terça-feira, 1 de agosto de 2017

1/8 - Blog " DE CANHOTA " de HOJE

De Canhota


Posted: 01 Aug 2017 10:07 AM PDT
Publicado originalmente na Agência de Notícias de Favelas (ANF).


Os tanques estão aí. Mais de 10 mil homens das forças de segurança estão nas vias da Cidade Maravilhosa, o “purgatório da beleza e do caos”. Alguns milhões estão sendo gastos com toda essa logística. Mas o que estamos vendo é só um paliativo que quer mostrar a toda população de que algo está sendo feito. Puro engano.

O enredo dessa farsa já presenciamos, tempos atrás, em outras ocasiões. Algo desse tipo já foi colocado como solução para conter a onda de violência, que, de forma irresponsável, deixaram que acontecesse. O uso desse tipo de instrumento, prova da incompetência dos que governam, é estapafúrdio e sem sentido. Qualquer um percebe que colocar militares nas ruas passa longe da resolução dos problemas reais.

O maior exemplo de que não funciona é o que foi feito na Eco 92, na militarização da Maré e as UPPs. Foram gastos exorbitantes e resultados pífios, sem demonstração de algo realmente resolutivo. Tenho total convicção: nunca vai resolver nada os governantes acharem que basta encher as vias e locais deflagrados de militares.

Ações de médio e longo prazo são o meio mais rápido para que algo realmente seja feito. Trazer à baila a necessidade de mostrar que errou e investir imediatamente no ser humano, “nas pessoas”, como afirma um certo prefeito aí… Por que não fazem isso?

Vejo servidores passando fome, massacrados há meses sem receber seus salários em dia, escolas sendo fechadas sem condições alguma de se manterem aberta, universidades obrigadas a suspender atividades por falta de verba. O mais degradante de tudo são os hospitais e postos de saúde, que muitas vezes mal contam sequer com álcool e gaze para um curativo, muito menos médicos. São tantas as necessidades de máxima prioridade, tanta coisa faltando nesse Estado falido. Mas o que nos é enviado? O que é que o Governo Federal envia para o Rio? Tropas com 10 mil homens, tanques de guerra, fuzis e munições. Isso é inadmissível, inaceitável. É cruel.

Por que será que o governo golpista de Michel Temer, em vez de oferecer os R$ 13 milhões para hospitais e creches que estão à míngua, repassou para o carnaval por intermédio daquele deputado que perdeu as eleições para a Prefeitura do Rio? Por que, em vez de mandar tropas e tanques e gastar diariamente milhões com a militarização da cidade, não enviou ajuda para pagar os servidores e garantir o funcionamento da Uerj, que acaba de suspender o ano letivo por tempo indeterminado? Não há como conceber algo dessa natureza em um momento tão difícil, com tanta gente sofrendo, querendo comida e não tanques.

O povo do Rio de Janeiro chora assombrado com o fantasma da fome e do desemprego. Mas, no entendimento dos governantes, é com tanques e guerra, que só geram mais confrontos, que tudo vai se resolver. O povo quer comida na mesa, senhor presidente. O povo quer condições de sobreviver, senhor governador. Todas as outras questões são secundárias.

Assim como as UPPs falharam, essas ações custosas e impensadas também vão fracassar.


Cleber Araújo é Morador e ativista do Complexo do Alemão e curador do Favelart.
Posted: 01 Aug 2017 08:30 AM PDT
Publicado no Jornal GGN.


O impasse político-jurídico que faz de Lula um candidato e não-candidato, só será equacionado pela correlação de forças que o desdobramento da atual crise e novos eventos produzirem. Depois da indignação inicial pela condenação do ex-presidente, as forças políticas progressistas voltaram ao seu estado de letargia. Delegaram a Lula e à sua defesa a tarefa de tentar reverter a condenação. Lula, viajando pelo país e, sua defesa, trabalhando nos tribunais. A decisão do Congresso do PT de defender Diretas Já, mesma bandeira assumida pelos demais partidos de esquerda e por movimentos sociais, não se transformou em movimento de ruas. O "Fora Temer", mesmo que o presidente ilegítimo tenha apenas 5% de apoio, está circunscrito ao Congresso e às redes sociais.

Há um risco enorme em tudo isso, pois os tribunais e os juízes não estão julgando a partir da Constituição e das leis, mas a partir de suas vontades interpretativas. Com a opinião pública apática, desanimada e desmobilizada, a possibilidade da inviabilização da candidatura Lula pode se constituir em tendência dominante.

Mas, admita-se, para efeito de projeção de cenários, que a candidatura Lula possa existir legalmente. Se esta legalidade existir, a imposição das circunstâncias fará de Lula o candidato e adiará a pretensão de renovar o PT com um candidato que expresse uma nova página na história do partido. Estabelecer-se-á, então, um paradoxo muito singular, que é o paradoxo da conciliação e da radicalização.

Pelo que se dispõe de biografias do líder sindical e de estudos acerca do que foi o governo Lula em seus oito anos, não há como negar que, tanto na sua atuação sindical quanto na presidência da República, ele imprimiu a marca da conciliação em suas ações. Dizer isso, não significa emitir um juízo de valor e nem dizer que Lula não tinha um lado. É evidente que tinha e tem um lado. Entendeu, no entanto, que a melhor forma para alcançar determinados objetivos para aqueles que pretendeu representar, a política de conciliação era o caminho mais factível. Claro que se podem emitir juízos de valor sobre essas escolhas, mas não é o objetivo aqui.

Convém lembrar que Lula se tornou presidente nas eleições de 2000 a partir de dois movimentos táticos conciliadores: a Carta ao Povo Brasileiro e a marca "Lulinha Paz e Amor", que apagaram qualquer sombra de radicalismo que pudesse se projetar sobre ele. A síntese da política governamental do petista foi o jogo do "ganha-ganha", como bem demonstraram os estudos de André Singer. A política de conciliação, o amplo leque de apoio que construiu em sua base congressual e os resultados alcançados pelas políticas econômica, salarial e social se traduziram em anos de significativa paz social e de amortecimento dos conflitos sociais e trabalhistas.

Olhadas as coisas por este ângulo de mirada, as elites deveria agradecer aos céus pela existência de um líder como Lula, expressão de um enorme lastro popular, de uma inegável força carismática e, ao mesmo tempo, vocacionado para a construção de um caminho de concórdia, de entendimento e de paz. Assim, Lula não é apenas um conciliador, mas o grande mediador nacional, o pacificador, o líder quase que imprescindível para reunificar o país num memento de tensões, de radicalizações e de descaminhos. Se as elites pensassem racionalmente, deveriam fazer apelos, movimentos de resgate, para tornar Lula candidato.

A potência da radicalização


Quiseram, no entanto, os caprichos da Deusa Fortuna e os desatinos dos humanos turbar o jogo político e transformar o símbolo da conciliação em símbolo da radicalização. Setores das elites não se cansam de estigmatizar, demonizar e perseguir este símbolo, que é o Lula. Claro, se a candidatura Lula se confirmar, ela terá que proclamar a paz e a concórdia entre os brasileiros se pretender ser exitosa. Mas ocorre que a candidatura Lula não pertencerá nem a Lula e nem ao PT. Se do ponto de vista da campanha oficial ela terá um rosto afável, do ponto de vista das ruas e do debate social, ela deverá assumir a dimensão de uma batalha campal.

Os setores conservadores e de direita, em suas diferentes expressões, buscarão meios de tentar interditar a todo custo uma vitória eleitoral de Lula. Ciro Gomes afirmou que "Lula racha o país em bases odientas, rancorosas e violentas". É verdade, mas não é Lula e a sua vontade que produziram tal racha e sim a dinâmica que os golpistas imprimiram ao país e à opinião pública que levou a este cenário de confrontação.

A possível candidatura Lula provocará uma polarização intensa e o eleitorado conservador terá que definir o seu antípoda, o anti-Lula. Dória e Bolsonaro se pré-definiram e se investiram com os anti-Lula. Seja quem for o anti-Lula - um desses dois ou um terceiro - terá uma tropa de choque raivosa que precisará ser confrontada pelas forças políticas e sociais que se constituírem em apoio ao petista. A campanha polarizada tenderá a estreitar tanto o espaço à esquerda de Lula, quanto o de centro-esquerda.

A pergunta que cabe fazer é a seguinte: a polarização será positiva ou negativa para o Brasil? A resposta deve ser a de que a polarização será positiva. A polarização desnudará a grande mentira, a grande farsa da política brasileira: a farsa da sociedade pacífica, harmoniosa; a farsa que encobre as tragédias do país, as profundas desigualdades, as injustiças e o assalto que as elites promovem aos recursos públicos.

O Brasil precisa encontrar a sua verdade e a verdade do Brasil está no conflito e na sua explicitação. A polarização exigirá que os políticos se posicionem, sem truques de marketing, acerca de qual país querem e como pretendem destinar os recursos públicos, provindos, em sua maioria, do suor do povo trabalhador. Os políticos terão que dizer se querem que continue a incultura do povo, a precariedade da educação e saúde, a falta de empregos e de direitos, a insegurança e a angústia das favelas ou se querem um país justo, igual, desenvolvido e um povo culto e educado. Os políticos terão que dizer se querem que bebês continuem sendo baleados no ventre das mães, se querem os 60 mil mortos por ano pela violência, se  querem a continuidade das espantosas estatísticas das tragédias no trânsito ou se se tornarão competentes, responsáveis e comprometidos para superar tudo isto.

A polarização terá que exigir que os políticos se definam, escolham lados, assumam compromissos. O Brasil não pode seguir caminhando sob a égide da farsa, da mentira e da hipocrisia - marcas degradantes de sua história. O desânimo do povo terá que se transformar em cobrança e em exigência de compromissos e responsabilidades.

O povo terá que dizer que não aceita que deputados e senadores o traiam depois de eleitos. Terá que dizer aos governadores e ao presidente que quer eficiência, transparência e honestidade, pois uma dessas variáveis não existe sem as outras. Se a candidatura Lula se viabilizar, terá que ser popularizada, desprivatizada do controle do PT e dos marqueteiros. Terá que pertencer ao povo, as suas demandas, às suas angústias e as suas esperanças. Só assim poderá ter um sentido histórico positivo e transcendente em relação a este momento degradante da história do país.

Aldo Fornazieri é Professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. (FESPSP).
Posted: 01 Aug 2017 06:30 AM PDT
Publicado em seu perfil no Facebook.


Desde a sua fundação, antes mesmo disso, na segunda metade dos anos setenta, a CUT protagonizou e liderou as lutas que diziam respeito aos interesses dos trabalhadores.

No entanto, tanto quanto o PT, cuja origem tem a mesma matriz de pensamento, com uma disposição fundamental: a possibilidade permanente de negociação e conciliação.

Natural que assim fosse se considerarmos que as formulações políticas que norteavam a criação de uma e outro nasciam no seio do sindicalismo melhor sucedido na época, o do ABC paulista, espaço no qual se concentravam as crescentes montadoras automotoras e toda a indústria de sua cadeia produtiva.

É interessante lembrar que a concepção de organização política comum aos dirigentes das correntes majoritárias da CUT e do PT refutava o modelo que os partidos comunistas, hegemônicos nas organizações sindicais até antes do golpe militar de 1964, adotavam.

Para os comunistas, os sindicatos tinham a tarefa específica de despertar a consciência de classe dos trabalhadores, assim organizá-los e conduzi-los às organizações partidárias, às quais cabia conceber e promover as ações e movimentos necessários às transformações sociais.

A consciência de classe a ser despertada pelos sindicatos e consolidada pelo partido seria necessariamente revolucionária, transformadora da ordem social, de ruptura com a ordem burguesa, a natural inimiga de classe, com a qual era impossível conciliar.

A CUT e o PT, portanto, ao afirmarem a hipótese da conciliação das classes e da possibilidade de transformação social nas mesas de negociação das pautas sindicais, dão uma nova dimensão à representação classista e redefinem o seu papel e objetivo.

O conflito de interesses de classes na repartição da riqueza gerada no processo produtivo passava a ser o real limite da luta.

O confronto, como elemento revolucionário, transformador das relações, provocador de ruptura da ordem, não estava mais no horizonte.

No passar desse tempo dá-se o avanço do neoliberalismo no mundo.

Valendo-se da apropriação das novas tecnologias e dos novos materiais e de uma brutal comunicação de massas que inclusive seduz setores expressivos do sindicalismo, impõe novas relações de produção que resultam no estabelecimento de um cenário deletério para as organizações operárias: a consciência de que o indivíduo se basta e de que as organizações coletivas são imprestáveis, no que foi a sua grande e mais consequente vitória ideológica.

A par disso, e por isso, crescem – e são festejadas e estimuladas de modos sub-reptícios – as reivindicações específicas de grupos que passam a se anunciar como não representados pelas organizações classistas em geral.

Nascem e proliferam, então, as organizações que tratam isoladamente das preocupações dos jovens, das mulheres, de diferentes grupos religiosos, de diversidade sexual, especificidades étnicas e outros, fragilizando ainda mais as já desgastadas representações sindicais.

O tempo passa e, nesse cenário, Lula é eleito em 2002.

Todas as sinalizações dadas aos senhores do mercado na campanha eleitoral, sobretudo pela Carta aos Brasileiros, que afirmava o respeito aos contratos em vigor, apontavam um governo que não pensava em rupturas com o estabelecido e com o instalado.

Em seu primeiro mandato, principalmente levando adiante a real determinação de fazer alguma distribuição de renda, Lula provocou notáveis alterações na cruel pirâmide social do país.

Festejado mundo a fora e aparentemente aceito internamente, o governo do ex-operário parecia demonstrar que a conciliação com as classes dominantes era, realmente, possível!

A crise surgida ainda em 2005, com as primeiras denúncias espetaculares e espetaculosas sobre apropriação de recursos públicos para variados fins por parte de integrantes do governo, despertaram em uns poucos a pálida impressão de que talvez a burguesia não estivesse tão disposta a concordar com as tais transferências de recursos aos mais pobres quanto fizera crer inicialmente.

Ainda assim as primeiras reações pareciam apontar a saída de sacrificar alguns para manter o poder que se acreditava existir no exercício da presidência.

A reeleição de Lula em 2006 fez crescer o número dos crentes em tal providência.

Desgraçadamente, desde então as hostilidades, as agressões e a verdadeira caça ao que passaram a chamar de lulopetismo só fez crescer e agravar, desaguando na situação que vivemos hoje, com o impedimento de Dilma, as constantes trocas de ministros, as reformas dizimadoras dos direitos dos menos assistidos, as denúncias contra o presidente no plantão e contra o seu eventual substituto, a condenação do Lula, ainda sem prisão determinada, negando a hipótese inicial e criando – espero! – uma certeza: não há qualquer possibilidade de conciliação com a burguesia mais vagabunda e insensata do planeta!

Com a interrupção do experimentado na União Soviética, no que a história chamou de o socialismo real e que pretende definitivamente derrotado – mas não nos deixemos abater pelo açodado Fukuiama e seu buliçoso “fim da história”! – parecemos não ter um discurso sedutor para as classes desvalidas, um novo modelo de sociedade alternativo ao produzido e proposto pelo capitalismo, se é que necessitamos elaborar outro.

No entanto, o debate sobre com quais argumentos poderemos chamar as camadas mais sacrificadas da população à luta, é fato, se impõe, é imprescindível e inadiável.

Mas enquanto não o fazemos e concluímos, não podemos correr o risco de sinalizar que pretendemos ganhar as eleições de 2018, com Lula, para fazermos mais do mesmo!

Não podemos ter como horizonte apenas a recuperação do poder central, sem maioria no congresso – e até com maioria no congresso! – para voltar ao exercício da obrigatória conciliação com a mesma burguesia que jamais investiu um único centavo em qualquer dos ciclos de desenvolvimento que o país viveu, mas que se apropriou da quase totalidade da riqueza gerada em cada um.

No horizonte que queremos tem obrigatoriamente que surgir a ruptura com a ordem burguesa porque este é o único resultado aceitável da verdadeira e real luta de classes!

“Pra que serve a utopia? Pra caminharmos!”


José Antonio Garcia Lima é membro da Executiva da CUT-RJ.
Posted: 31 Jul 2017 01:30 PM PDT
Publicado originalmente no Jornal GGN.


Se há algo nessa crise política que é uma chance para o Brasil é o fato de que as decisões tomadas pelo governo golpista são a um tal ponto ilegítimas que, mesmo que não venham a ser facilmente devolvidas ao lixo da história, deverão ser o objeto de algum processo de legitimação futura por exigência do próprio processo democrático.

Isso é verdade pois o projeto que está sendo implantado não é o que foi aprovado nas urnas, o processo de impeachment não sustenta cinco minutos de análise isenta, os Poderes viraram covis de bandidos que agem à luz do dia, a imparcialidade republicana virou uma piada, as Reformas prejudicam profundamente a maioria que é explicitamente contrária e a base social do golpismo se desfez, o que só não se manifesta mais explicitamente porque esses setores vivem do luto a fase da negação. A inação desses setores é apenas o prelúdio de uma reação mais forte, quando a realidade dos fatos lhes ceifar renda, emprego e oportunidades. Então essa ilegitimidade latente se tornará, em algum momento, explosivamente manifesta.

Dois fatos do momento recente ilustram a dinâmica do processo: (1) em Natal um movimento grevista de médicos aspira a “concursos públicos” num contexto de Estado mínimo, de Reforma trabalhista e de terceirizações aprovadas e vigentes... e (2) o aumento dos combustíveis, segundo informou uma liderança do movimento dos caminhoneiros, só não gerou protestos para não beneficiar o PT (talvez também para evitar o vexame...). A verdade é que há cada vez mais setores que começam a suspeitar fortemente que foram feitos de otários.

Então há na Sociedade como um todo, à direita e à esquerda do espectro político, uma insatisfação profunda com o que está sendo feito com o país, porém em graus diferentes de maturidade e de consciência; uma energia estática em dois compartimentos (a base “traída” do golpe e a oposição democrática) que poderá ser convertida num caudal único e produzir, uma descarga colossal enquanto manifestação de caráter Nacional.

Sob esse prisma enxergo que a pauta de consenso mais facilmente absorvível por esse conjunto heterogêneo de forças será a da retomada do Estado Social, que emergirá aos olhos da nação como incontornável.

Embora tenhamos a tendência de desprezar os setores que por preconceito contra a esquerda apoiaram o golpe, apesar dos inúmeros avisos de que iriam se dar mal, eles hoje vivem uma orfandade política impossível de antever há apenas um ano e devem ser politicamente convencidos a exprimir as suas reinvindicações por meio da institucionalidade democrática e não contra ela.

Penso também que seria benéfica para a democracia a existência no tabuleiro, do lado de lá, mas compondo o campo democrático, de algum partido conservador que pudesse exprimir indignação com o que está em andamento no Brasil e que abrace o compromisso com a restauração do Estado Social. Há um cavalo selado passando para quem possa, nesse espectro político e em nível nacional, assumir as bandeiras do Estado Social, sem o alinhamento com a esquerda que produz a alergia desses arrependidos, trazendo-os para a institucionalidade.

O PSDB, apoiador de primeira hora dessas reformas caminha para uma campanha que em muito se assemelha a um precipício e se vier a capitalizar algo em 2018 será o sentimento difuso de traição nacional. É verdade que até aqui essa insatisfação latente da direita “traída” pelo golpe está se avolumando em torno da candidatura de Bolsonaro, mas essa candidatura não espelha as nossas tradições de pluralidade e tolerância, que são valores nacionais e traria ainda mais turbulência à vida nacional.

Ora, é sobre o Estado Social que se ergue o Estado democrático e o que vemos é que usurpado o segundo, perdemos também o primeiro. Se alguém na direita se sublevar contra o golpe e as Reformas e der voz aos “arrependidos” e “traídos” em nome da Restauração do Estado Social, é também o Estado democrático que sairá ganhando. A ver se serão capazes.

Preparemo-nos, de toda sorte, para as manifestações monstruosas que previsivelmente virão com bandeiras amplas e supra partidárias que digam respeito aos interesses da nação tais como a de realizarmos plebiscitos revogatórios da PEC55, das terceirizações, da Reforma Trabalhista, em favor do uso dos royalties do pré-sal para a Educação e a Saúde e dos setores econômicos que fortalecem a Soberania Nacional, como a indústria naval e a de defesa.

Em suma, como forças condutoras que devemos ser, ter foco no Estado Social e no Brasil nos renderá uma capacidade de mobilização previsivelmente incalculável, certamente muito maior do que a nossa base histórica.


Ion de Andrade é Médico e professor universitário. É colaborador de uma instituição social ligada à igreja católica num bairro popular de Natal. Está concentrado no estudo dos avanços sociais e da emancipação das periferias como fatores da ampliação da democracia política. É autor do livro “A Hipótese da Revolução Progressiva” que propõe um novo modelo de transição ao socialismo.

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