quarta-feira, 5 de julho de 2017

4/7 - Altamiro Borges DE HOJE

Altamiro Borges


Posted: 04 Jul 2017 08:35 AM PDT
Por Osvaldo Bertolino, no site Vermelho:

A explosão de popularidade do futebol no Brasil nas primeiras décadas do século XX despertou análises como as de Gilberto Freyre que já em 1936, no livro Sobrados e Mucambos, mencionou “a ascensão do mulato não só mais claro como mais escuro entre os atletas, os nadadores, os jogadores de futebol, que são hoje, no Brasil, quase todos mestiços”. No artigo A propósito de Pelé, publicado na Folha de S. Paulo em 3 de setembro de 1977, Freyre comparou o rei a Machado de Assis, Euclides da Cunha, Heitor Villa-Lobos e Oscar Niemeyer. O que os une? A genialidade.

Um personagem que sintetiza o potencial do universo futebolístico é João Saldanha. Como jornalista, técnico e dirigente ele traduziu, mais do que ninguém, o que a crônica esportiva chama de “magia do futebol” - história brilhantemente reconstituída pelo jornalista André Iki Siqueira no livro João Saldanha, uma vida em jogo, publicado pela Companhia Editora Nacional. Em 550 páginas, Siqueira conta os 73 anos de vida do jornalista - dos quais a maioria vivida também como militante do Partido Comunista.

O senhor organiza o seu ministério, e eu organizo o meu time

Saldanha chegou ao posto mais alto do futebol brasileiro em fevereiro de 1969, quando assumiu o cargo de técnico da seleção. Dirigiu o time brilhantemente em pleno governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, o general que comandou o período mais violento da ditadura imposta pelo golpe de 1964. Para ele, Médici era o maior assassino da história do Brasil. O paradoxo terminou treze meses depois, em 17 de março de 1970, quando Saldanha foi demitido depois de um turbulento período de interferência do presidente na seleção. Em uma “Carta aberta ao futebol brasileiro”, publicada pela revista Placar de 27 de março de 1970, o já ex-técnico da seleção puxou o fio da meada e explicou como o regime colocou verdadeiros cães de guarda para vigiar seus passos.

Foi uma trama urdida pelo presidente da então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange, e o ministro da Educação, o coronel Jarbas Passarinho. O ministro nega, no livro de Siqueira, que Médici tenha dado ordem para demitir Saldanha. Mas, em entrevista publicada pela Fundação Getúlio Vargas, o general e também ex-presidente da República Ernesto Geisel afirma que:

"“Médici teve um papel importante nessa vitória (da Copa de 1970), porque influiu na nossa representação, inclusive na escalação da delegação brasileira e na escolha dos técnicos".”

A crise começou quando surgiu o boato de que Médici queria a convocação de Dario, centroavante do Atlético Mineiro, sem o perfil das “feras do Saldanha” - como era chamada a seleção.

“"O senhor organiza o seu ministério, e eu organizo o meu time”, respondeu o técnico por meio dos jornalistas".

Dias antes, em janeiro de 1970, ele esteve no México para acompanhar o sorteio das chaves da Copa do Mundo de 1970 e disse que havia terríveis torturas no Brasil.

"“Levei para o México uma pilha de documentos sobre 3 mil e poucos presos, trezentos e tantos mortos e não sei quantos torturados”", afirmou.

O clima ficou pesado. Convidado para um jantar com Médici em Porto Alegre, Saldanha respondeu:

"“Não vou. O cara matou amigos meus. Tenho um nome a zelar".”

O caso terminou com duas sentenças sumárias.

“Está dissolvida a comissão técnica”, disse Havelange.

“Não sou sorvete para ser dissolvido”, rebateu Saldanha.

Franco, ele imediatamente foi ao microfone da Rádio Globo, onde trabalhava, e desancou:

“O futebol brasileiro tem tanta força que passará por cima desses homens, covardes e pusilânimes.”

Personalidade forte

A personalidade forte era uma herança dos pais. Gaspar Saldanha, o pai, além de renomado advogado foi maragato e participou das batalhas contra os chimangos no extremo Sul do Brasil. Era bisneto de Rodriguez Chávez, conhecido como Arredondo, nome de peso na independência do Uruguai. No Acre, o gaúcho que comandou a reconquista daquele espaço, José Plácido de Castro Jobim, era tio-avô materno de João Saldanha - sua mãe chamava-se Jenny Jobim Saldanha.

Com esse escopo hereditário correndo nas veias, ele chegou ao Rio de Janeiro, em 1931, trazido pelo pai que participou intensamente da Revolução de 1930 liderada por Getúlio Vargas.

O time do Botafogo de Futebol e Regatas, formado por bons jogadores gaúchos - como Benevenuto, Otacílio, Martim Silveira, Luís de Carvalho, Luís Luz e Benedito - logo atraiu a sua atenção. O futebol na praia — ao lado de nomes conhecidos como Sandro Moreyra (que seria um famoso cronista esportivo), Altthemar Dutra de Castilho (que presidiria o Botafogo), Carlinhos Niemeyer (o criador do Canal 100), Sérgio Porto (que se transformaria no Stanislaw Ponte Preta) e Heleno de Freitas (que seria um genial jogador), treinados pelo não menos famoso Neném Prancha (o filósofo do futebol) — evoluiu para uma carreira no juvenil do Botafogo.

Comunista

Outra atividade de Saldanha era o curso de direito na Universidade do Distrito Federal (atual UERJ). Em pouco tempo, conheceu os universitários comunistas e se ligou a eles. Logo seria enviado à Europa e às Américas como uma espécie de porta-voz do Partido Comunista do Brasil (então PCB). Em 1938, assistiu a Copa do Mundo na França quando viajava pela Europa como integrante de uma seleção universitária de futebol. De volta ao Brasil, seguiu para Montevidéu a fim de levar dinheiro aos exilados comunistas no Uruguai. De lá, foi para os Estados Unidos e o México. Eram as primeiras tarefas de uma militância intensa que perpassaria sua vida.

Além do futebol e da militância, Saldanha envolveu-se com o carnaval. A carreira de jogador terminou depois de uma séria contusão no tornozelo durante um treino do Botafogo. Trabalhou um período no cartório do pai, não se adaptou e voltou ao clube como dirigente. Mas as viagens em missão política eram constantes.

Depois da Segunda Guerra Mundial (1945), aceitou fazer trabalhos para uma agência de notícias sobre o Leste Europeu, onde se tornou jornalista. No Brasil, foi convidado a escrever na Folha do Povo. Assumiu também a função de secretário-geral da União da Juventude Comunista (UJC).

Ao lado de Apolônio de Carvalho, o presidente da UJC, tocou a política do PCB no movimento estudantil. Foi preso, fichado e solto. No dia 9 de abril de 1949, durante a abertura do I Congresso de Defesa da Paz e da Cultura, desfechou uma cadeirada em um dos policiais que entraram na sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) para empastelar a reunião. Começou um tiroteio e Saldanha foi atingido nas costas — a bala alojou-se em seu pulmão direito. Participou também da campanha “O Petróleo é nosso”.

Ao mesmo tempo, dedicava-se ao Botafogo. Como diretor de futebol, conquistou o título estadual de 1948.

A perseguição policial aumentou e em 1949 Saldanha fugiu para a Europa. Foi enviado para a Escola de Quadros do Partido Comunista em Praga, na Tchecoslováquia, e seguiu para a China a fim de fazer a cobertura da revolução. Em 1950, a saudade da família e a Copa do Mundo trouxeram Saldanha de volta ao Brasil. Voltou para a Europa e integrou a primeira turma de militantes comunistas que fez o curso de formação de longa duração em Moscou. A convite da Federação Mundial da Juventude Democrática, voltou à China para participar do primeiro aniversário da revolução.

A mesma agência em que trabalhara cobrindo o Leste Europeu após a Segunda Guerra Mundial, convidou Saldanha para enviar notícias da China. Quando se preparava para deixar o país, estourou a Guerra da Coréia e ele correu para lá. Uma cirurgia na China depois de uma crise de apendicite, somada à deficiência pulmonar decorrente do tiro na sede da UNE e agravada pelo tabagismo, fez Saldanha retornar ao Brasil. Por orientação partidária, foi morar na cidade de São Paulo e, entre suas tarefas, escrevia para o jornal Notícias de Hoje.

De São Paulo, estabeleceu ligações com o Partido no Paraná e dirigiu politicamente a revolta camponesa de Porecatu. Um grupo de militantes do Partido na região viajara ao Rio de Janeiro para fazer contato com o deputado comunista Pedro Pomar — que manteve o mandato após a cassação dos parlamentares do PCB, ocorrida em 1948, por ter se elegido pelo PSP — a fim de pedir apoio. Pomar levou o caso à direção partidária, que decidiu enviar Saldanha à região. Sua atuação foi além da orientação política — ele pegou em armas para lutar ao lado dos camponeses. Saldanha também enviava notícias para os jornais e assim o assunto ganhou a mídia.

Escritor

Em 1953, quando estourou a “Greve dos Trezentos Mil” em São Paulo, Saldanha também estava por trás do movimento. Mas o seu coração botafoguense o levou de volta ao Rio de Janeiro. Em 1956, assumiu o comando técnico do time após a demissão do experiente Zezé Moreira. Treinou e dirigiu “uma máquina de jogar”, como dizia, formada por gênios como Garrincha, Didi e Nilton Santos. Resultado: o Botafogo foi campeão carioca de 1957. O sucesso do time levou o Botafogo a excursionar pelo mundo e a ganhar o apelido, na América Latina, de “La máquina”.

O futebol brasileiro passava por uma metamorfose, que teria entre outras glórias a conquista da Copa de 1958. Saldanha analisaria esse período em livros que publicaria mais tarde. Em Na Boca do Túnel, escreveu que no final da década de 1950 o futebol evoluía a passos gigantescos.

“A capacidade de resistência dos jogadores, sua habilidade com a bola, estão criando situações inteiramente novas em relação às posições clássicas dos sistemas que estão sendo levados de roldão pela prática do jogo. Um jogador, para ser eficiente, tem de saber jogar em várias posições. Tem de saber defender e atacar; e qualquer sistema moderno que pretenda ser eficiente tem de compreender que não pode ser rígido. Estamos mais do que nunca precisando disso. O futebol é arte popular. Não podemos continuar atrasados”, disse.

Saldanha escreveu também, em 1963, o livro Subterrâneos do futebol - título que homenageou seu camarada Jorge Amado, que escrevera Os subterrâneos da liberdade.

Em 1959, comentou, pela Rádio Nacional, o campeonato sul-americano disputado em Buenos Aires. Gostou da experiência e resolveu dedicar-se exclusivamente à função de comentarista.

Waldir Amaral, ícone do rádio esportivo brasileiro e fã de Saldanha, cunhou slogans que marcariam a nova fase do ex-técnico do Botafogo. “O comentarista realmente técnico” era um deles. Outro, após a Copa de 1970: “O comentarista esportivo que o Brasil inteiro consagrou.” Seu jeito direto e didático conquistou as torcidas — virou referência para os torcedores que buscavam em sua opinião os esclarecimentos sobre os acontecimentos nos jogos.

Saldanha trabalhou inicialmente na Rádio Guanabara, que fez parte da expansão da Cadeia Verde-amarela (que pertence à Radio Bandeirantes, de São Paulo), com uma fabulosa equipe de locutores comandada pelo memorável Edson Leite. Depois foi para a Rádio Nacional, que também formou um timaço. Oduvaldo Cozzi, Jorge Cury, Doalcei Bueno de Camargo, Sérgio Paiva, Mário Vianna e Vitorino Vieira eram alguns dos craques que trabalhavam com Saldanha. No livro A Estrela Solitária, biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, o autor diz:

“Saldanha revolucionou o comentário sobre futebol. Raspou o ouro parnasiano, de porta da Colombo (confeitaria tradicional do Rio de Janeiro), que caracterizava o gênero, e impregnou-o com o clima de porta de botequim.”

A popularidade do futebol subia pelo elevador. O Brasil ganhara também a Copa de 1962 no Chile e o jornalismo esportivo se especializava. Surgiu, nesse período, a Grande Revista Esportiva Facit, transmitida pela TV Rio, canal 13, a primeira mesa-redonda futebol exibida pela televisão ao vivo. Saldanha integrou a equipe do programa, que logo caiu nas graças das torcidas. Luiz Mendes conta, no livro de Siqueira, que era “uma bíblia dominical do esporte brasileiro”.

Faziam parte da Grande Revista Esportiva Facit nomes lendários como Armando Nogueira e Nelson Rodrigues. Em 1966, quando a TV Globo começou a despontar como a poderosa emissora brasileira, o programa foi levado para lá.

Siqueira conta que no rádio e na TV Saldanha ia consagrando palavras e pensamentos muito reais do cotidiano das pessoas. Para analisar os motivos de uma renda baixa, por exemplo, ele dizia:

“Sacumé, fim de mês, a moçada tá dura.”

Ao mesmo tempo, escrevia, com o mesmo talento, comentários no jornal Última Hora.

Durante a Copa de 1966, na Inglaterra, que comentou pela Rádio Nacional, Saldanha concedeu várias entrevistas para emissoras estrangeiras com a mesma franqueza com que falava aos brasileiros. Em uma delas, o entrevistador perguntou o que ele tinha a dizer sobre a matança de índios no Brasil.

“Nosso país tem 470 anos de história. Nesses 470 anos, foram mortos menos índios do que em dez minutos de uma guerra provocada por vocês. Os selvagens são vocês”, tascou.
“João Sem Medo”

A perda da Copa de 1966 desencadeou uma crise no comando da seleção brasileira. Para surpresa geral do país, o presidente da CBD, João Havelange, convidou Saldanha para assumir o cargo. Em uma crônica no jornal O Globo, Nelson Rodrigues anteviu os passos do novo comandante da seleção.

“Estranho mundo em que não se dá um passo sem esbarrar, sem tropeçar, sem pisar nas víboras inumeráveis. (…) Já sabemos que a competência é amargamente antipatizada no futebol brasileiro. Claro, e repito: a competência tira o pão da boca dos idiotas enfáticos e dos aproveitadores vorazes.”
De fato, a sordidez espreitava Saldanha.

Siqueira diz que ele pretendia continuar denunciando, agora com mais repercussão, o que estava acontecendo no país. O novo técnico montou um time de “feras” e o sucesso da seleção fez o regime se levantar contra ele. A CBD era uma entidade ligada ao Ministério da Educação e Cultura, ocupada por Jarbas Passarinho, e uma eventual conquista da Copa com Saldanha à frente do selecionado seria um constrangimento para os generais golpistas. Nelson Rodrigues, em sua famosa crônica “João Sem Medo” no jornal O Globo, resumiu a questão:

“Um amigo meu, bem-pensante, veio me perguntar: ‘Você acha que o João tem as qualidades necessárias?’ Respondi: ‘Não sei se tem as qualidades necessárias. Mas afirmo que tem os defeitos necessários.’ E, realmente, o querido Saldanha possui defeitos luminosíssimos.”

Um desses “defeitos” era que ele fechava espaços para a ditadura capitalizar a provável conquista do tri. E a mídia, servil ao regime, começou a fustigá-lo. O complô estava armado. Daí para a queda, foi um passo. Depois da turbulenta passagem pelo comando técnico da seleção brasileira, Saldanha continuou escrevendo para o jornal O Globo e comentando na Rádio Globo. Em 1972, começou a fazer o Dois Minutos, na TV Globo, um programa diário sobre futebol e esporte em geral que ia ao ar antes do Jornal Nacional e durou até 1974. Passou por outras emissoras, festejou a volta dos seus camaradas com a anistia, mas nunca deixou o futebol.

Em sua crônica intitulada “Pelo Cano”, publicada dia 23 de março de 1982 no Jornal do Brasil, escreveu: “Nosso único produto interno bruto que dá é o futebol. Falam no carnaval. Nada disto. Faça um desfile de escolas por semana e no fim de um mês a sociedade brasileira pedirá por amor de Deus para pararem.”

Apesar da “teimosia siderúrgica” do técnico Telê Santana, vibrou com a seleção de 1982. Voltou à militância política, foi candidato a vice-prefeito da cidade do Rio de Janeiro pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1985 e participou ativamente da redemocratização do país. Morreu na Itália, participando da cobertura da Copa de 1990 pela Rede Manchete de Televisão. Saldanha viveu a vida como ela deve ser vivida. Brigou, namorou, casou várias vezes, escreveu muito e deixou uma bela história para o futebol brasileiro. Jogou com a vida. E ganhou.

* Osvaldo Bertolino é jornalista e escritor. Texto publicado originalmente na revista Princípios, em junho de 2014.
Posted: 04 Jul 2017 08:26 AM PDT
Por Ruben Berta, no site The Intercept-Brasil:

Praticamente quatro anos depois de ter sido realizada, uma festa de casamento volta à memória dos cariocas. Na virada de 13 para 14 de julho de 2013, mais de mil convidados foram ao Copacabana Palace para uma celebração que tinha tudo para ser inesquecível – e foi. Champanhe Veuve Clicquot, uísque Black Label e um bolo que, como descreveu a colunista Hildegard Angel, "era um acontecimento". Com direito até a show do cantor Latino (era a época de “Festa no apê”), não teria saído por menos de R$ 1 milhão a união em matrimônio Beatriz Barata e Francisco Feitosa Filho. O azar dos noivos é que, naquele julho de 2013, ainda vivíamos uma onda de protestos que tiveram como um dos principais motes as mazelas do sistema de transporte público.

Naquela madrugada, a magia do momento foi quebrada por gritos que vinham do calçadão da Avenida Atlântica. “Ah, ah, ah, o noivo vai brochar!” e “Uh, uh, uh, todo mundo para Bangu” eram alguns dos cantos entoados por um grupo bem-humorado de ativistas. Nesta segunda-feira, 3 de julho de 2017, parece que as preces dos manifestantes finalmente foram atendidas: o pai da noiva, o empresário de ônibus Jacob Barata Filho, foi preso pela Polícia Federal, acusado de participação num esquema de propinas a políticos e servidores do estado que pode ter passado da casa de R$ 200 milhões.

Para rebater aquele incômodo que vinha de fora, alguns convidados lançaram objetos – até um cinzeiro! – na direção dos manifestantes. Notas de 20 reais também foram arremessadas. Por volta de 3h, o Batalhão de Choque chegou e, com a delicadeza de sempre, acabou com a festa na calçada.

Por causa daquele protesto, o “casamento da Dona Baratinha”, como foi apelidado, ficou famoso fora das rodas do high society carioca e, com a prisão do pai Barata, as fotos das festas (a de dentro e a de fora) voltaram a ser lembradas. Mas o que mais será que os salões do Copacabana Palace teriam a revelar? Uma lição fica: é sempre bom desconfiar de casamentos nababescos que tiveram como palco um dos hotéis mais luxuosos do país. Vamos, então, recordar.
2004, Cabral & Adriana

Em abril de 2004, o então senador Sérgio Cabral Filho reuniu cerca de 900 pessoas nos salões do hotel para celebrar a união com a advogada Adriana Ancelmo. O evento, que teve direito à cobertura da revista “Casamento”, teve luxos como 4 mil dúzias de rosas vermelhas na decoração. Não é nem preciso lembrar que fim levou o casal. O noivo está preso numa cadeia em Benfica, Zona Norte do Rio, graças a investigações decorrentes da Lava Jato, réu em 11 processos. A noiva teve um pouco mais de sorte e aguarda as sentenças em prisão domiciliar, num apartamento a alguns metros da praia do Leblon, na Zona Sul.

2011, Danielle Cunha & Ariel Doctorovich

Um casamento de 2011 envolvendo outro figurão da política que agora está atrás das grades foi até parar nos documentos da própria Operação Lava Jato. Em 25 de junho daquele ano, Danielle Cunha, filha do então deputado Eduardo Cunha, ocupou os salões do Copacabana Palace para celebrar seu momento de felicidade com o economista Ariel Doctorovich. No pedido de prisão do parlamentar, de outubro do ano passado, os procuradores colocaram sob suspeita gastos de R$ 267,3 mil com a festa, após quebra de sigilo fiscal realizada pela Polícia Federal.

“Embora a questão ainda mereça maior aprofundamento, resta claro que o dinheiro usado para o pagamento do casamento de Danielle Dytz da Cunha era proveniente de crimes contra a administração pública praticados pelo seu pai, o ex-deputado federal Eduardo Cunha”, afirmou a Força-Tarefa da Lava Jato.

2013, Ângelo Goulart Villela & Ana Luiza Zorzenon

Em 2013, mesmo ano em que a “Dona Baratinha” se casou no Copacabana Palace, outro personagem que ficou conhecido recentemente graças às investigações da Lava Jato também usou os salões do hotel. No dia 7 de setembro, o procurador Ângelo Goulart Villela fez ali a festa de celebração da união com a também procuradora Ana Luiza Zorzenon, com direito a shows de MC Marcinho e da bateria da Mangueira.

Ângelo foi denunciado no mês passado pela Procuradoria Regional da República da 3ª Região pelos crimes de corrupção, violação de sigilo funcional e obstrução de Justiça. As investigações da Operação Patmos apontaram que ele teria recebido uma mesada do empresário Joesley Batista, do grupo JBS, para mantê-lo informado sobre os passos de outra operação, a Greenfield, que apura fraudes em fundos de pensão.
Famílias unidas no amor e nos negócios

O famoso casamento de Beatriz Barata fez parte de mais um capítulo de união no mundo dos ônibus. Seu noivo era Francisco Feitosa Filho, que herdou o nome do pai, um conhecido empresário de transporte rodoviário no Ceará. As duas famílias já possuíam negócios juntas desde 2008, fazendo com que o amor tenha sido apenas mais um laço entre elas. O evento também serviu para reunir diversas autoridades, como o atual ministro do STF Gilmar Mendes, que foi um dos padrinhos.

Há quem possa levantar a lebre de que Beatriz seria apenas uma filha que, ingenuamente, usufruiu do dinheiro do pai para realizar seu sonho. Mas a noiva do Copa também tem sua participação nos negócios da família. Uma ata de assembleia de 2015 da empresa União Transporte Interestadual de Luxo (Útil) mostra, por exemplo, que Beatriz Barata Feitosa assumira, em outubro daquele ano, o cargo de diretora da firma. O mandato era de dois anos. Um detalhe revelou como a união dela preservou os feudos de cada família: foi descrito no documento que ela se casou com Francisco Feitosa Filho sob o regime de separação total de bens.

Com uma movimentação intensa de casamentos, é bem possível que a Lava Jato atinja num futuro próximo outros personagens que já passaram pelo Copa e outros luxuosos salões do país. O talvez mais famoso presidiário do Rio atingido pela operação, o ex-governador Sérgio Cabral, já esteve pelo menos em mais um evento por lá, além do seu próprio matrimônio.

No dia 27 de abril de 2014, ele participou do festão do desembargador Luiz Zveiter, ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio. Naquela noite, para não perder o hábito, fez algo que não devia: estacionou o carro irregularmente na Avenida Atlântica e foi multado. Mas o que são uns R$ 50 a menos na conta e uns pontos na carteira diante de um festão no Copa?
Posted: 04 Jul 2017 08:14 AM PDT
Por Igor Fuser,  na revista Fórum:

O conflito na Venezuela ingressou num período decisivo, com todo um conjunto de sinais de que a oposição direitista optou por uma tática de “tudo ou nada” na tentativa de inviabilizar a eleição da Assembleia Constituinte, marcada para o dia 30 de julho. O objetivo da ofensiva política em curso é derrubar, por qualquer meio, o governo legítimo do presidente Nicolás Maduro.

Atos violentos que em qualquer outro lugar do mundo mereceriam a definição unânime de terrorismo foram cometidos na semana passada por milícias fascistas opositoras, sob o silêncio condescendente dos jornalistas estrangeiros. A ação mais chocante foi a destruição de um depósito da rede estatal de abastecimento Mercal, com a queima de 50 toneladas de alimentos que seriam distribuídos em comunidades pobres do estado de Anzoátegui. A suprema ironia foi uma pichação pintada numa parede pelos fascistas: “No más hambre” (“Chega de fome”). Ou seja: a oposição, na busca desesperada de promover o caos, já não disfarça sua estratégia de guerra econômica. Age abertamente para agravar os problemas da escassez e da alta dos preços, com a clara intenção de culpar o governo pela crise e fragilizá-lo politicamente.

Em outra ação terrorista, na mesma semana, um grupo liderado por um ex-policial que se passou para o lado da oposição jogou granadas e disparou tiros contra a sede do Supremo Tribunal de Justiça, em Caracas, a partir de um helicóptero roubado. Só por pura sorte o episódio ficou restrito ao susto, sem vítimas. O agressor, elogiado por políticos da oposição e festejado como “herói” nas redes sociais antichavistas, ostentava na janela do helicóptero um pano com o número 350, em alusão ao dispositivo constitucional que permite – em tese – a rebelião contra qualquer governo que pratique violações aos direitos humanos. Não por acaso, na véspera do ataque, líderes oposicionistas haviam se declarado em estado de “desobediência civil” invocando justamente esse artigo da Constituição.

Escalada do terror

A atual ofensiva da burguesia venezuelana, apoiada ostensivamente pelo governo e por setores da cena política dos Estados Unidos, já completou três meses, e está muito longe de alcançar seus objetivos. A violência é empregada, em intensidade crescente, por opositores organizados em grupos armados, com treinamento militar e hierarquia de comando. Já não é simplesmente uma situação em que protestos pacíficos degeneram em confronto com policiais. É algo muito mais grave. Todos os dias, ocorrem ataques a escolas infantis, hospitais e edifícios públicos em geral, com o uso de bombas e de armas de fogo. Duas cidades tiveram suas frotas inteiras de ônibus incendiadas por esses grupos, apoiados por lideranças da oposição. Qualquer instalação pública pode se tornar um alvo – uma estação elétrica, uma delegacia de polícia, um posto de saúde, uma agência da receita federal.

A escalada do terror causou até o final de junho 92 mortes, das quais apenas 13 podem ser atribuídas às forças estatais de segurança, enquanto ao menos 24 ocorreram comprovadamente em consequência da violência opositora. Há um alto número de vítimas fatais nos ataques a estabelecimentos de comércio, quando grupos organizados incitam a população ao saque, gerando a reação dos proprietários. Várias pessoas morreram tentando ultrapassar os bloqueios de vias públicas – as famosas “guarimbas”, que geralmente têm lugar em bairros ricos e em municípios administrados por partidos de direita. Há também casos de pessoas assassinadas apenas por serem chavistas, ou identificadas como tal.

O atual ciclo de instabilidade política na Venezuela teve início em janeiro de 2016, quando se instalou a nova composição da Assembleia Nacional, em que os deputados opositores, reunidos na Mesa de Unidade Democrática (MUD), formavam uma ampla maioria. Mas logo se criou um impasse, causado pela recusa da MUD em aceitar a impugnação de três de seus parlamentares, cuja eleição foi invalidada devido ao uso de fraude. Esses três deputados tomaram posse em desafio a uma ordem do Judiciário, o que deixou o Legislativo em situação irregular, conforme interpretação do Tribunal Superior de Justiça.

A bancada da MUD, majoritária na Assembleia Nacional, declararou guerra ao Poder Executivo. Em lugar de elaborar propostas de enfrentamento da crise econômica, concentrou suas energias em sucessivas tentativas de depor Maduro por meio do impeachment, sem sucesso. Fracassou também sua campanha para convocar um referendo revogatório em que a continuidade do mandato presidencial seria submetida ao voto popular. A iniciativa naufragou diante da comprovação de que boa parte das assinaturas apresentadas à Justiça Eleitoral nas petições pelo referendo tinha sido obtida por meio de fraude.

Sem paciência para aguardar as eleições presidenciais de 2019, a oposição escolheu então o caminho do golpismo. Intensificou a sabotagem econômica, valendo-se do fato de que a maior parte da distribuição de produtos está nas mãos do empresariado, maciçamente alinhado com a direita política. Por meio da escassez artificial, do aumento dos preços e da manipulação do mercado de câmbio para desvalorizar a moeda nacional (o bolívar), os opositores têm conseguido levar adiante sua estratégia de “quanto pior, melhor”, jogando nas costas do governo a culpa pelas dificuldades da economia, já abalada pela queda dos preços do petróleo.

Em paralelo, os líderes da oposição se articularam com as autoridades estadunidenses e com setores da direita em diversos países (governos, empresas, ONGs) para aplicar o cerco político e o boicote econômico à Venezuela. Uma lei aprovada recentemente no Congresso dos EUA destina US$ 9,5 milhões para financiar os grupos contrários ao governo venezuelano, sem contar o dinheiro que é encaminhado diretamente por ONGs, empresas privadas e por atores ilegais, como as milícias paramilitares da extrema-direita colombiana.

Para reforçar o apoio externo à sua causa, líderes da oposição venezuelana chegaram a se reunir com autoridades e congressistas em Washington, pedindo o envio de tropas para depor o governo do seu próprio país. Imaginem, só por hipótese, o que aconteceria se deputados estadunidenses viajassem a um país estrangeiro para pedir o uso de força militar a fim de expulsar Donald Trump da Casa Branca. Na Venezuela, chamada de “ditadura” pela mídia burguesa brasileira e internacional, os parlamentares que defendem a intervenção externa circulam em liberdade, continuam a exercer seus mandatos e se expressam diariamente pela televisão, rádio e internet.

Os golpistas brasileiros e o governo neoliberal argentino se engajaram até o pescoço nessa estratégia conspirativa, logrando que a Venezuela fosse suspensa do Mercosul. Mas a cartada mais importante, no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA), fracassou. O plano da diplomacia estadunidense e da direita regional era aprovar na OEA uma condenação ao governo de Maduro que significaria, na prática, o sinal verde a sanções econômicas contra a Venezuela e até mesmo a uma intervenção militar sob pretexto “humanitário”. A resistência de pequenos países do Caribe, solidários à Venezuela, e de integrantes da Alba, a Aliança Bolivariana para as Américas (Bolívia, Equador, Nicarágua, Cuba), barrou essa tentativa ao negar aos EUA e seus aliados a maioria qualificada necessária à aprovação da proposta (nesse processo, a Venezuela se retirou da OEA). Registre-se aqui a irresponsabilidade da diplomacia brasileira sob a gestão de Michel Temer, indiferente ao impacto negativo que uma guerra civil na vizinha Venezuela teria para o Brasil, com o ingresso maciço de refugiados e o tráfico de armas no nosso território, entre outros problemas.

Uma chance revolucionária

Até agora, o governo Maduro, as organizações populares e os partidos comprometidos com a Revolução Bolivariana se mantêm firmes no rumo das transformações sociais iniciadas na gestão de Hugo Chávez. Mesmo sob o assédio político, o contexto econômico internacional desfavorável e a sabotagem da burguesia local, os herdeiros políticos de Chávez dão andamento aos projetos sociais em benefício da maioria desprivilegiada. Nos últimos seis anos, a Misión Vivienda entregou 1,4 milhões de novas moradias (casas e apartamentos de qualidade) a famílias de baixa renda. Os programas de saúde, educação e aposentadoria seguem em plena vigência, sem cortes. Para fazer frente à escassez, foram criados os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAPs), que fornecem alimentos subsidiados para grande parte da população.

O estado de direito permanece em vigor e o calendário eleitoral está de pé, com eleições estaduais e municipais marcadas para o final deste ano. O conflito entre os poderes gerou uma situação de crise institucional, mas em momento algum o governo desrespeitou a Constituição. A grande iniciativa de Maduro para superar o impasse político foi a convocação, no dia 1º de maio, de uma Assembleia Nacional Constituinte, em que o verdadeiro soberano – o povo da Venezuela – é chamado a tomar em suas próprias mãos os destinos do país, num momento de crise extrema. A oposição, como já era de se esperar, cerrou fileiras contra a proposta.

A rejeição à Constituinte se concentra em dois pontos. Os opositores contestam a legalidade da sua convocação por Maduro, alegando que o chamado teria de ser submetido a um referendo. Porém a atual Carta Magna é clara ao dar ao presidente esse tipo de atribuição. O segundo ponto, mais importante, diz respeito à composição da futura Assembleia Constituinte, em que dois terços dos integrantes serão escolhidos pelo método convencional, com base nos distritos eleitorais, e o terço restante das cadeiras será ocupada por representantes de setores específicos da sociedade – trabalhadores urbanos, camponeses, empresários, indígenas e aposentados, entre outros.

A inovação significa um avanço em relação à democracia liberal – sistema político que tem como base o voto atomizado do eleitor individual, limitando-se a soberania popular ao exercício periódico do voto, sem a existência de qualquer controle posterior sobre a conduta dos representantes. A Constituinte venezuelana traz como elemento inédito a experiência de combinar as formas representativa e participativa da democracia, valorizando as instâncias coletivas de prática cidadã, como os sindicatos, os movimentos sociais, as associações corporativas e os conselhos comunitários. Os representantes setoriais prestarão contas aos seus eleitores durante o período da Constituinte e deverão encaminhar as deliberações de suas bases. Mais de 52 mil venezuelanos se candidataram às eleições da Constituinte, o que dá ideia do entusiasmo que a iniciativa despertou. De qualquer modo, a nova Constituição, quando ficar pronta, será submetida a um referendo pelo voto universal – ou seja, só entrará em vigência mediante a aprovação da maioria dos venezuelanos.

A direita teme, com razão, que a dinâmica da Constituinte abra espaço para a retomada da energia revolucionária do chavismo e para a reafirmação do projeto bolivariano de emancipação social. Por isso joga todas as fichas para impedir essas eleições. Os golpistas tratam de tensionar ao máximo a cena política na expectativa de provocar um racha entre os militares e de estender os tumultos aos bairros populares, redutos históricos do chavismo. Mas a estratégia opositora não está alcançando os resultados esperados. Todos os sinais indicam que as Forças Armadas permanecem coesas, respaldando as legítimas autoridades, e os apelos às camadas mais pobres da população para se insurgirem contra o governo têm caído no vazio. O máximo que os opositores conseguiram até o presente momento foi atrair para o seu lado a procuradora-geral da república, Luisa Ortega, que agora – invertendo totalmente suas posições anteriores – faz de tudo para bloquear a Constituinte e dificultar a punição aos opositores envolvidos em atos de violência.

Sob forte pressão, o campo governista utiliza todos os meios legais para neutralizar a ofensiva da direita. O elemento mais importante na resistência é a mobilização das bases chavistas, com a formação de comitês de autodefesa em todo o país, encarregados de proteger o patrimônio público contra o terror paramilitar. Gigantescas manifestações a favor do governo, bem maiores do que as da oposição, ocorrem com frequência, cobrindo de vermelho as ruas das principais cidades.

O tempo político na Venezuela se acelera e tudo pode acontecer nas próximas semanas. Cada momento é crucial. Ou a Revolução Bolivariana supera a paralisia burocrática dos primeiros anos após a morte de Chávez e alcança um novo patamar de radicalidade política, impondo uma derrota decisiva à burguesia e ao imperialismo, ou será esmagada de forma sangrenta, com consequências terríveis para o povo venezuelano.

* Igor Fuser é doutor em ciência política pela USP e professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Bernardo do Campo (SP).
Posted: 04 Jul 2017 08:04 AM PDT
Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

Levantamento do Datafolha sobre as ideias políticas da população não deve ser desprezado. Mostra que a rejeição a Michel Temer e as contrarreformas de Henrique Meirelles está longe de refletir uma visão passageira dos brasileiros nem se alimenta das denúncias de Joesley Batista, por mais chocantes que elas sejam.

Descendo às convicções mais profundas dos brasileiros, a pesquisa mostra uma maioria que rejeita valores e referências ideológicas dos aliados do golpe e seu lote de candidatos possível em 2018. Na prática, os dados confirmam, em números quantitativos, aquilo que uma pesquisa qualitativa da Ideia Inteligência, divulgada em fevereiro de 2017 pelo repórter Ricardo Mendonça, do Valor Econômico, chamou de saudades de Lula.

A diferença é que desta vez Lula é o sujeito oculto do levantamento. Seu nome não é mencionado uma única vez nas perguntas nem nas respostas. Mas é dele - e do período histórico que Lula e Dilma governaram o país - que a população está falando.

Para quem acredita numa conversão à direita do eleitorado, os números ensinam que é melhor colocar as barbas de molho.

Sabemos, por exemplo, que a visão da maioria dos brasileiros sobre o Brasil sempre foi crítica - e é até prova de boa saúde mental que seja assim. Em 2010, 54% dos brasileiros tinham uma visão negativa de seu país, enquanto 28% tinham uma visão positiva. Hoje, a visão negativa é de 81%. Apenas 8% tem uma visão positiva.

Não se trata de uma comparação casual. A base para comparar o país onde Temer-Meirelles fizeram o primeiro aniversário em Brasília tem como referência o último ano do governo Lula.

Não é só. Outros dados mostram que, mesmo enfrentando o massacre de um pensamento único assegurado pelo monopólio dos meios de comunicação - 100% alinhados com Temer-Meirelles - uma parcela importante é capaz de refletir com independência sobre suas experiências e tirar as próprias conclusões sobre o mundo à sua volta.

É certo dizer, lembrando uma noção conhecida da vida social, que o pensamento dominante numa sociedade é o pensamento de sua classe dominante. Isso quer dizer que a maioria das pessoas conserva e reproduz as ideias essenciais que fazem o regime capitalista funcionar, como o respeito a propriedade privada, uma noção de hierarquia de classe social, um espírito consumista, uma vontade de ascensão social a todo custo e outros traços de uma postura alienada diante da existência. Isso não quer dizer, contudo, que as pessoas não são capazes de localizar interesses concretos nem de avaliar o que é melhor para suas vidas e suas famílias.

Justamente nas questões que estão no centro do debate em torno das contrarreformas -- a começar pela natureza da política econômico, suas consequências e benefícios -- revela-se o caráter robusto da memória sobre Lula.

Num país onde o desemprego atinge um patamar recorde e o Estado Mínimo tornou-se o eixo da política econômica, nada menos que 76% das pessoas entrevistadas tem uma visão contrária a doutrina dominante.

Consideram que "o governo deve ser o maior responsável por investir no país e fazer a economia crescer." É um salto de dez pontos em relação a 2014, quando Dilma se encontrava no último ano de seu primeiro mandato. Vamos combinar: martelados, diariamente, pelo coro que pede menos Estado na economia, eles respondem que querem mais.

Numa questão que também diz respeito ao mesmo assunto, a pesquisa perguntou sobre as políticas públicas de defesa das empresas brasileiras - a principal referência, neste terreno, são programas de "conteúdo local", que favorecem companhias instaladas no país. Este é o alvo de uma campanha de criminalização do BNDES e de embelezamento do projeto de desmonte da Petrobras. Também é aí que vamos encontrar a crítica banal ao "capitalismo de compadrio", que sugere a existência de um lugar do mundo onde funcionam mercados puros e sob comando de empresários angelicais. Do ponto de vista da maioria, a realidade é outra. Para 63% dos brasileiros "o governo tem o dever de ajudar grandes empresas nacionais que corram risco de ir a falência." (Em 2014, uma maioria de 59% eram favoráveis a ajuda às empresas nacionais).

A pesquisa também registra um tiro de misericórdia na meritocracia, essa visão que ignora a desigualdade estrutural da sociedade brasileira e tenta apontar cada indivíduo como responsável pelos fracassos e sucessos da existência, em particular na luta por uma vida melhor. Um total de 77% consideram que a pobreza "está ligada à falta de oportunidades iguais." (Com um ponto de vista oposto, apenas 21% acreditam que a pobreza "está ligada à preguiça de pessoas que não querem trabalhar"). Embora a pesquisa registre um aumento da visão crítica sobre as leis trabalhistas --de 33% para 38% --, a convicção de que elas "mais protegem os trabalhadores do que prejudicam o crescimento das empresas" é assumida por larga margem, 53%, um ponto a mais do que no levantamento anterior. Uma constatação oportuna, num momento em que cresce a pressão pela extinção da CLT.

Outros observações podem ser feitas a respeito dessa pesquisa. O desencanto da população com o serviço público de saúde e de educação reflete uma decepção com sucessivas administrações nessa área - e não se pode isentar os governos Lula e Dilma nesse aspecto. Ainda que Lula tenha multiplicado várias vezes a oferta de vagas nas universidades, e Dilma tenha sido capaz de uma iniciativa de inúmeros méritos como o Mais Médicos, a população deixou claro que não está satisfeita com os resultados.

Apesar das restrições e críticas que envolvem erros e limites do processo político iniciado após a chegada de Lula ao Planalto, em 2003, não se pode ignorar o ponto fundamental.

Sabemos que o golpe que derrubou Dilma abriu um ambiente político destroçado, povoado por aventureiros de todo tipo, inclusive com uma perspectiva autoritária. Nessa paisagem, onde a resistência democrática ocupa um papel essencial, maioria dos brasileiros conserva a memória das conquistas e vitórias do período anterior. Compara com aquilo que veio depois e sabe que já viu este filme -- várias vezes. A única referência oposta é Lula.

A peculiaridade dessa experiência política explica a posição única de Lula no futuro próximo do país, seu papel-chave.

Contra o silêncio cúmplice que alimenta o espetáculo de sua perseguição, torcendo por sua exclusão da cena política de qualquer maneira, uma maioria reconhece e aplaude as razões de seu governo.
Posted: 04 Jul 2017 07:58 AM PDT
Por Tarso Genro, no site Sul-21:

É um erro político avaliar as decisões atuais do STF de um ponto de vista puramente jurídico, ou seja, se elas são – ou não – decisões que podem ser classificadas como “segundo a Constituição”, ou são decisões que “torcem” o bastão, para favorecer determinados contendores políticos e prejudicar outros. Na verdade, estas decisões são todas as coisas para parecer nenhuma e obedecem só uma teleologia: pôr uma máscara de legitimidade num Estado de Direito, que transita da exceção para a normalidade e desta para aquela, num ritual macabro de arbítrios, no qual o Direito se tornou pura política e contingência.

Explico-me. Desde o momento que a grande mídia orientou claramente a derrubada da Presidenta Dilma, e o STF aceitou esta tutela , midiatizaram-se os processos penais e foi incriminada, em abstrato, toda uma comunidade política, o petismo. A partir daí os nossos destinos foram depositados nas mãos jacobinas da República de Curitiba e o Estado de Direito brasileiro – depois disso – foi se adaptando a que o processo político fosse controlado fora dos órgãos da soberania popular, com o predomínio dos critérios políticos gestados no Poder Judiciário

Falo em “predomínio”, porque em toda decisão judicial importante sempre existe uma certa carga “política”, mas, na normalidade de um Estado de Direito que mereça esse nome, esta “carga” política da decisão não pode ser a expressão ideológica direta do Juiz, sobreposta , não só à letra da Constituição, mas também aos princípios que informam a civilidade republicana. Quando os Juízes se tornam líderes de facções políticas o Direito sai de cena e a decisão política só lhe traz ao palco num papel coadjuvante.

É importante notar, também, que o “predomínio” ideológico da direita e a consequente partidarização do Sistema de Justiça, já tinham sido consolidados, quando o Supremo foi indiferente a um “impeachment” sem causa, quando aceitou a jurisdição nacional avocada pelo Juiz Moro, “naturalizou” seu estrelismo midiático – cultuado pelo oligopólio da mídia – que, na verdade, dava a “linha” do que era aceitável, ou não, em termos de distorção técnica e material, nos processos penais contra Lula e o PT.

As recentes decisões do Supremo, com a “devolução” de Aécio ao Senado e a libertação de Rocha Loures, do ponto de vista formal – em termos de processo – e do ponto de vista constitucional, em termos de princípios, são tão inadequadas ao Estado de Direito, como as decisões condenatórias proferida sem provas, contra José Dirceu. Ou mesmo em relação à proferida para impedir Lula de assumir o Ministério ou, ainda, àquelas que determinam o cumprimento de penas, antes do trânsito em julgado da decisão condenatória.

Todas elas ferem o Estado de Direito: as do primeiro grupo (proferidas contra o petismo) porque instauraram a “exceção”; as atuais (em favor de Aécio e Loures) porque a furaram de maneira silenciosa e seletiva, especialmente favorecendo golpismo. Demonstram, assim, que a ideologia hegemônica nos Tribunais, nesta etapa da crise, protege mais os partidos do golpe do que integridade das normas da Constituição.

Certamente há uma possibilidade de que desta reação, ainda que seletiva, possa sobrevir uma igualdade de tratamento para todos os processados e os juízos em andamento sejam colocados num leito mais próximo da Constituição e da Lei. Onde todos do Judiciário podem tudo e os órgãos da soberania popular não podem nada, pode-se – num acesso de otimismo da nossa verve macunaímica – esperar uma certa sensatez pelo cansaço. Mas ela não virá sem luta.

Já é possível dizer, nos dias que correm, que nós brasileiros temos um amor ambíguo e louco pela democracia, embora de fora do país já nos olhem novamente com uma certa piedade irônica. Amor louco, porque com tudo isso não queremos “atalhos”, nem messias, nem matadores. Mas, de fato, amor também ambíguo, porque afinal, a maioria espera que as sábias cúpulas se acertem por nós, até a próxima crise aparentemente sem solução.
Posted: 04 Jul 2017 07:54 AM PDT
Por Carlos Drummond, na revista CartaCapital:

O total de desempregados subiu para 14,3 milhões no Brasil em março, um recorde histórico segundo o IBGE, e atingirá 201 milhões no mundo este ano, prevê a Organização Internacional do Trabalho.

Aqui e no exterior ainda predominam, entretanto, as mesmas políticas recessivas e de austeridade causadoras das demissões em massa, ou soluções incapazes de reverter a situação, constatam vários economistas.

Como se isso não bastasse, a discussão sobre as causas da crise e as opções para superá-la ocorrem quase exclusivamente na esfera econômica. Uma diferença fundamental deve ser destacada: a Europa mantém, apesar dos ataques, o Estado de Bem-Estar Social, uma conquista inimaginável no Brasil em regressão.

Esse enfoque restrito é equivocado, criticam David Stuckler, especialista em economia da saúde e pesquisador da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e Sanjay Basu, professor de medicina e epidemiologista da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.

“A discussão em torno da Grande Recessão iniciada em 2008 centrou-se demais na diminuição do PIB, nos déficits e na redução da dívida e pouquíssimo na saúde e no bem-estar das pessoas”, acusam os especialistas no livro The Body Economic, focado nas decisões tomadas pelos governos e nas respectivas repercussões para as economias e a integridade física dos cidadãos.

Segundo os autores, o aumento dos índices de depressão, suicídio, alcoolismo, epidemias, doenças infecciosas e problemas sanitários é considerado inevitável nas recessões.

Não é bem isso, dizem, e apontam o exemplo da Suécia, que sofreu uma crise econômica grave no início de 1990, pior do que a Grande Recessão, mas não experimentou uma elevação do número de suicídios ou mortes.

Na Noruega, Canadá e até em parte da população dos EUA, houve melhora nos indicadores de saúde. O Japão da “década perdida” exibe hoje índices entre os melhores do mundo.

O perigo real para a saúde pública não é a própria recessão, mas os cortes radicais de gastos públicos, exatamente por destruírem a rede de proteção social dos cidadãos fragilizados pelos colapsos da economia. “As recessões podem causar danos, mas a austeridade mata”, disparam Stuckler e Basu.

A Islândia, abalada pela pior crise bancária da história, não teve um aumento no número de mortes durante a Grande Recessão porque conservou e reforçou seus programas de bem-estar social. A Grécia sofreu fortes pressões do FMI, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu para aplicar cortes draconianos de gastos, os maiores na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Antes de 2008, o país tinha a menor taxa de suicídios da Europa. Só em 2012, mais de 600 cidadãos gregos se mataram, entre eles o farmacêutico aposentado Dimitris Christoulas, aos 77 anos.

Sua pensão, reduzida de modo drástico pelo governo, só cobria os gastos com a própria medicação. “Não estou me suicidando. Estão me matando. Estou convencido de que os jovens sem futuro algum dia empunharão armas e fuzilarão os traidores deste país na Praça Syntagma (em Atenas)”, dizia o bilhete deixado por Christoulas.

Uma escalada de destruição da rede de proteção social da parcela mais vulnerável da população é o que se vê também no Brasil, desde o ajuste fiscal de 2015, do ministro Joaquim Levy, sob o governo de Dilma Rousseff, até o pouco mais de um ano da desastrosa gestão de Michel Temer.

A redução do seguro-desemprego, a diminuição dos recursos para habitação popular e saúde, o ataque à Previdência Social e à legislação trabalhista, ao lado da privatização e desnacionalização desenfreadas, por certo comprometerão o futuro de gerações.

A invasão, na terça-feira 20, da Câmara Municipal de Curitiba por funcionários públicos contrários ao pacote de austeridade encaminhado pelo prefeito Rafael Greca foi uma das várias iniciativas contra os desmandos, em diversos estados e municípios em situação de calamidade, devido ao ajuste fiscal generalizado.

Muda o país, mas a austeridade é a mesma, mostra o exemplo a seguir. Em dezembro, o governo Temer cancelou 1,12 milhão de benefícios do Bolsa Família, sob a alegação da necessidade de aumentar a fiscalização por suposta falta de transparência e manipulação do programa, embora houvesse auditoria regular desde 2009, com exclusões sistemáticas de indivíduos sem direito ao abono.

Dois anos antes, o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, disse que centenas de milhares de cidadãos ludibriavam o sistema estatal de auxílio aos inválidos. O Ministério do Trabalho e Pensões discordou e informou que menos de 1% dos fundos, o equivalente a 2 milhões de libras, iam parar em mãos erradas.

Cameron manteve o corte e contratou por 400 milhões de libras a empresa francesa Atos para fazer avaliações médicas dos pensionistas.

Na Grande Depressão dos anos 1930 nos Estados Unidos, as medidas do New Deal do presidente Franklin Delano Roosevelt, para geração de empregos e reforço da rede de proteção social, tiveram efeito positivo comprovado na saúde da população.

Cada 100 dólares de gastos por habitante resultaram, em média, em uma diminuição de, aproximadamente, 18 mortes por pneumonia a cada 100 mil habitantes, resultado expressivo numa época sem medicamentos eficazes contra a doença. Possibilitaram também a redução da mortalidade infantil em 18 óbitos para cada 1 mil nascidos vivos.

O New Deal está associado ainda a uma queda do número de suicídios: “Utilizando modelos estatísticos rigorosos que descartam as explicações alternativas, descobrimos que cada 100 dólares de gastos adicionais do programa por pessoa levaram a uma diminuição significativa de 4 suicídios por 100 mil habitantes”, sublinham Stuckler e Basu. A situação atual é oposta, com 4.750 casos acima do patamar anterior a 2008.

A Suécia e a Finlândia, dizem os pesquisadores, têm programas para obtenção de empregos e proteção da saúde mental e por isso as demissões em massa não foram acompanhadas de aumento de suicídios nas várias recessões ocorridas durante os anos 1980 e 1990.

Segundo a ONU, o Brasil, apesar das taxas de suicídio relativamente baixas na comparação internacional, é o oitavo país com maior número de ocorrências no mundo, em números absolutos.

No Reino Unido, o uso de antidepressivos aumentou 22% entre 2007 e 2009. Uma pesquisa em 2010 descobriu que 7% daqueles que procuram ajuda para “estresse relacionado ao trabalho” iniciaram tratamento farmacológico.

Os médicos emitiram 3,13 milhões de prescrições adicionais contra a depressão em 2010 em relação a dois anos antes. Em consequência da austeridade, mais pessoas passaram a viver nas ruas de Londres e as taxas de tuberculose deram um salto para 279 casos em 2011, uma variação de 8% em relação ao ano anterior.

Com o aumento do número de moradores de rua também na Grécia e em outros países, pioraram os indicadores de consumo de drogas, doenças sexualmente transmissíveis, estupros e espancamentos.

Uma tragédia crônica na São Paulo da Cracolândia, entre outras cidades brasileiras, onde o número de moradores de rua cresce seis vezes mais rápido que o conjunto da população e dobrou nos últimos 15 anos, segundo pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.

Entre 2007 e 2009, o número de pessoas que tomaram antidepressivos diários aumentou 17% na Espanha. A quantidade de pacientes com sintomas clínicos de depressão profunda passou de 29% para 48% entre 2006 e 2010.

Os demais casos saíram de 6% para cerca de 9% do total, os relatórios de ataques de pânico subiram de 10% para 16% e o abuso na ingestão de álcool cresceu de menos de 1% para 6% no mesmo período.

Segundo divulgou a Organização Mundial da Saúde em fevereiro, a depressão afeta 4,4% da população mundial e 5,8% dos brasileiros. O nosso país tem a maior proporção de casos de ansiedade no planeta, de 9,3%.

Nos Estados Unidos, 10% da população adulta tomou antidepressivos durante a Recessão. Em média, cada 100 execuções adicionais de hipotecas, no colapso do mercado imobiliário desencadeador da crise, corresponderam a um aumento de 7,2% na procura de atendimento de emergência e de internações por hipertensão arterial.

Resultaram também em um salto de 8,1% nas complicações relacionadas ao diabetes, principalmente entre indivíduos com menos de 50 anos. Entre 2007 e 2009, os serviços de emergência atenderam 6 milhões de pessoas além do total habitual registrado em período equivalente anterior à derrocada da economia.

O número de crianças sem casa passou de 1,2 milhão em 2007 para cerca de 1,6 milhão em 2010, ou cerca de uma em cada 45.

O governo da Finlândia, em vez de cortar os orçamentos para construção de moradias, implantou, em 2008, uma política habitacional para reduzir a população sem-teto entre 2009 e 2011, período em que a quantidade de desabrigados aumentou no Reino Unido, Irlanda, Grécia, Espanha e Portugal.

As decisões quanto à condução da economia, concluem Stuckler e Basu, não envolvem só taxas de crescimento e déficits orçamentários, mas são também uma questão de vida ou morte.

“Se fosse necessário demonstrar que as políticas econômicas são ‘seguras e eficazes’ assim como se faz para aprovar o uso de medicamentos, teríamos sociedades mais seguras e saudáveis. Ocorre o contrário: a austeridade submete países a um experimento gigante com a saúde humana, e tudo o que podemos fazer é contar os mortos. Essas vidas não voltarão, entretanto, quando as bolsas de valores se recuperarem.”
Posted: 04 Jul 2017 07:45 AM PDT
Posted: 04 Jul 2017 07:42 AM PDT
Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:



Em 17 de abril de 2016, enquanto o Senado Federal se preparava para consumar o golpe parlamentar que cassou Dilma Rousseff, este Blog anteviu o que resultaria daquele ato insensato, antidemocrático e literalmente criminoso. Abaixo, trecho do post Golpistas vão perder seja qual for o resultado dessa votação infame:

“(…) O que os golpistas esquecem é que o eleitorado majoritário que está eventualmente posicionado contra Dilma espera que tudo se resolva por milagre no exato momento em que ela deixar o poder.

Só um imbecil acredita que, com o país convulsionado, a economia vai se consertar assim. Quando o povo descobrir que lhe venderam uma mentira, ficará furioso, sobretudo porque a queda de Dilma se fará acompanhar de retirada de direitos.

Por fim, a saída de Dilma dará discurso a Lula e ao PT. E como Lula ainda é extremamente popular mesmo com toda artilharia que vem sofrendo, sua candidatura para 2018 será fortíssima, com ou sem golpe (…)”


Como este Blog vem dizendo há muito tempo, basta deixar que a direita governe que ela mesma tratará de se afundar politicamente. Foi previsto aqui que isso ocorreria simplesmente porque, em 11 dos 13 anos de governos petistas, o salário aumentou todo mês e a pobreza, a desigualdade e o desemprego caíram todo mês.

Nesse aspecto, o período que vai de abril de 2016 até agora operou importante mudança na mentalidade dos brasileiros. E as razões são as seguintes:

1 – A maioria do povo descobriu que era mentira da mídia, dos movimentos de rua de direita e dos partidos políticos sócios do golpe que bastava tirar Dilma da Presidência que tudo se resolveria.

2 – A maioria do povo descobriu que os maiores acusadores do PT, os tucanos, não apenas são hipócritas como autores de muita roubalheira.

3 – A maioria do povo descobriu que a perseguição contra Lula empreendida por Sergio Moro e o Ministério Público Federal objetiva apenas impedi-lo de devolver justiça social aos brasileiros, razão pela qual, segundo o Datafolha, o PT já começa a crescer e a recuperar a popularidade perdida e Lula está cada vez mais forte e menos rejeitado.

4 – A maioria do povo descobriu que há uma guerra dos ricos brasileiros contra os pobres e crê que estão usando o poder usurpado pela direita para retirar direitos sociais e trabalhistas históricos. O povo percebe que Temer é uma espécie de Robin Hood com sinal trocado.

Até um tempo atrás tudo isso era apenas uma previsão, uma percepção. Agora, porém, pesquisa Datafolha realizada entre os dias 21 e 23 de junho com 2.771 pessoas de todas as regiões do Brasil confirma o que se intuía.

A pesquisa relata que “Cresce apoio a ideias próximas à esquerda” no Brasil.

O Datafolha mostra que cresceu o apoio da população a ideias identificadas com a esquerda do espectro político e esse apoio agora sobrepujou o avanço das ideias de direita que, segundo o instituto de pesquisas, explodiu em 2013.

Essas premissas acabam de ser confirmadas por pesquisa Datafolha que mede a inclinação ideológica no país. As perguntas elaboradas buscam demarcar as diferenças entre convicções associadas à direita e à esquerda, em temas econômicos e comportamentais.

Com base nas respostas, os eleitores são agrupados em uma das cinco posições da escala ideológica (esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita e direita).

O gráfico do Datafolha divulgado na pesquisa e reproduzido [aqui] mostra a disparada das opiniões de direita entre 2013 e o dia do fechamento da pesquisa em 23 de junho de 2017.
Na comparação com o levantamento anterior do Datafolha, feito em setembro de 2014, nota-se uma maior sensibilização do brasileiro a questões que envolvem a igualdade, possível reflexo da crise econômica e do alto desemprego que atingem o Brasil.

Subiu, por exemplo, de 58% para 77% a parcela que acredita que a pobreza está relacionada à falta de oportunidades iguais para todos. Já a que crê que a pobreza é fruto da preguiça para trabalhar caiu de 37% para 21%.

Essa notícia é extraordinária e arrasadora para uma direita insana que, para derrubar Dilma, contou com o apoio de uma maioria esmagadora e pobre da população que só tem a perder com o golpe e com as reformas neoliberais de Temer e do PSDB e que, agora, está descobrindo que ao apoiar o golpe jogou contra si mesma.

Na mesma edição da Folha, análise do diretor do Datafolha, Mauro Paulino, explica por que Lula e Bolsonaro vêm crescendo tanto nas pesquisas.

Segundo Paulino, a população voltou a se dividir em duas correntes simétricas, 41% à esquerda, 40% à direita e 20% no centro, a exemplo do que se observava em 2013, após as manifestações de junho.

A agenda antissocial de um governo impopular que vem se dedicando a reformas em setores nevrálgicos e se vê envolto em denúncias da Lava Jato se reflete na opinião pública sob a forma de ameaças a direitos conquistados, diz o diretor do Datafolha.

Ele ainda afirma que se valoriza o papel do Estado como agente facilitador para o desenvolvimento econômico e para socorrer empresas nacionais. E que a tal “meritocracia”, tão presente no debate de 2014, está sendo colocada em xeque no ambiente de crise e desemprego crescentes.

Diante disso, Paulino afirma que, agora, “parte da população volta a ficar sensível ao discurso de inclusão do petismo, o que explica o crescimento de preferência pelo partido e a liderança de Lula nas pesquisas”.

E para explicar a disparada de Lula nas pesquisas desde que foi levado à força para depor no ano passado, a opinião praticamente unânime entre os eleitores de esquerda e de direita é a de que, no Brasil, a Justiça trata os ricos melhor dos que os pobres.

Ora, ao ver que só petistas se dão mal na Justiça enquanto que direitistas como os ex-presidentes do PSDB Aécio Neves e Eduardo Azeredo são tratados como reis, o povo começa a perceber que os petistas é que estão ao seu lado.

A pesquisa ainda afirma que o único político que cresce ao lado de Lula é Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e que isso ocorre porque ele vende o discurso de extermínio de “bandidos” como solução para uma criminalidade que ainda vai crescer até a eleição do ano que vem devido ao caos social e econômico.

Contudo, Bolsonaro tem um limitador importante. A população pobre, que é majoritária no país, é vítima da truculência de uma polícia preconceituosa que atira primeiro e pergunta depois se a pessoa for negra e pobre. O apoio de Bolsonaro aumenta entre os mais ricos, que estão abandonando tucanos, demos e afins pelo ex-militar defensor da ditadura.

Sergio Moro certamente irá condenar Lula proximamente. Não condenou ainda porque está assustado com a reversão de suas condenações pela segunda instância. Já percebeu que se condenar Lula com base apenas nas delações terá sua sentença reformada pelo TRF4.

Contudo, Moro não tem alternativa. A melhor oportunidade de condenar Lula é na questão do tríplex, na qual os investimentos da mídia, dos tucanos e da Lava Jato foram gigantescos. Se absolver o ex-presidente, ficará desmoralizado.

Moro não sabe o que fazer. Se condenar Lula só com os indícios fracos que tem, ele não só será absolvido em segunda instância como crescerá ainda mais rápido nas pesquisas. A sentença que Moro dará sobre Lula nos próximos dias o tornará candidato imbatível em 2018. Condena Lula de uma vez, Moro! Você vai elegê-lo para um terceiro mandato.
Posted: 04 Jul 2017 07:34 AM PDT
Por Aldo Fornazieri, no Jornal GGN:

Adotando aqui o conceito de "governante" no sentido amplo, referido às pessoas que ocupam posições de destaque nas instâncias dirigentes dos três poderes, o que se observa, de forma acelerada nas últimas semanas, é que alguns deles vêm empreendendo uma devastadora destruição do pouco que resta da institucionalidade e da constitucionalidade do Estado brasileiro. A marca das condutas e do empenho desses dirigentes é a completa falta de caráter, de moral, em suas ações deletérias.

O mais grave é que não há forças capaz de detê-los. O STF não só perdeu a capacidade de exercer o controle constitucional, como, alguns dos seus ministros se engajaram ativamente na destruição do próprio órgão e de outras instituições. As oposições, sem uma estratégia definida, além de não terem força no Congresso, não têm capacidade de promover uma significativa convocação da sociedade para as ruas visando deter o processo destrutivo do país.

Hoje existem quatro centros com alguma capacidade de decidir: O governo, cujo núcleo central é constituído por uma quadrilha chefiada pelo presidente ilegítimo; o Congresso, que protagonizou o golpe e com vários de seus membros acumpliciados com a quadrilha governamental; o STF e setores do judiciário, com suas ações arbitrárias, aleatórias e com setores comprometidos com vários tipos de ilegalidades e parcialidades e com a própria manutenção de um governo que o povo não quer; e, finalmente, o Ministério Público, que sofre dos mesmos males do STF.

Em suas manifestações políticas e retóricas objetivas, pessoas como Temer, Gilmar Mendes e Aécio Neves, entre outros, mostraram-se desprovidos de caráter, não se importando com a evidência da manipulação dos seus argumentos, das mentiras que proferem, abusando do cinismo e da desfaçatez e usando os seus poderes e as instituições para proteger atos criminosos. Quando as instituições são usadas para proteger atos criminosos perdem todo seu conteúdo público e o Artigo 37 da Constituição, que estabelece os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência para a conduta dos servidores do público, é simplesmente reduzido a pó.

Além de resistir entrincheirado num cargo usurpado, a forma como Temer compra os congressistas para se salvar, protegendo inclusive vários ministros denunciados e investigados, expressa uma conduta típica de companheiros de crime. Não se pode dizer menos de partidos como o PSDB e outros, todos empenhados na destruição do país, da moral pública e da moral social. Não restou mais nenhum senso de decência neste governo e em quem o sustenta.

Algum idiota da objetividade ou pessoas sem princípios poderiam argumentar que a política não comporta a moral. Essa noção, que é uma forma envergonhada do "rouba mas faz", se constitui num dos fatores que vêm destruindo a dignidade da política e provocando a sua rejeição por parte da população. Maquiavel, que foi o descobridor da moral própria da política - a virtù - em nenhum momento isentou a necessidade dos políticos se conduzirem moralmente, seja em consonância com os valores morais do senso comum ou seja em consonância com a moral própria da política sempre que os acontecimentos e as circunstâncias o exigirem.

Nas suas ações ordinárias, os líderes que têm causas a defender e que não são meros charlatões e aproveitadores, devem pôr-se em acordo com os valores morais do senso comum. Nos momentos críticos, exigentes de ações extraordinárias, devem agir de acordo com a virtù, usando meios e condutas condizentes com a manutenção do poder do Estado para promover o bem do povo. Desta forma, o poder nunca é um fim em si mesmo, mas um meio-fim para produzir um fim maior: o bem do povo, que é a mais alta finalidade ética. Supor que isto está presente no atual governo, em sua política econômica, nas reformas e nas ações daqueles protegem e mantêm Temer no poder é uma indignidade e uma injúria contra o próprio povo.

O STF e a perigosa ideia do Poder Moderador

Ministros e ex-ministros do STF, alguns juristas, cientistas políticos e comentadores da mídia têm se engajado na perigosa e antidemocrática ideia de ver um papel de Poder Moderador no Tribunal. O Poder Moderador, imposto na Constituição autocrática de 1824, foi uma forma esperta de contrabandear para dentro da mesma um mecanismo de conteúdo absolutista, consequentemente, anti-republicano. O Poder Moderador era um poder interveniente nos demais poderes, arbitrário e contrário à separação dos poderes, ideia desenvolvida por Montesquieu ou à teoria do equilíbrio, pesos e contrapesos, proposta e implementada pelos pais da Constituição norte-americana.

Admitir que o STF possa atuar como Poder Moderador, como defendem Gilmar Mendes, Dias Tófoli e outros, significa investi-lo de poder de arbítrio, de capacidade de destruição da Constituição, como vem ocorrendo hoje. Note-se que o STF é um órgão desorganizado, sujeito a todo tipo de abusos, ora adotando decisões de forma monocrática, como foram estas de libertar Aécio Neve e Rocha Loures, e ora adotando decisões colegiadas, sem que regras claras para isto sejam estabelecidas.

Se o STF atua como Poder Moderador ele amplia a sua prerrogativa de ser o órgão de controle constitucional e, a rigor, viola a própria função de controle constitucional revestindo-a com a vontade dos ministros que passam a decidir de acordo com critérios puramente políticos. É o que vem ocorrendo desde o fraudulento processo de impeachment. Desde então, a Constituição é permanentemente submetida à interpretação política dos magistrados.

Os juízes dos outros tribunais e de primeira instância também passam a interpretar a Constituição e a aplicar a lei, não segundo a sua natureza técnica, mas de acordo com a interpretação arbitrária de sua vontade política. É o que vem fazendo Sérgio Moro na prática de inúmeras ilegalidades, condenando, inclusive, a partir da mera delação premiada de delatores que querem se salvar, suprimindo a exigência de provas como determina a lei. Esse braço longo do arbítrio, alimentado no STF e que se estende até a primeira instância, poderá alcançar Lula e outros delatados.

Esse mesmo braço longo do arbítrio poderá salvar Temer, Aécio Neves, Rocha Loures e tantos outros corruptos e criminosos que hoje estão no poder. Isto porque as graças e os castigos não são distribuídos segundo a Constituição e as leis, mas de acordo com a vontade política de quem julga. O julgamento de Temer no TSE deixou claro que no país já não existem instituições imparciais. Para Gilmar Mendes, o que valia para Dilma, não vale para Temer. Para Marco Aurélio, o mandato de Aécio Neves, concedido pelos eleitores, é uma coisa séria que deve ser respeitada. É tão séria que garante a Aécio a imunidade para praticar crimes.

O Brasil está perdido e extraviado numa noite trevosa. O sistema político e as instituições insularam-se em sua própria crise. Não há governo, não há leis e não há Constituição. O desemprego, a violência e a degradação social se alastram. Trata-se de um país que não tem glórias passadas para ressuscitar e nem a miragem de um futuro factível para onde caminhar.

O povo está abandonado à sua própria sorte, sem que alguém o guie para livrar-se de um governo que ele não quer. Desta forma, tem que aceitar um governo que lhe destrói os direitos e a dignidade; destrói o presente e a esperança e o reduz à impotência dos resignados. A indignação só faz jus a este nome quando se traduz em luta contundente, em recusa à passividade, em capacidade de convocação às ruas e em organização. São esses elos perdidos ou frágeis que as oposições e os movimentos sociais precisam reconstruir antes que 2018 produza uma nova derrota.
Posted: 04 Jul 2017 07:28 AM PDT
Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:



Michel Temer soltou, semana passada, aquele “não sei como Deus me colocou aqui”, atribuindo ao pobre Jeová algo que está mais por ser obra de Belzebu.

Mas como são grandes as artes do Tinhoso, ele prepara-se para colocar na ordem do dia em relação a Temer aquela famosa frase da Agência Reuters, no impeachment de Dilma Rousseff: “podemos tirar, se achar melhor”.

Neste apocalipse de milagres nada santos da crise institucional brasileira, coube ao fotógrafo Dida Sampaio, do Estadão, capturar a imagem que traduz um movimento que começa a ficar aberto: a contrita esperança de Rodrigo Maia de chegar – como o próximo representante dos “sem-voto” – à Presidência.

Hoje, Merval Pereira, o decano do Império Globo, o propõe abertamente, em sua coluna:

A essa altura, uma solução menos traumática como a substituição de Temer pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, por seis meses pode dar tempo ao tempo, e à base aliada, o fôlego para se reagrupar. Há negociações nos bastidores nesse sentido, inclusive para tentar recuperar a viabilidade da reforma da Previdência, que a esta altura está praticamente descartada. Mesmo a reforma trabalhista, menos difícil por exigir uma maioria simples - e não os 3/5 de uma reforma constitucional - pode perder seu ponto mais emblemático, o fim da obrigatoriedade do imposto sindical.

Como se vê, os apetites da elite brasileira por devorar direitos previdenciários e desmontar as defesas do trabalho não esmorece, mesmo diante do pantanal em que se atolou seu condutor original, posto ao Palácio pelo golpe.

Serve qualquer um, inclusive um sujeito sem voto, sem experiência, sem trajetória digna de nota – exceto pelo “Botafogo” na lista da Odebrecht – para fazer o serviço sujo.

Positivamente, não é Deus que os coloca ali.
Posted: 04 Jul 2017 07:19 AM PDT
Por Tereza Cruvinel, no blog Conversa Afiada:

"O golpe em curso no Brasil é sofisticada operação político-financeira-jurídico-midiática , tipo guerra híbrida. E será muito difícil deslindá-la", diz o jornalista Pepe Escobar. E mais difícil fica na medida em que surgem contradições entre seus próprios artífices. A enxurrada de conversas que Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro e um dos operadores do Petrolão, teve e gravou com cardeais do PMDB, induz à ilusória percepção de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff foi apenas um golpe tupuniquim, armado pela elite política carcomida para deter a Lava Jato e lograr a impunidade. 

O procedimento “legal” que garantiu a troca de Dilma por Temer, para que ela faça o que está fazendo, foi peça de operação maior e mais poderosa desencadeada ainda em 2013 para atender a interesses internos e internacionais. E nela ficaram pegadas da ação norte-americana.
Interesses internos: remover Dilma, criminalizar o PT, inviabilizar Lula como candidato a 2018 e implantar uma política econômica ultra-liberal, encerrando o ciclo inclusivo e distributivista. Interesses externos: alterar a regra do pré-sal e inverter a política externa multilateralista que resultou nos BRICS, na integração sul-americana e em outros alinhamentos Sul-Sul.

As gravações de Machado desmoralizam o processo e seus agentes e complicam a evolução do governo Temer mas nem por isso o inteiro teor da trama pode ser reduzido à confissão de Romero Jucá, de que uma reunião de caciques do PMDB, PSDB, DEM e partidos conservadores menores, em reuniões noturnas, decidiram que era hora de afastar Dilma para se salvarem. E daí vieram a votação de 17 de abril na Câmara, a farsa da comissão especial e a votação do dia 11 de maio no Senado.

Um longo caminho, entretanto, foi percorrido até que estes atos “legais” fossem consumados. Para ele contribuíram a Lava Jato e suas estrelas, a Fiesp com seu suporte a grupos pró-impeachment e o aliciamento de deputados, o mercado com seus jogos especulativos na bolsa e no câmbio para acirrar a crise, Eduardo Cunha e seus asseclas com as pautas bombas na Câmara. E também as obscuras mas perceptíveis ações da NSA, Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, e da CIA, na pavimentação do caminho e na fermentação do clima propício ao desfecho. Os grampos contra Dilma, autoridades do governo e da Petrobrás, os protestos contra o governo, o desmanche econômico e a dissolução da base parlamentar, tudo se entrecruzou entre 2013 e 2016.

Se os que aparecem agora nas conversas gravadas buscaram poder, impunidade e retrocesso ao país de poucos e para poucos, os agentes externos miraram o projeto de soberania nacional e o controle de recursos estratégicos, em particular o petróleo do Pré-Sal. Não por acaso, a aprovação do projeto Serra, que suprime a participação mínima obrigatória da Petrobrás, em 30%, na exploração de todos os campos licitados, entrou na agenda de prioridades legislativas do novo governo.

Muito já se falou da coincidente chegada ao Brasil, em agosto de 2013, de Liliana Ayalde como embaixadora dos Estados Unidos, depois de ter servido no Paraguai entre 2008 e 2011, saindo pouco antes do golpe parlamentar contra o ex-presidente Fernando Lugo. Num telegrama ao Departamento de Estado, em 2009, vazado por Wikileaks, ela disse:. “Temos sido cuidadosos em expressar nosso apoio público às instituições democráticas do Paraguai – não a Lugo pessoalmente”. E num outro, mais tarde : “nossa influência aqui é muito maior que as nossas pegadas”.

O que nunca se falou foi que a própria presidente Dilma, tomando conhecimento dos encontros que Ayalde vinha tendo com expoentes da oposição no Congresso, mandou um emissário avisá-la de que via com preocupação tais movimentos. Eles cessaram, pelo menos ostensivamente. Ayalde havia chegado pouco antes da Lava Jato esquentar e no curso da crise diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos, detonada pela denúncia do Wikleaks de que a NSA havia grampeado Dilma, Petrobrás e outros tantos. Segundo Edward , o ex-agente da NSA que denunciou a bibilhotagem, “em 2013 o Brasil foi o país mais espionado do mundo”. Em Brasília funcionou uma das 16 bases americanas de coleta de informações, uma das maiores.

A regra de exploração do pré-sal e a participação do Brasil nos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, India. Chia e Africa do Sul), especialmente depois da criação, pelo bloco, de um banco de desenvolvimento com capital inicial de US 100 bilhões, encabeçaram as contrariedades americanas com o governo Dilma.

Recuemos um pouco. Em dezembro de 2012, as jornalistas Cátia Seabra e Juliana Rocha publicaram na Folha de São Paulo telegrama diplomático vazado por Wikileaks, relatando a promessa do candidato José Serra a uma executiva da Chevron, de que uma vez eleito mudaria o modelo de partilha da exploração do pré-sal fixado pelo governo Lula: a Petrobrás como exploradora única, a participação obrigatória de 30% em cada campo de extração e o conteúdo nacional dos equipamentos. Estas regras, as petroleiras americanas nunca aceitaram. Elas querem um campo livre como o Iraque pós-Saddam. A Folha teve acesso a seis telegramas relatando o inconformismo delas com o modelo e até reclamando da “falta de senso de urgência do PSDB”. Serra perdeu para Dilma em 2010 mas como senador eleito em 2014, apresentou o projeto agora encampado pelo governo Temer.

No primeiro mandato, Dilma surfava em altos índices de popularidade até que, de repente, a pretexto de um aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus de São Paulo, estouraram as manifestações de junho de 2013. Iniciadas por um grupo com atuação legítima, o Movimento Passe Livre, elas ganham adesão espontânea da classe média (que o governo não compreendeu bem como anseio de participação) e passam a ser dominadas por grupos de direita que, pela primeira vez, davam as caras nas ruas. Alguns, usando máscaras. Outros, praticando o vandalismo. Muitos inocentes úteis entraram no jogo. Mais tarde é que se soube que pelo menos um dos grupos, o MBL, era financiado por uma organização de direita norte-americana da família Koch. E só recentemente um áudio revelou que o grupo (e certamente outros) receberam recursos também do PMDB, PSDB, DEM e SD.

Aparentemente a ferida em Dilma foi pequena. Mas o pequeno filete de sangue atiçou os tubarões. Começava a corrida para devorá-la. A popularidade despencou, a situação econômica desandou, veio a campanha de 2014 e tudo o que se seguiu.

Mas nesta altura, a espionagem da NSA já havia acontecido, tendo talvez como motivação inicial a guerra do pré-sal. Escutando e gravando, encontraram outra coisa, o esquema de corrupção. E aqui entram os sinais de que as informações recolhidas foram decisivas para a decolagem da Lava Jato. Foi logo depois do Junho de 2013 que as investigações avançaram. A partir da prisão do doleiro Alberto Yousseff, numa operação que não tinha conexão com a Petrobrás, o juiz federal Sergio Moro consegue levar para sua alçada em Curitiba as investigações sobre corrupção na empresa que tem sede no Rio, devendo ter ali o juiz natural do caso. Moro havia participado, em 2009, segundo informe diplomático também vazado por Wikileaks, de seminário de cooperação promovido pelo Departamento de Estado, o Projeto Pontes, destinado a treinar juízes, procuradores e policiais federais no combate à lavagem de dinheiro e contraterrorismo. Participaram também agentes do México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai e Paraguai. Teria também muitas conexões com procuradores norte-americanos.

Com a prisão de Yousseff, a Lava Jato deslancha como um foguete. Os primeiros presos já se defrontam com uma força tarefa que detinha um mundo de informações sobre o esquema na Petrobrás. Executivos e sócios de empreiteiras rendiam-se às ofertas de delação premiada diante da evidência de que negar era inútil, só agravaria suas penas. O estilo espetaculoso das operações e uma bem sucedida tática de comunicação dos procuradores e delegados federais semeou a indignação popular. Vazamentos seletivos adubaram o ódio ao PT como “cérebro” do esquema.

As coisas foram caminhando juntas, na Lava Jato, na economia e na política. A partir do início do segundo mandato de Dilma, ganharam sincronia fina. Na Câmara, Eduardo Cunha massacrava o governo e a cada derrota o mercado reagia negativamente. A Lava Jato, com a ajuda da mídia, envenenava corações e mentes contra o governo. Os movimentos de direita e pró-impeachment ganharam recursos e músculos para organizar as manifestações que culminaram na de 15 de março. A Fiesp entrou de cabeça na conspiração e a Lava Jato perdeu todo o pudor em exibir sua face política com a perseguição a Lula, a coerção para depor no aeroporto de Congonhas e finalmente, quando ele vira ministro, a detonação da última chance que Dilma teria de rearticular a coalizão, com o vazamento da conversa entre os dois.

No percurso, Dilma e o PT cometeram muitos erros. Erros que não teriam sido fatais para outro governo, não para um que já estava jurado de morte. Mas este não é o assunto agora, nesta revisitação em busca da anatomia do golpe.

Em março, a ajuda externa já fizera sua parte mas as pegadas ficaram pelo caminho. O governo já não conseguia respirar. Mas, pela lei das contradições, a Lava Jato continuou assustando a classe política, sabedora de que poderia “não sobrar ninguém”. É quando os caciques se reúnem, como contou Jucá, e decidiram que era hora de tirar Dilma “para estancar a sangria”.

Desvendar a engrenagem que joga com o destino do Brasil desde 2013 é uma tentação frustrante. Faltam sempre algumas peças no xadrez. Mas é certo que, ainda que incompleta, a narrativa do golpe não é produto de mentes paranoicas. No futuro, os historiadores vão contar a história inteira de 2016, assim como já contaram tudo ou quase tudo sobre 1964."

*****

Em tempo: pequeno acréscimo a esse notável texto da notável Cruvinel: o ladrão presidente, quando era um parlamentar do baixo-clero, passou informações sigilosas ao cônsul americano em São Paulo, como demonstrou também o WikiLeaks que flagrou o traidor do Serra. O Temer era tão inexpressivo que a CIA mandava o Consul e não o Embaixador recolher o que ele expelia. - PHA
Posted: 03 Jul 2017 06:55 PM PDT
Por Jeferson Miola

Diante do processo judicial aberto a partir do infame power point do procurador [e vendedor de palestras e sermões] Deltan Dallagnol, a defesa do Lula fez um exercício sui generis da labuta advocatícia: além de provar a inocência, provou também a ausência de culpa do ex-presidente.

Quase uma centena de testemunhas do processo desconheceu qualquer relação do Lula com o apartamento triplex. A única exceção ficou por conta do empreiteiro dono da OAS Léo Pinheiro, presidiário que, atendendo exigência da Operação, forjou acusações contra Lula – a jóia da coroa da força-tarefa da Lava Jato – na expectativa de trocar vilania por redução da longa pena de prisão que terá de cumprir pelos crimes de corrupção que cometeu.

A defesa do Lula fez as diligências que Deltan Dallagnoll e seus colegas, cegos e possuídos pela caçada obsessiva ao Lula, não se deram ao trabalho de fazer. Os advogados demonstraram não só que o ex-presidente nunca teve nenhum vínculo formal ou informal com o imóvel como, ainda, que a Caixa Econômica Federal é a verdadeira detentora de direitos sobre o apartamento em questão.

Este processo contra o Lula é uma fraude jurídica de péssima qualidade, que foi montado com o exclusivo objetivo de condená-lo, para implodir sua candidatura presidencial.

Se condenar Lula sem provas e sem fundamentos legais, apenas baseado nas ridículas alegações e na obsessão condenatória do “palestrante” Dallagnoll, Moro pagará um altíssimo preço.
Decorridos mais de três anos de perseguição implacável a Lula, a força-tarefa da Lava Jato não conseguiu encontrar absolutamente nenhuma prova para sua condenação, pelo simples motivo de que não existe prova; porque não existe ilegalidade na conduta do ex-presidente.

Inicialmente, eles optaram pela tese do “domínio do fato”, a mesma teoria que Moro, na época em que atuou como juiz auxiliar da juíza do STF Rosa Weber no julgamento do chamado “mensalão”, fabricou para condenar sem provas o ex-ministro José Dirceu. O emprego inadequado desta teoria no caso foi vigorosamente combatido e invalidado pelo seu autor, o jurista alemão Claus Roxin.

Apelaram, então, para a exótica tese que o “palestrante” Dallagnol aprendeu nos EUA, a “teoria da abdução das provas”, ensinada pelo seu orientador em Harvard, Scott Brewer, que sublima as chamadas “provas indiciárias”, que tem muito de indícios e convicções, porém zero de provas.

Na falta de causa concreta para condenar Lula, só resta a Moro apelar à metafísica. Caso contrário, o plano original da Lava Jato será falho e todo o trabalho de destruição do país enquanto Nação e de entrega da soberania do Brasil terá sido em vão.

Sérgio Moro é apenas um juiz que busca uma justificativa formal para condenar Lula. Na falta de qualquer base material ou jurídica concreta, Moro terá de apelar para a “teoria do criacionismo” para acusar Lula de ter sido o criador de um país moderno; de um país de igualdade, de democracia, de igualdade, de pluralidade, de oportunidades para todos, de direitos; um país, enfim, altivo, desenvolvido, avançado; mundialmente reconhecido e reverenciado.

Moro está encalacrado: ou condena Lula, convertendo-o numa espécie de Deus criador do Brasil moderno, ou incendeia o país.

Lula é o fator essencial de desestabilização dos planos da burguesia para a continuidade do golpe. Lula é o grande dilema que a classe dominante enfrenta. Ele compromete a continuidade do golpe no próximo período e as escolhas que a elite fará.

O arranjo da classe dominante por cima, para manter esta indecência desta cleptocracia – governo de ladrões, em grego – liderada por Temer e sua quadrilha, encontra em Lula uma série ameaça.
Não estava nos cálculos da classe dominante tamanha dificuldade para o aniquilamento do Lula na Lava Jato. O impasse enfrentado pelo juiz Sérgio Moro é o impasse que enfrenta o pacto golpista de dominação burguesa contra a maioria do povo brasileiro.

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