16/6 - Lula concede ao jornal cubano Granma sua primeira entrevista depois de preso.

FONTE:https://nocaute.blog.br/2018/06/15/lula-concede-ao-jornal-cubano-granma-sua-primeira-entrevista-depois-de-preso/

                                                     Nocaute - Blog do Fernando Morais


Lula concede ao jornal cubano Granma sua primeira entrevista depois de preso.

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Em sua primeira entrevista jornalística depois de preso, concedida ao repórter  jornal cubano Granma, Lula afirma: “A injustiça contra mim é uma injustiça contra todo o povo brasileiro.” Lula diz mais: “Este é um processo político, esta é uma prisão política. Para me prender, desrespeitaram a Constituição”.

A injustiça contra mim é uma injustiça contra o povo brasileiro

O líder sindical, homem que no seu mandato como presidente do Brasil impulsionou leis e planos sociais que permitiram que cerca de 30 milhões de brasileiros saíssem pobreza, que todas as pesquisas eleitorais mostram-lhe como o favorito para ganhar a eleição presidencial de 2018, Luiz Inácio Lula da Silva, respondeu a uma entrevista ao Granma. As perguntas lhe foram enviadas por uma “mão amiga” brasileira.
A entrevista não poderia ser – por razões óbvias – tão ampla quanto este jornalista desejaria. No entanto, o fato dele ter dedicado parte do seu tempo para responder às nossas perguntas, agrega valor não apenas aos leitores cubanos, mas também àqueles do mundo inteiro.
– Como candidato à Presidência do Brasil com o maior apoio popular onde todas as pesquisas o indicam como favorito, como você classifica esta perseguição e prisão a que foi submetido?
-É um processo político, uma prisão política. O processo contra mim não aponta um crime, nem há provas. Eles tiveram que desrespeitar a Constituição para me prender. O que está se tornando cada vez mais transparente para a sociedade brasileira e para o mundo é que eles querem me tirar das eleições de 2018. O golpe em 2016, com a retirada de uma presidenta eleita, indica que eles não admitem que as pessoas votem em quem quiserem votar.
A prisão tem sido, para muitos líderes presos pelo simples fato de lutar pelo povo, um lugar de reflexão e organização de ideias para continuar a luta. No seu caso, como você enfrenta esses primeiros dias, já que não consegue entrar em contato com as pessoas?
-Estou lendo e pensando muito, é um momento de muita reflexão sobre o Brasil e principalmente no que tem acontecido nos últimos tempos. Estou em paz com a minha consciência e duvido que todos os que mentiram contra mim durmam com a tranquilidade  que durmo. Claro que eu gostaria de ter liberdade e estar fazendo o que fiz durante toda a minha vida: falar com o povo. Mas estou ciente de que a injustiça que está sendo cometida contra mim também é uma injustiça contra o povo brasileiro .
– Quão importante é saber que em todos os estados brasileiros há milhares de compatriotas a favor de sua libertação?
-A relação que tenho construído ao longo de décadas com o povo brasileiro, com as entidades dos movimentos sociais, é uma relação de muita confiança e é algo que eu aprecio muito, porque durante minha carreira política sempre insisti em jamais trair essa confiança, e eu não trairia essa confiança por nenhum dinheiro, por um apartamento, por nada. Foi assim antes de ser presidente, durante a Presidência e depois dela. Então, para mim, essa solidariedade é algo que me empolga e me encoraja a permanecer firme.
– Como definir o conceito de democracia imposto como patrono da oligarquia para descartar os líderes de esquerda para que eles não ocupem o poder?
– A América Latina viveu nas últimas décadas seu momento mais forte de democracia e conquistas sociais. Mas recentemente as elites da região estão tentando impor um modelo onde o jogo democrático só é válido quando eles ganham, o que, claro, não é democracia. Então é uma tentativa de fazer uma democracia sem o povo. Quando não sai do jeito que eles querem, eles mudam as regras do jogo para beneficiar a visão de uma pequena minoria. Isso é muito sério. E estamos vendo isso, não só na América Latina, mas em todo o mundo, um aumento da intolerância e perseguição política. Isso aconteceu no Brasil, na Argentina, no Equador e em outros países.
– Que mensagem você envia para todos aqueles que, no Brasil e no mundo, são solidários com você e exigem sua libertação imediata?
-Eu agradeço toda a solidariedade. É necessário estar em solidariedade com o povo brasileiro. O desemprego aumenta, mais de um milhão de famílias voltaram a cozinhar com lenha por causa do aumento do preço do gás de cozinha, milhões que deixaram a miséria estão voltando a não ter mais o que comer, até mesmo a classe média perdeu emprego e renda.
O Brasil estava em uma trajetória de décadas de progresso democrático, de participação política e com os avanços sociais, que se aceleraram com os governos do PT, que venceram quatro eleições consecutivas.
O golpe não foi só contra o PT. Eles não me prenderam apenas para prejudicar o Lula. Fizeram contra um modelo de desenvolvimento nacional e inclusão social. O golpe foi feito para eliminar os direitos dos trabalhadores e aposentados, conquistados nos últimos 60 anos. E as pessoas estão percebendo isso. E vamos precisar de muita organização para voltar a ter um governo popular, com soberania, inclusão social e desenvolvimento econômico no Brasil.
Lula aproveitou a entrevista para enviar duas mensagens especiais: “Aproveito esta oportunidade para agradecer as saudações de solidariedade de Raul Castro e Miguel Diaz-Canel, que foram transmitidos a mim por Frei Betto,” o mesmo amigo que enviou as respostas dessa entrevista.

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