quarta-feira, 2 de agosto de 2017

2/8 - Blog " DE CANHOTA " de HOJE

De Canhota


Posted: 02 Aug 2017 10:00 AM PDT
Publicado em seu perfil no Facebook.


1. Há uma crise profunda na Venezuela. Neste exato momento, ela tem seu fulcro na disputa do poder. Embora exista um poderoso pano de fundo econômico, seu epicentro deslocou-se para a arena política. Cada parte joga com os instrumentos que tem à mão. Nicolas Maduro detém o poder de Estado e seus principais instrumentos, incluindo as forças armadas, o judiciário e governos estaduais. A oposição, agrupada na Mesa de Unidade Democrática (MUD) ganhou a Assembleia Nacional (congresso), tem outros tantos governos estaduais e conta com um formidável aparato internacional, fixado na Casa Branca, nos governos de direita da América Latina, nos organismos multilaterais (ONU, OEA) e no grande capital, o que inclui gigantescas redes de comunicação global. Apesar de aparentar ser o lado mais forte, Maduro não está nessa posição, ao contrário. Ele foi eleito e a oposição na AN também. Quem fala em ditadura lá, age por má fé ou ignorância.

2. Fustigado por forças de direita que querem tudo, menos diálogo e entendimento – como sobejamente demonstra o caso brasileiro -, Maduro radicalizou. Convocou uma assembleia constituinte para relegitimar sua administração, ganhar força interna e organizar o enfrentamento. O comparecimento de 40% não é baixo diante do histórico venezuelano, que já teve pleitos decididos com menos de 25% dos votantes nas cabines.

3. A sociedade está polarizada. Não há mal nisso. Disputas acirradas e nítidas ensejam quadros em que as nuances se tornam secundárias e o meio-termo desaparece. Há dois lados para se perfilar. Pode-se criticar um ou outro, mas não há escapatória. Nessa disputa, nas próximas semanas, joga-se o futuro da Venezuela e da esquerda no continente.

4. Se a manifestação da crise está na política, suas raízes estão em outra esfera, nos rumos da Economia e em suas consequências na vida cotidiana da população. A erosão de parâmetros materiais mina a legitimidade oficial e abre caminho para o avanço conservador.

5. O país caribenho chegou ao ponto extremo de praticamente não possuir moeda nacional. O Bolívar tem sua cotação oficial fixada em 10 por dólar, segundo o Banco Central. Nas ruas de Caracas, a divisa dos Estados Unidas é comercializada a 12 mil bolívares! Você leu certinho: mais de mil vezes mais.

6. O que isso significa? Significa que a relação comercial do país com o mundo não segue nenhum parâmetro lógico. A taxa oficial, base para importações e exportações, é o ponto de apoio para uma desenfreada corrida especulativa interna. Comerciantes importam produtos na cotação oficial e os vendem em redes clandestinas controladas por máfias na base do paralelo. Não é preciso muita imaginação para perceber que as inflações de 720% para 2017 e de 2000% para 2018, previstas pelo FMI, têm no câmbio seu grande motor.

7. Assim, as escassez de produtos nos supermercados - num país que importa praticamente de tudo, à exceção de petróleo - está diretamente ligada á crise cambial. E por que existe uma crise cambial no país?

8. Pela continuada e extremada dependência do petróleo, não apenas como quase único exportável, mas pelo fato de o Estado ser financiado em boa parte pela renda advinda de sua comercialização. A carga tributária venezuelana é historicamente baixa, situando-se em cerca de 13,5% do PIB, no período 2010-14, segundo a Cepal. Para efeito de comparação, a carga brasileira está por volta de 34% do PIB, a francesa 45% e a alemã 46%. Há algo mais grave: daquele total, cerca de 2/3 é composto por impostos indiretos e 1/3 por cobranças diretas (como o imposto de renda). Isso mostra que a carga é bastante regressiva, apesar de ter se elevado bastante nos anos Chávez (1999-2013).

9. O fonanciamento do Estado é complementado largamente pela renda petroleira. Isso implica dizer que quando o preço do óleo está alto (como em 1974-80 e 2000-2011), a Venezuela torna-se próspera. Quando os preços desabam - como nos últimos três anos - o país tem de apertar cintos.

10. Como os preços do petróleo oscilam de acordo com uma infinidade de variáveis - boa parte delas especulativa - a manutenção dessa política fiscal na prática amarra o país à especulação mundial. Não é característica apenas venezuelana. O fenômeno atinge até mesmo um gigante como a Rússia. Além disso, o baixo ingresso de petrodólares gera escassez interna de moeda forte, o que alimenta a procura e eleva seu preço. A pergunta óbvia é: por que Chávez não mudou isso?

11. A resposta nada óbvia é: porque não é fácil. Quando os preços estão altos e o ingresso de petrodólares financia a máquina pública, os investimentos e o dinamismo econômico (incluindo geração de empregos, elevação de salários e programas sociais) não há incentivo algum para se realizar uma reforma tributária ou para se promover a reestruturação produtiva, impulsionando a industrialização. A moeda nacional se valoriza, as importações ficam baratíssimas e os custos de produção internos se tornam proibitivos. É o fenômeno conhecido como "doença holandesa" e foi percebido pioneiramente por Celso Furtado, em 1956.

12. Quando o preço internacional desaba e a economia interna entra em crise, não há condições de se fazer investimentos. Chávez tentou reativar a siderurgia, a instalação de indústrias de bens duráveis e internalizar a produção de produtos agrícolas processados, mas não conseguiu.

13. Assim, o problema estrutural do país - o câmbio e a moeda - não têm solução fácil à vista. Nem pelo governo e nem pela oposição. O programa desta última é voltar ao que existia até 1998: concessões de poços de petróleo a estrangeiros e adaptar a estatal de petróleo - PDVSA - à lógica dos grandes consumidores internacionais (EUA, entre outros), além de acabar com dezenas de programas sociais.

14. Esse é o pano de fundo sobre o qual se dá a disputa de poder. A falta de liderança presidencial, o sucateamento da PDVSA e problemas administrativos agravam, mas nem de longe são determinantes na composição do quadro. Se a situação é essa, por que motivos o governo venezuelano convocou a Constituinte?

15. É pouco provável que uma nova Carta ataque de imediato as disfuncionalidades econômicas. Mas ela se volta para uma questão também essencial para o chavismo: o tempo. Maduro precisa ganhar fôlego. Tem necessidade premente de se relegitimar, após perder as eleições parlamentares de 2015 e de ver seu país afundar - como todos os da periferia - após o repique da crise internacional, em 2013. Embora tenha havido uma pequena recomposição dos preços do barril do petróleo (US$ 30 em janeiro de 2016, US$ 50 em janeiro de 2017 e US$ 44 agora), o rombo econômico é de tal magnitude que tais majorações não resolvem as turbulências.

16. A relegitimação oficial via Constituinte permite, em tese, enfrentar a oposição interna, tentar compensar os efeitos da crise com medidas sociais tópicas e traçar nova tática de enfrentamento diante de um ascenso vigoroso de forças conservadoras no continente e nos EUA. Repetindo: pelo que se vê no Brasil, o que a direita menos quer agora é entendimento. Os bolivarianos terão êxito? Não se sabe.

17. Por que é vital apoiar Maduro, apesar de suas insuficiências e erros? Porque a queda do chavismo não melhorará a situação da esquerda nem interna e nem externamente. Cuba será novamente fustigada e as correntes progressistas latinoamericanas serão desqualificadas "ad nauseam". Assistiremos uma tragédia anunciada ainda maior para a população local e veremos um triunfo espetacular da direita e do financismo global. Será um exemplo a ser brandido por décadas para intimidar quem busca transformações sociais. Algo que só encontrará paralelo com a queda dos países socialistas, há quase trinta anos.

18. Infelizmente não há terceira via ou saída progressista na Venezuela fora do governo Maduro. Não há muro confortável, posição equidistante ou lugar para isenções. A neutralidade favorece o mais forte em situação de radicalização. Abandonar a Venezuela ou fazer carga contra quem luta como um leão para vencer as oligarquias equivale a se somar com armas e bagagens ao outro lado.

19. É possível criticar Maduro, falar de sua inépcia e esbravejar pelo fato de seu governo não raro meter os pés pelas mãos. Mas colocar-se contra ele e compará-lo à brutalidade fascista significa colocar-se ao lado de quem, no Brasil e no mundo, opera ferozmente pelo fim da democracia, pela regressão social e pela negação de qualquer ideia transformadora.


Gilberto Maringoni é Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).
Posted: 02 Aug 2017 09:00 AM PDT
Publicado originalmente no Huffpost US.


A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, pioneira na privatização dos serviços públicos, disse uma vez: "Não há tal coisa como a sociedade". Desculpe, Margaret, há e está acordando.

De acordo com um novo relatório do Instituto Transnacional, as cidades de toda a Europa estão cada vez mais decididas a reclamar bens públicos como água, energia e cuidados de saúde de empresas e investidores privados. Por exemplo, catorze cidades da região da Catalunha em Espanha deixaram a água sob controle público nos últimos dois anos.

No Reino Unido, após décadas de Thatcherismo, o pedido de serviços públicos eficientes, democráticos e acessíveis está se tornando bastante popular. Quase 60% da população britânica apóia o controle do sistema ferroviário do país. No mês passado, Jeremy Corbyn levou seu partido a uma briga parlamentar enquanto exigia exatamente isso: renacionalização ferroviária.

Aqui nos EUA, apesar dos vínculos profundos da administração Trump com Wall Street e América corporativa, há sinais de que a maré está virando.

Como sempre, o movimento está começando na parte inferior.

Há Milford, Connecticut, uma pequena cidade que empurra para comprar seu sistema de água depois de saber que a empresa que possui isso planeja aumentar as taxas em quase 30% .

Há Nova York, que acabou de trazer os trabalhadores do estado para fornecer serviços de suporte de TI após preocupações sobre o aumento dos custos em um contrato com a IBM.

Há Atlantic City, Nova Jersey, que no começo deste mês aprovou uma regulamentação para garantir que os moradores façam voto sobre qualquer ação do Estado para vender ou alugar o sistema de água da cidade.

Há Baltimore, Maryland, onde os professores apenas recrutaram centenas de novos alunos da escola pública depois de semanas de bater nas portas. E Miami, Flórida, onde pais e professores se reuniram durante o fim de semana para solicitar mais fundos para educação pública e regulamentação de escolas charter.

Quando o público se encontra com professores, bibliotecários e outros trabalhadores públicos para proteger o que possuímos juntos, mostramos que existe tal coisa como "sociedade".

E quando ganhamos, as pessoas com poder começam a ouvir. Na segunda-feira, o Partido Democrata revelou uma plataforma que exige a criação de milhões de empregos bem remunerados e de tempo integral investindo diretamente na infra-estrutura do país. Trump quer fazer o contrário: venda nossas estradas, pontes e aeroportos para Wall Street e corporações globais.

Nós temos um longo caminho a percorrer, mas vamos mantê-lo em movimento. Uma vitória para o público em qualquer lugar é uma vitória para o público em todos os lugares.


Donald Cohen é o fundador e diretor executivo do In the Public Interest, um centro nacional de recursos e políticas que defende o controle democrático de bens e serviços públicos. Escreve no The New York Times, Reuters, Los Angeles Times e outros veículos.
Posted: 02 Aug 2017 08:00 AM PDT
Publicado no meu perfil no Facebook.


O ministro da justiça Torquato Jardim garantiu R$ 70 milhões por mês, nos próximos meses, para a permanência das forças armadas no Estado do Rio de Janeiro. 

Vamos lembrar alguns números: os 15 meses das forças armadas na ocupação do complexo da Maré custaram R$ 600 milhões aos cofres públicos. Os gastos no complexo do Alemão, em menos de dois anos de ocupação pelas mesmas forças armadas, somaram meio bilhão de reais. 

Pergunto, algo mudou? Não, né. Outra pergunta: e se esses mais de um bilhão de reais fossem investidos em infraestrutura, serviços públicos e em programas sociais voltados para a juventude pobre desses locais?

E mais, sabem o que aconteceu com a utilização das forças armadas na estúpida "guerra às drogas" no México? A violência e o tráfico aumentaram e os soldados das forças armadas se corromperam frente ao tráfico. Aqui no Rio nós tivemos inúmeros casos de corrupção entre soldados das forças armadas nas ocupações do Alemão e da Maré. Não vai demorar para aparecerem os primeiros casos de execuções, torturas e corrupção por parte dos soldados das forças armadas. O tráfico vai cooptar. Anotem.

Pra piorar, numa audiência sobre segurança pública, um promotor do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) disse que uma das soluções para violência no Estado do Rio é implantar a experiência fascista de militarização das escolas, um absurdo que já ocorre em outros Estados do país.

É preciso vencer o discurso fascista que cresce a galope na sociedade brasileira. 

Abraços,
Daniel Samam
Posted: 02 Aug 2017 06:30 AM PDT
Publicado originalmente no Jornal GGN.


Resumo: Este artigo se propõe a apresentar considerações e debater acerca do espaço de discussão digital, que com o avanço das tecnologias digitais, se enraizou no dia a dia das pessoas ampliando não apenas o espaço, mas a visibilidade da opinião e produção de conteúdo dos indivíduos. Sem a pretensão de esgotar o tema, neste artigo são permeados grandes teóricos, análises de dados e publicações oriundas das redes sociais visando compreender melhor a dinâmica entre os emissores e receptores de informação nesse novo sistema de comunicação, bem como o peso ainda presente da concentração de mídia e da agenda pública guiada pelos conglomerados da mídia tradicional. Isso tudo de forma a questionar o imaginário da existência de um novo indivíduo capaz de avaliação e opinião formada sobre fatos e teorias e, também, a existência e sensação da existência de uma opinião pública pura nas redes sociais.

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O novo sistema de comunicação baseado na internet e suas redes sociais digitais foi, e ainda o é, enxergado e anunciado por teóricos como um novo formato de comunicação que possibilita uma maior pluralidade de informação e de contatos entre comunidades e indivíduos sem, necessariamente, o intermédio das grandes mídias clássicas. Seguindo essa lógica muitos afirmam que o novo sistema é o começo da democratização da comunicação permitindo, pela primeira vez de maneira ampla e global – ou seja, para uma grande audiência, uma resposta clara, e mais do que isso, um início de diálogo e produção de conteúdo por parte daquele que antes era visto principalmente como um receptor passivo da comunicação.

Se por um lado, esses novos canais de fala oferecidos aos antigos receptores são um fato, e realmente trazem aos indivíduos comuns o poder de impactar certa audiência. Por outro, a crença cega de uma possível equiparação do poder de fala, uma idealização de que o antigo receptor agora atua de igual para igual com o antigo emissor, é equivocada por que passa a sensação de que o receptor age e pensa apenas por conta própria, sem a influência ideológica das mídias que tradicionalmente ditam a agenda pública. E pior, da a sensação ao próprio indivíduo e a sua audiência pessoal de que aquelas conclusões, pensamentos e opiniões não sofrem mais influência dos meios de mídia.

“O que caracteriza o novo sistema de comunicação, baseado na integração em rede digitalizada de múltiplos modos de comunicação, é a sua capacidade de inclusão e de abrangência de todas as expressões culturais (...). É precisamente devido a sua diversificação, multimodalidade e versatilidade que o novo sistema de comunicação é capaz de abarcar e integrar todas as formas de expressão, bem como a diversidade de interesses, valores e imaginações, inclusive a expressão de conflitos sociais” (CASTELLS, 2002. p 460)

Não quero aqui dizer que o ambiente digital não criou novos espaços de discussão e a oportunidade de inserção de novos agentes de fala, mas quero ressaltar a importância da não generalização e idealização do sistema de comunicação digital, especialmente o das redes sociais, como um ambiente extremamente plural, em que todos têm voz e não é induzida a ponto de passar a sensação errada de que aquilo que é comentado, publicado e, especialmente compartilhado, nas redes digitais possui maior representatividade e é, por essência, uma opinião pública mais pura, no sentido de menos induzida, subjetiva e totalmente individual, do que aquela que se apresenta nos demais canais de informação.

Tecnologicamente, e em termos de serviços e custos prestados, o acesso a esse novo sistema de comunicação, apesar de crescente, ainda está restrito no Brasil a 57,7% da população, predominantemente nas regiões mais urbanizadas e em domicílios com maiores rendas, como mostram os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2015, divulgado pelo IBGE. Esse, por si só, já é um dado que atenta para o fato de que tal “novo modelo”, no Brasil especialmente por limitações de infraestrutura e recursos financeiros, representa apenas uma parcela da população e, apesar de gerar grandes movimentações especialmente dentro do âmbito do net-ativismo, deve se ter cuidado com a frequente generalização de que os tópicos mais abordados nas redes digitais são uma opinião pública de interesse, relevância e participação do todo.  

Outro ponto muito mencionado é o da ampliação da pluralidade de fontes de informações, como o advento das redes digitais. Essa movimentação é observada, mas ainda em ritmo muito mais lento do que a corrida feita pelos meios de mídia tradicional em busca de levar para o ambiente digital suas pautas, programação, audiência e ideologia, estendendo aos canais digitais o que é chamado de propriedade cruzada, que se trata da propriedade, pelo mesmo grupo, de diferentes tipos de mídia do setor de comunicações. Por exemplo: TV aberta, TV por assinatura, rádio, revistas, jornais e, mais recentemente, telefonia, provedores de internet, transmissão de dados, etc., modelo já muito comum no Brasil e em outros países.  

Para Pierre Levy, o novo sistema de comunicação

“Por um lado, enfraquece de maneira considerável o poder simbólico dos emissores tradicionais fora do sistema, transmitindo por meio de hábitos sociais historicamente codificados: religião, moralidade, autoridade, valores tradicionais, ideologia política. Não que desapareçam, mas são enfraquecidos a menos que se recodifiquem no novo sistema, onde seu poder fica multiplicado pela materialização eletrônica dos hábitos transmitidos espiritualmente: as redes de pregadores eletrônicos e as redes fundamentalistas interativas representam uma forma mais eficiente e penetrante de doutrinação em nossas sociedades do que a transmissão pelo contato direto da distante autoridade carismática” (LEVY, 1999. p.127)

Um exemplo, já nem tão atual assim, que foge um pouco da esfera da opinião pública, mas que ilustra bem essa realidade foi o lançamento do filme Harry Potter, em 2001. No momento em questão, o segundo executivo do grupo AOL Time e Warner, Richard D. Parsons, afirmou: "Você não será capaz de ir a lugar algum sem ouvir falar de Harry Potter". E a realidade foi exatamente essa. Uma grande operação de marketing foi montada envolvendo as mídias que o grupo possuía desde a produção e distribuição do filme até sua divulgação em diversos canais de mídia on e off-line, a venda de produtos licenciados, etc.

“A Warner Bros, um dos sete maiores estúdios de Hollywood, realizou o filme e exibiu anúncios e trailers nas emissoras de TV a cabo do grupo, além de comercializar o vídeo e o DVD do filme. A Warner Music produziu e comercializou a trilha sonora do filme em CDs e fitas K-7. A provedora de internet AOL (31 milhões de assinantes só nos EUA) ofereceu links dos produtos licenciados e vendidos por empresas do grupo. A Moviefone também do grupo promoveu o filme e vendeu ingressos por telefone e pela internet. A Time Inc., com seus 160 títulos impressos, publicou anúncios, promoveu concursos e fez reportagem de capa sobre o filme. O resultado de toda essa operação foi o sucesso mundial dos produtos Harry Potter. No Brasil, 1,2 milhão de pessoas assistiram ao filme somente na primeira semana do lançamento” (LIMA, para observatório da imprensa. 2003)

Ou seja, as redes digitais possibilitam sim o desenvolvimento de novos canais, mas também permitem que os grandes grupos de mídia se façam ainda mais presentes e, talvez de maneira ainda menos reconhecível. Uma vez que esse novo modelo passa justamente a ideia de que determinado tema, agenda ou assunto surge de maneira natural, de forma que nem se quer saibamos sua fonte ou até a veracidade do conteúdo. Sendo assim, é motivo de atenção o fato de que os indivíduos podem se assumir como criadores e coparticipantes de determinado fato, assunto, ideologia e opinião exaustivamente repetida pelos novos canais de mídias antigas. Este fato, essa sensação, é abordada por Levy, em que cita o novo sistema de comunicação como envolvente, uma rede, em que não se tem dimensão de onde vem e para onde vai e sim que faz parte do dia a dia dos indivíduos em todos os momentos, o que reforça essa falta de consciência e definição do real emissor da mensagem.

“Junto ao crescimento das taxas de transmissão, a tendência à inter-conexão provoca uma mutação na física da comunicação: passamos das noções de canal e rede a uma sensação de espaço envolvente. Os veículos de informação não estariam mais no espaço, mas, por meio de uma espécie de reviravolta topológica, todo o espaço se tornaria um canal interativo. A cibercultura aponta para uma civilização da telepresença generalizada. Para além de uma física da comunicação, a interconexão constitui a uma humanidade em um contínuo sem-fronteiras (...) A interconexão tece um universal por contato.” (LÉVY,1999. p127)

Esse novo sistema em rede que circunda o viver das pessoas e que parece ser um pensamento de todos pode ser até mais eficiente, para os grandes conglomerados de mídia, no sentido de dominação da agenda pública do que os formatos anteriores, uma vez que realmente faz parecer ser uma publicação do indivíduo, que por ter proximidade pessoal com o seu circulo de audiência, é recebido de maneira mais positiva e mais real, menos fabricada.

Levy, ainda em seu livro Cibercultura, aborda a questão da opinião pública e da noção do público dentro desse novo contexto digital.  

“(...) as comunidades virtuais exploram novas formas de opinião pública. Sabemos que o destino da opinião pública encontra-se intimamente ligado ao da democracia moderna. A esfera do debate público emergiu na Europa durante o século XVIII, graças ao apoio técnico da imprensa e dos jornais. No século XX, o rádio (sobretudo nos anos 30 e 40) e a televisão (a partir dos anos 60) ao mesmo tempo deslocaram, amplificaram e confiscaram o exercício da opinião pública. Não seria permitido, então, entrever hoje uma nova metamorfose, uma nova complicação da própria noção de “público”, já que as comunidades virtuais do ciberespaço oferecem, para debate coletivo, um campo de prática mais aberto, mais participativo, mais distribuído que aquele da mídias clássicas?” (LÉVY,1999. p127)

Se por um lado, como sugere o autor, o novo sistema de comunicação aponta uma mudança da visão do “público” devido à ampliação dos espaços de discussão, por outro lado algumas teorias e práticas correntes afirmam justamente o contrário: uma busca por isolamento em grupos compatíveis e com as mesmas visão, vivência e opinião. Esse isolamento parte tanto dos indivíduos, que comumente param de seguir ou desfazem amizades em rede sociais com aqueles que pertencem a seus círculos, mas que possuem opiniões diferentes das suas, como também promovidos pelos próprios algoritmos das redes sociais digitais e de busca: a conhecida teoria do filtro bolha.

Segundo Eli Pariser, um dos primeiros a escrever sobre essa teoria, mostra como os algoritmos que buscam entender cada indivíduo e seus interesses acaba limitando o acesso dos mesmos a informações diversas e plurais, mantendo-os dentro de bolhas de preferências.  

“Durante algum tempo, parecia que a internet iria redemocratizar completamente a sociedade. Blogueiros e os chamados “jornalistas cidadãos” iriam reconstruir os meios de comunicação com as próprias mãos. (…) Contudo, esses tempos de conectividade cívica com que eu tanto sonhava ainda não chegaram. A democracia exige que os cidadãos enxerguem as coisas pelo ponto de vista dos outros: em vez disso, estamos cada vez mais fechados em nossas próprias bolhas” (PARISIER, 2012. p.10-11).

Sob essa visão corremos o risco de assumir o “público” como a bolha a que fazemos parte, fazendo uma amostragem simplificada e mental em que o “todo mundo na minha timeline pensa assim” assume o peso de “todo mundo pensa assim” chegando até o discurso de a “opinião pública” pensa assim.  

Se em algum momento pode-se pensar que nas redes digitais a opinião pública realmente existisse, uma vez que essa não é uma pesquisa “imposta” e sim menções espontâneas dos indivíduos, e que por tal motivo conseguiria fugir um pouco dos três postulados implícitos citados por Bourdieu:

“Qualquer pesquisa de opinião supõe que todo mundo pode ter uma opinião; ou, colocando de outra maneira, que a produção de uma opinião está ao alcance de todos. Mesmo sabendo que poderei me chocar com um sentimento ingenuamente democrático, contestarei este primeiro postulado. Segundo postulado: supõe-se que todas as opiniões têm valor. Acho que é possível demonstrar que não é nada disso e que o fato de se acumular opiniões que absolutamente não possuem a mesma força real, faz com que se produzam artefatos sem sentido. Terceiro postulado implícito: pelo simples fato de se colocar a mesma questão a todo mundo, está implícita, a hipótese de que há um consenso sobre os problemas, ou seja, que há um acordo sobre as questões que merecem ser colocadas” (BOURDIEU, 1973. p.1)

Ao longo desse artigo quis discutir justamente o contrário, mostrando o cuidado que é preciso ter em relação às afirmações e teorias que dão ares de glória e de grandes conquistas no campo da independência ideológica e pluralidade da comunicação no novo sistema digital. É inegável a existência de mudanças e da ampliação de espaços de fala, mas é muito cedo, e até mesmo muito ousado, assumir uma interpretação de que os indivíduos estão perto de ter poder e espaço de fala equiparado aos gigantes conglomerados da mídia tradicional e, também, capazes de ter grandes movimentos totalmente independentes da agenda da grande mídia.


Ana Paula Gilsogamo é Publicitária e Pesquisadora de Mercado, formada pela ECA-USP. Artigo para a disciplina: Opinião Pública e Pesquisa Eleitoral, Profª Jacqueline Quaresemin, pós OPIM /FESPSP.

Referências:


BOURDIEU, Pierre. A opinião pública não existe. França: Les Temps Modernes, 1973.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

PARISIER, Eli. O filtro invisível – o que a internet está escondendo de você. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.


Posted: 01 Aug 2017 12:00 PM PDT
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O axioma sobre a democracia como valor universal faria algum sentido se a burguesia também tivesse esse compromisso que parte da esquerda propõe às classes trabalhadoras.

O problema é que seria uma aberração política, um verdadeiro suicídio, se as regras tradicionais da democracia liberal fossem mantidas quando as classes dominantes decidem-se pelo golpe, a sabotagem e a reação violenta contra a soberania popular.

Nessas situações, não há outro caminho, ao fim e ao cabo, que não seja garantir instrumentos democráticos para as camadas populares se organizarem e se expressarem, mas sem ter medo ou vacilação de responder com a ditadura democrática do povo contra o levante oligárquico-burguês, retirando todas as liberdades e direitos de quem aposta na insurgência reacionária.

Essa é a história que nos ensinam todas as revoluções vitoriosas.

A francesa, quando o rei foge para provocar uma sublevação restauradora da nobreza e do clero, respondida pelo terror jacobino.

A russa, com a dissolução da Assembleia Constituinte que se voltava contra o poder soviético, para não falar da repressão ao levante anarquista em Kronstadt, liderada por Trotsky.

A cubana, com o fuzilamento dos agentes da ditadura batistiana e os contra-revolucionários a soldo dos Estados Unidos.

A chinesa, com a ordem expressa de enfrentamento à rebelião anticomunista em Tianamen (1989).

O mesmo se passa agora na Venezuela. A Assembleia Constituinte é o espaço democrático e soberano para o povo decidir livremente seu caminho e o destino do país.

Mas se as elites continuarem em sua política de sabotagem e terror contra a revolução bolivariana, nenhum direito democrático lhes deve ser garantido, salvo o de um julgamento justo a seus agentes criminosos.

Se por democracia como valor universal entende-se a preservação de regras republicanas para todos, mesmo para as classes e partidos que rompem com a soberania popular, nenhum acordo a esse respeito pode ter quem legitimamente defende o ponto de vista da classe trabalhadora, da revolução e do socialismo.


Breno Altman é Jornalista e Editor do site Opera Mundi.

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