sábado, 15 de julho de 2017

15/7 - Blog " DE CANHOTA " DE HOJE

De Canhota


Posted: 15 Jul 2017 10:08 AM PDT
Publicado originalmente no Público.


A atual situação do Brasil suscita da parte da opinião pública internacional sentimentos contraditórios, alguns dos quais duvidando da própria viabilidade da democracia e de um projeto progressista neste país. Após as inegáveis conquistas alcançadas pelos primeiros governos do PT, a economia entrou em recuo e, com o polémico processo de deposição da ex-Presidente Dilma Rousseff, a sociedade brasileira mostra-se mais dividida do que nunca sem que se vislumbre no horizonte uma saída credível. É perante esse cenário e animados pela inquietação daí decorrente que apresentamos uma leitura (assumidamente engajada) da atual conjuntura política do país, a partir dos olhares cruzados de cada um dos lados do Atlântico.

A absolvição da chapa Dilma-Temer no passado dia 9 de junho (numa votação 4-3 e contra o parecer do relator, o ministro Herman Benjamin), por parte do Tribunal Superior Eleitoral, pareceu garantir algum fôlego ao governo Temer. No entanto, a denúncia apresentada no Congresso pelo procurador-geral da República (PGR), Rodrigo Janot, acusando Temer de ser o real destinatário do pagamento de 500 mil reais numa mala enviada pela empresa JBS — propriedade dos irmãos Batista (José, Joesley e Wesley), é hoje um dos maiores grupos econômicos brasileiros, atuando no setor das carnes, fundado em Goiás na década de 1950 e que beneficiou dos apoios do Banco Nacional do Desenvolvimento/BNDES —, veio repor os termos do dilema brasileiro: não há saída para a atual crise política que dispense a soberania popular, ou seja, a mobilização da sociedade civil.

As recentes manobras do presidente do Parlamento, Rodrigo Maia, tramando contra o atual Presidente não deixam dúvidas: o governo Temer balança trôpego entre a sua defesa jurídica perante a abundância de provas de corrupção produzida pela Polícia Federal e a tentativa, cada dia mais desesperada, de aprovar as suas reformas antipopulares: a legislação laboral, que suprime direitos e fragiliza o sistema de proteção do trabalhador brasileiro, e a Segurança Social, que aumenta o tempo de contribuição e, praticamente, elimina o direito à aposentação de milhões de cidadãos, em especial os que se encontram na zona da economia informal.

Com as sondagens a revelar uma “popularidade” nuns míseros 7%, o índice mais baixo em três décadas, é difícil acreditar que a campanha pelas eleições “diretas já!” não tenha ainda arrancado no país. Naturalmente, existem muitas razões para isso. No entanto, e apesar do esforço dos movimentos sociais, em especial, da Frente Povo Sem Medo, uma coligação liderada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e de alguns partidos políticos esquerdistas, caso do PSOL, por exemplo, a verdade é que a mobilização popular contra Michel Temer tem esbarrado nos últimos tempos numa certa reticência por parte da principal liderança popular da história brasileira: Luiz Inácio Lula da Silva.

Claro favorito às eleições presidenciais marcadas para o próximo ano, Lula da Silva parece sentir-se desconfortável com as implicações de um eventual derrube do governo ilegítimo de Temer por um massivo movimento popular impulsionado por forças políticas à esquerda do seu partido. Quais seriam as implicações políticas de um movimento desta natureza para a “governabilidade” do país, leia-se, para os acordos com os possíveis aliados no Congresso para a formação de um novo governo liderado pelo PT? “De que adianta Temer cair pela pressão popular se não houver uma mudança na composição do Congresso Nacional?”, parece ser esta a angústia de Lula da Silva. Isso talvez ajude a explicar as atuais negociações da direção majoritária do PT (com o deputado conservador Rodrigo Maia) para afastar Michel Temer do poder. 

Além disso, o PT está muito mais preocupado em defender Lula das acusações da operação Lava-Jato, assegurando assim a sua participação na eleição agendada para o próximo ano, do que investir na mobilização das suas bases sindicais a fim de derrubar o atual governo. A desmarcação da greve geral inicialmente prevista para o dia 30 de junho aponta nesse sentido. Fica claro que Lula da Silva está com a cabeça em 2018. Por outro lado, a liderança petista está ciente de que Lula da Silva pode muito bem ser condenado nas duas primeiras instâncias do sistema judiciário brasileiro, situação que inviabilizaria a sua candidatura em 2018. A somar a tudo isso paira no ar o problema nevrálgico de um eventual terceiro mandato do líder petista: com qual agenda social e econômica Lula irá governar?

Aparentemente, a resposta é simples. Lula da Silva está prometendo uma versão atualizada dos “PACs”, Programas de Aceleração do Crescimento, já testados em seus mandatos. Trata-se de um plano de investimentos em infraestruturas associado a estímulos ao agronegócio, às mineradoras e ao setor do petróleo, encimado pela oferta de crédito para os consumidores adquirirem frigorificos, carro e casa própria. Uma repetição dos anos 2006-2014, como é possível perceber. Além dos limites impostos ao sucesso deste modelo de desenvolvimento pelo fim do superciclo das “commodities” e pela crise da globalização iniciada em 2008, a verdade é que tal modelo foi incapaz de produzir empregos de qualidade para a classe trabalhadora, de sustentar o crescimento econômico ou de reverter a desindustrialização promovida pela globalização. Na realidade, este modelo multiplicou o trabalho precário e o endividamento das famílias dos setores subarternos.

No momento em que a crise política se agrava e a economia não dá sinais consistentes de reação, o Brasil apela a um modelo alternativo de desenvolvimento. O país carece de um novo caminho que aposte na proteção do trabalhador, na defesa dos direitos sociais, na retomada do investimento público, na distribuição de renda, na redução das desigualdades e na preservação ambiental. Para tanto, seria fundamental que as forças políticas progressistas fossem capazes, primeiro, de desenhar uma aliança realista e consistente entre elas e, segundo, ousassem enfrentar a financeirização e o estímulo ao rentismo (que no Brasil se alimenta de uma das mais altas taxas de juro praticadas no planeta).

Para caminhar nessa direção, um eventual novo governo petista terá de romper com tudo aquilo que, na sua essência, deu errado no passado recente. Já basta de “mais do mesmo”. Há que por fim a esquemas entre o poder político e o mundo empresarial (como os casos da Odebrecht ou da JBS). O Brasil necessita de uma agenda econômica e social capaz de fortalecer o seu frágil Estado social. Para tanto, o PT precisa dar uma guinada radical à esquerda. A recente reunião entre representantes da Frente Povo Sem Medo, do PSOL e de grupos da esquerda do PT avança nesta direção. A reação mal-humorada de Lula da Silva ao encontro das esquerdas denota o tamanho do desafio que os progressistas brasileiros estão enfrentando. O país necessita de uma “saída portuguesa”. Precisa de uma “geringonça”.


Ruy Braga é Sociólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP).

Elísio Estanque é Sociólogo e professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
Posted: 15 Jul 2017 09:56 AM PDT
Publicado originalmente na Folha.


A decisão judicial que condenou o ex-presidente Lula pode ser analisada por três aspectos: o técnico-jurídico, o histórico e o psicanalítico. Os dois primeiros absolvem o acusado, o terceiro ajuda a explicar aquilo que, na lição do jurista italiano Franco Cordero, se denominou quadro mental paranoico do juiz.

Do ponto de vista do rigor técnico-jurídico é importante afirmar que a sentença afronta a exigência constitucional de que fundamentadas sejam todas as decisões judiciais, ainda mais quando está em jogo a vida e a liberdade alheias. Só é legítima e válida a decisão judicial que indicar, concretamente, as suas premissas lógicas e o caminho racional percorrido pelo magistrado para resolver a contradição entre acusação e defesa.

Resolver essa dialética implica, portanto, em trabalho rigoroso de análise da prova colhida durante o processo e se ela seria suficiente para comprovar o quanto alegado na denúncia.

Alguns dados ajudam a compreender a absoluta nulidade da sentença que condenou o ex-presidente Lula. Cerca de 60 páginas, 30% da sentença, são utilizadas pelo juiz para se defender de acusações de arbitrariedades por ele praticadas contra o acusado e nos processos em que atua. Só 8%, cerca de 16 páginas, são utilizados para rebater e se contrapor ao que o acusado afirmou em seu interrogatório, e apenas 0,4% é dedicado às testemunhas da defesa, menos de uma página de um total de 218.

A questão central do processo, a titularidade do imóvel que teria sido recebido em contrapartida aos atos que beneficiariam empresas, é tratada pelo juiz com absoluto desdém, a ponto de dizer que no processo "não se está, enfim, discutindo questões de direito civil, ou seja, a titularidade formal do imóvel, mas questão criminal".

Ora, para resolver o processo era fundamental que o Ministério Público provasse ter o ex-presidente recebido o referido imóvel em troca de favorecimentos a terceiros e, para o Código Civil, a única forma disso acontecer é com a transferência da sua titularidade.

Em resumo, a sentença pode ser caraterizada como uma expiação narcísica de atos autoritários do juiz, preenchida pelo profundo desprezo aos argumentos da defesa e pela miséria jurídica e intelectual. Lula estava condenado antes mesmo de ser julgado.

A ânsia em condenar a maior liderança popular do Brasil fez com que o juiz furasse uma fila de quatro processos de outros acusados que estavam prontos para sentença desde o ano passado. Tudo isso pela vaidade de tentar recuperar um protagonismo perdido, fruto do crescimento das críticas de setores sociais que antes o apoiavam.

O juiz que já havia favorecido Michel Temer ao criminosamente gravar a presidenta Dilma Rousseff e depois divulgar o conteúdo da gravação, novamente o faz, proferindo sentença absolutamente ilegal, em meio ao julgamento pela Câmara dos Deputados da admissibilidade de denúncia oferecida perante o STF.

É simbólico que a sentença contra Lula tenha sido proferida no dia seguinte à criminosa condenação dos direitos trabalhistas pelo governo ilegítimo que Moro ajudou a estabelecer e agora ajuda a se manter com suas estapafúrdias, ilegais e atabalhoadas decisões judiciais.

A esperança é que o Tribunal Regional Federal da 4ª Região possa, de forma imparcial, reformar a sentença e corrigir essa injustiça manifesta contra o ex-presidente e sua família. No julgamento da história, no entanto, Lula já foi absolvido.


Wadih Damous é Advogado, está deputado federal (PT-RJ), é vice-líder do partido na Câmara e ex-presidente da OAB/RJ.
Posted: 15 Jul 2017 09:33 AM PDT

O presidente cubano, Raúl Castro, denunciou nesta sexta-feira (14), uma perseguição política contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o objetivo de frustrar sua candidatura às eleições de 2018. 

"Ao companheiro, vítima de perseguição política e manobras golpistas, expressamos nossa solidariedade ante a tentativa de impedir sua candidatura à eleições diretas com uma inabilitação judicial", disse Castro no fechamento da primeira sessão do Parlamento cubano, transmitido pela emissora de televisão oficial.

A mensagem original, em espanhol:
"Al compañero Luiz Inácio Lula da Silva, víctima de persecución política y maniobras golpistas, le expresamos nuestra solidaridad ante el intento de impedir su candidatura a elecciones directas, con una inhabilitación judicial. Lula, Dilma Rousseff, el Partido de los Trabajadores y el pueblo brasileño tendrán siempre a Cuba de su lado." 
Raul Castro.
14 Julio 2017.
Posted: 15 Jul 2017 09:15 AM PDT
Publicado originalmente no Jornal GGN.


A condenação judicial do ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, representa um novo e grave capítulo do movimento golpista empresarial-midiático-judicial, que destituiu ilegitimamente uma presidente eleita e rasgou a Constituição de 1988.

No momento, as consequências imediatas ao ex-presidente não ultrapassam os limites do aborrecimento e da vexação persecutória. Para o sistema político e demais círculos da institucionalidade brasileira, delineados na transição da ditadura à democracia representativa e normatizados na Carta Constitucional de 1988, os efeitos potenciais beiram a pá de cal.

As atitudes em resposta à arbitrária decisão do Judiciário foram heterogêneas, envolvendo amplíssimo leque de opiniões e predisposições políticas no País. Marcadas tanto por comemorações deliberadas, cínicas e irrefletidas, quanto por gestos de solidariedade a Lula. Em relação aos últimos, manifestações atravessadas por exaltações acríticas, como também por ponderações que não deixavam de lastimar as suas opções políticas.

Nesse sentido, considero que tende a imperar nas avaliações sobre o ex-presidente um misto de satanização, mistificação e ilusão, infrutíferos à compreensão da relevância histórica e política de Lula. Igualmente, tendentes a obscurecer as suas acentuadas limitações.

Em primeiro lugar, vale chamar a atenção para o fato de que a reflexão política e histórica apoiada exclusivamente no comportamento e nas escolhas de um indivíduo tem nula capacidade explicativa. O contexto que enreda o sujeito, sua formação política e suas redes simbólicas e materiais de sociabilidade, tem grande peso na ação individual.

Lula tem quase 40 anos de atividade política exercida no centro da cena nacional. O ex-presidente não deixa de constituir um amálgama de diferentes tempos, lutas sociais, expectativas e cosmovisões políticas brasileiras, também influenciadas pelos distintos panoramas internacionais.

Como líder carismático que é, a trajetória de Lula tem sido caracterizada como a de um depositário de esperanças, anseios e vicissitudes dos seus seguidores. A sua força ou fraqueza, lembraria a teoria sociológica de Max Weber, é, em boa medida, expressão dos atributos e predicados daqueles que investem em Lula a capa do carisma.

Tomando como premissa a feliz expressão utilizada para intitular a cinebiografia do ex-presidente (dirigida por Fábio Barreto), “Lula, o filho do Brasil”, destaco abaixo alguns traços da longa trajetória política de Lula, com vistas a assinalar algumas congruências, características, dilemas e limitações que entrecruza(ra)m o personagem e o País.

1) Lula entrou no cenário nacional a partir da liderança sindical desempenhada na São Paulo das multinacionais. Um estado que alcançou hegemonia cultural, política e econômica no País, após o golpe de 1964. 
2) Era integrante de uma aristocracia operária. O capital estrangeiro concebido como variável importante para a geração de oportunidades de ascensão social dos trabalhadores. Nenhuma problematização acerca do perfil de atuação dos chamados investimentos externos na economia brasileira. A ditadura promoveu o ambiente ideológico entreguista favorável a tal percepção, precisamente por expurgar os nacionalistas do pré-1964, na seara partidária e nos movimentos sociais. 
3) Esse é um elemento decisivo do DNA político de Lula. Atravessa toda a sua trajetória. O filme de Leon Hirszman (“ABC da greve”, 1979) é muito ilustrativo. Não apenas demonstra a capacidade retórica e política de um tremendo galvanizador de vontades. Expressa também uma veia corporativista, de quem estava integrado ao sistema, na sua margem esquerda, sindical: o resultado das negociações com integrantes da Fiesp e do governo civil-militar foi a elevação dos salários dos metalúrgicos, mas assentada na determinação de reduções tributárias às empresas do setor. 
4) Nesse período de abertura, ao mesmo tempo em que Lula encontrava-se submetido à vigilância dos aparatos de poder, possuía espaço na grande imprensa para posicionar-se de maneira messiânica como líder da classe trabalhadora. 
5) Para o regozijo da Fiesp, das multinacionais, da burguesia doméstica e de muitos intelectuais uspianos, motivado por razões diferentes, a grande imprensa igualmente reservava espaço para Lula tecer considerações como a que segue: “A CLT é fruto do fascismo de Getúlio Vargas”. Pouco importava se a longa ditadura, então em erosão, havia sido instalada exatamente para silenciar os herdeiros políticos de Vargas. 
6) Uma teoria sociológica bastante influente, produzida na USP e operacionalizada por meio do uso de uma vaga e controversa categoria interpretativa – o populismo –, contribuiu para a criação da ambiência de ideias que permitiu construir notória legitimidade ao partido nascente de Lula. Denotando claro sabor europeizante, identificava na classe operária industrial o agente portador das mudanças sociais no País. Com efeito, Lula era símbolo maior. Mas, não importava se essa indústria era transplantada de fora. A questão nacional escanteada. 
7) No curso da década de 1980, a CUT e o PT participaram ativamente da organização e da mobilização de amplas frações da classe trabalhadora e da pequena burguesia, na cidade e no campo. Com isso, ofereceram importante contribuição para a reverberação e a introdução de direitos sociais na Constituição de 1988. Seguramente, Lula despontava como voz saliente nesse processo. 
8) Acompanhados de outros setores das esquerdas, especialmente do brizolismo, o PT e Lula deram grande colaboração na feitura de uma Constituição que ao menos buscasse compatibilizar, de maneira contraditória, os interesses e as aspirações dos de cima e de baixo da sociedade brasileira. 
9) Uma democracia enclausurada, nada afeita à participação popular nos processos decisórios, foi o fruto da correlação de forças políticas nesse período. Assegurando alguns direitos coletivos e sociais na carta magna e mantendo a CLT, contudo um pacto desigual e contraditório foi o resultado daquela correlação de forças. 
10) Direta ou indiretamente, em maior ou menor escala, todos os principais partidos políticos eram condicionados àquele ordenamento sistêmico. O PT não escapou à regra, como ficou bastante evidenciado posteriormente, nos anos de lulopragmatismo à frente do governo federal. 
11) O eleitoralismo foi prevalecendo, com a acomodação natural ao sistema político, à pauta midiática e aos contornos econômicos delimitados pela inserção subordinada, periférica e dependente do País na divisão internacional do trabalho. 
12) Especialmente no período de boom das exportações de bens primários – mais ou menos entre 2005 e 2012 –, o ex-presidente Lula foi alçado à posição de líder maior do sistema brasileiro capitalista subalterno e dependente. Expressão máxima, mais avançada, da conciliação de classes sustentada pela Constituição e da operacionalização de frutos econômicos nos marcos da dependência externa. 
13) Com isso, o grande capital nacional e internacional auferiu lucros extraordinários, sendo compatibilizados com a geração de empregos dotados de baixos salários e parca densidade educacional. O capitalismo periférico preservado, mas legitimado com oportunidades crescentes de trabalho assalariado e consumo popular. 
14) A fome, “retrato mais agudo do subdesenvolvimento”, como diria o bom e velho geógrafo Josué de Castro, combatida, entre outros, por intermédio de políticas oficiais de transferência de (pequenos) rendimentos. No interior sistêmico dos principais partidos, sobretudo Lula e o PT poderiam ter essa (tímida, mas importante) sensibilidade social. 
15) Grande respaldo popular de Lula no exterior, em particular na América Latina. Quem acompanhou o noticiário internacional e os posicionamentos de lideranças de nosso subcontinente pôde ter visto. Quem viajou até poucos anos atrás para alguns desses países, presenciou a imagem extremamente positiva de Lula entre nossos coirmãos. 
16) Um fenômeno que não era/é gratuito, em função da abertura da política externa brasileira ao Sul global, adotada por Lula e, um pouco menos, por Dilma, conferindo respaldo e credibilidade às ações de governos progressistas da região. 
17) Mesmo submetido aos parâmetros do capitalismo periférico e subordinado, o lulopragmatismo tentava de maneira “silenciosa” alternativas creditícias e comerciais ao centro capitalista: a participação na formação dos BRICS foi medida ousada, que pode(ria) incidir na correlação de forças internacionais. Especialmente deslocar o peso do FMI e do Banco Mundial enquanto fonte de empréstimos e condicionamentos. 
18) Contudo, não foram levadas a cabo medidas econômicas e políticas internas que dessem sustentação a uma participação mais sólida do Brasil no bloco. 
19) Por conseguinte, a adoção da tática do apassivamento popular, apostando nos mecanismos tão saudados da “governabilidade” possível, isto é, restringindo a participação política das classes trabalhadoras e de estratos da pequena burguesia ao ritual eleitoral, sob o influxo de negociações inter e intraelites. 
20) Nenhum caráter abertamente conflitivo frente ao grande capital nacional e internacional. Em meio à crise econômica derivada do refluxo das exportações, a presidente Dilma (PT) acenava para a agenda dos adversários conservadores, com apoio de Lula. Uma saída melancólica do governo, sem tensionar com a estrutura de poder, sem fazer qualquer apelo às camadas trabalhadoras e medianas. Sem qualquer medida de governo que oferecesse respostas à crise, pela via do atendimento das necessidades populares. Até hoje, aposta em algum milagre por cima, negociado.

Eis alguns traços muito esquemáticos da trajetória entrecruzada de Lula, seu partido e do Brasil das últimas décadas. Lula é um ator político complexo, ambíguo, controverso. Muito distante das costumeiras simplificações reducionistas, das avaliações unilaterais. Talvez consista na expressão mais saliente da solução de compromisso constitucional, hoje violada.

À esquerda do PT, particularmente entre os partidos que nasceram do seu desgarramento, as habituais denúncias de “traição” não convencem. Revelam muito mais as sofridas ilusões depositadas em Lula e no PT, por setores ditos socialistas que se desvincularam do PT. Como também o caráter colonizado, sobretudo eurocêntrico, das esquerdas brasileiras atuais.

Nos quadros de uma nação periférica, subdesenvolvida, convenhamos, um líder nascido da contraditória articulação entre questão social e apoio irrefletido ao capital estrangeiro, desde o início deveria indicar significativas limitações para as esperanças mudancistas. Talvez fosse a consciência política possível durante anos, entre as esquerdas, os movimentos sociais e sindicais. Deve, no entanto, urgentemente, ser superada. É ingenuidade.

Nos termos da tensão mais recente, ou a CLT ou a Fiesp (testa de ferro de multinacionais). Não há conciliação possível. Perdeu a CLT, “fascista”, como antigamente Lula e o petismo afirmavam. O grande capital, que visa o incremento da superexploração do trabalho, agradece.

A ruptura institucional em vigor, com o golpismo galopante, representa aguda guerra de classes imprimida pelas burguesias doméstica e forânea. A visão e a esperança mítica do petismo, em nossos dias, em torno da “salvação” nacional por meio de uma hipotética eleição presidencial de Lula, são componentes, no mínimo, questionáveis e ilusórios.

A habilidade negociadora do ex-presidente de nada serve no atual cenário. Ao menos, não para responder aos desafios da intensificação da dependência, de um neocolonialismo atroz, impostos pela agenda reacionária do bloco golpista.

O Brasil corre o sério risco de desintegração territorial, de alienação absoluta de qualquer laivo de soberania. E as burguesias associadas, de fora e de dentro da Nação, já demonstraram que esse é o seu projeto. A crise capitalista internacional, há alguns anos, em especial exemplificada pela atuação da “polícia” no mundo – os EUA –, responde, como alternativa, à violação sistemática do princípio da autodeterminação dos povos. Soberanias nacionais no Terceiro Mundo agredidas – com recursos hard ou soft –, almejando a expansão dos processos de mercantilização/comoditização. Absolutamente de tudo.

Por outro lado, as frações menores do capital nacional, setores da média e pequena burguesia, que tanto demonizam o ex-presidente, irrefletidamente jogam para escanteio o único líder que, mantendo os contornos do capitalismo periférico, atenderia aos seus interesses. Romper com as amarras do subdesenvolvimento, então, isso seria pedir muito a esses estratos de classe. Ciosos demais em garantir privilégios mesquinhos e portadores de um ultrajante colonialismo mental americanófilo. Servos voluntários do império.

Isso posto, na atualidade, a questão não é saber se Lula é “demônio” ou “salvador”. Não é uma coisa, nem outra. É saber se ele será completamente descartado pelo sistema em um avassalador processo neocolonizador, em que não há espaço para Lula, ou se será reincorporado, via solução de compromisso que mantenha a agenda neoconservadora prevalecente, com pequena atenuação, para resgatar um fiapo de credibilidade ao moribundo sistema político, institucional e econômico em processo de reconfiguração. Para pior.

Nesse caso, tenderia a exercer o papel de uma espécie de Perón dos anos 1970. Sem força, nem energia. Subjugado e rendido integralmente ao sistema. Por isso, entendo que o ex-presidente Lula e o seu partido já cumpriram os seus papeis históricos.

Para o Povo Brasileiro a única saída é organizar-se, formular e repercutir uma agenda antissistêmica, que vá além das linhas do subdesenvolvimento e do capitalismo dependente e periférico. Trata-se de uma luta de média e longa duração.

No momento, como ficou bastante evidente na fácil supressão das conquistas trabalhistas históricas, os agentes da mudança não apareceram. Mesmo a capacidade de resistência popular encontra-se frágil. Anos a fio de amplo apassivamento e desmobilização – sobretudo das centrais sindicais – não são superados em um estalar de dedos.

Ademais, os dilatados e a cada dia crescentes subemprego e desemprego, além de um sistema individualista e neoliberal de crenças, diuturnamente veiculado nos meios de comunicação, têm corroído duas matérias-primas centrais para as esquerdas, os movimentos sociais e a defesa dos interesses nacionais e populares: a solidariedade e a cooperação. Sem elas, não há mudança plausível. A emergência de alternativas e dos sujeitos da mudança irá requerer paciência, organização, mobilização, tempo e, em elevada medida, descolonização mental.


Roberto Bitencourt da Silva é cientista político e historiador

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