quinta-feira, 8 de junho de 2017

8/6 - "...Obama: homem vazio..."

FONTE:Castor Filho <castorfilho@yahoo.com>

Obama: homem vazio, cheio de ideias da classe dominante
2/5/2017, Paul Street,
Counterpunch

"In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms"

"Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Este queixo quebrado de nossos reinos perdidos"

The Hollow Men (1925), T.S. Eliot (Os homens ocos, trad. ao port. do Brasil, Ivan Junqueira)*

Homem "vazio" e "vontade nenhuma de combater o bom combate"

O que no mundo motivaria o historiador e professor de Direito, Prêmio Pulitzer, David J. Garrow, a escrever 1.078 páginas inacreditavelmente detalhadas (são (1.460 páginas, se se contam as notas e o índice) de uma biografia de Barack Obama, da concepção até a eleição à Casa Branca? Com certeza, de parte de Garrow, não havia qualquer grande afinidade pessoal.
Rising Star: The Making of Barack Obama não é história hagiográfica. Na última página desse livro notável, Garrow descreve Obama ao final de sua "presidência fracassada" claramente não transformadora, como um homem que há muito se tornou "barco [ing. vessel] que sempre navegou completamente vazio."

Aproximando-se da conclusão, Garrow observa o quanto muitos ex-amigos de Obama sentiram-se desapontados e traídos por um presidente que "não se sente em dívida com o povo" (nas palavras de um ex-auxiliar próximo) e que passou tempo excessivo na quadra de golfe e "bajulando celebridades" (1.067). Garrow cita um dos "amigos de Obama de muito tempo, desde Hyde Park [Chicago]," que fez avaliação muito dura: "Barack é personagem trágico: tanto potencial, tanta crítica, mas fracasso imenso na hora de fazer (...) como uma concha vazia(...) Sabe-se lá se o defeito dele é húbris, profunda e antiga húbris (...)" (1.065). Garrow cita o Dr. Cornel West, que apoiou Obama por bem pouco tempo, no início, para quem Obama "fez pose de progressista, depois se viu que não passava de produto falsificado. Terminamos com um presidente de Wall Street, presidente de segurança nacional... um Clinton de pele marrom-claro: mais um oportunista."

O objeto da meticulosa história que Garrow escreveu é obcecado por ascender na sociedade, pronto a rifar qualquer um (inclusive membros da família, amantes e amigos próximos), a serviço de uma busca por poder político que o consome integralmente e cujo combustível é uma crença inabalável em seu próprio "destino" especial. (É bem claro, em Rising Star, que Obama pôs-se a buscar a presidência aos 25 anos.) Dúzias de ex-associados e próximos de Obama entrevistados por Garrow falam de o quanto Obama era dedicado, até mesmo obcecadamente dedicado ao personagem do futuro presidente jovem. Mas muitos outros se afastaram, incomodados com o senso de superioridade e a arrogância de Obama ("cheio de si", na lembrança de um colega de classe na Faculdade de Direito de Harvard [p. 337]) e pelo modo professoral "de quem sabe tudo" –, e pela muito transparente hiper-ambição.

Durante o curso de Direito em Harvard, colegas seus inventaram "o Obamômetro" – um sistema numérico para medir o tempo que Obama gastaria, das horas de aula, em intermináveis diálogos com o professor, quase sempre se apresentando como se falasse em nome dos colegas.

Obama impressionou muita gente ao longo de seu caminho, por conta do 'autodeslumbramento' [ing. his own awesomeness]. Como disse um deputado estadual negro por Illinois, seu contemporâneo, a outro político veterano, quando Obama iniciou o mandato de oito anos como deputado, em 1996, "Você acredita que esse sujeito, trinta e poucos anos... já escreveu um livro sobre ele mesmo?!" (p.600)

Lobbyistas progressistas avaliaram Obama como "um desapontamento" como legislador, no tempo em que foi deputado estadual em Illinois. Segundo Al Sharp, diretor executivo de Protestants for the Common Good, o deputado estadual Obama era "tão absolutamente pragmático" que, nas palavras de Garrow, "não se interessava por combater o bom combate." Opinião de Garrow. A "veterana advogada e assessora legislativa Linda Mills lembrou que [o deputado estadual] Barack 'patrocinou vários projetos de lei que eu mesma redigi,' mas 'parei logo em seguida deixei de considerá-lo grande patrocinador' porque Barack era 'descomprometido' e não promovia ativamente os projetos. '[Obama] jamais se envolveu no trabalho legislativo' e muitas vezes simplesmente 'desaparecia. Golfe, basquete. Muito frequentemente saía para almoçar e não voltava'" (p.731).

Oferta feia: dinheiro em troca de silêncio

Para mim, outra história em Rising Star, no mesmo campo, é também muito perturbadora. De abril de 2008, quando Obama, já candidato à presidência, estava sendo pressionado pela campanha de Hillary Clinton a descartar seu "mentor espiritual" dos tempos de South Side Chicago reverendo Jeremiah Wright, porque a associação de Obama com o feroz pregador de esquerda e pró-negros estaria custando a Obama muitos votos brancos. Dia 12/4/2008, Obama visitou Wright e pediu que "não voltasse a falar em público até depois das eleições de novembro". Wright recusou. "Barack saiu. Mas pouco depois Wright recebeu um e-mail de Eric Whitaker, íntimo amigo de Barack e também membro da [igreja] Trinity, que oferecia a Wright $150 mil, 'para suspender completamente qualquer pregação nos meses seguintes" (p.1.044). Wright recusou.

O que valem esses feitos, em termos de esperança e mudança?

"Peça de ficção histórica"

O jovem Obama tentou sair à frente dos historiadores futuros, ao escrever sua própria forjada autoelogiosa autobiografia das primeiras três décadas e meia durante as quais coloriu e enfeitou o planeta com suas "qualidades especiais". Garrow não caiu no golpe, diga-se a favor dele.

Rising Star trata o livro Dreams From My Father Dreams de 1995 e outras reflexões autobiográficas posteriores de Obama como outra coisa: para inventar um profundo drama de identidade racial que jamais existiu durante os primeiros anos de Obama no Havaí, na Indonésia e no Occidental College; para inventar um retrato de Obama como alguém que "fez diferença" no time de basquete do ginásio; para inventar que Obama teria sido "durão" e "rebelde" no ginásio; para apagar o passado no Community Party do "velho poeta" Negro ("Frank," ativista do Partido Comunista, de longa história), que foi conselheiro de Obama, na adolescência em Honolulu; que pretende convencer que Obama teria tido "bolsa completa" no Occidental College; para exagerar o envolvimento de Obama no ativismo anti-apartheid na Universidade Columbia; para encobrir provas de que Obama inscreveu-se num curso ministrado por professor marxista; para mascarar a natureza do trabalho de Obama no New York Public Interest Research Group (NYPIRG) na City University of New York; para inventar um diálogo mítico, que teria mudado toda a vida de Obama com um "guarda-costas negro" na primeira viagem de Obama a New York City para começar a organizar trabalho comunitário no South Side de Chicago; para forjar a versão de que Obama converteu-se ao cristianismo nos primeiros anos em Chicago; para praticamente varrer da autobiografia a mãe branca de Obama; para reforçar a figura de um pai (Barack Obama. Sênior) que teve rala presença na vida do filho; para pintar "retrato claramente nada caridoso" de um avô materno carinhoso (Stanley Dunham) que tanto fez para educá-lo; para sugerir que a avó materna branca de Obama seria racista; para diluir o muito que Obama divertiu-se e gozou durante o curso de Direito em Harvard; e para condensar friamente suas três principais namoradas pré-casamento (mais sobre isso, adiante) "numa única mulher cuja presença no livro já se diluía."

Garrow define Dreams como "trabalho de ficção histórica" – "não como memórias ou autobiografia séria.

A revanche de Sheila Jager: "A necessidade profunda nele, de ser amado e admirado"
 
Rising Star quase faz jus ao subtítulo "A revanche de Sheila Jager". Como na biografia gigante e clássica do Dr. Martin Luther King, Jr, Rising Star invade campos muito, muito pessoais. Garrow registra reclamações de três ex-namoradas – Alex McNair, Genevieve Cook e Sheila Jager. Cada uma delas relembra um Obama que, na verdade, sempre foi inacessível e inapelavelmente autorreferente. Miss Jager, branca, formada em Antropologia na Asian-American University de Chicago quando conheceu Obama, merece atenção especial. Ela viveu affair prolongado e ardente com Obama, então organizador comunitário no final dos anos 1980s. Mas a relação longa e turbulenta com Obama estava condenada desde o início pela cor da pele dela. Obama partilhou a paixão, até que decidiu que não casaria com ela porque as ambições políticas dele em Chicago exigiam esposa negra.

Garrow registra uma feia cena no verão de 1987. De repente irrompeu uma longa briga na casa de verão de um amigo em Wisconsin. Desde manhã cedo, uma testemunha relembra "o tempo inteiro, sem parar, berravam, brigavam, faziam sexo, gritavam, berravam... Durou a tarde inteira, sexo e briga feroz", e Jager gritava: "Está errado! Errado! Isso não é motivo."

Chegando ao fim desse volume colossal, Garrow diz que "ninguém hoje vivo penetrou tão fundo na tragédia de Barack Obama, que Sheila Jager." Reproduz várias citações de Jager, que hoje é professora de Antropologia no Oberlin College. Mulher e jovem apaixonada, a falta de "coragem" do jovem Obama frustrou-a. Em carta para Garrow em agosto de 2013, Jager viu essa covardia também na presidência excessivamente "pragmática", descomprometida, e "só feita de concessões", de Obama:

"as sementes dos fracassos futuros já estavam presentes em Chicago. Ele tomou uma série de decisões calculadas, quando começou a mapear a própria vida política à época, e aquelas decisões envolveram concessões profundas. Há um eco familiar na linguagem dele hoje, para falar das concessões que teve de fazer, e o modo como me explicou seu futuro naquela época, dizendo sempre 'eu gostaria' de poder fazer tal coisa, mas 'pragmaticamente e a realidade do mundo forçaram-me a fazer [outra coisa].' Desde o resgate da Agência de Segurança Nacional até o Egito, é sempre a mesma coisa. O problema é que 'pragmatismo' pode às vezes ter ares de, simplesmente, o que melhor 'funciona' em cada momento. Daí a crítica tantas vezes repetida, de que não há visão estratégica por trás das decisões dele. Talvez esse pragmatismo e a necessidade de simplesmente 'fazer como todo mundo' (aceitando o mundo como é, em vez de tentar transformar o mundo) tenham raízes numa necessidade muito profunda nele de ser amado e admirado; essa necessidade, no fim, o pôs numa trilha de conformismo, não na trilha da grandeza que sonhei para ele" (1.065).

Toda essa passagem aparece em itálicos, no livro de Garrow.

Ou quem sabe ele realmente acreditava em todo esse lixo "neoliberal vazio e repressivo" e "pragmático"

A monumental biografia de Garrow é um tour de force no que tenha a ver com crítica pessoal, avaliação profissional pesquisa e documentação épicas. Notáveis, em todos os casos, o controle absoluto do historiador sobre até os mais ínfimos detalhes da vida e da carreira de Obama, bem como a habilidade para pôr aqueles fatos dentro de uma narrativa que prende a atenção do leitor – o que não é feito desimportante, para 1.078 páginas!).

Mas Rising Star deixa a desejar em termos de crítica da ideologia. No início de 1996, o brilhante cientista político Adolph Reed, Jr., negro e de esquerda, já capturara os estreitos limites morais e políticos do que viria a ser o fenômeno Obama, então estadual, logo depois nacional, e até do governo Obama. Escrevendo sem citar o nome de Obama, Reed observou que:

"Em Chicago (...) temos uma amostra da nova safra de vozes comunitaristas negras incubadas em fundações; uma delas, um suave advogado de Harvard, com credenciais impecáveis de benfeitor e política neoliberal entre oca e repressiva, foi eleito à assembleia estadual, apoiado principalmente em fundações liberais e pró-desenvolvimento. A linha dele, fundamentalmente fraturada, foi suavizada por uma pátina de retórica de comunidade autêntica, com reuniões de cozinha, soluções de pequena escala para problemas sociais, e a predominância previsível do processo sobre o programa – o ponto no qual políticas identitárias convergem com reformismo retrógrado de classe média, favorecendo a forma sobre a substância."

Garrow cita muito incompletamente o parágrafo de Reed, apenas para descartá-lo como "jeito acadêmico de chamar Barack de Uncle Tom." É avaliação gravemente malsucedida. O que Reed escreveu foi fartamente comprovado na carreira política subsequente de Obama. Como seus irmãos-de-alma político-ideológicos Bill Clinton e Tony Blair (e talvez hoje também Emmanuel Macron), a vida pública de Obama foi miserável monumento aos obscuros poderes das agendas corporativo-financeira e imperial, sob uma falsa fachada progressista da classe dos políticos profissionais de lábia afiada gerados na televisão.

A intuição certeira de Reed mais de 12 anos antes de Obama tornar-se presidente é mais atilada, quanto à tragédia Obama, que a reflexão de Jager quando Obama já era presidente há cinco anos.

O gosto nauseabundo de Obama por qualquer suposto (e enganador) "fazer as coisas acontecerem", "pragmatismo", "concessão" e "jogar sem riscos" –, a favor de "aceitar o mundo como é, em vez de tentar mudá-lo" (Jager) – não era simplesmente ou meramente um traço de personalidade ou alguma falha psicológica. Era também e muito mais significativamente um modo já consagrado de presidentes e outros políticos Democratas "liberais" se fazerem passar por "firmes" e decididos a "fazer as coisas acontecerem", ao mesmo tempo em que subordinam os valores falso-populares e falso-progressistas que vociferam para se elegerem, ao duro "estado profundo" da classe dirigente, imperial nos EUA e ao poder da "segurança nacional. Uma atenção dita "pragmática" supostamente não ideológica à efetividade das políticas – "o que se pode conseguir no mundo real" – há muito tempo fornece a presidentes "liberais" uma via para justificar que governem em perfeito acordo com os desejos da classe dirigente e da elite do poder nos EUA.

Garrow e Jager talvez queiram examinar um clássico da ciência social nos EUA, de Bruce Miroff, Pragmatic Illusions: The Presidential Politics of John F. Kennedy [1976]. Depois de detalhar o serviço "melhor e mais brilhante" supostamente progressista que Kennedy prestou às hierarquias corporativas reinantes, imperiais e raciais da nação, com sua cabeça-fria e objetividade à Harvard, Miroff explicou que:

"Muitos presidentes modernos têm reivindicado para si o título de 'pragmáticos'. Richard Nixon cuidou tanto quanto John Kennedy e Lyndon Johnson de fazer-saber que não era dado a dogmas, e que seu governo seguiria rota realista e flexível. Mas foram os presidentes liberais que, mais que quaisquer outros, aproveitaram-se do rótulo pragmático (...) Para presidentes liberais – e para os que os que lhes serviram como conselheiros – a marca essencial do pragmatismo é o que chamavam de cabeça-firme [ing. 'tough-mindedness']. Pragmatismo passou a significar força e força intelectual e moral capaz de aceitar um mundo destituído de ilusões; capaz de suportar fatos não suavizados. Comprometidos com objetivos liberais, mas libres do sentimentalismo liberal, os liberais pragmáticos veem-se eles mesmos como agentes que lidam com fatos brutais e desagradáveis da realidade política, para humanizar e suavizar aqueles mesmos fatos (...). O grande inimigo dos liberais pragmáticos é a ideologia (...). Um dos pilares da 'cabeça firme' pragmática é uma objetividade ilusória. O segundo pilar é prontidão para o poder. Os pragmatistas interessam-se por tudo que funciona; o primeiro critério de valor deles é o sucesso (... e), como crente dos resultados concretos, o pragmatista é irremediavelmente arrastado para o poder. Porque é o poder que faz as coisas acontecerem mais facilmente, que faz as coisas funcionarem com maior sucesso." (Pragmatic Illusions, 283-84, itálicos meus).

Bill Clinton, o neoliberal clássico abraçou a fachada pragmática e não ideológico do "fazer as coisas acontecer" para a política do capitalismo de estado e do imperialismo. Jimmy Carter, neoliberal pioneiro, também; e os grandes liberais pró-empresas Lyndon Johnson, John F. Kenedy e Franklin Roosevelt. Seriam todos realmente ou principalmente portadores de necessidades psicológicas especiais?

A realidade mais profunda e mais relevante é que funcionaram no topo de um estado superpotência governado por ditaduras não eleitas e solidárias entre elas de dinheiro, império e suprematismo branco. Foram educados, socializados, seduzidos e doutrinados – para incorporar nos próprios ossos que as ditaduras de facto devem permanecer intactas (Roosevelt jactava-se de ter salvado o sistema dos lucros), e que "reforma" liberal deve sempre se curvar ao desejo das instituições e doutrinas reinantes da riqueza, classe, raça e poder concentrados. Alguns deles, ou todos, podem bem ter de crer e internalizar uma ideologia dita não ideológica de algum pragmatismo que não serviria nem à riqueza nem ao poder. E Obama ou já era crente fervoroso, ou desde muito cedo escolheu cinicamente fazer-se de crente fervoroso como passaporte para o poder.

Neoliberal completamente montado desde cedo

Ironia aqui é que se pode consultar Rising Star para aferir a acuidade básica que subjaz à amarga descrição de Reed. A principal revelação para mim, de Rising Star, é que Obama já era completamente formado como ator capitalista-neoliberal- progressista falsificado desde muito antes de receber o primeiro dinheiro-gordo como contribuição de campanha. Seguiu a mesma trilha ideológica que os Clintons, desde antes de Bill Clinton caminhar para o Salão Oval. Os anos de Obama no mundo das fundações financiadas por empresas, a grande classe profissional e governante das escolas de formação em Direito em Columbia, Harvard, e a grande elite neoliberal da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago foram mais do que suficientes para forjá-lo como liberal brilhante, embora "entre vazio e repressor".

Durante seus anos na Faculdade de Direito de Harvard, observa Garrow, Obama disse o seguinte, numa reunião de cúpula de Turner Broadcasting African American Summit para os anos 1990s:

"Sempre que culpamos a sociedade por tudo, ou culpamos o racismo branco por tudo, inevitavelmente cedemos nosso próprio poder (…) se podemos começar a ultrapassar algumas dessas velhas divisões [de raça, de local e de classe] e considerar as possibilidades de estratégias pragmáticas, práticas, que se foquem mais no que fará a coisa funcionar e menos em se se encaixam num ou noutro molde ideológico."

Todos esses são temas neoliberais clássicos da classe dominante.

Somada a gorda dose de economia de mercado, essa foi a essência pesadamente ideológica nominalmente dita anti-ideológica de grande parte do trabalho intelectual de Obama na Faculdade de Direito, onde ele e seu bom amigo o ex-economista Rob Fisher foram atraídos para cursos de um professor libertarista [orig. libertarian] e escreveram paradoxalmente sobre o potencial progressista e democrático de "forças do mercado". Como outras instituições de "educação superior" da classe governante e de educação profissional e ideológica de classe, a Faculdade de Direito de Harvard foi e continua a ser celeiro onde se produz precisamente o tipo de "pragmatismo" que sabe que nenhuma política e nenhuma visão jamais funcionarão se não se curvarem ante o santo poder do estado imperial e das corporações comandadas pela finança, e que comandam em nome do mercado, dentre outras coisas.

Repetidas e repetidas vezes, nas muitas centenas de páginas de Garrow sobre a carreira de Obama como organizador comunitário e como deputado, ouve-se falar dos esforços classicamente neoliberais do futuro presidente para enfrentar a pobreza e o desemprego fazendo aumentar o valor de mercado do "capital humano" e "competências" do pessoal desempregado e pobres em geral. Em momento algum se ouve qualquer palavra, de Obama, a favor de redistribuição radical da riqueza e do poder nem de economia política baseada em solidariedade e no bem comum, não em mais lucros para a classe dos investidores.

Detalhes importantes que Obama precisava acrescentar, para completar a capacitação para seu "destino" depois da Faculdade de Direito de Harvard eram uma carreira política em posto eletivo, um grande momento como celebridade nacional (seu espetacular "Discurso à Convenção Nacional Democrata" em agosto de 2004), patrocínio pela elite financeira (incluindo as contribuições recordes de Wall Street em 2007 e 2008), e elogios adequados e articulação com a ideologia pró EUA imperiais do Conselho de Relações Exteriores. Tudo isso e mais, incluindo não pequena fatia de sorte (como o péssimo governo de George W. Bush e a péssima campanha de Hillary Clinton em 2007-08), e chegamos ao grande "desapontamento" neoliberal que foi o governo Obama.

Apagões suspeitos: MacFaquhar, marxistas e os apoiadores da classe dominante

Há algumas interessantes omissões em Rising Star. Estranho que Garrow sempre tão meticuloso, não cite um ensaio notável, publicada em The New Yorker na primavera de 2007. No início de maio daquele ano, seis meses antes de Obama declarar-se candidato à Casa Branca,
Larissa MacFarquhar, de New Yorker publicou retrato memorável de Obama intitulado "O conciliador: De onde vem Barack Obama?" "Em sua visão da história, em seu respeito pela tradição, no ceticismo quanto à possibilidade de mudar o mundo a não ser muito, muito lentamente" –, escreveu MacFarquhar depois de longa entrevista com o candidato, –"Obama é profundamente conservador. Em algum momento chega a soar quase Burkeano... Não é só porque pensa que revoluções são improváveis: ele valoriza a continuidade e a estabilidade em si mesmas, às vezes até mais do que valoriza qualquer mudança para melhor" (itálicos meus).

MacFarquhar citava como exemplo desse sentimento reacionário de Obama a relutância dele em adotar o seguro-saúde de um só pagante, à imagem do modelo canadense, o qual Obama disse a ela que "é tão violento que as pessoas sentem que o modelo que conheceram durante quase a vida inteira é jogado de lado." Obama disse a MacFarquhar que "temos instalados todos esses sistemas, e administrar a transição e ajustar a cultura a um sistema diferente, seria muito difícil de fazer funcionar. Talvez precisemos de modelo menos violento, de modo que as pessoas não sintam que o que conheceram durante quase a vida inteira é jogado de lado".

E daí, se as grandes maiorias populares nos EUA há muito tempo prefiram o modelo de pagador único? E daí, se o pagador único permite que as pessoas mantenham o médico que preferirem, podendo assim jogar de lado a proteção das máfias dos seguros privados de saúde? E daí, afinal, se os sistemas defendidos por Obama incluem seguradoras privadas e oligopólios farmacêuticos que regularmente jogam de lado milhões de vidas de norte-americanos, nos cálculos de mercado, provocando dano violentíssimo e morte idem, entre a população?

Seriam fraqueza e covardia pessoais? A realidade mais profunda é que as crenças de Obama, "profundamente conservadoras" refletiam adesão ou por cálculo ou de coração aos ideais neoliberais do "livre mercado" e valores relacionados pragmáticos e "realistas" da classe governante e das elites profissionais inculcados nele e absorvidos na Faculdade de Direito de Harvard, no mundo das fundações cativas das grandes corporações, e mediante seus muitos contatos no setor da elite empresarial e no establishment da política exterior, enquanto era criado dentro do Sistema Americano.

Além de comprometimento profundíssimo com o longo projeto imperial norte-americano, essas crenças de servir sempre ao poder estavam todas explícitas no livro do Obama conservador do final da campanha de 2006 The Audacity of Hope (segundo livro escrito por Obama sobre ele mesmo, que resenhei no início de 2007, no Black Agenda Report), e cujo conteúdo de direita imperial Garrow ignora. Tudo isso aparece também no famoso discurso à Convenção dos Democratas em 2004 (que comentei na ocasião) e que tanto contribuiu para fazer de Obama personalidade nacional e global, praticamente do dia para a noite – outro documento cuja inclinação ideológica de direita também escapa à atenção de Garrow.

Como a ideologia neoliberal e imperial de Obama, também está ausente de Rising Star o que muitos ativistas e autores de esquerda (entre os quais me incluo) souberam ver através da tênue cobertura falsamente progressista de Obama e sobre o quê alertaram contra o candidato desde muito cedo. A lista de comentaristas de esquerda cujas análises e leituras de Obama não foram consideradas é longa: Bruce Dixon, Glen Ford, John Pilger, Noam Chomsky. Alexander Cockburn, Margaret Kimberly, Jeffrey St. Clair, Roger Hodge, Pam Martens, Ajamu Baraka, Doug Henwood, Juan Santos, Marc Lamont Hill, John R. MacArthur, e muitos outros (vejam por favor a subseção intitulada "Avisos insistentes vindos da esquerda", nas páginas 176-177 no 6º capítulo de meu livro de 2010 The Empire's New Clothes: Barack Obama in the Real World of Power [Paradigm, 2014], meu segundo livro cuidadosamente pesquisado, que não aparece nem em notas nem na bibliografia de Garrow).

Também ausente – o outro lado da moeda da omissão, por assim dizer – na alentada análise de Garrow é a elite da classe empresarial e financeira que fez contribuições recordes para a ascensão política de Obama, sob o óbvio pressuposto de que Obama era seu aliado, não adversário. Como escrever mais de 1.000 páginas sobre a ascensão de Obama ao poder, ser mencionar, nem uma vez, que fosse, aquela figura augusta inigualável de Robert Rubin, cuja aprovação foi crucial para a ascensão de Obama? Como observou Greg Palast, Rubin "abriu para Obama as portas dos cofres da indústria da finança. Façanha extraordinária para um Democrata, em 2008 Obama arrecadou três vezes mais dinheiro de banqueiros, que seu adversário Republicano."

Rubin também seria conselheiro informal de Obama e plantaria grande número de seus protégés em posições do alto escalão do governo Obama. Entre os apadrinhados por Rubin nomeados por Obama incluem-se Timothy Geithner (1º secretário do Tesouro de Obama), Peter Orszag (1º diretor do Gabinete de Gestão e Orçamento de Obama) e Larry Summers (1º principal conselheiro de Economia).

Quase tão estranha quanto a omissão do ensaio de MacFarquhar de maio de 2007 é a nenhuma atenção que Garrow dá a uma importante matéria de Ken Silverstein, de seis meses antes. "Nem sempre é muito claro o que querem os apoiadores financistas de Obama", escreveu o jornalista progressista Ken Silverstein em matéria para a Harpers' Magazine intitulada "Obama, Inc." em novembro de 2006, "mas parece seguro concluir que os financiadores da campanha dele não têm qualquer interesse em governo limpo ou reforma política … Pedindo que seu nome não fosse revelado", escreveu Silverstein, "um lobbyista de Washington com quem conversei, apontou rapidamente o óbvio: os grandes doadores jamais estariam apoiando Obama se não o visse como 'player.' O lobbyista acrescentou: 'Qual o valor em dólares, de um idealista de olhar estrelado?'" A fidelidade de Obama à elite empresarial norte-americana sempre esteve evidente desde o primeiro momento. Era perfeitamente compreendida pelos insiders da K Street entrevistados por Silverstein no outono de 2006.

O 'valor dólar' de Obama para Wall Street ficaria perfeitamente claro já no início de 2009, quando disse a um preocupado grupo de executivos de Wall Street que "Não estou aqui para perseguir vocês. Estou protegendo vocês (...) Vou proteger vocês contra a ira pública e do Congresso." Quanto à elite do banking, que havia destruído milhões de empregos, não havia, como escreveu outro vencedor do Prêmio Pulitzer, como Garrow, Ron Sukind, "nada com o que se preocupar. Se [o presidente Franklin Delano] Roosevelt [durante a Grande Depressão batera com força e furiosamente se opusera às reformas pregadas por Wall Street, sobre quem disse, em frase que ganhou fama que "para mim, o ódio deles é bem-vindo", Obama agora dizia 'Como posso ajudá-los?'" Como um grande banqueiro disse a Suskind, "Ao final da reunião, o sentimento generalizado era de alívio. O presidente nos pegou em momento de real vulnerabilidade. Ali, poderia ter-nos mandado fazer praticamente qualquer coisa e correríamos a obedecer. Mas não. Queria mais nos ajudar a escapar, segurar a multidão."

Sobre amor e admiração

Como se lê acima, a professora Jager disse a Garrow que os limites do governo de Obama brotavam de antiga "necessidade de ser amado e admirado." Mas com certeza essa necessidade seria satisfeita em considerável proporção se Obama (como Roosevelt em 1935 e 1936) governasse em acordo pelo menos parcial com a retórica progressista da campanha em 2007 e 2008. Além do benefício social, democrático, de segurança e ambiental que milhões de norte-americanos teriam obtido em governo Obama realmente progressista, essa política teria sido boa política para Obama e para o Partido Democrata. Talvez até tivesse prevenido a rebelião do Tea Party e mantido a besta de cabelo cor-de-laranja Donald Trump – sujo legado neofascista do elitismo da classe governante e profissional da gang da Ivy League – longe da Casa Branca. O maior problema aqui foi o amor, a admiração de Obama pela elite reinante do dinheiro e do poder – ou, talvez, um cálculo bastante razoável, segundo o qual os poderes reais detêm o monopólio sobre os meios de atrair o amor e a admiração das massas. Não conformismo e oposição à classe dominante têm alto custo, numa cultura midiática e política da qual aquela classe é proprietária.

A maior omissão de todas: Império

O item mais flamante que não há em Rising Star é sequer uma linha sobre a visão de mundo imperial de Obama senador e candidato à presidência dos EUA. Seu pensamento de descarado "excepcionalista norte-americano" e imperialista, saído diretamente do Conselho de Relações Exteriores, esteve sempre marcado em cada linha dos discursos e escritos de Obama sobre política externa (incluindo longos trechos de The Audacity of Hope) em 2006, 2007 e 2008. Escrevi detidamente sobre isso no quarto capítulo (intitulado "How Antiwar? Obama, Iraq, and the Audacity of Empire") de meu livro de 2008 Barack Obama and the Future of American Politics.

Essa significativa omissão nem chega a surpreender, dado o visível envolvimento de Garrow com o mesmo pensamento imperialista norte-americano. O longo epílogo de Rising Star inclui crítica à mineira de John McCain contra Obama por não ter ordenado ataques à Síria, e por ser alérgico demais ao "uso da força, até mesmo à ameaça de usar a força" em assuntos globais. Garrow chega a fazer uma longa citação crítica a propósito da necessidade de "o próximo presidente" ser mais "resoluto", da pena do ex-secretário da defesa e imperialista dedicado Robert Gates, o qual, muito estranhamente, Garrow descreve como "de todas, a voz de mais peso e mais amplamente respeitada".

"Problemas aí com a situação dos afro-norte-americanos na sociedade"

Obama foi visto pela primeira vez como celebridade quando se tornou o primeiro editor negro da Harvard Law Review em fevereiro de 1990.  "Não gostaria que as pessoas vissem minha eleição" – disse Obama à Associated Press, "como símbolo de que não há problemas aí com a situação dos afro-norte-americanos na sociedade" (Garrow, Rising Star, p. 392). Note-se a natureza cuidadosamente medida do comentário público de Obama já aos 28 anos: "problemas aí com a situação dos afro-norte-americanos na sociedade" poderia referir-se a um suposto fracasso pessoal ou cultural de um negro (tema persistente para agradar aos brancos na retórica política da estrela em ascensão), como também se poderia referir a racismo societal cultural e/ou institucional. Observe-se também que, se a eleição e a reeleição de Obama à presidência dos EUA trouxeram poucos ganhos políticos materiais tangíveis para a América Negra (cuja situação econômica já terrível deteriorou-se significativamente durante o tempo de Obama na presidência), também é verdade que foram como o último prego no esquife da dura relutância de muitos brancos para reconhecer que o racismo ainda fundamente incorporado na nação, nem por isso continua a ser barreira intransponível para o progresso dos negros e para a igualdade nos EUA. "Você está brincando comigo?!"

Ouvi incontáveis brancos dizerem "elegemos um presidente negro! Pare de falar de racismo!" Não importa o quão profundamente persista a desigualdade racial e a opressão, no fundo no mercado de trabalho e da moradia nos EUA, no sistema de crédito e investimento, no sistema judiciário civil e criminal, nas polícias militares e estaduais, e nos sistemas educacional e midiático – e a obcecada tenacidade do preconceito racial pessoal e cultural em parte considerável da população branca. Nesse e em outros sentidos, a tragédia dos anos Obama foi ainda maior para os que mal sobrevivem no mais baixo degrau social dos fundões econômicos.

King x Obama

Se pudesse fazer mais uma pergunta a Garrow, além de por que meu estudo caprichado, bem pesquisado e fartamente anotado sobre (e, também, grito de alerta da Esquerda contra) Obama, "estrela em ascensão" (Barack Obama and the Future of American Politics [Paradigm-Routledge, 2008]) é tão ostensivamente ausente de sua bibliografia e notas, perguntaria o seguinte:

– O que, na opinião de Garrow, pensaria o Dr. Martin Luther King. Jr. – tema de outra biografia épica do mesmo autor –, e o qual polidamente recusou os esforços de progressistas para apontá-lo como candidato à presidência (e cujo busto lá esteve às costas de Obama no Salão Oval) – da carreira do novo biografado de Garrow, Barack Obama?

Como Garrow sabe, nos seus últimos anos King passou a investir eloquentemente contra o que chamou de "os três males inter-relacionados", essencialmente capitalismo, racismo e militarismo-imperialismo. King foi martirizado já convencido de que as verdadeiras falhas na vida norte-americana jazem nem tanto nos "homens", mas, muito mais nas instituições e estruturas sociais opressivas que regem acima dos homens. Escreveu que "a reconstrução radical da própria sociedade" era "a verdadeira questão a ser encarada", muito acima de questões "superficiais". Claro que não teria interesse algum em concorrer à Casa Branca!

Obama escolheu trilha muito diferente, que o pôs a serviço de seu próprio ego narcisista e a serviço de cada um dos "três males" (além de vários outros), os mesmos que King combateu até o sacrifício da própria vida.

O contraste Obama-King persiste nos anos de pós-presidência de Obama. Como Garrow mostrou em Bearing the Cross: Martin Luther King. Jr. and the Southern Christian Leadership Conference (William Morrow, 1986), o grande líder dos Direitos Civis e socialista democrata Dr. King recusou-se firmemente a fazer da própria popularidade meio de vida. Obama, ao contrário, agora que está fora da Casa Branca, não faz outra coisa que não seja procurar converter em dinheiro o próprio nome. Está arrancando milhões da indústria editorial e de Wall Street e está de volta à velha vida de bajulador de ricos e famosos.

Se tivesse sido abençoado com a longevidade, o Reverendo teria hoje 88 anos. Duvido que estivesse hoje muito satisfeito com a vida e a carreira do primeiro presidente tecnicamente negro dos EUA.*****


* Epígrafe acrescentada pelos tradutores. As traduções literárias desse poema ao português oscilam entre "homens ocos" e "homens vazios" [NTs].



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