quinta-feira, 8 de junho de 2017

8/6 - Blog " DE CANHOTA " DE HOJE

De Canhota


Posted: 08 Jun 2017 08:00 AM PDT
Publicado originalmente no Outras Palavras.


A crise do governo Temer ocasionada pela delação dos proprietários da JBS promoveu uma atualização da tática golpista. O ponto final para Temer é uma tentativa de continuidade para o golpe.

Postulado 1 – Contradição entre interesse particular e o geral


Os interesses de uma classe não correspondem a um programa acordado a priori entre todos os indivíduos que a compõem. No mundo real, os indivíduos agem a partir de seus interesses, das avaliações que fazem sobre as situações que lhes são impostas, e cada uma destas ações é limitada pelo universo cognitivo do mesmo, além, é claro, da força que dispõe para atuar e viabilizar seus objetivos.

Mesmo sendo ambas verdadeiras, é pela mediação analítica dos objetivos de setores, grupos e indivíduos (concreto – particular) e dos interesses de classe (abstrato – genérico) que se podem procurar explicar os acontecimentos de uma conjuntura específica. Assim, a ação de um sujeito pode comprometer o interesse da classe à qual pertence, ou, ao contrário, salvá-la da própria miopia em relação aos fatos que ameaçam sua própria reprodução.

Postulado 2 – O imponderável existe


Se for verdade que os sujeitos (atores) de um determinado jogo social procuram agir de maneira consciente no sentido de alcançar seus objetivos, é também verdadeiro que outros atores (aliados e adversários) tentam fazer o mesmo.

A ação de um ator pode constranger os planos de outros, criando uma situação diferente daquela desejada por amplos. Quanto maior o número de atores envolvidos em um jogo, maior probabilidade do imponderável, isso porque as variáveis em operação na situação escapam ao controle dos sujeitos envolvidos, muitas vezes não são previsíveis, ou quando previsíveis não são domesticáveis.

Não é possível conhecer todas as consequências de uma ação, a porção conhecida é proporcional (ou quase) ao conjunto de informações de que dispõe o ator, bem como sua capacidade cognitiva (proveniente da experiência, da pesquisa, etc.) em transformar informações em conhecimentos, e conhecimentos em atos.

Entre a vontade dos atores de atingir seus objetivos e o volume de variáveis por eles desconhecidas surge o espaço para o imponderável.

Por que deram o golpe mesmo?


Para conhecer o que está em jogo hoje é preciso retomar as análises do desencadeamento do golpe e assim identificar o que há de novo na situação presente, ou seja, qual é a novidade conjuntural.

É necessário resgatar que o golpe é, antes de tudo, uma confluência de interesses. No nível de mando mais alto encontram-se os interesses das grandes petroleiras e conglomerados financeiros internacionais, que usaram o seu principal mecanismo de operação, o Departamento de Estado dos EUA, que também possui interesses próprios com a desestabilização do Brasil, para desencadearem a trama do golpista. Em resumo, neste momento havia dois objetivos fundamentais.

Objetivo do cartel das grandes petroleiras internacionais – Controlar o principal recurso estratégico brasileiro, o petróleo do Pré-Sal, mas também a tecnologia desenvolvida pela Petrobras. (Objetivo 1) 
Objetivo do Departamento de Estado dos EUA – Inviabilizar a reivindicação de um lugar menos submisso do país nas relações internacionais (derrotar o Brics), por meio da implosão dos seus patrocinadores no Brasil. (Objetivo 2)

A partir de 2014, com a reeleição de Dilma, colocou-se, aos atores externos, a necessidade de uma abordagem mais truculenta. Daí iniciou-se o processo de desestabilização e impeachment. Para viabilizá-lo foi necessário decompor não apenas a base parlamentar da presidente, mas ainda retirar o apoio (em alguns casos, a tolerância) que a mesma tinha nas próprias elites (bancos, empreiteiras, agronegócio, etc.).

Para garantir a aliança entre a Casa Branca e a Casa Grande foi necessário ainda agregar, aos dois primeiros objetivos, aqueles que correspondem aos interesses imediatos dos capitalistas brasileiros, que já estavam explícitos na agenda parlamentar das grandes confederações patronais (CNI, Febraban, Fiesp, CNA, etc.) e que ganharam sistematização no documento do PMDB, denominado “Ponte para o Futuro”.

Objetivo dos bancos – Garantir o aumento da renda da especulação financeira via dívida pública e financeirização de serviços públicos (ex.: congelamento dos gastos públicos por 20 anos, proposta de destruição da previdência pública, etc.). (Objetivo 3) 
Objetivo do empresariado – eliminar os direitos trabalhistas e ampliar a subordinação do trabalhador perante o empregador (ex.: Proposta de reforma trabalhista, terceirização irrestrita, alteração das normas de demarcação de terras indígenas, etc.) (Objetivo 4) 
Objetivo dos partidos políticos conservadores – Ampliar privilégios, desequilibrar as condições de disputa eleitoral ao seu favor, proteger-se contra ações criminais (Ex.: Escola Sem Partido, alteração do sistema eleitoral, etc.). (Objetivo 5)

O golpe é, portanto, a convergência destes interesses, que para materializar-se necessitariam eliminar um centro político-econômico condicionador formado pelo PT e a fração do empresariado beneficiária das medidas anticíclicas e das políticas de formação de players mundiais sustentada pelo financiamento do Bndes. Neste rol encontram-se as grandes construtoras, com a Odebrecht, que se capitalizaram com o Plano de Aceleração do Crescimento /PAC.

Para executar o golpe, foi necessário:

  1. Decompor a viabilidade política do PT e de Lula.
  2. Enfraquecer as chamadas empresas (“players”) mundiais explorando o sistema de corrupção intrínseco às atividades capitalistas, que não é uma exclusividade brasileira.
  3. Realizar ataques coordenados, maciços e rápidos aos direitos do povo na perspectiva de dificultar a capacidade de reação e unidade das organizações populares.


Em síntese, a tática empreendida foi romper a relação de colaboração entre o PT e as grandes empreiteiras. Os instrumentos utilizados foram delações e acordos de leniência; e explorar as divergências de posição das organizações populares e sindicais em relação ao PT, isolando-o ainda mais dos setores populares. Como instrumento, foi montado o espetáculo do combate à corrupção (sem necessariamente combatê-la de maneira objetiva, uma vez que as investigações foram seletivas).

O Juiz Sérgio Moro e setores MPF (como aquele procurador do PowerPoint) são agentes (operadores) desta tática e são orientados no exterior (vide as intensas viagens do Juiz e dos membros do MP aos EUA).

A tática deu certo até certo ponto.

Entre o golpe desejado e o golpe possível


Algumas novidades da conjuntura mudaram substancialmente o curso dos acontecimentos em relação à Lava-Jato e à condição de Temer. Para perceber isso é necessário passar em revista os objetivos iniciais da trama do golpe.

Crise de orientação externa da Lava-Jato


Os atores externos (Petroleiras e Departamento de Estado do EUA) atingiram parcialmente seus objetivos.

Foi aprovado o projeto de autoria do Senador José Serra, hoje Lei 13365/2016, que retirou a garantia legal da Petrobras em participar em pelo menos 30% de cada jazida do pré-sal, além da operação exclusiva dos recursos provenientes destas reservas. A Petrobras, sob a direção do golpista Pedro Parente, segue vendendo jazidas de petróleo e gás por todo o país, garantido os interesses internacionais sobre estes recursos. A privatização da empresa está sendo feita por meio da desconstrução de sua viabilidade a logo prazo, assim o cartel das petroleiras internacionais garante boa parte do seu objetivo inicial.

Com o governo Temer, e sob a condução também de José Serra nas Relações Exteriores, o Brasil afastou-se do Brics e está isolado nas relações internacionais (exceto em relação a Washington). Enquanto ministro, José Serra sinalizou o interesse em ingressar nas negociações do TISA (Trade in Services Agreement — Acordo sobre Comércio de Serviços). Nada mais é do que um acordo de “livre” comércio muito mais danoso do que a proposta da ALCA e o Nafta, que visa a “mexicanização” das nações dependentes sob o domínio dos EUA e União Europeia. Os membros dos Brics não estavam dentro destas negociações, pela razão óbvia: o TISA é uma estratégia contra os “emergentes”.

Assim, é possível afirmar que o objetivo da Casa Branca foi parcialmente atingido. Porém, outra novidade neste tema é a entrada de Donald Trumph no Salão Oval. Mesmo não rompendo com a política externa norte-americana, ele até o momento concentra-se em outra agenda, a da sua própria viabilidade política. O que deixa, em alguma medida, acéfala a orientação externa da Lava-Jato, largando Sérgio Moro sem direção, agindo por conta própria, ou quase.

Os “de baixo” bloqueiam a agenda do golpe


Restam ainda os objetivos da Casa Grande brasileira (renda, privilégios econômicos e políticos, redução de direitos), que não foram contemplados conforme o prometido pelo governo de Temer.

Os bancos conquistaram uma grande vitória na PEC de Congelamento de Gastos (PEC do Fim do Mundo), mas a proposta de “Reforma” da Previdência está sob sério risco. O empresariado exige a “Reforma” Trabalhista, que também recebeu forte resistência da maioria da população brasileira. Os partidos conservadores, envolvidos nos escândalos de corrupção e desgastando-se a cada dia para viabilizar a agenda golpista fortemente antipopular, não conseguiram garantir as condições para uma contrarreforma política conservadora.

Enquanto isso, as organizações populares e sindicais acertavam uma linha mínima de resistência e uma forma básica de trabalho, que lhes garantiu ampliar significativamente o custo da aprovação das reformas. A Greve Geral do dia 28 de abril foi a expressão desse processo de unidade na ação.

Diante do bloqueio da agenda legislativa do golpe, o único fator que mantinha a sustentação de Temer em seu posto foi corrompido. O presidente do golpe encontra-se sem valor de uso e sem valor de troca, ou seja, é uma “coisa” a ser descartada caso não disponha de nenhum recurso de chantagem, como aqueles utilizados por Eduardo Cunha.

A alta probabilidade do imponderável


A Operação Lava-Jato de Moro (1ª instância) — seletiva em suas investigações — não tem controle sobre todos os campos de disputa que inaugurou. A delação dos donos da JBS foi produto da ação de outro centro de atores, o da Lava-Jato DF, operada por Rodrigo Janot (PGR) e pelo Ministro Edson Fachin (Relator da Lava-Jato no STF), que procuram reestabelecer uma “hierarquia” no Judiciário, e assumir o protagonismo na condução da operação, na tentativa de alcançar os objetivos constrangidos pela condução em primeira instância.

A lógica de Moro, ao eleger Lula como seu antagonista ao preço de colocar em questão a própria operação Lava-Jato, desagradou parcelas do consórcio golpista, mais fundamentadas pelos resultados de suas ações do que pelas preferências políticas e rancores. Moro não é mais útil, ou não na mesma proporção que antes, porque já está passando a arrombar portas abertas, e suas ações não correspondem mais aos objetivos já indicados. A condução de Curitiba protegia Temer e o PSDB, mas o que vale isso se os interesses materiais que estes agentes deveriam viabilizar não estão sendo encaminhados?

O elemento chave da atual crise do governo Temer não é a delação dos donos da J&B, mas a incapacidade da presidência e seus aliados tucanos em dirigir a aprovação das reformas. Isso se deve especialmente à resistência do povo nas ruas, que tem tido impacto no cenário parlamentar. Como não consegue aprovar as reformas, a Casa Grande deseja descartar o presidente e conduzir ao Palácio do Planalto alguém que tenha condições de continuar o trabalho.

Janot e Fachin assumem a condução da Lava-Jato neste momento, no sentido de fazer aquilo que Moro não quer e o que Temer não pode: dar continuidade à agenda das reformas. As delações dos “Irmãos Friboi” (Joesley e Wesley Batista) foram uma oportunidade para superar a tática já desgastada de Curitiba, e recompor o mínimo de legitimidade para que o espetáculo da Lava-Jato continue. Por isso a Globo cria as condições para a queda de Temer, Aécio e companhia, justamente para limpar o campo obstruído de interesses menores e viabilizar uma sucessão útil às metas do setor bancário e empresarial, mesmo que para isso tenha de destruir políticos conservadores (o elo mais fraco da trama do golpe), ou seja, não viabilizar “Objetivo 5” de nossa lista acima.

A confusão sobre qual caminho tomar na sucessão é justificável. O consórcio golpista não tem um estado-maior, mas uma correlação de força entre diferentes centros de decisão que perseguem metas próprias e agem frente às oportunidades e ameaças com as quais se deparam.

Voltando aos postulados iniciais, é na contradição entre os interesses particulares e o geral que a política real se processa. As elites se reproduzem principalmente pela competição, e a cooperação surge sempre no marco de um interesse competitivo. As delações e acordos de leniência deram segurança jurídica para a traição, já impressa nos costumes do andar de cima. A rasteira ganhou acabamento legal. Os açougueiros, que se tornaram banqueiros, não deixarão ninguém de pé, desde que seus vistos estejam garantidos para um destino acima da Linha do Equador. O capitalista particular pode provocar o apocalipse de sua classe em troca da salvação privada de seus bens, os donos da JBS não são exceção.

Se a traição é um modus operandi dos capitalistas, que se intensifica em períodos de crise, o espaço para o imponderável se amplia, as consequências de cada ação não são conhecidas completamente por quem a executa. Este é um retrato do Brasil atual, no qual ninguém do espectro político tradicional, com algum nível de bom-senso, pode afirmar com certeza que estará livre nas próximas 24 horas.

Por mais imprevisível que seja a situação, não se trata do caos, mas, antes de tudo, da convulsão do mundo real, sempre indiferente aos nossos esforços de compreendê-lo.


Pedro Otoni é cientista político e educador popular.
Posted: 08 Jun 2017 06:30 AM PDT
Publicado originalmente no Outras Palavras.


Últimas pesquisas revelam: líder trabalhista, claramente identificado com esquerda e nova cultura política, está a um passo de vencer eleições. Repercussão internacional seria imensa

Uma sondagem eleitoral divulgada esta manhã (6/6), em Londres, voltou a sobressaltar os conservadores – e a mostrar que continua aberta, em meio à crise global, a porta para uma alternativa de esquerda renovada. O Partido Trabalhista ampliou seu avanço notável, e está agora apenas 1,1 ponto percentual atrás dos Conservadores, na disputa das eleições parlamentares marcadas para esta quinta (8/6). O movimento é surpreendente por três motivos. Uma vitória trabalhista era considerada sonho lunático há apenas seis semanas, quando a primeira-ministra Theresa May convocou o pleito antecipado. A campanha trabalhista, liderada por Jeremy Corbyn, propõe uma reviravolta completa nas políticas de “austeridade” praticadas na Europa e em quase todo o Ocidente. Além disso, inclui um forte aspecto de nova cultura política: é fruto de uma rebelião das bases trabalhistas contra a política de conciliação e de alinhamento com os EUA, adotada pelo partido há pelo menos quatro décadas.

Com 68 anos, Corbyn percorreu uma trajetória semelhante à do norte-americano Bernie Sanders, que quase chegou a ser indicado candidato do Partido Democrata à Casa Branca, em 2016. Militante do Partido Trabalhista desde os 16 anos, foi um jornalista e organizador sindical ligado às alas à esquerda do partido por muitos anos. Em 1983, elegeu-se membro do Parlamento. Mas manteve-se em oposição à maioria trabalhista acomodada – em especial durante o governo de Tony Blair, que consolidou a adesão do partido às políticas neoliberais. Corbyn otou contra a orientação das direções 428 vezes. Defendeu, em especial, a garantia dos serviços públicos e uma política de paz – nos tempos em que, sob Blair, a Inglaterra era aliada principal de Washington nas guerras contra o Afeganistão e Iraque.

Em maio de 2015, uma derrota eleitoral devastadora provocou a renúncia da liderança trabalhista – que, segundo as regras do partido, é escolhida pelo voto direto dos militantes. Corbyn lançou-se à disputa como um azarão completo, quase sem conseguir o número de assinaturas de parlamentares necessárias para o registro. Mas deixou claro que era o único a concorrer “com uma plataforma anti-austeridade clara” e que seu gesto destinava-se a “dar voz à militância calada”.

Em apenas três meses, sua campanha sacudiu o partido e revelou que havia espaço para desafiar uma orientação imposta de cima e considerada inabalável. Corbyn foi eleito em primeiro turno, com 59,5% dos votos. Conseguiu-o graças à imensa adesão dos eleitores jovens – muitos dos quais aderiram aos trabalhistas especialmente para apoiá-lo. Parecia surgir uma outra via para reconstituir uma esquerda autêntica. Se em países como a Espanha o caminho eram partidos-movimento, como o Podemos, na Inglaterra a renovação surgia virando do avesso o próprio partido tradicional.

A velha estrutura partidária jamais aceitou Corbyn – os parlamentares do partido e a mídia, menos ainda. Sua liderança foi constantemente desafiada por deputados. Sua orientação era vista pelos jornais – tanto, The Economist, abertamente neoliberal, quanto The Guardian, que dialoga com a esquerda – como fadada a provocar o fracasso dos trabalhistas. Em junho de 2016, menos de um ano depois de eleito, Corbyn sofreu voto de desconfiança dos parlamentares do partido. Perdeu por arrasadores 172 x 40. Mas apelou de novo às bases e foi reconduzido ao posto com votação ainda maior: 61,8% de uma militância que se recusava a obedecer a burocracia partidária.

No último 19 de abril, quando Theresa May convocou eleições gerais, a expectativa era de que os trabalhistas sofressem uma derrota esmagadora, e de que o incômodo Corbyn fosse forçado à renúncia. Ele mais uma vez apostou no debate e na relação direta com o eleitorado. Ao contrário de May, encastelada em Londres, lançou-se pelo país, num ônibus estampado com o slogan de sua campanha: “Para muito, não para poucos” [“For the main, not for the few”]. Propõe a revitalização dos serviços públicos, cuja excelência marcou o Estado de Bem-Estar Social inglês no pós-guerra, mas que foram depredados ao longo de sucessivos governos conservadores e trabalhistas, nas últimas décadas.

Afirma, sem medo de desafiar dogmas, que os recursos virão de mais impostos sobre os ricos, as grandes empresas e as transações financeiras. Quer reestatizar as ferrovias, o abastecimento de agua e os correios – cujos serviços deterioraram gravemente, após a privatização. Compromete-se a nomear um cabinete em que metade dos ministros sejam mulheres. Propõe abolir as (caríssimas) mensalidades universitárias, instituídas e elevadas nos últimos anos. Para simbolizar a defesa do trabalho, frente ao capital, sugere criar quatro novos feriados nacionais. Defende a revisão da política externa, com o fim do alinhamento automático a Washignton.

Um sinal simbólico de seu crescimento, nas últimas semanas, pode ser a notável mudança de orientação do Guardian. Ainda em março, o diário londrino escrevia em editorial que o partido estava ameaçado de reduzir-se à irrelevância – e que a única forma de evitá-la era a remoção de Corbyn da liderança. Em maio, a atitude começava a mudar. Na última sexta-feira, sinais de rendição: “O líder trabalhista fez uma boa campanha. Foi enérgico e efetivo. Sente-se confortável em sua pele e na presença de outros. Ele claramente gosta das pessoas e está interessado nelas. Gerou um senso incomum de que é possível; mais uma vez, as pessoas interessam-se pela política (…) Em 8 de Junho, ele merece nosso voto”.

O avanço de Corbyn rumo ao governo de um país crucial, geopolítica e simbolicamente, parecia inevitável até os atentatos em Londres, no último sábado. Diante de uma ameaça concreta, os eleitores tendem ao conservadorismo. Mas tudo permanece incerto, porque também em relação a estes fatos o velho trabalhista foi feliz. Lembrou que os cortes de Theresa May nos serviços públicos, feitos para agradar a aristocracia financeira, resultaram também (ao contrário do que ocorre no Brasil…) em redução do efetivo policial. E ressaltou que a política externa de May prioriza (inclusive com venda maciça de armas) países como a Arábia Saudita – claramente, a inspiração maior do terror fundamentalista islâmico.

Tudo é incerto agora, nas eleições do Reino Unido. Mas a campanha admirável de Corbyn revela: por diferentes caminhos está surgindo, em todo o mundo, espaço para uma nova esquerda. Seria diferente no Brasil?


Antonio Martins é Editor do Outras Palavras.
Posted: 08 Jun 2017 05:30 AM PDT
Publicado originalmente no Brasil Debate.


O projeto de lei aprovado na Câmara dos Deputados promove uma devastação dos direitos trabalhistas, individuais e coletivos. Em apenas duas semanas, os deputados rasgaram o projeto encaminhado pelo poder Executivo e fizeram uma radical mudança no sistema de relações de trabalho, sem qualquer discussão com a sociedade. Alteraram, com a proposta, os instrumentos e regras que regem as relações sociais de produção e a distribuição econômica, construídos em um século de luta social e política.

As mudanças propostas atingem o papel dos sindicatos e a relação deles com os trabalhadores, o processo negocial, os limites do negociado e a relação com a legislação, o conteúdo dos direitos, o papel da justiça. O objetivo é dar ampla proteção às empresas, eliminando obstáculos, como o direito definido em Lei, o sindicato e a Justiça do Trabalho.

O movimento sindical já chegou a debater com empresários e governos mudanças nas relações de trabalho no Brasil, tema pouco tratado no Congresso Nacional. Nas discussões, ficou claro que é fundamental avançar em regras que ampliem a representatividade das entidades sindicais, aumentem a participação direta dos trabalhadores desde o local de trabalho, fortaleçam e ampliem o papel das negociações e dos acordos coletivos (local, setorial, nacional), deem maior celeridade, agilidade e segurança às soluções dos conflitos, entre outros aspectos. Diversas propostas debatidas poderiam compor um verdadeiro projeto de modernização.

A propositura que passou na Câmara, no entanto, visa a criar condições institucionais para a redução estrutural do custo do trabalho. Com esse objetivo, quebra os sindicatos, instrumento essencial para a construção dos direitos trabalhistas, proteção dos trabalhadores e promoção de reequilíbrio na correlação de forças entre capital e trabalho.

Inúmeros estudos mostram o papel essencial que os sindicatos tiveram na construção das sociedades modernas, colaborando imensamente para torná-las menos desiguais, com mais direitos sociais e coletivos etc. Há também muitos trabalhos que mostram a rigidez (leia-se proteção) que os sindicatos impõem à queda da taxa de salários.

No Brasil, há atualmente 11.700 sindicatos de trabalhadores, dos quais 8.800 representam os trabalhadores urbanos e 2.900, os rurais. Cerca de 33% estão na região Sudeste, 27% no Nordeste, 23% no Sul, 10% no Centro-Oeste e 7% no Norte. Essas organizações representam cerca de 50 milhões de trabalhadores. Se incluídas a representação patronal e as entidades da estrutura vertical, são cerca de 17 mil entidades, que ocupam aproximadamente 120 mil pessoas.

Esses e outros dados fazem parte da Nota Técnica 177, publicada pelo DIEESE, A importância da organização sindical dos trabalhadores (disponível aqui). O estudo mapeia o conteúdo de mais de 56 mil convenções coletivas e 308 mil acordos coletivos de trabalho celebrados entre 2007 e 2017 e mostra que 93% dos instrumentos tratam de questões salariais, como gratificações, adicionais, auxílios; 89% abordam o contrato coletivo de trabalho (admissão e demissão); 87% referem-se às condições de trabalho, normas de pessoal e estabilidade; 89% regulam a jornada de trabalho (duração, distribuição, controle e faltas); 70% tratam das férias e licenças; 85% regulam questões de saúde e segurança; 92% regulam as relações sindicais, além de definirem regras paras as negociações, solução de conflito, entre outros.

A história mostra o papel e a importância dos sindicatos. A relevância reconhecida dessas entidades fez da organização sindical um direito humano fundamental, normatizado em várias convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Com o projeto aprovado na Câmara, o Brasil se desconecta e se distancia do processo civilizatório e faz um caminho regressivo rumo aos tempos de escravidão.


Clemente Ganz Lúcio é Sociólogo, diretor técnico do DIEESE, membro do CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.
Posted: 07 Jun 2017 05:44 PM PDT
Publicado originalmente no Jornal GGN.


Talvez a pergunta que mais intriga o mundo político brasileiro hoje é por que o Grupo Globo abandonou Michel Temer, levando com ele a coalizão de poder que a própria Globo ajudou a criar ao longo do processo do golpe judicial/parlamentar contra Dilma Rousseff. De fato, trata-se de uma pergunta vital ao entendimento do atual momento da grave crise política, econômica e social por que o país passa hoje, cujos primórdios remontam às manifestações de junho de 2013, e que foi potencializada para além de qualquer controle institucional pela Operação Lava Jato e seus desdobramentos que parecem beirar o infinito.

Mais ainda, a intrigante pergunta, de resposta quase impossível, mas que merece ser tentada, pode ter imbricado tanto os destinos daquela organização de comunicação e de Michel Temer e seu governo que apenas um desses dois conjuntos de personagens centrais da atual cena política brasileira poderá sobreviver: Temer, com a perda da presidência da República; a Globo, com graves prejuízos à sua credibilidade jornalística e possíveis perdas financeiras.

Essa história tem seu início no final da tarde do dia 17 de maio, quando o jornalista Lauro Jardim, principal colunista político de O Globo, tornou pública a delação premiada de Joesley Batista, obtida pela Procuradoria Geral da República e homologada pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no SFT. Jornalisticamente o que se seguiu já está na história da imprensa brasileira e será ainda objeto de muitos estudos e análises, seja pela academia, seja pelo mundo jornalístico: William Bonner, Renata Vasconcelos, Merval Pereira, Renata LoPrete, Cristiana Lobo, Eliane Cantanhede, Gerson Camarotti, Andréia Sadi – só para ficar nesses profissionais do jornalismo televisivo da Globo -, tiveram que ocupar o vídeo atônitos, titubeantes – Bonner chegou a chamar Michel Temer de ex-presidente -, visivelmente desinformados, tentando dar conta de uma história que era de conhecimento há muitos dias de um profissional da empresa em que todos trabalhavam.

É provável que Lauro Jardim não tenha sido o único jornalista a ter conhecimento prévio da delação; é provável que ele, ao aprofundar a investigação sobre o assunto, tenha se valido de mais e melhores fontes no judiciário e no ministério público – mérito dele; é provável que ele tenha adiantado o que tinha para, pelo menos, duas pessoas da empresa para a qual trabalha; é provável que Jardim, por estar na frente de outros, ou outras jornalistas, tenha obtido das suas fontes o compromisso de ser o único a receber cópias das gravações de Batista e de Ricardo Saud comprometendo de uma forma aparentemente inquestionável Michel Temer, Aécio Neves e Rodrigo Rocha Loures; é provável que ele tenha obtido das suas fontes, além do material da delação, a garantia de ser avisado do momento certo para publicá-lo; é provável que a decisão de publicar tenha tido a participação, além das duas pessoas com quem Jardim já conversara em sua empresa, pelo menos mais uma. Tudo isso é provável e, dado o contexto do fazer jornalístico, pode ter acontecido muito provavelmente assim.

Ou, alterando um pouco o cenário, pode ter sido também que Jardim tenha sido a segunda, ou mesmo a terceira pessoa da Globo a saber o que estava prestes a acontecer, recebendo a missão de, com todo o sigilo possível, acompanhar o assunto, até receber o sinal verde de publicá-lo. Afinal, se alguma autoridade pública neste país quiser que alguma coisa repercuta com muito impacto na sociedade, ela sabe que seu caminho será sempre a Globo. E terá sido essa autoridade quem levou o assunto àquela pessoa da Globo que precisaria ser a primeira a saber. A mesma pessoa a quem caberia a responsabilidade última de dizer a Jardim: publique tudo e surpreenda até mesmo seus próprios colegas.

Mas, nada disso responde à pergunta inicial: por que a Globo decidiu abandonar, ou, dito de outra forma, decidiu derrubar Michel Temer.

Em verdade, e aqui vai a resposta prometida acima, a Globo poderia até ter preferido não ter sido a destinatária do furo – fosse pela competência do seu colunista, fosse pela preferência a ela dada pela autoridade que queria vazar a informação -, mas uma vez que o furo chegou até ela, e chegou embasado por evidências já validadas pelo MPL e pelo STF, não seria jamais possível deixar de publicá-lo. Porque se não o fizesse, a autoridade interessada o levaria até outro destinatário, e, aí, os prejuízos seriam possivelmente maiores. O maior deles: tornar-se, mesmo sem querer, fiadora de um governo condenado à desgraça, ou, pior, tornar-se caudatária do furo jornalístico dado por algum dos seus concorrentes.

Diante dessa escolha de Sofia, a Globo jogou Michel Temer às feras da Lava Jato e, ao fazer isso, tornou-se refém da sua própria decisão jornalística: Temer tem que cair.


Murilo César Ramos é Pesquisador do Laboratório de Políticas de Comunicação (LaPCom), Universidade de Brasília.

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