quinta-feira, 8 de junho de 2017

8/6 - Política da esperança

FONTE:Tarso Genro <tarso@portoweb.com.br>


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Um congresso para Baldi: política da esperança

Não sei porque cargas d’água acordei neste domingo chuvoso, com um verso melancólico de Juan Gelman, na cabeça, que finaliza seu poema “Presença do Outono”: “É ele em mim, seu invento. Um lento assassinato de ternura”. Fui olhar as informações nas redes e, mais além dos ódios semeados e dos recalques em série, que transfiguram uma sociedade doente e triste, lá estavam algumas informações importantes sobre o mundo e o país. Lê-las é uma necessidade premida pelo desgosto.
Duplo Onetti
Um voo matinal do pensamento, porém, é sempre mais limpo e fresco. Ele pode tomar o que é informado e arriscar a imaginação, como no percurso de uma águia no azul da manhã, sem qualquer compromisso coerente com a natureza do dia. Mas esta manhã é cinza e autoritária na sua feiura. Deixo a águia no seu passeio irreal e me vem, como um clarão, à cabeça, um conto de Juan Carlos Onetti. Foi escrito em 1936, traduzido por alguns como “O Possível Baldi” e por outros tradutores como “O incrível Baldi.”  O conto traz um pensamento mais próximo da ferrugem melancólica do dia, que não permite um escapismo que se curva, como a águia, a um roteiro determinado pelo impulso.
Baldi é um advogado bem sucedido, sentimental e profissionalmente, que livra -creio que no centro de Montevidéo- uma belíssima mulher de uma companhia forçada e inoportuna, o que cria entre os dois uma súbita intimidade. A relação entre ambos rapidamente fica envolvida numa misteriosa identificação, só possível entre pessoas que não se conhecem e a mulher pede, então, a Baldi que narre a ela a sua história pessoal. De súbito Baldi coloca-se perante a sua própria mediocridade, ritmada pela monotonia e pelo tédio de uma boa vida sem sentido.
Então Baldi fala de si, narrando incríveis aventuras, riscos, crueldades, emoções sem limites, tudo distante da sua vida real nos quais os dias se repetiam sem criatividade e fortes emoções. Baldi chega asseverar que parte da sua fortuna vem da incrível aventura de ter sido caçador de escravos negros, na longínqua África, onde certamente enfrentara terríveis perigos e se portara com valentia e determinação. A narrativa de Baldi foi uma rebelião contra moralidade que cimenta as relações do cotidiano -uma revolta escolhida- mas que resvala perigosamente  para imaginar um passado sem quaisquer limites éticos: busca obter certos fins compensatórios imaginários para proteger sua personalidade de homem médio assediado pela ironia da rotina.
Não sei o que acontece nesta manhã, que escolho para escrever um dos meus artigos de fim-de-semana, tão cartesianos e não raro “chatos”. Não consigo por ordem no raciocínio e vou deixando me levar por imagens, cujas conexões só consigo estabelecer por invisíveis fios da memória. Agora, por exemplo, está na minha frente o rosto de um querido amigo espanhol, Joseph Borrel, hoje com 70 anos, Presidente do Parlamento Europeu, entre julho de 2004 e  janeiro de 2007, ex-Ministro da Fazenda de Felipe González, dirigente do Partido Socialista Obrero Espanhol (PSOE). Consagrado como candidato dos socialistas à Presidência de Governo em 1999, renuncia a esta condição em 2003, quando tinha excelentes oportunidades de se tornar o líder político mais importante da centro-esquerda européia.
O que me trouxe Borrel à mente foi – agora entendo – um debate na Fundação Alternativas sobre os rumos da esquerda, que tivemos no ano que passou em Madrid, o qual ele prestigiou com sua presença e suas opiniões maduras sobre a crise das esquerdas na Europa. O mesmo homem que nos debates internos do PSOE, que foi ao centro e não mais voltou  à social-democracia combativa contra os “ajustes” do Banco Central Europeu, e que sustentou – sem sair do PSOE – a necessidade de considerar uma aliança com o Podemos, que já teve 5 milhões de votos! Pela esquerda.
Na base desta concepção de renovação das alianças está a humildade de reconhecer que ninguém mais monopoliza a legitimidade da representação da esquerda e que é preciso refundar a própria ideia de Unidade Popular, para se opor ao dragão neoliberal. Trazer o centro, para a centro-esquerda, não acompanhar o centro em direção à direita, como o PT fez, aqui, no segundo governo Dilma, com todas as consequências que conhecemos, posição sustentada com legitimidade, mas ao meu ver errada, pela nossa maioria partidária.
Em fevereiro de 2003, fica à descoberto que dois auxiliares de primeira linha de Borrel na sua gestão no Ministério da Fazenda, Ernesto Aguiar e José Maria Nuguet, estavam sendo investigados por fraude fiscal, quando da sua passagem pelo Ministério da Fazenda. Mesmo sem ter qualquer envolvimento nos possíveis delitos, Borrel renuncia a sua condição de líder máximo do PSOE, aduzindo que, embora não tivesse responsabilidade no caso e tivesse cumprido rigorosamente as leis, “o cumprimento estrito da legalidade não basta”. Em 2004, José Luis Zapatero, do PSOE, é eleito Presidente de Governo, obviamente protegido pela corajosa postura de Borrel, que fez da sua renúncia um ato de repúdio à corrupção, em tese, sem inculpar ou atacar qualquer companheiro antes que a Justiça pronunciasse o seu veredito soberano.
Agora entendo porque Borrel apareceu na minha memória, com a sua cara simpática e austera nesta manhã, que Gelman designaria como um “lento assassinato de ternura”: cheguei a assumir a ingenuidade que a nossa maioria partidária pudesse ceder – no Congresso que encerrou ontem – a hegemonia sobre a nossa direção, para proteger politicamente a candidatura Lula, assediada por inquéritos fantasmas e processos judiciais sem provas.
Daí a minha linha imaginária, que se firma nesta manhã outonal: sempre soube que a política não é, efetivamente um exercício de ternura como pensou Juan Gelman sobre o outono, mas não precisaria estar mais próxima das fantasias de Baldi, que deletam a sua vida burocrática e se socorrem da reconstrução ficta da história, para legitimar sua presença no mundo. Eric Nepomuceno, outro amigo que traceja esta manhã, envolto no fumo dos seus cigarros em sequência, falando de Gelman diz “que também os poetas necessitam ter esperanças”. Nós também, os que perdemos toda a poesia não podemos perder a esperança.
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Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.

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