28/3 - Folha Diferenciada DE HOJE

Folha Diferenciada


Posted: 28 Mar 2019 08:56 AM PDT

Helcio Nagamine/Fiesp e Marcelo Camargo/Agência Brasil

por Conceição Lemes


Nessa terça-feira (26/03), o Diário Oficial da União publicou a portaria nº263/2019, do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, que “institui Grupo de Trabalho para avaliar a conveniência e oportunidade da redução da tributação de cigarros fabricados no Brasil”.

O artigo 1º detalha:


Fica instituído Grupo de Trabalho – GT para avaliar a conveniência e oportunidade da redução da tributação de cigarros fabricados no Brasil, e, assim, diminuir o consumo de cigarros estrangeiros de baixa qualidade, o contrabando e os riscos à saúde dele decorrentes.



“Inacreditável!”, reage, espantado, o médico sanitarista Arthur Chioro.

Professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Chioro foi ministro da Saúde no segundo governo da presidenta Dilma Rousseff (PT).

“Se a lógica do Moro para combater o contrabando de cigarro e os produtos de baixa qualidade for reduzir a tributação para baratear o cigarro nacional, ela é absolutamente absurda”, detona.

“Representa um retrocesso sem precedentes na exitosa política brasileira de antitabagismo”, alerta Chioro.

O trabalho do Brasil no controle do tabagismo é reconhecido internacionalmente.

Em 2015, recebeu o Prêmio Bloomberg para o Controle Global do Tabaco pela eficácia e qualidade da política de combate ao tabagismo, cujos esforços começaram na década de 1970.

O prêmio foi entregue na 16ª Conferência Mundial Sobre Tabaco ou Saúde em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, e Chioro representou o Brasil.

A lógica exitosa do programa de combate ao tabagismo no Brasil foi exatamente a de associar este conjunto de medidas:

*Aumento progressivo da taxação e fim dos preços populares (recomendado pela Organização Mundial de Saúde –OMS),

*Regulamentação rigorosa da publicidade, proibindo todo tipo de propaganda.

*Proibição do fumo em ambientes fechados e eliminação dos pontos de fumo – os chamados fumódromos.

* A oferta de tratamento gratuito no SUS, inclusive com distribuição de medicamentos as pessoas que querem parar de fumar.

O resultado foi a diminuição de mortalidade por doenças associadas ao fumo no Brasil.

Já o barateamento do cigarro nacional decorrente da redução tributária terá efeito inverso.

“Será um desastre para a saúde pública”, adverte Chioro.

“Aumentará o consumo entre jovens e população de baixa renda, assim como a prevalência e da mortalidade por doenças relacionadas ao tabaco”, previne.

E, aí, quem pagará a conta, ministro Moro?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece o tabagismo como uma doença epidêmica.

Por ano, o cigarro mata 6 milhões de pessoas em todo o mundo.

No Brasil, aproximadamente 200 mil.


Viomundo
Posted: 28 Mar 2019 08:50 AM PDT

© AP Photo / Foto de arquivo, Força Aérea dos EUA

O secretário interino da Defesa dos EUA, Patrick Shanahan, pode alegar que os Estados Unidos vencerão qualquer guerra no espaço, sem perceber que tal conflito tornará para sempre a humanidade prisioneira na Terra. Felizmente, suas palavras são apenas propaganda, dizem analistas.


"Estou totalmente confiante de que poderemos vencer um conflito no espaço hoje contra a Rússia, a China ou qualquer outro adversário", declarou Shanahan a senadores americanos, que estão decidindo se ele está apto a assumir o cargo de forma permanente.

Quando perguntado sobre esta declaração ambiciosa, Bruce Gagnon, coordenador da Rede Global Contra Armas e Energia Nuclear no Espaço, lembrou as palavras do astronauta norte-americano Edgar Mitchell, que foi a sexta pessoa a caminhar na lua.

"Anos atrás, eu organizei um protesto no Kennedy Space Center da NASA na Flórida e um dos oradores foi Mitchell. E ele disse que se houver uma guerra no espaço — será a última porque muito lixo espacial será criado ao explodir os satélites que não serão mais capazes de tirar um foguete da Terra. Ele simplesmente não será capaz de passar por esse 'campo minado'", afirmou.

No entanto, as palavras do secretário de Defesa em exercício "não são realmente novas", como Washington vinha falando sobre controlar e dominar o espaço desde os dias do presidente republicano Ronald Reagan nos anos 80, disse Gagnon à RT.
"Os EUA veem o espaço como outro domínio de combate. Eles têm um slogan, lendo 'domínio total do espectro' e o que isso significa é que os militares dos EUA devem controlar um conflito em todos os níveis — no solo, no oceano, no ar e agora no espaço", avaliou.

O ativista elogiou a Rússia e a China por seu esforço de décadas para promover a Prevenção de uma Corrida de Armas no Espaço (PAROS), lamentando que "os EUA e Israel continuem bloqueando esse tratado na ONU".

"Rússia e China têm dito: 'Vamos fechar a porta do celeiro antes que o cavalo saia'. Mas os Estados Unidos se recusam, já que suas empresas de armas estão comprometidas em ganhar muito dinheiro com uma nova corrida armamentista no espaço", explicou Gagnon.

Experiência soviética


O especialista militar da revista russa Arsenal Otechestva, Aleksey Leonkov, avaliou que a bravata de Shanahan nada mais é do que um "movimento propagandista".
"A questão é — com qual hardware exatamente os EUA vão alcançar essa vitória?", questionou. "O que eles têm no espaço é apenas satélites de vigilância. É isso aí".

O analista relembrou que a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos EUA (DARPA) marcou três direções de perspectiva no desenvolvimento de tecnologias espaciais militares em 2002.

"Eles eram interceptadores espaciais, que eliminariam mísseis balísticos; plataformas espaciais com lasers poderosos, provavelmente nucleares, para proteger o território dos EUA e sistemas especiais para atacar alvos na Terra com mísseis espaço-superfície", relembrou.

De acordo com Leonkov, "nenhum desses projetos americanos está nem perto da implementação prática" no momento.

Ao contrário dos EUA, "a Rússia desenvolveu recentemente um verdadeiro sistema de laser militar e possui tecnologias para colocá-lo em órbita", pontuou. E se a experiência soviética no campo for restaurada, "tudo ficará bem" para a Rússia.
"A URSS produziu vários sistemas espaciais militares e até os testou. Um deles foi o míssil R-36ORB, que conseguiu permanecer em órbita como satélite e atingiu um alvo no solo sob o comando do centro de controle. Esse sistema foi até em combate até 1993. Também tínhamos estações de batalha espaciais Almaz que poderiam atacar mísseis espaciais e balísticos", disse.

A China também é uma forte concorrente, já que possui "sistemas anti-satélite e anti-míssil em órbita", enquanto desenvolve ativamente seu programa espacial tripulado, concluiu Leonkov.


Sputnik Brasil
Posted: 28 Mar 2019 08:43 AM PDT


Uma coluna provocativa publicada na Scientific American explica melhor a ideia de que a realidade física do universo não teria a ver com a matéria de prótons, átomos, células e estrelas, mas que apenas o aparato matemático usado para descrever o comportamento da matéria seria real. Ou seja: a única coisa real seria a informação.

O autor da coluna é Bernardo Kastrup, doutor em engenharia da computação e filósofo.

Esta hipótese defende que o universo físico existria porque nós o percebemos assim, como uma alucinação em massa que usamos para dar sentido à relação matemática entre objetos. Esta noção abstrata se chama “realismo da informação”, e é uma com base filosófica associada à física.

Kastrup explica que o que antes acreditávamos ser as menores partículas do mundo – os átomos – acabaram se revelando capazes de divisões menores ainda. “Até que o que sobra não tem forma e nem solidez. No fim dessa corrente da redução física há apenas entidades elusivas e fantasmagóricas que nós chamamos de ‘energia’ e ‘campos’ – ferramentas conceituais abstratas que descrevem a natureza, que por si só parece não tem nenhuma essência real, concreta”, escreve ele.

Isso tudo indica para alguns físicos que o que chamamos de “matéria”, na verdade é apenas uma ilusão. Em outras palavras, a matéria surge a partir do processamento da informação, e não o contrário. Mesmo a mente e a alma seriam um fenômeno derivativo da manipulação de informações puramente abstratas. [Scientific American, Futurism]


Hypescience
Posted: 28 Mar 2019 07:48 AM PDT


"A cultura golpista é intrínseca à classe dominante brasileira", diz Gleisi Cléia Viana/Ag. Câmara

A presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), afirmou nesta quinta-feira (28) que o mercado financeiro e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) já cogitam abertamente o impeachment do presidente Jair Bolsonaro após verem sua incapacidade para aprovar a reforma da Previdência. Em texto publicado em sua página no Facebook, Gleisi sugere que há um movimento para tirar Bolsonaro da Presidência e substituí-lo pelo seu vice, Hamilton Mourão. Segundo ela, isso faz parte da "cultura golpista intrínseca à classe dominante brasileira".

"O mercado financeiro e a Fiesp já falam abertamente em impeachment e no vice Mourão – o mesmo que defende o fim do 13º salário, o fim do adicional de férias, o fim da carteira de trabalho, o fim do Bolsa Família e o fim do aumento real do salário mínimo", diz. "O vice, que a cada dia, parece mandar mais que o presidente, já incorporou o discurso e os interesses do Sistema – não importa se por ignorância, por ideologia ou por oportunismo", acrescenta.
Gleisi alega que os "poderosos" veem em Mourão a saída para aprovar a reforma da Previdência."Eles querem que o Brasil corte o pagamento dos aposentados e de outros direitos previdenciários para que o governo possa continuar transferindo recursos públicos para o setor privado, setor financeiro, diminuindo o Estado de proteção social, para mais a frente reduzir os impostos de quem já é muito, muito rico", critica.

Bolsonaro tem enfrentado grave crise com o Congresso. Desde a semana passada ele tem batido boca com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), até então principal articulador da reforma no Parlamento. Maia já pediu ao presidente que use menos as redes sociais, pare de "brincadeira" e governe mais. Já Bolsonaro responsabiliza os atritos no Congresso à pressão de parlamentares para negociar cargos em troca de votos.

Veja a íntegra do texto da presidente do PT:
"Cultura de golpe

Os banqueiros e seus amigos na política, que apostaram tudo em Bolsonaro, já começam a mostrar impaciência com sua incapacidade de aprovar essa trágica reforma da previdência no Congresso Nacional.

O mercado financeiro e a FIESP já falam abertamente em impeachment e no vice Mourão – o mesmo que defende o fim do 13º salário, o fim do adicional de férias, o fim da carteira de trabalho, o fim do Bolsa Família e o fim do aumento real do salário mínimo.

O vice, que a cada dia, parece mandar mais que o presidente, já incorporou o discurso e os interesses do Sistema – não importa se por ignorância, por ideologia ou por oportunismo.

Para os poderosos, Mourão seria a solução para aprovar essa reforma da previdência que vai acabar com a aposentadoria do povo.

Eles querem que o Brasil corte o pagamento dos aposentados e de outros direitos previdenciários para que o governo possa continuar transferindo recursos públicos para o setor privado, setor financeiro, diminuindo o Estado de proteção social, para mais a frente reduzir os impostos de quem já é muito, muito rico.

A cultura golpista é intrínseca à classe dominante brasileira. Impressionante!"


Congresso em Foco
Posted: 28 Mar 2019 07:37 AM PDT


Principal ingrediente da marca Roundup é o glifosato, amplamente utilizado ao redor do mundo.


A Bayer foi condenada nesta quarta-feira (27/03) por um júri nos Estados Unidos a pagar mais de 80 milhões de dólares em danos a um morador do estado da Califórnia que alega que o herbicida Roundup, produzido pela Monsanto, contribuiu para que ele desenvolvesse câncer.

O caso pode influenciar milhares de outros processos similares contra a companhia nos EUA. Adquirida pela Bayer no ano passado por 63 bilhões de dólares, a Monsanto enfrenta 11.200 casos similares na Justiça americana envolvendo o Roundup.

O júri ordenou que a Bayer pague a Edwin Hardeman, de 70 anos, uma quantia de 5 milhões de dólares em compensações, 75 milhões de dólares como punição e 200 mil dólares por despesas médicas depois de concluir que o Roundup foi fabricado defeituosamente, que a Monsanto não fez advertências sobre o risco apresentado pelo herbicida e que a companhia agiu de forma negligente.

Ao longo de anos, Hardeman usou produtos da marca para tratar carvalhos envenenados, ervas e outras plantas em sua propriedade em São Francisco. Segundo ele, o uso do produto levou ao desenvolvimento de um linfoma não-Hodgkin, um tipo de câncer que afeta as células do sistema imunológico.

O principal ingrediente da marca é o herbicida glifosato, amplamente utilizado ao redor do mundo, apesar de ter sido classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como "provavelmente cancerígeno" em 2015.

Em uma primeira fase do julgamento, o mesmo júri havia concluído que o Roundup foi um "fator substancial" entre as causas do câncer de Hardeman. Na segunda fase, realizada nesta quarta, as advogadas de Hardeman apresentaram documentos internos que, segundo elas, provam o esforço da empresa para influenciar cientistas e órgãos reguladores sobre a suposta segurança do produto.

Aimee Wagstaff e Jennifer Moore, advogadas de Hardeman, comemoraram o veredito. Para elas, a decisão é histórica e envia uma mensagem clara de que a Monsanto precisa mudar suas práticas comerciais.

"Ficou claro pelas ações da Monsanto que a empresa não se importa se o Roundup causa câncer, e, em vez disso, se foca em manipular a opinião pública e descreditar quem quer que demonstre preocupações genuínas e legítimas sobre o Roundup", afirmaram. "O fato de que nenhum funcionário da Monsanto tenha vindo ao julgamento defender a segurança do Roundup ou as ações da empresa diz muito a respeito”.

Hardeman disse a jornalistas estar comovido com o desfecho do caso. "Ainda não caiu a ficha", disse.

A Bayer afirmou que, embora simpatize com a situação de Hardeman, vai recorrer.

"Estamos desapontados com a decisão do júri, mas esse veredito não tira o peso de mais de quatro décadas de pesquisa extensiva e as conclusões de órgãos reguladores ao redor do mundo que apoiam a segurança de herbicidas baseados em glifosato e que eles não são cancerígenos", disse a empresa em comunicado.

"O veredito nesse julgamento não tem impacto em casos e julgamentos futuros, pois cada um é moldado por suas próprias circunstâncias factuais e jurídicas", acrescentou a Bayer.

Apesar de a OMS ter classificado o glifosato como provavelmente cancerígeno, agências reguladoras como a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA, na sigla em inglês), a Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA) e a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) não seguiram a decisão.

A Bayer nega que o herbicida cause câncer e questiona as conclusões da OMS.

No ano passado, a Monsanto também perdeu um caso contra um funcionário de uma escola da Califórnia que sofria de linfoma não-Hodgkin e processou a empresa por conta dos herbicidas Roundup e Ranger Pro, ambos baseados em glifosato. A Monsanto recebeu ordem de pagar 289 milhões de de dólares a Dewayne Johnson, mas a penalidade foi reduzida para 78,5 milhões. A Bayer também entrou com recurso.

No continente europeu, o glifosato também suscita polêmica. Depois de dois anos de debate acirrado, a União Europeia decidiu em 2017 renovar a permissão de uso do glifosato por mais cinco anos, citando a aprovação do composto pela EFSA. Mas a independência do relatório da EFSA foi questionada após notícias na mídia sugerirem que trechos haviam sido copiados e colados de análises feitas pela própria Monsanto.

No Brasil, o glifosato é amplamente empregado pelo agronegócio, principalmente nos plantios de soja e milho transgênicos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirma que a substância não causa câncer, mutações, e não é tóxica para reprodução ou provoca malformação no feto.



DW
Posted: 28 Mar 2019 07:33 AM PDT

Image captionO filme mostra o que ocorreu nos anos 1990 quando dezenas de igrejas de madeira da Noruega foram incendiadas (Crédito: Arrow Films)

Nicholas Barber
Da BBC Culture

O último filme de Jonas Åkerlund, Lords of Chaos ('Senhores do Caos', em tradução livre), é uma obra biográfica de rock'n'roll com todo bate-cabeça que isso pode implicar. Mas também é uma obra dramática mais estranha que a ficção sobre assassinato, suicídio, automutilação, adoração ao diabo e uma série de ataques incendiários que escandalizaram uma nação inteira.


Ao contar os crimes absurdos cometidos por algumas bandas de black metal da Noruega e seus fãs no começo dos anos 1990, o filme provavelmente não atrairá o público de Bohemian Rhapsody - e houve até pedidos de grupos religiosos para banir o filme.

A história por trás do filme na verdade começa não na Noruega mas em Newcastle-upon-Tyne, no norte da Inglaterra, onde um trio de heavy metal chamado Venom gravou seu segundo álbum, Black Metal, em 1982. Antes disso, a música já tinha uma longa história de flerte com imagens satânicas, desde Hellhound on my Trail de Robert Johnson até a clássica Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones e até nomes de bandas como Black Sabbath e Judas Priest. Mas a banda Venom levou essa relação mais adiante.

"É difícil explicar para os jovens quão chocante Venom era nos anos 80", diz Chris Kee, um jornalista das revistas de música Powerplay e Zero Tolerance. "Satã aparecia nas capas dos álbuns e era invocado praticamente em todas as músicas. Isso era um explícito pedido de aliança com o demônio. Eu lembro de ver o crucifixo em chamas no álbum de 1984, At War With Satan, e me perguntando se isso estava indo longe demais".

Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionO trio de heavy metal Venom gravou um álbum em 1984 chamado Black Metal e a partir daí um novo gênero musical foi criado

O álbum Black Metal do Venom se tornou a fundação de um subgênero inteiro. Se você achava que trash metal era muito comercial e death metal muito feliz, então black metal era a música para você. Nick Ruskell, um editor da revista Kerrang!, define o estilo como "uma forma obscura e dura de heavy metal com um foco em extremismo e uma tendência satânica - apesar de que, se você perguntasse a cinco fãs uma definição, você sairia com sete respostas diferentes".

Com a exceção de Venom, as bandas que formaram a cena de black metal eram escandinavas. Na Suécia, havia a Bathory, cujo bateirista era Jonas Åkerlund, o diretor de Lords of Chaos. Na Dinamarca, havia Mercyful Fate. E, na Noruega, uma geração mais jovem de entusiastas de metal estava ouvindo e aprendendo.

Image captionO filme Lords of Chaos conta a história real dos assassinos de black metal da Noruega (Crédito: Arrow Films)

Um desses entusiastas era Øystein Aarseth, um guitarrista que é interpretado no filme por Rory Culkin. Ele criou uma banda chamada Mauhem e, assim como os membros de Venom haviam criado nomes artísticos de terror para si - Cronos, Mantas e Abaddon - Aarseth escolheu um nome demoníaco da mitologia grega, Euronymous.

Quando ele recrutou um cantor sueco, Per Yngve Ohlin (nome artístico: 'Morto'), a banda se mudou para uma casa numa floresta para viver e ensaiar. Se a sonoroidade sombria da guitarra se tornou o som arquétipo do black metal norueguês, foi Ohlin quem desenvolveu sua própria marca de showman. Ele usava maquiagem preta e branca de forma que seu rosto parecia uma caveira e se automutilava em shows do Mayhem. Mas sua preocupação com a morte não se restringiu a atitudes teatrais mórbidas. Em abril de 1991, Aarseth chegou em casa e encontrou o corpo de Ohlin. Ele havia se matado.

'O círculo negro'


Isso poderia ter sido o fim do black metal norueguês. Mas Aarseth viu a morte de Ohlin como uma chance de se promover como líder de uma cena musical realmente perigosa e diabólica. Antes de chamar a polícia, ele saiu para comprar uma câmera descartável para que pudesse fotografar o corpo de Ohlin. Ele então resolveu criar sua própria gravadora, Deathlike Silence Productions, e abriu uma loja de discos em Oslo chamada Helvete ('inferno' em norueguês). Seus sócios mais próximos seriam 'o círculo negro', disse ele, e somente esse grupo poderia entrar no santuário do black metal, no caso um quarto úmido no porão da loja.

Image captionO ator Rory Culkin interpreta Øystein Aarseth, o Euronymous, da banda Mayhem (Crédito: Arrow Films)

Um dos principais membros do círculo negro era Kristian 'Varg' Vikernes, um adolescente de Bergen que preferia ser chamado de Count Grishnackh. Ele rapidamente construiu uma reputação por fazer as coisas sobre as quais Aarseth apenas falava.

Enquanto Aarseth trabalhava para finalizar o álbum de lançamento de Mayhem, Vikernes gravou vários álbuns solos sob o nome Tolkienesco de Burzum. E, enquanto Aarseth dava entrevistas sobre espalhar o ódio e o medo, Vikernes começou a atear fogo às históricas igrejas de madeira da Noruega.

Em 6 de junho de 1992, a Igreja Fantoft foi queimada. Vikernes nomeou seu próximo EP de Aske ('cinzas' em norueguês), e usou uma foto da carcaça queimada da igreja na capa. Cada cópia vinha com um isqueiro grátis.

Os fãs escandinavos de black metal entenderam a deixa e dezenas de outras igrejas foram queimadas. Alguns tinham crucifixos invertidos e o número 666 fixado nas suas ruínas.

Satanismo? Talvez sim, talvez não. Com o passar dos anos, vários músicos de black metal se tornaram estudantes aplicados de ocultismo, mas em 1992 eles se preocupavam mais em parecer sinistros e subversivos.

"A maioria dos caras do black metal queriam parecer o mais demoníaco possível", diz Kevin Hoffin, autor do livro TRVE: The Norwegian Black Metal Scene ('TRVE: A Cena Norueguesa de Black Metal'), "por isso que eles promoviam satanismo e inversões de tenets da Bíblia.

Os tabloides se esbanjaram já que haviam achado uma maneira de continuar o pânico moral da 'música satânica' que havia perseguido Judar Priest e Ozzy Osborne na década passada. Mas era um satanismo infantil e nada sincero. O incêndio às igrejas, por exemplo… É fácil queimar uma igreja feita de madeira."

Quanto a Vikernes, ele diz que os ataques eram um protesto contra religiões do Oriente Médio que haviam substituído seus deuses pagãos. Parecia que sua crença estava mais próxima do fascismo que do satanismo. E ele não estava sozinho. No documentário de Aaron Aites e Audrey Ewell sobre o black metal norueguês, Until the Light Takes Us ('Até Que a Luz Nos Leve'), é impressionante a frequência com que os entrevistados usam retórica racista e homofóbica.

E a homofobia não era restrita ao discurso de ódio. Em agosto de 1992, outro amigo de Aarseth, Bård Eithun (ou 'Fausto'), matou Magne Andreassen, um homem gay que se aproximou dele em um parque em Lillehammer. Vikernes ficou tão contente que se gabou para jornalistas do jornal Bergens Tidende de que ele sabia quem era o responsável pelos ataques e o assassinato. Um artigo de primeira página foi publicado em janeiro de 1993 entitulado Nós ateamos os fogos.

Image captionO estilo macabro das bandas de metal da Noruega é mostrado no filme (Crédito: Arrow Films)

Dois meses mais tarde, a principal revista de rock da Inglaterra, Kerrang!, publicou uma capa sobre os mesmos eventos. Foi escrita por Jason Arnopp, hoje roteirista e autor do livro Os Últimos Dias de Jack Sparks. Ele também aparece em Lord of Chaos, interpretando ele mesmo na juventude.

"Quando eu entrevistei Euronymous no telefone na época", diz Arnopp, "ele falava em um tom frio e apressado, como se estivesse tentando parecer esse personagem obscuro e misterioso. Sua obsessão com sua imagem é explorada em Lords of Chaos: eram adolescentes que queriam controlar a forma como o mundo os via e ganhar notoriedade".

Eles conseguiram. A matéria publicada na Kerrang! Fez com que fãs de rock de todas as partes do mundo buscassem o black metal norueguês, lembra-se Ruskell.

"Eu li sobre eles quando tinha 12 anos", diz ele, "e em uma cena musical em que era realmente assustador, com pessoas queimando igrejas, matando outras pessoas e querendo se alinhar a satã. Por ter crescido em um lar protestante, eu queria muito conhecer o som dessas bandas."

A infâmia de Vikernes e Aarseth alcançou um novo e ainda mais sinistro nível em agosto de 1993.

Convencido de que Aarseth planejava matá-lo, Vikernes foi até o apartamento de Aarseth no meio da noite e o matou.

Em maio de 1994, ele foi condenado a 21 anos de prisão pelo assassinato de Aarseth e pelos incêndios nas igrejas. Ele tinha 21 anos.

Naquele mesmo mês, o álbum inaugural de Mauhem finalmente foi lançado. Nele, havia letras compostas por Ohlin, guitarra de Aarseth e baixo de Vikernes em uma grotesca raridade: um álbum em que um colaborador se matou, outro foi assassinado e o terceiro era o assassino.

A saga dos chamados 'assassinos black metal' é tão assustadora que é difícil de processar até mesmo hoje. Está ligada à psiquê do país que nos deu Edvard Munch e uma série de maravilhosos romances nórdicos? Ou será que o diabo realmente tinha os melhores músicas?

"Eu não acho que a história seja tão incrível quanto pareça de primeira", diz Kee. "Se você pegar um grupo pequeno de homens jovens, um com problemas óbvios de saúde mental, outro um líder carismático, todos tentando fazer parte de algo e insatisfeitos com a vida e joga um pouco de ocultismo ali, um nível baixo de fama e algumas brigas internas de poder… você tem O Senhor das Moscas".

Ele se refere a um romance escrito por William Golding, vencedor do Prêmio Nobel em 1983, que retrata a regressão à selvageria de um grupo de crianças inglesas que ficam presas em uma ilha sem a supervisão de adultos.

O fator mais significativo pode não ter sido o satanismo mas a imaturidade. Nas fotos dos anos 1990, os músicos magros em suas jaquetas de couro e suas maquiagens de Halloween parecem estar copiando Kiss e Alice Cooper mas sem o mesmo orçamento ou senso de humor. E por mais iconoclásticos que se dissessem, eles seguiam os costumes da sociedade norueguesa quando lhes era conveniente.

As gravações do álbum Burzum de Vikernes foram financiadas por sua mãe, enquanto os pais de Aarseth bancavam sua loja.

Åkerlund descreveu Lords of Chaos como "um filme sobre idiotas" e "jovens idiotas fazendo coisas idiotas". Arnopp acredita que "a história é uma combinação de pressão de grupo, competição adolescente de cidade pequena e a vontade de se rebelar contra a religião organizada". E Hoffin vê os assassinatos e os incêndios como "uma competição macabra que saiu do controle".

Image captionO diretor de Lords of Chaos Jonas Åkerlund no lançamento do filme no festival de Sundance (Crédito: Alamy)

Mas por mais reconfortante que possa ser resumir Aarseth e seus amigos como moleques privilegiados que foram pegos em brincadeiras macabras e individualistas, seus crimes foram reais.

E, para quem estiver interessado, seus álbuns ainda estão disponíveis. "Foi trágico, também, porque não lhes faltava talento", diz Arnopp. "Se eles realmente estivessem motivados pela necessidade de atrair atenção para si em um nível global, então sua música eventualmente teria conquistado isso por mérito".




BBC News Brasil
Posted: 28 Mar 2019 06:42 AM PDT




Para James Green, o governo Bolsonaro impulsiona o ressurgimento de um moralismo que não é novidade no BrasilREPRODUÇÃO/FACEBOOK

por Luciano Velleda, da RBA 

São Paulo – Entender o Brasil não é tarefa fácil. Apesar da dificuldade de compreender um país tão grande e diverso, essa é a tarefa à qual se propôs o historiador e brasilianista americano James Naylor Green. Professor de História do Brasil na Brown University e coordenador da Rede Norte-Americana pela Democracia no Brasil, Green é o convidado do programa Entre Vistas desta quinta-feira (28), que vai ao ar a partir das 22h, na TVT.

O jornalista e apresentador Juca Kfouri abre o programa perguntando qual a explicação para o fato de 153 pessoas terem sido assassinadas no Brasil, em 2018, devido simplesmente a sua orientação sexual.

"É uma tradição brasileira de violência contra os LGBTs, gays, trans, não é uma novidade, mas no ano passado aumentou essa violência, eu acredito, pela violência do discurso do presidente Bolsonaro e seus seguidores, que estão realmente reforçando o ódio contra pessoas que têm uma orientação ou comportamento diferente", responde James Naylor Green.

Juca Kfouri então o questiona sobre como interpretar tamanha violência num país famoso pela alegria do carnaval e por ter um povo acolhedor. A resposta que poderia ser complexa para um tema espinhoso, acaba sendo simples.

"Temos que entender uma coisa que é óbvia. O Brasil é cheio de contradições, entre eles uma liberdade sexual muito grande e também um conservadorismo muito forte", afirma o brasilianista. Como exemplo, Green aponta o movimento contra o governo de João Goulart nos anos de 1963 e 1964, quando forças conservadoras que pregavam a defesa "da família, da tradição e da propriedade" se mobilizaram contra o então presidente.

"Um moralismo que está ressurgindo agora com esse novo governo no poder, ou seja, o Brasil sempre conviveu com uma certa liberdade e uma moralidade católica, agora protestante, muito enraizada na cultura, principalmente nas classes médias. Esse é o problema. Convivem esses dois fenômenos sempre em tensão", analisa.

Participam do Entre Vistas a roteirista Marta Nehring, filha de Norberto Nehring, morto sob tortura, em 1970, durante a ditadura civil-militar, e a advogada e antropóloga Terra Johari, membra da Comissão da Diversidade da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Ainda no primeiro bloco do programa, Terra Johari pergunta ao convidado como as origens totalitárias do Brasil com o período da escravidão, o mais longo do mundo, se refletem na atualidade do país. O questionamento faz James Naylor Green lembrar de um cartaz que viu durante as manifestações de junho de 2013, onde estava escrito: "Não são 20 centavos, são 500 anos".

O historiador pondera que os primeiros escravizados no Brasil foram os índios, e depois os negros trazidos a força da África para trabalhar na lavoura da cana-de-açúcar, entre outras serviços. O resultado, na opinião do historiador, é a criação de uma sociedade hierarquizada, onde as pessoas brancas têm privilégios que as pessoas não brancas não têm, e onde há uma noção de que certas pessoas têm o direito de fazer o que bem quiserem na vida, enquanto outras têm o sentimento de impossibilidade de reivindicar qualquer coisa porque se consideram inferiores.

Para ele, tal estrutura social passou por transformações nas últimas décadas, com o crescimento de movimentos sociais e populares, especialmente nos últimos governos.

"Acho que uma das explicações sobre o golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff e toda essa campanha contra o PT e outros setores populares, é que justamente houve transformações sociais, não radicais ou revolucionárias, mas significativas, e que afetou muitas pessoas acostumadas a terem privilégios sociais, que se assustaram com isso", explica o brasilianista.

Como exemplo, ele pondera sobre o quanto foi chocante para a classe média a lei que regularizou o trabalho das empregadas domésticas. "De repente já não era mais tão fácil contratar uma pessoa, em geral uma mulher negra, para trabalhar em casa como 'escrava'. Tinha que pagar mais, ela tinha direito a pedir licença, férias, 13º salário. Isso foi um choque muito grande. E isso vai em todos os sentidos", afirma Green, citando o crescimento do movimento LGBT, que reivindicou transformações sociais e culturais sobre o modo de entender diferenças no comportamento sexual e de gênero.

O Entre Vistas com o historiador e brasilianista James Naylor Green vai ao ar nesta quinta-feira, a partir das 22h, e pode ser visto pelo canal da TVT no Youtube.






Rede Brasil Atual
Posted: 28 Mar 2019 06:37 AM PDT


Foto: Reprodução


A ex-deputada federal Manuela D’Ávila, afirma, através de sua conta do Twiter, nesta quinta-feira (28), que o deputado Alexandre Frota (PSL-SP), a chamou de “vadia” enquanto ela autografava seu livro “A Revolução Laura”, ao lado da filha Laura, na Câmara dos Deputados.


“Vadia. Foi de vadia que o deputado que fazia pornô me chamou ontem na Câmara dos Deputados. Enquanto ele tentava conectar palavras, Eu estava autografando os meus livros com Laura, rodeada de amor. Para cada gesto de ódio, mais amor.”

“A Revolução Laura”

Foto: Reprodução

O livro “A Revolução Laura”, de acordo com texto de divulgação, é o registro afetivo de Manuela que, mãe de uma criança de dois anos, aceitou o desafio de concorrer à presidência do Brasil em novembro de 2017 e que, em agosto de 2018, tornou-se candidata a vice-presidente, chegando ao segundo turno.

Ela percorreu um país continental, amamentando sua filha e construindo uma nova forma de ocupação do espaço político. Também é uma conversa, sobre uma jornada de aprendizado e acolhimento. Sobre privilégios; sobre as lutas para que privilégios não existam mais. É sobre direitos. É sobre feminismo e liberdade. É sobre afeto, carreira e amor, porque não tem sentido ser pela metade. É sobre estar e não estar; presença e ausência. Sobre ser mãe e mulher; ser madrasta e não ser bruxa. Sobre acolher, sonhar um outro mundo e ser o outro mundo sonhado. E, profundamente, é sobre uma revolução chamada Laura. Uma revolução de amor, de amor próprio, de potência. Porque depois de gerar um filho não há nada, nadica de nada que uma mulher não possa fazer.




Revista Fórum
Posted: 28 Mar 2019 06:27 AM PDT




Por José Carlos Ruy*


No dia 31 de março, os democratas, patriotas e progressistas não tem o que comemorar, mas muito a lembrar, em termos de ataques à democracia, direitos humanos e soberania nacional. Na verdade, até mesmo em sua comemoração do golpe que levou os generais ao poder, a ditadura mentiu para o país - a ação militar contra Goulart começou na madrugada de 31 de março, tomou corpo no dia 1º de abril e depôs o presidente no dia 2 de abril. Mas o dia 1º de abril é, mundialmente, o dia da mentira...

A pretensão do capitão-presidente Jair Bolsonaro de voltar a comemorar a data do golpe de estado de 1964 despertou forte resistência de vários setores democráticos, no judiciário, no Ministério Público Federal e entre centenas de juristas. Em nota divulgada nesta terça-feira (26) a Procuradoria Federal dos Direitos Cidadão (ligada ao Ministério Público Federal) classificou a pretensão de Bolsonaro como crime de responsabilidade. “O apoio de um presidente da República ou altas autoridades [à comemoração do golpe de 1964 - nota da Redação] seria, também, crime de responsabilidade (artigo 85 da Constituição, e Lei n° 1.079, de 1950). As alegadas motivações do golpe – de acirrada disputa narrativa – são absolutamente irrelevantes para justificar o movimento de derrubada inconstitucional de um governo democrático, em qualquer hipótese e contexto”, diz a nota.

Não há o que comemorar, mas há tantos heróis a lembrar! Carlos Lamarca, Carlos Marighela, Maurício Grabois e as dezenas de moças e rapazes que lutaram no Araguaia, Pedro Pomar e os que foram assassinados na Chacina da Lapa, Davi Capistrano e seus companheiros de direção do PCB, mortos de maneira sistemática pela repressão. Há os que foram simplesmente esmagados sob a tortura, como Carlos Nicolau Danielli (em 30 de dezembro de 1972, aos 44 anos de idade) e Wladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975 (tinha 38 anos).
Stuart Angel e sua mãe Zuzu

Há vários símbolos da luta democrática contra a ditadura militar de 1964. Um deles é a história do revolucionário Stuart Angel, que militava no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8). Ele foi preso e torturado na Base Aérea do Galeão (Rio de Janeiro), sendo assassinado em circunstâncias particularmente bárbaras, em 14 de junho de 1971 (tinha somente 25 anos): teve a boca amarrada ao escapamento de um jipe militar e foi arrastado pelo pátio, morrendo em consequência.

Sua esposa, Sônia de Moraes Angel, militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), foi presa, torturada e assassinada a tiros no DOI/CODI de São Paulo, em 30 de novembro de 1973 - tinha 27 anos de idade.

E sua mãe, a estilista Zuzu Angel, enfrentou, corajosamente, a ditadura exigindo a devolução do corpo de seu filho, dado como desaparecido. Ela foi assassinada num acidente de carro no Rio de Janeiro, em 14 de abril de 1976 (tinha 54 anos de idade), certamente cometido por agentes da repressão: alguns dias antes, ela deixara com o compositor Chico Buarque de Hollanda um bilhete para ser divulgado se algo acontecesse a ela, onde dizia: "Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho". Chico Buarque a homenageou numa canção que lembra a luta das mulheres contra a ferocidade assassina da ditadura, "Angélica", onde cantou: "Quem é essa mulher / Que canta sempre esse lamento? / Só queria lembrar o tormento / Que fez o meu filho suspirar".

A Comissão Nacional da Verdade (CNV), que desde 16 de maio de 2012 investigou os crimes da ditadura, contabilizou 434 assassinatos e desaparecimentos de militantes que se opunham à ditadura. Mas a Comissão alerta que este número pode ser muito maior pois só inclui aqueles sobre os quais há alguma informação. Deixa de fora, por exemplo, a ação da repressão contra camponeses. A Comissão de Mortos e Desaparecidos e a Comissão de Anistia supõem que o número de vítimas da repressão no campo seja superior a 1196.

A história da repressão da ditadura de 1964 está encharcada de sangue. O número de suas vítimas é enorme. Aquilo que mais fortemente se recorda sobre a ditadura é o sangue derramado por democratas, patriotas e progressistas. Havia uma política de Estado de extermínio físico de opositores, que partia do centro da ditadura, a presidência da República. O general Ernesto Geisel, que ocupou a presidência da República entre 1974 e 1979, admitiu essa barbaridade numa entrevista publicada no livro "Ernesto Geisel", de 1999, organizado pelos historiadores Maria Celina de Araújo e Celso Castro. Nela, ele admite o assassinato de opositores políticos. O problema para ele não era a existência da repressão nem a tortura e a violação dos direitos humanos. Um exemplo são suas instruções ao general Dilermando (que era comandante do então II Exército, em São Paulo) sobre as ações que resultaram na Chacina da Lapa contra o PCdoB, em 16 de dezembro de 1976. Ele o orientou para que evitasse “excessos. Se ele tivesse que montar alguma operação armada, uma operação contra comunistas atuantes, que analisasse adequadamente, para verificar se tinha fundamento. Evidentemente, eu não ia tolher sua liberdade de ação.” E comentou a versão de Dilermando dizendo: “Sempre se procurou acompanhar e conhecer o que o Partido [Comunista do Brasil] fazia, qual era a sua ação, como ele se conduzia, o que estava produzindo, qual era seu grau de periculosidade”. E prosseguiu: “o Dilermando, já no comando do II Exército, atuou em São Paulo sobre uma grande reunião dos chefes comunistas. A questão não era mais a força que eles tinham, mas não podíamos deixar o comunismo recrudescer. Fizemos tudo para evitar um recrudescimento das ações comunistas.”

Chacina da Lapa


A política de extermínio físico dos opositores ficou demonstrada mais uma vez com a publicação, em maio de 2018, de um documento do serviço de espionagem dos EUA, a CIA, que relata uma reunião, no Palácio do Planalto, logo no início do governo Geisel (o memorando é de 11 de abril de 1974) da qual participaram Geisel e os generais João Figueiredo (que viria a ser o sucessor de Geisel na presidência), Milton Tavares de Souza e Confúcio Dantas de Paula Avelino. Nela, o general Ernesto Geisel, então presidente da República, fora informado do assassínio de 104 opositores da ditadura no governo anterior, com autorização de seu antecessor, o general Emílio Garrastazu Médici. E Geisel autorizou que se continuasse com aquela política oficial de extermínio de "subversivos".

A história da ditadura de 1964 é um longo relato de desprezo à democracia, desrespeito aos direitos humanos, proibição da liberdade de pensamento e expressão, censura aos meios de comunicação, contra a liberdade de ação e organização dos trabalhadores e sindicatos, repressão à liberdade de organização partidária. Do Brasil alinhado, de maneira automática e subordinada às exigências dos EUA a pretexto de, como queria o ideólogo da ditadura, o general Golbery do Couto e Silva, não cair na esfera da influência comunista sinalizada pela União Soviética e pela China Popular.


Os brasileiros não podem esquecer os crimes contra a democracia, a soberania nacional e os direitos humanos cometidos pela ditadura militar de 1964.

Um levantamento feito pelo professor Fernando Altmeyer, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), com base, entre outras fontes, em dados da Comissão Nacional da Verdade e do livro Brasil, Nunca Mais, traz números impressionantes. Assegura que 500.000 pessoas foram investigadas, 200.000 presas (50.000 nos meses iniciais da ditadura, entre março e agosto de 1964). Houve 11.000 acusados em julgamentos de auditorias militares, sendo 5.000 condenados. Relaciona 10.000 torturados somente no DOI-CODI de São Paulo - que entre 1970 e 1974 foi comandado pelo coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, homenageado publicamente por Bolsonaro - entre as quais 40 crianças presas e torturadas. Cita também 8.300 vítimas indígenas, 1.196 camponeses atingidos pela repressão; 10.000 pessoas exiladas. Houve a cassação de 4.882 mandatos eletivos; 1.202 sindicatos sofreram intervenção; 248 estudantes foram expulsos de universidades com base no decreto 477; 128 brasileiros e 2 estrangeiros foram banidos; 49 juízes foram expurgados (três foram do Supremo Tribunal Federal).

No dia 31 de março não há nada a comemorar, mas é preciso refrescar a memória dos brasileiros.




*José Carlos Ruy é jornalista, escritor e colaborador do Portal Vermelho.




Portal Vermelho
Posted: 28 Mar 2019 03:28 AM PDT


Resultado do golpe de Estado de 2016, Jair Bolsonaro foi eleito para a presidência da República em uma das eleições mais fraudadas de todos os tempos, especialmente por conta da prisão de Lula.

Bolsonaro nunca escondeu sua simpatia pela ditadura militar, pelo golpe militar de 1964, bem como por outras ditaduras na América do Sul.

O presidente golpista disse aos militares e ao Ministério da Defesa que é preciso comemorar o golpe de 1964.

A declaração indica que Bolsonaro defende também que se estabeleça uma nova ditadura, porque se a ditadura foi positiva, obviamente uma coisa boa deve ser repetida. Esse elogio, vindo de um presidente, é muito mais que uma bravata, mas uma ameaça de implantação de uma nova ditadura militar no Brasil. Uma alternativa apresentada diante da crise que o regime golpista passa de conjunto.

Bolsonaro pode estar percebendo que, com o esvaziamento de sua base de apoio devido ao seu governo desastroso e todos os seus ataques (à classe média, aos latifundiários, devido ao seu entreguismo, etc.) o único apoio é o Exército (o que também não é garantido), por isso faz essa demagogia.

A declaração do presidente golpista indica que poderia inclusive haver um autogolpe para os militares ganharem ainda mais poder com a implantação de um regime militar, um regime controlado diretamente pelos militares, não indiretamente, como pode ser observado no atual estado de coisas.

Essa ameaça precisa ser respondida à altura, energicamente. É preciso ir às ruas neste próximo domingo, dia 31 de março, em todos os atos contra a celebração do golpe militar de 1964. Colocar nas ruas o “Fora Bolsonaro” e a necessidade de liberdade de Lula.


Diário Causa Operária
Posted: 28 Mar 2019 03:21 AM PDT

Marcelo Camargo e Fernando Frazão/Agência Brasil

Cinco anos de Lava Jato


A prescrição dos fundamentos de uma operação que desafia a democracia, as instituições e o Estado de Direito.


por Tânia Oliveira*, via e-mail

Prescrição, termo familiar a quem é do mundo jurídico e até a curiosos, significa, em termos bem simples, que não se pode mais pleitear um direito em virtude do tempo. A regra da prescrição na legislação brasileira é ser quinquenal.

Fazendo um jocoso trocadilho, ao completar cinco anos de existência, a Laja Jato teve prescrito alguns dos “direitos” de que detém na condição de procedimento formal de investigação por órgãos competentes, com presunção de legitimidade: de se arvorar dona da moral, da incorruptibilidade, de alegar imparcialidade e respeito às normas processuais e às regras do jogo democrático.

Mas, sobremaneira, a Lava Jato teve prescrito seu direito de se afirmar como uma investigação séria contra a corrupção.

Na semana do seu aniversário de cinco anos, a Lava Jato foi “brindada” com a repercussão de fatos que não lhes deram motivo para comemoração.

O primeiro foi a publicização de um acordo ilegalmente assinado pelo membro da força tarefa da operação, o procurador Deltan Dallagnol, com a Petrobras, para a criação de um fundo ao qual estaria vinculado valor decorrente de acordo entre a estatal e o governo dos Estados Unidos da América.

O acordo foi questionado por entidades e organismos de todos os segmentos jurídicos e políticos, e se concluiu no ajuizamento de uma Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF pela própria Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, contra a decisão da juíza em exercício da 13ª Vara Federal de Curitiba, que o havia homologado, e a concessão de liminar pelo Supremo Tribunal Federal suspendendo-o.

O segundo fato foi a decisão do Supremo Tribunal Federal, no dia 14 de março, de que crimes eleitorais como a não declaração de valores nas contas eleitorais, o chamado Caixa 2, que tenham sido cometidos em conexão com outros crimes, como corrupção e lavagem de dinheiro, devem ser enviados à Justiça Eleitoral.

Na mesma tarde, o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, anunciou no plenário da Casa a abertura de inquérito com vistas a apurar a existência de crimes na divulgação de notícias fraudulentas e declarações difamatórias aos ministros do STF.

A abertura do inquérito decorreu das ofensas do procurador da República Diogo Castor de Mattos, integrante da Lava Jato, à Justiça Eleitoral, publicada dias antes em um portal da internet.

Ainda no mesmo dia, o Conselho Nacional do Ministério Público – CNMP aplicou duas penalidades de censura à procuradora de Justiça do MP/MG Camila Fátima Teixeira por manifestações no Twitter consideradas ofensivas a ministros do STF e ao Congresso Nacional. Em conta identificada como “Camila Moro” a procuradora fez as seguintes publicações:


“Generais, saiam do Twitter e posicionem seus homens no entorno do STF, até que Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli entreguem suas togas. Marquem dia que vamos juntos: Brasileiros + Exército salvaremos a Lava Jato” e “Que venha a intervenção militar e exploda o STF e o Congresso de vez”.

Em cada um dos fatos narrados, os membros da operação Lava Jato jogaram o jogo midiático para fazer valer seu posicionamento. Ações foram adotadas que colocam em risco a institucionalidade.

No caso do acordo, o procurador Deltan Dallagnol gravou vídeos, distribuiu ofensas, e tentou justificar o injustificável.

Após a suspensão da homologação do acordo, a Associação Nacional dos Procuradores da República – ANPR convocou atos contra a Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge.

Sobre o julgamento no STF, integrantes do Ministério Público Federal divulgaram intensamente que, para proteger bandidos e frear a “lava jato”, o STF estava em vias de mudar as atribuições da justiça eleitoral.

Mesmo tendo ciência de que a informação é inverídica, de que essa atribuição da Justiça Eleitoral de julgar crimes comuns quando conexos com matéria eleitoral existe desde sua criação, buscaram fazer uma imensa pressão sobre os ministros do Supremo para alterar a doutrina e a jurisprudência em vigor.

Na semana seguinte, dia 21 de março, o juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal do Rio de Janeiro, responsável pelo braço carioca da operação Lava Jato, decretou a prisão do ex-presidente Michel Temer.

Sem fundamento jurídico algum capaz de justificar a prisão preventiva, narrando fatos de 2017 e justificando a cautela na suposta gravidade dos crimes, a prisão do ex-presidente indica a um só tempo a busca da popularidade abalada da operação e a fragilização do discurso da parcialidade.

Quando Sérgio Moro, juiz responsável por tirar o ex-presidente Lula da disputa presidencial, abandonou o cargo e se tornou ministro da Justiça do governo de seu adversário, vencedor da disputa, a quem evidentemente beneficiou, deixou cair qualquer máscara de imparcialidade que pudesse subsistir em alguns mais crédulos em sua atuação isenta de paixões políticas.

Ao entrar no cenário político, agora formalmente, os mecanismos de poder contra os que contra ele se insurgem aparecem de forma mais tangenciada.

Ao que tudo indica, a prisão do ex-ministro Moreira Franco, sogro do deputado Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, logo após seu desentendimento com Moro, não pode ser visa como mera coincidência.

A questão como um todo é que a operação Lava Jato, que começou com o intuito de investigar corrupção e desvio de recursos público para fins privados na execução de obras, e teve importante papel na decisão do STF de proibir financiamento privado de campanhas, se transmutou em um coletivo em busca de poder e notoriedade, impulsionado pela repercussão midiática e dos espetáculos das conduções coercitivas, das delações premiadas e das prisões de membros do círculo político e de empresários da construção civil.

E nesse caminho passou a manipular os instrumentos processuais, descumprindo explicitamente normas, inclusive constitucionais, violando direitos de investigados, de réus, de condenados e a tudo justificando nos fins eventualmente perseguidos.

A justificação dos membros da operação Lava Jato para a violação dos direitos e descumprimento das normas em casos concretos sempre se valeu de álibis retóricos, como o combate à corrupção e a impunidade ou, como no emblemático caso da divulgação dos grampos ilegais envolvendo a presidenta da República Dilma Rousseff em 2016, de que a população “tem direito a saber o que fazem seus governantes” (fala de Sérgio Moro à imprensa).

Uma tentativa de justificar a persecução penal nela mesma e onde os direitos fundamentais individuais seriam entraves e empecilhos à sua execução.

A história da humanidade é pródiga de exemplos de violações a direitos sob a justificação discursiva fundada pretensamente em fins ou interesses tidos socialmente por legítimos. Ditaduras são erigidas sob aplausos e discursos de resgate da liberdade e da democracia. Bombas são lançadas, territórios invadidos e ocupados com a finalidade de defender direitos humanos.

Ao enveredar pelo viés político e não jurídico, a Lava Jato passou a atuar estrategicamente, com vistas a promover os fins que julgava importantes. E nesse caminho resolveu ignorar os limites legalmente impostos à atuação de seus membros.

Desse modo, as sucessivas divulgações de interceptações telefônicas, gravações e delações à imprensa foram feitas em caráter parcial e intencional.

As pressões feitas sobre o Supremo Tribunal Federal e a atuação no parlamento seguem um modus operandi de colocar qualquer um que questione ou critique como corrupto ou conivente com ela.

O julgamento da prisão em segunda instância no STF e o debate do projeto de Abuso de Autoridade e das “10 Medidas contra a Corrupção” no Congresso Nacional são exemplos perspicazes de como os membros da força tarefa da Lava Jato agem politicamente em prol de seus interesses.

Mas não só. A todo tempo os integrantes da força tarefa usam seus perfis nas redes sociais para debater e tentar influenciar nos temas nacionais, sem qualquer relação com a investigação ou com a atuação do Ministério Público Federal e de seu papel institucional, como é o caso da eleição dos membros das Casas Legislativas.

A forma de pressão se desencadeia por meio da imprensa e das redes sociais, por vezes de forma extremamente agressiva e virulenta, em tons autoritários e messiânicos, manipulando a opinião pública e instigando a manifestação da sociedade, demonizando a política e seus representantes eleitos.

A força tarefa da operação Lava Jato é um coletivo que se imagina e se apresenta como insuscetível a críticas, e cujos integrantes distribuem acusações a qualquer membro de outro Poder ou mesmo ao qual pertencem, bastando para tanto que haja manifestação de dúvida ou discordância quanto a procedimento ou conteúdo.

Comportam-se como um Poder apartado dos demais, avessa a qualquer reflexão e diálogo que não corrobore com seu discurso único.

Os acontecimentos mais recentes mostram instituições que ficaram inertes aos desvios perpetrados nos cinco anos de existência da operação Lava Jato e que corroboraram, por ação ou omissão, com as práticas de seus membros, que agora lhes desafiam.

Tal é o caso do Supremo Tribunal Federal, obrigado a reagir diante da ofensiva dos que querem decidir não apenas o que pauta, mas como decidem. O comportamento faz jus a um provérbio do país que visitei recentemente: “cría cuervos que te sacarán los ojos”.

Na atual conjuntura brasileira, de um governo com características extremamente conservadoras e autoritárias, a reação não é apenas oportuna, é necessária e não pode ficar restrita a atos isolados.

Os membros de uma operação de investigação não podem se valer do poder que possuem, senão no do papel processual que lhes é atribuído constitucionalmente, dentro de um Estado que reconhece em seus cidadãos a titularidade de direitos fundamentais, e a divisão de deveres e obrigações pelos ocupantes dos seus cargos de direção.

Sob pena de colocar em risco a existência e legitimidade das instituições, que por sua vez, sendo atingidas nos pilares sobre os quais se sustentam, ameaçam a própria noção de democracia.

*Tânia M. S. Oliveira é membra da coordenação executiva da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD





Viomundo
Posted: 28 Mar 2019 03:16 AM PDT


O cabaré continua pegando fogo.

Segundo o site Antagonista,

Gustavo Bebianno articula nos bastidores um movimento de debandada de integrantes do PSL que estão, como ele, descontentes com o partido e com Jair Bolsonaro.

Os destinos negociados são o DEM de Rodrigo Maia –com quem o ex-ministro já se reuniu– e o PSDB.


O Cafezinho
Posted: 27 Mar 2019 07:43 PM PDT

© Sputnik / Vladimir Vyatkin

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deve cumprir sua promessa de retirar as tropas americanas da Síria antes de pedir à Rússia que "saia" da Venezuela, disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova.


"Antes de dar conselhos a alguém para sair de algum lugar, os Estados Unidos precisam implementar seu próprio conceito de sair, em particular, da Síria […] Um mês se passou […] Eu gostaria que eles esclarecessem se eles vão se retirar. Antes de assumir os interesses legítimos de outros Estados, aconselho o governo americano a cumprir as promessas feitas à comunidade internacional", disse Zakharova.

Zakharova foi ainda mais dura ao dizer que os "passos caóticos e imprevisíveis" dos EUA fomentam a desordem global. Ela também disse que os Estados ocidentais estão sendo hipócritas quando afirmam que a Venezuela precisa de ajuda humanitária ao passo em que congelam as contas bancárias de Caracas em todo o mundo.
"Londres, as estruturas bancárias do mundo, sob pressão de Washington, congelaram, roubaram US$ 30 bilhões, e agora estão oferecendo ajuda humanitária, remédios e comida ao país. Essa hipocrisia global é fantástica", disse Zakharova em entrevista à emissora Channel One na quarta-feira.

A Venezuela está passando por uma crise política, iniciada em janeiro, quando o congressista Juan Guaidó foi eleito presidente da Assembleia Nacional, cuja autoridade não é reconhecida por outros órgãos do governo desde a instauração de uma Constituinte esmagadoramente madurista. O Supremo Tribunal venezuelano anulou sua designação, mas Guaidó se proclamou "presidente interino" do país baseando-se na ilegitimidade das eleições que concederam um novo mandato a Maduro e na Constituição que concede a presiência interina da Venezuela ao líder da Assembleia Nacional até a convocação de um novo pleito.

No sábado, um grupo de militares russos visitaram a Venezuela para tratar sobre cooperação na indústria de defesa. Cerca de 100 militares russos chegaram a Caracas a bordo de dois aviões, que também entregaram 35 toneladas em ajuda humanitária.

Trump disse em uma reunião na Casa Branca na quarta-feira que "a Rússia tem que sair" da Venezuela. Quando perguntado como isso pode ser feito, ele acrescentou que "todas as opções estão abertas".

As tropas dos EUA operam na Síria como parte de uma coalizão internacional para combater o grupo terrorista Daesh* por cerca de cinco anos sem a permissão de Damasco ou do Conselho de Segurança da ONU. Trump surpreendeu seus aliados em dezembro ao anunciar a retirada de 2.000 soldados da Síria, mas a promessa ainda não foi integralmente cumprida.

* Daesh (também conhecido como Estado Islâmico) é um grupo terrorista banido na Rússia e em muitos outros países.





Sputnik Brasil
Posted: 27 Mar 2019 07:35 PM PDT


Durante muitas décadas o Brasil foi governador por bacharéis, personalidades formadas em direito que só conseguiam enxergar o país sob a ótica das leis – que quase nunca eram cumpridas, saliente-se. Vendiam o peixe que uma lei mudaria a realidade. Faziam nome sem apresentar um resultado concreto, e sem nenhuma capacidade de entender a realidade para, a partir dela, elaborar as leis.

É o caso do Ministro da Justiça Sérgio Moro. Como já enfatizou o governador do Distrito Federal, Moro não entende nada de segurança pública.
Nem se lhe indague sobre mapeamento de zonas de conflito, trabalho multidisciplinar com outros órgãos de Estado, ação articulada com outras polícias. Aparentemente, ele não domina o bê-a-bá da própria repressão ao crime organizado.

Tome-se sua última decisão, de estudar a redução dos impostos sobre cigarros para inibir a ação do comércio irregular.

De fato, há quadrilhas organizadas atuando em todo o país em cima de produtos muito tributados, dentre os quais os cigarros e os combustíveis. Já existe um vasto acervo na Polícia Federal sobre essas organizações. Elas foram alvos de inúmeras operações da Polícia Federal, mas sempre atuando topicamente, sem uma ação coordenada sobre a estrutura maior, sem um trabalho coordenado com as polícias estaduais.

Mais que isso, o fator Lava Jato e a falta de discernimento da repressão têm sido manobrados pelas próprias organizações criminosas contra o lado formal da economia valendo-se ou da cumplicidade ou da ignorância das autoridades públicas. Prova maior foi uma operação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público Estadual do Paraná, prendendo funcionários de distribuidoras de combustíveis, acusados de atentar contra os princípios da livre concorrência. O caso mereceu amplíssima divulgação pela imprensa paranaense, seguindo o mesmo padrão de falta de discernimento da grande mídia.

O que os funcionários faziam era conferir se os postos da rede estavam vendendo combustível abaixo do preço de aquisição. Se estivessem, era óbvio tratar-se de combustível adulterado ou combustíveis com sonegação de impostos. A polícia gravou uma conversa entre um diretor regional de uma das distribuidoras e um dono de posto, no qual ele alertava que, se continuasse a vender combustível abaixo do preço de aquisição, o posto seria descredenciado.

Em vez de ir atrás dos criminosos, a PC e o MPE resolverem se aliar a eles contra os fiscais das redes distribuidoras, sob silencio geral – aqui no GGN fomos a única voz alertando para esse conluio. Tudo isso ao mesmo mesmo tempo em que a Refinaria de Manguinhos, considerada o ponto central do esquema de sonegação de combustíveis (pois não refina nada) inundava os jornais com publicidade.

Aliás, as denúncias que fiz em relação ao conluio de Eduardo Cunha e Manguinhos só provocou uma reação oficial: uma sentença do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, me condenando a indenizar Cunha pelo fato de ter difamado sua imagem, equiparando-o a sonegadores.

O caminho correto de qualquer Ministro da Justiça eficiente seria montar uma super-operaçao para desarticular as quadrilhas. Mas o brilhante Moro encontrou a solução bacharelesca: reduzir a tributação do cigarro para aumentar a competitividade da indústria em relação ao produto contrabandeado, “de pior qualidade”, salienta ele. Sua pretensão é que o brasileiro volte a consumir cigarros de boa qualidade
produto das quadrilhas. Cáspite!

A tributação de cigarros têm impacto forte sobre a arrecadação fiscal. Além disso, o aumento do consumo de cigarros tem impacto direto na saude pública. Não há a menor dúvida de que o cigarro foi o mal do século 20, responsável pela redução da expectativa de vida das populações, pela multiplicação das doenças coronárias, respiratórias, pelo câncer, pelo aumento dos custos da saude. E o Ministro Moro, por absoluta incapacidade de organizar uma operação eficiente contra as quadrilhas, propõe a redução dos tributos do cigarro.

Comporta-se como qualquer administrador ímpeto: se não souber o que fazer, crie um grupo de trabalho em cima de uma bobagem qualquer.


GGN
Posted: 27 Mar 2019 07:26 PM PDT


247 - O presidente Jair Bolsonaro negou na noite desta quarta-feira, 27, que tenha decidido demitir o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez.

Em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, da Band, Bolsonaro sinalizou a queda de Vélez. “Temos que resolver a questão. Vamos ter mais uma conversa com o atual ministro e vamos ter que decidir a questão da Educação, porque, realmente, não estão dando certo as coisas lá”, afirmou Bolsonaro.

A demissão de Vélez Rodriguez chegou a ser anunciada pela jornalista Eliane Cantanhêde na Globo News e pelo seu Twitter. Pouco tempo tempo depois, Bolsonaro tuitou engando a demissão do ministro.

"Sofro fake news diárias como esse caso da 'demissão' do Ministro Velez. A mídia cria narrativas de que NÃO GOVERNO, SOU ATRAPALHADO, etc. Você sabe quem quer nos desgastar para se criar uma ação definitiva contra meu mandato no futuro. Nosso compromisso é com você, com o Brasil", disse Bolsonaro.



Brasil 247
Posted: 27 Mar 2019 06:26 PM PDT

IMPERATRIZ JOSEFINA DE BEAUHARNAIS DURANTE COROAÇÃO, EM PINTURA DE FRANÇOIS GÉRARD (FOTO: WIKIPEDIA COMMONS)

Duas pesquisadoras de universidades dos Estados Unidos publicaram um estudo no jornal Historical Social Research que mostra que um em cada dez líderes vêm de lares nos quais já há fortes laços políticos.

As autoras da pesquisa, Farida Jalalzai, da Universidade Estadual do Oklahoma, e Meg Rincker, da Universidade Purdue Northwest, analisaram as origens de 1029 políticos com poder executivo — presidentes e primeiro-ministros — da África subsariana, Ásia, Europa, América do Norte e América Latina entre os anos 2000 a 2017. As pesquisadoras notaram que 119 líderes, o que corresponde a 12%, pertenciam a alguma “família política”.

O termo, segundo o estudo, corresponde a ter um laço sanguíneo ou matrimonial a alguém relacionado com a atividade política, seja como um juiz, oficial de partido, burocrata, legislador, presidente ou ativista. Foram estudadas todo tipo de conexão política, sejam em países ricos ou pobres, monarquias ou democracias.

Entre os exemplos analisados estão o ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, o primeiro ministro do Canadá, Justin Trudeau e a ex-presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner.

COROAÇÃO DE NAPOLEÃO BONAPARTE EM PINTURA DE JACQUES-LOUIS DAVID (FOTO: WIKIPEDIA COMMONS)

Segundo as pesquisadoras, apesar do poder ser herdado naturalmente em monarquias, até mesmo nas democracias — onde cidadãos escolhem os seus líderes em processos eleitorais livres —pertencer a uma família política é uma vantagem significativa, que fornece reconhecimento ao nome do candidato, experiência política e acesso a aliados e a recursos para assumir um mandato.

A América do Norte — que é definida pelo recorte do estudo em EUA e Canadá — teve o maior número de líderes com laços familiares: dois dos oito presidentes e primeiro-ministros estudados tinham históricos familiares que antecederam os seus respectivos mandatos.

A Europa era a segunda região com mais líderes que tinham laços políticos familiares: 13% dos presidentes europeus e primeiro-ministros vinham de famílias políticas — a mesma proporção registrada pelas pesquisadoras na América Latina. Apenas 54 líderes europeus, no entanto, tinham laços com presidentes ou primeiro-ministros antecessores.

De acordo com a pesquisa, 11 de 88 líderes latino-americanos tinham alguma relação com presidentes. Um exemplo é Jorge Luís Batlle do Uruguai, que teve três parentes que assumiram a presidência antes dele.

Na África subsariana houve a menor porcentagem de líderes do executivo com familiares políticos, apenas 9%. Em relação aos presidentes asiáticos, 24 de 204 líderes tinham conexões familiares.


CRISTINA FERNÁNDEZ, QUE FOI PRESIDENTE DA ARGENTINA DE 2007 A 2015. (FOTO: WIKIPEDIA COMMONS)

O estudo também traçou um recorte feminino para determinar como as mulheres entram nos negócios políticos, que são dominados pelos homens. Em um total de 1029 líderes analisados, apenas 66 eram mulheres. Entre elas, a chanceler alemã Angela Merkel, a primeira-minitra paquistanesa, Benazir Bhutto, a vencedora do prêmio nobel da paz, Ellen Johnson Sirleaf, e a ex-presidente Dilma Rousseff.

As pesquisadoras concluíram que as mulheres que alcançam posições mais altas têm maior probabilidade de pertencerem a famílias políticas do que os homens: 29% das mulheres líderes do executivo tinham conexões familiares políticas, enquanto que um pouco mais de 10% dos homens tinham esses laços.

Todas as mulheres que o estudo inclui que tinham familiares políticos foram, sem exceções, as primeiras mulheres na família a assumir um cargo na política. A relação que elas tinham com o poder era sempre vinda de um membro familiar masculino.

As autoras da pesquisa citam como exemplo Cristina Fernández Kirchner, que sucedeu seu marido, Nestor Kirchner, na presidência da Argentina em 2007. No entanto, as pesquisadoras ressaltaram o fato de que 71% das mulheres líderes conseguiram o cargo mais alto do Estado sem manter nenhuma conexão familiar na política.






Galileu
Posted: 27 Mar 2019 06:18 PM PDT
Posted: 27 Mar 2019 06:14 PM PDT


247 - O ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, foi demitido do cargo. A informação foi divulgada pela jornalista Eliane Cantanhêde na Globo News há pouco. "Bolsonaro decidiu demitir o ministro da Educação, Velez Rodrigues. Os motivos são óbvios", disse ela pelo Twitter.

Durante audiência Pública na Câmara nesta quarta-feira, 3, Vélez Rodriguez disse que não tinha disposição de deixar o cargo. O ministro foi duramente criticado por parlamentares que consideraram as respostas vagas e pela falta de clareza na apresentação de programas da pasta.

"Muitos pediram para eu sair, mas não vou sair. Por que é um passeio às ilhas gregas? Não. O cargo é um abacaxi do tamanho de um bonde. Mas topei o convite porque quero devolver ao meu País o que ele fez por mim", disse Vélez.

Mais cedo, o diretor de Avaliação da Educação Básica do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Paulo César Teixeira pediu demissão. A diretoria é a responsável pela realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O pedido de demissão de Teixeira aconteceu logo após a demissão de Marcus Vinicius Rodrigues do cargo de presidente do Inep. A exoneração de Rodrigues foi publicada na noite de terça-feira (26), em uma edição extra do "Diário Oficial da União".

Brasil 247
Posted: 27 Mar 2019 05:47 PM PDT


Em fevereiro de 1971, o jornalista Sebastião Nery, na época militante do Partido Comunista Brasileiro – então na clandestinidade –, publicou no Jornal Tribuna da Imprensa uma nota na sua coluna afirmando que seus colegas e seu filho cantavam a música “Apesar de Você”, do Chico Buarque, com tanta emoção que era como se estivessem cantando o Hino Nacional.

Devido ao seu texto, o jornalista foi chamado a depor na polícia. Semanas depois a música foi censurada pelo governo do general Emílio Garrastazu Médici e só liberada para ser executada oito anos mais tarde, durante o final do governo do general Ernesto Geisel.

Lembrei dessa música cheia de metáforas e meias-palavras quando vi no jornal que Bolsonaro determinou ao Ministério da Defesa comemoração do Golpe de 1964 no próximo 31 de março, dia em que completará 55 anos do Golpe que deu início ao regime militar no país. A notícia é, no mínimo, profundamente lamentável e condenável. No entanto, presumo que só pode ter causado surpresa aos incautos, porque o atual Presidente nunca escondeu que, para ele, não houve ruptura antidemocrática por parte dos militares em 1964, apesar de no dia 31 de março desse ano o então presidente João Goulart ter sido deposto pelos militares e, após o ato, não ter ocorrido eleições diretas para presidente, o Congresso Nacional ter sido fechado, mandatos e militantes terem sido cassados, a imprensa e os artistas terem sido censurados, iniciando uma longa e sombria noite que durou 21 anos.

Bolsonaro acumula na sua história uma série de declarações de apologia à ditadura e seus torturadores. Em 2016, em plena votação no Congresso – em uma das fases do Golpe que derrubou a então Presidenta Dilma – as câmeras da suposta “casa do povo” mostraram capitão votar sim por Brilhante Ustra. Ustra de brilhantismo não possuí nada. Este sujeito é um dos mais conhecidos assassinos e torturadores da ditadura. Foi um coronel e chefe do maior órgão de repressão política durante o período, o DOI-CODI.

Uma das atrocidades cometidas por Ustra é relatada pela vítima, Amélia Teles, presa nos porões do regime. Amelinha, como é mais conhecida, conta que o torturador levou os filhos dela para que vissem a mãe torturada. Seus filhos tinham quatro e cinco anos e viram a mãe nua, vomitada e urinada, sentada na “cadeira do dragão” (instrumento de tortura utilizado na ditadura parecido com uma cadeira em que a pessoa era colocada sentada e tinha os pulsos amarrados e sofria choques em diversas partes do corpo com fios elétricos). A menina perguntou: “Mãe, por que você está azul?”. Estava assim por conta dos choques que Brilhante Ustra infringiu em várias partes do corpo dela, dentre elas nos seios e na vagina. É esse o homem homenageado por Bolsonaro, enaltecido também pelo seu vice, o general Mourão, que definiu Ustra como um “herói”.

Ustra morreu em 2015, aos 83 anos de idade, sem nunca responder por seus crimes. Apesar disso, muitos brasileiros, que parecem desconhecer o tamanho das feridas da ditadura, não deixaram de dar apoio ao torturador e ao seu fã, Bolsonaro, durante as eleições presidenciais.

Já em maio de 1999, Bolsonaro defendeu o fechamento do Congresso realizado na ditadura: “deviam ter fuzilado corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique”, afirmou escancarando a sua veia autoritária. Já disse também que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”.

Não são só Bolsonaro e Mourão que não perdem uma oportunidade de propagandear as suas monstruosidades semânticas. Em outubro de 2018, na Faculdade de Direito da USP, o Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Sr. José Antônio Dias Toffolli, bradou que não teria ocorrido um Golpe militar no País, mas sim o que definiu como “movimento de 1964”. No mesmo dia esse senhor, que demonstra desconhecer a bibliografia historiográfica sobre o regime e a Convenção Americana de Direitos Humanos, proibiu que a Folha de São Paulo entrevistasse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afrontando ao direito à liberdade de expressão do protagonista da entrevista, assim como do meio de comunicação.

Como se não bastasse, nesta quarta-feira (27), o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, no clima de estupidez dos seus companheiros, afirmou que não considera ter ocorrido um “Golpe” no país em 1964.

Para amplificar a mensagem de Bolsonaro, a líder do governo na Câmara, Joice Hasselman, tuitou: “A esquerda raivosa e os bonecos de ventríloquos estão em polvorosa por causa da decisão do governo de autorizar as comemorações devidas ao Março de 1964. Podem berrar. O choro é livre e graças aos militares, o Brasil também!”.

Em 2011, a então Presidenta Dilma, que foi torturada durante o regime, havia suspendido qualquer celebração da data, mas agora, numa época em que há o maior número de militares nos altos escalões do governo desde a ditadura, Bolsonaro escancara o cadáver insepulto com a celebração ao Golpe.

Leia aqui todos os textos de João Elter Borges Miranda

Ainda que seja algo esperável desses atos falhos ambulantes defensores caninos do capital e lambedores de botas de milico, comemorar o Golpe de 1964 e a ditadura, que tanto sacrificou a população brasileira, é um ato grotesco e condenável a prisão. Segundo a Comissão da Verdade, 434 pessoas foram mortas pelo regime militar ou desapareceram durante o período, dos quais somente 33 corpos foram localizados.

A ditadura que o nosso país sofreu é um cadáver que não foi sepultado por conta de um processo de redemocratização pautado pela conciliação pelo alto que anistiou os torturadores, ditadores e apoiadores do regime, como o empresariado, grandes meios de comunicação, banqueiros, etc.

É fundamental, por isso, fazermos justiça e constituirmos uma memória nacional que evidencie o quão drástico foi o regime militar, de forma que a população constitua anticorpos contra qualquer um que ouse fazer uma homenagear ao período e aos seus protagonistas; e para que a nossa sociedade nunca cogite a intervenção militar.

Sabendo disso, uma série de estudantes e trabalhadoras e trabalhadores da educação, em universidades e escolas por todo o país, farão nos próximos dias encontros e atividades para descomemorar o Golpe de 1964. Isso já foi feito no passado, porém, nos dias atuais, assume suma importância por vivermos num momento em que temos na presidência e em outros altos escalões do governo sujeitos fascistas e por a cada dia que passa tomar forma no horizonte a terrível ameaça fascitizante. Obviamente, isso o que está sendo feito principalmente pelas educadoras, educadores e estudantes é fundamental, mas deve ser interpretado como um paço curto na caminhada.

Como muita gente da área de história sabe muito bem, devemos ir além. A Argentina é um exemplo positivo neste sentido. Esse país marcou a história ao processar e julgar os integrantes do aparato repressivo da ditadura que assolou o povo argentino entre 1966 e 1973, deixando marcas até hoje. Além disso, fizeram uma série de centros de memória, dentre outras políticas públicas de reflexão e escancaramento do regime.

Acima de tudo, acho que nós, militantes de esquerda, temos o dever de nos mantermos firmes. Digo isso porque, diante de atrocidades como essa comemoração oficial do golpe de 1964, diante da reforma da previdência, diante de tudo o que significa a eleição de um boçal como o Bolsonaro, vejo muitas pessoas caírem em um estado de melancolia.

Uma sociedade despida da crença do seu próprio poder de transformação é uma sociedade melancólica. Se entendi bem, Freud apontou que a melancolia seria um distúrbio na autoestima relacionado a perda de um objeto, sendo que tanto “perda” quanto “objeto” devem ser compreendidos em um sentido amplo. Diferentemente de um estado de luto, quando ocorre o processo normal de retirada da libido do objeto perdido e a seguir seu deslocamento para outro objeto, os melancólicos identificam-se com o objeto que tinha sido perdido e desloca para si próprio críticas que deveriam ser dirigidas ao objeto. Ao mesmo tempo que ocorre essa depreciação do eu, há um processo de supervalorização e idealização do objeto perdido.

Esse estado de melancolia que aparentemente percorre a sociedade é preocupante, porque os indivíduos, mergulhados nesse distúrbio, não se veem na capacidade de transformar a realidade. Depreciam o eu não se percebendo como sujeitos históricos capazes de transformar e, concomitantemente, agigantam o objeto a ser transformado. A incapacidade de ser afetado de outras maneiras, consequentemente, impede as pessoas de vislumbrarem um futuro que não seja Black Mirror (Netflix).

As séries, produção cultural com maior poder disseminação na atualidade, representam bem essa distopia: são cada vez mais sombrias, quando não apocalípticas, como se vê em “The Walking Dead (AMC)”.

Arrisco dizer que essa distopia tem origem na sensação de se estar de mãos atadas – que, aparentemente, permeia em demasia a sociedade atual. Há muitos outros fatores que levam ao fatalismo. A crescente ideia de que o nosso poder de ação no mundo é ínfimo pode ser um deles. Ou seja, frequentemente o sujeito teme o que virá e no fundo acha que pouco, ou até mesmo nada, pode ser feito para que seja diferente. “O inverno está chegando”, frase da série de “Game of Trones (HBO)”, expressa bem isso.

Tendo em consideração isso, é preciso entender com clareza que, apesar do governo Bolsonaro, amanhã há de ser outro dia, desde que construamos uma organizada e sólida luta contra essa barbárie. Não podemos facilitar as coisas para os bárbaros.

Tudo indica que as cruzadas anticomunistas e contra os direitos históricos e arduamente conquistados pelo conjunto da classe trabalhadora se tornarão cada vez mais frequentes – em novas e ferozes versões. Com os “aparatos legais”, com a polícia, retiram direitos e intimam jovens e velhos de mãos desarmadas, por medo das palavras de uma gente que não faz o jogo sujo dos poderosos e que não lambe as botas de duran. Por tudo isso, arriscaria dizer que a liberdade ideológica e de expressão determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia.

Ainda que esse retrocesso avance, a Casa Grande se ilude ao crer que estamos acuados. Todos nós estamos com a cabeça já pelas tabelas por causa da exaberção do preconceito classista e da amargura provocada pela consciência emergente de injustiça social. Ao trabalhador que corre atrás do pão, é humilhação de mais que não cabe neste refrão, captou muito bem Criolo em sua música. Engana-se quem acha que, diante de tudo isso, ficaremos quietos. De fato, existe uma parte da esquerda (melancólica) que está acuada, mas também há uma frente se formando que não deixará pedra sobre pedra até que ocorra a decomposição do instituído.

Estamos gradativamente entendendo com mais clareza que o mundo de hoje é apenas um momento do longo processo histórico e a convivência pode sim ser mudada. Estamos gradativamente compreendendo que podemos e devemos botar de pé uma outra sociedade, uma sociedade que opere em outra lógica, porque a atual que temos, profundamente mergulhada em injustiça social, está nos matando. Se enganam, assim, as múmias que acham que os últimos acontecimentos marcaram o fim da história e que agora podem tomar para si os recursos públicos e fazerem com eles o que bem entenderem. A história não está dada e a luta mal começou. Não adianta vir com um cale-se, pois, como na lenda da “Hidra de Lerna”, onde abatem uma cabeça, nascem milhares de outras. Estamos, enfim, gradativamente mais entrincheirados com as armas da crítica e prontos para o combate.

Assumimos essa postura porque não existe mais espaço para conciliação de classes. Não existe mais espaço para o discurso do nós, sem nós. Um desejo de reconfiguração da cena política, portanto, cresce a cada dia. Não aceitamos mais a velha ordem das coisas e do progresso para os mesmos de sempre. Se não for para todas e todos, não será para ninguém. E não existirá anticomunismo que resista a força das exigências de reconstrução política, de eliminação da corrupção e do descontentamento muito difundido com relação aos mecanismos políticos, que percorrem de alto à baixo a população brasileira. Esse desejo de mudança corroerá as estruturas.

Nesse processo, podem até tentar nos enterrar, mas saibam desde já que somos sementes.



* João Elter Borges Miranda é professor de história. Email: recapiari636@gmail.com





Pragmatismo Político
Posted: 27 Mar 2019 05:31 PM PDT


247 - O deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) afirmou nesta quarta-feira, 27, que irá solicitar que o ex-juiz e ministro da Justiça, Sérgio Moro, seja conduzido coercitivamente se se negar a comparecer à Câmara.

"Com requerimento meu e da deputada @luizaerundina , Sérgio Moro teve a sua convocação aprovada na comissão de legislação participativa da câmara, pra falar da sua atuação. O governo se desesperou, mas não teve jeito. CONVOCADO! Se não comparecer, vou pedir condução coercitiva", disse Braga.

Presidida por Leonardo Monteiro (PT-MG), a Comissão de Legislação Participativa aprovou nesta quarta (27) o requerimento do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ), que convoca o ministro da Justiça, Sérgio Moro, para debater o Pacote Anticrime e o Decreto do Armamento. A base do governo tentou modificar o requerimento para convite, mas foi derrotada. Por unanimidade (10 votos a 0) o requerimento foi aprovado e o ministro terá que comparecer à CLP para discutir os dois projetos que tramitam na Casa com parlamentares e com a sociedade civil organizada.

O autor do requerimento, deputado Glauber Braga argumentou que o Pacote Anticrime não tem justificativa concreta e por isso precisa ser discutido profundamente. "De onde ele tirou os elementos para apresentação dessa proposta? Com quais segmentos da sociedade que tem acúmulo na área de segurança pública ele dialogou? Aqui está a possibilidade concreta da gente saber de quais foram os dados que estimularam a apresentação do projeto", declarou o parlamentar.


Brasil 247
Posted: 27 Mar 2019 04:53 PM PDT

Marcha do Dia Nacional da Memória pela Verdade e Justiça, em Buenos Aires, capital da Argentina / Emergentes

Luiza Mançano
Brasil de Fato

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PSL), militar da reserva, determinou na última segunda-feira (25), por meio do porta-voz Otávio Rêgo Barros, que o Ministério da Defesa faça "as comemorações devidas" pelos 55 anos do golpe de Estado de 1964, que inaugurou a ditadura no país, no próximo 31 de março.

A declaração de Bolsonaro não contradiz sua trajetória pessoal, embora ganhe outros contornos à frente da Presidência da República. Na ocasião da votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT), Bolsonaro, então deputado federal, dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra – ex-chefe do DOI-Codi, centro de torturas do regime.

Ditadores de outros países também integram a lista de torturadores enaltecidos por Bolsonaro, como o general paraguaio Alfredo Stroessner, citado pelo presidente em seu discurso na fronteira com o país vizinho, em fevereiro, e o general chileno Augusto Pinochet – que, segundo o capitão reformado, "fez o que tinha que ser feito" no golpe de 1973.

O 31 de março de 1964 é uma data relembrada ano a ano pelas vítimas da ditadura no Brasil, como é na Argentina o dia 24 de março de 1976, que marca o início do último regime ditatorial do país – encerrado em 1983, com a transição democrática.

Para recordar a data, agora denominada "Dia Nacional da Memória pela Verdade e Justiça", milhares de argentinos saíram às ruas do país no último sábado (24) e gritaram “Ditadura nunca mais”, atitude que revela não só uma visão crítica sobre o passado, mas também em relação ao presente e ao futuro.

O “Nunca mais” anuncia que recordar é necessário para que não se perpetuem nas instâncias de poder saudosistas e apoiadores da ditadura, e para combater aqueles que fazem do silêncio uma forma de política, como o presidente do país, aliado de Bolsonaro, Maurício Macri.

A convocatória da marcha do dia 24 de março, que marcou o 43º aniversário do golpe militar no país, foi realizada por organizações históricas como as Avós de Maio, Mães da Praça de Maio, e HIJOS (acrônimo, em espanhol, Filhos e Filhas pela Identidade e Justiça contra o Esquecimento e o Silêncio), formadas por familiares de vítimas do período.

Partidos políticos, sindicatos e movimentos populares também participaram da manifestação.

No domingo à tarde, uma multidão de pessoas se reuniu na Praça de Maio, na capital do país, Buenos Aires. No começo da marcha, as mães da Praça de Maio adentraram o local – onde realizam a tradicional ronda pela aparição de seus filhos – carregando uma quilométrica faixa azul com fotos e nomes de desaparecidos durante a ditadura militar.

Junto a avós, filhos e familiares de vítimas, elas leram uma declaração a todos os presentes na qual reivindicam a continuidade das políticas pela Memória, Verdade e Justiça no país.





Manifestantes carregam uma extensa faixa com os nomes e fotos dos desaparecidos na Argentina durante a ditadura militar (1976-1983) | Foto: Emiliano Lasalvia / AFP

Ao recordar os 30 mil desaparecidos, os manifestantes também fizeram um chamado ao presente – o país está em ano eleitoral. Estela de Carlotto, uma das Avós de Maio, afirmou que Macri é “insensível” em relação à dor dos familiares de desaparecidos, que o presidente nunca se posicionou os netos sequestrados durante a ditadura, encontrados recentemente pela organização.

“Essa insensibilidade que dói não deve ser algo a que se acostuma. Devemos revertê-la com um novo governo que coloque as coisas em seu lugar pouco a pouco (…) porque nos deixam um país endividado até várias gerações”, declarou Carlotto.

A dívida a que se refere Carlotto se aplica tanto à dívida histórica que o país tem em relação aos mortos e desaparecidos, como ao endividamento que a população argentina enfrenta nos últimos anos – resultado da política econômica de Macri, alvo de críticas durante a marcha.

“Nos manifestamos contra o avassalamento que o governo de Maurício Macri entrega ao país todos os dias: demissões massivas, miséria planejada, entrega do país aos abutres, perseguição aos povos originários, perseguição a militantes, presas e os presos políticos, a grave ingerência do Governo sobre o Poder Judiciário, retrocessos [na área de] Memória, Verdade e Justiça, violência institucional, repressão contra os protestos sociais, censura à imprensa e negacionismo”, explica a carta redigida pelas organizações presentes e lida pelos seus representantes.

Durante a marcha, Carlotto expressou categoricamente: "Se esquecemos, se repete”.

A declaração das militantes reafirma a posição de criar uma convergência para o futuro, considerando que a memória é um tema que está atravessado por outras lutas pela democracia.

“Também nos traz aqui a defesa de todos os direitos das mulheres, das lésbicas, travestis e trans. Isso é o mais bonito. Muito conquistamos nessas décadas de democracia com a força das lutas do povo: esse é o caminho, com memória e unidade”, declarou Nair Amuedo, das Mães de Maio.

A unidade que aparece na fala de Amuedo estava refletida entre os próprios manifestantes, como demonstram as fotografias. A marcha reuniu diferentes gerações, desde as militantes históricas pela memória, verdade e justiça, até jovens e adolescentes que carregavam seus lenços verdes, símbolo da luta pelo aborto que vem ganhando fôlego no país desde o ano passado.

"As avós nos ensinaram a lutar", diziam alguns cartazes na manifestação.



Manifestantes jovens carregam faixa com nomes de desaparecidos durante a ditadura militar argentina (1976-1983) | Foto: Emergentes

Embora a maior marcha tenha acontecido em Buenos Aires, capital do país, em outras cidades também aconteceram atos e atividades para relembrar as vítimas da ditadura. Em Bariloche, na região patagônica, os manifestantes recordaram a luta do povo mapuche no país, alvo de perseguição e violência durante o regime passado e no atual governo Macri.



Manifestantes alçam bandeira mapuche durante ato em Bariloche | Foto: Euge Neme - Colectivo Al Margen

Edição: Daniel Giovanaz





Brasil de Fato
Posted: 27 Mar 2019 04:22 PM PDT

Edson Teles em encontro da Comissão da Verdade Rubens Paiva na Alesp, em 2013 (Foto Márcia Yamamoto / Divulgação)

O professor Edson Teles é mestre e doutor em Filosofia pela USP, professor de Filosofia da Unifesp e autor de diversos livros, incluindo a organização de O que resta da ditadura (Boitempo). Essa breve apresentação já serviria para justificar sua presença à frente do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), instituto da Unifesp encarregado de identificar desaparecidos políticos da ditadura de 1964 entre as ossadas encontradas na Vala Clandestina de Perus. Quem o ouve falar com a voz pausada e baixa, enquanto circula com naturalidade entre as ossadas em estudo no laboratório, não é capaz de adivinhar que ele carrega também na sua biografia a marca das torturas que pesquisa. Coube à família Teles ser uma das primeiras a vencer um processo contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, condenado e declarado publicamente torturador pela Justiça e anos depois, identificado pela Comissão Nacional da Verdade como um dos mais cruéis militares entre os mais de 300 torturadores identificados. Edson é, nesse sentido, um profissional capaz de unir teoria e prática na sua história intelectual e, portanto, de sustentar a antropologia e a arqueologia forense de alto nível que o CAAF mobiliza a partir de um discurso consistente e necessário nesse momento em que o revisionismo histórico tenta reconstruir a história do país:

“Temos no laboratório a prova material de que tivemos uma ditadura gravemente violenta. As memórias que a ditadura tentou apagar, a partir do nosso trabalho, emergem com a força dos fatos históricos”.

Nesta entrevista à CULT ele explica como funciona o CAAF, quais seus objetivos, as articulações entre as arbitrariedades do passado com a violência policial contemporânea e a importância de articular a universidade pública aos movimentos sociais cujas práticas de resistência têm muito a nos ensinar nesses tempos tão difíceis.

Nesta sexta-feira (22), promove a aula inaugural de dois cursos de extensão que materializam a abertura da Universidade a outros públicos: “Direitos Humanos e Lutas Sociais” e “Antropologia Forense e Direitos Humanos”, com um ato em memória da vereadora Marielle Franco. O CAAF começa o ano letivo com uma “femenagem” às mulheres.

Um dos objetivos do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) é desenvolver projetos relacionados a violação de direitos humanos no Brasil. No atual contexto político, o CAAF ganha ainda mais importância?

O CAAF tem dois grandes projetos, sob os quais boa parte de nossas atividades se desenvolvem. Fazemos o trabalho forense de identificação de desaparecidos políticos da ditadura entre as ossadas encontradas na Vala Clandestina de Perus, criada nos anos 1970, pela ditadura, para ocultar cadáveres, e, no outro projeto, pesquisamos as situações de morte, via execução, das vítimas dos Crimes de Maio de 2006, ocorridos em São Paulo. Ambas as pesquisas apontam para estruturas e estratégias violentas do Estado brasileiro no modo de lidar com os sujeitos considerados “descartáveis” ou com as vidas que pouco importam. No contexto atual, com um governo federal que adota a linha da maior militarização da vida cotidiana, bem como autoriza, com leis e discursos, a ação ainda mais violenta por parte de agentes do Estado, toda pesquisa sobre violações de direitos humanos no país já seria relevante. Porém, diante de um presidente que tem como um de seus heróis o maior torturador da ditadura, o coronel Ustra, e defende abertamente o período do regime militar, bem como já disse aprovar a tortura contra “inimigos”, o trabalho do CAAF passa a ter uma importância maior e singular. Trata-se, no atual contexto, de trazer à tona as provas materiais do que foi a ditadura e, mediante os dados de nossas pesquisas, demonstrar para a sociedade brasileira o dramático erro cometido ao se autorizar ou apostar na violência como meio de solucionar os problemas urbanos e políticos.

Estão sob a guarda do CAAF as ossadas encontradas no cemitério municipal de Perus. Qual tem sido o processo de análise dessas ossadas para identificação de desaparecidos políticos?

Quando recebemos as ossadas, em 2014, não havia um laboratório e nem mesmo protocolos de trabalho em antropologia forense. Em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos, por meio da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, e com a Prefeitura de São Paulo, a Unifesp iniciou então a construção da instituição que hoje abriga essas pesquisas, o CAAF. O material analisado tem mais de 40 anos, o que dificulta as análises devido à deterioração. Além disso, por terem vindo de uma vala comum, em cada caixa recebida havia, muitas vezes, ossadas de mais de um indivíduo. Nosso trabalho consiste, de modo geral, limpar as ossadas, separar os indivíduos, analisar cada um em busca de marcas de identificação ou de aproximação dos indivíduos que buscamos e, por fim, retirar uma amostra de DNA (pedaço de um osso) e enviar para o exterior, a partir de um convênio firmado com a ICMP (International Commission On Missing Persons), especializada em extração de DNA em grande quantidade e de material com baixa qualidade devido às condições nas quais são encontrados.

Assim, dois grandes bancos de dados foram montados. Um, o ante-mortem, com os dados dos 42 desaparecidos políticos que os familiares de vítimas da ditadura consideram com grande chance de terem sido lançados na Vala de Perus. São informações vindas das famílias, do IML, e referente à perseguição política sofrida. Há ainda, nesta base, os depoimentos de outros perseguidos sobreviventes cujas narrativas possam indicar alguma marca que facilite a identificação. Assim, por exemplo, se um desaparecido tivesse quebrado o braço durante a vida, esta marca poderia auxiliar na identificação de sua ossada.

O outro banco de dados é justamente as informações obtidas pelas análises feitas no laboratório do CAAF, sobre as ossadas, suas marcas, sexo, tamanho, idade aproximada etc, que formam um arquivo post-mortem. Da comparação entre esses dados se obtém a lista das caixas onde há maior probabilidade de serem identificados desaparecidos.

Até o momento, temos todas as caixas abertas e limpas, e cerca de 900 delas com as análises já realizadas. O restante está sendo analisado e as que se aproximam mais do perfil procurado tem uma amostra de DNA retirado para exame.

Durante o ano de 2018 conseguimos a confirmação da identificação de dois desaparecidos políticos: Dimas Antônio Casemiro (desaparecido em abril de 1971) e Aluízio Palhano Ferreia (desaparecido em maio de 1971). Segundo o Relatório da Comissão Nacional da Verdade, ambos foram vítimas do DOI-CODI de São Paulo, comandado à época pelo coronel Ustra.

Qual a importância desse projeto estar sendo desenvolvido numa universidade pública e que parcerias internacionais são fundamentais para a sustentação do Caaf?

A universidade pública brasileira tem passado por transformações importantes. Nos últimos anos, com a expansão das instituições de ensino superior e das vagas, com a entrada de sujeitos que não tiveram em suas famílias indivíduos com oportunidade de cursar uma universidade, o perfil, a demanda e a disputa de qual conhecimento será produzido e divulgado se modificaram. Na área de humanas, as questões raciais, da violência do Estado, das formas de resistência, dos estudos de pensadores brasileiros, latino-americanos, afro-brasileiros e africanos ganhou um espaço considerável. Os temas de direitos humanos passaram a ter uma importância ainda maior. Assim como o compromisso da universidade pública com a qualificação da vida e dos direitos. Pesquisas e formações como as realizadas pelo CAAF se encontram nesse processo de democratização e transformação da universidade. São projetos colaborativos com a sociedade civil no esforço de produzir a proteção das camadas mais vulneráveis da população e de garantir o acesso deles aos instrumentos e mecanismos de luta por uma vida digna. Por outro lado, o CAAF já sentiu mudanças recentes sendo implementadas no apoio à pesquisa e formação em direitos humanos, com a diminuição dos fomentos e dos aportes financeiros necessários ao trabalho realizado. Assim, as parcerias internacionais são formas de conseguirmos apoio e de qualificar e aprofundar o trabalho já desenvolvido.

Vocês estão oferecendo cursos de extensão sobre antropologia forense e direitos humanos, com quais objetivos?

Estamos oferecendo dois cursos de especialização lato sensu. Um, de “Antropologia Forense e Direitos Humanos”, voltado à qualificação de antropólogos forenses voltados aos trabalhos de identificação humana em casos de violações de direitos humanos. O outro, de “Direitos Humanos e Lutas Sociais”, visa aprofundar a formação de ativistas que se encontram na capilaridade das lutas de direitos humanos ou do trabalho social no serviço público. Em ambos os casos, trata-se de relacionar as pesquisas produzidas no próprio CAAF a processos de formação profissional e cidadã.

Há uma grande procura por esses cursos? Você acredita que o contexto político adverso tem justamente incentivado a formação de novas lideranças?

Esta é uma pergunta interessante. Nas últimas duas décadas observamos uma transformação global nos modos da ação política. O modelo do representante, da instituição portadora do programa político e do estabelecimento de determinados sujeitos políticos entrou em crise, deixou de ser um formato hegemônico. Surgem novas formas, mais autônomas e horizontais, cujo suporte é justamente a produção de saberes específicos oriundos das experimentações cotidianas. Pode-se dizer que é na temática dos direitos humanos a esfera em que mais proliferaram organizações políticas (coletivos) e movimentos sob essas novas estratégias e arquiteturas políticas. Contudo, a capilaridade das lutas em direitos humanos se encontram em constante conexão com os modelos tradicionais, assim como se relacionam diretamente com as políticas públicas, estatais ou não (terceiro setor). Assim, há uma grande demanda pelos conhecimentos acadêmicos, espaço clássico das análises e pesquisas que implicam em políticas públicas e gestão dos direitos e conflitos. É impressionante a quantidade de ativistas e militantes inscritos nos processos seletivos desses cursos. Acreditamos que o CAAF possa colaborar para a efetivação deste necessário encontro entre os saberes locais das lutas sociais e o conhecimento produzido na universidade. Assim, para retomar a questão, acredito que o contexto adverso tem sido a realidade dos territórios extremos onde explodem os conflitos sociais. A violência policial, o precário acesso à Justiça, as péssimas condições dos serviços públicos (educação, saúde, transporte etc) e o descaso dos poderes públicos com as periferias tem sido a história do país. E tendem a se agravar, infelizmente. Penso que as novas lideranças, ou as novas formas de atuação política, surgem mais do acúmulo dos saberes específicos das lutas, possível também devido às melhores condições existentes para realizar as conexões necessárias entre eles e os conhecimentos tradicionais e mais consolidados.

De que forma o projeto do CAAF também participa da crítica à violência policial?

Junto com o trabalho forense de identificação dos desaparecidos políticos, realizamos uma primeira etapa de pesquisa sobre os Crimes de Maio de 2006, quando centenas de homicídios foram cometidos em um período de duas semanas. Através da análise de 60 casos, de mortes ocorridas na Baixada Santista, se pode verificar a dinâmica da violência, em especial a do Estado, como apontam as narrativas e os dados dessa e de outras pesquisas. Assim como se levantou o perfil das vítimas – negros, pobres e periféricos – e os indícios explícitos de execução.

Ambas as pesquisas, a da Vala de Perus dos anos 1970 e a dos Crimes de Maio de 2006, nos permitem identificar estruturas e estratégias violentas que não só permaneceram, mas também se sofisticaram nas últimas décadas. Em ambos os casos acessamos documentos de IML, cemitérios, delegacias de polícia e instituições do judiciário. Transparece pelas análises a lógica estatal de cumplicidade desses vários entes com o processo de violência institucional.

A visão mais ampla da violência de Estado, o que inclui a policial, mas não somente essa, e o contexto atual de ameaças e agressões a defensores de direitos humanos (inclusive com o aumento do número de vítimas fatais), nos levou a iniciar a organização do Observatório da Proteção aos Direitos Humanos. O objetivo é levantar dados, fazer análises e relatórios e produzir instrumentos de proteção para os sujeitos que se encontram nas lutas sociais de defesa dos direitos e contra a violência institucional.

Você acredita que uma das tarefas importantes desse trabalho é fazer frente ao revisionismo histórico que vem sendo apregoado pelo novo governo?

Essa é a tarefa inescapável do CAAF. Temos em nosso laboratório a prova material de que tivemos uma ditadura gravemente violenta. Lá se encontram as ossadas e suas marcas da tortura, do assassinato e do desaparecimento forçado. Mostram que os desaparecidos foram produção de um regime político centralizado, com instituições repressivas militares e hierárquicas. As memórias que a ditadura tentou apagar, a partir do nosso trabalho, emergem com a força dos fatos históricos. É um cenário de contestação do revisionismo e de formulação qualificada dos argumentos de afirmação da história de graves violações de direitos por parte do Estado brasileiro.

Carla Rodrigues é doutora em Filosofia pela PUC-Rio e professora do departamento de Filosofia da UFRJ


Revista Cult
Posted: 27 Mar 2019 04:09 PM PDT


Especialistas no assunto asseguram que, se for aprovada pelo Senado a PEC da execução impositiva das emendas coletivas do Orçamento, votada a toque de caixa pela Câmara, o governo Bolsonaro ficará com os dois braços e as duas pernas engessados. Terá sorte se conseguir continuar tuitando. A proposta é exatamente o contrário do que foi pregado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, quando defendeu a desvinculação orçamentária.


Não adianta, portanto, tentar maquiar ou esconder: o Planalto sofreu uma tremenda derrota na terça-feira. E parece que ainda sofrerá muitas.

Soou patética a declaração de voto do filho 03 do presidente, Eduardo Bolsonaro, que votou a favor explicando que, em 2015, quando a PEC foi apresentada, ele e seu pai haviam votado a favor. Ora, na ocasião este projeto era uma das pautas-bomba inventadas pelo então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, contra a presidente Dilma Rousseff.

Jair e Eduardo Bolsonaro, naquela época, eram oposição. Agora, incrivelmente, continuam se comportando como se ainda o fossem.

Maia e Onyx

Veio a quarta-feira, com a presença dos superministros Paulo Guedes e Sérgio Moro em comissões no Senado. Uma distensão, quem sabe, junto com a notícia dada pelo ministro Ony Lorenzoni de que finalmente o presidente da República aceitou conversar com os presidentes de partidos políticos – que ainda não conseguiram pisar no Planalto desde que assumiu.

Durou muito pouco, porém, a expectativa positiva, que despencou junto com a Bolsa, ao mesmo tempo em que o dólar subia. O próprio Bolsonaro tratou de azedar o clima com mais uma provocação ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia – aquele que colocou a PEC na pauta. Disse, de novo, que Maia estava abalado com a prisão do sogro, Moreira Franco.

Foi o suficiente para que o deputado, de temperamento esquentado, reagir pesadamente, mandando Bolsonaro parar “de brincadeira”, sentar na cadeira de presidente e governar. Não há distensão possível nesse clima, e raras vezes se viu a República tão nervosa.


Os Divergentes
Posted: 27 Mar 2019 03:58 PM PDT
Posted: 27 Mar 2019 03:35 PM PDT


Contrário a derrubada de Jango, a primeira vítima do golpe militar foi o tenente-coronel da Aeronáutica, Alfeu de Ancântara Monteiro, morto logo após o início da ditadura no dia 1º de abril de 1964, que completa nesta segunda-feira 55 anos.

Os quartéis foram orientados por Bolsonaro a comemorar essa data sinistra (no caso, o 31 de março, porque os direitistas ficam envergonhados em ter dado um golpe que chamam de “revolução” bem no dia da mentira) que representa um período de perseguição e tortura de qualquer um que se opusesse minimamente ao regime, até mesmo do próprio exército.

Contra essa ofensiva por parte do governo golpista, o PCO está convocando todos a um ato de repúdio ao golpe de 64 e pelo Fora Bolsorano. O ato em São Paulo será domingo dia 31, no MASP às 14 horas.


Diário Causa Operária

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19/6 - Greenwald e o depoimento de Moro. “Ele disse pouco”

FONTE: http://www.tijolaco.net/blog/greenwald-e-o-depoimento-de-moro-ele-disso-pouco/ Greenwald e o depoimento de Moro. “Ele disse pouco...