quarta-feira, 7 de junho de 2017

7/6 - Altamiro Borges DE HOJE

Altamiro Borges


Posted: 07 Jun 2017 07:12 AM PDT
Por Helena Borges, no site The Intercept-Brasil:

Um representante patronal: empresário dono de companhias em diferentes áreas, com um patrimônio estimado em aproximadamente R$400 milhões, acionista com investimentos em diversos bancos dentro e fora do país. O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) é o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), onde foi concluída ontem a primeira fase de discussões e análises da Reforma Trabalhista no Senado. Sob seu comando, a Comissão levou as discussões a toque de caixa, a leitura de relatórios foi cortada e todas as possíveis emendas ao projeto de lei foram vetadas. Agora, ele se volta para o plenário, para onde retornará também a proposta da reforma, após passar pelas comissões de Assuntos Sociais (CAS) e de Constituição e Justiça (CCJ). Entender quem é Jereissati é entender as possibilidades que o futuro da reforma reserva aos direitos dos trabalhadores brasileiros.

O sobrenome incomum é de origem sírio-libanesa e se tornou sinônimo de riqueza, sendo homônimo da holding familiar. Tasso nasceu em dezembro de 1948 em Fortaleza e foi para o Rio de Janeiro estudar administração na Fundação Getúlio Vargas, berço da escola neoliberal no Brasil. Depois de formado, voltou para Fortaleza, onde presidiu o Centro Industrial do Ceará (CIC) no início da década de 80. O Centro funcionava como pólo de convergência de industriais e empreendedores, onde eram organizados fóruns de debates das questões econômicas, sociais e políticas da região e do país.

Foi no CIC que surgiu o convite do então governador do Ceará, Gonzaga Mota, para entrar na política, em 1985. Inicialmente vinculado ao PMDB, pouco após a criação do PSDB, em 88, ele migrou para o partido que hoje preside pela terceira vez. Junto a ele, filiou-se também Ciro Gomes, seu colega desde o início na política, que após anos afastado agora se reaproxima e inclusive defende o nome de Jereissati para possíveis eleições indiretas.

Os interesses das elites produtivas continuam sendo defendidos por ele até hoje, principalmente na Comissão do Senado que preside, que tem entre suas missões emitir pareceres sobre a política econômica nacional, tributos, e até mesmo a escolha de membros importantes da equipe econômica do governo, como os Ministros do Tribunal de Contas da União, o presidente e os diretores do Banco Central.

Tucanato

Jereissati é da velha-guarda do PSDB. Um nome mais discreto que os de Fernando Henrique Cardoso e José Serra, mas não necessariamente menos poderoso. Apesar de ter sido cotado inúmeras vezes para a candidatura à Presidência do país, se limitou a presidir o partido e a operar nos bastidores.

Eleito presidente do PSDB pela primeira vez em 1991, cargo que manteve até 1993, convidou para sua equipe a economista (e agora também advogada) Elena Landau. Após a eleição de Fernando Henrique Cardoso em 1994, na qual Jereissati trabalhou arduamente, Landau se tornou diretora de Desestatização do BNDES. Ela comandou as privatizações federais no governo Fernando Henrique Cardoso de 1993 a 1996.

Em 2011, após uma “frustração” da economista com a política — “ficava frustrada a cada eleição quando as privatizações não eram defendidas”, afirmou ela em entrevista ao jornal Valor Econômico —, Jereissati a procurou novamente para que eles realizassem o retorno de nomes ligados à equipe de FHC e do Plano Real após três derrotas consecutivas em eleições presidenciais (2002, 2006 e 2010). Tasso pode não ser o nome que encabeça as chapas de eleição do PSDB, mas é ele quem faz a ponte com o mercado financeiro para recrutar a equipe econômica.

Negócios em família

Enquanto isso, seu irmão Carlos, dois anos mais velho, foi enviado para estudar economia na Mackenzie, em São Paulo. Lá fez raízes e começou criar em 1966 um império no mercado de shopping centers que hoje se chama Iguatemi: são 17 unidades distribuídas pelo país. Seu filho, que também se chama Carlos, é hoje o presidente da empresa e deu entrevistas no início do ano deixando claro que, segundo seus interesses, a Reforma Trabalhista seria a mais urgente.

É importante saber quem é o irmão de Tasso, principalmente porque grande parte de sua fortuna veio da privatização das teles — um projeto icônico do governo de FHC que Tasso ajudou a eleger. Carlos fundou um consórcio com a Andrade Gutierrez (hoje investigada na Lava Jato) e a Inepar (hoje em recuperação judicial) que, apesar de não ter nenhuma empresa familiarizada com o setor de telecomunicações, recebeu a concessão da Tele Norte Leste em 1998. Sob seu comando, a Tele Norte Leste tornou-se o que atualmente é a empresa de telefonia móvel Oi.

O próprio Tasso possui empresas de comunicação — duas emissoras de televisão e oito emissoras de rádio, todas no Ceará. Ele declarou um patrimônio de R$389 milhões em sua última eleição, em 2014. Segundo um levantamento do jornal O Globo, no período em que ficou afastado da política, entre 2010 e 2014, sua fortuna cresceu em 512%. A decisão pela aposentadoria foi por ter perdido a eleição ao Senado, fato que foi indiretamente comemorado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula. “Agradeço de coração a eleição dos senadores que vocês elegeram e me fizeram um favor tremendo”, disse o ex-presidente e desafeto de Jereissati em comício em Caucaia, a 50 km de Fortaleza.

Ao se retirar da política, em 2010, o cearense ainda atacou a presidente eleita Dilma Rousseff: “ela não tem a menor condição de governo e nem psicológica”.

Doações milionárias

Sua campanha de retorno, em 2014, contou com doações generosas da Contax-Mobitel S.A, de R$1 milhão. A Contax faz parte do Grupo Jereissati Participações SA. É claro que Tasso não negou a ajuda de outros integrantes do ranking de ricaços brasileiros. Recebeu R$150 mil, por exemplo, doados diretamente por Alexandre Grendene Bartelle, o 20º maior bilionário do país, dono da empresa Grendene.

Também consta na lista a Solar, uma das 20 maiores fabricantes de Coca-Cola do mundo e a primeira com acionista brasileiro: a Calila Participações, do Grupo Jereissati. Foi da Solar que saiu a maior doação de campanha para Jereissati: R$1,5 milhão. A empresa tem 12 mil empregados, que seu site chama de “colaboradores”, que trabalham em 13 fábricas e 36 centros de distribuição.

Defensor da Reforma Trabalhista - que está sendo relatada por seu colega de partido, o senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES) -, o político e empresário Jereissati pressionou para que o projeto fosse votado logo e com o mínimo de mudanças o possível. Ou seja, sem emendas que protejam pelo menos em parte os direitos dos trabalhadores. No dia 30 de maio, ele deu o relatório da reforma como lido durante uma sessão conturbada que impediu a conclusão da leitura – o que prejudica o debate, já que o texto não foi completamente exposto. Na terça, dia 6 de junho, a Comissão concluiu a votação sem alterações. Ela segue agora para apreciação das Comissões de Assuntos Sociais e de Constituição, Justiça e Cidadania.

A missão de Tasso continua sendo aprovar a reforma, agora no plenário, o mais rápido possível e com o menor número de emendas, apesar da reprovação absoluta por parte da população, retratada inclusive em pesquisa popular da própria casa. No entanto, segundo Jereissati, a reforma segue sendo o caminho, e “o Brasil depende de que nós continuemos a trabalhar e dar, ao processo de reformas, seguimento”. Resta deixar claro de que segmento do Brasil que ele fala: dos 172 mil que possuem mais de R$1 milhão em suas contas, como ele, ou dos 207 milhões de brasileiros restantes.
Posted: 07 Jun 2017 06:49 AM PDT
Por Ricardo Kotscho, em seu blog:

Terça-feira, 6 de junho de 2017.

Logo ao amanhecer, Michel Temer ficou sabendo que prenderam mais um dos homens de confiança do presidente, o seu ex-ministro Henrique Eduardo Alves, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro.

Às quatro e meia da tarde, termina o prazo para Temer responder às 82 perguntas que lhe foram enviadas ontem pela Polícia Federal referentes ao inquérito aberto no STF que investiga crimes de obstrução da justiça, corrupção passiva e formação de quadrilha.

E, às sete da noite, recomeça no Tribunal Superior Eleitoral o julgamento da chapa Dilma-Temer que pode cassar o mandato do presidente por abuso de poder político e econômico na campanha eleitoral de 2014.

Ao terminar de ler os jornais e os portais antes das dez da manhã, me coloco no lugar do presidente Temer e me pergunto: por onde começar?

Cada vez mais cercado por todos os lados, rejeitado por nove em cada dez brasileiros, com sua base de sustentação rachada, o presidente agora se dedica apenas a fazer sua própria defesa no STF e no TSE para garantir o foro privilegiado.

Como ele vai arrumar tempo para governar o país no ano e meio de mandato que lhe resta? É humanamente impossível alguém conseguir trabalhar nestas condições.

Como votar as reformas, controlar o câmbio e os juros, combater a inflação e, ao mesmo tempo, retomar o crescimento para gerar os empregos que 14 milhões de trabalhadores perderam?

Só de uma coisa tenho certeza: eu não gostaria de estar no lugar do presidente Michel Temer.

Já no desespero, diante do agravamento da crise política após as delações da JBS, que envolveram diretamente o presidente, Temer saiu atirando para todo lado, trocou ministros no fim de semana, criou um gabinete de crise com ministros e advogados, e passa o dia todo reunido com eles no terceiro andar do Palácio do Planalto.

Nada indica que o julgamento no TSE de logo mais á noite seja rápido o suficiente para estancar a sangria do governo.

Ao contrário, a agonia brasileira deve continuar com intermináveis pedidos de vista, recursos e embargos, qualquer que seja o resultado.

Mais de 900 dias após a abertura do processo no TSE - "só para encher o saco do PT", como contou o senador Aécio Neves, então presidente do PSDB, na conversa gravada pelo delator Joesley Batista -, o país foi virado de cabeça para baixo e pernas para o ar.

Dilma foi cassada, Temer assumiu em seu lugar, o PSDB saltou para o governo e Aécio seria denunciado na Lava Jato pelos mesmos crimes dos quais acusou os adversários que o derrotaram na eleição.

Vida que segue.
Posted: 07 Jun 2017 06:34 AM PDT
Por Muryel Euzébio, no site Jornalistas Livres:

Vamos internar o Doria?

Alguns vão dizer que, para idade que eu tenho e outros fatores pessoais da minha vida, começar um texto com tal título é pura imaturidade, falta de senso, pedido por atenção, falta de entendimento e/ou de esclarecimento.

Mas, falando sério, eu pergunto se não falta entendimento e esclarecimento exatamente ao prefeito João Doria Jr. Só assim para ele ser capaz de tomar medidas tão brutais na Cracolândia, com sua política de exclusão social amparada na ignorância do que seja uma cidade real (não um jogo de Lego) e toda a diversidade de gente que ela abriga. Esse tipo de conhecimento, diga-se nenhuma escola burguesa consegue dar.

Vamos internar Doria, sim!

“O viciado em exterminar a minoria, e resolver os problemas varrendo para debaixo do tapete.”

É assustador saber que ainda no ano de 2017 tantas pessoas acreditem que a droga seja a única responsável pela “destruição” de vidas e famílias, como afirma a grande mídia, a polícia e os médicos interessados em lotar suas clínicas particulares. Essa fala preconceituosa, embora pareça ok, impede-nos de lidar com os problemas que vemos à frente. Me explica como é possível ajudar os dependentes químicos, tratando-os com nojo, como se não fossem humanos?

Tenho certeza de que Doria não deve tratar os animais dele de estimação quebrando a casinha deles. Mas fazer isso com seres-humanos, como ele fez na Cracolândia, derrubando uma pensão com os moradores dentro, tudo bem — “aliás eles já estão fodidos na vida mesmo”.

Gentrificação é o nome que se dá aos processos de valorização imobiliária de uma região ou bairro, o que pode ocorrer pela construção de um museu, de um shopping center ou de novos edifícios, expulsando a população local de baixa renda. Guarde essa palavra, porque ela expressa muito bem as perspectivas do governo Doria para a cidade de São Paulo em geral, e para a Cracolândia em particular.

Sim, porque é gentrificação a expulsão brutal dos moradores da Luz (usuários de crack entre eles) com 0 discurso de que é necessário prestar-lhes atendimento, por intermédio da internação compulsória. Isso nada mais é do que uma estratégia para encobrir um novo empreendimento imobiliário, que trará benefício para os grande proprietários e capitalistas que especulam com o terreno urbano.

A faxina social que Doria vem fazendo, na tentativa de criar uma cidade em que todos os moradores pareçam ter saído de um comercial de margarina, nada mais é do que a demonstração máxima de que este prefeito não se encontra preparado para administrar São Paulo. Sim, porque a obrigação de um prefeito é cuidar dos seus sem olhar a quem.

A situação fica ainda pior porque nossa Justiça ainda hoje é racista, machista e lgbtfóbica. É explícito que, ao contrário da sonhada “justiça cega”, a que temos criminaliza, diminui, e tenta expor ao ridículo a situação das pessoas que vivem na Cracolândia.

Vamos internar o Doria, sim!

“O viciado em ridicularizar pessoas pra ganhar status social.”
O improviso do projeto Redenção, que seria a base das ações do prefeito na Cracolândia, é tal, que Doria informou antes mesmo da confirmação que o médico Drauzio Varella estaria apoiando internar dependentes químicos sem a autorização deles ou de pessoa da família, passando por cima de leis. Mas o próprio Varella disse em seu site pessoal:

“Hoje fui surpreendido com as notícias divulgadas pela imprensa de que os dois colegas a que me referi e eu fazíamos parte de um ‘Comitê Superior de Saúde contra a dependência química’, encarregado de ‘acompanhar e auditar as ações governamentais na Cracolândia. Não recebi convite formal para fazer parte de um comitê com essas funções. Caso recebesse, não aceitaria: não tenho preparo técnico nem tempo livre para um trabalho dessa natureza.”

Vamos internar o Doria, sim!

“O viciado em oficializar convites, sem de fato tê-los feito, apenas para conseguir aprovação do povo.”
Carl Hart. Nasceu em Miami, nos Estados Unidos. Tendo crescido em um bairro periférico parecido com a periferia das grandes cidades brasileiras, onde o crime e as drogas sempre foram de fácil acesso, Hart relata que foi se questionando por que essa realidade era tão comum entre os seus amigos e a população de seu bairro. Após servir na Força Aérea dos Estados Unidos, Hart voltou-se ao ensino superior. Sua experiência prévia despertou-lhe interesse em se especializar em neurociência e demais estudos voltados a drogas. Atualmente, é professor de psicologia e de psiquiatria da Universidade de Columbia, e há muito tempo vem estudando os efeitos do crack. Em entrevista com o dr. Drauzio Varella, Hart pontua:
“Depois de duas décadas, ficou claro que o uso de crack era mero sintoma de problemas maiores como as dificuldades econômicas, a falta de oportunidade e de educação. O Brasil está repetindo os erros dos EUA.”

Uma cena que sempre esteve muito presente para a população negra - seja aqui no Brasil ou nos Estados Unidos - é a nossa falta de oportunidade. E quando as perspectivas de vida que temos são sempre negativas, não é incomum que busquemos nas drogas a tão sonhada felicidade que o capitalismo e a sociedade burguesa ainda tentam nos vender. É errado? Mas qualquer pessoa que vive dentro da nossa sociedade capitalista busca prazeres, seja por meio de drogas lícitas, ilícitas, relacionamentos, dinheiro poder. E apenas digo que é HIPOCRISIA ouvir da população burguesa que todas as sextas-feiras se encontra no bar para afogar as mágoas, que são os usuários de crack que estão se viciando, e se matando.

Vamos internar o Doria, sim!

“O viciado em achar a solução dos seus problemas, colocando a culpa nos outros.”

Bem que minha mãe sempre disse que enquanto você aponta um dedo para alguém, haverá quatro dedos apontando para você. Temos como prefeito da nossa cidade um mau ator, que tentar se apropriar cinicamente de símbolos dos trabalhadores que vivem nas situações mais precárias de vida, como os garis. Mas em vez de pelo menos tentar viver como um pobre, Doria faz a glamourização da pobreza, o que é indecente. Ele vem cheiroso, banho recém-tomado, vestindo uniforme de gari devidamente costurado e ajustado por um alfaiate chique. Tudo marketing.

Se, de fato, Doria se preocupa tanto com a população da Cracolândia, que tal se preocupar com as estruturas que levam as pessoas até lá?
Doria já conversou com algum usuário de crack que mora na Cracolândia? Já viu qual é a situação deles? Vou te dar uma ajudinha. Aproximadamente 60% dos usuários de crack e cocaína se encontram morando em casas bem organizadas, trabalhando e estudando. Portanto, a maioria dos usuários de crack não está na Cracolândia.
Quem está usando drogas na Cracolândia é apenas a franja mais vulnerável, mais frágil da sociedade, aquela que mais precisa de respeito e de ajuda, na forma de saúde, educação, formação e trabalho.

Enfim,

Vamos internar o Doria, sim!

“O viciado em fingir que sabe cuidar de uma cidade.”

* Muryel Euzébio, 17 anos, é jornalista livre, artista, músico, ativista negro e LGBT.
Posted: 07 Jun 2017 06:25 AM PDT
Do site Repórter Brasil:

“Modernizar” uma legislação “anacrônica”, privilegiando a negociação entre patrões e empregados com o objetivo de dinamizar a economia e favorecer a retomada dos empregos. Esse foi o principal argumento da cobertura sobre a reforma trabalhista nos principais veículos do país, conforme levantamento feito pela Repórter Brasil.

O Jornal da Record foi o menos crítico à proposta apresentada pelo governo, com 100% das reportagens favoráveis. O Globo foi o segundo mais alinhado, com 88% do conteúdo suportando o que defende o Palácio do Planalto. Em seguida, aparecem o Jornal Nacional (77%) e O Estado de S.Paulo (68%). A Folha de S.Paulo (42%) destoou dos outros veículos, já que criticou a proposta em mais de metade dos seus textos.



Arte: Eugênia Pessoa

Para chegar a essa conclusão, a Repórter Brasil analisou mais de 150 textos dos três jornais de maior projeção nacional – Folha, O Globo e Estadão – e 30 minutos de matérias dos dois principais telejornais – Jornal Nacional e Jornal da Record. Foram avaliados os cinco dias anteriores e os cinco posteriores à aprovação do relatório do deputado Rogério Marinho (PSDB-RN) na comissão especial da Câmara: de 20 a 30 de abril de 2017.

Conteúdos em que prevaleciam o detalhamento da proposta, sem a apresentação de contrapontos, ou quando o apoio era explícito foram avaliados como favoráveis e alinhados ao governo. Esse é o critério utilizado pelas maiores empresas do Brasil especializadas em análise de imagem e reputação.

Entre os veículos analisados, o Jornal da Record foi o que reverberou mais explicitamente a ideia de que as mudanças pretendidas pela gestão do presidente Michel Temer abrirão novas vagas no mercado. Reforçou essa tese usando depoimentos de estudiosos e de brasileiros anônimos demonstrando “esperança”.

Os impressos, em especial o Estadão, deram a entender que se trata de uma briga entre governo e sindicatos, que podem perder a principal fonte de financiamento caso o fim do imposto sindical seja aprovado. Entre as grandes entidades, apenas a Central Única dos Trabalhadores (CUT) não depende da contribuição obrigatória para se manter.


Arte: Eugênia Pessoa

Matérias focadas na greve geral de 28 de abril, que apenas mencionavam a reforma trabalhista como uma das insatisfações dos manifestantes, não foram consideradas na contabilização dos números para não distorcerem os resultados. Essas reportagens foram consideradas somente na análise qualitativa.

Na cobertura específica dos protestos, todos os veículos expuseram em primeiro plano ações de vandalismo, confrontos com a polícia e os prejuízos causados à população em decorrência da paralisação dos transportes.

Como escreveu a ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa, todos, sem exceção, olharam para o impacto sobre a árvore, deixando de olhar para a situação da floresta. Sem críticas, as razões por trás daqueles atos.

Esta é a segunda pesquisa da Repórter Brasil sobre a cobertura que a imprensa tem feito sobre as reformas do governo Temer. Leia também o levantamento sobre a Reforma da Previdência.

Veja, abaixo, detalhes do estudo feito por Repórter Brasil.

Jornal Nacional: Todas as fontes foram favoráveis à reforma

Todos os entrevistados pelo Jornal Nacional no período analisado defenderam a necessidade de “modernizar” uma legislação que consideram “anacrônica”. Três das quatro reportagens são claramente alinhadas à proposta do governo. Apenas uma, de 2min31s, pode ser considerada desfavorável ao projeto de lei já aprovado pela Câmara dos Deputados. Ela mostrava que, na opinião de “centrais sindicais”, as mudanças previstas “fragilizam direitos” dos empregados.

A reportagem mais crítica foi ao ar na noite de 28 de abril, em meio a uma extensa cobertura que privilegiou “vandalismo”, “confrontos” entre manifestantes e policiais, além dos prejuízos à população durante a greve geral em diversas cidades do País. No vídeo, o âncora William Bonner elenca os principais pontos tanto da reforma trabalhista quanto da Previdência, apresentando também os argumentos do Palácio do Planalto, mas não abre espaço para as fontes falarem diretamente aos telespectadores.

Nas três reportagens favoráveis ao projeto de lei, o JN deixa claro que houve tensão e discussões exaltadas na sessão da comissão especial da reforma trabalhista e durante a votação no plenário da Câmara, mas não explora as razões das divergências entre os parlamentares e só ouve fontes que apoiam a proposta.

Sempre com o viés de que é preciso modernizar a CLT, avançar nas relações de trabalho e que as alterações previstas não mexerão em direitos assegurados pela Constituição, como jornada semanal de 44 horas e 13º salário.

O deputado Rogério Marinho (PSDB-RN), relator da reforma, teve espaço para justificar essa visão. “Nós temos uma lei de 1943. Às vezes, a gente é chamado de conservador aqui neste Parlamento. Conservador é quem não quer mudar. Então, tem gente que está apegado a uma lei de 70 anos. Uma lei anacrônica, antiga, uma lei que não tem mais nada a ver com o espírito do tempo”.
Já Cláudio Sampaio, especialista em direito trabalhista, reforça essa percepção ao destacar que “na prática”, a nova lei “vai estimular a criação de empregos formais e não vai tirar direitos”.
Jornal da Record: Desemprego cairá após a reforma

Nenhuma matéria desfavorável à reforma trabalhista e também nenhuma fonte crítica ao projeto de lei apresentado pela gestão de Michel Temer. Assim foram os 19m26s da cobertura do Jornal da Record voltado ao tema. O programa também se dedicou mais que o seu concorrente às mudanças na CLT. Foi um tempo 74,5% maior que o Jornal Nacional em oito reportagens veiculadas.

Além de reiterar a necessidade de “modernização” de uma lei que considerada antiga e desatualizada, a Record buscou reverberar que as alterações serão benéficas porque valorizam a negociação entre patrões e funcionários, trarão mais empregos e ajudarão na retomada da economia.

E que pontos garantidos pela Constituição, como FGTS e seguro-desemprego, não serão mexidos. Para isso, se apoiou em entrevistas com deputados da base do governo, representantes do setor empresarial, professores de direito e também brasileiros anônimos, que dizem acreditar que mais vagas serão abertas. Um deles relata que acertar itens como férias e horários, por exemplo, será “mais tranquilo”.


Arte: Eugênia Pessoa

A emissora incrementa o noticiário com números do desemprego, chegando a ressaltar que “a esperança” para baixar a taxa recorde de 14,2 milhões de pessoas desocupadas no Brasil é a reforma e que várias sugestões incorporadas ao projeto de lei foram dadas pelos próprios trabalhadores. Dá a entender que a proposta é positiva para ambos os lados e que não haverá perdas. Sustentado na ideia de que a CLT “trava o crescimento do Brasil”, o Jornal da Record evidencia que as discussões na Câmara dos Deputados foram tensas e que houve embate entre situação e oposição. Mas, assim como a TV Globo, não apresenta o posicionamento de parlamentares contrários às alterações na legislação.

Outras fontes mostram posições ainda mais contundentes. José Eduardo Pastore, advogado trabalhista, avalia que o objetivo é criar empregos e trazer para a formalidade os milhões de brasileiros que estão atualmente na informalidade. A reportagem não informa, contudo, que o jurista também é consultor da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Já o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA), da base do governo, alega que a “tutela excessiva” prevista na CLT significa cerceamento de liberdade nas relações de trabalho.
O Globo: Jornal mais alinhado com a proposta do governo

Apesar de estar atrás da Folha e do Estadão em quantidade de textos publicados sobre a reforma, 43 no período de 20 a 30 de abril, O Globo é o impresso mais alinhado ao projeto do governo – com 88% da abordagem favorável às mudanças propostas na CLT. Também se destaca por trazer um número maior de fontes: mais de 60% superior aos concorrentes.

Entre os entrevistados pelo jornal carioca, 75% apoiam as alterações. Enquanto na Folha e no Estadão esse índice é de 44% e 42%, respectivamente. O fio condutor de O Globo, porém, se assemelha aos demais: a necessidade de reduzir os custos do emprego para ajudar na estabilidade econômica e o País poder voltar a crescer.

O jornalista Carlos Alberto Sardenberg deixa isso explícito ao escrever que, “sem a modernização das relações trabalhistas, o Brasil continuará sendo um dos países mais caros do mundo para se investir e ganhar dinheiro honestamente. Logo, não haverá retomada consistente”. Merval Pereira faz coro, responsabilizando os governos petistas pela recessão. “O mercado de trabalho hoje, muito influenciado pela globalização, já não comporta a visão getulista de um país isolado”, diz.


Arte: Eugênia Pessoa

O Globo publicou duas reportagens de capa sobre a reforma. Uma em 26 de abril, relatando a passagem do projeto pela comissão especial, e outra no dia seguinte, valorizando a aprovação no plenário da Câmara. Embora tenha descrito que a sessão de votação foi tensa por conta de divergências entre os parlamentares, apresenta apenas uma voz dissonante em meio a outras quatro defendendo as alterações na CLT.

O deputado federal Júlio Delgado (PSB-MG) critica a fragilidade do governo Temer ao observar que o presidente obrigou ministros a deixarem temporariamente seus cargos para retomar o mandato e engrossar o apoio à proposta.

Em contraponto, o deputado Ricardo Tripoli (PSDB-SP) apelou para a “responsabilidade”. “Esse discurso dos anti-imperialistas está superado. Sem capital, não se gera emprego”, declarou. A percepção que o impresso transmite é de que os grupos contrários à flexibilização da lei defendem, na verdade, “a manutenção de vantagens de sindicatos”, conforme descreve no editorial de 29 de abril, um dia depois da greve geral.
O Estado de S.Paulo: Críticas aos sindicatos alimentam cobertura

Com 68% dos textos publicados favoráveis à reforma trabalhista, incluindo duas capas, o Estadão fica em 4º lugar em alinhamento com a proposta do governo. Perde para Jornal da Record (100%), O Globo (88%) e Jornal Nacional (77%). Só está à frente da Folha (42%).

O que levou o veículo à penúltima colocação, contudo, não foi uma abordagem crítica ao projeto de Temer, mas uma cobertura que privilegiou as divergências entre os partidos, especialmente a “rebeldia” do PSB, e as expectativas quanto à repercussão da greve geral nas votações do Congresso. Ao longo dos 11 dias analisados, o Estadão reverberou que a legislação precisa ser modernizada para que o Brasil volte a crescer e gerar empregos, com colunistas e articulistas afinados.

“Goste ou não o PT, a reforma trabalhista é vital para recuperar a economia e os empregos”, escreve o ex-ministro e ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho Almir Pazzianotto Pinto. “Manter o engessamento das relações de trabalho com leis e regulamentações dos anos 40 é condenar o País à asfixia”, argumenta o jornalista Celso Ming.

Já Hélio Zylberstajn, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, questiona a “gritaria” de quem se opõe às mudanças. Em análise publicada em 27 de abril, logo depois da aprovação em plenário, ele afirma que leu e releu tanto o projeto de lei quanto a emenda elaborada pela comissão especial da Câmara e não encontrou nenhum artigo que elimina direitos dos trabalhadores.

Em boa parte da cobertura sobre o assunto nesta mesma edição, o Estadão abordou o impacto do PL sobre os sindicatos, reforçando o viés de que a paralisação programada para o dia seguinte teria como pano de fundo a luta dessas instituições para que o imposto sindical continuasse obrigatório. Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT) e do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, sustenta que o fim da contribuição é para “sufocar o movimento”.

Uma semana antes, a publicação havia trazido reportagem com declaração do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, destacada no título: “Sindicatos não querem perder a boquinha”. Das fontes entrevistadas pelo jornal, 57% questionaram a reforma. Mas as críticas ficaram concentradas em uma pequena parte dos 17 textos negativos, ante 36 positivos veiculados no período.

Folha de S.Paulo: Colunistas e expectativas de greve levam à baixa adesão

Se o Jornal da Record se mostrou 100% alinhado à proposta do governo, a Folha foi a mais crítica: apenas 42% da cobertura pró-reforma trabalhista. Colunistas como Vladimir Safatle, Janio de Freitas e André Singer, assim como reportagens centradas nas expectativas quanto ao impacto da greve geral e nas divergências entre os partidos sobre a repercussão do PL para os trabalhadores, ajudaram a segurar o veículo na 5ª colocação.

A economista Laura Carvalho, por exemplo, que escreve às quintas-feiras, publicou na véspera da paralisação que a proliferação de estudos indicando que a desregulamentação do mercado não eleva, ou até prejudica, o nível de emprego parece ter levado alguns organismos multilaterais que pregavam maior flexibilidade a mudarem de posição. No mesmo dia, porém, a manchete da Folha expunha a aprovação da reforma na Câmara. Apesar de ter registrado os protestos da oposição, a edição se dedicou principalmente a detalhar o esforço do governo para atrair mais apoio para a agenda econômica, o que tornou a abordagem favorável para o Planalto.

O jornal veiculou outras duas capas sobre a reforma. Uma delas, em 20 de abril e a única considerada negativa por Repórter Brasil, relatava a “manobra” da Câmara para reverter a decisão da véspera que havia rejeitado o requerimento para acelerar a tramitação do PL. “Método Eduardo Cunha” foi uma das expressões usadas pela publicação.

O espaço aberto pela Folha, 55 textos no período analisado, também foi maior do que o dos outros jornais. Já a proporção de entrevistados que apoiaram a reforma, 44%, foi próxima aos 43% do Estadão e bem menor do que os 75% de O Globo. O sociólogo Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese, chama atenção para “a lógica por trás” da reforma: “reduzir estruturalmente o custo do trabalho, impedir a proteção da legislação e dos sindicatos. É uma regressão, porque, quando você precariza as relações de trabalho, você aumenta o conflito”.

Advogados ressaltaram ainda que sindicatos fracos negociando fragiliza o trabalhador. Em sua coluna, publicada dois dias depois da greve geral, a ombudsman Paula Cesarino Costa cobra uma cobertura mais analítica e profunda. Avalia que, assim como os outros jornais, a Folha não deixou claro que está em jogo a perda de direitos em nome do ajuste fiscal.

Advogados ressaltaram ainda que sindicatos fracos negociando fragiliza o trabalhador. Em sua coluna, publicada dois dias depois da greve geral, a ombudsman Paula Cesarino Costa cobra uma cobertura mais analítica e profunda. Avalia que, assim como os outros jornais, a Folha não deixou claro que está em jogo a perda de direitos em nome do ajuste fiscal.
Posted: 07 Jun 2017 06:16 AM PDT
Por Paulo Copacabana, no blog Viomundo:

Encontrei amigos empresários nesta última semana. Estão desiludidos com suas apostas no Brasil no último ano.

A economia não reage rapidamente como imaginavam. Os três possuem empresas prestadoras de serviços.

Estavam de férias nos States. Pretendem voltar para lá rapidamente. “Férias prolongadas”.

Talvez três ou quatro vindas para o Brasil até o final do ano. O dinheiro fica rendendo aqui e também no exterior, porque “ninguém é de ferro”.

Pergunto inocentemente:

— Mas, e as empresas?

Me dizem que vão mantê-las abertas. São elas que construíram o nome deles no mercado.

Vão seguir tocando os contratos já existentes. Empurrando com a barriga. Novos investimentos ficam pra depois. 2018, talvez 2019.

Pergunto também inocentemente:

— Mas, e os juros? A Globo mostra todo santo dia que eles estão caindo forte, que a inflação caiu forte.

Um deles me esclarece: a inflação está caindo forte porque ninguém compra nada. Falta demanda.

Os juros estão caindo depois. Para o dinheiro deles, aplicado no mercado financeiro, é isso que interessa.

Os juros reais ainda estão nas nuvens. Os mais altos do mundo.

Nada como conversar com pessoas pragmáticas para saírmos do Brasil das “telas globais”.

Provoco ainda estes amigos empresários sobre suas opções políticas e as expectativas para 2018.

Reafirmam tranquilamente que afastar Dilma foi crucial na defesa dos seus interesses. Na crise que atingiu o Brasil em cheio, Dilma teria que fazer cortes e ajustes, e estes não poderiam ser feitos na rentabilidade do capital financeiro.

Simples assim. Dilma, quando baixou fortemente os juros em 2012, perdeu a confiança do mercado financeiro e de grande parte dos empresários.

Agora, com juros reais nas alturas e reformas que cortam despesas do orçamento e facilitam as contratações, duas coisas estariam garantidas: a rentabilidade de suas aplicações financeiras e a queda do custo da mão de obra.

Temer serviu para fazer esta “ponte para a segurança financeira”.

Agora, o custo em mantê-lo ficou muito elevado, com o risco de não entregar o que prometeu.

Aécio nunca foi levado a sério.

Vale a pena colocar alguém que complete esta transição com “ficha limpa”.

Alguém que represente a “purificação” do momento e das reformas.

Para as próximas eleições apostam em qualquer candidatura competitiva que mantenha as atuais reformas em andamento ou as mudanças obtidas em 2017 e 2018.

Prefeririam a segurança de Alckmin, mas algumas denúncias da Lava Jato comprometem seu projeto.

Por isso sabem que Doria corre forte por fora.

Para eles, Moro e Cia. já estão finalizando seus trabalhos atingindo o objetivo final: tirar Lula do páreo.

Assim, o caminho estaria aberto para o candidato conservador que reunir melhores condições.

— Mas, e a corrupção? E os efeitos da Lava Jato sobre toda a classe política?

Minha última provocação foi respondida mais uma vez pelo pragmatismo.

Corrupção sempre existiu em todos os governos, com todos os partidos em todos os períodos da historia.

Eles sabem por experiência própria. Agora, a justiça não tem como pegar todo mundo.

O PT e parte dos outros grandes partidos vão responder pela corrupção sistêmica.

No ano que vem todo mundo vai estar cansado desta história, querendo alguma solução e, principalmente, propostas para reduzir o desemprego e reativar a economia.

O candidato que não tiver o nome associado aos escândalos atuais, der segurança na manutenção das reformas e na retomada da economia ganha as eleições.

Minha preocupação, neste cenário pragmático desenhado pelos amigos empresários, reside exatamente neste “day after”.

Como manter as atuais reformas e retomar o crescimento? Cortar demanda e querer novos investimentos?

Não existe experiência internacional em que isso tenha dado certo.

Pior: o próximo governo, seja ele qual for, terá que conviver com a criminalização da política fiscal, do BNDES e o desmonte da Petrobrás.

Estão decretando o fim da economia nacional. Querem que nos tornemos um Panamá. Só que o Brasil não cabe no modelo do Panamá.

Crises políticas, econômicas e sociais não cessarão. Quem pode, terá sempre os States como solução.
Posted: 07 Jun 2017 06:05 AM PDT
Por Daniel Giovanaz, no jornal Brasil de Fato:

Em julho de 2016, a filósofa Marilena Chauí afirmou que o juiz de primeira instância Sérgio Moro havia sido “treinado pelo FBI” para atender aos interesses estadunidenses na condução da operação Lava Jato. O vídeo, publicado pelo Nocaute TV, teve mais de 160 mil visualizações e estimulou debates sobre o tema entre juristas, historiadores, cientistas políticos e sociólogos brasileiros.

Para aqueles que acreditam em uma relação estratégica entre Moro e os Estados Unidos, a hipótese levantada por Marilena Chauí encontra respaldo em um documento vazado pelo WikiLeaks em 30 de outubro de 2009. WikiLeaks é uma organização transnacional sem fins lucrativos, com sede na Suécia, que publica em sua página informações "vazadas" de governos ou empresas sobre assuntos estratégicos de interesse público. No documento, o nome do juiz Sérgio Moro é citado como participante de uma conferência oferecida no Rio de Janeiro pelo programa Bridges Project (“Projeto Pontes”, em uma tradução literal), vinculado ao Departamento de Estado Norte-Americano, cujo objetivo era “consolidar o treinamento bilateral [entre Estados Unidos e Brasil] para aplicação da lei”.

Cooperação suspeita

Segundo aquele documento, os juristas brasileiros que participaram da conferência, com o pretexto de “combate ao terrorismo”, sinalizaram às autoridades estadunidenses – como a Conselheira Residente para Questões Legais da Embaixada dos EUA – certa “incapacidade” no uso do Código Penal. Sérgio Moro, particularmente, foi chamado a apresentar os dilemas mais frequentes nos casos de lavagem de dinheiro nas cortes brasileiras.

Entre as conclusões vazadas pelo WikiLeaks sobre aquela conferência, os responsáveis pelo Projeto Pontes listaram a “necessidade continuada de assegurar treinamento a juízes federais e estaduais no Brasil para enfrentar o financiamento ilícito de conduta criminosa”. Segundo eles, a estratégia deveria “ser de longo prazo e coincidir com a formação de forças-tarefa de treinamento”, que poderiam ocorrer em “São Paulo, Campo Grande ou Curitiba”.

Cinco anos depois do evento no Rio de Janeiro, a deflagração da operação Lava Jato demonstrou o “aperfeiçoamento” do Poder Judiciário nas investigações sobre caixa 2 e lavagem de dinheiro no Brasil. Ao mesmo tempo, instaurou no país um clima de instabilidade política interessante aos Estados Unidos.

Os EUA e o pré-sal

Os Estados Unidos sempre se colocaram à disposição para colaborar com o avanço da operação Lava Jato. Em um dos poucos casos em que essa cooperação se tornou pública, em 2015, autoridades estadunidenses aceitaram um pedido do Ministério Público Federal (MPF) para rastrear depósitos que permitissem desmontar a engrenagem montada pela empreiteira Odebrecht para pagamentos de propina no exterior.

Documentos classificados como ultrassecretos pela Agência de Segurança Nacional Norte-Americana (NSA), vazados em 2013, revelaram que Dilma e seus principais assessores eram alvo direto de espionagem pelo governo estadunidense.

Assim como é impossível desvincular a operação Lava Jato da conjuntura política de instabilidade que resultou no golpe contra Dilma Rousseff (PT), são evidentes as vantagens obtidas pelos Estados Unidos com a mudança de governo no Brasil.

Escolhido por Michel Temer (PMDB) para presidir a Petrobras, Pedro Pullen Parente iniciou em maio de 2016 um processo de venda de ativos e facilitação da privatização no setor do petróleo. A entrega da camada pré-sal para o capital estrangeiro começou com parcelas preciosas das áreas de Carcará, Iara e Lapa.

França, Noruega e EUA são considerados alvos prioritários do “fatiamento” do pré-sal. No dia 24 de maio, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) publicou uma carta exigindo a renúncia de Parente, sob acusações destruição do patrimônio público e interferência de interesses escusos na administração da estatal.

Pedro Pullen Parente foi ministro da Casa Civil no governo Fernando Henrique Cardoso (FHC) e vice-presidente executivo da RBS, afiliada da Rede Globo no Sul do país.

Controvérsias

Sérgio Moro não foi o único participante da conferência do Projeto Pontes, em 2009, que se tornou alvo de polêmicas durante operação Lava Jato. O magistrado gaúcho Gilson Dipp, aposentado do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que precedeu a fala de Moro no evento, disse em 2014 à Folha de S. Paulo que a Lava Jato iria produzir “a maior recuperação de valores da Justiça brasileira em todos os tempos”. Poucos meses depois, Dipp escreveu um parecer para tentar anular a delação do doleiro Alberto Youssef por “falta de credibilidade” do investigado.

Em janeiro de 2016, mais uma controvérsia: o nome de Gilson Dipp apareceu em um manifesto assinado por 105 juristas, afirmando que a Lava Jato atuava contra o Estado de Direito. Questionado sobre a mudança de posicionamento em relação à operação, o magistrado veio a público informar que seu nome foi incluído no manifesto sem autorização.

Frequentador assíduo

O currículo acadêmico de Sérgio Moro divulgado na plataforma Lattes demonstra que sua formação como magistrado está vinculada diretamente à escola estadunidense. Em julho de 1998, ele custou o Programa de Instrução para Advogados na Escola de Direito de Harvard. Em 2007, participou do International Visitors Program, organizado pelo Departamento de Estado Norte-Americano, e fez visitas a agências e instituições dos EUA encarregadas da prevenção e do combate à lavagem de dinheiro.

Nos últimos dois anos, as visitas à América do Norte se tornaram mais frequentes. E Sérgio Moro não vai a passeio. Em julho de 2016, ele deu uma palestra em Washington sobre a importância da mídia no apoio a investigações criminais. Em setembro, no “auge” da Lava Jato, participou de um ciclo de palestras na Pensilvânia, onde foi apresentado como “líder central no fortalecimento do Estado de Direito” no Brasil.

Outro lado

Sempre que foi questionado sobre sua relação com os EUA, o juiz de primeiro instância Sérgio Moro atribuiu as polêmicas a uma tentativa de ferir sua credibilidade para frear o avanço da operação Lava Jato. A última vez que falou publicamente sobre o tema foi em fevereiro deste ano, na Universidade de Columbia – Moro se referiu à hipótese como "teoria da conspiração".

Preocupação

A história do século XX demonstra que o estreitamento das relações de setores estratégicos de países latino-americanos com os EUA costuma abrir caminho para golpes de Estado, que estimulam mudanças políticas e econômicas favoráveis aos interesses da Casa Branca.

Não é mera coincidência. No livro Fórmula Para o Caos (Civilização Brasileira, 2008), o historiador Moniz Bandeira estudou os meses que antecederam o início da ditadura civil-militar (1973-1990) chilena e apresentou documentos que demonstram como a Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos utiliza estratégias de desestabilização política para promover a ascensão de regimes autoritários no continente.

No caso do Chile, o presidente Salvador Allende foi morto durante o golpe militar e deu lugar ao general Augusto Pinochet, que se tornou parceiro dos EUA e iniciou um processo intenso de privatização de recursos naturais de modo a abrir portas para o capital norte-americano. Em dezembro de 2016, em entrevista ao Jornal do Brasil, o próprio Moniz Bandeira fez um alerta sobre a relação de Sérgio Moro com os Estados Unidos, ressaltando os acordos de cooperação promovidos pelo FBI para investigação de crimes organizados em países estratégicos.

Curiosidade

Entre as coincidências que envolvem os dois processos mais recentes de golpe na América do Sul – no Paraguai e no Brasil –, chama a atenção o nome da diplomata estadunidense Liliana Ayalde. Ela deixou a embaixada dos EUA no Paraguai meses antes da deposição do então presidente Fernando Lugo, em 2012. Por três anos, ela informou a Casa Branca sobre a situação política paraguaia. Em um informe de dezembro de 2009 vazado pelo WikiLeaks, chegou a afirmar que interessava aos EUA expressar apoio às “instituições democráticas do Paraguai”, mas não a Lugo, pessoalmente.

Com a consolidação do golpe no Paraguai, em menos de 48 horas, Liliana Ayalde assumiu a embaixada estadunidense no Brasil. Permaneceu até 11 de janeiro de 2017 e assistiu de perto ao golpe contra Dilma Rousseff.

Em dezembro do ano passado, Ayalde sentou ao lado de Dyogo Oliveira, ministro do Planejamento nomeado por Temer, na 1ª Reunião Anual Brasil-Estados Unidos sobre Desenvolvimento de Infraestrutura. Na ocasião, Dyogo Oliveira anunciou a pretensão de estimular empresas estadunidenses a serem concessionárias de projetos de infraestrutura no Brasil, como aeroportos, rodovias e ferrovias.

Entre as razões citadas no evento para a internacionalização e “profissionalização” da gestão da infraestrutura, estão os esquemas de fraude e lavagem de dinheiro cometidos por empresas brasileiras, investigados pela operação Lava Jato. “O que estamos fazendo gera benefício para os dois países. É uma prioridade para os dois”, disse a então embaixadora estadunidense em bom português, para aplausos da base aliada do governo Michel Temer.

Homenagem

Em março e abril do ano passado, respectivamente, as revistas estadunidenses Fortune e Time incluíram Sérgio Moro em suas listas de “pessoas mais influentes do mundo”. O texto da Time apresenta relações entre a Lava Jato e a deposição da presidenta eleita Dilma Rousseff, e afirma que o juiz paranaense é chamado pelos brasileiros de “SuperMoro”.
Posted: 07 Jun 2017 05:55 AM PDT
Por Luiz Antônio Prósperi, na revista CartaCapital:

Uma semana depois da prisão do ex-presidente do Barcelona Alexandre “Sandro” Rosell e das denúncias da Justiça da Espanha que indicam um histórico de lavagem de dinheiro na venda de jogos da Seleção Brasileira, a Confederação Brasileira de Futebol anunciou uma novidade na transmissão dos amistosos contra Argentina e Austrália, em 9 e 13 de junho, em Melbourne. As partidas serão exibidas pela estatal TV Brasil, pela TV Cultura, emissora pública de São Paulo, e pelo Facebook, rede social criada por Mark Zuckerberg, sem a tradicional participação da Rede Globo.

Não se trata apenas de um chega pra lá definitivo da CBF na Globo, detentora dos direitos de transmissão dos jogos da Seleção há mais de duas décadas. É uma nova forma de a confederação aumentar suas receitas em cima do sucesso do escrete de Tite, primeira seleção a se classificar para a Copa da Rússia no próximo ano.

Por meio de um comunicado divulgado na segunda-feira 29, a Globo reclamou: “A CBF tinha planos de negociar os direitos dos amistosos e das Eliminatórias da Copa 2022 na forma de bid (leilão fechado). Recentemente decidiu vender os dois jogos amistosos de forma avulsa e, embora não acreditemos que esta seja a melhor solução para todas as partes, tentamos negociar, mas não chegamos a nenhum acordo”.

O tom formal do comunicado não traduz o tamanho da insatisfação da emissora com a CBF. A preocupação é com os contratos futuros dos amistosos da Seleção em 2018 e das Eliminatórias da Copa de 2022. A Globo detém os direitos das partidas das Eliminatórias, que se encerram em novembro, e das Copas de 2018 (Rússia) e 2022 (Catar).

Na temporada do próximo ano, a Seleção fará oito amistosos, um deles com a Alemanha em Berlim. E como será um ano de Copa do Mundo, o apelo comercial das partidas tende a aumentar. Não por acaso, na nota, a Globo insiste em ressaltar o “interesse em continuar trabalhando com a CBF na construção de acordos que sejam bons para todos, para a própria CBF, para o Grupo Globo, para os anunciantes e suas marcas, mas sobretudo para o público torcedor apaixonado pelo futebol e pela Seleção brasileira”. A receita publicitária da emissora com os direitos de transmissão de jogos da Seleção, Brasileirão, Copa do Brasil, estaduais, copas Libertadores e Sul-Americana alcançou 1,8 bilhão de reais neste ano.

Com a crise econômica e a receita de marketing em baixa na televisão, a CBF percebeu o potencial de aumentar o faturamento com a transmissão dos jogos sem a participação da Globo. Por esse motivo, colocou em prática a exploração do espaço no Facebook. Na mesa dos executivos da CBF estão os números de um levantamento do instituto Ibope Repucom, realizado em março, quando o time de Tite garantiu a vaga na Copa da Rússia, a respeito da presença das 40 maiores seleções nas mídias digitais. A Seleção Brasileira aparece na segunda colocação, com pouco mais de 17,4 milhões de inscritos. Perde para o México, com 17,6 milhões.
Os números contemplam as inscrições nos canais da CBF e da Federação Mexicana de Futebol. A confederação brasileira lidera o ranking de curtidas no Facebook entre as principais confederações de futebol filiadas à Fifa. Tem 11,8 milhões de curtidas. No Twitter, aparece na segunda colocação, com 3,8 milhões de seguidores. É a terceira no Instagram, com pouco mais de 1,6 milhão de fãs.

A CBF vai cobrar 500 mil reais pelos direitos de transmissão no Facebook e a rede social espera vender suas cotas até alcançar o valor de 1,8 milhão de reais, de um total de 2,3 milhões da operação comercial. A inciativa do Facebook no futebol brasileiro não é novidade. A empresa participou da transmissão de dois jogos entre o Atlético Paranaense e o Coritiba, em março e abril, pelo Campeonato Paranaense. O primeiro confronto registrou 1,6 milhão de visua­lizações no Facebook e no YouTube. E o segundo, disputa pelo título estadual, alcançou 1,1 milhão.

“Experiências iniciais com eventos esportivos têm trazido grandes resultados para os fãs, radiodifusores e detentores de direitos. Trabalhamos com nossos parceiros para ajudá-los a alcançar seus objetivos de negócios, atingir novas audiências, monetizar seus conteúdos”, informa o Facebook, sem detalhar o acordo com a CBF. Não será surpresa se a confederação adotar esse modelo e vender os direitos de transmissão do Brasileirão e da Copa do Brasil ao Facebook a partir de 2019.

Por enquanto, os direitos são exclusivos da Globo, que despeja cerca de 1,9 bilhão de reais nos cofres dos clubes por meio de um contrato que vence em menos de dois anos. A Globo enfrenta ainda a concorrência do canal Esporte Interativo, do grupo americano Turner, que acertou com 14 times das séries A e B, entre eles Palmeiras e Santos, para exibir jogos a partir de 2019. Na assinatura dos contratos, as luvas pagas pela Turner aos clubes chegam a 100 milhões de reais.

Apesar do recente movimento, a ruptura total com a Globo não é tratada na CBF como uma boa estratégia do ponto de vista financeiro e político. A emissora tem nas mãos os direitos de transmissão dos jogos da maioria dos grandes clubes do Brasil e poderia impor-se na hora de negociar a exibição dos campeonatos.

A comercialização de jogos da Seleção está no epicentro da prisão de Sandro Rosell e da investigação da Justiça espanhola, em conjunto com o FBI, que ainda tem como alvo Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF. O auto de prisão de Rosell, ao qual o Chuteira FC teve acesso, registra que perto de 15 milhões de euros, o equivalente a 54 milhões de reais, foram desviados do valor dos direitos de 24 partidas da Seleção entre 2006 e 2012.

O esquema de Rosell e Teixeira passava por empresas que ainda detêm os direitos de venda dos amistosos da Seleção até 2022. A principal é a agência ISE, que subcontratou a Pitch International, de Londres, para comercializar os jogos. A ISE é uma subsidiária do Grupo Dallah Al Baraka, um dos maiores conglomerados do Oriente Médio, com 38 mil funcionários espalhados pelo planeta. Em um adendo das investigações também aparece o nome de Marco Polo Del Nero, atual presidente da CBF, como beneficiário de propinas de agências de marketing.
Posted: 07 Jun 2017 05:47 AM PDT
Por Antonio Martins, no site Outras Palavras:

Uma sondagem eleitoral divulgada esta manhã (6/6), em Londres, voltou a sobressaltar os conservadores – e a mostrar que continua aberta, em meio à crise global, a porta para uma alternativa de esquerda renovada. O Partido Trabalhista ampliou seu avanço notável, e está agora apenas 1,1 ponto percentual atrás dos Conservadores, na disputa das eleições parlamentares marcadas para esta quinta (8/6). O movimento é surpreendente por três motivos. Uma vitória trabalhista era considerada sonho lunático há apenas seis semanas, quando a primeira-ministra Theresa May convocou o pleito antecipado. A campanha trabalhista, liderada por Jeremy Corbyn, propõe uma reviravolta completa nas políticas de “austeridade” praticadas na Europa e em quase todo o Ocidente. Além disso, inclui um forte aspecto de nova cultura política: é fruto de uma rebelião das bases trabalhistas contra a política de conciliação e de alinhamento com os EUA, adotada pelo partido há pelo menos quatro décadas.

Com 68 anos, Corbyn percorreu uma trajetória semelhante à do norte-americano Bernie Sanders, que quase chegou a ser indicado candidato do Partido Democrata à Casa Branca, em 2016. Militante do Partido Trabalhista desde os 16 anos, foi um jornalista e organizador sindical ligado às alas à esquerda do partido por muitos anos. Em 1983, elegeu-se membro do Parlamento. Mas manteve-se em oposição à maioria trabalhista acomodada – em especial durante o governo de Tony Blair, que consolidou a adesão do partido às políticas neoliberais. Corbyn votou contra a orientação das direções 428 vezes. Defendeu, em especial, a garantia dos serviços públicos e uma política de paz – nos tempos em que, sob Blair, a Inglaterra era aliada principal de Washington nas guerras contra o Afeganistão e Iraque.

Em maio de 2015, uma derrota eleitoral devastadora provocou a renúncia da liderança trabalhista – que, segundo as regras do partido, é escolhida pelo voto direto dos militantes. Corbyn lançou-se à disputa como um azarão completo, quase sem conseguir o número de assinaturas de parlamentares necessárias para o registro. Mas deixou claro que era o único a concorrer “com uma plataforma anti-austeridade clara” e que seu gesto destinava-se a “dar voz à militância calada”.

Em apenas três meses, sua campanha sacudiu o partido e revelou que havia espaço para desafiar uma orientação imposta de cima e considerada inabalável. Corbyn foi eleito em primeiro turno, com 59,5% dos votos. Conseguiu-o graças à imensa adesão dos eleitores jovens – muitos dos quais aderiram aos trabalhistas especialmente para apoiá-lo. Parecia surgir uma outra via para reconstituir uma esquerda autêntica. Se em países como a Espanha o caminho eram partidos-movimento, como o Podemos, na Inglaterra a renovação surgia virando do avesso o próprio partido tradicional.

A velha estrutura partidária jamais aceitou Corbyn – os parlamentares do partido e a mídia, menos ainda. Sua liderança foi constantemente desafiada por deputados. Sua orientação era vista pelos jornais – tanto, The Economist, abertamente neoliberal, quanto The Guardian, que dialoga com a esquerda – como fadada a provocar o fracasso dos trabalhistas. Em junho de 2016, menos de um ano depois de eleito, Corbyn sofreu voto de desconfiança dos parlamentares do partido. Perdeu por arrasadores 172 x 40. Mas apelou de novo às bases e foi reconduzido ao posto com votação ainda maior: 61,8% de uma militância que se recusava a obedecer a burocracia partidária.

No último 19 de abril, quando Theresa May convocou eleições gerais, a expectativa era de que os trabalhistas sofressem uma derrota esmagadora, e de que o incômodo Corbyn fosse forçado à renúncia. Ele mais uma vez apostou no debate e na relação direta com o eleitorado. Ao contrário de May, encastelada em Londres, lançou-se pelo país, num ônibus estampado com o slogan de sua campanha: “Para muito, não para poucos” [“For the main, not for the few”]. Propõe a revitalização dos serviços públicos, cuja excelência marcou o Estado de Bem-Estar Social inglês no pós-guerra, mas que foram depredados ao longo de sucessivos governos conservadores e trabalhistas, nas últimas décadas. Afirma, sem medo de desafiar dogmas, que os recursos virão de mais impostos sobre os ricos, as grandes empresas e as transações financeiras. Quer reestatizar as ferrovias, o abastecimento de agua e os correios – cujos serviços deterioraram gravemente, após a privatização. Compromete-se a nomear um cabinete em que metade dos ministros sejam mulheres. Propõe abolir as (caríssimas) mensalidades universitárias, instituídas e elevadas nos últimos anos. Para simbolizar a defesa do trabalho, frente ao capital, sugere criar quatro novos feriados nacionais. Defende a revisão da política externa, com o fim do alinhamento automático a Washignton.

Um sinal simbólico de seu crescimento, nas últimas semanas, pode ser a notável mudança de orientação do Guardian. Ainda em março, o diário londrino escrevia em editorial que o partido estava ameaçado de reduzir-se à irrelevância – e que a única forma de evitá-la era a remoção de Corbyn da liderança. Em maio, a atitude começava a mudar. Na última sexta-feira, sinais de rendição: “O líder trabalhista fez uma boa campanha. Foi enérgico e efetivo. Sente-se confortável em sua pele e na presença de outros. Ele claramente gosta das pessoas e está interessado nelas. Gerou um senso incomum de que é possível; mais uma vez, as pessoas interessam-se pela política (…) Em 8 de Junho, ele merece nosso voto”.

*****

O avanço de Corbyn rumo ao governo de um país crucial, geopolítica e simbolicamente, parecia inevitável até os atentatos em Londres, no último sábado. Diante de uma ameaça concreta, os eleitores tendem ao conservadorismo. Mas tudo permanece incerto, porque também em relação a estes fatos o velho trabalhista foi feliz. Lembrou que os cortes de Theresa May nos serviços públicos, feitos para agradar a aristocracia financeira, resultaram também (ao contrário do que ocorre no Brasil…) em redução do efetivo policial. E ressaltou que a política externa de May prioriza (inclusive com venda maciça de armas) países como a Arábia Saudita – claramente, a inspiração maior do terror fundamentalista islâmico.

Tudo é incerto agora, nas eleições do Reino Unido. Mas a campanha admirável de Corbyn revela: por diferentes caminhos está surgindo, em todo o mundo, espaço para uma nova esquerda. Seria diferente, no Brasil.
Posted: 07 Jun 2017 05:38 AM PDT
Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:


Pesquisa Datafolha publicada nesta segunda-feira pela Folha de São Paulo constitui uma péssima notícia para o prefeito da capital paulista, João Doria. Não só por sua rejeição ter disparado e sua popularidade caído, nos últimos quatro meses, mas porque ele empreendeu uma ação publicitária drástica com vistas a aumentar essa popularidade e diminuir a rejeição.

Em 13 de fevereiro deste ano, após completar seu primeiro mês à frente da Prefeitura de São Paulo, Doria tinha seu governo aprovado por 44% dos moradores da capital paulista ante 13% de reprovação. Os demais o consideraram regular (33%) ou não opinaram (10%).

Na nova pesquisa Datafolha, a aprovação a Doria caiu para 41% e a desaprovação subiu a 22%, apesar do grande golpe publicitário aplicado na Cracolândia, que, apesar de ter agradado a população radicalizada da capital paulista, foi internacionalmente condenada, inclusive pela Organização das Nações Unidas.

O festejado médico oncologista Drauzio Varella, por exemplo, declarou: “Estou vendo ações atabalhoadas. O que aconteceu ali na Cracolândia foram medidas que pareciam não obedecer a nenhum planejamento detalhado, sem organização necessária, feita às pressas”.

Já o Ministério Público de São Paulo Ministério Público afirmou que Doria quis uma “caçada humana” na Cracolândia e obteve liminar na Justiça impedndo interdição e demolição de imóveis de forma compulsória em São Paulo e internação forçada de adictos.

Até a imprensa simpatizante do PSDB criticou. A Folha de São Paulo questionou o prefeito por dizer que havia resolvido a questão da Cracolândia apesar de o problema continuar lá.

O resultado disso começa a se refletir nas ruas. Em evento recente no centro da cidade que governa, Doria e o governador Geraldo Alckmin foram expulsos do local sob vaias e gritos de “fascistas” e “golpistas”.

Também o Conselho Federal de Psicologia – em tese, a maior autoridade para julgar as ações do poder público na Cracolândia – classificou como “barbárie” e “atrocidade” a ação da prefeitura de João Doria na questão do crack.

Como se não bastasse, nem o setor do próprio governo Doria apoio sua ação irresponsável e criminosa claramente voltada para tentar aumentar a própria popularidade. A secretária de Direitos Humanos de Doria se demitiu após o que chamou de “ação desastrosa” na Cracolândia.

Patrícia Bezerra entregou o cargo após permitir que Secretaria fosse ocupada por manifestantes contrários à ação policial na região

O desastre da ação de Doria na Cracolândia foi tão grande que ganhou o mundo. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) criticaram, em comunicado divulgado dia 26 de maio, o uso excessivo da força policial na remoção de usuários de drogas na cracolândia, em São Paulo

Mas mesmo que ninguém criticasse, os fatos tratariam de mostrar a burrada cometida pelo prefeito, que está lhe valendo esse enorme aumento de rejeição.

Dobrou o número de viciados de drogas na praça Princesa Isabel, no centro da capital paulista, segundo balanço da Guarda Civil Metropolitana. O número de viciados no local passou de 300 para 600 após a operação que Doria afirmou que teria “resolvido” o problema.

Doria aferrou-se à questão ideológica para manter apoio dos fascistas de classe média que não estão nem aí para a cidade, preocupados que vivem apenas em impedir justiça social na cidade e no país. E esse grupo ainda influência os menos atentos. Porém, é questão de tempo para a maioria passar a rejeitar o prefeito.

Não existe área em que Doria não esteja piorando as coisas. Com suas medidas irresponsáveis, fez disparar o número de acidentes com vítimas em São Paulo, após aumentar o limite de velocidade. Com o tempo, muitos de seus apoiadores tornar-se-ão vítimas dessa política nefasta e engrossarão o coro contra o prefeito fascista.

Educação, saúde, habitação, enfim, em todas as áreas a cidade de São Paulo está piorando. Ano que vem, a esta hora, a rejeição de Doria provavelmente terá ultrapassado a sua aprovação. Ele já deu mostras de que continuará tentando enganar os paulistanos com ações espetaculosas. Vai descobrir que não é o único “esperto” do mundo.
Posted: 07 Jun 2017 05:03 AM PDT
Por Altamiro Borges

O cambaleante Aécio Neves ainda não foi preso – não faltam provas sobre os seus atos de corrupção, mas faltam convicções aos "justiceiros" do Ministério Público Federal –, mas já virou pó. Sua "carreira" política está implacavelmente ferida de morte, como confirma a pesquisa Vox Populi, encomendada pela CUT, divulgada nesta terça-feira (6). Se as eleições presidenciais fossem hoje, o grão-tucano não teria nem 1% – um por cento! – dos votos dos brasileiros. Após encabeçar o "golpe dos corruptos" que depôs Dilma Rousseff e alçou ao poder a quadrilha de Michel Temer, o senador mineiro só despencou nas pesquisas de opinião. Hoje, ele é um zumbi. Se bobear, não é eleito nem para síndico de prédio.

As recentes delações dos chefões da JBS ajudaram a cavar sua sepultura. Aécio Neves já foi afastado da presidência nacional do PSDB, corre o risco de perder o seu mandato de senador e é alvo de um pedido de prisão apresentado pela Procuradoria-Geral da República, acusado de receber propina e de tentar barrar as investigações da Operação Lava Jato. A sondagem do Vox Populi/CUT mostra que as intenções de voto no cambaleante despencaram entre abri e julho. Na pesquisa espontânea, na qual os nomes dos candidatos não são apresentados pelos entrevistadores, a quantidade de menções a Aécio Neves não completou 1% do total. O ex-presidente Lula chegou a 40%, seguido pelo fascista Jair Bolsonaro (PSC), com 8%. Na sequência aparecem Marina Silva (Rede) e Sergio Moro, com 2%.

Já na pesquisa estimulada, na qual uma lista de candidatos é apresentada aos entrevistados, Aécio Neves tem apenas 1% das intenções de voto em um eventual embate de primeiro turno com Lula (46%), Bolsonaro (13%), Marina Silva (9%) e Ciro Gomes (5%), do PDT. Se o candidato do PSDB for o governador Geraldo Alckmin, Lula segue na liderança. O petista tem 45% das intenções de voto, contra 13% de Bolsonaro, 9% de Marina Silva e 4% de Ciro Gomes e Alckmin. Já se o candidato tucano for o "prefake" de São Paulo, João Doria, o quadro fica quase inalterável. Lula teria 45% dos votos, contra 12% de Bolsonaro, 9% de Marina, 5% de Ciro e 4% de Doria.

Confira a análise da recente pesquisa publicada no site da CUT:

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Lula bate todos os candidatos, aponta pesquisa CUT/VOX

Aécio tem 0% de intenção de votos e os tucanos FHC e Alckmin patinam em 1%

Pesquisa feita pela CUT/Vox Populi entre os dias 2 e 4 de junho mostra que o ex-presidente Lula continua imbatível e bateria todos os candidatos a presidente em 2018. Já o senador Aécio Neves (PSDB-MG) que, inconformado por ter sido derrotado por Dilma Rousseff (PT-RS) nas eleições de 2014, liderou um golpe contra o Brasil e os brasileiros em parceria com o então vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP), ambos denunciados por corrupção, está politicamente liquidado, aparece com 0% de intenção de voto.

Já o governo do golpista Temer, aprovado por apenas 3% dos brasileiros, é considerado culpado pelo desemprego que atinge mais de 14,5 milhões de trabalhadores e pela recessão que atinge especialmente a classe trabalhadora e os mais pobres.

Para 52% dos entrevistados pela CUT/Vox Populi, a vida piorou com Temer na presidência; 38% dizem que nada mudou e apenas 9%, que melhorou. A renda dos trabalhadores também sofreu um baque com Temer. 56% dizem que a renda diminuiu, 39% que não mudou, 4% que aumentou e 1% não soube ou não quis responder.

Lula tem mais de 50% das intenções de votos

A solução para a maioria dos brasileiros é Lula. Se a eleição fosse hoje, Lula venceria o segundo turno do pleito com 52% das intenções de votos se o candidato tucano fosse Geraldo Alckmin (PSDB-SP), que ficaria em segundo lugar, com 11% dos votos. Se o PSDB resolver apostar no discurso do novo ou da gestão marqueteira, Lula teria 51% dos votos no segundo turno e o prefeito João Doria, 13%. Lula também ganharia de Marina Silva (Rede) por 50% a 15%. Contra Marina Silva (Rede), Lula teria 50% e ela 15%. Se o candidato for o Aécio, Lula sobe para 53% e Aécio teria 5%.

Intenção de voto espontânea

Lula também é imbatível nas consultas espontâneas sobre intenções de voto, quando o entrevistador não mostra nenhum nome na cartela.

O levantamento CUT/Vox Populi, aponta que 40% dos brasileiros votariam em Lula se a eleição fosse hoje - em abril o percentual era de 36%. Em segundo lugar, bem distante, vem Jair Bolsonaro (PSC) com 8% das intenções de voto – tinha 6% em abril. Já Marina Silva (Rede) e o juiz Sérgio Moro empatam em 2%.

Embolados em 5º lugar, com apenas 1% das intenções de voto aparecem Ciro Gomes (PDT), Joaquim Barbosa (sem partido), João Doria (PSDB), Fernando Henrique (PSDB) e Geraldo Alckmin (PSDB). Aécio Neves (PSDB) tem desidratou e surge com 0% de intenção de voto – em abril, antes da divulgação do grampo da JBS que envolve o senador em crime de pedido de propina, ele ainda tinha 3% das intenções de voto.

Se o candidato do PSDB for Alckmin ou Doria, Lula sobe para 45%. No cenário com Alckmin, o governador de São Paulo empata com Ciro em 4%, Bolsonaro sobe para 13% e Marina cai para 8%. Se a disputa for entre Lula e Doria, Bolsonaro cai para 12%, Marina sobe para 9%, Ciro para 5% e Doria atinge apenas 4% das intenções de voto.

Lula é igualmente o preferido por idade, escolaridade, renda e gênero.

Tem 48% das intenções de votos entre os jovens, 44% entre os adultos e o mesmo percentual (44%) entre os maduros. Quanto a escolaridade, 55% dos eleitores com ensino fundamental votam Lula, 40% ensino médio e 29% ensino superior. Quando separados por renda, o cenário se repete: votam em Lula 58% dos que ganham até 2 salários mínimo, 41% dos que ganham entre 2 e 5 mínimos e 27% dos que ganham mais de 5 salários mínimos.

A pesquisa CUT/Vox foi realizada em 118 municípios do Brasil de todos os Estados e do Distrito Federal, em capitais, regiões metropolitanas e no interior. Foram entrevistadas 2000 pessoas com mais de 16 anos.

A margem de erro é de 2,2 %, estimada em um intervalo de confiança de 95%.


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Posted: 06 Jun 2017 05:39 PM PDT
Por Altamiro Borges

A Polícia Federal prendeu na manhã desta terça-feira (6) mais um “amigão” do usurpador Michel Temer. Henrique Eduardo Alves, ex-presidente da Câmara Federal e ex-ministro do Turismo do covil golpista, foi detido sob a acusação de ter recebido propina para a construção do estádio Arena das Dunas, em Natal. Segundo a midiática Operação Lava-Jato, o velho cacique do PMDB cometeu os crimes de corrupção ativa e passiva e de lavagem de dinheiro. As investigações apontaram superfaturamento de R$ 77 milhões na obra da Copa de Mundo de 2014. A operação da PF – que cumpriu cinco mandados de prisão preventiva, seis de condução coercitiva e 22 de busca e apreensão – recebeu o nome de “Manus” em referência ao provérbio latino “Manum Fricat, Et Manus Manus Lavat”, que significa “uma mão lava a outra”.

Henrique Eduardo Alves foi um dos principais articuladores do “golpe dos corruptos” que depôs a presidenta Dilma Rousseff e alçou ao poder a quadrilha liderada por Michel Temer. Integrante do núcleo duro do covil golpista, ele não durou muito tempo no ministério – ficou apenas 34 dias no cargo e foi defecado após as primeiras delações dos executivos da Odebrecht. Mesmo afastado do posto de ministro do Turismo, a velha raposa seguiu dando as cartas em Brasília, ajudando a emplacar inúmeras maldades do governo ilegítimo. A prisão do mafioso até que demorou a ocorrer. Em junho do ano passado, a Procuradoria-Geral da República (PGR) já havia denunciado o político por lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Conforme relembra o site da Folha, “a acusação teve como base informações repassadas pelo Ministério Público da Suíça, que identificou uma conta secreta do peemedebista em instituição financeira daquele país. A conta descoberta tinha um saldo de mais de R$ 2 milhões. De acordo com as investigações que embasaram a operação desta terça (6), Henrique Alves emprestou a conta para que Eduardo Cunha pudesse receber a propina desviada de contratos em obras públicas. O ex- ministro afirmou à época que não tinha ideia de como o dinheiro foi parar na conta. Além das delações da Odebrecht, houve a quebra dos sigilos fiscal, bancário e telefônico dos envolvidos”. Ou seja, o falso moralista é outro mais sujo do que pau de galinheiro.

Com as prisões de mais dois “amigos de confiança” de Michel Temer – Henrique Alves e Rocha Loures, o “homem da mala” –, a situação do usurpador ficou ainda mais complicada. Novas delações são esperadas para os próximos dias, o que pode abreviar a queda do Judas – mesmo que ele seja absolvido nesta semana por seus comparsas no Tribunal Superior Eleitoral. Na prática, Michel Temer já não governa e tem como único objetivo evitar a deposição e sua própria prisão. Em nota recente, a jornalista Mônica Bergamo informou que “a possibilidade de o eventual sucessor de Michel Temer conceder indulto ao peemedebista caso ele deixe a Presidência da República já é debatida em gabinetes de Brasília. Até ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se debruçaram sobre a legislação para saber se a ideia é viável”. Ou seja: o esforço seria apenas para evitar a cadeia!

Reproduzo abaixo artigo de Jeferson Miola, que mostra a urgência do Brasil se livrar deste chefe de quadrilha:

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Temer seria afastado se fosse homicida, ao invés de corrupto?

O governo Temer, considerado uma organização criminosa pela crônica política, se aproxima da unanimidade nacional: é rejeitado por quase 100% da população brasileira.

O ajuntamento golpista instalado em Brasília é uma cleptocracia – na tradução literal do grego, um “governo de ladrões”. Este “governo de ladrões” causou o desmoronamento ético e moral da política nacional, e sua continuidade é empecilho para o país sair do abismo econômico e social.

A situação do Brasil é absurda. O governo do país é controlado por um presidente e ministros que simplesmente não governam, porque têm como prioridade exclusiva segurar o foro privilegiado para fugirem da prisão. Enquanto isso, o país continua despencando no precipício.

No estrangeiro, a desmoralização e a irrelevância do governo se acentuaram depois que o Alto Comissariado da ONU e Comissão Interamericana de Direitos Humanos denunciaram a escalada autoritária com a intervenção das Forças Armadas para reprimir protestos populares.

O PSDB, principal força de apoio que garante a sobrevivência de Temer é, por isso, o principal responsável por esta trágica situação – ocupou a liderança do golpe e agora banca Temer no cargo.

É necessário reconhecer que uma realidade parece estabelecida, infelizmente: Temer não terá a grandeza de renunciar, mesmo sabendo que a renúncia seria a única nota virtuosa numa biografia inexoravelmente marcada pela conspiração, formação de quadrilha e corrupção.

Temer, no exercício ilegítimo do cargo que usurpou de Dilma, praticou “infrações penais comuns” e “crimes de responsabilidade”. Por isso é cabível, à luz do artigo 86 da Constituição, que ele seja julgado, em simultâneo, tanto no STF pelos crimes comuns; como no Congresso, em relação aos crimes de responsabilidade.

Ocorre, contudo, que os três percursos que poderiam pôr fim “ao governo de ladrões” poderão ser, todos eles, demorados demais diante da urgência social e política do país.

No TSE, onde predominam inclinações tucano-peemedebistas, arma-se um acordo circunstancial para safar Temer procrastinando ad aeternum a conclusão do julgamento da chapa eleitoral.

Na Câmara, os muitos pedidos de impeachment protocolados depois das conversas mafiosas entre Temer e o dono da JBS estão sendo, um a um, engavetados pelo presidente Rodrigo Maia [DEM], integrante do bloco golpista e também acusado de corrupção e lavagem de dinheiro.

Se, com otimismo, algum pedido for aceito, a tramitação será morosa e dificultada pela maioria de deputados cúmplices, denunciada por crimes de diferentes índoles: improbidade administrativa, corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, tráfico, trabalho escravo, homicídio etc.

O terceiro caminho é o julgamento no STF pelos crimes comprovados nos áudios e admitidos pelo próprio Temer em entrevistas: corrupção, obstrução da justiça, prevaricação e associação criminosa. Para processá-lo criminalmente, entretanto, o STF precisa receber a autorização de 2/3 dos deputados [342 votos], o que por ora é improvável acontecer, visto a solidariedade majoritária do PSDB, PMDB, DEM, PP, PTB, PPS e aliados a ele.

Os crimes do Temer e da cleptocracia que ele comanda são conhecidos em detalhes escatológicos. A permanência dele e seu bando, por qualquer ângulo que se observe, é uma anomalia absoluta, uma indecência; é uma vergonha e um desastre.

Diante de tão graves e robustas provas dos crimes praticados, o afastamento imediato é o menor denominador comum aceitável. O que é preciso fazer, contudo, para se acabar com esta anomalia política, moral e institucional que penaliza o povo porque prolonga a recessão e o desemprego?

Se Temer fosse um homicida, ao invés de corrupto e integrante de organização criminosa, certamente haveria comoção pública e sensibilidade política para afastá-lo.

O homicídio, embora seja um atentado à vida humana, na tipificação penal é tão crime quanto o latrocínio, a corrupção, formação de quadrilha, evasão de divisas, lavagem de dinheiro etc. Do ponto de vista conceitual, portanto, os ilícitos do Temer são práticas tão criminosas como o homicídio, ainda que com diferentes agravantes e atenuantes e consequências penais específicas.

É necessário acabar com a hipocrisia de que em política vale-tudo quando se tem maioria circunstancial no Parlamento e se exerce o controle ideológico das instituições do Estado, especialmente as jurídicas e policiais, para operar os interesses da sua classe e dos seus bandos em detrimento das urgências de toda a Nação e de todo o povo.


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