6/4 - BLOG do Altamiro Borges

Altamiro Borges


Posted: 05 Apr 2019 12:34 PM PDT
Posted: 05 Apr 2019 12:28 PM PDT
Posted: 05 Apr 2019 11:58 AM PDT
Por Clarisse Meireles, no site Carta Maior:

Cinco meses após o segundo turno das eleições presidenciais que garantiram a vitória de Jair Bolsonaro, boa parte do país e muitos observadores estrangeiros permanecem em estado de espanto diante da escolha de 57,7 milhões de brasileiros.

Entre os muitos fatores que explicam a eleição de Bolsonaro, talvez um dos menos explorados ainda seja o papel do eleitor evangélico que, segundo o diretor do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, acabou decidindo as eleições – especialmente as mulheres evangélicas.

Como foi possível para boa parte desta fatia do povo brasileiro que professa a fé em Jesus Cristo, perseguido e torturado por suas posições políticas e religiosas segundo os Evangelhos, apoiar o ex-capitão entusiasta da ditadura militar (que, na semana passada, tornou-se o primeiro presidente eleito a determinar que o aniversário do golpe militar fosse comemorado oficialmente)?

Esta é uma das questões centrais da conversa de Carta Maior com Valdemar Figueredo,doutor em Ciência Política pelo Iuperj, teólogo e pastor Batista. Figueredo estuda desde anos 1990 os imbricamentos entre as Igrejas neopentecostais, os meios de comunicação de massa e o poder, temas de seus livros Entre o palanque e o púlpito: mídia, religião e política (Editora AnnaBlume, 2005) e Coronelismo eletrônico evangélico (Editora Publit, 2010). A adesão de parte das igrejas neopentecostais brasileiras com pautas conservadoras e até neofascistas é o tema de seu novo livro, ainda inédito.

Quando começou a pesquisar a presença dos grupos neopentecostais nos espaços de poder?

Foi na graduação de ciências sociais no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, nos anos 1990, no laboratório de política e comunicação com a professora Ingrid Sarti. Eu já era teólogo, e ela me estimulou a desenvolver uma pesquisa sobre o programa de rádio de Anthony Garotinho. Este se tornou meu projeto de pesquisa do mestrado em Ciência Política.

A pesquisa partiu da campanha do ex-governador Anthony Garotinho (que governou o estado do Rio de Janeiro entre janeiro de 1999 e abril de 2002). Na campanha, o componente religioso já era muito forte, através de redes de rádios evangélicas, que lhe davam grande suporte. Garotinho não tem origem evangélica. Ele é um radialista com grande carisma e faz sucesso com programas populares, com apelo emocional, atendendo pedidos dos ouvintes por coisas como cadeiras de rodas e outras necessidades. Na tradição brasileira, muitos desses radialistas que tratam de problemas locais têm facilidade de acesso à política. (Após ser eleito prefeito de sua cidade natal, Campos dos Goytacazes, Norte Fluminense, em 1988, pelo PDT) Leonel Brizola o projetou no estado. Foi secretário de agricultura e de interior de Brizola entre 1992 e 1993, e é eleito governador em 1998. Eles rompem, e Garotinho vai para o PSB em 2001.

Acredito que garotinho tenha inaugurado isso no executivo: um candidato que não era evangélico e começa a fazer um discurso evangélico com objetivos eleitorais e políticos.

Em 2002, Garotinho se candidata à presidência pela primeira vez. Havia esse suporte evangélico em nível nacional?

Sim, ele consegue ampliar sua influência através da instrumentalização das redes de rádio pentecostais, veículo com o qual tinha muita proximidade e familiaridade, sobretudo através do radialista Francisco Silva, proprietário da Rádio Melodia, voltada para o público evangélico, ainda hoje uma das líderes de audiência no RJ (Silva foi deputado federal por três mandatos e faleceu em 2017). O braço direito de Francisco Silva era Eduardo Cunha (o ex-presidente da Câmara tornou-se evangélico por influência de Silva, que também o indicou à presidência da Companhia estadual de Habitação (Cehab), em 1999, no governo Garotinho).

É com este grupo que Garotinho chega ao governo, sabendo usar politicamente as redes de rádios neopentecostais. Deste grupo faz parte também o pastor Everaldo [presidente do Partido Social Cristão (PSC), pelo qual foi candidato à Presidência da República em 2014. Jair Bolsonaro foi filiado ao PSC entre 2016 e 2018, e o atual governador do RJ, Wilson Witzel, foi eleito por esta legenda].

Como este grupo consegue projeção nacional a partir de rádios evangélicas locais?

Eles conseguem garantir a reprodução pelo país de conteúdos destas estações de rádio, que passam a funcionar como emissoras. Na mesma época em que a ambição de Garotinho era concorrer à presidência, algumas dessas rádios começam a funcionar em sistema de rede. Surgem rádios evangélicas integradas no país inteiro e alguns programas tinham ainda retransmissão em outras estações. É importante enfatizar que estes três, Francisco Silva, Garotinho e Eduardo Cunha, se tornam evangélicos ao mesmo tempo em que surge e se fortalece esta mídia voltada exclusivamente para este público, nichos que eles descobrem e ajudam a desenvolver.

Desde a Assembleia Constituinte, grupos evangélicos formais passam a lutar por concessões públicas de estações de rádio e canais de TV e criar grupos de comunicação. Assembleia de Deus, Rede Renascer e outros, cada uma busca concessões de rádio e TV através de representes no Congresso e desenvolve sua estratégia de comunicação. Silas Malafaia, por exemplo, vem da Assembleia de Deus e depois funda sua empresa de comunicação. Francisco Silva fez o oposto: vem da comunicação e vai para a igreja.

Já existia uma bancada evangélica na Assembleia Nacional Constituinte, em 1987?

Sim. Na época, já existia uma bancada evangélica com 33 deputados. As concessões de rádio e TV se tornam moeda de troca política.

A estratégia era a ocupação de vários partidos para garantir vagas em várias comissões no Congresso, para barrar agendas na Comissão de Seguridade Social e Família e, na Comissão de Comunicação, garantir as concessões públicas de meios de comunicação.

Garantindo, assim, um crescimento contínuo...

Sim. A representação política desse tipo de grupo evangélico, neopentecostal, sobretudo, garantia as concessões públicas aos grupos que já haviam montado estruturas de comunicação, empresas de comunicação que não são de fundo de quintal.

Essa força econômica, política e midiática, essa capacidade de espalhar essa mensagem, se mostra eficaz para expandir o número de fieis, e é um sistema que se retroalimenta.

Ser evangélico passa a ser um valor eleitoral cada vez mais forte. Iris Rezende, ex-governador de Goiás e ex-ministro, por exemplo, era um político que era evangélico. Não era o centro da vida política dele, mas se transformou.

Em termos de troca política, seja a Assembleia de Deus, a Igreja Quadrangular e a Universal do Reino de Deus funcionam de forma orgânica: formam uma bancada de cada Igreja.

Desde o princípio, estava claro para você este projeto de poder?

Eu pensava que, a qualquer momento, essa aliança religião e poder chegaria num teto. Depois de 33 deputados, foram 42 e 48 nas legislaturas seguintes. Pensei que pararia por aí. Nunca imaginei que um político, no Rio de Janeiro, buscasse fazer essa associação, reivindicar uma representação religiosa, porque isso, pensava, não formaria maioria. Para o legislativo sim, porque precisavam se fortalecer para garantir sua agenda, mas para o executivo, imaginava que trazer a questão evangélica seria um tiro no pé. Deixou de ser. (Hoje a bancada evangélica conta com cerca de 90 congressistas entre deputados e senadores, mas costuma reunir muito mais apoio para sua cruzada contra os direitos das mulheres, LGBTs e outras ditas “minorias”).

No último censo do IBGE, em 2010, 22% dos brasileiros se declaravam evangélicos, e dados do Latinobarômetro de 2017 indicam que este número já estava em 27%. Mas em muitas cidades do Brasil, a impressão é que este número já é bem maior. Como explica este fenômeno da transição religiosa no Brasil?

Sim, nas ruas, a sensação é que este número é maior. A transição no perfil religioso pode ser atribuída a uma série de fatores. Há a questão de que já tratamos, da visibilidade midiática, de presença em estações de rádio e TV. E o distanciamento da Igreja católica das bases – um afastamento que a própria Igreja reconhece. A estratégia das igrejas evangélicas é chegar ao centro depois de se implantar na periferia, resultando numa multiplicação de igrejas evangélicas nos setores populares das cidades. Esta ocupação tem sucesso também por uma estratégia de linguagem e, de novo, de comunicação. Quando vemos o cabo Daciolo, por exemplo, aquela figura se comunica e usa uma linguagem próxima de muita gente no Brasil profundo.

A Igreja católica perdeu a ligação com as camadas mais populares, a capacidade de se comunicar com o povo. As igrejas evangélicas históricas idem, mantêm liturgias europeias que não se traduzem em linguagem do dia a dia, como as pentecostais e neopentecostais, que se aproximam do sofrimento e do anseio cotidiano do povo. Aquele brasileiro que mora na periferia, trabalha como porteiro ou garçom e sonha em ser chefe dele mesmo. Ele vai na igreja, e na corrente de oração o pastor diz que ele vai conseguir. O crescimento dos grupos evangélicos se dá muito fortemente pela consagração de uma lógica capitalista. É o contrário da Igreja católica popular dos anos 1970, da Teologia da Libertação, que falava de desapego, com uma crítica feroz ao capitalismo. Era uma religião libertária, contestadora da lógica capitalista. Alguns podem achar que é ideologia política, mas para outros é a vivência do Evangelho, o próprio cristianismo.

Mas o que acontece com a grande parte da população brasileira que adere ao neopentecostalismo? Há vontade de prosperar. E aí a teologia da prosperidade encontra eco.

Não por acaso essa explosão evangélica coincide com o período petista, que fez uma inclusão também pelo consumo, o que gerou, aliás, muitas críticas á esquerda. Mas é curioso que essa expansão evangélica se dê durante os governos de um partido muito ligado justamente aos setores progressistas da Igreja católica, não?

Lula disse várias vezes que não era o presidente dos petistas, mas de todos os brasileiros. Isso é ótimo, pois ele é um estadista. É preciso dialogar com o capitalismo e a burguesia nacional. Infelizmente houve um afastamento dos movimentos sociais e de sua base, dos sindicatos. E a aproximação de alguns grupos evangélicos, que foram chancelados e legitimados. Como é que Dilma vai na inauguração do templo de Salomão, em São Paulo, ao lado de Edir Macedo?

Esses grupos deixaram de ser vidraça e passaram a ser pedra e estilingue neste período. Cresceram, melhoraram sua condição e prosperaram em governos ditos de esquerda.

Não podemos deixar de reconhecer méritos de comunicação. Nem a questão comunitária: em várias regiões do país, há igrejas evangélicas fazendo trabalho social, oferecendo creche comunitária, até organizando trabalhadores. As igrejas não são só reacionárias. Elas cumprem um papel social que o estado não está cumprindo. Não é mais um trabalho de longo prazo de conscientização e formação como na Teologia da Libertação, mas é inegável uma participação na vida cotidiana da comunidade, com variados graus de protagonismo.

Olhando em retrospecto, seria possível dizer que a hierarquia da Igreja Católica, com João Paulo II e Ratzinger, ao perseguir a Teologia da Libertação e abrir este espaço para as igrejas neopentecostais, acabou ajudando a eleger Bolsonaro?

Há uma série de fatores: políticos, econômicos, de comunicação e, também, religiosos. O discurso da teologia da prosperidade passa a ser especialmente atraente num momento de crise econômica. Há também a concentração populacional nos centros urbanos, onde pessoas buscam um sentido de comunidade. As igrejas estão lotadas de gente assim, em busca não só do transcendente, mas também do imanente, do lanche depois do culto, de um momento de conversa, de interação. Esse conjunto complexo explica que, a cada censo, se confirme o crescimento da religião evangélica no Brasil.

Você fala da eficácia da comunicação das igrejas neopentecostais. Como se dá essa profissionalização da comunicação evangélica, em que o púlpito se torna um misto de palco e estúdio de TV?

O protestantismo, desde Martinho Lutero, dá enorme valor ao texto. O sermão é central, mas também o texto impresso, possibilitado pelo advento da imprensa algumas décadas antes. O pastor tinha uma comunicação metódica, uma exposição no culto, e contava muito com a escrita, mas não só na igreja protestante – os bons teólogos, e padres e demais líderes religiosos, já tinham essa competência da escrita.

Vamos dar um pulo para o tempo do rádio. A competência básica é a fala, que exige um tom e um jeito específico de se comunicar. Muito do pentecostalismo nascente no início do século passado no Brasil recorreu ao rádio como meio de comunicação de massa e as igrejas cresceram também em função dessa estratégia. Em seguida, ocuparam as TVs. Seguem o modelo americano, cujo grande ícone é o pastor televangelista Billy Graham, próximo de vários presidentes americanos desde o pós-guerra, tendo sido conselheiro espiritual de alguns deles.

Hoje, o culto que se vê nas igrejas é cada vez mais próximo dos modelos de pregação que se vê nas TVs, no YouTube. Ainda que o pastor não tenha um programa de rádio, não tenha espaço em nenhum canal, a pregação é muito midiática, performática, dinâmica, com muita música, palavras e frases de impacto.

O conteúdo importa menos do que a forma, que deve ser “atraente”, segundo parâmetros midiáticos. Os fieis, nessa perspectiva, devem saiam do culto leves. É quase um show de variedades. O fenômeno faz pensar no que diz Marilena Chauí no livro Simulacro e poder. Estes espaços se tornam representações que podem ser enquadradas por um determinado close televisivo – ainda que não haja câmera.

Já o texto bíblico é lido nestas igrejas neopentecostais ora como alegoria ora como verdade absoluta, de acordo com o interesse de quem está pregando. Sobre a mulher, por exemplo, tudo o que está ali é literal. O contexto é totalmente apagado.

O texto bíblico se torna mero instrumento para validar as posições mais conservadoras?

Sim, é muito fácil, você pega trechos da Bíblia e trazer para os dias de hoje, com o peso de verdade absoluta. Há um analfabetismo bíblico enorme nesse campo evangélico neopentecostal. Estas igrejas não dão o suporte para que o fiel ganhe autonomia, como Lutero queria, para uma leitura direta do Evangelho, sem a necessidade de mediação.

Estive em cultos neopentecostais em que o Evangelho era totalmente esvaziado de sentido, tornando-se um instrumento de alienação. Como é a formação destes pastores?

Muitos não fazem seminário, mas já foi pior. Hoje, avalio que mais da metade dos pastores passe por algum seminário, mas não são seminários voltados à formação do pensamento crítico. É uma formação direcionada, de novo, mais para uma forma de ler a Bíblia do que para o seu conteúdo.

Tanto que muitos não entram em conflito em desmerecer e desrespeitar as variadas orientações sexuais, por exemplo. Se conhecessem o Evangelho, a figura de Jesus, eles ficariam constrangidos. E não ficam. É contraditório. Como alguém se refere de forma pejorativa ou desrespeita uma pessoa em nome de Deus? É totalmente incompatível.

Constatei também, nos cultos em que estive, que os neopentecostais leem mais o Velho Testamento do que o Novo. Por que isso?

Porque o Novo Testamento mostra que Jesus rompe justamente com uma leitura equivocada do texto bíblico. Ele vai à sinagoga lutar contra aquilo e dizer: “Vocês não entenderam nada”. Por outro lado, Jesus sempre andou com as figuras excêntricas e marginais do seu tempo. Era a gente dele. Os que estavam à margem da sociedade patriarcal, das classes dominantes. Qualquer leitura simples dos evangelhos já é incompatível com o preconceito e a exclusão.

E esta leitura conservadora vem “funcionando”: o fato de existir um Jean Wyllys lutando por direitos humanos e pelos direitos LGBT garante a eleição de uns quatro deputados com discurso de combate a ele – é claro que não estou dizendo que Jean Wyllys deveria mudar sua militância. Quando estes grupos ditos minorias se potencializam politicamente, trazem esta reação conservadora.

O Senador Arolde de Oliveira, por exemplo, costuma repetir que “a minoria deve se submeter à maioria, assim é a democracia – e o Brasil é conservador”, ele diz, e já vi outros parlamentares da bancada evangélica dizerem o mesmo (Arolde foi eleito senador pelo RJ em 2018, pelo PSD, é dono do grupo de comunicação MK Music, de concessões de rádio e membro da Igreja Batista).

Esse conservadorismo está nas classes populares e na classe média dos grandes centros urbanos do país, que é muito conservadora. A aceitação ao Bolsonaro veio também desse conservadorismo, que se evidenciou.

A eleição de Bolsonaro – e o seu governo – tirou muitas máscaras, não?

Bolsonaro escancara a violência da sociedade brasileira. Já no discurso de posse, quando prometeu acabar com o “politicamente correto”, naturaliza a grosseria e o discurso da violência. E encontra repercussão nessa sociedade conservadora, como o sociólogo Jessé de Souza vem apontando em seu trabalho sobre a elite e a classe média.

O fenômeno Bolsonaro tem a ver com religião, sim, mas também com os reacionários do ponto de vista econômico e moral – muitos dos quais nem são religiosos – que não querem seus filhos estudando com “essa gentalha”. Num período em que fui pastor, havia pais que levavam seus filhos à Igreja e não entravam. Não era uma questão espiritual, queriam um “ambiente saudável”, com uma formação moral – naquela perspectiva antiquada de que evangélicos não bebem, não fumam – com reforço dos valores da família, virgindade – sobretudo para as meninas. Isso é almejado por camadas da sociedade brasileira, seja no Rio ou em Goiás. E este reacionarismo não é um fenômeno só brasileiro, nem sua expressão virulenta, como podemos ver nas afirmações estapafúrdias, preconceituosas de Donald Trump. O retrocesso em relação às pautas progressistas e ambientais é um fenômeno em curso hoje, em várias partes do mundo.

A ministra Damares Alves, também pastora da Igreja batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, compartilha desta leitura bíblica que defende posições como a submissão feminina ao homem e a evangelização dos povos indígenas. Como avalia a atuação da ministra?

Damares vem desse mundo neopentecostal com longo histórico de atuação missionária, com campanhas vultosas, com muito dinheiro, para conquistar os povos indígenas.

Trata-se de questão antiga, que junta grupos internacionais e brasileiros de missionários, que chamam os indígenas de “povos não alcançados”, aqueles que ainda não ouviram o evangelho. Esta fixação vem de uma interpretação literal do livro do Apocalipse, onde uma profecia diz que, para a volta de Jesus, todos os povos devem conhecer Jesus e ser evangelizados – não necessariamente fariam a adesão, mas deverão conhecer o evangelho. Para abreviar a volta de Jesus, é preciso evangelizar o mundo. Qual é o povo ainda menos alcançado? De novo, é feita uma leitura literal, sem contextualização, sem crítica, sem crise. Há décadas há denúncias deste sistema de abuso e autoritarismo cultural, do qual parece que a ministra faz parte (a Funai está sob sua pasta).

Mas não temos que atacar, muito menos apontar o que há de folclórico, exótico na pessoa física Damares Alves, ou em suas pregações como pastora, sua subida na goiabeira. Isso não era para ser pauta. Precisamos criticar as políticas propostas, senão estaremos dando elementos para a legitimação dela junto ao seu público. Passa a soar como perseguição religiosa, que é o discurso que se faz do lado de lá a quem os critica.

Vamos monitorar as ações do Ministério para Direitos Humanos com ou sem Damares. Mas devemos criticá-la quando se diz “terrivelmente evangélica”. Terror e Evangelho são incompatíveis.

Como vê o projeto de Lei Anticrime do Ministério da Justiça?

Não há nada ali de concreto e realmente transformador, é tudo perfumaria e concretamente liberar a polícia para matar sem precisar se preocupar com a justiça, dizem os especialistas em segurança. É preciso tempo e paciência de destrinchar as propostas e confrontar, sem ceder à catarse, sem reagir como um Carlos Bolsonaro, ainda que muitas vezes seja compreensível reagir de forma intempestiva a este tipo de proposta. Não vamos fazer como o lado de lá fez com Dilma.

Eles ainda fazem isso, aliás – e me pergunto se um dia deixarão a linguagem de campanha e começar a governar, porque sem a polêmica, Bolsonaro não é nada. Por isso, ele precisa reacender a história da facada o tempo todo, por exemplo, e suas acusações ao PSOL, que logo são replicadas por seus seguidores e robôs.

De que trata seu novo livro?

O livro nasceu desse cenário brasileiro desde o ano passado. Deve se chamar A fraquejada, e trata da posição dessa parte da Igreja evangélica que apoia Bolsonaro. Há um livro bíblico chamado Lamentações, de Jeremias. É um livro de cinco capítulos, dos quais quatro têm 22 versos e o 3º apenas tem 66. É um texto ritmado, em versos curtos, onde o profeta lamenta o caos político, social e espiritual de Israel. As lamentações tratam dessa derrocada, uma “fraquejada”. Este profeta se dirige ao povo com poesia, uma poesia de cunho social, mostrando as contradições da época. É muito forte, no texto, o papel da política externa, as relações internacionais de Israel, fala dos conchavos, da usura, do poder.

Este profeta se rebela contra tudo e todos – em outro livro, quando se refere a Jeremias, um rei diz: “lá vem o tal do agitador”. Ele escreve em linguagem poética, profética, um texto muito forte, muito contundente. Fala que “as nossas crianças estão exaustas, as mulheres estão da cor do sol”, denunciando o trabalho escravo. Queixa-se que as riquezas estão sendo mandadas para fora de Israel. Diz coisas como “os nossos jovens já não dançam, os nossos velhos já não se sentam nas praças”. É muito bonito. Mostra um cenário de caos social, de um povo sofrido, distante de Deus.

Inspirado em Jeremias, escrevi um livro sobre o Brasil de hoje com esta mesma estrutura, falando daqui. Não é uma exegese do texto bíblico, é um eco, são as minhas lamentações. É um pequeno livro de 50 páginas, um manifesto. Para ser lido rápido.

Termino cada capítulo com um teórico da atualidade, mas não estou escrevendo para a academia. Tem do Slavoj Zizek (filósofo esloveno) ao (economista americano de origem alemã)Albert Hirschman, cujo livro, brilhante, A retórica da intransigência, trata dos movimentos reacionários diante das revoluções, e de como o discurso contra o estado de bem estar social se instala na Inglaterra e nos EUA nos anos 1980 e 1990. É o discurso que está aqui e agora.

Quero fazer uma outra leitura, um contraponto à alegoria neopentecostal. Deixo claro, no início do texto, que o que escrevo não é categórico, não é mandado divino, não é leitura bíblica interpretativa, é simplesmente a minha voz. Sem nenhum peso divino – ainda que eu eventualmente me refira a um texto bíblico.

Interessante que isso precise ser explicitado, já que muitos pastores neopentecostais leem a Bíblia – ou a interpretam – atribuindo aquelas palavras diretamente a Deus.

É a chamada teoria do ditado: Deus teria ditado aquelas palavras exatas aos homens que escreveram os livros bíblicos. Quem faz a leitura literal da Bíblia acredita nisso. A Bíblia seria quase o resultado de uma psicografia. Assim disse o Senhor. Mas se Deus disse tudo aquilo, ele é um crápula. Para mim, o texto bíblico é divino justamente no sentido de que é humano.

Acredita que seja possível fazer essa disputa da narrativa da Bíblia?

Estou escrevendo para muita gente que frequenta igrejas evangélicas e que está desalentada e cansada – e até envergonhada – de tudo o que está acontecendo.

Um dos capítulos é sobre a violência e o discurso da violência. Termino com uma história real, sobre o medo. Um amigo estava num ônibus que foi assaltado no Rio de Janeiro. Ele conseguiu jogar seu dinheiro e celular rapidamente embaixo do banco. Ao lado dele, uma senhorinha. Tranquilaça. Ela olhou para ele e perguntou: você está com medo,viadinho? Foi tão inesperado que ele caiu na gargalhada. Ela junto. Os dois ficaram rindo muito, e tanto que os ladrões sequer os abordaram. Passaram direto. Termino com essa história como uma alegoria do Brasil – esses caras não suportam o riso.

Eles estão prontos para a violência – para receber e para dar porrada. Não sabem lidar com o humor, com a arte, com o afeto. O livro quer ser um convite a fazer arte, um enfrentamento a tudo aquilo que quer interromper a vida. Quero fazer este enfrentamento e a disputa nas bases. Não temos concessão de rádio, mas temos que disputar a base, parar de pregar para convertidos na academia e falar a língua do povo.
Posted: 05 Apr 2019 11:48 AM PDT
Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

Ao retirar o debate sobre o transito em julgado, que se encontrava na pauta de quarta-feira, 10, para data incerta e não sabida, o presidente do STF Dias Toffoli escancarou uma realidade que permanecia escondida. Em vez de assumir a função de zelar pelo cumprimento da Constituição, sua função maior, nossa Suprema corte preferiu esconder-se em vez de assumir suas responsabilidades perante o país.

As explicações para uma decisão tão desastrada aguardam uma investigação que, possivelmente, ficará a cargo dos historiadores. Os rumores envolvem fatos tão graves e inaceitáveis que não é conveniente especular a respeito.

Num momento de tamanha gravidade, basta recordar que o debate envolve uma decisão crucial para o Estado Democrático de Direito, com um impacto imediato sobre a permanência ou não de Lula na prisão - e todas as suas consequências para o Brasil e os brasileiros.

Mas é possível traçar o percurso que levou o STF a uma situação de falência prevista e programada.

A data fatídica foi o 16 de março de 2016, quando Sergio Moro divulgou uma gravação ilegal que trazia uma conversa de Dilma Rousseff, presidente da República, quando ela convidava o mesmo Lula para assumir uma cadeira em seu ministério. Em vez de cobrar responsabilidades de um magistrado de primeira instância, que não tinha o direito de apresentar em público um diálogo gravado sem a indispensável autorização - do próprio Supremo - o STF curvou-se diante da Lava Jato. Lula foi impedido de tomar posse e, um mês depois, a Câmara de Eduardo Cunha dava curso ao golpe que afastou Dilma e abriu caminho para sucessivos ataques a democracia que colocaram o Brasil na situação em que se encontra hoje.

Cumpriu-se, nesta quinta-feira, mais uma etapa de uma profecia anunciada na Alemanha, em 1933, quando um pastor luterano, Martin Noemeller, cunhou um poema que iria percorrer o mundo e, traduzido em várias línguas, adaptado a diversas conjunturas geopolíticas, tornou-se um clássico sobre a omissão que está na origem de várias derrotas da democracia. Escrito no ano que marcou a ascensão de Adolf Hitler, o poema é curto e claro:

"Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram
e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar..."


Alguma dúvida?
Posted: 05 Apr 2019 11:44 AM PDT
Por Bepe Damasco, em seu blog:                                                                       

O jornalismo de guerra da mídia monopolista contra o governo de Dilma Rousseff, que culminou no impeachment sem crime, fez com que a mentira e canalhice se impusessem como instrumentos de ação política prioritários dos conservadores nativos.

Poucos anos antes aparecera a luz no fim do túnel para a burguesia antidemocrática. A farsa do mensalão, a reunir em torno do mesmo projeto imprensa, Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário, mais especificamente o STF, mostrara a saída para interromper a hegemonia petista: a politização das instituições da República e a adoção da tática do ministro da propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, segundo a qual mentiras repetidas um milhão de vezes transformam-se em verdades.

No ano seguinte ao julgamento do mensalão, outra falsificação midiática de grandes proporções: o incentivo diuturno às chamadas jornadas de 2013, dando ares de revolta popular e de rebelião democrática a um.movimento de cunho majoritariamente fascista. No alvo, o governo da presidenta Dilma. Só que o Brasil vivia um período de pleno emprego, com inflação controlada, crescimento econômico, aumento real de salário e respeito a todos os direitos sociais, trabalhistas, previdenciários e civilizatórios.

A tudo isso assistia, e absorvia as lições, um deputado do baixíssimo clero, de convicções nazistas e com produção parlamentar igual a zero. Vez por outra, é verdade, ocupava os noticiários devido aos seus ataques grosseiros a adversários, inclusive mulheres, bem como à defesa explícita de teses racistas, homofóbicas e misóginas. A naturalização do crime de estupro e seu o apoio à tortura também chocavam as pessoas.

Vem o processo do impeachment. Globo, Folha, Veja e Estadão sabiam de cor e salteado da longa trajetória de corrupção de Michel Temer e Eduardo Cunha na vida pública. Até os estagiários das redações tinham conhecimento dos esquemas barra-pesada comandados pela dupla.

Revelando pela enésima vez na história sua falta de patriotismo e compromisso com os destinos do país, a mídia fez vistas grossas para as fichas corridas de Temer e Cunha. Ao contrário, aplaudiu a condução do processo contra Dilma por parte do então presidente da Câmara dos Deputados e conferiu legitimidade presidencial a um traidor e golpista miserável como Temer. Valia tudo, afinal, para apear o PT do governo.

Eureca, deve ter bradado Bolsonaro. Mesmo com graves problemas de ordem cognitiva, o capitão finalmente concluíra que lançando mão de mentiras, baixarias e calúnias se abririam as veredas que o levariam à presidência da República..A prisão de Lula e seu linchamento pela mídia, depois de um processo fraudulento, certamente reforçaram em Bolsonaro a convicção da eficácia das fake news. A campanha eleitoral suja que fez fala por si.

Hoje quando vejo a imprensa criticando as barbaridades do governo Bolsonaro nos editoriais, mas aliviando no noticiário, para não prejudicar a espoliação do povo e das riquezas do país, causas que os unificam, fico pensando : claro que existem nuances e diferenças entre eles e nada pode ser pior do que Bolsonaro, mas ambos são inimigos do Brasil e dos brasileiros.
Posted: 05 Apr 2019 11:41 AM PDT
Do blog Nocaute:

Enquanto ruralistas perdem a paciência com tuíte de Flávio Bolsonaro, provocando o grupo islâmico Hamas, Rodrigo Maia avisou que o projeto de reforma tributária já está sendo costurado na Casa entre ele, líderes da Câmara, parlamentares da base aliada e com o economista Bernard Appy: “O governo será ouvido, mas o texto a ser discutido é o de Appy e Hauly – e não o de Marcos Cintra”.

O deputado Alceu Moreira (MDB-RS), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), teve um embate ontem, terça-feira (2), com os líderes do governo no Congresso e na Câmara, Joice Hasselmann (PSL-SP) e Vitor Hugo (PSL-GO). Ao passar pelos dois, no cafezinho da Câmara, o deputado expôs sua revolta com uma mensagem nas redes sociais postada por Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), em que ele respondia a nota de repúdio do grupo Hamas à abertura de um escritório de negócios pelo governo brasileiro em Jerusalém.

“Quero que vocês se explodam”, escreveu Flávio, que apagou a mensagem horas depois de publicá-la no Twitter.

Segundo informações do jornal O Globo, Joice e Vitor Hugo tentaram acalmar o presidente da frente ruralista, mas ele saiu contrariado rumo a um dos elevadores da Câmara. Desde que Bolsonaro prometeu mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, a Frente Parlamentar da Agropecuária negocia um recuo do presidente. Na viagem a Israel, Bolsonaro anunciou que abrirá apenas um escritório de negócios em Jerusalém.
O Brasil é hoje o maior exportador global de proteína halal - preparada de acordo com as tradições islâmicas. O mercado consumidor do produto reúne 1,8 bilhão de muçulmanos. A preocupação do setor é com uma possível retaliação de países árabes à exportação de carne brasileira.

Ainda nesta última terça-feira (2), durante a votação de um projeto que trata da autonomia dos partidos políticos com infrações na legislação eleitoral, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia demonstrou estar furioso. “Eu vou fazer um apelo ao Plenário. De fato, no texto que está aqui – eu não sei, se todo mundo viu com atenção -, está se propondo que quem recebeu dinheiro público e não prestou contas dispute o processo eleitoral”, disse. “Não dá. Aí também é demais! Se alguém recebeu dinheiro público e não prestou conta, não merece participar do processo eleitoral mesmo”, concluiu Maia.

O deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS) concordou e disse: “Aí vira a casa do Lorega, um larga e outro pega”.

Os deputados aprovaram um destaque do PSB para retirar do texto do projeto essa emenda. O Projeto de Lei 1321/19, então, foi aprovado pela Câmara e será agora analisado pelo Senado.

Nesta quarta-feira (3), o presidente da Câmara deu mais uma demonstração de desacordo com o governo Bolsonaro. Segundo informa a coluna da jornalista Andréia Sadi, Maia teria dito a aliados que a Câmara “já tem sua proposta tributária”, que o governo será ouvido, mas que o texto referência a ser discutido na Casa será o proposto por Appy e Hauly – e não o de Marcos Cintra.
A proposta do governo está sendo costurada pela equipe econômica, tendo Marcos Cintra, secretário da Receita, à frente. E a proposta que o Rodrigo Maia diz que a Câmara vai tocar não é a do governo. Segundo Sadi, Maia disse que a proposta que será votada já está sendo articulada, entre ele, líderes da Casa, parlamentares da base aliada e com o economista Bernard Appy.

Maia lembrou a aliados, ainda segundo Sadi, que Cintra foi às redes sociais recentemente criticar parlamentares, o que dificulta a aceitação de uma proposta dele.

Em março, em meio à crise Bolsonaro-Maia, Cintra escreveu: “Já que os deputados acham que seus pedidos não estão sendo atendidos e não se mostram dispostos a apoiar a Nova Previdência, que a sociedade se articule para cobrar de seus representantes as razões que justificam eles sacrificarem o país e fazerem o povo pagar a conta”.
Posted: 05 Apr 2019 11:34 AM PDT
Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:

Nas três primeiras das audiências em série dadas por Jair Bolsonaro aos presidentes e líderes partidários estes saíram do mesmo jeito que entraram: sem fechar apoio à reforma da Previdência e sem cargos no governo. Marcos Pereira (PRB), Gilberto Kassab e Geraldo Alckmin mantiveram a oposição às mudanças no Benefício de Prestação Continuada e na aposentadoria rural e o último deixou antever que querem mudanças na regra de transição.

Não deve, salvo alguma surpreendente exceção, ser diferente do que vai acontecer nos outros encontros entre o chefe do Governo e a cúpula dos partidos.

Bolsonaro está impedido por seu próprio discurso de avançar para oferecer participação no Governo e os partidos estão inibidos para aceitá-la pelos precedentes – inclusive os presente – de guerra e discórdia internas entre as correntes bolsonaristas.

Hoje, por exemplo, está aberto mais um episódio da série MEC, o Ministério da Exoneração de Cargos, com a queda de mais dois membros da cúpula.

A Folha dá que Ricardo Vélez decidiu anunciar a “revisão” dos livros de História para mudar a narrativa sobre o golpe de 64 com o objetivo de agradar os militares e “se segurar” no MEC. Bernardo Mello Franco, em O Globo, é implacável: “O ministro da Educação, Ricardo Vélez, está rastejando para tentar manter o emprego“.

Só que, ao contrário, os militares, já desgastados com as pataquadas do presidente no assunto, se irritaram com isso.

Será que os “macacos velhos” da “velha política” vão entrar numa arapuca destas?
Posted: 05 Apr 2019 11:27 AM PDT
Por Moara Crivelente, no site Vermelho:

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) faz 70 anos em 4 de abril. Após a catástrofe da Segunda Guerra Mundial, os princípios essenciais à construção da paz consolidaram-se na Carta das Nações Unidas. Entretanto, a OTAN edificou-se como motor da guerra das potências ocidentais contra o Comunismo. Finda a Guerra Fria, o bloco não só sobrevive, mas se expande promovendo a militarização global, ameaças e agressões. Sua presença na América Latina reforça o alerta.

Em 1949, doze países fundaram a aliança norte-atlântica, um ano após a promulgação, pelos Estados Unidos, do Programa para a Recuperação Europeia, o Plano Marshall, que financiaria parte dos esforços de reconstrução pós-guerra da Europa Ocidental e promoveria o comércio entre aquela porção do continente e os EUA. Estudos críticos argumentam que, além de não depender da ajuda estadunidense, a Europa acabou por subjugar seus interesses aos dos EUA, especialmente no contexto da Guerra Fria. E isso se reflete na OTAN.

O seleto clube fundado em 1949 hoje soma 29 membros, com a mais recente integração de Montenegro. O país foi parte da República Federativa Socialista da Iugoslávia, dissolvida em 1992; a seguir, compôs com a Sérvia a República Federal da Iugoslávia e logo a União Estatal da Sérvia e Montenegro, dissolvida em 2006. A integração de Montenegro à OTAN é parte da expansão do bloco militar em direção ao leste, numa política anacrônica e histérica de confrontação. O principal motor da expansão neste sentido é o espantalho chamado “Rússia” criado pelas retóricas inflamadas sobretudo dos EUA e seus parceiros locais para alegar que a Europa precisa erguer defesas contra a sua vizinha —assumindo postura ofensiva “preventivamente”, alegam. Nada mais ilógico, se lido assim, simploriamente.

A aliança passou a englobar países antes parte do Pacto de Varsóvia —ou Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua— de 1955 entre a União Soviética e sete países da região (Albânia, Alemanha Oriental, Bulgária, Hungria, Polônia, República Tcheca e Romênia). Entretanto, a projeção da OTAN a leste não se dá só pela formalização da adesão destes países como principalmente com o que ela acarreta: a disseminação de bases militares e o destacamento de centenas de milhares de tropas, navios, tanques, submarinos e armamentos —inclusive nucleares— além da frequente realização de manobras de guerra na região.

Adesão e orçamento ofensivo

Segundo os parâmetros atuais do bloco, para novas adesões, o país convidado deve estar geograficamente localizado na Europa, ser uma “democracia” e se comprometer a contribuir com a segurança da área norte-atlântica. Sequer é preciso questionar o que fazem ali países governados por fascistas e reacionários autocráticos Polônia e Turquia —por sua vez considerada parte centro-asiática, parte europeia, para propósitos convenientes como a integração à OTAN, mas não para a integração à União Europeia— e eventualmente a Ucrânia, que desde o golpe de 2014 está de baixo da asa do bloco. Por isso, deve-se questionar seus próprios parâmetros democráticos e a que servem.

É no segundo passo de integração à OTAN que a intrusão fica mais clara: o país em processo de admissão deve cumprir um Plano de Ação para a Adesão, com “consultoria” para “reformas” na área da Defesa e das Forças Armadas e em áreas políticas e jurídicas. Mesmo assim, a adesão deverá seguir sob avaliação, pendente da ratificação por todos os membros. E outros passos se seguem.

A essa interferência consentida pelos governos de turno nas soberanias nacionais somou-se mais recentemente o seu compromisso disparatado de dedicar no mínimo 2% do PIB dos países ao setor militar, assumido em 2014, mas cumprido por apenas alguns; mesmo assim, em 2018 Trump sugeriu dobrá-lo para 4% dos PIBs. Pelo não-cumprimento dão-se as repreensões vexatórias dos EUA aos restantes membros. Trump, durante as cúpulas e em sua carta enviada em 2018 a alguns líderes, solta frases como “têm que pagar” ou “alguns países estão tirando vantagem dos EUA”, num espetáculo do ridículo.

Em 2017, os membros da OTAN gastaram USD 900 bilhões no setor militar, 52% do gasto mundial de USD 1,739 trilhão, ou 2,2% do PIB global; apenas os EUA gastaram cerca de USD 610 bilhões em 2017, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), e cerca de USD 700 bilhões em 2018, segundo a OTAN. Os números mostram, portanto, que os EUA são o principal motor da militarização planetária. Estes têm composto a lista de motivos —onde se destaca a oposição à guerra e às agressões a outras nações— para movimentos populares impulsionarem campanhas pela retirada de seus países da aliança militar e pela sua dissolução.

Ameaças, agressões e estado de guerra

É preciso ter claro: a OTAN é uma “máquina de guerra imperialista” e não o pacto defensivo que seus líderes alegam, como tem denunciado o Conselho Mundial da Paz (CMP), de que Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) é membro. Sua atuação na ex-Iugoslávia, com 78 dias de bombardeios em 1999, nas duradouras guerras e ocupações do Afeganistão e do Iraque e na ofensiva contra a Líbia, em 2011, que provocou a desintegração de um dos países africanos mais prósperos até então, são algumas amostras.

Através da OTAN, as potências mundiais criam pretextos para intervir em todo o planeta, direta ou indiretamente. Alegando intenções humanitárias ou preocupações securitárias, promovem a militarização e asseguram uma presença ofensiva em diversas regiões, ameaças claras à soberania das nações. Parte da academia e profissionais diplomáticos participaram direta ou indiretamente desse projeto justificando e legitimando intervenções com conceitos como a “responsabilidade de proteger” ou a denominação de ofensivas como “intervenções humanitárias”. É notável como nestes projetos conceituais ditos humanistas, apenas algumas soberanias estão feitas reféns.

Com estes pretextos, e alegando responder a novos desafios securitários, o bloco militar tem expandido sua área geográfica de atuação e seu quadro de ação com novos conceitos estratégicos formulados para justificar a sobrevivência de uma aliança anacrônica e ofensiva. A revisão do conceito estratégico mais reveladora do expansionismo ofensivo da OTAN foi adotada em 2010, na cúpula de Lisboa. Ficou também patente o repúdio das forças da paz a esta aliança, com protestos massivos.

A OTAN na América Latina

Para os que ainda não se enquadram nos pré-requisitos para a adesão, há outras modalidades de “cooperação” com a OTAN: as parcerias extrarregionais já incluem países como Israel, Colômbia - o primeiro da América Latina, oficialmente desde 2017 - e, se os planos de Donald Trump e Jair Bolsonaro alegremente anunciados na visita de Bolsonaro a Washington em março caminharem, também o Brasil. Com a crescente tensão provocada pelos EUA e seus aliados latino-americanos, entre golpistas e reacionários, e as ameaças de agressão à República Bolivariana da Venezuela, tais programas fazem soar alarmes para a eventualidade de um devastador conflito regional. É a reversão completa, como têm denunciado as forças progressistas e democráticas, de um projeto recente, e que não pode definhar, de integração regional soberana e solidária baseada na cooperação. A presença da OTAN na América Latina impõe uma barreira a este esforço.

Os Estados Unidos intervêm historicamente na região em uma constante reinterpretação da Doutrina Monroe, do século XIX, se autoproclamando o guardião e governante de todo o continente. Ao longo das décadas de 1950 a 1970, promoveram golpes militares para derrubar governos progressistas que ousaram contrariar sua agenda defendendo os interesses de suas nações. Hoje, a região tem cerca de 80 bases militares estrangeiras, sobretudo estadunidenses, mas também britânicas e francesas. A mais conhecida é a base militar dos EUA em Guantânamo, território cubano usurpado, onde os EUA mantêm também uma instalação de detenção hedionda para a prisão ilegal de pessoas que sequestram, especialmente do Oriente Médio, e detêm sem julgamento, em segredo, cometendo violações graves como a tortura.

Os países latino-americanos com mais bases militares são a Colômbia e o Peru, com cerca de 10 cada. Mais recentemente o argentino Mauricio Macri prometeu mais bases militares aos EUA, uma na região próxima a uma das maiores reservas de água do mundo, o aquífero Guarani, na fronteira argentina com o Brasil e o Paraguai.

Após os golpes contra a democracia de que de forma indireta participaram, os EUA agora têm o regime que queriam no Brasil. Bolsonaro foi a Washington para, como se precisasse, assegurar Trump de sua subserviência. Além de outras entregas, assinou o acordo, supostamente revisado, para conceder aos EUA o uso da base para lançamentos de satélites em Alcântara. O acordo foi rejeitado nos governos Lula e Dilma devido às condições intrusivas e arbitrárias que os EUA impunham, e que o Cebrapaz denunciou.

Bolsonaro também disse que via com bons olhos a eventual instalação de uma base militar dos EUA no Brasil, também inimaginável nos governos anteriores. E, quando se trata da OTAN, o Brasil poderia se tornar um parceiro oficial como a Colômbia, consolidando o principal objetivo do governo de Bolsonaro para a política externa, que é estar ao serviço dos EUA. Ou, quem sabe, disse Trump, poderia até se tornar membro, afinal, o que é mais uma rasura no tratado norte-atlântico para promover a expansão da OTAN?

A militarização está em ascensão na América Latina e não há uma potência mais claramente por trás disso do que os Estados Unidos, que têm na OTAN sua principal ferramenta beligerante. É da natureza das suas políticas agressivas atropelar o direito internacional e os princípios estabelecidos pela Carta das Nações Unidas como passos fundamentais para uma nova ordem mundial após a catástrofe da Segunda Guerra Mundial.

O movimento da paz tem alertado que o mundo está diante de uma encruzilhada que pode levar a consequências imprevisíveis. Destacam neste percurso a deslegitimação das instituições multilaterais e a relativização dos princípios e normas ou seu completo desrespeito, pelas potências imperialistas, nomeadamente, os EUA.

Por isso, o engajamento dos movimentos populares e das forças democráticas vem se fortalecendo em todo o mundo na demanda pela dissolução deste bloco militar ofensivo. Há poucos dias, o Conselho Mundial da Paz realizou ações em Washington com a participação de membros estadunidenses e internacionais, no quadro do 70º aniversário da OTAN.

Em todo o mundo, os membros do CMP e de entidades amigas realizam ações para condenar as guerras, agressões, a desestabilização e a militarização planetária que a aliança promove, sob o mote da campanha do CMP, “Sim à Paz! Não à OTAN!” Não dá para ser mais clara a contradição fundamental entre ambos os projetos e o que está em jogo é decisivo: do triunfo da luta pela paz depende não só a soberania dos povos e das nações, mas a própria sobrevivência.

* Moara Crivelente integra a Direção Executiva do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) e é doutoranda em Política Internacional e Resolução de Conflitos

* Outra versão deste artigo foi apresentada em um painel paralelo à Conferência Internacional “Paz e Prosperidade contra as Guerras e a Pobreza”, em março de 2019 em Belgrado, Sérvia, no 20º aniversário da agressão da OTAN contra a ex-Iugoslávia.

* Fonte: Cebrapaz.
Posted: 05 Apr 2019 11:09 AM PDT
Por Eduardo Guimarães, em seu blog:

Confirmou-se mais uma previsão sobre Bolsonaro. Nova pesquisa Atlas informa que a rejeição ao seu governo (ruim e péssimo) ultrapassou a aprovação (bom é ótimo). É a terceira pesquisa consecutiva a mostrar forte queda da aprovação ao governo Bolsonaro, mas a primeira a mostrar rejeição maior que aprovação. Começou o inferno astral do governo fascista.

No mês passado, as pesquisas Ibope e XP/Ipespe já revelavam forte queda de Bolsonaro, de 15 pontos percentuais de janeiro para cá.



Agora, uma terceira pesquisa mostra verdadeiro derretimento da imagem do governo. Trata-se da pesquisa Atlas Político, que sempre antecipa tendências. Foi publicada pelo jornal espanhol El País.



A pesquisa mostra sinais preocupantes para o Governo Bolsonaro e para Sergio Moro. A maioria dos entrevistados, 68,9%, acredita que a criminalidade está aumentando, apesar do discurso linha-dura do ministro da Justiça e do presidente da República. E a maioria é contra a liberação do porte de armas.




Mas é a aprovação ao governo Bolsonaro que está derretendo. Em fevereiro, 38,7% consideravam o governo bom ou ótimo; em março, 36,1%; em abril, 30,5%. Já a rejeição subiu de 22,5% em fevereiro para 27,1% em março e 31,2% em abril. E também é muito ruim para Bolsonaro o percentual de avaliação regular, de 29,6% em fevereiro para 32,4% em abril.



Como a avaliação “regular” subiu junto com a avaliação “ruim/péssimo”, nota-se que muitos deixaram de considerar o governo bom ou ótimo e passaram a achar ou ruim/péssimo ou “regular”, de forma que é lícito somar ruim/péssimo a regular, o que perfaz uma avaliação negativa para Bolsonaro de nada mais, nada menos do que 63,6%…

Até o site bolsonarista “O Antagonista” se rendeu à situação dramática de um governo que mal chegou aos primeiros 90 dias.



Bolsonaro, a partir de agora, pode esperar vida dura no Congresso. E pode dar adeus à reforma da Previdência. Vai ter que rebolar para fazer o Congresso aprovar uma medida amplamente repudiada pela esmagadora maioria dos brasileiros e ainda por obra de um governo mais rejeitado do que aprovado.

Enquanto isso, Bolsonaro continua praticando toda sorte de asnices. Acaba de enviar carta malcriada à ONU criticando a entidade por ter recriminado a recomendação do governo para que os militares comemorassem as torturas, assassinatos, estupros e corrupção desbragada da ditadura militar.

O organismo multilateral limitou-se a comentar que é incomum a manifestação de um país falar em nome do presidente da República em vez de falar em nome do Estado brasileiro. Mais um vexame internacional a que esse idiota submete o Brasil. Por sorte, pelo andar da carruagem logo, logo nos veremos livres dele.

Confira a matéria em vídeo [aqui].
Posted: 05 Apr 2019 11:01 AM PDT
Por Ricardo Kotscho, em seu blog:

Jair Bolsonaro está cumprindo o que prometeu: a desconstrução do Brasil segue em ritmo desembestado.

Parece que o país foi invadido por um exército de extermínio para não deixar pedra sobre pedra.

Num dos seus primeiros gestos de insanidade, o capitão alucinado expulsou do país os médicos cubanos porque eram comunistas (de direita ou de esquerda?).

Manchete da Folha desta quinta-feira conta o que aconteceu depois da invasão dos vândalos em Brasília:

“Em três meses, Mais Médicos tem 1.052 desistências após saída de cubanos”.

O programa Mais Médicos do governo de Lula agora virou o Menos Médicos de Bolsonaro, que está implantando também o Menos Empregos, Menos Casas, Menos Radares, Menos Comida e Menos Vergonha na Cara.

Sem nenhum plano de governo ao tomar posse, a não ser acabar com a Previdência pública, o comandante do bolsonarismo em marcha resolveu detonar todos os programas sociais dos governos petistas, um a um.

As obras do Minha Casa Minha Vida estão todas sendo paralisadas por falta de pagamento, e multidões de miseráveis dormem nas calçadas das cidades.

A violência grassa por toda parte dentro do programa Mais Mortes, com as polícias liberadas para matar. E o plano Moro ainda nem entrou em vigor.

Sem radares e lombadas, que o capitão mandou tirar das estradas, muito mais gente vai morrer, mas estamos livres das multas.

Se algum guarda multar, será demitido, como aconteceu com o fiscal do Ibama que pegou Bolsonaro em flagrante pescando onde era proibido.

Só quem está com o emprego garantido é aquele inacreditável ministro da Educação, o colombiano que não sabe falar português, mas vai mudar os livros didáticos, para defender o Golpe de 64.

Para onde se olha, é só terra arrasada.

Em nome da “nova política”, Bolsonaro vai receber hoje os presidentes dos partidos que ele detonou na campanha: Jucá, Kassab, Alckmin e companhia bela.

Assim segue o baile de mascarados, ao som dos latidos nas redes sociais, que agora querem comprar briga com o Hamas e expulsar russos e chineses da Venezuela.

Com o Itamaraty em chamas e o chanceler caçando inimigos por toda parte, o próximo alvo é o IBGE dominado por comunistas que não entendem de estatísticas.

Daqui a pouco, vai faltar general para controlar tudo, de acordo com os gostos do capitão afastado do Exército aos 33 anos, por indisciplina e problemas de saúde mental.

Quem está se divertindo muito em Brasília é só o velho Centrão de Eduardo Cunha, assistindo de camarote ao massacre de Paulo Guedes e as trombadas dos indigentes “articuladores políticos” do governo, comandados por majores, coronéis, generais e delegados, e um sujeito muito esquisito chamado Onyx Lorenzoni.

Mercado, mídia, bancadas do boi, da bíblia e da bala, e todas as guildas que bancaram e levaram Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto, já estão todos perdendo a paciência.

Assim também já é demais!, devem estar todos pensando, depois que a nova ordem decretou que o nazismo é invenção da esquerda e a terra é plana.

Só falta o chanceler acusar o Papa Francisco de ser ateu, além de comunista, é claro.

E ainda nem chegamos aos 100 dias da lua de mel, até aqui uma eternidade de pesadelos.

Como tenho escrito, isso tem tudo para não acabar bem.

De que forma e quando vai acabar, ninguém sabe.

Façam suas apostas.

Vida que segue.
Posted: 05 Apr 2019 10:33 AM PDT
Por Altamiro Borges

O pornô-deputado Alexandre Frota (PSL-SP), que a cada dia que passa confirma a sua mediocridade na Câmara Federal e se enrosca ainda mais no laranjal de Jair Bolsonaro, sofreu um novo abalo nesta semana. A revista Época publicou uma matéria bem picante e corrosiva sobre o ator-oportunista, que foi eleito graças à onda fascistizante que devastou o país nos últimos anos. Intitulado “Empresa pede bloqueio de salário de Frota por calote em boate gay”, o texto do repórter Eduardo Barretto mostra a que nível deplorável chegou o parlamento nativo. Vale conferir a longa e detalhada reportagem:

*****

Empresa pede bloqueio de salário de Frota por calote em boate gay

Em 2006, Nice Pereira era uma empresária brasiliense que não tinha do que se queixar. Sua empresa havia decolado e era sinônimo de cultura. Ostentava um currículo com produções de shows de Gilberto Gil, Hermeto Pascoal e Zizi Possi. A Agita Cultural também havia sido representante exclusiva na cidade de grandes sucessos do cinema. De Harry Potter a O Senhor dos Anéis, passando por Carandiru e O Homem Que Copiava. Mas, longe das grandes plateias, ela farejou uma oportunidade. As paradas gays estavam se consolidando. Bingo. Resolveu, então, deixar de lado por uma vez os figurões da indústria e apostar nesse público. Faria uma “Festa do Orgulho Gay em Brasília”. A estrela seria Alexandre Frota, que atuava em filmes pornôs.

Frota assinou um contrato com cachê de R$ 2 mil – metade paga logo após a assinatura, metade pouco antes da festa –, fora diárias e passagens de São Paulo. Ele topou fazer no mínimo uma hora e meia de show na “Oficina Dancing Bar”, a 15 quilômetros do Congresso Nacional. Mas Frota não foi. A empresária se irritou e reclamou à Justiça danos materiais e morais – só conseguiu sentença favorável para o primeiro pleito. Desde então, corre um processo no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) contra o hoje deputado do PSL de São Paulo. Até mês passado, quando a Câmara dos Deputados recebeu um ofício da corte pedindo detalhes do salário do parlamentar, para avaliar se mandava penhorar o valor, ele ou qualquer representante legal jamais haviam se manifestado nos autos. O montante cobrado pela Justiça saltou com o passar dos anos. De R$ 30 mil para R$ 80 mil. O Alexandre Frota que consta do processo é um devedor contumaz, que o tribunal tinha dificuldades em localizar, assim como seus bens.

O TJDFT custou a comunicar Frota sobre o início do caso, em meados de 2007, um ano após o contrato que ele não respeitou. A Justiça mandou cartas a quatro endereços dele em São Paulo, sem sucesso, incluindo um em que moraria sua irmã. A defesa de Nice Pereira solicitou, então, que o procurassem na TV Record, onde ele trabalhava. Detalhou dia e horário em que ele participava da gravação de um programa. Nem assim o oficial de Justiça o encontrou. Seis meses depois da primeira tentativa, o oficial recebeu uma ligação de um suposto advogado de Frota, informando um endereço onde o intimado estaria. Só assim conseguiu a assinatura de Frota. Ele ficaria mais de uma década sem fazer qualquer comunicação no processo. Não indicou advogados nem defensores públicos, tampouco fez defesa própria. Deixou o caso correr. A saga para a citação da parte, um procedimento comum em todo processo, era o prenúncio de que a procura pelo dinheiro devido seria dura.

No meio de 2008, a juíza Fabriziane Figueiredo Stellet condenou Frota a pagar cerca de R$ 30 mil, por danos materiais. Foi o valor pedido pela defesa, sendo metade o que Nice Pereira deixou de lucrar, e metade os danos que ela alega ter sofrido. Como Frota não se manifestou, o processo teve “julgamento antecipado”. A defesa de Pereira deflagrou uma caça frenética aos bens de Frota, para tentar fazer cumprir a decisão judicial. Alegou ao TJDFT que ele se “muda constantemente de endereço residencial”, mas é “notoriamente conhecido de todo brasileiro que assiste televisão”. Em 2009, a Receita Federal informou à corte as declarações de imposto de renda de Frota de 2006 e 2008 (não encontrou a de 2007). Não havia bens passíveis de apreensão.

Ainda em 2010, a juíza Paloma Fernandes Rodrigues Barbosa autorizou o bloqueio de 10% do salário de Frota na TV Record. Os depósitos eram baixos e duraram pouco, já que meses depois Frota não trabalhava mais na emissora. O mesmo aconteceu com o SBT. Os depósitos não chegaram a R$ 20 mil. A dívida já alcançava R$ 45 mil. O advogado de Pereira, Igor Costa de Sousa, indicou como outros locais de trabalho, para tentar bloquear salários de Frota, a Rede Brasil e até o Corinthians, onde Frota jogava futebol americano. Uma editora que publicaria um livro de Frota também foi notificada. Com um detalhe: notícias davam conta de que o lucro obtido com a obra autobiográfica Identidade Frota – A estrela e a escuridão iria para a caridade. A defesa chiou e acusou Frota de estar “fazendo cortesia com o chapéu alheio, já que não paga os seus credores, opondo-se maliciosamente à execução”.

Reiteradamente, o advogado de Pereira anexou ao processo matérias sobre a carreira de Frota. Uma, do próprio site oficial do ator, tinha a manchete “Alexandre Frota é ator, diretor e conselheiro na Record”. As respostas das companhias não eram animadoras. De pronto, alegavam que Frota não era funcionário. No máximo, citavam empresas relacionadas a Frota, com as quais os contratos eram firmados. “O Sr. Alexandre Frota de Andrade participa apenas do time de futebol americano vinculado ao Corinthians como atleta não profissional (‘amador’), não recebendo nenhum rendimento, salário, remuneração ou qualquer outra contrapartida”, escreveu o Corinthians em 2013. Também houve tentativas fracassadas de que o pagamento fosse feito por meio de apreensão de carros de Frota. Em uma consulta ao Detran de São Paulo, constava que dois carros de Frota tinham mais da metade de seu valor em multas e dívidas. Suas contas bancárias tampouco tinham movimentação. E assim o imbróglio seguia.

Em 2018, surgia um novo Frota, com imagem colada ao moralismo de Jair Bolsonaro, Joice Hasselmann e a trupe do PSL. “A sua luta é a minha luta. Pelo fim da corrupção!”, bradava no horário eleitoral. Deu certo. Nice Pereira achou que também teria uma vitória. No dia em que ele foi eleito deputado federal, ela vibrou, esperançosa. “O salário de deputado vai cair na conta de funcionário público, não tem como fugir”, afirmou a ÉPOCA. Era sua chance de, dez anos depois, receber sua dívida, que passava dos R$ 80 mil. No começo deste ano, a juíza Priscila Faria da Silva concordou em oficiar a Câmara dos Deputados tão logo Frota tomasse posse. Faria citou que o salário bruto de um deputado passa dos R$ 33 mil, e “é de conhecimento público que parlamentares recebem outras verbas indenizatórias de caráter não alimentar que fazem com que sua remuneração exceda a quantia equivalente ao limite de 50 salários mínimos prevista na legislação”. A juíza se mostrava disposta a autorizar o bloqueio dos vencimentos se a Câmara dissesse que Frota ganhava, na prática, mais de R$ 50 mil, com os auxílios. A Casa respondeu que o rendimento se limitava aos R$ 33 mil, fechando o caminho para o bloqueio, mas a surpresa ali era outra: o primeiro contracheque de Frota como deputado já tinha 30% bloqueado, por uma condenação judicial de São Paulo. Foi só aí que advogados de Frota, já parlamentar federal, entraram no caso de Brasília.

O contracheque de R$ 33.743 brutos de fevereiro tinha um “desconto judicial” de R$ 10.128,90. Com abatimentos de impostos e seguridade social, Frota auferiu R$ 11.990,83 naquele mês. O embargo foi determinado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo no começo deste ano, por causa de uma dívida de Frota com o Banco Econômico. A defesa anexou o caso ao processo de Brasília, para defender a manutenção do salário do deputado. Alegaram que o bloqueio de seu soldo “prejudica imensamente sua subsistência e de toda a família (esposa, enteado e dois filhos biológicos)”. Frota “não possui outra fonte de renda e é destituído de patrimônio e rendimentos complementares, com exceção do seu salário como deputado federal”, segue a defesa. Os advogados chegam a admitir que Frota tem outros credores, com dívidas mais urgentes do que um banco falido, em alusão ao Banco Econômico. “Não é possível identificar quais elementos o juiz levou em consideração para crer que o agravante poderia sobreviver com apenas 70% de seu salário de deputado federal”.

“Não vou desistir. Que isso fique bem claro. Vou recorrer até o STF se for preciso”, afirma Nice Pereira, quase 13 anos após a frustrada festa do orgulho gay de Brasília. Ela diz que o calote de Frota trouxe prejuízos. Perdeu o sócio e saiu do circuito de grandes eventos. Trabalha a “duras penas”. Descarrega indignação com o deputado. “Ele tirou dinheiro de onde até agora? Ganhava da mãe dele? Quem sustentava? Conta no nome dele, ele tem, só não tem movimentação. Ele usava um laranja, com certeza”, diz. Ela nega que queira prejudicá-lo, ou que torça contra o deputado. “Não tenho interesse nenhum em prejudicá-lo. Só quero meu direito. Aliás, quero que ele se dê muito bem, e cumpra com as obrigações, incluindo pagar a quem ele deve. É pura falta de interesse e irresponsabilidade”. Ela avisa a estratégia jurídica: seguirá pedindo ao TJDFT que bloqueie o que resta do salário dele, por volta de R$ 12 mil. “Ele ainda recebe R$ 12 mil líquidos. Por que não? Ele sempre viveu sem esse salário a vida inteira. E R$ 12 mil é muito dinheiro. Para o brasileiro, é. Para mim, é”.

Nice Pereira se diz amargamente arrependida por ter feito negócio com Frota. “Era uma oportunidade para se ganhar dinheiro por conta da Semana Gay. Como todo empresário, você vê o lucro. Mas só tive prejuízo”. Ela conta que o contato com ele para assinar o contrato foi “de primeira”. E diz que viveu momentos de angústia no dia da festa. “Teve muita briga, teve gente que tivemos que liberar, porque não foi para ver o gogo dancer substituto que arranjamos de última hora, foi para ver Frota. E era a primeira vez do Frota numa boate aqui. Todos queriam vê-lo. Ele estava muito bonito naquele tempo”.


*****

Como demonstra a reportagem, Alexandre Frota – que foi eleito no ano passado “com imagem colada ao moralismo de Jair Bolsonaro” e que se traveste de paladino da ética – é um caloteiro profissional. Ele coleciona inúmeros processos e só não foi punido de forma mais rigorosa devido à seletividade do Judiciário nativo, que evita tocar nas “celebridades midiáticas” – inclusive nas mais medíocres. Enquanto não é “encontrado” pelos oficiais da Justiça para pagar o que deve, o pornô-deputado segue com a sua carreira política baseada em fake news, agressões fascistas e negociatas de cargos nos bastidores.

No mês passado, o oportunista voltou ao noticiário ao protocolar uma ação criminal na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o ator José de Abreu, que se "autoproclamou" presidente da República para ironizar o “capetão” Jair Bolsonaro. Pelas redes sociais, o valentão de araque – que sempre recua – informou que entrou com “representação criminal contra esse traste”. Sem provas, o farsante também postou que José de Abreu teria cometido irregularidades no uso da Lei Rouanet. A Justiça até poderia aproveitar a oportunidade para pedir o bloqueio do salário do pornô-deputado pelo antigo calote na boate gay.

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25/6 - Suspeição de Moro não anula toda a Lava Jato, diz jurista

FONTE: https://www.terra.com.br/noticias/eventual-suspeicao-de-moro-nao-anula-toda-a-lava-jato-diz-jurista Suspeição de Moro não  anu...