sexta-feira, 14 de julho de 2017

14/7 - Altamiro Borges DE HOJE

Altamiro Borges


Posted: 14 Jul 2017 11:36 AM PDT
Por Felipe Bianchi, no site do Centro de Estudos Barão de Itararé:

A situação na Venezuela é complexa: enquanto o governo de Nicolás Maduro enfrenta dificuldades para superar a crise econômica, política e social que atinge o país, a oposição intensifica o chamado a protestos cada vez mais violentos. O papel jogado pelas corporações midiáticas tem sido crucial para insuflar o ódio e provocar a desinformação sobre o que se passa no país. O assunto foi pauta de debate na sede do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, nesta quinta-feira (13), em São Paulo.

Foto: Nacho Lemus/TeleSur

O diálogo contou com a participação do professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Igor Fuser; de Socorro Gomes, do Conselho Mundial da Paz; e de Paola Estrada, da articulação de movimentos sociais na Aliança Bolivariana das Américas (Alba). Para eles, é fundamental discutir e refletir sobre o tema para além dos mantras repetidos à exaustão pelos grandes grupos de comunicação, que fazem oposição sistemática ao processo de transformações sociais no país desde que Hugo Chávez chegou ao poder, em 1999.

"A Venezuela foi o país que iniciou a série de experiências progressistas no continente a partir de 2000", explica Igor Fuser. "São processos que, aproveitando a conjuntura global, apostaram na soberania regional e na concepção do Estado como agente de inclusão e desenvolvimento. Por isso, se chocam, desde o início, com os interesses das classes dominantes".

A genealogia desse antagonismo, segundo o estudioso, remete à formação da região. "Nossos países nasceram com a função, no sistema capitalista internacional, de fornecer bens primários, matéria-prima. Reverter essa lógica incomoda", opina. "A partir de 2000, começamos um processo coletivo no continente de tentarmos andar com as próprias pernas, em bloco. O império utiliza de todos seus recursos econômicos e ideológicos na contra-ofensiva, em aliança com as elites locais".

Apesar de na Venezuela a dimensão do problema ser maior, a reação da qual fala Fuser não se resume apenas a este país. "A contra-ofensiva imperialista mira destruir partidos e líderes de esquerda em todo o continente. Cristina Kirchner, Fernando Lugo, Manuel Zelaya são tão vítimas desse processo de perseguição e destruição de reputação quanto Lula e Dilma", argumenta. "Não é uma questão de alterância no poder, de disputar eleições democraticamente. Cenário é de destruição da esquerda".

A diferença de gravidade vizinhos para a Venezuela é que, no país de Chávez, as transformações foram mais profundas. "A força do processo venezuelano tem muito a ver com a participação popular e a conscientização sobre os avanços sociais", pontua Fuser, acrescentando que isso radicaliza a polarização. Para ele, o cenário apontado por muitos é de pré-guerra civil - um risco real, em sua avaliação.

Temer joga Brasil na fogueira do conflito

Temos muitos a ver com a Venezuela, na opinião do professor. "O governo de Michel Temer tomou lado na disputa de lá, o lado da direita. Governo golpista brasileiro está a serviço de Capriles, da oposição venezuelana e do imperialismo antichavista", denuncia. Para além de uma questão de preferências ideológicas, Fuser ressalta que guerra civil na Venezuela traria duras consequências para o Brasil, como tráfico de armas e refugiados em massa.

"Temer joga lenha na fogueira da Venezuela, ao invés de agir como mediador, com diálogo democrático", critica Fuser. "O brasileiro que quer uma vida mais justa e igualitária precisa agir, agora, com solidariedade aos nossos irmãos venezuelanos".

Terrorismo midiático gera o caos

Em busca de uma solução pacífica e democrática para a encruzilhada em que está colocado, o governo Maduro agendou para 30 de julho uma Constituinte a fim de delegar ao povo as decisões sobre o destino do país. A escolha da oposição, entretanto, foi de não reconhecer o processo e intensificar as ações de desestabilização e convulsão social. A opção dos setores reacionários, na opinião de Socorro Gomes, é potencializada pelo papel jogado pela mídia.

"A primeira guerra é sempre a midiática. O império age de forma agressiva nesse campo. Fizeram com Chávez e agora fazem com Maduro", afirma. "O império midiático retrata a Venezuela como se sua vontade fosse a vontade de todo o povo venezuelano. São falsos humanistas", assinala. "O caos na Venezuela é insuflado pelos oligopólios comunicacionais, já que o discurso do caos é um atalho para o projeto das elites" - o chavismo coleciona vitórias eleitorais, a despeito da comum acusação de ditadura por parte dos donos da mídia privada.

"A Venezuela apostou no fortalecimento das organizações populares. Esse é o diferencial que sustenta a resistência do processo", avalia Gomes. Uma das maiores reservas de petróleo do mundo ousou romper com os grilhões do império e, com a renda deste recurso, combateu mazelas seculares, como o analfabetismo, a fome e a miséria. À desobediência, soma-se a força da militância na construção do projeto chavista, conforme descreve Gomes. "As missões populares e a participação social na política incomoda muito as elites, turbinando o ódio".

Venezuela, uma inimiga simbólica

Para Paola Estrada, da Alba Movimentos, é fácil entender porque Chávez e Maduro viraram alvo preferencial dos Estados Unidos. "Além da questão do petróleo, a Venezuela teve avanços profundos. Foi Chávez quem resgatou a bandeira do socialismo e o legado de libertadores como Simon Bolívar", sublinha. Além de mudar a relação de suserania e vassalagem, complementa Estrada, a Venezuela também se constitui como inimigo simbólico do imperialismo.

Para explicar o processo de desestabilização do país, Estrada recorre à ideia da guerra não-convencional, também chamada guerra de 4ª geração. O conceito, explica, se ancora na espetacularização midiática e na repetição de ideias e imagens. "A guerra midiática e econômica contra a Venezuela é muito bem articulada, criando consensos, pela repetição, contra líderes e referências da esquerda", diz.

Nesse expediente, um dos argumentos preferidos das corporações midiáticas é de que os governos progressistas levam os países à falência. "Vivemos isso no Brasil", lembra Estrada. "O terrorismo midiático foca na inflação, mas não explica que, no caso venezuelano, se trata de uma inflação induzida", rebate. "Falam muito em desabastecimento, que é real. Mas não falam que lá se passa algo muito similar ao que ocorre em Cuba: há um bloqueio. Os produtos não chegam".

A insistência na tese de que os governos chavistas não respeitam direitos humanos, enquanto as manifestações violentas - as chamadas "guarimbas" - corróem a sociedade venezuelana é outra falácia, na opinião de Estrada, causando confusão em setores da própria esquerda latino-americana. "A intensidade da ofensiva midiática contra a Venezuela e Nicolás Maduro é inédita, pois está sendo massificada", alerta.

Longe de negar a gravidade da crise econômica, Estrada busca lançar outras perspectivas sobre as dificuldades enfrentadas pelo país para desmitificar a versão única da mídia. "Não se pode negar que há uma grave crise na Venezuela, mas não podemos nos basear nos marcos daqui", defende. "O metrô em Caracas custa menos de cinco centavos, o analfabetismo foi extinto e o acesso ao ensino superior disparou, o que significa que a economia venezuelana está assentada sobre outra lógica. É preciso relativizar para entender como a crise afeta o povo".

Quanto à Constituinte, Estrada lamenta a narrativa enviesada que predomina sobre o assunto. "A polêmica em torno da Assembleia esconde fraudes e tentativas de destituição forçada contra Maduro", frisa. A situação levou a quase cem mortos em cem dias, em manifestações repletas de "violência fascista". O governo chegou a lançar, recentemente, uma Comissão Nacional da Verdade para apurar crimes decorridos das "guarimbas".

A Constituinte, na ótica de Estrada, visa aprofundar a democracia direta como forma de debater e solucionar os problemas colocados. "O mês de julho será decisivo para o processo na Venezuela. São mais de seis mil candidatos a deputados constituintes, sendo que um já foi assassinado". O esforço dos movimentos sociais e das mídias contra-hegemônicas brasileiros, de acordo com Estrada, tem de ser de fomentar esse debate e oferecer outros pontos de vista sobre o processo, que vive momentos decisivos.

Assista à íntegra da transmissão realizada pela Fundação Perseu Abramo [aqui].
Posted: 14 Jul 2017 09:10 AM PDT
Por Kiko Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

Assim como fez com Sergio Moro, seu torquemada de casa, a Globo está cuidando agora de domesticar e pressionar o Tribunal Regional da 4ª Região (Sul) no sentido de terminar o serviço contra Lula.

O Jornal Nacional dedicou boa parte de sua edição de quinta, dia 13 de julho, para explicar como opera o tribunal que pode tornar Lula inelegível.

A matéria era parte didatismo, parte wishful thinking. No subtexto, o repórter falava ao espectador “se Deus quiser, o destino do vagabundo será selado por estes guerreiros”.

Imagens do interior daquela corte e closes dos desembargadores João Pedro Gebran, Leonardo Paulsen e Victor Luiz Laus ilustravam a trama.

Num determinado momento, entrou ele, Carlos Eduardo Thompson, presidente do TRF-4, asseado, um retrato em aquarela ao fundo de algum medalhão, o cabelo emplastrado de brilhantina, fino, elegante, enquadrado com carinho pela câmera, declarando o que a emissora queria ouvir: até agosto de 2018, antes da eleição, o processo em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado a nove anos e seis meses de cadeia estará julgado em segunda instância.

A pedidos, Thompson foi além: deu sua opinião sobre a sentença do Homem de Maringá. “Olha! Muito bem trabalhada!”, cravou, a mão direita reforçando o ponto. Ironizou em seguida o fato de Lula ter criticado a ação.

Ou seja, tudo no script.

Daqui em diante, Thompson e seus amigos serão presença constante em todos os veículos do grupo. Será convidado dos programas de entrevistas (o de Roberto D’ávila é batata; Bial, o cretino fundamental, em seguida).

Eventualmente, ganhará algum prêmio do tipo “Faz Diferença” ou uma patacoada dessas.

Como a Globo pauta o resto da mídia preguiçosa, serão abertas as portas da fama para Thompson e companheiros.

Conheceremos sua casa, seus familiares, seus pets e hobbies - e seu rigor no trabalho, bem como a competência.

A ofensiva sobre eles teve seus preâmbulos. Em junho, Merval Pereira escreveu no Globo que “se a impugnação na segunda instância acontecer depois que sua candidatura [a de Lula] à presidência da República estiver homologada pela convenção do PT, teremos uma crise institucional instalada no país.”

Míriam Leitão, por sua vez, atacou a estratégia lulista baseada “na tese delirante de que ele é um perseguido político”.

“Uma grande parcela do seu eleitorado ele perdeu para sempre. Ele sabe disso, mas o importante para Lula é ser candidato para que quanto mais perto fique do pleito, mais difícil seja para o tribunal de segunda instância condená-lo. É uma corrida contra o tempo, que será atravessada em um período de aumento da tensão política no país”, escreveu.

O recibo da dobradinha com o Judiciário está no texto de Moro condenando Lula.

Na síntese das “provas documentais” de que Lula é dono do triplex do Guarujá está uma reportagem publicada pelo Globo em 2010.

Segundo Sergio Moro, nenhuma das testemunhas, nem o material apresentado pelos advogados ou muito menos o depoimento de Lula jamais conseguiram desmentir aquela reportagem, publicada antes da Lava Jato apurar o caso.

Sim, um recorte velho contém a verdade.

Alguns dos maiores juristas do Brasil criticaram pesadamente as mais de 200 páginas perpetradas por Moro.

Para Afranio Silva Jardim, professor associado de Direito Processual Penal da Uerj, processualista consagrado e ex-mestre de Moro, “Lula foi condenado por receber o que não recebeu e por lavagem de dinheiro que não lhe foi dado”.

O cientista político Leonardo Avritzer chamou a condenação, simplesmente, de “lixo jurídico”.

“Olha! Muito bem trabalhada!”, empolga-se Carlos Eduardo Thompson do seu lado. O sinal está dado.

Das 48 sentenças de Moro revisadas pelo TRF-4, dez foram mantidas, 16 aumentadas, 8 diminuídas e apenas cinco foram revertidas para absolvição.

Para que o roteiro do golpe seja cumprido, teremos de nos acostumar a ver os antes anônimos meritíssimos transformados em popstars. Depois eles somem novamente.

Prepare-se para ter saudade do Japonês da Federal.
Posted: 14 Jul 2017 08:39 AM PDT
Por Tereza Cruvinel, em seu blog:

Temer ganhou na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, derrotando o parecer do relator Sergio Zveiter a favor de que ele seja investigado pelo STF por corrupção passiva à custa de manobras, troca de deputados e distribuição de favores. Mas em agosto, na votação em plenário, a derrota será bem mais provável. No plenário, nenhum deputado poderá ser trocado. Depois, a conjuntura será outra, agravada pelo contato dos parlamentares com suas bases durante o recesso e por mais denúncias contra Temer.

Ate lá, duas outras denúncias por corrupção passiva no exercício do cargo poderão ser apresentadas. E não estou falando das já esperadas denúncias do procurador-geral Rodrigo Janot por obstrução da justiça e formação de organização criminosa. Alguns deputados, ao longo da CCJ, e de forma muita clara, mencionaram esta possibilidade.

- Estão a caminho mais duas denúncias por corrupção passiva. A da Rodrimar, vinculada ao Decreto 9.048/17, baixado por Temer para favorecer a empresa de seus amigos, e a da Argeplan, empresa do coronel Lima – disse em sua intervenção na CCJ o deputado Rubens Pereira Junior (PCdoB).

O caso do Decreto sumiu do noticiário mas apareceu nas gravações de conversas de Rocha Loures com Gustavo Rocha, secretário de assuntos jurídicos. Loures mediou a inclusão de vários pontos no decreto, favorecendo a renovação da concessão portuária da Rodrimar, no porto de Santos. Este caso é mais forte do que o das propinas mediadas pelo coronel Lima, dono da Argeplan, porque envolve um decreto, ou um “ato de ofício”, como se diz no jargão jurídico. Janot estaria preparando também estas denúncias para apresentar em agosto, talvez antes mesmo da votação em plenário do pedido de licença em curso.

A fala de Rubens Pereira Junior tem uma passagem que chega a ser engraçada, embora tenha sido uma das mais consistentes. Ele citou uma passagem do livro “Elementos de Direito Constitucional”, de autoria de Michel Temer. Na publicação, comentando o artigo da Constituição que trata do processo contra o presidente da República, Temer diz que “é certo que há crimes comuns cuja gravidade não deveria ensejar perda do cargo”. E cita crimes leves, como uma infração de trânsito mas defende o procedimento que agora enfrenta, em caso de denúncias por crimes mais graves, inclusive corrupção. “Enquanto doutrinador, Michel Temer escreve que se deve autorizar denúncias. E quando o denunciado é ele, troca deputados na CCJ”.

Uma variável importante da conjuntura de agosto será o comportamento de Rodrigo Maia. Agora, ele fez alguns momentos indicadores de sua ambição pelo cargo mas recuou, criticado por governistas. Entretanto, não atendeu ao apelo de Temer para que atropelasse o regimento e colocasse o pedido de licença em votação antes do recesso. Marcou a votação para 2 de agosto. Durante o recesso ele também ouvirá as bases, os amigos, o pai e outros conselheiros. E pode ser convencido a adotar postura mais ofensiva diante do cavalo que está passando selado em sua frente.
Posted: 14 Jul 2017 08:31 AM PDT
Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:

Os golpistas atentaram contra o país por três vezes em menos de 48 horas.

Na terça-feira, 11 de julho, uma dita “reforma trabalhista” promoveu um ataque inédito aos direitos dos trabalhadores do país, aprovando barbaridades como permissão para que empregadores coloquem mulheres grávidas para trabalhar em ambientes insalubres.

Na quarta-feira, 12 de julho, o juiz Sergio Moro, como estava previsto, condenou o ex-presidente Lula a nove anos de prisão com base, exclusivamente, nas acusações de pessoas que se não tivessem acusado o ex-presidente ficariam presas pelo resto da vida.

Na quinta-feira, 13 de julho, seguindo a regra que vem prevalecendo no país de endurecimento com petistas e amaciamento com golpistas, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados já preparou a cama para Michel Temer se deitar confortavelmente.

A CCJ rejeitou nesta quinta-feira 13 o parecer do relator Sergio Zveiter (PMDB-RJ), que era a favor da autorização de que a denúncia por corrupção contra o presidente Michel Temer possa ser julgada pelo STF.

Assim como havia feito na votação do impeachment na Câmara, o deputado Wladimir Costa (SD-PA) comemorou o resultado soltando confetes. Desta vez, ele gritou repetidamente “fica, Temer”.

A maioria de votos na CCJ foi conseguida após uma intensa troca de membros da comissão por partidos aliados do governo, que substituíram seus representantes em busca de votos favoráveis a Temer. Desta maneira, o governo ganha força política para barrar a denúncia.

A correlação entre os fatos é tediosamente previsível. Tudo faz parte do mesmo golpe.

Os golpistas esfregam as mãos, a mídia comemora, mas eles estão se esquecendo de uma coisa: quem vai decidir tudo é o povo no ano que vem. E o povo não é cego, está vendo tudo que está acontecendo.

Pela lógica golpista, o povo não irá reparar na retirada dos seus direitos, apoiará condenação de Lula por Moro sem provas, passando a repudiar o ex-presidente, e, por fim, conformar-se-á com a impunidade de Temer, contra quem há todas as provas que faltam contra Lula.

Eis por que os golpistas estão comemorando antes da hora. Eles não sabem o que o povo achará disso tudo.

Pesquisa encomendada pelo site Poder 360 afirma que 75% dos eleitores não votará em deputado que ficar a favor de Temer, mas os golpistas não estão dando bola a isso.

Na opinião desta página, o povo brasileiro irá frustrar os golpistas, irá se enfurecer com a reforma trabalhista e enxergará que Lula está sendo perseguido enquanto Aécios e Temers ficam impunes e, assim, o apoio ao ex-presidente irá subir.

A única forma de impedir que tudo isso ocorra será adiando as eleições de 2018. Mas, aí, pelo menos ninguém poderia negar mais que o Brasil vive sob uma ditadura. E as consequências disso, ainda que os golpistas não enxerguem, todos sabemos quão graves seriam.
Posted: 14 Jul 2017 08:25 AM PDT
Por Katia Guimarães, no blog Socialista Morena:

Um dia depois de a condenação de Lula pegar o país de surpresa, o ex-presidente avisou que está no jogo político e vai brigar até o fim por sua inocência e para ser candidato em 2018. “Quem acha que é o fim do Lula vai quebrar a cara porque somente na política quem tem o direito de decretar o meu fim é o povo brasileiro”, afirmou, na sede do PT em São Paulo, em sua primeira declaração após a sentença do juiz Sérgio Moro que pede sua prisão por 9 anos e meio. “Há uma intenção de me tirar do jogo político. Se alguém pensa que com essa sentença me tiraram do jogo podem saber que eu estou no jogo”, completou.

Desde que saiu a sentença do juiz Sérgio Moro, a mídia voltou à carga contra Lula, o mais forte candidato ao Palácio do Planalto segundo as próprias pesquisas patrocinadas pela imprensa comercial. O tom da declaração de Lula caiu como uma luva diante da pesquisa feita pelo site da revista Veja que perguntou: “Na sua opinião, o que o destino reserva ao ex-presidente em 2018?” O tiro saiu pela culatra: nada menos do que 86% disseram “ele será eleito presidente de novo” e apenas 14% disseram “ele será preso”.

Lula apareceu nesta quinta-feira, 13 de julho, na sua melhor versão, bem-humorado e combativo. Chegou a brincar afirmando que Moro o deixou ser candidato em 2036. Disse estar indignado, mas “sem perder a ternura”, e disparou que a sentença de Moro é uma peça política, que o fim do golpe é tirá-lo da disputa eleitoral e voltou a atacar a TV Globo, que dar o golpe novamente e estimula o ódio contra ele e o PT com a repetição de mentiras.

“O ódio está disseminado nesse país. Toda vez que eu falo que a Rede Globo é disseminadora do ódio é porque é só assistir o Jornal Nacional que vocês vão perceber. Espero que aqueles que apresentam o jornal, que fazem o jornal, que apresentam as denúncias falsas, cheguem em casa e olhem para a cara de seu filho para ver se ele compreende o que estão fazendo. Eu não tenho dúvida de que quando estiverem adultos vão cobrar dos pais a quantidade de mentiras que contaram a respeito de uma pessoa que não é honesto por mérito. Sou honesto porque aprendi com uma mulher analfabeta a ser honesto”, disse.

Ao fazer uma análise da perseguição política e jurídica a que está sendo submetido, Lula disse que o golpe que derrubou a presidenta Dilma em 2016 não estava completo. Faltava inviabilizar sua candidatura à Presidência da República. Por isso, para ele, a sentença de Moro tem um “componente político muito forte”. “Quando o processo foi aceito, eu disse olha, tem um jogo a ser jogado nesse país. Não é possível que aqueles que prepararam a mentira do golpe contra a Dilma, que aqueles que preparam o golpe contra as forças democráticas, iriam ficar com os braços cruzados esperando essa gente voltar para o poder em 2018. Eu sempre tive consciência de que eles precisavam da minha condenação para completar o golpe. Se o Lula pudesse ser candidato o golpe não fechava. Qual é a razão de derrubar um governo e dois anos depois, esse governo, esse partido político, juntar as mesmas forças políticas e ganhar as eleições?”, indagou.

Para Lula, a decisão do juiz paranaense já estava fadada a ser o que foi, um jogo combinado com a participação ativa da mídia, a partir da denúncia feita pelo procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, que baseou a sentença de Moro, naquele ridículo powerpoint. Durante todo o processo não importavam as provas apresentadas pela defesa ou o que o ex-presidente afirmou em seu depoimento. “Eu acreditava que ia terminar do jeito que terminou porque era visível que o que menos importava para as pessoas que faziam era o que você falava. Eles já estavam com o processo pronto. Já estavam com a condenação pronta”, acrescentou ao lembrar que o próprio dono da OAS, Leo Pinheiro, admitiu, em depoimento, ter mudado a sua versão sobre a compra do triplex do Guarujá por orientação de seu novo advogado.

A repetição da versão de que ele era o chefe da organização criminosa que levou o PT ao governo para roubar era o gran finale da estratégia para a sua condenação. “Eles diziam que o PT era uma organização criminosa, que o PT se preparou para ganhar o governo, e ganhando o governo para roubar, e o Lula era o chefe. A partir daí eles não precisavam de mais nada, era a teoria do domínio do fato moderna com a palavra ‘contexto’, que o juiz Moro usava muito a palavra ‘contexto’”, afirmou.

Ao criticar o massacre midiático que tem sofrido nos últimos anos, Lula enfatizou que Sérgio Moro não tinha mais como voltar atrás na sua intenção de condená-lo. Isso foi dito pelo próprio Lula em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo no ano passado: “Tornaram-se prisioneiros das mentiras que criaram, na maioria das vezes a partir de reportagens facciosas e mal apuradas. Estão condenados a condenar e devem avaliar que, se não me prenderem, serão eles os desmoralizados perante a opinião pública”. Hoje, ele voltou a lembrar as horas e horas de JN e as capas das revistas semanais que priorizam o ataque a ele e não a outros tantos políticos com provas e provas de corrupções. “O que vocês já falaram até agora, o que a imprensa já me condenou até agora. Só de Jornal Nacional, foram 20 horas. Vocês vejam que os tucanos não aguentaram uma capa da Veja, caíram todos. Eu tenho 50 e não sei quantas capas de revistas, mais as do final de semana, que devem ser todas com a minha cara outra vez. Eu sinto que há uma tentativa de me tirar do jogo político”, acrescentou.

Para Sérgio Moro, Lula mandou um recado ao afirmar que a Justiça não pode mentir e que, assim como ele, o juiz deverá prestar contas para a história. “Nessa crença que eu tenho no estado de direito e na Justiça forte é que a Justiça não pode mentir. Ela não pode tomar decisões políticas, ela tem que tomar decisões baseada nos autos. A única prova que existe nesse processo é a prova da minha inocência”, disse, ao desafiar a imprensa a apresentar uma prova sequer contra ele. “Eu queria desafiar não desafiando que os meus inimigos, sobretudo os donos dos meios de comunicação, fizessem um esforço incomensurável para apresentar uma única prova, um único papel assinado.”

“O que me deixa indignado, mas sem perder a ternura, é você perceber que está sendo vítima de um grupo de pessoas que contaram a primeira mentira e vão passar a vida inteira mentindo para poder justificar a primeira mentira que contaram”, completou, ao ironizar a multa, estipulada na sentença, de 700 mil reais. “Ainda fui multado em 700 mil reais porque agora o tríplex é da União. Eles tomaram o triplex e eu tenho que pagar 700 mil para a Petrobras. Eles podiam me dar o triplex aí eu vendia o triplex pra pagar a multa”, afirmou, provocando risos na plateia.

Lula não vai deixar barato e promete acionar o Conselho Nacional da Justiça (CNJ) pelas arbitrariedades cometidas durante o processo. Vale lembrar que o juiz nem sequer aceitou várias provas e depoimentos que inocentavam Lula. “É preciso fazer um processo contra quem mentir, contra quem não diz a verdade. Cada vez que eu vou prestar um depoimento eu digo: ‘só eu tenho interesse na verdade aqui. Eu quero prestar como testemunha porque eu quero falar a verdade’. Quem queria que eu prestasse como informante não queria que eu falasse a verdade”, acrescentou.

Ao final, o ex-presidente fez críticas à governo Temer pelo desmonte que está sendo promovido no Estado brasileiro e acusou o Rede Globo de querer dar o golpe dentro do golpe, ou seja, de querer tirar Michel Temer e não aceitar eleições diretas. Sabe-se que está em curso a negociata para, caso Temer caia, viabilizar a permanência de Rodrigo Maia à frente do país para dar continuidade às medidas neoliberais. “Eu queria estar aqui discutindo a situação política, econômica do Brasil, o descrédito das instituições desse país, a começar pelo Poder Executivo, discutindo o golpe dentro do golpe. Precisam me explicar por que a Globo quer dar o golpe dentro do golpe”, afirmou ao defender a aprovação da emenda constitucional das eleições diretas.

Ao citar o sepultamento da CLT e de outras políticas públicas, Lula afirmou que a elite brasileira não tem condições de continuar governando o país e que é preciso alguém do povo para fazer o país voltar a crescer. “Senhores da casa grande permitam que alguém da senzala faça o que vocês não têm competência para fazer, permitam que alguém cuide desse povo, porque esse povo não está precisando ser governado pela elite, esse povo está precisando ser governado por alguém que entenda a alma dele, por alguém que sabe o que é a fome, o desemprego, por alguém que sabe o que é a vida dura que leva o povo pobre desse país. Quando esse país não tiver mais jeito, quando os economistas de direita não tiverem mais solução, permitam que a gente coloque o pobre no orçamento outra vez, no mundo do trabalho, o pobre recebendo salário, o pobre recebendo crédito. A gente faz esse país voltar a crescer, faz o povo voltar a sorrir e faz o povo voltar a ter o otimismo que tinha durante todo o tempo que nós governamos.”
Posted: 14 Jul 2017 08:19 AM PDT
Por Bepe Damasco, em seu blog:                                                                                                      

Estou de pleno acordo que a luta de resistência democrática dos dias de hoje deve ter caráter pacífico. Abomino, por exemplo, o quebra-quebra irresponsável de tudo que veem pela frente por parte dos bandos de mascarados sem qualquer compromisso com a pauta de reivindicações dos manifestantes.

Dito isso, é preciso fazer justiça aos lutadores políticos e sociais, os quais desde que o golpe se tornou uma ameaça concreta têm feito das tripas coração nas ruas e nas redes em defesa da democracia e dos direitos do povo brasileiro.

Grandes protestos aconteceram em praticamente todos os estados. Em outros países, mobilizações dessa envergadura teriam força inclusive para dobrar deputados, senadores e os meios de comunicação. Não no Brasil, cujo Legislativo é composto majoritariamente por políticos inescrupulosos, sem vergonha e pilantras.

Mais de 90% da população apoiam eleições diretas como saída para o fosso em que se encontra o país. Mas a maioria do Congresso Nacional constrói um acordo excluindo a soberania popular, através de eleições indiretas. As pesquisas apontam também que 85% são contra as reformas previdenciária e trabalhista. Mas os parlamentares as aprovam mesmo assim.

O governo golpista deve ser o único do planeta cujos projetos visam somente agradar ao mercado, menos de 1% da população, sabotando dia após dia os interesses do povo. O Judiciário, inclusive o STF, além do Ministério Público, envergonham a nação e traem a República com suas decisões incoerentes, estapafúrdias e voltadas para proteção dos plutocratas e a criminalização dos políticos ligados às causas populares e seus aliados.

Um estadista reconhecido no mundo inteiro, como Lula, o presidente que mais fez pelo avanço social do Brasil e que tornou o país ator de primeira grandeza no cenário mundial, é caçado e perseguido por um juiz midiático e partidário em aliança com procuradores empavonados e inconsequentes.

Tudo com o apoio sorrateiro da inteligência do império norte-americano. Pautada pela mídia monopolista, é montada uma gigantesca fraude processual para tirar Lula, o favorito de todas as pesquisas, das próximas eleições presidenciais. A elite escravocrata corre contra o tempo. Depois da condenação de Lula por Moro, agora falta a 2ª instância confirmar a sentença para afastá-lo do páreo.

Enquanto isso, 14 milhões de desempregados perambulam à procura de uma ocupação, a recessão é maior da história, programas sociais são desmontados, os direitos trabalhistas viram pó com o fim da CLT, as aposentadorias estão por um triz, gastos com saúde e educação são congelados por 20 anos e as riquezas do pré-sal são entregues aos países estrangeiros.

Daqui a pouco não sobrará mais país e o povo estará condenado à escravidão. É disso que se trata. A democracia acabou. Não dá para seguir mais nesta toada de protestar nas ruas e ser golpeado em seguida, organizar outro protesto maior ainda e ser alvejado por mais um petardo.

Cabe à esquerda tratar tempos de guerra como tempos de guerra. O desafio é ser criativo e inovador quanto às formas de luta, sem descambar para a porralouquice. Estou longe de ter fórmulas mágicas para apresentar como sugestões de superação da mesmice que tem marcado as manifestações dos democratas.

Algumas ideias, porém, passam pela minha cabeça. Por que não pautar seriamente ações de desobediência civil, debatendo com a sociedade a necessidade de se deixar de pagar contas de luz, telefone, água, gás, telefone, etc?

Por que não tentar ocupar o maior número possível de prédios públicos ? Já imaginaram a repercussão causada pela cena de figuras públicas do partido ocupando permanentemente as mesas da Câmara e do Senado, quem sabe até fazendo greve de fome ? Corro o risco de ter feito sugestões de difícil execução. Muitos as considerarão até lunáticas. Mas que algo precisa ser feito, ah, isso precisa. E já.
Posted: 14 Jul 2017 08:14 AM PDT
Por Daniel Fonsêca, na revista CartaCapital:

Desde o furo de O Globo sobre o envolvimento de Michel Temer em crimes como obstrução à Justiça e corrupção passiva, em maio passado, todo o jornalismo do Grupo Globo está focado em fortalecer e legitimar as denúncias contra o presidente. Nesta semana, a Globo decidiu, entretanto, incidir de forma mais direta na condução da crise que corrói a gestão do PMDB há quase dois meses.

Em pleno domingo 9 de Brasília, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), logo após conversar com Michel Temer, foi a uma casa no Lago Sul, em Brasília, para participar de um almoço. Era a residência de Paulo Tonet Camargo, vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo. A informação, veiculada pela Folha de S.Paulo, é a de que Maia estava acompanhado de outros cinco políticos, todos de partidos da base aliada de Temer, inclusive o ministro de Minas e Energia, Fernando Bezerra Coelho.

Os carros das autoridades, todos sem identificação oficial, só deixaram o local mais de cinco horas depois, já à noite. De acordo com o deputado Heráclito Fortes (PSB-PI), que passou de combatente a aliado dos governos petistas para depois apoiar a gestão de Michel Temer, tratou-se de um encontro agendado com mais de 30 dias de antecedência, sem nenhuma relação com a conjuntura atual. Acredite quem quiser.

Dias antes, cresciam as especulações de que Rodrigo Maia poderia ter apoio suficiente para assumir a Presidência da República no caso de afastamento de Temer. No dia seguinte, seria lida a relatoria sobre a denúncia contra Temer na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ).

Não por acaso, o relator, Sergio Zveiter (PMDB-RJ), tem o Grupo Globo como cliente de serviços jurídicos há mais de 40 anos. No Congresso, Zveiter, também considerado próximo a Maia, chega a receber a alcunha de “advogado da Globo”.

Mas o papel de Zveiter é pequeno perto do desempenhado pelo anfitrião do almoço de comensais políticos do último domingo. Entre os anos 1990 e o começo dos 2000, um alto executivo da Globo chegou a ser apelidado em Brasília de “Senador Evandro”. Era Evandro Guimarães, que ocupava na época exatamente o mesmo cargo que hoje ocupa Paulo Tonet, dono da casa no Lago Sul.

Além de lobista oficial do grupo, Tonet acumula desde agosto a presidência da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). Tornou-se figura recorrente na proa das principais negociações em torno de decisões políticas e econômicas envolvendo o Executivo, o Congresso e mesmo o STF – onde a Abert tem conseguido vitórias importantes para alterar leis e normas regulatórias às quais se opõe, como a Classificação Indicativa.

Colega de trabalho de Paulo Tonet, após onze anos em diferentes cargos do Executivo Federal, Marcelo Bechara foi contratado como “Diretor de Regulação” do Grupo Globo, para tratar exclusivamente de questões jurídicas e legislativas. Secretário-executivo do Ministério das Comunicações de 2005 a 2010, nos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva, quando o órgão era comandado por Hélio Costa (PMDB-MG), e conselheiro da Anatel de 2011 a 2015, nas duas gestões de Dilma Rousseff, Bechara hoje transita no Congresso e na Esplanada com facilidade para defender os interesses da empresa.

Mas a reunião desta semana revela uma entrada ostensiva da família Marinho na operação política como há tempos não se via. Mesmo antes e durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, os irmãos só chegaram a se posicionar em agosto de 2015 e, ainda assim, limitaram-se a dialogar com empresários no sentido de ponderar a impertinência da insistência em derrubar a presidenta. Para eles, isso geraria mais instabilidade política e insegurança jurídica, o que não era bom para os negócios num momento de grave crise econômica.

Meses antes, em junho de 2015, em meio a diversas batalhas com uma Câmara controlada por Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a ondas negativas da imprensa corporativa dirigidas contra o governo e a manifestações massivas das classes médias a favor do impedimento, Dilma Rousseff chegou a ir ao Rio de Janeiro prestigiar o encontro da não tão relevante Academia Internacional de Televisão e, ainda, homenagear os 50 anos da TV Globo, completados em abril daquele ano.

Agora, a “editorialização” excessiva do jornalismo de todo o Grupo Globo contra Michel Temer comprova, obviamente, que os irmãos Marinho querem a cabeça do presidente da República – e logo.

Fora Temer, mas não a sua agenda

No mercado de mídia, a Globo se antecipou ao dar as informações sobre as delações de Joesley e Wesley Batista, aparentemente sem poupar nomes do governo ou do próprio Aécio Neves (PSDB-MG), que costumava receber tratamento positivo dos Marinho.

À primeira vista, a intenção era não perder o controle da situação e manter a relevância do grupo numa possível nova transição de governo. Por fora do quadro político estrito, os mentores do Grupo Globo não costumam abrir mão de arbitrar e moderar os rumos da política e da economia nacionais, tarefa que sempre outorgaram a si mesmos, como se fosse uma missão do grupo desde a origem. Orbitam e tentam influenciar figuras do meio político, mas também do Judiciário, o poder mais impermeável e hermético, portanto bem menos “republicano”.

Os questionamentos, então, dizem respeito às razões que levaram o Grupo Globo a, ao embarcar no ataque contra Temer, pôr em risco a agenda programática das reformas, apoiada pelos donos do PIB nacional de forma quase unânime.

Afinal, o apoio editorial e as articulações políticas em torno da derrubada de Temer estão longe de significar uma discordância do Grupo Globo em relação às pautas encabeçadas por ele. Vale lembrar que frações ainda consideráveis do “mercado” seguem bem reticentes em abandonar totalmente a sustentação do governo.

Para ajudar a empurrar Temer e tentar salvar sua agenda, os telejornais globais têm feito uma ginástica retórica em separar a “necessária” aprovação das reformas da figura do presidente ilegítimo. Nessa operação, têm, como é de praxe, omitido informações relevantes, invisibilizado e condenado os argumentos e protestos contrários às reformas.

Na terça-feira 11, a matéria do Jornal Nacional sobre a aprovação da reforma trabalhista no Senado teve como foco a tentativa das senadoras de oposição de obstruir a votação: “O Senado registrou hoje uma cena que jamais tinha sido vista na história da Casa. Um grupo de senadoras da oposição decidiu simplesmente ocupar a mesa do Plenário para impedir a votação da reforma trabalhista. E lá ficaram interditando os trabalhos por mais de seis horas”, anunciou Renata Vasconcelos.

Segundo a matéria, “a atitude das senadoras foi condenada por colegas de diversos partidos”. “Protesto não se faz dessa forma”, ensinou o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). Mais dois senadores foram ouvidos, todos contrários à ocupação da Mesa, sendo um deles José Medeiros (PSD-MT), que entrou com pedido contra elas, já aceito, no Conselho de Ética, por quebra de decoro parlamentar.

A informação veiculada sobre as mudanças aprovadas na CLT foi a seguinte: “A reforma trabalhista dá força de lei a acordos celebrados entre trabalhadores e patrões, respeitando os direitos assegurados pela Constituição, como FGTS e 13º salário; permite que férias possam ser divididas em até três períodos; acaba com a obrigatoriedade da contribuição sindical, equivalente a um dia de salário do trabalhador; permite que o intervalo de almoço possa ser reduzido para 30 minutos, diminuindo a jornada mediante negociação coletiva; e inclui a jornada intermitente: o trabalho em dias alternados ou por algumas horas, como o de trabalhadores de bares ou eventos”.

A construção retórica é clara. A atitude das senadoras teria sido antidemocrática e contra uma reforma que não representaria nenhuma perda de direitos. O que o Jornal Nacional se esqueceu de mencionar foi que a união das senadoras de oposição contra a votação da reforma teve um motivo especial: o texto da nova lei autoriza que grávidas e lactantes trabalhem em ambientes insalubres. O item misteriosamente sumiu da lista de alterações que o JN considerou relevante enumerar.

Nenhuma palavra foi dada às senadoras ou a qualquer outra fonte que as apoiasse. O fato de o presidente da Casa, Eunício Oliveira (PMDB-CE), ter mandado cortar a luz do Senado foi mencionado com naturalidade, ignorando seu caráter autoritário. As regras para a entrada no Senado naquele dia, que barraram a presença de centenas de trabalhadores e sindicalistas na Casa, sequer foram citadas.

Pouco ou nada se diz na Globo também sobre os protestos que, há meses, em diferentes cidades do país, rechaçam a reforma trabalhista. Como já havíamos mostrado neste blog, a cobertura dos atos e greves contrários às reformas deixa evidente o apoio da Grupo Globo às retiradas de direitos trabalhistas e previdenciários.

Hipóteses sobre as intenções do Grupo Globo

Diante do quadro de crise aguda e endêmica na política institucional, o Grupo Globo tenta agora catalisar a insatisfação geral da população com o governo e, em especial, a indignação das classes médias e altas com a corrupção. Quer capitalizar-se como a intérprete e a vocalizadora hegemônica desse pensamento diluído, apresentado como a síntese possivelmente unificadora do País. A um só tempo, portanto, a Globo opera em diversas instâncias.

No plano político, busca manter-se como âncora e bússola para gestores, parlamentares e outros agentes públicos, interferindo diretamente na orientação das decisões que vão definir o cenário a curto e médio prazos, inclusive no Judiciário, operando um dos braços da sua capacidade de direção cultural, complementada pela orientação em questões morais e identitárias.

No nível econômico, sustenta uma campanha proativa, que obviamente alcança e integra o jornalismo, em apoio às agendas liberalizantes, prescrevendo reformas regressivas, privatizações e ajuste fiscal como únicas soluções eficazes para a crise por que passa o Brasil desde 2012.

Por fim – como causa e consequência dos outros dos níveis –, procura se (re)posicionar como o único agente da indústria cultural com capacidade produtiva (técnica e estética), lastro socioeconômico, influência política e estabilidade financeira para, ao menos aparentemente, defender linhas de atuação próprias e autônomas (a governos e empresas corruptoras) que funcionem como balizadoras para a unificação nacional.

A chave de análise sobre a postura da Globo, nos últimos e provavelmente nos próximos anos, reside na visão/missão que o grupo tem consolidado: a partir da condição de qualificada produtora de conteúdo nacional, mostrar-se como o único agente de mercado que reúne as condições para interpretar, organizar e expressar a cultura brasileira, aqui entendida no sentido mais ampliado possível. E isso também é um perigo para a nossa democracia.

* Daniel Fonsêca é jornalista e integrante do Intervozes. Colaborou Mônica Mourão, jornalista, coordenadora executiva do Intervozes.
Posted: 14 Jul 2017 08:05 AM PDT
Por Luis Nassif, no Jornal GGN:

Peça 1 – o julgamento de Lula

O ponto central da acusação de Sérgio Moro contra Lula é relativamente simples (mencionei acusação de Sérgio Moro devido ao fato de ele ter se comportado como acusador, não como juiz)

Tese 1 - Lula ganhou um apartamento (ou a reforma dele) da OAS.

Tese 2 – Houve uma contrapartida em vantagens para a OAS.

Tese 3 – Como o apartamento não está em nome de Lula, mas da OAS, então se tem um caso de lavagem de apartamento ops, de dinheiro.

Tese 1 - Sobre o presente da OAS a Lula

O mínimo a ser apresentado por Sérgio Moro deveria ser a prova cabal de que o apartamento é, de fato, de Lula. Moro apresentou uma montanha de documentos mostrando aparente interesse do casal Lula pelo apartamento. E ficou nisso.

Há uma versão de Lula, consistente, e que teria que ser derrubada para a condenação.

1. Dona Marise adquiriu uma cota do edifício, através da Bancoop, a cooperativa dos bancários, muito antes da OAS assumir o empreendimento.

2. A Bancoop entrou em crise e o empreendimento foi transferido para a OAS. Dona Marise manteve as cotas.

3. A OAS fez reformas no apartamento e ofereceu a dona Marise.

4. Lula viu o apartamento, não gostou e desistiu. Dona Marise entrou com pedido de devolução do seu dinheiro.

Há várias hipóteses verossímeis para o item 3

Hipótese 1 – interessava à OAS ter um ex-presidente como condômino, porque imediatamente valorizaria as demais unidades à venda.

Hipótese 2 – quis fazer um agrado a Lula, até então o político mais popular do planeta.

Em relação ao item 4, podem-se aventar várias hipóteses:

Hipótese 1 – Lula viu o apartamento, não gostou e desistiu. A mídia jamais divulgou imagens internas do apartamento, porque sua simplicidade comprometeria a gravidade da acusação.

Hipótese 2 – Estava tudo acertado, mas o vazamento do caso para a mídia fez Lula recuar.

É possível que seja verdade? É. É possível que seja falso? Também é. É por isso que o direito civilizado consagra a máxima: in dubio pro reo. Ou seja, a dúvida opera em favor do réu. Se há várias versões, e a acusação não consegue comprovar a sua versão, não há como condenar o réu.

De qualquer modo, ao não se efetivar a venda (ou transferência) não houve crime. Não existe o crime de intenção.

É significativa a maneira, nessa quinta, como se pronunciaram os juristas, mesmo caçados com lupa pela mídia. No máximo ousaram discutir aspectos secundários, como a dosimetria da pena, ou as justificativas de Moro para a não prisão de Lula..

Em relação ao mérito, o pouco que se viu precisou recorrer a malabarismos a altura de Houdini, o mágico:

Leia esse primor, publicado na Folha

Em geral, quem ocupa altos escalões da administração pública ou de empresas toma cuidados redobrados para não deixar digitais.

É muito difícil que um empresário corrupto fale explicitamente ou troque mensagens sobre vantagens ilegais com agentes públicos graduados.

Como disse um ex-dirigente de uma grande companhia pagadora de propinas, isso é considerado até "deselegante" por essas pessoas.


Para quê a OAS daria um apartamento para Lula? Evidentemente, para ser usufruído. Se fosse apenas pelo valor, bastaria depositar o dinheiro em uma offshore. O dinheiro transitaria por várias contas e Lula poderia comprar o apartamento que quisesse, onde quisesse. Quando o chefão saca do seu cartão de crédito, ninguém comete a “delegância” de perguntar sobre a origem da grana.

Mas, segundo a acusação, a OAS pagou em espécie: o triplex. Para usufruir do apartamento, Lula teria que ir até o apartamento, usar o apartamento quando fosse à praia, se expor aos vizinhos e à imprensa.

A não ser que se imaginasse que o apartamento pudesse ser guardado em um escaninho do escritório da Mossak Fonseca, que a Polícia Federal invadiu atrás de provas contra Lula, encontrou contas da família Marinho e amoitou porque porém, contudo, todavia, há limites para o exercício da coragem.

Todas as provas documentais apresentadas por Moro comprovam que o casal Lula, em algum momento, teve a posse de cotas do edifício, antes da OAS entrar, acompanhou reformas que ocorreram, os executivos da OAS preparavam o apartamento para o casal e... acabam por aí. Não há uma mísera prova de que houve a transferência final do apartamento para Lula.

Tese 2 – a prova do suborno

Sem conseguir provar a primeira tese, o indômito Moro parte para a segunda: a contrapartida. Ou seja, apontar o contrato conquistado pela OAS em troca do tal triplex.

Em uma das gestões da prefeitura de São Paulo, correu o boato de que o prefeito teria sido alvo de uma proposta de suborno de R$ 15 milhões, devidamente recusada. Tudo para que não levasse adiante a proposta de só autorizar a fiscalização de poluição para carros com mais de três anos de vida.

Por aí se percebe a desproporção entre o “preço” da corrupção de um prefeito (em cima de um contrato menor) e as possibilidades ao alcance de um presidente corrupto. Só a proposta da JBS para o representante de Michel Temer acenava com a possibilidade de R$ 500 mil semanais por 20 anos. 54 x 500.000 x 20 = 540.000.000

Mesmo que Lula fosse “baratinho”, ainda assim o juiz teria que identificar qual contrato foi obtido pela OAS em troca do tal triplex.

Confira essa segunda pérola, no artigo do especialista à Folha, para demonstrar como Moro é um sujeito ladino, que apanhou Lula em uma pergunta-armadilha:

Moro perguntou se a palavra final sobre a indicação de diretores da Petrobras para aprovação pelo conselho da estatal era da Presidência da República.

Lula respondeu bem ao seu estilo: "Era, porque senão não precisava ter presidente".


Lembra uma cena de um velho programa de humor da finada TV Tupi, com Walter D’Ávila fazendo o seu Explicadinho, que só fazia perguntas óbvias porque queria entender “nos mínimos detalhes”.

Para superar a falta de provas, Moro desenvolve, então, a teoria do fato à pururuca – que reza que, em qualquer hipótese, um chefe de partido contrário ao juiz sempre será responsável por todos os atos praticadas por seus subordinados.

Moro ressuscita um dos clássicos do direito brasileiro, que ele, como assessor colocou na pena da Ministra Rosa Weber, na AP 470: quanto mais alto na hierarquia do crime, mas difícil conseguir a prova dos crimes da pessoa; logo, a ausência de provas sobre fulano é a comprovação de que ele está no ponto mais alto da hierarquia do crime.

Tese 3 – o destino do dinheiro

Moro não conseguiu comprovar que o apartamento foi transferido para Lula.

Em países anglo-saxões, desses que cultivam essa coisa sem-graça, limitativa da criatividade, chamada de lógica, se concluiria que se a prova do crime era a transferência do bem para o réu e se o juiz não conseguiu comprovar a transferência do bem para o réu, logo ele não conseguiu comprovar a culpa do réu.

O realismo fantástico curitibano produziu um segundo clássico do direito: se não consigo comprovar a propriedade do apartamento, então houve lavagem de apartamento ops, de dinheiro.

É o primeiro caso de lavagem de apartamento da história.

Sabe-se da existência de dinheiro lavado, ou seja, colocado em nome de um offshore para ocultar o verdadeiro proprietário. Mas lá no paraíso fiscal, há um registro em cartório dizendo que a offshore é do malandro. Depois, o malandro pode internalizar dinheiro em nome da offshore e adquirir bens que, aqui, serão da offshore mas, lá, no final da linha, serão do malandro que é dono da offshore. A família Serra é especialista nisso.

O fantástico juiz Moro conseguiu criar a figura jurídica da lavagem de apartamento sem transferência do bem e sem a existência de uma offshore.

Peça 2 – o papel do TRF4

Há três possibilidades, no julgamento de Lula em segunda instância.

Possibilidade 1 – a confirmação da sentença

O eventual endosso do TRF4 a Moro seria, na prática, convalidar o primeiro caso de condenação sem prova da história do Judiciário. Significaria uma mancha indelével na biografia de cada desembargador.

Possibilidade 2 – redução da sentença mas inabilitação política de Lula

Reduz-se a sentença significativamente, mas mantém-se a condenação. Bastará para Lula não poder se candidatar mais.

Possibilidade 3 – revogação da sentença

Devolverá ao Judiciário o papel de guardião da legalidade. Mas tem mais em jogo, talvez a própria dignidade do Judiciário.

Ontem mesmo a Globo deu início ao seu jogo predileto: praticar uma chantagem inicialmente discreta, expondo cada um dos magistrados que analisarão os recursos da defesa de Moro
esperando, como efeito, as pressões de colegas e familiares sobre eles.

Os recalcitrantes, mais à frente, receberão tratamentos mais drásticos, como as que expuseram o Ministro Ricardo Lewandowski a escrachos em aeroportos.

Mas, hoje em dia, o clima é outro. Não será fácil para o grupo que colocou Temer no poder deflagrar outra ofensiva de assassinatos de reputação.

Peça 3 – o fim da Lava Jato

O julgamento de Lula em segunda instância ocorrerá em pleno período eleitoral, insuflando os ânimos. Mas sem a Lava Jato, como foi conhecida até agora. O fator Moro turbinado a Globo se encerra ai.

Do lado da nova Procuradora Geral, Raquel Dodge, o movimento lógico será ampliar os quadros da operação. Significará conferir mais profissionalismo às investigações e, ao mesmo tempo, diluir a influência deletéria dos atuais titulares.

Do lado da Polícia Federal, já houve a dissolução do grupo de delegados, com os trabalhos sendo assumidos pela PF como um todo.

Desmontam-se, assim, as condições que permitiram a politização, o protagonismo excessivo e a contaminação da imagem da PF e do MPF.

Peça 4 – o jogo político

Entra-se, a partir de agora, em um embate decisivo para o futuro da democracia em nosso país. Ousaria dizer que há semelhanças emocionantes com o início das diretas. Em ambos os casos, está em jogo o futuro da democracia brasileira.

O primeiro round será o julgamento de Lula pelo TRF4. Nele, a Globo jogará todas suas forças. Como consequência, se exporá mais ainda, como a Força, um poder incompatível com um regime democrático.

Os desembargadores do TRF4 terão, pela frente, o maior desafio da sua vida. Não se trata meramente de absolver ou condenar Lula, mas demonstrar até que ponto pautam sua conduta pelos princípios jurídicos, pelo primado da lei. Até que ponto colocarão o respeito à sua profissão acima do temor natural que a Globo infunde.

Por outro lado, paradoxalmente, quanto maiores os abusos cometidos nesse julgamento, maior já tem sido a reação. Em outros tempos, havia a facilidade do discurso único escondendo argumentos contrários, impedindo o contraponto. Hoje em dia, não. Há uma enorme polarização nas redes sociais, mas também um período de ampla informação.

A Lava Jato caiu na sua própria armadilha.

Na fase inicial, decidiu escancarar cada passo, em um momento em que tinha o controle absoluto sobre o processo, porque na fase de coleta de provas. Cada passo do inquérito era reaplicado pelos jornais, como se fosse a verdade definitiva.

À medida em que o tempo foi passando, os inquéritos se avolumando, começaram a aparecer as contestações da defesa. E um público mais antenado passou a recolher argumentos de lado a lado, comparando argumentos, entendendo as peculiaridades do processo penal e, finalmente, começando a fazer juízo de valor.

Nos últimos meses, a parcialidade da tropa de Moro foi esmiuçada, diariamente exposta pelo trabalho pertinaz dos advogados de Lula. Eram chuviscos diários de episódios regando os cérebros do público, até que começasse a brotar, mesmo nos mais leigos, o discernimento sobre os pontos centrais da denúncia, a serem analisados.

A opinião pública mais informada aprendeu a diferenciar a delação pura e simples daquela acompanhada de provas; percebeu que, para gozar do dinheiro roubado, bastava os delatores tratarem de implicar Lula; deu-se conta de que nenhuma delação veio acompanhada de provas.

Com acesso à Lava Jato, jornalões traziam as matérias. E os portais e blogs independentes faziam o filtro, colocando lentes de aumento nos detalhes significativos, que a cobertura da velha mídia deixava escapar.

É impossível fazer jornalismo sem um mínimo de legitimidade. Será impossível, até para a disciplinadíssima tropa de jornalistas do Globo, que aderem instantaneamente, com a fé cega dos crentes, a qualquer mudança de ventos do grupo, abraçar a causa.

O último ato de Moro é o primeiro de uma luta cívica que poderá ser tão memorável quanto as diretas, ambas em defesa da democracia.
Posted: 14 Jul 2017 07:54 AM PDT
Posted: 14 Jul 2017 07:49 AM PDT
Editorial do site Vermelho:

Indignação – este é sentimento provocado pela sentença condenatória contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nesta quarta-feira (12).

A sentença agrava os ataques contra o Estado Democrático de Direito no Brasil uma vez que não há fatos ou provas que a sustentem, como a defesa do ex-presidente demonstrou, sem ter sido levada em conta.

Para além disso tudo, a defesa, mesmo sem que isso fosse a sua obrigação, já que o ônus da prova cabe a quem acusa, conseguiu demonstrar, com base em documentação incontestável, a impossibilidade do cometimento do suposto crime. Nada disso adiantou, como não adiantaram as dezenas de depoimentos inocentando Lula.

É uma condenação anunciada, como se diz: Lula, aparentemente, já tinha o seu destino traçado no momento de abertura do processo.

A condenação de Lula, que será contestada por seus advogados, é uma afronta a todos os brasileiros. É um desafio aos que querem um Brasil livre, soberano, onde o poder do Estado seja utilizado para fomentar o desenvolvimento nacional e assegurar renda e trabalho decente a todos e não para perseguir adversários políticos.

A realização plena do Brasil como nação, o desenvolvimento de todas as suas imensas potencialidades e a consequente libertação de nosso povo: este é o programa que os inimigos do progresso e da soberania nunca aceitaram. Perseguem Lula pelos importantes passos que o ex-presidente deu nesse sentido e o querem preso para tirá-lo de sua posição na trincheira do luta por esse novo Brasil.

A luta para que a justiça seja feita no caso de Lula, entretanto, não cabe apenas aos que defendem um programa de mudanças progressistas para o Brasil. Todos aqueles que se preocupam com a manutenção das garantias individuais mínimas e com os princípios básicos da democracia e do Estado de Direito precisam se pronunciar, antes que seja tarde e que o arbítrio dê novos passos, ainda mais ousados, ainda mais violentos.

É preciso sair do estado de estupefação e ir à ação, realizando uma grande campanha, inclusive de alcance internacional, exigindo que as perseguições contra o ex-presidente cessem. Esta deve ser ampla, plural e aberta a gente de todas as posições políticas, tendo como único estandarte um princípio que vem do século 18: a condenação sem provas é um grave arbítrio.
Posted: 14 Jul 2017 07:45 AM PDT
Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

Vamos nos entender sobre o processo político em curso no país. O Brasil não assiste a um confronto militar mas a uma sucessão de movimentos de força, a margem da Constituição, na qual o aparelho Judiciário assume a função de determinar os rumos do regime político. Foi assim que se derrubou Dilma, processo no qual o Tribunal de Contas da União teve um papel menos reconhecido do que deveria.

Um ano depois, tenta-se um golpe dentro do golpe para afastar Michel Temer. Você poderia imaginar que, depois que isso se resolver, com a vitória de quem for, o país poderá encarar o calendário constitucional e se preparar para as eleições de 2018, que estão logo aí na frente. Sinto decepcioná-lo.

O terceiro golpe de 2016 para cá pretende impedir a candidatura Lula. Claro. O prazo máximo já foi anunciado: até agosto de 2018, quando vence o prazo de registro de candidaturas para o pleito marcado para dois meses depois.

Sabemos que se trata do mais popular presidente da história republicana. Aquele que tem condições de reconstruir a democracia e desfazer os retrocessos brutais produzidos pela dupla Temer-Meirelles - dos quais só pudemos conhecer os aperitivos, até agora. Também é capaz de devolver ao povo uma auto-estima que ajuda a defender os próprios direitos.

Impedir a candidatura Lula equivale, no Brasil de 2017, a cassação de direitos de Juscelino Kubitscheck em junho de 1964. Foi essencial para a consolidação do golpe. Definiu um novo quadro, com a demarcação de novos limites, para a luta política. O cancelamento de eleições diretas veio depois, quando a maioria dos derrotados dividia a cadeia e o exílio.

Mas não vamos apressar as coisas, até porque a história nunca está escrita antes de ser vivida.

Estamos falando de uma eleição marcada para 2018, em qualquer caso dificílima, sem vencedor antecipado, cujo desfecho carrega as incertezas próprias de uma democracia. Mas é assim que deve ser: "Amas a incerteza e serás um democrata", afirma o filósofo político Adam Przeworsky, mestre polonês das lutas políticas de 1980 e 1990, autor de lições preciosas sobre convivência necessária entre democracia e estado de bem-estar social.

Do ponto de vista dos verdadeiros senhores do processo em curso no país, aqueles que tem a bússola - que aponta a direção a seguir - e o cronômetro, que controla o tempo de cada passo, é risco demais após tantas aventuras. Como opção principal, impede-se Lula. E é este movimento que está em andamento, no qual a sentença de 9 anos e seis meses é apenas a primeira de outras que podem aparecer no meio do caminho. Não custa registrar que, com uma denúncia que não consegue ficar de pé - a propriedade do triplex - fez-se uma condenação duríssima, a ser discutida na segunda instância de um tribunal conhecido pela dureza.

Os debates na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, ontem, mostraram uma situação curiosa. Através de denuncias do PGR Rodrigo Janot, temos um conflito entre o golpe 1, de Temer, com o golpe 2, de Rodrigo Maia. Ambos tem os mesmos alinhamentos políticos, o mesmo ímpeto de avançar sobre conquistas populares, chegando a competir para se mostrar mais duro e radical do que o rival ao lado -- como se viu em todas as decisões importantes, inclusive na votação sobre a CLT.

Ambos querem o poder aqui e agora - mas nenhum quer permitir que o povo faça a escolha, como é natural numa democracia, numa saída urgente e legítima diante da beira de abismo em que o país se encontra. Acho indispensável combater a corrupção mas é fácil reconhecer, pelo golpe 1, as dificuldades do espírito justiceiro usado para vestir o golpe 2.

Não é difícil reconhecer que não há o que esperar deste círculo de interesses fechados, onde o único espaço para as necessidades do povo encontra-se na retórica - e, às vezes, nem aí. Intoxicados num ambiente onde falta o oxigênio da democracia, não se preocupam com as aparências. Nem fingem mais e jogam bruto - o que pode ser perigoso, até.

Sua única utilidade é servir como um retrato - pavoroso - dos limites que podem ser impostos ao sistema político por medidas de exceção.

O que interessa à maioria dos brasileiros é encontrar caminhos para recuperar a soberania popular e reconstruir a democracia. Assim é que poderão ter a palavra sobre seu destino. Não queremos novas ameaças mas direitos de volta. Esta é a opção necessária. E ela começa com a defesa dos direitos de Lula ser candidato a presidente.

Alguma dúvida?
Posted: 13 Jul 2017 01:55 PM PDT
Posted: 13 Jul 2017 08:45 PM PDT
Por Celso Vicenzi, em seu blog:

Veja se você consegue lembrar: Quem condenou Tiradentes à forca? Quem condenou Sócrates a beber a taça de cicuta? Quem executou Che Guevara?

O juiz vaidoso que não esconde suas frustrações pessoais nos mínimos gestos e comportamentos, é mais um condenado a desaparecer na história enquanto a figura de Luis Inácio Lula da Silva irá permanecer para sempre nos livros de história, de ciência política, de sociologia, em biografias, em poesias, na literatura de cordel, em peças de teatro e tantas outras formas de imortalidade. Verdade ou mito, não importa, Lula será símbolo. De um Brasil que ousou retirar milhões da miséria e sonhar com mais igualdade, alçar voo entre os maiores do mundo, antes de ser abatido por mais um golpe.

É assim com os grandes personagens da história da humanidade. Já aos seus algozes, que cumpriram papéis ordinários, coube o esquecimento. Ou, talvez, para que não esqueçamos jamais, figurem como exemplos de injustiça e ignomínia.

Moro agiu em fina sintonia com os mais potentes veículos de comunicação do país, sob o manto da cumplicidade de seus superiores, para torturar um cidadão e sua família diuturnamente com injúrias, calúnias e difamações.

À história caberá demonstrar, com mais clareza, o que significou a Operação Lava Jato para consumar o golpe no Brasil. Da mesma forma que, passadas algumas décadas, hoje sabemos muito sobre os bastidores do golpe de 64. Para quem gosta tanto de “indícios”, são fartos aqueles que nos levam a suspeitar de um golpe jurídico-midiático-parlamentar-policial-empresarial contra a presidenta Dilma. Com know-how (tudo indica) de quem fala muito bem essa língua.

O golpe, que ainda prossegue, destituiu uma presidenta sem crime para promover um assalto ao poder que consuma o maior retrocesso aos direitos trabalhistas da história nacional e que deve completar-se com outros ataques: aos direitos humanos, à soberania do país, à educação, às mulheres, aos negros, à população LGBT, aos movimentos sociais e à população mais pobre.

Que Moro não se engane. A história é pródiga em transformar heróis em vilões e vice-versa. O golpe avança para entronizar duas das forças mais nefastas que tomaram conta do país: a de pastores políticos de igrejas que, se não fosse o álibi da religião poderiam ser enquadrados como estelionatários, e a do fascismo liderado por Bolsonaro, capaz de capitalizar o ódio de milhões de brasileiros que foram às ruas e às janelas bater panelas contra Dilma, Lula e o PT pelo que representavam como projeto de país, porque a corrupção nunca os incomodou, como agora, aumentada e escancarada, não provoca nenhuma reação.

Que Moro não se iluda com o brilho fugaz das telas de TV e com a sua aparente fama, porque será lembrado como infame. Ao condenar Lula a nove anos e meio de prisão, numa alusão aos nove dedos do ex-presidente, Moro prova que é um juiz perverso. E medíocre. Produziu uma sentença que será objeto de estudo e escárnio, um case do que a justiça não pode ser. A condenação de Lula é mero pretexto, porque a sentença é contra um projeto de nação, que aos poucos vai sendo subjugada em sua soberania, entregue às forças do mercado, ávidas por lucros obscenos no país que já é um dos 10 piores em distribuição de renda.

Há muitos casos na história de acusações e condenações espúrias, como as de Nicolas Sacco e Bartolomeo Vanzetti, nos Estados Unidos, a do capitão Alfred Dreyfus, na França, ou a de Nelson Mandela, na África do Sul. Condenações que sempre serviram a propósitos políticos.

Luis Inácio Lula da Silva, que já colocou o seu nome na história por promover a maior ascensão social da população mais miserável do país, que liderou – com todos os problemas – um projeto de inserção do Brasil entre as maiores nações do planeta, terá seu nome ainda mais cultuado diante da injusta perseguição que sofre. A tortura a que é submetido, por acusações não comprovadas que contra ele e seus familiares foram engendradas em dezenas de capas de revistas e jornais, e incontáveis minutos em emissoras de rádio e TV, certamente o alçarão à condição também de perseguido político. De uma nova forma de perseguição política, mais sofisticada, nem por isso menos cruel.

Moro condenou Lula, mas condenou-se também. Lula permanecerá uma lenda viva na história do Brasil. Tanto maior quanto mostrarem-se infundadas, no futuro, as acusações e as manobras que certamente vão impedi-lo de ser candidato e derrotar o golpe pela via democrática, se eleições houver em 2018.

Moro, o juiz que se comporta muito mais como um acusador seletivo, que é moroso com corruptos golpistas e sem morosidade com quem apoiou Lula, Dilma e o PT, condenou-se a ser, muito em breve, um nome a ser esquecido no pé de página da história, um mero instrumento de forças maiores que consumaram o golpe. Alguém, no máximo, a ser lembrado de forma pouco digna como exemplo do que a justiça não pode ser, caso queira ter esse nome.
Posted: 13 Jul 2017 08:42 PM PDT
Por Marcia Tiburi, na revista Cult:

Pesquisas apontam que Lula seria novamente presidente do Brasil, caso concorresse ao cargo máximo da nação em 2018. No cenário de um país colonizado e cada vez mais “neoliberalizado” como é nosso, a presença de um personagem como Lula passa de fator de conciliação entre classes a grande perigo para as elites que usurparam o poder. Lula continua sendo um fator político fundamental, talvez o mais fundamental no contexto de uma democracia cada vez mais destruída.

Se estamos falando do desejo do eleitorado em relação a Lula, devemos começar por ter presente que esse desejo, na verdade, já não conta no Brasil desde o golpe de 2016. Sabemos que, se ainda houver eleição direta para presidente, hipótese plausível em um país que se tornou terra de ninguém, o desejo do povo manifesto nas urnas só será aceito entre aspas se ele coincidir com o desejo das elites, as mesmas que, servas do grande capital, transformam o Brasil inteiro em um mercado barato, vendendo-o em termos de commodities a preço de balaio. É nesse contexto que enfraquecem as tentativas de sustentar teoricamente a democracia, de manter a resistência contra a ditadura corporativa, midiática, judiciária cada vez mais claras. É claro que resistir é urgente, necessário e muitos morrerão por isso, mas é certo também que não podemos ser ingênuos diante dos jogos que estão sendo tramados nas costas da população, dos movimentos sociais, de todos os que se ocupam em promover qualquer sinal real de democracia no bizarrismo do momento.

Dilma Rousseff, sabemos, estava na mira das armas neoliberais manejadas pelo colonialismo externo do grande capital e o colonialismo interno de políticos, banqueiros e outros donos do Brasil. Ela estava marcada desde o começo, pelos muitos motivos que se tornam cada vez mais evidentes. Do mesmo modo, não é novidade que ela, assim como Lula, apesar dos pesares e das críticas de quem sempre espera um governo mais à esquerda, ou seja, mais socialista, mais capaz de garantir direitos, conseguiu uma proeza incomum: sustentar uma relação com o neoliberalismo de rapina ao mesmo tempo em que tentava por algum freio à barbárie, defendendo direitos fundamentais e uma democracia, por assim dizer, sustentável. Hoje, em que pese a necessidade de repensar o paradigma sócio-político que nos rege, sabemos que essa democracia sustentável praticada por Lula e, na sequência, por Dilma, é só o que se pode esperar de um governo popular em um país colonizado. Talvez Dilma e Lula tenham feito o melhor jogo de cintura de que teremos notícia em nosso país que começa a viver, de 2016 em diante, os piores tempos de sua pós-história. Perdemos a ingenuidade diante dos acontecimentos. A democracia se torna a cada dia um assunto menor.

Antes de seguir, gostaria de gastar um pouco do meu tempo e do meu espaço para pensar no lugar político mais fundamental da nação. Fato é que o cargo de Presidente da República Federativa do Brasil não é mais o mesmo depois do golpe. Esse lugar vale hoje em dia tanto quanto o voto da nação. Michel Temer conseguiu uma antiproeza fundamental na política brasileira do momento. De tudo o que ele ajuda a destruir hoje, o cargo de presidente da República é um dos que perdeu a dignidade conquistada com as eleições de Fernando Henrique Cardoso, de Luiz Inácio Lula da Silva, bem como de Dilma Rousseff, presidentes eleitos e legítimos. Não eram vices golpistas, nem oportunistas. Entrará Rodrigo Maia em seu lugar para confirmar a trilha do rebaixamento, deixando claro que não é de democracia, nem de dignidade que se trata, ou qualquer desses valores que contavam na época em que política era algo fundamental. Ao ocupar o cargo de maneira ilegítima, entre o patético e o ridículo de seu personagem, invotável e rejeitado por mais de 90% dos brasileiros, Michel Temer segue se segurando na própria incompetência dos que querem derrubá-lo para não cair, e humilha o cargo que ocupa por meio de um golpe.

Não é possível, nesse momento, não pensar na figura dos que nos representando, não nos representam. Não é possível não se perguntar como Michel Temer suporta ser quem se tornou, sem grau algum de reconhecimento, sem méritos, sem história, sem coragem, sem brilho, sem vergonha. Qualquer pessoa a quem a questão da dignidade ainda fizesse sentido, que ainda tivesse um mínimo de amor próprio, já teria renunciado, teria se matado ou morrido de tristeza estando em sua situação. Mas aqueles que perderam a subjetividade, aquilo que os antigos, chamavam de alma, esses não sentem nada. E talvez seja esse o caso do homem que, sentado no trono da ilegitimidade e da rejeição popular, estarrece a todos.

Anti-Temer

Mas por que gastar tempo falando de Michel Temer enquanto os Direitos trabalhistasvazam pelo ralo, enquanto vários outros direitos se perdem no meio da desregulamentação da economia, da privatização e dos demais aspectos que fazem parte de um programa neoliberal? Por que Michel Temer é apenas mais um. E porque é sob o seu nome, num país que precisaria de líderes democráticos, de um projeto de país, que se produz a ignominia do desmantelamento do Estado, da sociedade e assistimos a destruição do país. O protótipo do político brasileiro, aquele que chegou onde chegou por tramas obscuras, por jogos sinuosos de poder, no caminho da ilegitimidade é o que está em jogo.

Podemos citar muitos nomes que acompanham Michel Temer na sua inexpressividade a serviço da covardia dos neoliberais. Falamos de um e estamos falando de todos, salvaguardadas as exceções que confirmam a regra. Não podemos nisso tudo esquecer os agentes do Judiciário que hoje, sem provas, sustentados em convicções em nível de delírio, que fazem lembrar idiotas, tentam encontrar um lugar ao sol enquanto todos percebem que se valem de um ódio – no caso dos mais famosos atualmente, de um ódio contra Lula e o Partido dos Trabalhadores. O ódio destrói a crítica que poderia ser interessante em qualquer momento. O ódio, como sabemos, é plantado em corações vazios, em mentes despreparadas para a política por meios de comunicação que em tudo são máquinas protéticas que definem hoje o caminho, a verdade e a vida da população.

O neoliberalismo é essa religião que programa um caminho, uma verdade e uma vida para cada um. O caminho é o mesmo, o da servidão voluntária ao mercado, ao capitalismo neoliberal.

O que Lula significa para o Brasil nesse momento? Qualquer líder que possa atrapalhar concreta ou simbolicamente o cenário do poder econômico, a descarada tendência dominante há tempos, será destruído, descartado, eliminado. Lula em tudo é o anti-Temer. Querido, amado, altamente expressivo como ser humano, capaz de encantar os mais exigentes estadistas e massas inteiras de gente simples, Lula continua impressionando os intelectuais, os que pensam e até aqueles que não se preocupam muito com política. Ele foi e continua sendo o mais perigoso dos líderes capazes de atrapalhar o cenário político previamente estabelecidos pelos donos do Brasil, simplesmente por um fator. Ele é amado pelo povo que nele se reconhece e nele votaria pura e simplesmente. Me refiro ao povo, às pessoas das classes humilhadas e exploradas que lhe eram fiéis e que, nesse momento, passam a amá-lo mais ainda. Do mesmo modo que, aqueles que ainda não tinham percebido a sua dimensão, diante das injustiças das quais é vítima, passam a adorá-lo.

Mas essa parte da população, que é a imensa maioria, tem perdido seu espaço. E tem perdido a si mesma, seus corpos e suas mentes.

Há, sem dúvida, também o lacaio do neoliberalismo. Em geral, ele não gosta de Lula, não gosta de esquerda, mesmo quando se favorece com as lutas em nome de direitos e garantias sociais levadas adiante por movimentos, ativistas e até políticos de esquerda. O neoliberalismo não respeita nada que não seja útil, e o cidadão, entre ingênuo e astucioso, tenta “prestar” seu serviço ao capital. Não é só a ingenuidade do corpo docilizado o que entra em jogo na inércia da população, é também a covardia interesseira que o “aburguesamento” do mundo nos legou. Muitos que um dia foram honrados com a consciência de serem trabalhadores perdem agora o seu desejo de lutar – porque o desejo político é a coragem da luta – enquanto são rebaixados a produtores e consumidores. Para essas pessoas, a política vira uma humilhação. A política deve ser rejeitada, pensam aqueles que não sabem o que dizem, nem o que fazem.

O pensamento simplificador, típico de sociedades levadas à incapacidade de reflexão, e a correlata polaridade política, movida a desinformação e ódio, impedem a compreensão do significado de Lula para o Brasil. Hoje, há uma espécie de interdição à percepção de que há um Lula para além do Luiz Inácio Lula da Silva, político com qualidades e defeitos, eleito por duas vezes à Presidência da República.

Se o Lula de carne e osso foi racionalmente tolerado pelos detentores do poder econômico (afinal, os bancos nunca lucraram tanto), esse outro Lula, o do imaginário de imensa parcela da população brasileira (e que alcançou também a atenção de pessoas em todo mundo) tornou-se insuportável justamente no momento em que vem simbolizar o Brasil que volta a ser uma velha colônia usada e abusada pelos colonizadores de sempre, o velho capital internacional aliado hoje em dia de corporações e banqueiros que ocupam os cargos políticos como se fossem os donos do Brasil.

Lula continua em seu papel como representante do povo idêntico ao povo, um papel que é incomparável com qualquer outro político de seu tempo. Perseguido e humilhado, como é inevitável a um líder de sua envergadura, mas altivo e sem dever nada a ninguém, ele nos deixa um recado: “não há solução para nenhum país que não seja uma solução política”. Isso nos leva a pensar que o neoliberalismo em curso propõe soluções econômicas que favorecem os ricos e que esse favorecimento conta com a adesão do cidadão rebaixado a otário. Nas palavras de Lula “a desgraça de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta”. Precisamos sair desse lugar de otários em que fomos postos por uma produção discursiva que nos afasta de nosso próprio desejo por política e nos faz viver das decisões alheias que sempre nos desfavorecem.

O presidente Lula foi condenado como já se esperava, sem provas, a partir de acusações ridículas. Foi condenado por um juiz que só existe como figura pública porque se colocou a caçar o presidente. O juiz do Paraná lembra Michel Temer, é mais um dos “sem brilho próprio” que sobrevive tentando apagar o alheio. Após deixar de ser unanimidade, o que restará a esse cidadão é agradar alguns admiradores. Talvez Michel Temer, absolvido, Aécio, solto…

A estrela de Lula é maior. Não se apagará de modo algum da história do Brasil, nem do coração das classes humilhadas.

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