os investimentos nos serviços públicos, reaquecer a economia mineira e retomar um círculo virtuoso de desenvolvimento para a consequente geração de empregos e renda são os objetivos dos fundos. Um movimento em linha diametralmente oposta à política do Governo de Temer no Brasil.

Dentre os fundos propostos, causou grande reação da oposição - liderada pelo PSDB - o chamado Fundo Imobiliário. Ele terá como lastro os recursos da venda de imóveis do Estado que hoje se encontram sem função e os aluguéis daqueles que estão ocupados, os quais permanecerão inalienáveis. Sem conhecimento profundo do tema, os adversários atacaram fortemente a proposta, alegando, equivocadamente, que representaria a venda do patrimônio mineiro. 

A oposição desempenha seu papel no jogo democrático. Agora, no entanto, se for honesta, deverá reconhecer que o Governo de Minas está no caminho certo. Afinal, seu mais novo expoente, o prefeito de São Paulo, Jorge Doria (PSDB), apresentou proposta similar para a criação de um fundo composto pelos imóveis do município. Por sinal, uma versão bem piorada.

Entre outros pontos negativos, o projeto de Doria não fornece especificações dos imóveis em questão, impedindo a verificação quem tem sido realizada em Minas. Também peca pela ausência do caráter democrático e da transparência conferidos pelo conselho gestor do fundo, com a participação da sociedade civil, cuja criação está prevista no projeto de Pimentel.

Acrescente-se que, ao tramitarem na Assembleia, os projetos do governo mineiro têm sido aperfeiçoados, com novas garantias para o patrimônio estadual. Foi neste sentido que apresentei emenda que veda a inclusão no Fundo Imobiliário de imóveis que estejam ocupados por órgãos públicos, sejam estaduais, municipais ou federais. Outra emenda de minha de autoria, voltada a imóveis utilizados para fins residenciais, garante a opção de compra pelos atuais moradores. Enquadram-se neste caso, principalmente, policiais militares que residem em imóveis funcionais do Estado.

Críticas à parte, tudo demonstra que Fernando Pimentel está "fazendo escola". Qual não foi nossa surpresa quando, no último dia 21, o governo federal anunciou a intenção de também criar um fundo imobiliário com imóveis pertencentes à União. Se é para aprender com Minas, espero que Temer seja melhor aluno que Doria.

Para nós, deputados estaduais, fica a tarefa de discutir e votar com responsabilidade os projetos de criação dos fundos, que voltam à pauta da Assembleia Legislativa nos próximos dias. Para o bem de Minas, espero que sejam aprovados, pois sua necessidade e pertinência já foram amplamente comprovadas e reconhecidas até por governantes da oposição.

Durval Ângelo é deputado estadual em Minas Gerais, pelo PT
Posted: 29 Jun 2017 12:00 PM PDT
Publicado originalmente no Outras Palavras.


Bem quando comentaristas de geopolítica faziam apostas para uma mudança de regime no Qatar – orquestrada por uma Casa de Saud [da Arábia Saudita] desesperada –, a mudança de regime acabou por acontecer em Riad, orquestrada pelo Príncipe Guerreiro, Destruidor do Iêmen e Bloqueador do Qatar, Mohammad bin Salman (MBS).

Considerando a impenetrabilidade daquela oligarquia familiar do petrodólar do deserto travestida de nação, dar conta desse mais recente Game of Thrones árabe é tarefa de uns poucos estrangeiros com acesso garantido. E também não ajuda que o abundante dinheiro dos lobbies sauditas – e dos Emirados – em Washington reduza virtualmente todos os think-tanks e jornalistas venais à mais abjeta máquina de calúnia e difamação.

Alta fonte no Oriente Médio, próxima da House of Saud, e dissidente de fato do consenso construído em Washington, não poupa palavras: “A CIA está muito insatisfeita com a demissão do [ex-príncipe coroado] Mohammad bin Nayef. Mohammad bin Salman é visto como patrocinador de terroristas. Em abril de 2014, as as famílias reais dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita estiveram à beira de ser derrubadas pelos EUA, por causa do terrorismo. Fez-se então um acordo, pelo qual Nayef assumiria o reino, para pôr fim ao terrorismo.”

Antes do golpe de Riad, uma insistente narrativa percorria seletos círculos geopolíticos no Oriente Médio. Segundo ela, os seviços secretos dos EUA teriam interrompido “indiretamente” outro golpe contra o jovem emir do Qatar, Xeique Tamim al-Thani, orquestrado por Mohammad bin Zayed, príncipe coroado de Abu Dhabi, com a ajuda do exército de mercenários de Eric Prince da Blackwater/Academi, nos Emirados Árabes Unidos. Zayed é nada menos que o mentor de MBS.

Nossa fonte esclarece: “os eventos estão conectados. O príncipe é CIA, mas provavelmente conteve qualquer atentado contra o Qatar. A CIA bloqueou o golpe no Qatar e os sauditas reagiram derrubando o eleito da CIA, Mohammed bin Nayef, que deveria ser o próximo rei. Os sauditas estão assustados. A monarquia está em dificuldades, porque a CIA pode pôr o exército na Arábia contra o rei. MBS fez um movimento defensivo.”

A fonte acrescenta que “MBS está caindo por todos os lados. Iêmen, Síria, Qatar, Iraque, etc. são, todos esses, fracassos de MBS. A China também não está satisfeita com MBS, que está criando problemas também em Xinjiang. A Rússia não pode estar satisfeita com o a evidência de que MBS esteve e continua por trás dos baixos preços do petróleo. Quem são seus aliados? Só tem um, seu próprio pai, que não se pode dizer que seja competente.” O rei Salman está virtualmente incapacitado, vítima de demência.

A fonte é muito clara: “É muito possível que a CIA aja contra a monarquia na Arábia Saudita.” É como dizer que a guerra entre o presidente Trump e setores seletos do Estado profundo nos EUA subiriam a um nível completamente novo.

E para complicar ainda mais o quadro, há o fator Jared da Arábia. Não há o que faça qualquer ator insider sério confirmar qualquer coisa sobre o golpe (abortado) no Qatar. Mas se esse golpe realmente aconteceu e foi abortado, Jared Kushner pode ter recebido informação interna, considerando suas conexões.

Segundo a mesma fonte, “Jared Kushner está essencialmente falido na Quinta Avenida 666, e carece da ajuda financeira dos sauditas. Nessa situação, está fazendo tudo que os sauditas mandam. 666 Fifth está em tão péssima situação financeira, que nem o sogro pode resgatá-lo.”

Operação Húbris do Deserto


Essa complexa sucessão de eventos realmente confirma o famoso memorando de dezembro de 2015 da inteligência alemã (BND) –, segundo o qual a Casa de Saud adotara “uma impulsiva política de intervenção”. O memorando da inteligência alemã detalhava o modo como a Casa de Saud, na Síria, financiara a criação do Exército da Conquista – basicamente a Jabhat al-Nusra, codinome al-Qaeda na Síria ressuscitada – bem como o grupo Ahrar al-Sham, irmão ideológico desses todos. Tradução: a Casa de Saud ajuda, apoia e arma o terrorismo salafista-jihadista. E isso num regime que agora acusa o Qatar de fazer o mesmo (Doha apoiou grupos diferentes).

No Iêmen, a inteligência alemã preocupava-se porque a guerra de MBS contra os houthis e o Exército do Iêmen só interessava à al-Qaeda na Península Arábica. Agora, a guerra de MBS – guerreada com armas norte-americanas e britânicas – também já provocou ser catástrofe humanitária horrenda.

Como é possível que um ignorante arrogante sujo doente de húbris como MBS tenha chegado tão perto de incendiar todo o sudoeste da Ásia [Oriente Médio, na terminologia eurocêntrica]? E não só o sudoeste da Ásia: ondas de desespero começam a chegar aos círculos de investimento ocidentais, ante o risco que de MBS e suas ações de tiroteio ensandecido para todos os lados rapidamente destruam incontáveis poupanças para aposentadoria por todos os lados.

Para compreender é preciso conhecer alguns detalhes. O que se tem hoje é o 3º Reinado saudita – fundado por Ibn Saud em 1902, mantendo sempre a mesma aliança tóxica com os clérigos wahhabistas trogloditas. Ibn Saud governou só Najd no início; depois, em 1913, anexou a Arábia Ocidental xiita (onde está todo o petróleo), e em 1926, Hejaz, na costa do Mar Vermelho. Um reino da Arábia Saudita “unido” só começou a existir em 1932.

Ibn Saudi morreu em 1953. A mais influente de seu harém de esposas foi, pode-se dizer assim, Hassa al-Sudairi. O casal teve sete filhos. O rei Salman (hoje consumido pela demência senil), Nayef e MBS são Sudairis. MBS é o primeiro dos netos de Ibn Saud com real possibilidade de chegar ao trono.

Alguns outros príncipes são mais competentes que MBS. Nayef, serviu durante muito tempo como ministro do Interior, foi o czar saudita do contraterrorismo (o que fez dele queridinho da CIA). Há Mitab bin Abdullah, ministro da Guarda Nacional da Arábia Saudita; o notório príncipe Turki, ex-chefe de inteligência, ex-embaixador nos EUA e ex-melhor amigo de Osama bin Laden; e Khaled bin Faisal, governador de Meca e ex-ministro da Educação.

MBS está apostando tudo na sua “Visão 2030″ – que em teoria poderia empurrar a economia saudita para além da dependência única no petróleo, mas implica uma modernização política virtualmente impossível: afinal de contas, a House of Cards [literalmente: “castelo de cartas”] saudita é não reformável. Considere-se a lista cômica, das 13 “exigências” agora impostas ao Qatar – serviço de MBS – incluindo a belicosa virtual excomunhão do Irã e o fechamento da rede al-Jazeera.

Não é surpresa que praticamente todos os grandes atores geopolíticos estejam trabalhando já em cenários de guerra – embora só a Alemanha tenha exposto oficialmente essas preocupações. O Qatar é observador na OTAN. Doha já decidiu que não se curvará às absurdas “exigências” dos sauditas. O que virá a seguir? MBS – o mais perigoso “líder” de todo o quadro geopolítico hoje – se deixará humilhar? Ou lançará mais uma guerra alucinada, pervertida, que ele jamais vencerá e que, dessa vez, convulsionará todo o planeta?


Pepe Escobar é Jornalista brasileiro, correspondente internacional desde 1985, morou em Paris, Los Angeles, Milão, Singapura, Bangkok e Hong Kong. Escreve sobre Asia central e Oriente Médio para as revistas Asia Times Online, Al Jazeera, The Nation e The Huffington Post.

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