2/3 - Altamiro Borges DE HOJE

Altamiro Borges


Posted: 02 Mar 2019 12:18 PM PST
Do site Carta Maior:

O documentário A revolução não será televisionada*retrata como a mídia corporativa usa o monopólio dos meios de comunicação para estimular, induzir e promover golpes de estado – no caso, a Venezuela do ano de 2002 e a América Latina. Mostra a tentativa fracassada de golpe que conseguiu depor durante apenas 48 horas o presidente Hugo Chávez, num mesmo processo de manipulação da comunicação de massa que a mídia tentou e ainda tenta no Brasil de hoje. O empresário Pedro Carmona foi declarado chefe de estado durante dois dias, quando então a situação política voltou a ser controlada pelas forças de Chávez.

A Revolução Não Será Televisionada, também conhecido como Chávez: Bastidores: Inside The Coup, foi filmado e dirigido por dois cineastas irlandeses, Kim Bartley e Donnacha O’Brian, que mostram como o golpe perdeu força, e o presidente retomou o poder. O documentário mostra como era a vida cotidiana dos venezuelanos entre a época em que aconteceu derrubada do governo e a recuperação de Hugo Chávez.

Não foi mostrado comercialmente no Brasil, mas, semelhante ao que ocorreu na Venezuela, centenas de cópias ilegais passaram de mão em mão em 2003. Transformou-se em um filme-fetiche.

O doc nasceu por acaso, mas também graças ao trabalho da equipe de TV estatal irlandesa (Rádio Telefís Éirieann) que se encontrava em Caracas, no Palácio de Miraflores, para fazer um documentário/perfil sobre Chávez. Ao perceber a agitação política no país, os autores direcionaram seu foco para os acontecimentos que levaram à deposição e ao retorno do presidente.

Para os irlandeses, o foco das filmagens mudou no dia 11 de abril quando começaram os eventos de tentativa de golpe do governo eleito democraticamente e que contrariava – como até hoje contraria – os interesses das elites locais, dos EUA e das corporações do petróleo; ele apresenta a reação da população inconformada lutando por Chavez.

As imagens denunciam a relação da mídia com a elite econômica, evidenciam como essa mídia manipula os fatos para construir uma realidade que a favorece e desmascaram a manipulação de outras imagens: aquelas feitas pela mídia privada venezuelana.

A farsa consiste em exibir manifestantes chavistas atirando, num ângulo que não mostra os alvos dos disparos. Repetidas várias vezes na televisão, as imagens falsas dão a entender que Chávez era o culpado pelas mortes daquele dia.

É o aspecto mais importante do documentário, essa revelação da manipulação dos canais de televisão comerciais sobre os responsáveis pelos assassinatos de manifestantes no dia 11 de abril de 2002. Todos os canais privados (comerciais) de televisão, junto com a imprensa escrita e radiofônica, justificaram o golpe de estado de 11 de abril com uma edição de imagens em que aparece um grupo de apoiadores de Chavez, situados na Ponte Llaguno de Caracas, realizando disparos. Essas imagens foram utilizadas para afirmar que "Chávez ordenou disparar contra a multidão".

A revolução não será televisionada demonstra, ao apresentar a edição completa da sequência de imagens (manipulada na edição das TVs), que os grupos situados na Ponte Llaguno de Caracas respondem ao fogo de franco-atiradores. Estes sim atiram nos manifestantes.

E o ponto alto do documentário que se tornou emblemático é registrar a força das massas que derrotam os golpistas e restituem o governo a Hugo Chavez.

O povo saiu às ruas na manhã do dia 13 de abril para denunciar que Chavez "não renunciou! Está sequestrado!" e "não te queremos Carmona! Ladrão!" Centenas de milhares de pessoas nas ruas cercaram o Palácio Miraflores para exigir "Queremos a Chavez!" e clamar "Chavez amigo, o povo está contigo!"

Como se percebe, pouco mudou o olho gordo e insolente dos governos dos Estados Unidos nas riquezas petrolíferas que se encontram na sua "porta dos fundos".

E nada mudou na manipulação da mídia.

* Disponível no youtube e legendado em português (clique aqui).
Posted: 02 Mar 2019 11:56 AM PST
Por Ayrton Centeno, no jornal Brasil de Fato:

Por artes do calendário, Jair Bolsonaro fecha o segundo mês de seu operoso governo – sobretudo no campo da citricultura – e imediatamente começa o Carnaval. Soa como uma intervenção da Providência, uma trégua na desgraça em favor da graça. Que já está sendo aproveitada como réplica irreverente ao mais atabalhoado e tragicômico governo da história da república.

O Carnaval de 2019 é o mais “politizado” do século. Antes mesmo da festa começar, o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, de São Paulo, arrebatou uma multidão que desfilou gritando uma palavra de ordem bem objetiva. A frase começava com “Ei, Bolsonaro, vai…” e concluía com aquela sugestão bastante específica que todos sabemos qual. Outros blocos e escolas de samba, de sul a norte, vão levar às ruas uma crítica debochada a este tempo que nos coube ver e viver.

O presidente e o caos que o rodeia também são, digamos, homenageados com uma profusão de marchinhas implacáveis, compostas e cantadas por ilustres desconhecidos. Um fenômeno de espontaneidade. Uma avalanche delas invadiu o Youtube e as redes sociais. Sua temática envolve de laranjas a goiabas, de mamadeiras eróticas a liquidificadores, de fuzis a fake news. Na alça de mira do riso, além de Bolsonaro e sua prole e seu motorista Queiroz, figura boa parte de seu ministério.

Uma das músicas, Overdose de Goiaba, mostra a que veio logo nos primeiros versos. Diz assim: “Em pleno Carnaval eu tava de bobeira/ Bateu uma larica, subi na goiabeira/ O céu estava escuro, já não tinha luz/ Chegou uma maluca me chamando de Jesus…”

Aliás, a ministra de direitos humanos virou musa de muitos compositores bissextos. Outra prova é a Marcha da Damares que recomenda o seguinte: “Menino se veste de azul/ Menina se veste de rosa/ O motorista, quem não manja/ É o que pode usar laranja”.

Algumas letras não recuam nem diante do palavrão. Mais comportada, a Marcha do Astronauta comenta: “Olha, olha o astronauta brasileiro/ Se não der certo ministro/ Ele volta/ A vender travesseiro”.

Os versos da Marchinha do COAF advertem: “É bom Jair arrumando uma desculpa/ Que o major já conversou com o coronel/ E o general já decretou: se tiver outro escarcéu/ O capitão vai ser expulso do quartel”.

Em ritmo de galhofa, são as ruas dando seu primeiro recado ao novo inquilino do Palácio do Planalto. É das ruas que outras respostas virão.
Posted: 02 Mar 2019 09:52 AM PST
Editorial do site Vermelho:

Jair Bolsonaro não engana ninguém, no Brasil e no mundo: ele representa uma ameaça à democracia. Foi assim que o instituto Freedom House – sediado em Washington, no Estados Unidos – classificou seu governo retrógrado.

Aquela é uma organização que se dedica a avaliar as condições da democracia no mundo.Em seu mais recente relatório, intitulado "Liberdade no Mundo - 2019", classificou os países como “livres”, “parcialmente livres” e “não livres”. Nele, o Brasil figura como “livre” - classificação que pode ser entendida como se usasse uma figura de linguagem comum em análises econômicas: com viés de baixa. "Livre", mas com muitas restrições que configuram a ameaça à democracia ali referida: ataque aos direitos civis e degradação dos direitos políticos.

Segundo o relatório o Brasil está entre os dez países onde ocorreu “importantes acontecimentos em 2018 que afetaram sua trajetória democrática”. Relaciona o “desdém" aos princípios democráticos manifestados rotineiramente por Bolsonaro, sobretudo na campanha eleitoral de 2018, repetidos no exercício da presidência da República, para justificar a ameaça que representa à democracia.

E coloca o Brasil ao lado de outras nações nas quais a direita prevalece nos últimos anos. como em países da Europa (a Hungria, sobretudo) e nos EUA, que "deram impulso a grupos semelhantes ao redor do mundo, como se observou na recente eleição de Jair Bolsonaro,” movimentos que "danificam as democracias por dentro, por meio de sua atitude de menosprezo pelos direitos políticos e civis”.

A ameaça à democracia registrada pela Freedom House é vivida cotidianamente pelos brasileiros, que assistem à degradação da política no país. Que se manifesta nas inúmeras contradições deste governo, entre os grupos que o compõem e com a sociedade brasileira.

Na primeira pesquisa feita sobre a avaliação do governo, divulgada na terça-feira (26), pela CNT/MDA, o resultado foi ruim para Bolsonaro, e registra um descompasso entre o presidente e a sociedade - Bolsonaro é aprovado por 38,9% das pessoas. O menor índice de aprovação de um governo desde o primeiro governo de Lula. Em 2003, por exemplo, Lula teve a aprovação de 56,6% no início de seu primeiro mandato. No início do segundo mandato, em 2007 foi 49,5%.

Aparentemente os brasileiros, aos poucos, se desencantam com o eleito de outubro passado. Mas há também contradições dentro do governo. A mais recente se acentuou na reunião do Grupo de Lima, em Bogotá, na segunda feira (25), que tratou da crise na Venezuela. Nela, coube ao general Hamilton Mourão, vice presidente da República – rejeitar uma ação militar e defender a negociação e a não intervenção nos assuntos internos de um país soberano, atacada pelo chanceler Ernesto Araújo - que, submisso aos EUA, defendia uma ação bélica contra o governo legítimo de uma nação soberana.

No Brasil, mais do que em outro lugar, as palavras do presidente da Freedom House, Michael Abramowitz, cabem como uma luva: “raramente a necessidade de defender as regras da democracia foi tão urgente".
Posted: 02 Mar 2019 12:27 PM PST
Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:

Que ninguém pense que foi por bondade que a juíza teleguiada por Moro permitiu que Lula saísse da prisão para velar o netinho de 7 anos recém-falecido. Moro e Bolsonaro queriam impedir Lula de velar a criança, mas a juíza Carolina Lebbos foi OBRIGADA a deixar que o ex-presidente exercesse seu direito constitucional.

Deveria haver um limite para o nível de selvageria que alguém pode manifestar publicamente. Um dos filhos pilantras de Bolsonaro não hesitou em ir ao Twitter verbalizar a vontade do pai o do comparsa Sergio Moro de impedirem o ex-presidente encarcerado de exercer seu direito constitucional de deixar a prisão para velar um parente próximo recém-falecido.

Segundo matéria do jornal O Estado de São Paulo, especialistas em Direito Constitucional e Penal afirmam que o ex-presidente Lula tem direito de sair para ir ao velório do neto. Em janeiro, porém, apesar de ter direito Lula não conseguiu ir ao enterro do irmão Genival Inácio da Silva, o ‘Vavá’. A poucos minutos do fim do velório, uma liminar do ministro Dias Toffoli, do STF, autorizou a ida, mas não a tempo de que o ex-presidente pudesse comparecer.


Em janeiro, Carolina Lebbos, juíza da Vara de Execuções Penais de Curitiba, foi quem negou o pedido dos advogados do ex-presidente para que pudesse velar o irmão falecido. A ela cabe decidir se Lula pode ou não exercer esse direito legal, ainda que, sendo um direito, seu exercício deveria ser líquido e certo.


Segundo especialista consultado pelo Blog da Cidadania, agora tudo mudou. Como Dias Toffoli, do Supremo, concedeu liminar (tardia) permitindo a Lula que participasse do enterro do irmão falecido, essa decisão criou uma jurisprudência que teve que ser seguida pela juíza Carolina Lebbos ao decidir se Lula poderia ou não velar o neto.


Porém, a pressão de Moro e de Bolsonaro sobre Carolina Lebbos foi muito forte. E, segundo matéria do UOL, advogada que tem um cliente preso na Lava Jato afirmou que essa juíza “Pede muito a bênção do Moro”. Na verdade, ela ficou famosa por atender todas as ordens de Moro quanto à execução penal de Lula

Apesar da pressão de Moro, porém, Carolina Lebbos foi OBRIGADA a permitir que o ex-presidente velasse o neto. Não foi bondade alguma. Ela apenas não teve outra opção devido à decisão de Toffoli de permitir que o ex-presidente velasse o irmão morto. Se a decisão de Toffoli veio tarde na morte de Vavá, ao menos serviu na morte do neto Arthur.

Confira a matéria em vídeo [aqui].
Posted: 02 Mar 2019 09:30 AM PST
Por Bepe Damasco, em seu blog:                                                                                                                 
Já tinha colocado um ponto final neste texto, quando tomei conhecimento da terrível tragédia que foi a morte do pequeno Arthur, de 7 anos, neto do ex-presidente Lula. Mais um duro golpe para um homem que só fez o bem em 72 anos de vida. Em meio à comoção e às manifestações de afeto e solidariedade a Lula e à sua família, surgem nas redes sociais pessoas comemorando o falecimento de uma criança de 7 anos e atacando Lula num dia de imensa dor. Nenhuma surpresa, pois o bolsonarismo reúne os seres mais abjetos e repugnantes que se possa imaginar. Nada têm de humanos, são monstros que brotaram da escuridão para destilar ódio por todos os poros. São do nível dos torturadores que eles defendem.

Isto posto, vamos ao artigo. Dia desses esbarrei com uma notícia que pode ser vista como um retrato em preto e branco da inversão de valores que virou regra no Brasil: Lula foi obrigado a depor, na condição de suspeito de ter “mandado” o MTST invadir o famigerado triplex do Guarujá.

Tamanha aberração só se tornou possível porque o pacto entre a Lava Jato e mídia mafiosa produziu legiões de pessoas que naturalizaram a mentira e a canalhice como padrão de comportamento social, método de ação política e arma pronta para ser disparada não só contra adversários políticos, mas também em direção a quem não se submete à imbecilidade reinante.

Ainda estão bem vivos na memória dos brasileiros minimamente antenados os generosos espaços oferecidos pela mídia para as reformas feitas no apartamento do Guarujá, incluindo a instalação de um elevador privativo. Fotos e imagens fakes do apartamento pós-reformas circulavam mostrando que o imóvel havia se transformado numa moradia de luxo.

Na sequência, o então juiz Sérgio Moro inquiriu Lula sobre essas obras durante boa parte do depoimento prestado pelo ex-presidente. Antes, Moro negara um pedido da defesa de Lula para que fosse realizada uma perícia no triplex, para checar a veracidade das tais reformas.

Veio a ocupação do MTST e a desmoralização completa da farsa. Nenhuma reforma fora feita no apartamento, que apresentava um aspecto assemelhado ao de uma espelunca. Como um juiz de direito e procuradores do Ministério Público, mancomunados com a imprensa, podem se prestar a um papel como esse ?

Em qualquer país democrático do mundo, estes altos servidores do Estado seriam exonerados, execrados e enfrentariam os tribunais. Como classificar um magistrado que dá asas a uma deslavada mentira com o intuito de criar um clima favorável à condenação de um réu inocente? Que adjetivos merecem veículos de comunicação que repetem uma mentira à exaustão e depois nem sequer esboçam a mais pálida autocrítica?

Tudo isso só é possível acontecer em uma sociedade doente como a nossa, terreno fértil para a naturalização da mentira e da canalhice.

A besta do fascismo começou a chocar seus ovos no mensalão. O STF e a Globo emplacaram a tese de que parlamentares recebiam para votar em projetos de interesse do governo. MENTIRA. Na realidade, ali se deu algo mais conhecido do que goiabada com queijo: a utilização de recursos de caixa dois nas campanhas eleitorais. Cabia à Justiça Eleitoral, portanto, a apreciação do caso. Vale lembrar que das mais de 600 testemunhas ouvidas no processo, apenas uma, Roberto Jefferson, cujo caráter dispensa comentários, confirmou a existência do mensalão.

Depois, vieram as chamadas jornadas de junho, que chegaram a empolgar setores da esquerda. Milhões de brasileiros e brasileiras tomaram as ruas do país na luta por um país melhor e mais justo. MENTIRA. O Brasil vivia uma situação de praticamente pleno emprego, com inflação baixa, direitos e garantias trabalhistas, sociais e previdenciários em plena vigência e gasolina a R$ 2,50 o litro. Além disso, o movimento não tinha pauta nem lideranças e acabou engolfado por milícias fascistas.

Aí entra em cena a Lava Jato, para combater o mal sistêmico da corrupção que assola o país. MENTIRA. A operação, concebida pela inteligência norte-americana, só veio ao mundo para provocar o impeachment da presidenta Dilma, caçar e prender Lula sem crime e sem provas, tentar destruir o PT e levar a extrema-direita ao poder. De quebra, liquidou o pujante setor de engenharia, óleo e gás, deixando sem trabalho milhões de trabalhadores.

Bolsonaro é outra gigantesca MENTIRA. Com Lula preso – única maneira de impedi-lo de ser eleito presidente pela terceira vez -, ficou escancarado o caminho para a eleição do candidato do fascismo nativo, seguramente o mais despreparado e imbecil de todos os nossos governantes ao longo de 500 e tantos anos de história. Sua eleição só foi possível devido à vitimização provocada por uma facada providencial e a cada dia mais suspeita, à utilização ilegal de recursos de empresas via caixa 2 e às calúnias e difamações contra seus adversários Fernando Haddad e Manuela D’Ávila.
Posted: 02 Mar 2019 09:19 AM PST
Por Luis Nassif, no Jornal GGN:

De um empresário líder de classe em São Paulo, com bom conhecimento da área militar.

No início havia esperança de que os militantes da reserva, que subiram com Jair Bolsonaro, pudessem enquadrá-lo.

Isso não ocorreu. A grande esperança seria o general Augusto Heleno, tido como de boa formação. Depois, constatou-se que ele é apenas um boa praça, cordato, doce, mas sem disposição de liderar ou dar ordens.

A única grande liderança nas Forças Armadas, me dizia o empresário, era o general Villas Boas, mas que está fisicamente impossibilitado. E o general Hamilton Mourão não é considerado do meio militar. É um outsider que corre à parte. Sempre foi visto como o falastrão amigão. Mas apenas isso.

Os militares da ativa, o Alto Comando incluído, não se consideram parte do governo. São legalistas, se importam apenas com temas militares, como a defesa da fronteira e os avanços tecnológicos, são defensores da Constituição e não pretendem se imiscuir na política. Eles tratam o governo Bolsonaro como um governo civil integrado por militares da reserva.

Por tudo isso, a saída de Bolsonaro – que ele entende como certa, devido ao filho Flávio – não abrirá muitas luzes para a economia.
Posted: 02 Mar 2019 09:06 AM PST
Por Amanda Audi, no site The Intercept-Brasil:

Um crachá, parece pouco, mas, para entrar na Câmara dos Deputados, o plástico pendurado no pescoço é essencial. Quem não é funcionário nem credenciado (como os jornalistas, por exemplo) não escapa de um burocrático registro que exige entregar um documento e tirar uma fotografia antes de ganhar o acesso como visitante. Nathalia Queiroz, segundo Jair Bolsonaro, era funcionária de seu gabinete de deputado federal, mas nunca teve o crachá. Ela também não tinha vaga de garagem no prédio e nem mesmo consta dos registros de visitantes da Câmara, como mostram documentos obtidos com exclusividade pelo Intercept.

Nathália é filha de Fabrício Queiroz, ex-assessor e amigo dos Bolsonaro desde a década de 1980. Ele movimentou milhões de reais, de origem obscura, de dezenas de assessores e ex-assessores do filho do presidente, Flávio Bolsonaro. Queiroz também depositou R$ 24 mil na conta da primeira dama, Michele Bolsonaro. O caso tem contornos de um esquema de funcionários fantasmas que repassavam integralmente, ou em parte, seus salários a Queiroz, que aparentemente não usufrui desse dinheiro.

Os documentos que mostram que Nathalia jamais pisou na Câmara são fortes indícios de que também ela era funcionária fantasma, no caso, do então deputado federal e hoje presidente da República, Jair Bolsonaro. Nathalia teve um cargo no gabinete de Bolsonaro entre dezembro de 2016 e outubro de 2018, o que lhe rendia um salário de R$ 10 mil mensais, fora benefícios. O problema é que não há qualquer registro de que ela tenha pisado uma única vez na Câmara dos Deputados durante esse período.

A Procuradoria Geral da República recebeu, esta semana, representações que apontam suspeitas de desvio de dinheiro público e improbidade administrativa cometidos por Jair Bolsonaro justamente na contratação de Nathalia.

Os documentos, obtidos via Lei de Acesso à Informação, confirmaram que Nathalia jamais teve um crachá funcional após consulta ao banco de dados da Polícia Legislativa, responsável por confeccionar as peças. O nome dela tampouco consta do Sistema de Identificação de Visitantes, que registra entrada e saída de quem não trabalha no Poder Legislativo mas faz visitas esporádicas.

Eu também perguntei à Câmara se Nathalia recebeu permissão para estacionar seu carro nas garagens da Casa – algo comum para funcionários. A resposta foi a mesma: não, nunca teve.

Nathalia é citada no relatório do Coaf que identificou as movimentações suspeitas na conta de seu pai na época em que ele era assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio. Curiosamente, pai e filha foram exonerados de seus cargos no mesmo dia: 15 de outubro de 2018.

Em Brasília e no Rio ao mesmo tempo. Ou não
Quem já visitou algum dos prédios da Câmara dos Deputados, em Brasília, deve ter reparado na burocracia a que é preciso se submeter antes de entrar.

Eu estou lá toda semana e sei que é impossível circular pelas dependências sem apresentar identificação com foto e nome visíveis a cada uma das inúmeras barreiras de segurança – equipadas, inclusive, com detectores de metais.
Os sistemas de pessoal e de segurança da Câmara indicam que Nathalia nunca pisou no gabinete de Jair Bolsonaro nos 22 meses em que supostamente trabalhou nele.

Se os dados dos sistemas de pessoal e de segurança da Câmara indicam que Nathalia nunca pisou no gabinete de Jair Bolsonaro nos 22 meses em que supostamente trabalhou nele, então temos um problema, já que em janeiro, o gabinete do ex-deputado Jair Bolsonaro atestou a presença integral dela, sem registro de faltas ou licenças.

Esses indícios se somam a outros já revelados pela imprensa de que, é muito provável, Nathalia era mesmo funcionária-fantasma. Suas redes sociais contêm imagens dela trabalhando como personal trainer no Rio de Janeiro durante o horário comercial. A “assessora” de Bolsonaro, inclusive, atendia a celebridades como Bruna Marquezine e Bruno Gagliasso.

Segundo a Câmara, Nathalia era responsável por “redação de correspondência, discursos e pareceres do parlamentar, atendimento às pessoas encaminhadas ao gabinete, execução de serviços de secretaria e datilográficos, pesquisas, acompanhamento interno e externo de assuntos de interesse do deputado, condução de veículo de propriedade do parlamentar, recebimento e entrega de correspondência, e outras atividades afins inerentes ao respectivo gabinete”.

Seria possível imaginar Nathalia trabalhando para Bolsonaro no Rio, base eleitoral dele. Mas fica difícil acreditar que ela assim daria conta das atribuições de seu cargo.

Seria até possível imaginar que Nathalia trabalhasse para Bolsonaro no Rio de Janeiro, base eleitoral dele, e não em Brasília. Isso é comum e legal. Mas fica difícil acreditar que ela daria conta das atribuições listadas em seu cargo sem estar no gabinete do político. Como poderia fazer “atendimento às pessoas encaminhadas ao gabinete” se jamais pisou no gabinete, por exemplo?

Não se trata da primeira suspeita de que Nathalia Queiroz tinha um cargo público em gabinetes da família Bolsonaro mas não aparecia para trabalhar. Ela também foi nomeada quando Flávio Bolsonaro era deputado estadual no Rio de Janeiro. De alguma forma, ela conseguia estar na Assembleia Legislativa ao mesmo tempo em que dava expediente como atendente numa academia e fazia faculdade de Educação Física.

Nathalia ganhou sua primeira chance aos 18 anos. Era, então, um cargo no gabinete da vice-liderança do PP, partido de Flávio Bolsonaro à época. Hoje, Nathalia tem 29 anos. Nesses 11 anos, a moça nunca deixou de trabalhar para a família Bolsonaro, nem de ser paga com dinheiro público.
Futuro de Bolsonaro pode ter processos por improbidade e desvio de dinheiro

Jair Bolsonaro se irritou quando foi questionado sobre Nathalia, em dezembro passado. “Ah, pelo amor de Deus, pergunta para o chefe de gabinete. Eu tenho 15 funcionários comigo”, despistou. Jornalistas fizeram exatamente isso: procuraram Pedro Cesar Nunes Ferreira Marques de Sousa, hoje chefe de gabinete de Bolsonaro no Palácio do Planalto. Mas ele manteve um silêncio sepulcral sobre o assunto.

Nathalia fez várias transferências para a conta do pai no período investigado, entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017. Ao todo, somam R$ 84 mil na conta do ex-assessor de Flávio Bolsonaro.

Eleito senador, Flávio era candidato à prefeitura do Rio em 2016, época das movimentações atípicas de Queiroz. Segundo o Coaf, as movimentações financeiras são “incompatíveis com o patrimônio, a atividade econômica ou ocupação profissional” do ex-assessor. Queiroz disse que as transações se referem à “compra e venda de carros”. Mas nós já mostramos que ele tem apenas dois, um Voyage 2010 e uma Belina 1986. O valor dos dois, juntos, não chega a R$ 25 mil.

Está nas mãos da procuradora-geral Raquel Dodge decidir se abre ou não inquérito para investigar o caso. Bolsonaro não pode ser denunciado por fatos de antes de seu mandato como presidente, mas Dodge pode seguir a tese de que ele pode ser investigado e, se for o caso, denunciado, ao deixar o cargo de presidente.

Procurei a assessoria de imprensa do Palácio do Planalto por e-mail, telefone e celular de plantão na noite de quinta-feira, para ouvir o presidente sobre o caso. Quando receber a resposta, este texto será atualizado. A defesa de Fabrício Queiroz disse que vai provar que Nathalia exerceu as funções para as quais foi nomeada em “momento oportuno”.
Posted: 02 Mar 2019 09:01 AM PST
Por Ricardo Kotscho, em seu blog:

“Lula em velório é larápio posando de coitado”, blasfemou a abominável figura de Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do capitão, eleito deputado federal pelo PSL em São Paulo, com votação recorde.

De larápios, o filho Zero Três deve entender bastante, pois vive cercado deles nos laranjais dos gabinetes bolsonarianos, frequentados também por milicianos cariocas homenageados pela família.

Como se fosse um desses milicianos perigosos, Lula chegou ao velório do neto Arthur, de sete anos, escoltado por policiais federais com armas de grosso calibre.

O cemitério do Jardim da Colina, em São Bernardo do Campo, estava cercado por dezenas de policiais e viaturas da Polícia Militar, como se ali tivesse acontecido um terrível crime, não o velório de uma criança.

O pequeno Arthur, filho dos meus bons amigos Sandro e Marlene, que nunca fizeram mal a ninguém, será lembrado como um mártir da tragédia bolsonariana que se abateu sobre o Brasil neste ano de 2019, em que todos os monstros parecem ter saído do armário.

Conheci Sandro, o segundo filho de Lula e Marisa, quando ele era mais novo do que o Arthur, carregado no colo da mãe orgulhosa, com os mesmos cabelos cacheados.

Era uma família de gente muito simples que vivia numa casa de esquina no bairro da Vila Paulicéia, de onde Lula um dia saiu para ganhar o mundo.

Agora, antes de completar um ano como prisioneiro político em Curitiba, condenado sem provas por “ato indeterminado”, Lula já perdeu a esposa Marisa, o irmão Vavá e agora Arthur, o neto que não largava o avô quando se encontravam.

Tem dias que não dá vontade de escrever nada.

As palavras perdem o sentido diante das barbaridades da nova ordem cívico-militar a que assistimos todos os dias.

E, no entanto, é preciso continuar escrevendo todos os dias para, pelo menos, mostrar aos nossos algozes que continuamos vivos.

Estranho governo esse que está mais preocupado com o que acontece na Venezuela e declarou guerra aos brasileiros mais humildes que tinham melhorado de vida nos governos de Lula.

Até dentro da capela do cemitério onde o corpo foi cremado havia policiais fortemente armados em torno do caixão, cercando parentes e amigos, prontos para o combate.

Este é o Brasil que saiu das urnas em nome da “nova política” para combater a corrupção e já vive atormentado por graves denúncias, ao completar apenas dois meses no poder.

A cena kafkiana do velório militarizado ficará certamente para sempre na memória daqueles que, como eu, acompanharam a trajetória do líder metalúrgico do ABC até o Palácio do Planalto.

Nem nos piores pesadelos poderíamos imaginar que o país se degradasse tanto em tão pouco tempo, com o medo vencendo a esperança e a morte derrotando a vida que brotava.

Fico pensando de onde vem tanto ódio, como vimos desde ontem nas redes sociais, a sede de vingança de bestas humanas que não respeitam a dor do próximo.

Juntaram-se nesse bombardeio altos executivos de empresas, políticos corruptos com analfabetos e boçais de toda ordem, que perderam a modéstia e agora se acham empoderados no processo de degradação do país.

Esta noite de sábado, Lula estará mais uma vez na sua cela solitária de Curitiba, em que foi confinado para não disputar a eleição presidencial, e abrir caminho para a vitória do capitão Bolsonaro e seus generais, acolitados pelo ex-juiz Sergio Moro, agora promovido a ministro da Justiça pelos bons serviços prestados.

Do lado de fora do presídio, o Brasil pandeiro pula mais um Carnaval, mas não tenho ânimo nem para sair de casa ou ver os desfiles na televisão.

Escrevo apenas porque não sei fazer outra coisa, na esperança de que um dia estes dias trágicos tenham fim.

Não era essa a velhice com que eu sonhava quando o povo se levantou para reconquistar a democracia, nem faz tanto tempo.

Vai em paz, pequeno Arthur. Tenham mais uma vez forças sertanejas, vovô Lula, Sandro, Marlene e todos os Silva, que nos devolveram o orgulho de ser brasileiros.

Eles, os vingadores de araque, um dia passarão, e nós ficaremos velando nossos mortos, enquanto houver vida para ser vivida.

Uma sociedade em que as pessoas comemoram a morte de uma criança é doente, não tem vergonha na cara, não tem caráter.

Isso nada tem a ver com política, mas com caráter.

Para quem fica, vida que segue.
Posted: 02 Mar 2019 08:55 AM PST
Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

Antropólogos nos descrevem como um povo emotivo, com dificuldade para tomar decisões racionais neste mundo de tantas tragédias e tantas tristezas. Correta ou não, baseada em preconceitos ou em nosso complexo de vira-lata, somos um país de chorões de alma sofrida, que não resistem a um dramalhão. Mas agora chegamos a um limite.

Se Lula for impedido de velar o neto Arthur, partilhar a dor com os pais, irmãos, tios e tias de uma família que convive há tanto com a dor e o sofrimento de tantas pessoas próximas, é bom avisar que esse povo pacífico, amoroso e bem comportado, vai acabar perdendo a cabeça.

Pode sonhar sonhos que nunca teria, alimentar ideias e pensamentos que jamais admitiu em seu horizonte de ser humano.

Este é um aviso aos guardiões da lei e da ordem, aos juízes e aos tiras, aos verdadeiros homens de Estado e aos delinquentes que conseguiram ali se infiltrar.

Autorizar Lula a chorar o sangue de seu sangue, sua alma e sua carne, não é um favor que se presta a uma família. É um favor a vocês e a todos nós.

Neste país onde os direitos elementares, que distinguem os homens da maioria dos animais - como comparecer ao funeral do irmão Vavá - costumam ser negados pela arrogância e pela conveniência, a decisão de negar o adeus a Arthur irá despertar um ódio absoluto e sombrio como nunca se viu neste país.

Alguma dúvida?
Posted: 02 Mar 2019 02:51 AM PST
Por Altamiro Borges

Qualquer ser humano com um mínimo de dignidade ficou triste e abatido com a morte prematura do menino Arthur Araújo, de 7 anos, neto do ex-presidente Lula. Mas os fascistas, os que cultivam o ódio e a violência, não são seres humanos. Não dá nem para chamá-los de vermes, já que estes têm função na natureza. Cínicos, eles berram “Deus acima de todos”. No fundo, eles veneram o demônio, a morte. Para estes psicopatas deveria servir a lição do Papa Francisco: “Quando você comemora a morte de alguém, o primeiro que morreu foi você mesmo”. Em vida, esses milicianos laranjas deveriam pagar por seus crimes. No poder, Hitler e Mussolini festejaram a morte de milhões de pessoas indefesas. Ao final, eles foram devidamente punidos!



Logo que a notícia da morte por meningite meningocócica do garoto foi estranhamente postada por um colunista de O Globo, na manhã desta sexta-feira (1), o ódio ao ex-presidente Lula saiu do esgoto. Dezenas de leitores deste jornal – que ajudou a chocar o ovo da serpente fascista com sua criminalização da política e sua satanização das esquerdas – fizeram questão de postar seus comentários asquerosos. Muitos desses babacas desalmados são apenas massa de manobra da cloaca burguesa, que nunca tolerou o “reformismo brando” do ex-presidente que tirou milhões de brasileiros da miséria. Manipulados, eles acreditam que todos os males da humanidade – inclusive sua imbecilidade e nulidade – são culpa de Lula. Por isso, festejaram a morte do neto Arthur Araújo, da esposa Marisa Letícia e do irmão Genivaldo Inácio da Silva, o Vavá, no mês passado.

No clima de ódio e irracionalidade que corrói a sociedade, eles inclusive já não se escondem no anonimato, como é o caso da “youtuber” Alessandra Strutzel. Logo após a notícia da morte, a figura escrota postou uma foto de Lula com Arthur e a frase sádica: “Pelo menos uma notícia boa”. Diante da reação de um seguidor – “Qual é a notícia boa?” –, a doente respondeu: “Um filho da puta a menos”. O seguidor replicou: “Acho que você não entendeu. Quem morreu foi o neto, uma criança de 7 anos”. E a tréplica da fascista bem que justificaria um processo na Justiça e uma severa punição: “Entendi sim. Pensa, iria crescer com exemplo do avô, um filha da puta a menos para roubar nosso país”. Na sequência, como todos os covardes fascistas, ela pediu desculpas e alegou que “com a postagem que fiz, eu só queria saber como as pessoas reagiriam”.

O pior neste dia triste não foram os comentários escrotos no jornal O Globo ou as postagens da “youtuber” babaca. O mais lastimável foi a postura do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente do laranjal da República. Diante de uma enquete sobre a liberação de Lula para acompanhar o enterro do neto, o que é previsto na legislação, o “pimpolho” do fascista respondeu: “Lula é preso comum e deveria estar num presídio comum. Quando o parente de outro preso morrer, ele também será escoltado pela PF para o enterro? Absurdo até se cogitar isso, só deixa o larápio em voga posando de coitado”. Para quem tem um pai que disse que não o visitaria no presídio da Papuda, é compreensível o rancor deste fascistinha!

Em tempo: Qual seria sua atitude diante da prisão de algum membro da famiglia Bolsonaro – seja devido aos vínculos com as milícias assassinas do Rio de Janeiro; ao uso de dinheiro público no emprego de laranjas; ou por apologia ao estupro e a violência; ou por outros crimes?
Posted: 01 Mar 2019 06:32 PM PST
Do site do Centro de Estudos Barão de Itararé:

No dia 13 de março de 2019, à partir das 18h30, a unidade da Livraria da Vila situada na Rua Fradique Coutinho (915), em São Paulo, sedia o lançamento do novo livro de Laurindo Leal Filho, o Lalo: "A mídia descontrolada - Episódios da luta contra o pensamento único", lançado pelo selo do Barão de Itararé.

Compareça, adquira a sua cópia e bata um papo com o Lalo. A atividade inaugura o calendário do Barão em 2019 e a entrada é franca.

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As eleições presidenciais de 2018 desorientaram os meios de comunicação tradicionais. Todos eles apostavam numa candidatura palatável para os seus interesses políticos e empresariais mas não encontraram quem a encarnasse. De repente se viram às voltas com uma realidade inesperada. Têm pela frente um governo que os despreza, que assusta muito dos seus leitores, ouvintes e telespectadores, mas do qual não podem se afastar totalmente, como sempre acontece no Brasil. A dependência das verbas publicitárias oficiais e de outros favores governamentais é muito grande.

Já dão mostras que se acomodarão aos novos tempos. Daí a importância dos movimentos sociais seguirem na luta por uma comunicação que abra espaço para a diversidade do país, democratizando a circulação de vozes existentes na sociedade. Uma parte importante dessa batalha está em A mídia descontrolada - episódios da luta contra o pensamento único, novo livro de Laurindo Leal Filho, o Lalo, lançado pelo Barão de Itararé.

A publicação traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação, publicadas pela Revista do Brasil desde 2009. A análise crítica da atuação dos meios de comunicação feita por Lalo fornece ao leitor as peças do quebra-cabeça que revela os interesses e o poder jogado pelo oligopólio midiático no país. Uma contribuição que reúne o rigor da investigação científica do professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) com linguagem acessível mesmo a quem não está acostumado com as discussões do mundo da comunicação.
Posted: 01 Mar 2019 07:47 PM PST
Por Berenice Bento, no site Outras Palavras:

O avanço das agendas conservadores e de extrema direita é uma onda global de reação, entre outras motivações, ao crescente protagonismo de discursos e práticas que questionam modelos tradicionais de família. Será que pensávamos que iríamos teorizar e atuar em torno de questões centrais que sustentam a família e não haveria reação globalizada? Quem acreditou que tínhamos acumulado conquistas suficientes e que estávamos em outro patamar das disputas por reconhecimento, talvez faça uma leitura da história numa perspectiva evolucionista.

Bolsonaro e Trump são personagens deste momento global de reação à uma agenda que amplia as noções e conquistas de Direitos Humanos. Neste contexto, a centralidade da família (ou seja, da sexualidade e gênero) para o Estado-nação foi explicitada. Qual é a instituição central para a formação do sujeito? A família. É no seu âmbito que acontece a socialização primária, momento em que as primeiras verdades que estruturam a subjetividade são reproduzidas.

Já sabemos que as relações privadas são relações de poder. Tanto as agendas LGBTQI+ quanto os múltiplos feminismos colocam em cena outras moralidades. Ter uma filha feminista, ou um filho gay, ou um filho transexual significa, hegemonicamente, uma negação das verdades que foram ensinadas e, supostamente, interiorizadas sem qualquer questionamento. Uma socialização primária bem sucedida refere-se exatamente a ausência de crítica ou fissuras aos ensinamentos desta primeira fase de nossas existências. Aquilo que eu digo, na minha posição de mãe/pai, deve ser interiorizado pelo/a filho/a como verdade, tornando-se força regulatória dos desejos. Mas os sistemas morais falham. Seu desejo de reprodução esbarra em sujeitos que interrompem sua suposta coerência. É neste momento que instaura-se uma crise dos sistemas de legitimidade das moralidades hegemônicas.

Filhos gays, feministas, transexuais são as expressões do fracasso da/do mãe/pai e, portanto, o esvaziamento (ou falta de poder) do seu lugar de reprodutor/a das normais sociais. A solução deste fracasso, da retomada do poder da família tradicional, são tarefas assumidas por personagens que constituem nosso tempo histórico (como Trump, Bolsonaro e Damares Alves). E esta é uma das chaves explicativas para a vitória de Bolsonaro e a adesão de parte considerável da sociedade aos discursos identificados como tradicionais. Tanto a família da elite, quanto a da periferia reproduzem normas sociais que lhes conferem poder na/de formação do sujeito.

Não apenas Damares Alves, mas todos os ministros do governo Bolsonaro têm uma coerência em relação à agenda de retorno a um ideal de sociedade na qual as diferenças (de todas as ordens) não tenham voz no espaço público. O objetivo é barrar a avanço de agendas políticas que construam novas gramáticas morais fortes o suficiente para impulsionar a luta por reconhecimento. O que significa “novas gramáticas morais”? Que estamos diante de novas respostas para o certo e errado, para bom e mau, o belo e feio.

Há um debate conceitual sobre se o governo Bolsonaro poderia ser tipificado como “fascista”, uma vez que esta definição refere-se a uma experiência histórica com características distintas daquelas que estamos assistindo no Brasil. Isso é verdade. Mas há um elemento estruturante do fascismo presente nos discursos em parte considerável dos seguidores do Bolsonaro: o desejo expresso da eliminação do Outro, daquele que representa uma ameaça ao projeto de sociedade livre de quaisquer marcas da diferença. É neste contexto que a ministra Damares Alves se insere. Cada ministério tem a missão de construir e derrotar um inimigo. Ministério da Educação: os/as professores/as. Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos: eliminar aqueles/as que questionam a ordem natural (e bíblica) da família heterossexual. Embora haja inúmeros inimigos em sua cruzada moral, são as feministas que assumiram o protagonismo em suas declarações de guerra.

É importante levar a sério o que ela declara. Para cada “bobagem” que ela fala, uma chuva de memes brota nas redes sociais. Quando ela afirma que “as feministas são feias”, ela recupera o mesmo discurso que vem circulando por longo tempo: feministas não gostam de homens, são sujas, não se depilam. O que está em jogo? A retomada (ressignificada) da feminista como figura abjeta, a bruxa, aquela que deve morrer. Qual foi a figura que usaram para representar a filósofa judia antissionista Judith Butler quando esteve no Brasil em 2017? A bruxa.

O livro Calibã e a bruxa, de Silvia Federici, nos ajuda a entender quais foram os mecanismos e interesses (principalmente os vinculados aos de classe social) articulados por séculos que acabaram resultando nesta memória coletiva perversa que faz coincidir atualmente feminista e bruxas. Damares Alves, talvez não intencionalmente, coloca em discurso séculos de história de construção do feminino como lugar da abjeção.

Nos processos de lutas e guerras, a produção do inimigo como sujo, violento e irracional são reiterados. A construção do inimigo pode estar encarnada na pele do herege, do muçulmano, do palestino ou comunista, mas estes recursos retóricos são elementos estruturantes das guerras contra populações construídas como inimigas. O inimigo se constitui como uma figura que não pode produzir nenhuma identificação, processo mediante o qual eu posso, em algum nível, reconhecer-me no Outro e, mais importante, desejar ser ele. A ausência completa de identificação é uma porta aberta para todos os tipos de violência.

Ao falar de feminismo como uma expressão de mulheres mal-amadas e feias, Damares provoca uma reincitação da produção diferencial dos femininos. O belo estaria identificado com a ordem, com a moralidade heteronormativa. A própria ministra se constitui como referência de feminilidade e estabelece uma linha de continuidade com Marcela Temer, Michelle Bolsonaro, mulheres que se apresentam como sinônimo de um feminino limpo, portanto, verdadeiro e legítimo. Dilma Rousseff e Manuela D’Ávila seriam, ao contrário, as bruxas. O caos da sociedade explica-se, segundo os cruzados morais, pelo negação dessas mulheres em cumprir com os desígnios da natureza feminina. E se assim agem, não são mulheres. “Eliminêmo-las!” Esta é consigna da Cruzada/Ministério Mulheres, Família e Direitos Humanos.

As noções de belo e feio não são expressões estéticas esvaziadas de interesses ou reveladores de um gosto individual. O belo é o bom, e o feio, o mau. São expressões de moralidades hierarquizadas. O feio é identificado com as mulheres que questionam, que se posicionam diante das injustiças e reivindicam um lugar de fala no mundo sem pedir autorização.

Enquanto Damares tiver como resposta à sua pergunta diária (“espelho, espelho meu….?”), “sim, porque a última feminista ainda não morreu”, a guerra será contínua.

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