sexta-feira, 7 de julho de 2017

6/7 - Downburst

 
 
6 de Julho de 2017
 

Downburst

f t g in
 
Infelizmente pelo que aconteceu no incêndio de Pedrógão Grande, houve um termo da meteorologia que entrou no vocabulário de muitos de nós – downburst.
Quem não é meteorologista, talvez só agora tenha prestado mais atenção a este fenómeno, sobretudo depois de o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) ter posto a hipótese de que um downburst teria acelerado a progressão do incêndio de Pedrógão Grande a 17 de Junho. Essa hipótese surgiu, inicialmente, na resposta a um pedido de esclarecimento (a 19 de Junho) da parte do primeiro-ministro, António Costa, sobre as condições meteorológicas associadas a esta tragédia. Noticiámos essa possibilidade neste texto aqui. E demos uma primeira explicação de que um downburst é uma massa de ar descendente extremamente forte que chega até ao solo e se espalha aí de forma radial, causando ventos fortes. Uma vez chegada ao chão, ou lá perto, essa corrente de ar dispara para todas as direcções. Embora pareça, não é um tornado: os ventos de um tornado giram à volta de um ponto central, movendo-se para cima e para baixo, enquanto a corrente de ar de um downburst vai em direcção à superfície terrestre e, daí, segue então em todas as direcções.
Depois, o IPMA preparou um relatório técnico e científico sobre as condições meteorológicas associadas ao incêndio, que foi divulgado no último sábado no portal do Governo e cujas principais conclusões o PÚBLICO deu conta no domingo.  
No relatório, considera-se que há indícios fortes de que um downburst amplificou os efeitos do incêndio ao final da tarde de 17 de Junho, tornando-o avassalador. Embora não haja provas directas desse downburst muito perto do incêndio, o radar meteorológico de Coruche detectou o que podem ser efeitos da sua existência: a pluma do incêndio (materiais resultantes da combustão atirados para a atmosfera) quase triplicou de tamanho, em muito pouco tempo.
O que significa que alguma coisa originou a expansão muito rápida das chamas, espalhando-as até à estrada nacional onde estavam 47 das 64 pessoas que morreram no incêndio. Pode ter sido essa corrente de ar descendente que, junto ao solo, resultou depois em rajadas horizontais muito fortes (a estas rajadas chama-se “escoamento horizontal divergente”, ou “outflow convectivo”). Ora, por duas vezes, o radar detectou que a pluma teve uma grande intensificação ao final da tarde do primeiro dia do incêndio, passando dos 5000 para os 14.000 metros de altitude. Na imagem em baixo, vemos a pluma (assinalada pela seta vermelha) numa dessas intensificações, a chegar perto de Vila Facaia (VF) e, depois, à estrada nacional (EN). Além disso, naquela tarde houve – esses sim, detectados – outros downbursts no Alto Alentejo e na zona Centro do país, um deles já relativamente próximo do incêndio, em Cardigos, no concelho de Mação.


Foi na década de 70 que o fenómeno de downburst foi descoberto pelo investigador nipo-americano Theodore Fujita (1920-1998). A este fenómeno de ventos muito fortes associados a tempestades convectivas – originadas em nuvens convectivas, como os cúmulo-nimbos ou alto-cúmulos –, Fujita deu o nome downburst. Em português, o nome do fenómeno não tem designação oficial. Pelo menos para já.
No relatório do IPMA explica-se que os downbursts podem ser classificados como microbursts (se a destruição que provocam for inferior a quatro quilómetros de diâmetro) e como macrobursts (se esse diâmetro já for superior a quatro quilómetros). Diz-se ainda que há dois tipos de downbursts, o seco e o húmido. No downburst seco, a precipitação é fraca ou nenhuma, entre o início e o fim dos ventos fortes, como aconteceu no dia do incêndio. Já no downburst húmido há, como o nome indica, precipitação muito intensa que acompanha os ventos fortes.
O que esteve na origem da descoberta dos downbursts foi um acidente de aviação nos Estados Unidos: a 24 de Junho de 1975, um Boeing 727 da companhia Eastern Airlines despenhou-se ao tentar aterrar no aeroporto John F. Kennedy, em Nova Iorque. Morreram 112 pessoas e 12 ficaram feridas.
“Embora houvesse trovoadas na zona, na altura não se compreendia o que poderia ter causado o acidente para lá da especulação de que o avião teria sido atingido por relâmpagos”, lê-se no artigo científico “A Descoberta do Downburst: A Contribuição de T. T. Fujita”, publicado em 2001 por James Wilson (do Centro Nacional de Investigação Atmosférica dos EUA) e Roger Wakimoto (da Universidade da Califórnia em Los Angeles) na revista Bulletin of the American Meteorological Society.
Um perito em segurança aérea que investigava o acidente aéreo ficou intrigado com os relatos dos pilotos dos vários aviões que aterraram e descolaram naquele dia em Nova Iorque perto da altura do acidente (uns relataram condições meteorológicas pouco adversas, outros diziam ter havido ventos perigosos). E contactou Theodore Fujita, da Universidade de Chicago. Por esta altura, o investigador já tinha inventado a Escala de Fujita, que classifica os tornados conforme a intensidade (de F0 a F5) e que o tornou conhecido como Sr. Tornado (na imagem em baixo, a estudar os tornados em laboratório).


Foi depois de analisar o caso, investigando relatos de pilotos, registos de voos e medições da velocidade do vento no aeroporto John F. Kennedy, que Fujita propôs a hipótese, em 1978, de que o avião tinha sido atingido por ventos de um fenómeno que designou por downburst. Entre 1976 e 1978, como se lê no artigo científico, Fujita analisou possíveis acidentes de avião em todo o mundo associados a ventos laterais – e concluiu que houve pelo menos oito.
Mas a sua proposta deste novo fenómeno meteorológico não foi logo aceite pela comunidade científica, em particular devido à falta de dados pormenorizados. “Fujita mencionou muitas vezes essas críticas e sentiu-se impelido a provar a existência do downburst”, refere ainda o artigo. “Entre 1975 e 1978, embarcou num programa intensivo para documentar fotograficamente padrões de danos divergentes em pequena escala em campos de milho e florestas, usando um avião Cessna.”
Seguiram-se três programas de observação utilizando radares meteorológicos nos EUA, entre 1978 e 1986, que provaram, por fim, a existência dos downbursts e permitiram a sua descrição detalhada. “Muitas vidas foram salvas devido à redução, senão eliminação, de potenciais acidentes de aviação causados por condições perigosas de ventos laterais na descolagem e aterragem”, diz o artigo, acrescentando que para tal contribuiu a instalação de radares nos aeroportos para avisar os pilotos da presença de microbursts.


Hoje a ocorrência de downbursts é perfeitamente aceite pela comunidade científica. O que é muitíssimo raro – e nunca registado em Portugal – é um downburst ter acertado num incêndio. Carlos Fiolhais, na sua crónica mensal no PÚBLICO, mencionou o relatório do IPMA e este azar, mas para enumerar depois diversas “falhas muito graves na resposta ao incêndio”.
Nos próximos tempos, é de crer que ainda vamos ouvir falar muito de downbursts.

Encontramo-nos daqui a duas semanas, até lá
 
 
 
 
 
 
 
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