quinta-feira, 3 de agosto de 2017

3/8 - Folha Diferenciada DE HOJE

Folha Diferenciada


Posted: 03 Aug 2017 07:41 AM PDT


Em seu novo livro, Ladislau Dowbor oferece chaves preciosas para decifrar a metamorfose do sistema e suas novas formas de dominar e concentrar riquezas. Também sugere: é possível vencê-lo – mas com outros métodos…


Por Antonio Martins


ESTREIA

A Era do Capital Improdutivo, de Ladislaw Dowbor é o primeiro livro editado por Outras Palavras, em parceria com a editora Autonomia Literária. Já está à venda (em breve, lançamentos). Veja aqui o que este passo representa para o site e quais os nossos próximos projetos


Cinco famílias lideradas por homens brancos agora concentram mais riqueza que metade – 3,5 bilhões – dos habitantes do planeta. Em todo o Ocidente, a democracia declina e perde apoio porque é vista, cada vez mais, como um regime dos ricos e corruptos. O aquecimento global já se materializa na forma de mega-icebergs desprendendo-se da Antártida (sem falar nas primeiras levas de refugiados climáticos), mas os governantes permanecem desinteressados ou impotentes. No Brasil, os bancos privados multiplicam seus lucros em meio à maior recessão da História – e são o setor mais bem representado em todos os governos, antes e depois do golpe. Apesar da imensa concentração de riquezas, o sistema vai mal, deparando-se com taxas de crescimento medíocres e o risco crescente de uma nova crise financeira, que seria ainda mais devastadora e possivelmente incontrolável.

O que estes fatos, aparentemente díspares, têm a ver uns com os outros? Mais importante: como decifrar os mecanismos que impulsionam em conjunto todos eles? Será possível revertê-los e escapar de uma armadilha que parece aprisionar tanto a humanidade quanto a própria ideia de emancipação social? Encontrar as respostas tem sido, desde a virada do século, o desafio difuso que persegue ativistas em todo o mundo – e que mobiliza um punhado de pensadores ligados às lutas sociais. Em A Era do Capital Improdutivo, Ladislau Dowbor revela que o crescimento abissal das desigualdades, a ausência de limites para a depredação da natureza e o esvaziamento da política podem ser faces de um só fenômeno. Uma nova metamorfose do capitalismo (para usar expressão de Celso Furtado) criou um sistema que já não pode ser compreendido – muito menos superado – manejando apenas as chaves analíticas do passado. O autor não se contenta em constatar o déficit teórico: ele adianta pistas para ultrapassá-lo, ou seja: para tramar um novo projeto pós-capitalista.

* * *

A natureza mutante do capitalismo já havia sido destacada por Karl Marx. Mais recentemente, François Chesnais formulou, em A mundialização do capital (1988) e em obras posteriores, a hipótese do declínio do industrialismo e o surgimento de um “regime de acumulação sob dominância financeira”. Ladislau está de acordo, e oferece farta documentação e dados a respeito. Para dar ao leitor noção das dimensões do cassino financeiro global, mostra, por exemplo, que só as transações financeiras com “derivativos” – aquelas em que não se negociam mercadorias, mas apenas índices (a taxa de inflação, o preço de uma moeda, a cotação de uma commodity) atingiram 710 trilhões de dólares em 2013 – ou 9,6 vezes o PIB mundial naquele ano.

Mas A Era do Capital Improdutivo situa esta transição num conjunto de outras transformações civilizatórias marcantes, que se acentuam a partir dos anos 1950. A primeira delas é uma drástica mudança na arquitetura do poder mundial. Pela vez desde a Paz de Westphalia (1648), os Estados-Nações estão deixando de ser os atores centrais. Em seu lugar, emergem as megacorporações globais – grupos financeiros gigantescos; conglomerados industriais ligados e eles; um punhado de dealers que controlam o grosso do comércio de alimentos, minérios e combustíveis no planeta.

A passagem de bastão se dá por dois motivos. Primeiro, a concentração empresarial, mais intensa que nunca. Apoiado num vasto estudo do Instituto Federal Suíço para Pesquisa Tecnológica – o renomado ETH –, Ladislau demonstra que 147 grandes corporações (75% delas financeiras) controlam hoje, sozinhas, 40% do PIB do mundo. Numa espécie de “núcleo do núcleo” estão 28 “instituições financeiras sistematicamente importantes” (SIFIs, em inglês), cada uma das quais tem capital médio de US$ 1,8 trilhão (superior ao PIB do Brasil, a sétima economia do planeta).

O problema não é só o gigantismo. As megacorporações atuam em todo o mundo, enquanto os Estados-Nações são limitados por fronteiras. Todas mantêm sedes e filiais em “paraísos fiscais” (um capítulo do livro é reservado a examiná-los), onde podem articular oligopólios, evadir impostos ou praticar fraudes “livres” do constrangimento de governos ou Judiciários. Mais recentemente, diversos acordos comerciais permitem-lhes formar tribunais paralelos (Investor-State Dispute Settlement, ou ISDS, em inglês), nos quais podem exigir indenizações de Estados que adotem normas consideradas hostis a seus interesses (por exemplo, a redução da jornada de trabalho ou uma nova lei de proteção da natureza…).

O resultado é o esvaziamento rápido da democracia. Porque surgiu – acima dos Estados e com força superior à deles – uma nova esfera global de poder. Está inteiramente colonizada: em seu interior, o capital reina absoluto; não há eleições, parlamentos, governos escolhidos pela sociedade, transparência. Quem conhece a agenda do FMI, ou sabe como votam os representantes brasileiros na Organização Mundial do Comércio? Como frisa o autor, “o poder mundial realmente existente está nas mãos de gigantes que ninguém elegeu e sobre os quais há cada vez menos controle”.

A terceira grande transformação está ligada às novas relações entre a natureza, ser humano e conhecimento; ao advento do que passamos a chamar de Antropoceno. Ladislau insere-se claramente entre os autores que o veem como resultado do predomínio das lógicas mercantis. O livro resgata, à página 24 um gráfico desconcertante e pouco conhecido, em que está representada a evolução de fenômenos normalmente não relacionados: aumento da população humana, PIB, concentração de CO² na atmosfera, número de automóveis, consumo de papel, extinção de espécies, destruição das florestas e outros.

As curvas são coincidentes: tudo dispara a partir de 1950, num claro sinal de que entramos em outra fase. O autor analisa: “todos querem consumir mais, cada corporação busca extrair e vender mais, e tecnologias cada vez mais potentes permitem ampliar o processo (…) Para a maioria dos economistas, o crescimento é tão necessário quanto o ar que respiramos”. Duas consequências dramáticas, já visíveis, são o declínio abrupto da vida marinha e os sinais de uma sexta extinção em massa das espécies: “em apenas quarenta anos, de 1970 a 2010, destruímos 52% da fauna do planeta”.

A devastação da natureza é facilitada pelo “avanço” tecnológico, mas em mais de um trecho o livro demonstra: esta mesma técnica ameaça, perigosamente, criar uma sociedade cada vez mais desigual e alienada. A concentração de riquezas é possível, em escala nunca vista, porque um pequeno número de corporações controla e processa informações sobre os mercados e inclusive sobre nossas vidas. O sinal mais evidente de que as questões social e ambiental se entrelaçam está expresso numa formulação ao mesmo tempo feliz e terrível: “estamos destruindo o planeta (…) de forma muito particular para o proveito do 1%”.

Em muitos de seus textos recentes, Immanuel Wallerstein tem sustentado que o capitalismo, tal como o conhecíamos, vive em crise terminal; mas que não é possível saber, o que o substituirá – e não se deve afastar a hipótese de que seja um sistema ainda mais desigual, mais hierárquico, mais alienante e menos democrático. Em seu novo livro, Ladislau Dowbor parece sugerir que este cenário de pesadelo está sendo montado agora, diante de nossos olhos.

* * *

O próprio livro fornece, porém, elementos para enxergar como tal construção é instável; como resta, portanto, espaço para a resistência e a busca de alternativas. O livro trata, em especial, de duas vulnerabilidades. A primeira é o declínio do próprio crescimento econômico – objetivo essencial da lógica mercantil –, acompanhado de riscos novos de terremotos financeiros avassaladores.

A concentração de riquezas, explica o autor, acaba convertendo-se num obstáculo à reprodução do ciclo do capital. Sob o regime de dominância financeira, cresce o rentismo – a capacidade de apropriar-se da riqueza social sem nada produzir. O Brasil (a que Ladislau dedica dois capítulos) é um exemplo extremado. O sistema financeiro estende seus tentáculos tanto sobre o orçamento público (de onde são desviados R$ 400 bilhões, ou cerca de treze programas Bolsa-Família ao ano) quanto sobre as famílias e empresas (reduzindo a capacidade de consumo e as margens de lucro). Em meio ao terceiro ano seguido de recessão, os lucros dos bancos não cessam de crescer.

Mas o resultado desta punção é, em todo o mundo, a economia estagnada. Desde os abalos de 2008, não houve recuperação efetiva. O autor explica, dando tintas atuais às ideias de Marx sobre as crises de superprodução: os mais ricos entesouram seu dinheiro; são as maiorias que gastam quase tudo o que recebem – mas se elas são atingidas pela desocupação e pela queda dos salários, quem manterá a economia girando? Que empresários ousarão investir, se os consumidores finais estão quebrados?

A segunda debilidade crucial é a ineficiência das empresas. Para desenvolver o tema, Ladislau recorre a seus estudos e experiência como gestor e planejador – algo raro entre a esquerda. A intensa concentração empresarial, explica, criou conglomerados enormes e disformes, movidos cada vez mais pela lógica única da rentabilidade financeira, incapazes de atender às demandas sociais e mesmo de evitar fraudes e tragédias. O exemplo emblemático é o do desastre de Mariana: “entre o engenheiro da Samarco que sugere o reforço na barragem e a exigência da rentabilidade da Vale, Billiton e Bradesco, a relação de forças é radicalmente desigual”. O resultado é o soterramento do distrito de Bento Rodrigues.

Os exemplos de ações fraudulentas entre as grandes corporações, aliás, multiplicam-se. O sistema financeiro é líder, mas a Justiça garante blindagem: “Praticamente todos os grandes grupos [internacionais] estão com dezenas de condenações, mas em praticamente nenhum caso houve sequelas judiciais como condenação pessoal dos responsáveis (…) Basta a empresa fazer, enquanto pratica a ilegalidade, uma provisão financeira para enfrentar os prováveis custos do acordo judicial”. A velha mídia cumprirá seu papel, ocultando sempre que possível os crimes e construindo, contra todas as evidências, a imagem de corporações responsáveis e de famílias saltitantes, felizes com seu banco. Mas as enxurradas de publicidade não apagam os fatos: tem futuro um sistema que não é capaz sequer de cumprir sua promessa de crescimento e eficiência?

* * *

Por outro lado, é possível enfrentar este capitalismo metamorfoseado com as ideias e personagens dos séculos passados? Ladislau Dowbor tem pistas também para esta questão. Em certo trecho, ele recomenda “aos sindicatos e movimentos sociais” examinar melhor as novas formas de extração de mais-valia. Explica: “A forma tradicional – o patrão que produz mas paga mal, ensejando lutas por melhores salários – foi brutalmente agravada por um sistema mais amplo de extração do excedente produzido pela sociedade”. Nos novos tempos, “todos somos explorados, em cada compra ou transação, seja através dos crediários, dos cartões, tarifas e juros abusivos, seja na estrutura injusta da tributação”. Há aqui uma fraqueza por excesso: “O rentismo é hoje, sistematicamente mais explorador, e pior, um entrave aos processos produtivos e às políticas públicas. (…) Sua grande vulnerabilidade está no fato de ser improdutivo, de constituir dominantemente uma dinâmica de extração sem contrapartida à sociedade”.

“Quem serão os atores sociais” aptos a enfrentar este poder? Pergunta Ladislau em outro ponto, que talvez merecesse ser mais destacado no livro. Ele mesmo responde: “Os partidos, os governos – mesmo democraticamente eleitos – e até os sindicatos estão fragilizados e sem credibilidade. O que era uma classe trabalhadora relativamente homogênea e com capacidade de articulação (…) é hoje extremamente diversificada pela multiplicidade e complexidade de inserção nos processos produtivos”. A esperança estaria numa espécie de novo proletariado, já entrevisto por autores como David Harvey e Toni Negri: “Os prejudicados do sistema são a imensa maioria, e não faz sentido o 1% pesar mais que o 99%”.

Como inverter a balança – ou seja, como abordar a luta pela emancipação social na Era do Capital Improdutivo? Aqui, Ladislau destoa tanto do pensamento econômico tradicional quanto de grande parte dos economistas de esquerda, tão autolimitados pelo mito segundo o qual “não há orçamento” para atender às demandas sociais. É preciso, mostra o livro, opor, às lógicas contábeis da “austeridade” e dos “ajustes fiscais”, outras realidades.

“Se há uma coisa que não falta no mundo são recursos”, lembra Ladislau – e aqui ele parece atualizar a ideia de Marx sobre a contradição entre a técnica (as “forças produtivas”) que avança, e o sistema social (as “relações de produção”) que se vê obrigado a limitá-la – porque podem ser uma ameaça aos privilégios. O livro ressalta: “O imenso avanço da produtividade planetária resulta essencialmente da revolução tecnológica que vivemos. Mas não são os produtores destas transformações que aproveitam. Pelo contrário, ambas as esferas, pública e empresarial, encontram-se endividadas nas mãos de gigantes do sistema financeiro, que rende fortunas a quem nunca produziu e consegue nos desviar radicalmente do desenvolvimento sustentável, hoje vital para o mundo”.

O autor resgata dados desconcertantes – mas sempre ocultados, porque incômodos. “Se arredondarmos o PIB mundial para 80 trilhões de dólares, chegamos a um produto per capita médio de 11 mil dólares. Isto representa 3.600 dólares por família de quatro pessoas, cerca de 11 mil reais por mês. É o caso também no Brasil, que está exatamente na média mundial em termos de renda. Não há razão objetiva para a gigantesca miséria em que vivem bilhões de pessoas, a não ser justamente o fato de que o sistema está desgovernado, ou melhor, mal governado e não há perspectivas no horizonte”.

Mas como ir além do sistema? Ladislau frisa, desde o início, que sua experiência o ensinou a passar ao largo das ideologias – os “ismos”, como ele as chama. Quer saídas práticas. Porém, a radicalidade do que propõe, sempre com base em um imenso volume de dados articulados, convida a especular: tais respostas não cabem no sistema a que estamos submetidos. Por isso, talvez não haja heresia em dizer que o autor pratica um “pós-capitalismo discreto”. É como se dissesse, à moda de Leminsky: não se afobem: “distraídos, venceremos”.

O livro termina com o “Esboço de uma Agenda”, um brevíssimo ensaio construído em coautoria com Ignacy Sachs – um dos propositores do conceito de “ecossociodesenvolvimento – e Carlos Lopes – pesquisador africano, ex-subsecretário-geral da ONU.

Proposto em 2010, o rascunho chama a atenção por sua atualidade. Nele, propostas estruturais – como a instituição Renda Básica da Cidadania, a redução da jornada de trabalho, a reorganização do sistema financeiro, a reorientação dos sistemas tributários e a livre circulação do conhecimento (em oposição à “propriedade intelectual” e aos sistemas de “copyright”) – figuram lado a lado com mudanças de atitude decisivas (como a “moderação do consumo” e a “generalização da reciclagem).



É pouco, certamente – e é ótimo que seja assim. Reconstruir um projeto de emancipação social será obra de multidões e exigirá décadas de imaginação, sondagens, tentativas, erros, novas reflexões e criações. O que o livro de Ladislau Dowbor reitera é que o esforço começou; que já somos capazes de nos perceber submetidos à Era do Capital Improdutivo – mas também de buscar as saídas; que, em oposição ao futuro distópico que hoje nos ameaça, podemos tatear o pós-capitalis

Outras Palavras


Posted: 03 Aug 2017 07:20 AM PDT

Professor de ciência política avalia que principal risco ao presidente virá da ameaça à estabilidade fiscal, comprometida por concessões para se manter no poder


DANIEL HAIDAR
São Paulo

Renato Lessa, professor de ciência política RAFAEL ANDRADE FOLHAPRESS


O cientista político Renato Lessa, professor de teoria política da PUC-Rio e ex-presidente da Biblioteca Nacional, avalia que o presidente da República, Michel Temer (PMDB), ainda possui "gordura para queimar" no Congresso, apesar da inédita taxa de reprovação e de suspeição. Por isso, ele conseguiu blindagem na votação da Câmara dos Deputados, que derrubou nesta quarta-feira a abertura de uma ação penal contra o presidente enquanto ele ocupar o Palácio do Planalto. E mesmo acusado de corrupção e acossado por outras acusações judiciais, o presidente provavelmente conseguirá blindagem do Congresso contra novas denúncias. Para Lessa, Temer é menos ameaçado pelas flechas do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, do que pela chance de perda de apoio da elite empresarial brasileira se ameaçar a estabilidade fiscal, avalia o autor de "Presidencialismo de Animação: ensaios sobre a política brasileira, 1993-2006". "Todo sistema político tem um ponto de ruptura", avalia o cientista político. "Considerando que o governo Temer não tem nenhuma vergonha, bastam 200 deputados que ele vai até o fim. Mas tudo depende ainda do que vai acontecer", acrescenta.

Pergunta. Temer é um presidente acusado de corrupção, sem apoio popular. Na teoria, poderia estar frágil. Como explicar a força para derrubar a abertura de uma ação penal?
Resposta. Existe uma completa dissociação de representação política em relação ao eleitorado de modo geral. Segundo pesquisas de opinião, a impopularidade do governo é inédita. Mas, ao mesmo tempo, dentro do Congresso, que cada vez mais se configura como caixa-preta imune ao que se passa fora, o presidente consegue obter uma blindagem, cuja natureza é a mesma massa de composição parlamentar que derrubou a presidente Dilma Rousseff. Com alguma perda, tentaram blindar o ex-deputado Eduardo Cunha, mas não conseguiram. Até o momento, essa massa tem se mostrado capaz de blindar o presidente. Alguns cientistas políticos comemoram isso, porque dizem que nunca houve tamanho sucesso de presidente para conseguir base parlamentar. Mas esse sucesso tem um custo terrível, que é a degradação política e a emergência de tipos políticos deploráveis. O preço da manutenção de Temer é a degradação progressiva da representação política, sobretudo quando parlamentares encaminham propostas de reforma eleitoral que vão degradar ainda mais as conquistas do Brasil no campo da representação política, como o pluripartidarismo. No Brasil, os representantes não representam os representados. Os representantes se fazem representar no governo. É uma degradação profunda do sistema de representação.

P. Até onde vai a capacidade de Temer de manter apoio do Congresso?
R. Contra denúncias do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, Temer tem blindagem no Congresso. Mas todo sistema político tem um ponto de ruptura. Não existe sistema político perfeito. No curto prazo, a quebra será pela perda da estabilidade fiscal, porque operadores do mercado financeiro não vão tolerar a quebra fiscal. A ninguém interessa isso. Mas (essa estabilidade fiscal) é uma dificuldade para Temer, porque, para se sustentar legalmente, esse governo tem de esgarçar a questão fiscal, ser leniente, promover anistias. Esse condomínio governista tem um preço. Não há amigos ali. É a cultura permanente que vem sendo reposta. O plano B é o sucessor, Rodrigo Maia. É possível que, na segunda ou terceira denúncia de Janot, se elites desertarem do governo Temer por um quadro de degradação fiscal e paralisia das reformas, por que mantê-lo? Se for possível colocar outra peça que assuma com compromisso de tentar recolocar o carro nos trilhos, tal como se pretendeu com a derrubada da Dilma. Foi pra isso que ela foi derrubada. Ninguém hoje com meio neurônio pode acreditar que Dilma foi derrubada por pedalada fiscal.

P. Como Temer conseguiu essa blindagem e quais as chances de perdê-la?
"O programa do governo é apontar a proa do barco para o século 19. Chegamos ao paroxismo que a fiscalização do trabalho escravo foi suspensa. Isso é pré-1888"

R. Sempre houve essa coisa de conseguir apoio pela liberação preferencial de emendas. O fator agravante é que todo mundo está sob foco da hiper-judicialização. Os juízes e promotores são cuidadores do bem público. E há um choque da classe política degradada com o sistema Judiciário hipertrofiado pela Constituição e pelas motivações políticas que esse segmento tem. Grande parte da insistência em manter o quadro atual tem a ver também com riscos do que pode acontecer com pessoas se saírem do poder. Temer pensa nisso todo dia. A Presidência da República é um refúgio para Temer e seus assessores. Mas o que sustenta Temer não é só a degradação parlamentar e a capacidade infinita de ultrapassar limites que julgávamos inaceitáveis. O inaceitável é renegociado a cada dia. Tem a ver também com a funcionalidade de Temer para grandes interesses que comandam a vida brasileira. Enquanto a classe empresarial entender que ele é fiador das reformas, isso é elemento fundamental para manutenção do governo, levando em conta que falta um ano e meio para esse governo acabar. E qualquer quadro de substituição, mesmo que seja o deputado federal Rodrigo Maia, pode provocar incerteza, instabilidade. Elites podem ir com Temer até onde for possível e manter um plano com Rodrigo Maia como fiador das reformas. Se Temer ultrapassar o limite da responsabilidade fiscal, como está ultrapassando agora, esse é o ponto de risco. Esse é o ponto de quebra. Seria a inviabilização do programa. O programa do governo é apontar a proa do barco para o século 19, desfazer a acumulação democrática que tivemos desde 1946, com proteção do trabalho etc. Chegamos ao paroxismo que a fiscalização do trabalho escravo foi suspensa. Isso é pré-1888. Esse governo consegue a façanha de associar a modernidade com o retorno ao século 19. É como se pudesse pavimentar o século 21 com paralelepípedos do século 19. É regressão em todos os campos: cultura, direitos sociais, previdência. Não tem nada de novo. É regressivo. Isso é pré-estado de bem-estar social, um mundo em relação ao qual o filósofo e historiador Karl Polanyi designava como mundo do "moinho satânico". É uma sociedade de mercado onde tudo pode acontecer, uma loteria, não tem proteção. É um retorno à perspectiva do "moinho satânico", apesar do apoio dos evangélicos ao governo.

P. Ficam fissuras, como um racha no PSDB, no bloco governista depois dessa votação na Câmara?
"Taxa de resiliência à vergonha dessas pessoas no poder é uma coisa a ser estudada ainda"

R. Fica alguma fissura. O PSDB não vai mais poder explicar aos eleitores no que difere do PMDB. O PSDB virou o PMDB do Temer. Uma fração do PSDB está percebendo isso. Fernando Henrique sabe disso, mas está emparedado em São Paulo por Geraldo Alckmin, João Doria e José Serra. Considerando que o governo Temer não tem nenhuma vergonha, bastam 200 deputados que ele vai até o fim. Isso ele tem. O volume morto do Congresso é suficiente para dar esse quórum. Mas tudo depende ainda do que vai acontecer. Eduardo Cunha também era dado como inexpugnável e foi traído por todos. Temer é mais inteligente do que Cunha, então tem base no Supremo Tribunal Federal, e o principal assessor militar dele, Sérgio Etchegoyen, é fiador importante. Temer conseguiu uma sucessão na Procurador-geral da República que desloca a turma do Janot. Temer vai sobrevivendo, conversa com elites, ruralistas estão na mão dele. O que está sendo feito na política indigenista é uma coisa criminosa. Temer tem gordura para queimar ainda, sobretudo pela ausência de vergonha. Taxa de resiliência à vergonha dessas pessoas no poder é uma coisa a ser estudada ainda. Essa resiliência à vergonha permite que atores políticos a cada dia renegociem o limite do inaceitável.

P. Se você caracterizou a era Lula como presidencialismo de animação, do que chamar o presidencialismo de Temer?
R. O presidencialismo de Temer é um presidencialismo de ilusão. O gesto das mãos dele é de alguém que quer materializar o imaterializável. É também um presidencialismo de decomposição, de regressão. Ele mantém o que há de pior no presidencialismo de coalizão e um programa social reacionário e regressivo.

EL PAÍS Brasil
Posted: 03 Aug 2017 07:04 AM PDT


Como uma camisinha, um cateter e uma seringa podem reduzir a mortalidade materna?

Uma mulher morre a cada dois minutos no mundo durante a gravidez ou o parto.

A hemorragia é a maior causa das mortes.

A solução geralmente está no uso do chamado cateter balão de tamponamento uterino (UBT na sigla inglesa) , usado para o controle ou redução temporária da hemorragia pós-parto.

Este aparelho, entretanto, pode custar mais de R$ 1,3 mil, o que o torna inviável em países mais pobres.

Mas uma nova versão mais barata, que usa camisinhas, custa menos de R$ 16.

Anne Mulinge trabalha como parteira na capital do Quênia, Nairóbi.

"Colocamos o cateter dentro da camisinha. Então, precisamos amarrá-la", explica.

"Vamos supor que isso seja o útero. Você pode colocá-la ali usando seus dedos."

"Essa é a solução salina. Veja como a camisinha infla o que acaba causando muita pressão dentro do útero para impedir os sangramentos", acrescenta.

As parteiras estão sendo treinadas para usar o kit em toda a África.

No início do ano passado, Mulinge teve pouco tempo para salvar a vida de uma mãe.

Minutos depois de a placenta ter sido removida, ela começou a sangrar sem parar.

Mulinge pegou o kit e o colocou em uso.

Em 5 minutos, o fluxo de sangue cessou.

"A mãe deixou o hospital passando bem, com o bebê. Ela está muito feliz", diz Mulinge.

Até agora, testes mostraram que o kit tem uma alta taxa de sucesso.

BBC Brasil
Posted: 03 Aug 2017 06:54 AM PDT


Michel Temer foi salvo na Câmara dos Deputados na votação que decidia sobre a permissibilidade de sua investigação por corrupção passiva pela mais alta Corte do país.

O arquivamento da denúncia na casa já era dado como favas contadas. Necessitando de apenas 172 votos entre “sim”, ausências e abstenções, a borda da pizza foi preenchida com o placar propriamente dito.

No Congresso Nacional mais corrupto e reacionário de nossa história, a maioria votou para que o presidente mais rejeitado de todos os tempos continuasse livremente a sua empreitada pela destruição do Brasil enquanto nação.

Aqui ainda não estamos no fundo do poço. O poço, aliás, não parece ter fundo.

Como absolutamente tudo nesse governo, o placar de 263 a favor do arquivamento contra 227 pela continuidade da investigação é uma mentira, o que torna as coisas ainda mais assustadoras.

É notório que se a quantidade de parlamentares inicialmente dispostos a votarem “não” fosse de fato esse, sequer votação haveria tido. Após garantida a retribuição pela farra das emendas, muitos assim votaram para não passarem pelo constrangimento público de defenderem abertamente o bandido Temer.

Ainda assim, a maioria daqueles que representam o povo brasileiro (e sim, nunca esteve tão claro que eles nos representam) não se resignou em mostrar para o país, em rede nacional, como de fato se faz política nessa terra de bananas.

Aos fatos.

Há pouco mais de um ano a presidenta Dilma Rousseff era defenestrada do cargo sob “crime” de “pedaladas fiscais”. Tida como uma presidente incapaz de negociar com o Parlamento, hoje os deputados mostraram a que tipo de “diálogo” são de fato condescendentes.

Por sua vez, acusado de favorecimento pessoal em cifras milionárias com toda sorte de provas inquestionáveis, Michel Temer foi gabaritado por seus comparsas no reality show da corrupção nossa de cada dia.

É a manifestação cristalina do que politicamente nesse país se entende por “justiça”.

Para piorar, uma vez que a nossa justiça, ela própria, é política, simplesmente não temos justiça, temos só política. E dessa qualidade.

Mas para que nem tudo seja leite derramado, queira ou não, na mixórdia desses tempos, a absolvição de Temer por essa gente é a mais gloriosa amostra da honestidade inquebrantável que acompanhou Dilma Rousseff durante todo esse período em que violentamente foi, em vão, cooptada a corromper-se.

Particularmente, nada me honraria mais do que ser considerado culpado se os que estivessem a me julgar fossem essa corja de corruptos.

Seja como for, acostumados a uma política sem lei numa lei sem justiça, está provado que somos um país com uma terrível vocação para a vassalagem.

Se por um lado é natural que a Casa Grande não queira perder seus privilégios, por outro é inconcebível que a senzala faça questão de querer permanecer senzala.

Por mais absurdo que possa parecer, a realidade de nossos dias comprova o quão subalternos somos enquanto povo. E não, os movimentos de esquerda não estão isentos de culpa.

É simplesmente inadmissível que num país de mais de 200 milhões de pessoas, num espaço tão curto de tempo, sem maiores contratempos para o governo, tenhamos perdido completamente a legitimidade democrática, os direitos trabalhistas, os investimentos em educação e saúde e a dignidade enquanto cidadãos.

É uma tragédia imensurável que exige uma análise sincera e aprofundada a respeito de quem deve realmente ser responsabilizado por tamanha ruína em conquistas sociais tão duramente conquistadas.

Do ponto de vista pragmático, Michel Temer não está errado em fazer o que faz. Na luta de classe, a sua posição é clara. Foi posto lá exatamente para isso.

É inútil esperar decência dos servos do capitalismo. No processo de acumulação de riqueza as coisas são como são. E não são belas.

Errados mesmo estão todos aqueles que ainda não perceberam a qual lado pertencem nessa guerra ou, sobretudo, o que se exige dessa contenda.

Na subserviência canina a leis injustas e sob a manipulação descarada dos grandes meios de comunicação, firmou-se uma massa de manobra gigantesca totalmente incapaz de questionar o seu verdadeiro papel na sociedade e completamente alheia ao seu enorme poder de mobilização e transformação.

De um lado ao outro, não há como negar que permanecemos à deriva de nossas próprias vontades.

Entre a falácia do combate à corrupção e a utopia de que a justiça social pode se dar sem uma profunda ruptura nas relações de poder estabelecidas, seguimos bovinamente para o destino de pobreza e humilhação que escolheram para todos nós.






Rasgaram à faca da traição a soberania desse país. Das entranhas expostas que restaram a nossa majestade, é triste perceber o quanto também é horrível a matéria de que essa nação é feita.

DCM


Posted: 03 Aug 2017 06:41 AM PDT

O presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf (PMDB), do mesmo partido de Michel Temer e Eduardo Cunha, se apressou na noite desta quarta-feira, 2, em emitir uma nota a favor da votação que coroou a corrupção no Brasil.

Logo após a votação que impediu a investigação contra Michel Temer, Paulo Skaf, assinou a nota tentando colocar um tapete em cima das malas de Temer, segundo Joesley.

O presidente da Fiesp apoiou o golpe parlamentar de 2016, liderado pelo presidiário e ex-deputado, Eduardo Cunha, mesmo sem crime de responsabilidade da ex-presidente. Agora, diz em nota o óbvio: “A Câmara dos Deputados tomou hoje sua decisão soberana”.

Soberana e imoral, para todos os brasileiros.

O interesse de Skaf pode ir muito mais além do que o que diz na nota da Fiesp, que mais parece uma nota de 60 reais.

De acordo com a delação do executivo Cláudio Melo Filho, ex-vice-presidente de Relações Institucionais da empreiteira Odebrecht, em relato ao Ministério Público Federal (MPF), o presidente Michel Temer pediu, em 2014, R$ 10 milhões ao empreiteiro Marcelo Odebrecht. “Do total de R$ 10 milhões prometido por Marcelo Odebrecht em atendimento ao pedido de Michel Temer, Eliseu Padilha ficou responsável por receber e alocar R$ 4 milhões. Compreendi que os outros R$ 6 milhões, por decisão de Marcelo Odebrecht, seriam alocados para o Sr. Paulo Skaf”, diz o delator.

A decisão de apoiar o golpe parlamentar de 2016 também custou caro à indústria brasileira. Veja algumas notícias:


Ao apoiar o golpe, Fiesp deu um golpe também nas micro e pequenas empresas


Fiesp faz estudo e mostra que golpe apoiado por Paulo Skaf afunda a indústria

Fiesp, que apoiou o golpe parlamentar, vê produção industrial despencar 7%

Governo Temer afunda o PIB, população empobrece e indústria tem queda

Empresários vão à Justiça para que o golpe apoiado pela Fiesp não destrua a indústria naval

Fiesp apoiou o golpe, mas indústria continua a demitir. Agora, vai para Cuba fazer negócios.

Veja nota de Paulo Skaf

É hora de construir
A Câmara dos Deputados tomou hoje sua decisão soberana sobre a denúncia apresentada pelo Procurador Geral da República contra o presidente Michel Temer. Ela cumpriu sua missão constitucional, dentro das regras do Estado de Direito Democrático.

Com isso, o Brasil supera mais uma etapa da crise que tanto sofrimento vem trazendo aos brasileiros e pode trabalhar para construir o futuro. Os sinais de recuperação da economia que já começamos a ver no horizonte precisam se fortalecer e se multiplicar.

O governo deve agora empenhar todo o seu esforço na retomada do crescimento, com geração de emprego e renda, sem aumento de impostos ou medidas que sacrifiquem ainda mais a sociedade.

A Fiesp tem estado ao lado do Brasil em todos os momentos importantes e continuará lutando por um país mais próspero, desenvolvido e justo para todos os brasileiros.

Paulo Skaf
Presidente da Fiesp e do Ciesp

Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)




Carta Campinas


Posted: 03 Aug 2017 06:29 AM PDT
Leonardo Benassatto/Reuters Manifestante reage ao resultado da votação na Câmara, na av. Paulista, em São Paulo

Nada mais do que um dia comum. No país todo. O dia, no entanto, em que um portador das condições simultâneas de presidente e de acusado de corrupção deveria saber a resposta da Câmara dos Deputados à população que, tão perto da unanimidade, deseja vê-lo excluído do poder. E, por consequência, entregue às investigações da polícia e ao arbítrio da Justiça. Um dia comum só possível onde o povo, ainda que sabendo o que quer, desiste do país.

A correção do procedimento na Câmara foi contestada pela oposição ao acusado Michel Temer. Mas aí está uma recusa ao empenho da Câmara, pela quase totalidade dos seus partidos, de ampliar a sua coerência interna. Método incorreto para um acusado idem. E por isso mesmo posto no lugar da antecessora correta.

No mesmo sentido, o grupo minoritário dos deputados sem acusações e processos não tem poder decisório. Quem o exerce são os citados ou já sob processo por corrupção. Tropa de assalto cujo nível ético e político recebeu eloquente reforço de última hora.

Do final de junho ao correr de julho, o acusado Michel Temer introduziu no palácio presidencial e na residência oficial 20% dos deputados. Figuras da sua tropa, mas pouco confiáveis pelo chefe ou com novos preços no mercado da ordinarice inflacionada. Com todos, um a um, foram negociados a compra do voto e o pagamento em cargos ou em liberação de verbas, ou em ambos. O Tesouro Nacional paga, com os impostos.

Em tais circunstâncias, pode parecer que o alheamento e a passividade são a saída natural. Nos países que foram ou vão adiante, circunstâncias deprimentes soaram como convocação.

Por falar em passividade, outra visão dela foi exposta no Rio pelo ministro do Gabinete de Segurança Institucional. O general Sérgio Etchegoyen faz dura reprovação ao que considera a passividade da população diante das mortes de policiais. E fazer o quê, com que meios, além do pesar?

A passividade é outra. Afinal posta em ação, a Polícia Rodoviária Federal juntou-se com policiais civis e só, na "comunidade Jardim América", subúrbio do Rio, foram recuperados 16 carros e 10 motos roubados, com 11 presos.

Houvesse ações constantes das polícias pouco usadas, não seria possível o acúmulo de roubos agora apreendidos. O resultado de uma só ação é suficiente para atestar que a passividade é dos comandos da segurança. E, por certo, muito mais roubos e seus autores estão à disposição de resultados policiais nas centenas de lugares isentados das ações.

Considerando-se o que se passa na Presidência, na Câmara e na maioria dos partidos, também não parece bem afinada a conclusão do general de que "o crime organizado é a maior ameaça à sociedade brasileira", referindo-se à criminalidade urbana.

A recessão que corrói o Brasil não provém das favelas, estas concentrações de vítimas do desemprego, da ausência de ensino, da desgraça da saúde, da pobreza e dos preconceitos. E, sobretudo da passividade indiferente dos 10% de alta riqueza e da maioria da classe média, apoiadores do acusado Michel Temer. A maior ameaça ao presente e ao futuro do Brasil está em Brasília, tem palácios, torres, cúpulas - e muito roubo.

Ainda e sempre


Sergio Moro vai tentar, até o fim da vida, explicações para a divulgação ilegal das gravações ilegais com a então presidente e Lula. Volta agora à do começo: "As pessoas tinham o direito de saber a respeito daqueles diálogos". Mesmo que fosse o caso, o juiz Sergio Moro não tinha e não tem o direito de transgredir a lei, como fez em dose dupla. Impunemente - o que deveria incomodar quem vive de punir os outros.

Janio de Freitas
No fAlha
Contexto Livre
Posted: 03 Aug 2017 06:17 AM PDT

Crise política parecia prometer uma catarse, mas decisão da Câmara dos Deputados evidencia que o Brasil está longe de acabar com a impunidade, opina Francis França, editora-chefe da DW Brasil.


Denúncia contra Temer obteve apenas 227 dos 342 votos necessários para abrir o processo

O Brasil atravessa uma dura crise política e econômica há mais de três anos, e, para os mais otimistas, a impressão era de que as turbulências e os traumas eram efeitos colaterais esperados em uma democracia que busca combater a corrupção e a impunidade para amadurecer. Acreditava-se que o país estava afundando, mas para renascer uma versão melhor de si.

Essa ilusão acabou nesta quarta-feira (02/08), quando a Câmara dos Deputados barrou a denúnciapor corrupção passiva contra Michel Temer, o primeiro presidente na história do país a ser alvo de denúncia criminal no exercício do cargo – flagrado mantendo conversas pouco republicanas com um magnata investigado pela Operação Lava Jato.
Francis França é editora-chefe da DW Brasil
Pois bem, o Brasil não está combatendo a impunidade. Nem há real recuperação da economia. Obviamente, também não há preocupação em reduzir a desigualdade e a injustiça social, incubadoras da violência insuportável que se espalha por todo o país e produz estatísticas semelhantes às de uma guerra civil.

A vitória do presidente foi, como ele próprio declarou, incontestável. Ela foi conquistada com uma série de manobras escandalosas e a distribuição bilionária de verbas e de cargos. E todo esse apoio já custou ao Brasil o ajuste fiscal, a proteção da Amazônia e das metas do clima, os direitos dos povos indígenas e sobrecarregou ainda mais o trabalhador comum. Excluiu os excluídos de sempre e deve causar danos de longo prazo.

Já os privilegiados de sempre continuam desinibidamente prestando favores uns aos outros. E embora a vitória de Temer passe a mensagem de um presidente forte, os deputados viram como pode ser lucrativo manter um presidente encurralado e já devem esperar ansiosos por uma nova denúncia da Procuradoria-Geral da República.

Com isso, o Brasil continua sua jornada rumo ao retrocesso. Na edição de 2017 do ranking ''The Soft Power 30'', que mede o prestígio político do país no exterior, o Brasil aparece na penúltima posição, à frente apenas da Turquia – após ter liderado os Brics alguns anos atrás.

E deve continuar nas sombras até as eleições gerais de 2018. Até porque, mesmo que o presidente fosse afastado, o problema maior continuaria nas entranhas do Legislativo, disposto a qualquer negócio.

E o brasileiro médio assiste a tudo atônito e impassível. Aflito com uma possível volta da esquerda e com a paranoica "ameaça do comunismo", teme mais seus fantasmas do que seus algozes, e prefere ficar de braços cruzados.

A democracia brasileira terá um longo ano pela frente.

DW
Posted: 03 Aug 2017 06:08 AM PDT


Em São Luís para participar do 3º. Interconselhos – Encontro de Conselhos do Estado do Maranhão, Leonardo Boff concedeu entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos

Quando Leonardo Boff (1938) devolveu o e-mail com as respostas à entrevista, assinou, ao final: “teólogo, filósofo, articulista semanal do Jornal do Brasil online e escritor”. Deixou de fora outros predicados, num gesto de desapego coerente com suas escolhas religiosas e políticas.

Trata-se de uma das maiores autoridades cristãs brasileiras, ainda que um processo movido pelo então cardeal Joseph Ratzinger, que viria a ser o Papa emérito Bento XVI, tenha tirado alguns poderes do catarinense de Concórdia junto à Igreja Católica, o que o levaria a desligar-se do sacerdócio em definitivo. Um dos expoentes da Teologia da Libertação, ele resume: “eu mudei de trincheira para continuar no mesmo campo de batalha”.

Leonardo Boff está em São Luís e participa hoje (1º.), às 14h, no Auditório Fernando Falcão, da Assembleia Legislativa, do 3º. Interconselhos – Encontro de Conselhos do Estado do Maranhão, audiência realizada pelo Governo do Estado do Maranhão, através da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop), em parceria com o Fórum Estadual Interconselhos. Ele ministra a palestra “A participação popular frente à conjuntura nacional e regional: desafios e perspectivas”.

Em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos, Leonardo Boff comenta, entre outros assuntos, o tema de sua palestra, o processo junto à Congregação para a Doutrina da Fé, a cassação de Dilma Rousseff e o (des)governo de Michel Temer, sem nunca perder a esperança.

O Brasil vive uma crise de representatividade, em muito agravada com o golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff do poder. Como o senhor avalia este cenário?A deposição de Dilma foi um golpe de classe parlamentar, jurídico e mediático. O objetivo principal era acabar com os avanços sociais que metiam medo nos descendentes da Casa Grande. Eles não defendem direitos, mas os seus privilégios e se encostam no Estado para fazer seus negócios, com juros subsidiados e reserva de mercado. O outro motivo é alinhar o Brasil à política do império norte-americano para acabar com a linha de soberania e autonomia realizada por Lula e Dilma. Por isso houve presença norte-americana no golpe parlamentar, como o mostrou nosso maior analista Moniz Bandeira, entre outros.

Você visita São Luís para participar do 3º. Interconselhos, o Encontro de Conselhos do Estado do Maranhão, reunindo diversas instâncias de participação popular. Conselhos de Direitos são uma importante conquista na democracia no que se refere à participação popular. Qual a importância destes espaços na atual conjuntura?Não podemos esperar nada de cima, do Parlamento e dos que controlam as finanças e manipulam o mercado. Estes não estão interessados num projeto de nação, mas de garantir a natureza de sua acumulação, que é uma das maiores do mundo. Apenas 77.400 biliardários controlam grande parte de nossas finanças (0,05% da população). As mudanças vêm daqueles que precisam delas, que são as classes oprimidas, subalternalizadas no campo e na cidade, com os aliados que não sendo da mesma classe, assumem sua causa. Eu espero que esses movimentos se articulem, ganhem as ruas e praças, pressionem os poderes centrais de Brasília e consigam uma reforma política com outro tipo de democracia participativa, onde eles, os movimentos, ajudem a formular os investimentos, a realizá-los e a controlá-los. Aí sim, teríamos um outro Brasil, o Brasil das maiorias. Os neoliberais brasileiros querem um Brasil menor, para uns oitenta milhões apenas. Os outros, os 125 milhões que se lasquem.

95% dos brasileiros avaliam mal o governo de Michel Temer, mas esta insatisfação generalizada não consegue extrapolar as redes sociais. Na atual conjuntura, qual o papel dos movimentos sociais, de defensores de direitos humanos, enfim, da militância, de modo geral?Talvez uma frase do maior pensador cristão e africano, Santo Agostinho, do século V, nos dê a resposta: alimentar esperança, mas atender às suas duas belas irmãs: a indignação e a coragem. A indignação para rejeitar as coisas ruins. A coragem para mudá-las. Hoje os movimentos devem se indignar e mostrar isso nas manifestações, nas praças, nas redes sociais, nas rádios comunitárias e jornais dos movimentos e principalmente ter coragem para as mudanças que devem ser feitas na estrutura social. Esta é uma das mais injustas do mundo. Isso se faz pela política, participando, elegendo representantes confiáveis e querendo ter lugar nas decisões de governo, pois, a democracia implica participação. Sem isso ela é sua própria negação, senão uma farsa. Desenvolvi estas ideias no livro Virtudes para um outro mundo possível[Editora Vozes, 2005], em três pequenos volumes.

O Maranhão viveu durante décadas sob domínio oligárquico, só ocupando espaços na mídia nacional com tragédias e vergonhas. Para citar apenas dois exemplos, rebeliões em presídios e escolas funcionando em ambientes insalubres, para dizer o mínimo. O senhor tem acompanhado notícias daqui? É possível fazer uma avaliação do governo Flávio Dino?Estive pouco no Maranhão em relação com outros estados. Estive muitas vezes quando em Bacabal era bispo Dom Pascásio Rettler [1968-89], que defendia os posseiros e era muito ameaçado de morte. Estive em Balsas para apoiar o bispo local que estava do lado da luta, os agricultores contra o avanço da soja transgênica. Outras vezes para participar de encontros das comunidades eclesiais de base, que segundo meu irmão teólogo Frei Clodovis [Boff], são das melhores do Brasil, porque agem com certa autonomia sem menosprezar o apoio dos bispos. Há uns três anos fui a um encontro para professores e professoras, em sua maioria, numa cidade histórica perto de São Luís. Fiquei estarrecido com o que as professoras e professores contavam, seus baixíssimos salários e o abandono das escolas. Tudo isso ainda sob o governo dos Sarney. De Dino ouvimos os melhores elogios, seja por suas intervenções no caso do impeachment, seja como está resgatando socialmente o Estado. É uma liderança em quem confiamos e oxalá tenha ressonância nacional e não apenas regional para o país sair da crise com lideranças novas, como a dele, com ética e novos projetos sociais. Em meu livro Do iceberg à Arca de Noé [Editora Mar de Ideias, 2002] desenvolvi tais perspectivas atinentes à realidade brasileira.

Como professor universitário, como o senhor tem recebido os golpes sucessivamente perpetrados pelo governo ilegítimo contra o ensino médio e instituições de ensino superior?O que o atual governo está fazendo com a educação e suas instituições é um crime contra o país e o futuro de nosso povo. O propósito é criar apenas gente que aprende para fazer funcionar o sistema injusto e excludente que está aí, sem pensamento crítico, sem inovação. Um país só cresce e progride quando há uma educação séria e qualificada. Podem destruir quantas vezes quiserem a Alemanha, como fizeram por duas vezes, mas porque possui uma das melhores educações do mundo (eu tive o privilégio de fazer a universidade lá), sempre se levantará, como se levantou. Hoje é um dos países social e tecnologicamente mais avançados do mundo. Aqui a baixa qualidade da educação é mantida por razões políticas, para manter o povo submisso e eles com os seus privilégios assegurados. Um pobre a quem se negam as razões de sua pobreza, nunca irá se indignar e buscar transformações. Mais ainda: um povo mantido na ignorância, em qualquer nível, nunca dará um salto de qualidade em direção do desenvolvimento humano e justo. Eu venho da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), uma das melhores do Brasil. Está sendo literalmente desmontada, talvez, como se suspeita, para privatizá-la, talvez por ela ter um cunho claramente social. Todos, professores e terceirizados, não estamos recebendo seus salários inteiros desde janeiro. O décimo terceiro nem foi pago. E ouvimos que houve até suicídio de gente que se desesperou com as dívidas por não ter recebido o devido salário.

Ao longo dos últimos anos temos percebido o crescimento da bancada evangélica, com pautas nem sempre alinhadas a princípios verdadeiramente cristãos. Como teólogo, como o senhor enxerga essa junção de religião, poder, conservadorismo e obscurantismo?O que a bancada evangélica faz é contra a constituição do Brasil. Na constituição ficou claro que o país é laico, quer dizer, não se orienta por nenhuma religião, e respeita a todas, desde que se enquadrem dentro da legislação que é para todos. Os evangélicos querem ter o privilégio de impor sua agenda, especialmente a ética, com referencia à família, à orientação sexual, ao respeito aos LGBTs e outras. Eles podem ter as opções deles, dentro do espaço de suas igrejas, mas é anticonstitucional e desrespeitoso para outros que pensam diferente, quando querem fazer o particular deles, o universal para toda a população. A eles dever-se-ia corajosamente aplicar a constituição com as proibições que ela aponta.

Percebemos diversos avanços da Igreja Católica sob o papado de Francisco. Dois pontos, no entanto, seguem inalteráveis: o matrimônio de sacerdotes e o sacerdócio de mulheres. Na sua opinião, isto ainda demorará a se tornar realidade?Face aos grandes problemas da humanidade, com a pobreza da maioria, com eventuais guerras que podem dizimar a espécie humana, o agravamento do aquecimento global que pode por em risco o sistema-vida e o sistema-terra, esses problemas do celibato e do sacerdócio das mulheres têm sua importância, mas são de relevância menor. Eles interessam apenas aos católicos. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), quanto saiba, fez uma petição ao Papa Francisco para que os padres que casaram pudessem voltar com suas famílias e assumir responsabilidades pastorais. Outros avançam a proposta, simpática ao Papa, de ordenar leigos, especialmente aposentados, com boa integração familiar, para que pudessem atender espiritualmente, por exemplo, todo um conjunto de prédios. A meu ver, a tendência da Igreja Católica é seguir o que todas as igrejas já fizeram: tornar o celibato optativo. Quem quiser, fica celibatário e se deixa ordenar. Outros se casam e se tornam padres como os outros. Sou da opinião de que a Igreja deveria abrir também a possibilidade de as mulheres poderem receber o sacramento da Ordem e serem sacerdotes no estilo das mulheres, que é diferente daquele dos homens. Creio que, na medida em que o patriarcalismo, forte na Igreja oficial, diminuir, será mais fácil e normal tomar estas decisões. Ainda mais que a Igreja está dentro da globalização, pois em muitas culturas, especialmente na África, não se pode imaginar alguém ficar celibatário. O sentido tribal e comunitário torna o matrimônio dos padres uma exigência até agora não atendida por causa da dominação da cultura branca, ocidental e romana.

Por conta de um processo movido por Joseph Ratzinger junto à Congregação para a Doutrina da Fé o senhor perdeu alguns poderes dentro da Igreja Católica, desligando-se depois do sacerdócio. No entanto, graças a sua atuação junto a Teologia da Libertação, continua sendo um dos principais expoentes religiosos do Brasil. Há alguma disposição por parte do Papa Francisco no sentido de rever este processo?Eu mudei de trincheira para continuar no mesmo campo de batalha. Deixei, sob fortes pressões, o sacerdócio, mas continuei fazendo teologia e tomando a sério a opção pelos pobres contra a pobreza, porque isto é o eixo estruturador da teologia da libertação. O atual Papa vem do caldo cultural e eclesial da teologia da libertação, de versão argentina, que é a teologia do povo oprimido e da cultura silenciada. Ele está levando as intuições desta teologia nossa para o centro da Igreja. Por isso está se encontrando com teólogos da libertação como com [os sacerdotes] Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, Pepe Castillo, Arturo Paoli e outros. Quis conversar comigo, mas por razões de última hora, uma rebelião de 13 cardeais na véspera do Sínodo sobre a família, que ele devia acalmar, não pode me receber. Mas seguramente iremos nos encontrar em alguma viagem que fizer à Europa.

O Brasil vive uma situação surreal, com condenação de inocentes sem provas e liberação de culpados com toneladas de cocaína em helicópteros. O senhor é um homem de fé: é necessário ter esperança no Brasil, apesar de nossa classe política?Quem perde a esperança está a um passo do suicídio, da morte voluntária. É o que não podemos e queremos. O povo brasileiro cultivou sempre em sua história a esperança, pois aguentou séculos de colonização espoliadora de nossas riquezas, três séculos de vergonhosa escravidão e duas ditaduras, a de Vargas e a de 1964. O momento atual é de participação e de ação, sempre com esperança. Entretanto, temo que estamos indo ao encontro de alguma convulsão social porque a desfaçatez e a sem-vergonhice do atual governo de tentar desmontar todos os benefícios que os dois governos do PT realizaram para milhões de cidadãos, não poderá perdurar. Haverá um momento de dizer: “Agora basta. Que se vayan todos”, como disse o povo argentino e pôs a correr um governo corrupto. O Brasil cresceu aos nossos próprios olhos, enchendo-nos de orgulho e também aos olhos do mundo de tal forma que ganhou o respeito e a admiração. Não vamos tolerar que isso se desfaça por aqueles que Darcy Ribeiro dizia: “temos as oligarquias mais reacionárias e com falta de solidariedade do mundo inteiro”. O insuspeito ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em seus Diários da Presidência (1999-2000) [vol. 3, Companhia das Letras, 2017] chegou a confessar: “temos uma sociedade colonial, subdesenvolvida, arrivista, com muita mobilidade e, ao mesmo tempo, muita ganância”. São os atuais senhores da nova Casa Grande que querem que a maioria do povo volte à senzala. Isso não vamos permitir. Lutaremos com dignidade e valor.

DCM
Posted: 03 Aug 2017 05:54 AM PDT

Marcos Corrêa/PR Temer celebra vitória, mas enfrenta problemas na própria base

O presidente Michel Temer (PMDB) teve vitória expressiva, na noite desta quarta-feira (2), com a rejeição do pedido para o prosseguimento das investigações contra ele na Operação Lava Jato. Com 263 votos a seu favor, Temer não sentiu o impacto das dissidências em sua base aliada no resultado final. Mas elas existiram – e já preocupam o governo, pois matérias como a da reforma da Previdência, principal desafio do Planalto daqui para a frente, exigem ao menos 308 votos em plenário. Entre os 227 votos contrários ao presidente (115 votos a menos que o necessário, 342), 106 foram dados por integrantes dos 11 partidos que ocupam ministérios no atual governo. As “traições” vieram até do PMDB de Temer: seis peemedebistas negaram apoio ao presidente para escapar do Supremo Tribunal Federal (STF).

Jarbas Vasconcelos (PE), Veneziano Vital do Rêgo (PB), Sérgio Zveiter (RJ), Laura Carneiro (RJ), Celso Pansera (RJ) e Vitor Valim (CE) votaram pelo prosseguimento das investigações contra o presidente. Como o partido fechou questão em defesa de Temer, eles estão sujeitos a punições como afastamento de cargos de direção e até expulsão.

Mas foi no PSDB, que comanda quatro ministérios, que a divisão foi mais evidente: 22 tucanos se posicionaram a favor do presidente, e outros 21 se manifestaram em favor das investigações. Outros quatro faltaram à sessão. Em reunião realizada na manhã desta quarta-feira (2), a liderança do partido decidiu orientar o voto pela continuidade da denúncia contra Temer, mas, ao mesmo tempo, liberar a bancada para votar como quisesse. A ala contrária às apurações foi reforçada pelos ministros Antonio Imbassahy, da Secretaria de Governo, e Bruno Araújo, das Cidades, exonerados por um dia pelo presidente, apenas para votar a favor dele na Câmara.

Fora, mas dentro


Embora se declare oposição, o PSB ainda tem o titular do Ministério de Minas e Energia, o deputado Fernando Coelho Filho (PE). Ele também reassumiu o mandato na Câmara para votar com Temer. Além dele, outros dez apoiaram o presidente, inclusive a líder da bancada, Tereza Cristina (MS), integrante da bancada do agronegócio que, nos últimos dias, foi beneficiada pelo presidente com medidas provisórias e outras sinalizações na pauta legislativa. Na outra ponta ficaram 22 deputados do partido, que apoiaram o andamento das investigações.

Outro que também anunciou rompimento com o governo, mas ainda comanda uma pasta, a da Defesa, o PPS deu apenas um voto a favor de Temer – o relator da reforma da Previdência, deputado Arthur Oliveira Maia (BA). Ministro da Cultura até o fim de maio, Roberto Freire (SP) alegou fidelidade partidária para votar contra o ex-chefe. Assim como ele, outros oito integrantes do PPS apoiaram a investigação do presidente.

Também registraram “traições” na base aliada os seguintes partidos que ocupam ministério: o DEM (5 dissidências), o PP (7), o PR (9), o PRB (7), o PSD (14), o PTB (2) e o PV (4). Na oposição, o PT, o PCdoB, o Psol e a Rede tiveram 100% de fidelidade em relação à orientação contra Temer. No PDT houve apenas a dissidência de Roberto Góes (AP).

Veja abaixo como cada partido votou:


PartidoVoto pró-TemerVoto contra TemerAbstençõesAusentes
DEM2351
PCdoB10
PDT117
PEN3
PHS16
PMB1
PMDB53613
Podemos95
PP3773
PPS19
PR2892
PRB1571
Pros32
PSB11222
PSC541
PSD22142
PSDB22214
PSL3
Psol6
PT58
PTB1521
PTdoB12
PV34
Rede4
SD86
264227419



Congresso em Foco
Posted: 03 Aug 2017 05:44 AM PDT

Governo vê resultado como apoio a reformas e oposição aposta que presidente cai com a próxima denúncia.


Marcella Fernandes
Repórter de política, HuffPost Brasil
ADRIANO MACHADO / REUTERS Câmara dos Deputados rejeitou denúncia contra presidente Michel Temer.


O fim do primeiro capítulo da mais grave crise do governo de Michel Temer não é sinônimo de estabilidade. Apesar de a Câmara dos Deputados ter rejeitado a denúncia contra o presidente nesta quarta-feira (2), a oposição aposta que o resultado será diferente quando o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentar a segunda denúncia, prevista ainda para este mês.


"Temer com 220 votos está salvo e perdeu. Nós (oposição), com 200 votos, perdemos, mas ganhamos", afirmou a jornalistas o deputado Júlio Delgado (PSB-MG). A interpretação de oposicionistas é que alcançar um número próximo ao do governo aumenta a pressão para virar o resultado em uma próxima decisão da Câmara.
Vem denúncia aí. Vamos passar por todo esse processo e os deputados vão começar a pensar se vale passar por todo esse desgaste para poder salvar da investigação a pele do presidente Temer.

Na avaliação da oposição, o fato de a votação ter sido nominal e à noite aumenta a exposição dos protetores de Temer e incentiva a cobrança por parte dos eleitores.


Foram 263 votos a favor do parecer que barra as investigações, 227 votos contra o texto, duas abstenções e 19 ausências. Para o governo, passar de 257 apoios era crucial, uma vez que esse é o número necessário para aprovar um projeto de lei. O placar, entretanto, demonstra que ainda falta força para votar matérias com quórum maior, como emendas à Constituição, que precisam de 308 votos.


Até o momento final da votação nesta quarta, o governo negociou a liberação de cargos e de emendas parlamentares com deputados. As conversas aconteceram até mesmo no plenário da Câmara, com ministros que foram exonerados para voltarem aos cargos de deputados federais.

Para governistas, a primeira acusação feita por Janot, de corrupção, era a mais grave e as próximas também serão derrotadas. "Se vier (uma nova denúncia), será derrotada de novo. O Michel está começando a melhorar o Brasil", afirmou o deputado Darcísio Perondi(PMDB-RS).

A crise provocada pela delação da JBS dividiu o PSDB e ampliou a dependência do governo dos partidos do chamado centrão, como PP, PR e PSD, conhecidos pela ambição por espaço na Esplanada.

Em conversa com jornalistas, o deputado Beto Mansur (PRB-SP) afirmou que o governo respeita votos da base a favor da aceitação da denúncia. A postura de não retaliar aliados infiéis mira nas próximas votações de interesse do Planalto.

Página virada


Após o resultado desta quarta, o governo tem como foco pautas da área econômica, como a reforma da Previdência, simplificação tributária e a aprovação da medida provisória que estipulou o chamado "refis rural", um agrado à bancada ruralista feito às vésperas da votação que salvou o presidente.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, já tem conversado com parlamentares a fim de conseguir o apoio para votações. Entre os aliados, antes mesmo do resultado, o discurso era de "página virada".
Esse resultado mostra a união da base do governo, com grande possibilidade para que a gente aprovar uma série de medidas para reduzir o desemprego no país, como a reforma da Previdência e outras reformas necessárias.Deputado Beto Mansur (PRB-SP)

Em pronunciamento após a rejeição da denúncia, o presidente afirmou que seguirá com as reformas que julga necessárias para modernizar e melhorar o País e disse que o objetivo é "colocar o Brasil nos trilhos".
Estamos retirando o Brasil da mais grave crise econômica da nossa história. É urgente colocar o País nos trilhos do crescimento, da geração de empregos, da modernização e da justiça social. Não parei um minuto desde 12 de maio de 2016, quando assumi o governo. Não vou descansar até 31 de dezembro de 2018.

Apenas 5% dos brasileiros considera boa ou ótima a gestão do peemedebista, de acordo com pesquisa Ibope divulgada neste mês. Segundou outra sondagem do instituto, 87% defendem a continuidade das investigações contra o presidente.

Além das pautas econômicas, o foco do Planalto está na aprovação da reforma política, cujos pontos principais são a criação de um fundo público para financiar campanhas eleitorais e a adoção do distritão. De acordo com esse modelo, ao contrário do voto proporcional, não há quociente eleitoral e são eleitos os deputados com mais votos.


HuffPost Brasil
Posted: 03 Aug 2017 05:32 AM PDT

O flagra é do fotógrafo Lula Marques. Ao longo da votação da denúncia contra Temer nesta quarta-feira (2), na Câmara, o deputado Wladimir Costa (SD-PA) ficou importunando para mulheres lhe mandassem fotos da “bunda”, em uma conversa nada republicana. “Vá tirar onda com outra. Não tenho estômago para isso”, respondeu uma das garotas. Confira as imagens



O discurso é pela família, contra a corrupção, a ética e a moralidade. Mas a prática é outra. Ao longo da sessão que enterrou a denúncia por corrupção passiva contra o presidente Michel Temer, na Câmara, o deputado Wladimir Costa, aquele que tatuou o nome do presidente no ombro, ficou teclando no Whatsapp em conversas nada republicanas enquanto os outros parlamentares tratavam de um assunto bem mais sério.

O flagrante é do fotógrafo Lula Marques. Nas imagens do celular do deputado, é possível ver ele pedindo fotos da “bunda” de uma garota e fica claro que o parlamentar está a importunando quando ela responde: “Vá tirar onda com outra. Não tenho estômago para isso”. Também é possível identificar que o deputado fala com mais de uma mulher, em conversas do mesmo teor, ao longo da votação.

Confira a sequência.

Posted: 03 Aug 2017 05:18 AM PDT


O DEPRIMENTE ESPETÁCULO da votação do prosseguimento da denúncia da PGR contra o presidente Michel Temer terminou com um final já esperado. Depois de abrir a torneira das emendas parlamentares, o governo conseguiu com folga os votos de que precisava para manter se manter no comando. Em suas justificativas, boa parte dos deputados resolveu apelar para a “estabilidade” econômica do país, deixando para outra hora a continuidade do processo.

Confira aqui como cada deputado votou e quanto recebeu de emendas.

The Intercept Brasil lista alguns dados econômicos para lembrar aos deputados da real situação do país comandado por Temer, um presidente com 5% de aprovação da população:

– Há 13,5 milhões de desempregados, segundo os dados mais recentes do IBGE.

– A dívida pública federal é de R$ 3,357 trilhões. Os dados mais recentes mostram um aumento de 3,22% entre os meses de maio e junho.

– A perspectiva de crescimento do PIB este ano é de apenas 0,34%.

– Aumento do PIS/Cofins eleva o preço da gasolina em cerca de 8%.

– Governo tem dificuldade para cumprir a meta fiscal.
As acusações que ainda podem pesar sobre o presidente são de obstrução de Justiça e organização criminosa.

Agora, o governo ganha sobrevivência e aguarda uma ou mesmo duas possíveis novas denúncias contra Michel Temer. As acusações que ainda podem pesar sobre o presidente são de obstrução de Justiça e organização criminosa. Nesta quarta, ele escapou do processo por corrupção passiva.

Resta à população, que acompanhou a votação sem grandes protestos, assistir mais um pouco de um presidente que continua firme em seu mundo inabalável, como mostra o texto do artigo que publicou na “Folha de S.Paulo”horas antes de seu processo ser arquivado:

“Não importam os obstáculos; o importante é que os diversos setores tenham maturidade e disposição para discutir o mérito das questões nacionais. Temos longa tarefa pela frente. Entre elas, a de pacificar o país, um dos motes de nosso discurso de posse. Chegaremos lá. Com o apoio do Congresso e do povo brasileiro”.

O primeiro apoio realmente parece garantido. O segundo, se não existe, parece assistir a tudo sem ter forças para gritar.

Em pronunciamento após a votação, Temer exaltou o respeito à Constituição e disse que está “retirando o Brasil da mais grave crise econômica da História” e que espera terminar a “grande transformação” que está realizando no país. Entre elas, destacou a “revolução” promovida pela “modernização trabalhista”.

The Intercept Brasil

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